lunes, 17 de abril de 2023

TREASON

 

 

 

 

                                              

 

Como sentir amor, por quem te atraiçoa, essa era a pergunta que se fazia, ali no hospital, depois da operação no braço.  Tinham lhe retirado uma bala que tinha ficado presa no musculo do braço, normalmente essa bala teria entrado e saído, mas ficou presa entre o osso e musculo.

Ao mesmo tempo depois dos exames rápidos para a operação, o médico veio falar com ele, fez uma série de perguntas, sobre sua saúde, como se sentia, ele ficou com a pulga atrás da orelha, principalmente quando lhe perguntou se tinha companheiro fixo.

Sua resposta foi, como, o que quer dizer com essa pergunta?

Se tens companheiro fixo.

Respondeu que sim depois de perguntar se tudo isso seria confidencial.  O que morreu no tiroteio, ele tinha levado a bala justamente, porque tinha tentado proteger seu companheiro.

Aparentemente ninguém sabia que os dois tinham um relacionamento, nunca tinham vivido juntos, Tony tinha sido casado, tinha um filho desse casamento, sua mulher tinha se mudado para outra cidade.   Então queria liberdade.

Quando disse isso, o médico mandou imediatamente, já que o corpo ainda estava no necrotério fazer uma autopsia, principalmente exame de sangue.

Quando voltou a falar com ele, ficou pasmo, antes queria ter certeza, seu companheiro Tony tinha Aids, o senhor também, nunca tomaste cuidado.

Tinha sido companheiros durante cinco anos, Tony tinha sido seu mentor, ele recém-saído da academia, depois de anos como Policia Militar, trabalhavam os dois em investigações, um dia por acaso, logo no final do primeiro ano, aconteceu entre eles algo, no principio tomava cuidado, mas como Tony jurava que não tinha ninguém em sua vida, foi relaxando.

Por aí, acontece as coisas.  Nunca notaste nada diferente nesse tempo?

Não se preocupe, que no teu caso, isso parece ser recente, faremos mais provas, mas todo cuidado é pouco, hoje em dia o tratamento é efetivo, mas se vais fazer sexo com outra pessoa, é bom avisar.

Tinha as chaves da casa do Tony, mas nunca tinha ido lá, sempre era na sua.

Estava com a pulga atrás da orelha, quando perguntou ao chefe por que ninguém tinha reclamado o corpo dele, comentou que a ex-mulher disse que não tem dinheiro para isso, que no fundo são sua única família, nem ao enterro ela vira com os filhos, faremos uma cerimônia policial, nada mais.

Isso, lhe deixou preocupado, já tinha feito os exames, realmente fazia muito pouco tempo que tinha deixado de usar camisinha.   Tony na cama as vezes podia ser frustrantes, já pareciam aqueles casais que fodem uma vez ao mês, que era mais ou menos o que acontecia, se comportava como passivo, com aquele corpo imenso que tinha, os dois tinha a mesma altura, 1,80m.   Então ele esperava outro comportamento, mas nos ultimo ano, chegava na cama, depois de uns beijos, colocava a bunda para cima, pedia que lhe entrasse profundamente.

Depois se levantava as vezes, ia embora, já não ficava mais para dormir.

Resolveu como estava de baixa, pelo ferimento, ir até a casa dele.

Como detetive, começou a olhar tudo, no armário na parte mais escura, tinha um baby doll, de tamanho grande, numa caixa guardada em cima, vários tipos de penes de goma, bem como de metal.  Numa outra, coisas de sadomasoquismo.  Ficou gelado, como era possível isso, se nas conversas que tinham ele achava isso um absurdo.

Ficou sentado no sofá da sala, olhando pela janela, uma bela vista do Rio Hudson.  Como era possível essa segunda vida.  Basicamente estavam todos os dias juntos, durante as jornadas, as vezes saiam com os amigos para uma cerveja, claro no último ano, ele andava estranho, achava que tinha a ver com seu divórcio, bem como o fato de não ter a guarda compartida do filho, ou seja teria que se deslocar até a cidade aonde vivia agora sua mulher.  Mas normalmente ela não permitia que ele visse o garoto.

Os conhecia, o garoto, era fantástico, lhe fazia mil perguntas, uma vez lhe perguntou por que não as fazia ao seu pai, lhe respondeu sério, quando está em casa, normalmente está dormindo.

Quando se divorciou, achou estranho, porque ele já tinha esse apartamento, simplesmente levou suas roupas para lá.   Quando lhe perguntou por quê?

Respondeu que vivia longe, que as vezes preferia dormir ali na cidade.

Encontrou sem querer, encaixada na almofada do sofá, uma agenda de contatos, começou a passar, todos eram nomes, exóticos, com uma anotação ao lado de um nome masculino. 

Desconfiou imediatamente que eram nomes de travestis.  Se lembrou que as vezes quando faziam turno de noite, alguns lugares que ele gostava de parar para comerem, eram lugares frequentados por travestis, que ele diziam que eram seus informantes.

Todos tinham número de celular.  Chamou o primeiro da lista, quem atendeu foi uma enfermeira, disse o nome do hospital, que a pessoa estava ingressada em contagiosos, com Aids.   Foi até lá.   Se identificou, lhe deixaram passar, como homem era bonito, moreno, forte, sorriu triste para ele, que circunstâncias nos falamos verdade?

Perguntou se conhecia Tony?

Claro que sim, sei quem eres, tinha um relacionamento contigo, comecei como seu informante de qualquer coisa suspeita que visse pelas ruas, ou tipos com os quais me cruzava. Me desculpe que te diga, cada vez que nos encontrávamos, me levava ao seu apartamento para fazer sexo, ele queria o que tinha no meio das pernas, que não é pequeno, mostrou para ele. Chegava a uivar de prazer, dizia que isso não podia fazer contigo, tampouco com sua mulher.

As vezes queria colocar minhas roupas, para fazer sexo.  Mas ultimamente queria coisas de sadomasoquismo.  Ia comprando coisas que via pela internet, queria experimentar.

Nunca falava da sua vida pessoal muito, sim de ti.   Dizia que eras um homem muito sério, que te amava, mas que não sabias satisfaze-lo realmente, que ele sempre tinha gostado de sexo pesado, coisas diferentes.

Não sei se pegou ou não Aids de mim, mas eu tomava cuidado, soube depois que fazia isso com todos que eram seus informantes.   Um dia lhe perguntei por que a maioria de seus informantes eram travestis.

Me respondeu que assim matava dois coelhos de uma vez, ao conversarem faziam sexo. Fui conhecendo alguns, todos diziam o mesmo, que ele gostava de violência, que queria ser agredido, que se aproveitavam dele para soltarem o que tinham dentro, a raiva da polícia.

Que isso vinha acontecendo a muitos anos, mas que ele levava como uma vida separada.

Lhe deu uma série de contatos, o mais recente é um rapaz que chegou do interior, andava nas drogas, mas segundo o Tony tinha um caralho imenso, que gostava também de violência, esse esteve internado aqui alguns dias, mas escapou, pelo que sei foi encontrado morto, uns dois dias antes do Tony morrer.

Creio que os dois tiros que levou, eram da arma do Tony, pois escutei dizer que o Tony estava furioso, pois lhe tinha passado aids, por causas de seringas contaminadas.

Lhe deu o nome do rapaz, ele foi até a delegacia que cuidava do caso, disse que pesquisava a pedido da família que vivia no interior.

Tudo que sabiam, era que a arma que o tinha matado, eram de policial, mas não sabiam de quem.   Esse rapaz era muito jovem, tinha uns 22 anos, se encontrou muita droga no corpo, bem como tinha aids, algumas marcas já começavam a aparecer.

Ficou de pedra, podia ser de aí, por aonde Tony tinha se contaminado, talvez ele o tivesse assassinado, pois andavam muito estranho nas últimas semanas.

Voltou ao médico, lhe contou o que tinha descoberto.   Este disse que não tinha mencionado, mas que tinha descoberto nos pés do Tony, marcas de picaduras de seringas, devia estar se injetando nos pés, para não serem visíveis.

Puta que pariu, pensou, mais essa agora.  Ou seja o Tony que ele amava, não passava de uma fachada, além de descobrir que era uma merda na cama.

Começou a fazer o tratamento, mas antes resolveu falar em particular com seu chefe, pois se o assunto vazava de outra maneira, seria pior.

Quando ia pedir para falar com ele, este o chamou.

Achou estranho, mas foi a sua sala, mandou entrar, fechar a porta, que o assunto não saísse dali.

Contou que tinham recebido o relatório da autopsia do Tony, o que tinha descoberto, bem como ao analisarem sua arma, esta matou uns dias antes um travesti.  Falou das drogas, que ainda circulavam pelo seu sangue.  O filho da puta se injetava nos pés, assim ninguém poderia ver.

Realmente, quando faziam sexo ultimamente, não tirava as meias.

Não notaste nada?

Foi franco, disse que tinham um relacionamento com ele, que este tinha transmitido Aids para ele.  Ainda não sei o que fazer, estou fazendo um tratamento, o médico disse que tenho sorte, pois as medicinas hoje, são eficazes, se o senhor quiser, pedirei transferência para outra delegacia.

Nada disso, eres um dos melhores homens que tenho, mas quero que tudo fique na surdina, não fale do assunto do Tony, se alguém te perguntar muito, melhor não comentar.

Falar nisso a ex-mulher dele, pediu a pensão para seu filho, claro já foi autorizado, mas a notei estranha, inclusive pediu teu número de celular, por isso não estranhe se te chama.

Se passaram dois meses, ele já estava na ativa outra vez, agora tinha uma companheira, se davam bem. 

Saia de serviço, quando recebeu uma chamada da ex-mulher do Tony, estava na cidade, precisava falar com ele, marcara num bar perto de sua casa.

Quando viu os dois, se balançou, o garoto era a cara dela, estava grande para sua idade, se abraçaram, ele beijou a cabeça do garoto, que o olhava com admiração.

Ele sabia que ela era uma mulher direta aos assuntos, uma das coisas que o Tony reclamava.

Você sabe que conheci o Tony no orfanato que vivíamos, por isso não tenho família, aqui só conheço a ti, o chefe de polícia, bem como Rogue Smith, um amigo do orfanato, que hoje é médico, ele é oncologo, para que entendas.

Meu problema é que não tenho seguro médico, perdi o da policia quando me divorciei do Tony, queria falar contigo para me ajudar, tenho dois tumores na cabeça, não sabem derivado de que, levaram muito tempo para descobrir, até que tive coragem de procurar o Rogue.

Seguinte problema, não tenho com quem deixar a guarda do Tony Junior, se me acontece alguma coisa.  Não posso pedir ao chefe de polícia pois ele tem uma família grande.

Nisso ele chegou, me desculpe disse ela, mas marquei com os dois, são os únicos que conheço.

O chefe já tinha feito sua sindicância, não encontrava solução, pois o sistema médico deles ultimamente era estrito.

Rogue, consegue fazer sua parte grátis, mas tem outras coisas que ficam impossíveis.

Sua cabeça explodiu nesse momento, as vezes ele era assim, entendia o Tony, porque ele tampouco tinha família.   Seus pais tinham morrido num acidente, quando ele tinha a idade do filho do Tony, foi criado por uma tia, que fez tudo por ele, apenas viu sua graduação na Polícia, pois em seguida faleceu justamente por isso, por não ter um seguro médico para pagar seu tratamento de Câncer.

Eu te ajudarei no que for possível, talvez a solução, seja um casamento fictício, eu sou solteiro, podemos fazer isso chefe?

Sim claro, inclusive fica mais fácil para teres a guarda do Junior.

Isso é claro se vocês dois quiserem.

Ficou surpreso com a maturidade do garoto, minha mãe nunca escondeu nada de mim, depois sei que o senhor foi amigo do meu pai, além de companheiro.  Sei que cuidará de mim, se acontece alguma coisa.

O chefe, disse, que conhecia um juiz, que podia agilizar tudo, falo com ele, amanhã mesmo, podem se casar, darei a entrada no sistema, assim Narciso, terá um sistema médico.

Foi o que fizeram, eles estavam num hotel daqueles que até bandido passa longe, os levou para sua casa, deixou seu quarto para eles.   Depois da morte do Tony, ele tinha trocado tudo lá, não queria nada que lembrasse dele.  Não havia nenhuma foto dos dois exposta, como antigamente.

Eu durmo no sofá, sem problemas.

Quando foram a primeira consulta com o Dr. Rogue, ele ficou de boca aberta, esse era tão alto como ele, com uns cabelos imensos, crespos, muito moreno, estenderam as mãos, apertaram forte.   Obrigado pelo que está fazendo pelos dois.

Narciso, ficou no hospital, para os exames, ele levou Junior para casa, iria arrumar sua transferência de escola, sua mãe tinha lhe entregado os papeis.  Ele como vivia relativamente perto da delegacia, sabia que por ali, havia uma escola, se informou com o porteiro do edifício, aonde era, foi com Junior até lá.   Sem querer conhecia a diretora da escola, pois a tinha ajudado num caso de venda de drogas na escola, tinha conseguido, que nos horários de máxima frequência de alunos, entradas e saídas, houvesse um carro de polícia na frente da mesma.

Tinha se esquecido completamente disso.   Ela disse que sem problemas, viu as notas do Junior, eram muito acima da média.  O colocarei na turma mais adiantada, não se preocupe.

O problema agora, era com quem ele ficava nos horários da tarde.

Ele conhecia pouca gente no edifício, mais de bom dia, boa noite, pois eram os horários que entrava e saia do mesmo.  Falou de novo com o porteiro.  Ele lhe disse que no último andar, vivia um professor, que dava aulas particulares pela tarde.  Foi falar com este, tinham cruzado várias vezes na entrada.

George Bronson, disse o outro estendendo a mão, devia ser uns dez anos mais velho do que ele.

Sim posso ficar com o garoto, mas pelas suas notas, tenho pouco que ensinar, mas assim ele me ajuda com os outros alunos.  Combinaram quanto cobrava, os horários que o Junior estaria ali.

Comprou para ele um celular, desse que ser carregavam, assim lhe podia chamar qualquer caso.

Agora que minha mãe, não está, posso dormir no sofá, lhe disse o mesmo, estavam no supermercado, ele nunca comia em casa, mas tinha que deixar coisas para o garoto se virar, para fazer algum sanduiche, coisas assim.  Leite, café, lhe ensinou a usar a cafeteira que tinha, depois compraria uma mais moderna.

Viu que suas roupas estavam curtas, aproveitou que no dia seguinte estava de folga, foram ver Narciso que ainda fazia exames, o Rogue o chamou a parte, disse, que seria uma operação muito arriscada, que talvez pudesse tirar dois tumores, mas nos exames, aparecia um que estava muito dentro, que nem sabia o que isso afetaria, se o fizessem ela poderia ficar paralitica.

Faça o que for necessário Dr. Rogue, esse menino, precisa de uma família.

Vejo que te dás bem com ele, eu no orfanato, era o menor, Narciso e Tony sempre me defenderam, mas saíram antes, graças a deus fui adotado, assim pude estudar, seguir em frente.

Foram de compras, comprou roupas novas para o Junior, que estava louco para ter calças compridas, já vi que meus companheiros na escola todos usam calças assim.  Camisetas, pois as suas estavam pequenas, minha mãe, só ganhava o suficiente para pagar o aluguel, bem como comprar comida, nunca tocava no dinheiro da pensão do meu pai, esse ia para uma conta, que ela montou, para que no futuro eu pudesse estudar.

Teria que conversar com ela a respeito.

No dia seguinte enquanto ele estivesse na escola, ele faria isso, tinham coisas para acertar.

De tarde como tinha médico, o deixou com o professor George, que sorria para ele.

O médico, lhe deu uma nova leva de medicamentos, para ele provar, terás que me fazer um relatório, se algum de dá vômitos, ou te deixa tonto.  Depois de um tempo com esses remédios, já veremos o que faremos, pode ser como tudo teu foi detectado antes de começar a dar problemas, se controle, mas se fizer sexo, tens que usar camisinha, nunca se esqueça disso, bem como o parceiro que tenhas.

Isso o deixava nervoso, quando voltou para casa, George pediu para falar um pouco com ele.

Deu as chaves do apartamento que tinha mandado fazer ao Junior, disse que já desceria.

Sentaram-se no salão, ele estava com a bolsa de medicamentos ao seu lado.

George perguntou se estava fazendo algum tratamento, disse que sim, que tinha Aids.

Não queria esconder nada para ninguém.

Perfeito, vou ser franco contigo, eu conhecia o Tony, as vezes ele saia de tua casa vinha até aqui, me dizia que precisava de mais, eu nunca entendi isso, não sei nada sobre o passado dele, queria brutalidade, depois da primeira vez, lhe disse que não viesse mais.

Mas o motivo que quero falar contigo, são as perguntas do Junior, creio que escutou alguma conversa que sua mãe teve com o chefe de polícia, sobre porque tiveram que fazer autopsia no Tony.   Ela sabia dessa parte da vida dele, por isso se divorciou, como nos últimos anos, o que ele andava fazendo.  Ou seja ele sabe isso por cima, mas creio que alguém devia esclarecer isso tudo para ele.

Veja bem, eu tive dois encontros com o Tony, depois lhe disse que não queria nada com ele, sabia que tinha um relacionamento, que tinha sido casado, mas o da brutalidade que ele queria me assustava.  Depois ele só queria ser passivo, eu achava estranho, sendo o homem que era.

Obrigado por sua sinceridade, eu passei uns tempos muito mal, primeiro por saber que não satisfazia totalmente o homem que estava comigo, mas creio que ele desconfiava que não conseguiria nada disso comigo, eu vejo o dia inteiro brutalidade, merdas em família, tiros, coisas assim, quando fazia sexo, queria paz, romance, que sempre me faltou.

O pior foi descobrir, que eu lhe era fiel, mas ele não, por isso tenho Aids.

Ok, achas que devo ser aberto com o garoto?

Sim, ele é muito inteligente para sua idade, além de saber das coisas, para ele, existe algo que ninguém quer que ele saiba.

Desceu, Junior estava vendo um filme, na velha televisão da sala.  Comentou com ele, precisamos de uma nova, eu nunca vejo televisão, prefiro ficar lendo, do que ver noticias ruins que já vejo o dia inteiro.

O que o prof. George queria contigo?

Me falou das tuas perguntas.

Sim eu escutei uma conversa da minha mãe com o chefe de polícia, fiquei com a pulga atrás da orelha.  Porque tinha tido que fazer uma autópsia em meu pai.

Posso ser honesto contigo?

Sim, eu o conhecia pouco, deixei de vê-lo quando tinha cinco anos, ele nunca foi aonde vivíamos, se limitava a mandar dinheiro, como pessoa, não o conheci.

Tiveram que fazer a autópsia, nele, por minha causa, no que fui operado, descobriram que eu tinha Aids, sabe o que é isso?

Não, te explicarei, contou para o Junior o que era, antigamente se morria por isso, hoje não, vês todos esses remédios, é por isso.

Quanto o porquê da autópsia, é que nesses últimos cinco anos, eu tinha uma relação com teu pai, ele nunca viveu comigo, sempre teve sua casa, então saia daqui, tinha relações com outras pessoas, ele contraiu a doença, sabia, mas não me disse nada, me contagiou.  Quando descobri fiquei arrasado, algo aconteceu no passado do teu pai, que ele nunca me falou, que o fez ficar assim.    Primeiro o culpei, fiquei desesperado, pois o amava.  Descobrir que não era correspondido na verdade doeu muito, mas agora estou bem.   Ao mesmo tempo, foi meu melhor amigo nesses cinco anos que trabalhamos juntos, por isso estou ajudando tua mãe, bem como a ti.

Não nos odeias?

Jamais, eu só vi tua mãe, bem como a ti, uma vez, que foi durante o processo de divórcio.

Como fica isso na tua cabeça?

Estou confuso, ou seja meu pai era gay, tinha problemas, será que terei também?

Nada disso, veja, teus pais viveram num orfanato, com tua idade, eu também perdi os meus, mas tive a sorte de ser criado pela irmã mais velha da minha mãe, ela fez tudo que pode para me criar.  Devo o que sou a ela, meus pais não tinham seguro de vida, tampouco me deixaram nada.  Então seria normal que eu também fosse para um orfanato, mas tive essa sorte.

Nos orfanatos, nem tudo são rosas, pode ter acontecido alguma coisa lá, ou quando saíram.

Tony, nunca tocava nesse assunto, por isso não sei.

Veja o Dr. Rogue teve sorte, foi adotado por uma família que lhe deu estudos, por isso é médico.

Eu, sempre quis ter um filho Junior, espero que o seja para mim.

É você esta me tratando muito bem, se preocupou com tudo, casou com minha mãe para ela poder se tratar.  Rezo para que se recupere.

Sempre que tenhas perguntas, podes falar comigo, eu sempre serei honesto contigo.

No dia seguinte antes de ir trabalhar, passou pelo o hospital, isso agora seria uma coisa que faria durante muito tempo.

Comentou com Narciso, as perguntas do filho.

Eu sabia que ele tinha um relacionamento contigo.  Na verdade, quando saímos do orfanato, eu fui trabalhar na casa de uma família, o Tony, ficou por aí, quando podíamos nós falávamos, me falou que estava se prostituindo para sobreviver, alguém o ajudou a entrar para a academia de polícia.  Mas não sei quem foi.  Quando finalmente começou a trabalhar, nos encontramos novamente, me pediu em casamento, mas isso só aconteceu, quando realmente ficou firme na polícia.  Ele sempre teve um lado escuro, as vezes desaparecia dias, nunca sabia aonde ele estava, quando Junior fez cinco anos, o achei mais violento, um dia lhe perguntei por que desaparecia.  Ficou uma fera comigo, me ameaçou, foi quando pedi o divórcio.  Eu não queria passar pelo que aconteceu com a minha família, meu pai matou a minha mãe, porque era violento, eu não queria isso para meu filho.

Foi quando no divórcio, me falou de ti, sempre falávamos quase tudo, me disse que tinha encontrado uma pessoa que o queria, que não sabia se te amava, mas que eras seu melhor amigo.   Sempre teve pesadelos, dizia que era desse tempo que esteve na ruas, que teve que suportar muitas coisas, para sobreviver, dizia que era essa a parte negra de sua vida.

Ele resolveu olhar a ficha do Tony, para saber que o tinha indicado para a polícia, quando falou com o chefe, esse deu um sorriso triste.

Fui eu.   Uma vez o prendi por estar se prostituindo pelas ruas, me contou que vivia de ocupa num edifício, que se prostituia para comer.  Que ninguém lhe ajudava.

Fiquei com pena dele, consegui que fizesse prova para a academia de polícia, quando ele terminou, consegui que viesse trabalhar aqui, não o podia levar para minha casa, pois tenho cinco filhos.  Lhe conseguia as roupas que meus filhos não queriam mais.

Ele me contou que muitas vezes tinham abusado dele, que isso o tinha transtornado muito.

Mas pensei que tinha alcançado alguma estabilidade com Narciso, quando se casou com ela, mas me enganei.  Várias vezes o vi em companhia de pessoas diferentes.

Mas quando chegaste aqui, o coloquei para trabalhar contigo, pareceu ter esse equilíbrio, vocês ficaram amigos.  Mesmo depois do seu divórcio, estava sempre contigo.

Mas vejo que me enganei, tinha outros problemas que nunca vi.

Contou que o Junior tinha perguntado para ele, esse garoto é surpreendente, gosta de honestidade, já o quero como o filho que nunca tive.

Todos os dias conseguia entrar de noite no hospital, com o Junior, para que visse a mãe, lhe contava da escola, como ia em minha casa.

Um dia a caminho soltou que nunca tinha tido um quarto só para ele.

Perguntei ao porteiro, esse me disse que no andar debaixo do professor, tinha um apartamento de dois quartos, podia olhar.

Os dois olhamos, gostamos, rindo pintamos os dois, estava muito sujo, o porteiro conseguiu uma senhora para limpar.

Ela se ofereceu para cuidar do apartamento, pela manhã cuidava de um apartamento que vivia uma senhora sozinha, de tarde estava livre, a contratei para ficar com o Junior, enquanto trabalhava.  Assim cozinhava para nós dois, de noite nos sentávamos para comer, ele comentando seu dia.

Narciso, não conseguia ficar boa, estava cada vez mais fraca, um dia Dr. Rogue me chamou, falou claramente, que as possibilidades eram poucas, ou seja cada vez menores, o tumor que não tinha podido retirar, estava causando uma série de problemas.

Um dia, não despertou, de qualquer maneira, creio que prevendo isso, eu tinha acelerado a adoção do Junior, depois de conversarmos os três, para ela, seria uma tranquilidade saber que ele estava com alguém.

No dia do seu enterro, erámos poucas pessoas, o chefe de polícia com sua mulher, Dr. Rogue, o professor George, nos dois.

Depois fomos tomar um café, nada desse enterros que depois fazem uma festa.

Dr. Rogue me entregou um cartão, segurando minha mão, me disse que gostaria de me conhecer melhor.  Devo ter ficado com a boca aberta.

Mas foi ele que me telefonou dias depois.  Marcamos para um café num horário que ele estava livre.   Me soltou em plena cara, que tinha se interessado por mim, desde o dia que tinha me visto com Narciso.  Que ela tinha lhe contado minha história com o Tony, além do que tinha acontecido comigo.   Nesse momento, eu também estava saído de um relacionamento complicado com outro médico.   Não tinha dado certo.  Agora também estou livre.

Lhe expliquei o que tinha, que estava em pleno tratamento, que estava bem, que nunca tinha efeitos colaterais com os remédios.

Começamos a sair, um verdadeiro namoro, queríamos ir com calma, embora, sempre estivéssemos excitados, fomos juntos ao meu médico, ele nos orientou.

Mas nunca imaginei o que ia acontecer na nossa primeira vez.  Fiquei alucinado quando o vi sem roupa, eram muito másculo, nos demos bem aí também, na cama.

Mas antes de seguir adiante, contei para o Junior.  Ele em breve faria 12 anos, mas parecia ter mais.  Riu, eu percebi sempre como ele te olhava.  Achava interessante isso.

Por mim, bem, tens que pensar que tens direito a tua vida.  Não só viver para me cuidar, além de que ele foi o único médico que ajudou minha mãe.

Quando passamos a viver juntos, formávamos uma família, os horários as vezes eram complicados, mas nos apanhamos.   Acabamos depois de anos, nos casando, eu tinha sido ferido novamente, fiquei com medo que se me acontecesse alguma coisa, Junior ficasse desamparado.

Hoje Junior é médico, faz prática em urgências, chama os dois de pai. Nosso único luxo é uma cabana na praia, para passar os finais de semanas que coincidimos, eu agora sou chefe de polícia.   Dizem que o primeiro assumidamente gay.  Quanto ao Aids, hoje não que esteja curado, mas tudo ficou remetido, mesmo quando nos liberaram para fazer sexo sem proteção, achamos por bem continuar.

Afinal a família há que proteger.

Junior sai com outra médica, mas diz que ela não quer nada sério, espero que um dia me dê netos.

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 3 de abril de 2023

UN VOL DE GRUES

 

                                              UN VOL DE GRUES

                                        CABARET  VOL….TAIRE

 

O show tinha terminado, estava ali sem sono, fechando o caixa da noite, ainda lhe restava um pouco de maquilagem na cara.

Sentiu a presença de outra pessoa, quando levantou a cabeça, sorriu, quem te viu, quem te vê, falou com o homem que estava ali, em pé, com uma gabardina aberta, mostrando seu traje impecável.

Pois é nunca me chamas, sempre sou eu que vem atrás de ti, com boas ou más notícias.

Qual é a desta vez?

Acaba de morrer num hospital em Nimes, um velho conhecido nosso.

Pelo nome do lugar, já sabia quem era, August Castanho, soltou.

Sim o mesmo, finalmente descansou, foi encontrado morto em sua casa, sozinho, isso que sabes o quanto ele odiava estar só.  Necessitava sempre de plateia, para viver.

Em sua cabeça, era como se todas as caixas de sua memoria se destapassem ao momento, abriu a boca, não conseguia fechar.

Era como se estivesse sendo sugado no tempo.  August tinha sido um amigo querido, experimentaram fazer sexo, mas ele viu que o outro precisava na verdade de um pai, isso ele não era para ninguém.   Nesta época tinha já seus trinta anos, um homem de sucesso em seu trabalho, mas insatisfeito com tudo, justamente quando deu a volta a torta como ele chamava.

Agradeceu por vir dar pessoalmente a notícia.

Isso não se pode falar por telefone, aliás o teu celular, sempre está desligado.

É verdade Paul, já nos resta poucos amigos, para conversar, quando os escutamos, na verdade são só reclamações, comigo acham que estou louco por ter a essa idade um show de Drags, em vez de estar em casa, me lamuriando.

Me nego redondamente a isso, tenho uma proposta de compra do prédio, mas de qualquer maneira não penso em vender, pois afinal a propriedade é minha, minha casa está aí em cima, vou para aonde, fazer o que?

Paul rindo disse, para uma residência de pessoas de idade, para fazer crochê, ensinar o pessoal a dançar tango, rumbas, em que eres um mestre.

Ficaram rindo, sente, te sirvo um Cointreau, assim falamos um pouco do pobre August.

Paul se sentou, antes tirou sua gabardine.

Tu como sempre como um dândi, segues te vestindo como se fosse trabalhar?

Sim essa é uma verdade, foram tantos anos usando esse tipo de roupa, que é como minha mortalha, August dizia que era meu disfarce de homem sério, mas que quando ficava nu, se via realmente quem eu era.

Sim, ele sempre nos falava dessa maneira, um dia soltou na minha cara, que o meu seria ser dono de um cabaret, que usasse uma roupa decotada, vermelha com bolas brancas, um colar de bolas imensas vermelhas, além de um salto agulha.

Até hoje faço um número assim, talvez amanhã repita, em homenagem a ele.

Serviu ao dois em pequenos copos, uma dose do licor, que no mesmo momento fez entrar calor nos ossos como diziam.

Quanto a ele, sinto sempre, que nunca foi feliz, trazia uma bagagem com ele, de ser uma pessoa que não era o que queria ser. Queria de qualquer maneira subir na vida, gostava de homens que inspirassem poder, para se sentir no alto.   Uma vez discuti com ele, se realmente tinha amado alguém, me devolveu a mesma pergunta.

Eu pelo menos fui honesto, nunca tinha amado ninguém, nem mesmo nos meus relacionamentos mais largos.

O duro dessa época, era que todos estavam dentro do armário, eu não, sempre fui eu mesmo, não era afetado ou coisa assim, mas tinha lutado todo o tempo com minha família, para ser eu mesmo, respeitado pelo que era.

Nessa época estava no mais alto de uma hierarquia, que tinha subido com dificuldade, mas tinha chegado lá em cima, foi quando mandei tudo a merda.

Herdei esse edifício dos meus pais, meus irmãos, ficaram com os de luxo, menosprezavam que só me tocasse esse lugar, eu ao contrário, adorei.

É como tu, ficaste até o final nesse emprego no Quai D’Orsay, sendo sempre de confiança dos primeiros-ministros, entrava um, saia, seguiste ao pé do canhão.

É verdade Louis, nunca me meti na parte política, assim quando pediam minha opinião, tinha a verdadeira.  Agora mesmo o novo primeiro-ministro, me chamou para voltar, o mandei tomar no cu, minha aposentadoria, nem se esfriou ainda, já me querem no matadouro.

Como vai ser o enterro do August?

Falei com seus amigos de lá, vão fazer uma coleta para pagar o enterro, neste momento devem estar esperando a autopsia, para saber a que se deve essa morte.

A dele foi uma morte lenta, desde o momento que descobriu que tinha Aids, foi duro, ele amava a vida, queria estar sempre apaixonado.  Aliás, cada vez que vinha a minha casa, era para me contar de alguma nova paixão.  As vezes eu lhe dizia que tomasse cuidado, mas ele nunca escutava.  Se metia sempre em confusões, da mesma maneira que se apaixonava, no instante seguinte, conhecia outra pessoa, esquecia o problema anterior.

Acabou pegando Aids justamente de uma pessoa que lhe avisei que tomasse cuidado, um sujeito inclusive casado, com filhos, acabou se suicidando, quando soube que estava doente.

August ficou para trás.   O escutei dias e dias, reclamando como ia fazer.

Mas o pressionei, para saber se não estava com mais alguém, pois ele fazia isso, as vezes estava com mais de uma pessoa ao mesmo tempo.  Quando comunicou a estas, apareceu aqui em casa, com um olho negro.

Ficou meses aqui.   As vezes de madrugada, vinha para minha cama, queria ser abraçado, ter afeto.

Eu quando lhe dizia que ele sempre tinha feito confusão, entre afeto e sexo, ria na minha cara, mas depois sério me perguntava como tinha conseguido isso.

Lhe expliquei que como ele, levando pauladas na cabeça.   Quando era jovem, achava que estava amando, quando não passava de sexo de dois ou três dias.

Tu sabes que levei anos com Maurice, que em paz descanse.  Claro ele era também casado, mas nunca, desde o primeiro momento me escondeu isso.  Aparecia quando podia escapar das reuniões sociais que era obrigado pela família a participar.   Mas nos momentos que estávamos juntos, era meu companheiro ideal.  Me dizia que eu era livre para fazer sexo com quem quisesse, mas eu me negava.   Pois a Maldita já estava em campo.

Me ajudou a assumir este lugar, me orientou como devia gerir tudo o que tinha.  Nesse ponto foi espetacular comigo.  Até se atreveu a vir um dia com sua mulher, seus amigos, como se fosse um lugar novo para ver um show fantástico.

Creio que foi quando sua mulher desconfiou de tudo, se aposentou, veio viver comigo, só saiu daqui, porque os filhos quando os avisei vieram buscar seu corpo, me pedir para não ir ao enterro. 

Eu não me importei, embora muita gente tenha me criticado, ele já não estava, essa era a verdade, fui feliz com ele, se eu o amei, nunca saberei, mas que ele a mim sim, tenho certeza, para fazer o que fez, era necessário muito amor.  Não sei se teria a coragem que ele teve, enfrentar aos seus para vir viver aqui, em cima de um cabaret com outro homem.

Nunca mais quis ninguém, por isso agora tenho duvidas se sigo com isso, ou vou curtir a vida no sul, como ele gostava.

August o respeitava horrores, tinham conversas homéricas, na verdade dos poucos amigos que sabiam da época que ele ainda estava casado, ele era um.

Me dizia, que se não fosse meu amigo, me roubaria o Maurice.

Este ria com está história, nas épocas que esteve muito mal, nos revezávamos em cuidar dele, eu ia durante o dia ao hospital, Maurice, passava algumas noites lá.

Foi um período difícil, perdemos muitos amigos essa era a verdade, havia finais de semana, que quando olhava a plateia, só via caras novas, me perguntava aonde estão os velhos clientes, que riam das minha piadas.

Dos novos alguns me criticavam, por me vestir de mulher, usar essa barba imensa, não usar perucas, mas sim meu cabelo naturalmente brancos, como hoje, só apresento os números nada mais.   Nada é igual, querem uma coisa mastigada, se faço uma piada política, não riem, talvez porque não saibam do que escaparam.

Acho que a maioria segue sem tomar cuidados como os que passamos a tomar.

August ria, dizia que eu não arriscava, com toda a liberdade que me dava o Maurice.

Como tu, tinhas a mesma liberdade, mas tomavas cuidado, nunca fomos desses de saunas, de trios, ou coisa parecida, drogas tudo o mais.

Ele dizia as vezes que erámos da velha guarda, mas a maioria dos jovens daquele tempo, se foram para o outro lado.

Os que se politizaram, fundaram ONGs, para defender seus direitos a medicina, ajudei a todos que me pediram ajuda, inclusive de usar o local para assembleias, hoje me olham de esquerda, porque nunca me politizei.   Não me interessava.

De uma certa maneira amigo Paul, essa notícia, me abriu minha cabeça, como uma caixa de pandora.

Em breves minutos, consegui ver todos os namorados que August me apresentou, uns dizia que fazia isso para sentir ciúmes, lhe respondia, que ele era meu amigo.

Mas ele sim tinha ciúmes, inclusive de ti, pois nessa época os dois saímos muito por aí, para dançar, relaxar do stress de trabalhar para o governo.

Se estávamos em alguma discoteca, alguém se aproximava de mim, ele se colocava ao meu lado, como dizendo é meu.

Eu deixava porque assim me poupava o trabalho de dizer não a alguma pessoa.

Depois quando já estava com Maurice, ele dizia, ele pode sair comigo, nunca deixarei que alguém se aproxime dele, podem querer te roubar esse homem imenso.

Contigo, conosco, ele virou realmente o amigo, pois fomos os únicos que o socorremos nos momentos difíceis.  Sua família que nem sei como ele fazia, ajudava, colocou sua irmã para frente, isso que era mais velha do que ele, a obrigou a fazer universidade.

Nada apareceu quando ele precisava.

Mas claro não suportou o rechaço que aconteceu depois, perdeu sua beleza, era um homem triste, se via que tinha a maldita, então ninguém queria nada com ele.   Isso para um homem que conseguia o que queria, foi como se sentir derrotado.

Eu lhe dizia que finalmente via a realidade, que tudo era efêmero, nunca nada é para sempre.

Quando estourou o escândalo do Maurice, imagine um alto funcionário da república, abandonar sua família para viver com um louco, que se vestia de mulher, para trabalhar num cabaret.

Ele ficou ao lado do Maurice, foi o filho que o entendeu, porque os seus realmente ficaram horrorizados. 

August o entendia por que tinha sentido na própria pele, o de sua família, se tornou o filho querido do Maurice.  Quando ele morreu, queria ir ao enterro, eu não, me obrigou a ir com ele, ninguém sabe disso, nem tu.  Fomos os dois, bem-vestidos, quando uma pessoa perguntou quem ele era, respondeu, sou o filho maldito do Maurice, por quê?

Eu tive que rir, pois imaginei o Maurice inchando o peito como um pombo, de orgulho.

Mas para todos os efeitos não fui.  Primeiro me imaginei indo vestido de mulher, com essa barba que tenho, ia ser um escândalo.

Depois que Maurice veio com os amigos, sua mulher, está lhe perguntou qual a graça de um homem vestido de mulher, com aquela barba imensa.  Que não entendia meu texto, que lhe parecia mais uma besteira, se queria falar mal do governo que fosse ser político.

Maurice a principio não lhe fazia graça me ver vestido assim, me dizia que gostava de me ver nu.  Dizia que a primeira vez que me viu, foi numa festa na casa de algum amigo, que eu estava na piscina conversando contigo, ficou deslumbrado, pois nos víamos sempre em reuniões de trabalho, queria tirar o resto de roupa que eu tinha, para ver como era o resto.

Ele tinha um corpo para sua idade impressionante, quando nos vimos a primeira vez fora do trabalho, foi ótimo, nos encontramos numa reunião, começamos a conversar, ele sabia da morte de meus pais, o convidei para tomar alguma coisa, conversar fora dali, pois gostava disso dele, poder falar sobre qualquer coisa.

Quando estávamos num bar, os dois ao fundo, virou-se para mim, colocou a mão no meu joelho, soltou tudo de repente, depois dizia que o tinha feito assim, por medo que eu saísse correndo.

Mas fiquei, olhando para ele, com aqueles olhos negros que tinha, pensando, deve ser brincadeira desse sujeito.   Eu o achava sempre muito interessante, gostava de o ver falar, explicar alguma situação.

Era verão, a família dele estava na praia, me perguntou que tal minha casa nova.

Estou terminando a reforma, era a velha casa da família, ainda no lugar do Cabaret, tinha a loja de meu pai, que estava alugada, veio comigo, passamos o final de semana inteiro na cama.

Telefonou para sua mulher dizendo que tinham surgido problemas.

Eu aceitei imediatamente que o teria por momentos, ou algumas horas, ou quando ele inventava uma viagem, que nunca poderíamos sair juntos para um cinema.   Mas o tempo que podíamos aproveitar era o máximo.

August, dizia que eu o devia roubar da família.  Como ele tinha feito com alguns casados do rol de relacionamento que tinha, mas o sem vergonha, quando o sujeito dava esse passo, perdia o interesse.

Quero que não seja meu, para poder conquista-lo.   Porque ele o que gostava era isso a conquista, depois perdia o interesse.

Te lembras daquele arquiteto, o sujeito tinha um relacionamento de anos, ele foi se intrometendo entre os dois, fizeram sexo a três, quando o arquiteto abandonou o namorado por ele, perdeu o interesse.   Ficou furioso, queria dar uma surra nele, claro se escondeu lá em casa.

Se matava de rir, eu lhe dizia que isso não se fazia.   Mas no fundo ele era como o Maurice dizia o filho que eu nunca tive, pois tinha idade realmente para ser meu filho.

Avise aos amigos dele lá da cidade aonde vivia, que iremos, que ajudaremos em tudo que for possível, quero que tenha um enterro digno.

Te venho buscar amanhã por volta das dez para irmos.

Me despedi do Paul, sabia que ele era pontual, por isso fui para cama, limpei bem a cara como fazia sempre.

Mas foi uma noite infernal, pois em minha cabeça, me veio tudo, desde o momento que o conheci, todas muitas conversas que tínhamos, das tentativas dele de seguir fazendo sexo comigo quando lhe desse a louca.   As largas noites quando ele não tinha com quem se desabafar das verdades de sua vida.  Talvez tenha sido o único amigo que sabia de tudo, vamos dizer assim, do buraco de aonde tinha saído, até aonde tinha chegado.

Uns pais, amorfos como ele dizia, sem ambição nenhuma na vida, que por eles, ele nunca teria ido à universidade, teria ficado trabalhando ali no negócio que tinham.  Que aprender línguas, o que ele tinha uma facilidade imensa, lhes parecia uma besteira, como dizendo para que.

Mas isso o fez subir na vida, realizar seus sonhos, conhecer países, tudo bem sempre se metia em confusão, mas fez amizades em todos os lugares.   Era uma pessoa que queria ser querida, as mulheres, o adotavam mal o viam, tinha esse jeito de rapaz desamparado.  O que não deixava de ser verdade.

Acredito que no fundo, como lhe dizia, a maioria das vezes ele não queria sexo, sim carinho, como o que eu lhe dava.

As vezes aparecia no meu antigo apartamento, me dizia na cara, venho dormir aqui, porque sei que vais me abraçar, cuidar de mim.   Não acontecia nada de sexo.

Muita vezes chorou nos meus braços, por não entender, não conseguir analisar o que sentia realmente por uma pessoa.   Pois da mesma maneira que se apaixonava, no dia seguinte já não falava da pessoa.

Quando resolveu voltar para o lugar de aonde tinha saído, perto de Nimes, lhe disse que estaria só, mas conseguiu fazer amigos, os tempos tinham mudado.   Ele tinha perdido toda a beleza que tinha.   Seu rosto estava marcado pela doença, a eterna barriga inchada o delatavam, até isso, o corpo de garoto que tinha, desapareceu.

Rolei na cama a noite inteira, me lembrando dessas conversas.

Acabei me levantando cedo, pois me era impossível dormir. Também tinha tomado uma decisão, ir viver na casa que Maurice me deixou de herança, em Aix en Provence, aonde passamos dias fantásticos.   Chega de tanta papagaiada como August dizia.

Quando desci, com uma pequena maleta, não sabia se íamos conseguir voltar no mesmo dia ou não, em último caso, iriamos depois para Aix.  Avisei o meu gerente que a vida seguia no cabaret, mas tinha surgido um imprevisto.

No carro, Paul me disse que tampouco tinha dormido muito, fiquei pensando a noite inteira, agora somos só nos dois desse grupo de amigos, era uma verdade.

Me deu uma noticia que caiu como um mal trago, mas engoli em seco para digerir, que ele na verdade tinha se suicidado, tinha tido uma recaída, estava como corpo cheio de feridas, que seu rosto estava destroçado.  Os seus amigos queriam saber se o caixão devia ser fechado.

Lhes disse que sim, para que ficar olhando os destroços de alguém, que colocássemos uma fotografia dele bonito quando era jovem.   Um deles, que foi seu namorado na sua juventude, disse que tinha uma.  Isso bastava.

Chegamos, era um enterro diferente, só havia homens, a uma presença feminina era sua irmã que tinha vindo de Marseille, sozinha.  Não trouxe os filhos, nem o marido.

Fiquei conversando um tempo com ela, me contou que ele estava na miséria, melhor era não ver como vivia na velha casa de nossos pais.

Seu dinheiro mal dava para pagar as medicinas que tinha que tomar.

Mas disse que sempre chegava o dinheiro que mandavas para ele.  Com isso ele se apanhava, porque o que recebia dava para as medicinas.  O resto, vinha de ti.

Quase soltei, que da parte dela, que ele tinha pagado a universidade, nada.  Mas para que levantar brigas nesse momento.

Maurice não gostava dela, dizia sempre ao August, a ajudas tanto, mas ela nunca estará por ti, pois tem vergonha que sejas gay.

Quando se casou com um companheiro, professor na universidade, não o convidou, ele tinha acabado de sair do hospital, estava lá em casa.  Ficou primeiro ofendido, depois machucado, pelo que tinha feito por ela.

Quando voltou para Nimes, creio que foi mais para sacanear, ela queria vender a propriedade, não podia pois ele estava lá.

Quase perguntei se era isso que tinha vindo fazer.

Os seus amigos eram uma confusão de homens de todas as idades, todos vinham falar comigo, me conheciam de nome, que ele sempre estava falando do melhor amigo que ele tinha.

Lhes gostaria de dizer, que não fui nem de longe o amigo que ele foi para mim, inclusive o filho que não tive.

Pois quem me aguentou quando Maurice morreu foi só ele.  Paul estava fora do pais, em uma missão diplomática.

Ele me aguentou semanas, sem animo de me levantar da cama, me ajudou em tudo que foi necessário.  Quando fui chamado para a leitura de testamento, achei que era uma loucura, pois achava que a família estava lá.

Por sorte, erámos só os dois.  Sua família, ele já tinha dado sua parte, quando se divorciou, me deixava a casa de Aix, além de dinheiro, para o August, dinheiro para seu tratamento.

Ele chorava como uma criança, aí tive que me fazer de forte. 

Realmente o filho da puta do governo não ajudava, o preço das medicinas era terrivelmente caro.    Muitos morriam por não poder pagar o tratamento.

Um dos amigos dele, era o padre da igreja, seu confessor, contou durante a cerimônia, que ele não se confessava, pois dizia que fosse tirar a lista de pecados que tinha feito na vida, seria uma verdadeira confusão lá em cima.

Que o convidava para tomar um café, acabava eu contando meus problemas, de fé, de segurança, me incentivou a seguir em frente.

Foi uma missa muito bonita, depois veio falar comigo, me entregou uma carta, enfiei no bolso, pois sabia se lesse alguma coisa agora que estava muito emocionado, era capaz de ter um enfarte.

No carro em direção a Aix, contei ao Paul o que ia fazer, vender tudo em Paris, vir viver ali, arrumaria alguma coisa que fazer, já que não podia ficar quieto.

Caralho, vou ter que vir contigo, ontem a única boa noticia que tinha era para te dizer que me aposentei.  Não tenho por que ficar em Paris.  Com seu natural sorriso sardônico, perguntou se aceitava hospedes.   Ele tinha sido meu hospede em Aix mil vezes.

Claro que sim amigo, afinal estamos sozinho no mundo, ri lhe dizendo, pois sabia que ele gostava de jovens, depois tem a universidade da cidade, cheia de jovens querendo explorar e corromper uns senhores velhos.   Foi a primeira risada do dia.

Esqueci completamente a carta, passamos dois dias na casa, fui falando dos planos que teria para ela.   Ele escolheu viver na parte de cima, como se fosse um apartamento a parte, compartiríamos cozinha.

Voltei para Paris, fechei o cabaret, tinha dinheiro para indenizar o pessoal que trabalhava comigo, tinha aprendido com Maurice administrar bem o que ganhava ali.

Falei com a construtora que queria o local, que falassem com meu advogado, ele negociaria o preço, lhe disse quanto queria, mas que não moveria nem um pé desse valor.

Ele foi esperto, pediu muito mais alto, assim acabei no lucro.  Tinha uma boa aposentadoria dos meus anos no governo, depois de muita luta para conseguir.

Paul no último instante, decidiu ir fazer uma viagem volta ao mundo, um cruzeiro como ele gostava, eu ao contrário odiava, ficava imaginando fechado num barco, que tinha limites, nem pensar.

Chamei uma ONG, dei tudo que não queria da casa, as roupas de show, para as meninas como eu chamava aquele bando de marmanjos, ficou como resto.   Levei alguns livros, roupas que gostava, minha foto de cabeceira, do Maurice me sorrindo, uma do August, o resto queimei no banheiro da casa.

Quando cheguei a Aix, levei uns dias para me acostumar, que agora viveria sempre ali.  Comecei a fazer largos passeios pela cidade, explorando como dizia o Maurice.

Num dos meus largos passeios, reencontrei um lugar que íamos sempre fazer compras juntos.

O dono fez uma festa imensa, a quanto anos não o vejo por aqui?

Sim desde que Maurice morreu, perdeu a graça, agora vim para ficar.

Ficou me olhando sério, me soltou em plena cara.  Eu tinha inveja dos dois, somos da mesma idade, quando os via juntos, pensava quero um relacionamento assim para mim.

Não sabia que Maurice tinha morrido.

Me deu seu telefone, quando quiser alguma coisa, é só pedir, terei o maior prazer em entregar.

Fiz uma das minhas brincadeiras preferidas, que tudo com prazer custava mais caro.

Riu, para ti eu faço tudo grátis.

Quando pedi pela primeira vez num dia de chuva no final da tarde, me disse que levava na hora que fechasse se tinha problema.

Chegou meio molhado, lhe ofereci um café, esse homem entrou na casa como um sol, foi ficando, estamos juntos até hoje, nos dias complicados, vou lhe ajudar na sua loja.

As vezes imagino o que diria o August, soltaria, eres um sem-vergonha, esse tipo é meu ideal, mas avançaste antes.

Tínhamos os dois por volta dos 65 anos, nem por isso menos vigor. Maurice tinha vinte mais do que eu, estaria agora com 80 e qualquer coisa, ou noventa, que importa isso.

Jean-Marie, ri quando falo nisso.   Me diz que mantem o local, para se ocupar, que andou muito pelo mundo, procurando uma pessoa especial, que sempre tinha se interessado por mim, mas estava o Maurice.

Agora é o momento que me abraça, diz, agora eres meu.   Talvez pela primeira vez, pode ser por causa da madures posso dizer que amo alguém.  É uma relação completa, sexo, carinho, companheirismo, tudo que alguém podia dizer perfeito.

Mas não comemos perdizes, porque algumas vezes discordamos completamente das coisas.

Paul, ah esse, conheceu no puto cruzeiro, um milionário português, vive agora numa bela mansão em Sintra.   As vezes os dois aparecem.

Paul a primeira vez que viu Jean-Marie, me disse que era um homem bruto, ri dizendo para ele, te enganas, é o carinho personificado, gosto dessas mãos duras percorrendo meu corpo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 27 de marzo de 2023

FATHER/ SAD SMILE

 

                                                     FATHER

 

 

Seu nome era Trevor Fustemberg, embora sempre tivesse pensado que isso era um nome que seu pai tinha inventado ao entrar nos Estados Unidos, pois lhe dava importância, anos depois descobriu que era seu nome verdadeiro, de um judeu, que nunca ia a nenhuma sinagoga, pois se sentia frustrado com a religião.  Embora seguisse todos os preceitos da mesma.

Um dia contou a ele, bem com a Helene sua irmã pequena, que seu pai era muito rico na França, mas tinha muitos filhos, com a chegada de Hitler ao poder, mandou os filhos para os quatro cantos do mundo, colocou à disposição de cada um, dinheiro para começarem a vida.  Mas ficou em Paris, com sua mulher, pois essa se negava a sair dali, estavam velhos, porque iam atrapalhar a vida dos filhos.  Claro morreram num campo de concentração nada mais ao chegar.

Seu pai o obrigou a casar-se num desses casamentos arrumados, sua mulher também era de família rica, recebeu um bom dote pelo casamento, ou seja começariam a vida em NYC, sem problemas.

Um irmão foi para a Argentina, outro para Australia, outro para Africa do Sul, mas com os anos perderam contato entre si.

Ele mesmo tinha tido seis filhos, mas seus preferidos eram Trevor e Helene, esta nasceu ao mesmo tempo que morria sua mulher, um problema derivado de uma gestação complicada, pois ela já não queria ter filhos.

Viviam num apartamento imenso, com uma governanta, bem como empregados suficientes para cuidarem deles.

Os dois cresceram a parte dos irmãos, Helene era a filha que nasceu muito mais tarde, com uma diferença dele de quase oito anos, era como seu brinquedo.  A adorava, os dois estudaram em casa com professores particulares, aprenderam a falar outras línguas antes de mais nada.

Os outros filhos, seu pai tinha suportado, nenhum era brilhante como eles, maus estudantes, o primeiro ia a universidade porque seu pai pagava.

Todos iam se casando com casamentos combinados, com outras famílias ricas, o que se casava recebia do pai um apartamento bom, de certo luxo.  Um dinheiro para começar alguma coisa, mas claro era mais fácil viver na sombra dele.

Já Trevor que tinha o mesmo nome do velho, era ao contrário, era um excelente aluno, gostava de estudar, mas ao contrário dos outros, quando descobriu que era judeu, passou a ir a sinagoga escondido, as vezes levava Helene com ele.

O pai quando descobriu não disse nada.

Trevor sempre tinha gostado da música, usava os cabelos compridos, como todos os jovens de sua geração, gostava do rock, de dançar, de fumar seus porros, ia aos concertos de rock, escondido de seu pai.

Quando esse lhe avisou que tinha que parar com isso, pois teria que ir à universidade, ao mesmo tempo se casar, lhe falou que tinha combinado seu casamento com uma rica herdeira judia.   Ele quando viu uma foto dela, a detestou ao momento, já a conhecia.  Era uma idiota segundo ele, filhinha de papai, que fazia todas suas vontades.

O pai insistia, pois era um grande negócio.  Ele fez uma coisa que ninguém imaginou, foi de visita a casa de cada irmão, para ver como viviam se eram felizes.  Sentiu como se abrisse uma geladeira, era pessoas frias, fúteis.    Pensou não quero nada disso para mim.

O velho insistia, dizia que ele tinha que se preparar para um dia assumir seu lugar, lidar com os irmãos mais velhos.

Não havia muita escapatória, já estavam quase no final da guerra do Vietnam, não teve conversa, foi a um concerto de um pré grupo que depois fariam sucesso nos anos 70, Aerosmith, no dia que se inscreveu usou esse nome, Trevor Aerosmith, em seguida sem muita preparação, embarcou, nunca deu noticia a família, era como se tivesse desaparecido da face da terra.

Voltou com a última leva de soldados, feridos, tinha perdido basicamente seu batalhão inteiro, numa guerra que já estava na final, tinha defendido já os ataques a Saigon, voltou com um ferimento na cabeça, além de um braço meio inútil.

Quando apareceu na casa de seus pais, foi um verdadeiro horror o encontro com a família, no primeiro almoço saiu da mesa, tudo o confundia.

Dois dias depois desapareceu. Ninguém sabia aonde estava.

Foi viver num acampamento de homeless que ainda não tinha esse nome, embaixo de um viaduto, conheceu uma garota que vivia ali, com seus pais, se enamorou dela, foram viver de okupas numa velha fabrica.  Quando ela ficou gravida, ele ainda pensou voltar com a família, mas sabia que seu pai jamais aceitaria isso, uma garota que basicamente tinha crescido pelas ruas, uma família que vivia nas drogas.

Seus pesadelos tinham fase, quando estava bom, trabalhava, trazia alguma coisa de dinheiro para viverem.  Deu o nome do filho de Trevor Aerosmith, que era grupo que agora fazia sucesso.  Seus pesadelos foram piorando, pois nunca tinha tratado do mesmo, com o menino nas costas, iam mudando de lugar em lugar, breve estavam nas drogas, pois era a única coisa que o fazia suportar os pesadelos.  Viviam numa barraca dentro de uma velha fabrica.

O menino crescia parecido com ele, mais moreno como sua mãe, mas o olhava, pensava, é uma cópia de mim.   Sempre dizia ao mesmo tens que ser tu mesmo sempre, defenda teus valores, o garoto o olhava como se não entendesse.   Ele achava que o menino aceitasse a vida que tinham, passaram uma larga temporada num acampamento no meio do nada, só com ex-combatentes, quando chegou o verão voltaram para NYC, pois o governador mandou destruir o acampamento.   Sempre existiria o medo dos radicais.

Sua companheira nunca entenderia, porque passava horas contando ao seu filho, tudo o que tinha sentido, lutado, para sobreviver.

As vezes repetia uma mil vezes essa palavra sobreviver. Ele tinha uns 10 anos quando drogado falou com o filho sobre essa palavra, sobreviver, os sentidos que tinha para ele, mas sabia que ia gravar isso na cabeça do seu filho, criando nele um instinto para sempre.

Sua companheira era como uma criança, apesar de viver na rua não estava preparada para isso, ele não entendia se sempre tinha vivido na rua, como buscava outra coisa.

Ali pelo menos ele se sentia livre, ficava imaginando se descobrissem que ele era na verdade o que aconteceria.

Um dia chegava a uma praça, viu de longe Helene com uma foto, mostrando para as pessoas, entendeu que ela o procurava, talvez fosse a necessidade que tinha de ir em frente, se escondeu, a escutou falando com as pessoas.  Tinha amadurecido rápido demais, mas ainda era a garota de quem ele sem lembrava nas horas baixas, gostaria de lhe dizer, livre-se do velho, faça algo, mas não podia.

Mal desconfiava que era ela que sustentava tudo, tinha estudado para levar os negócios, mas se negava a se casar como queria o velho, quando ele insistiu muito soltou na cara dele, que não podia porque era lesbiana.  Soletrou essa palavra na cara dele.

Ele achava que se casando resolveria isso, quando lhe apresentou um pretendente, um homem imensamente rico, se enfrentou ao pai, dizendo ao homem que agradecia o interesse, mas lhe perguntou se queria casar com uma mulher que gostava só de sexo com outra mulher.

Diante do escândalo, da fama que conseguiu com isso, seguiu solteira.

Nunca cessou de procurar o irmão, o único que tinha certeza de que a entenderia.

Como os outros irmãos, o pai lhe deu um apartamento, mas ela ao contrário dos outros, escolheu um mais longe possível daquele lugar, se perguntou mentalmente aonde poderia estar seu irmão, se resolvesse se esconder. Foi morar no Brooklyn.

Um dia a viu falando com sua companheira, acariciando a cabeça do seu filho.  Talvez por sorte não mostrou a sua fotografia para ela.

Em vista disso, foram morar em outro lugar, para os lados do Bronx, no meio de drogados, de pessoas complicadas.  Seus companheiros militares, que tinham caído no mais baixo da degradação humana.   Mas talvez por amar o filho, o levava para tomar banho no verão, nas fontes das praças, lavava seus cabelos compridos, com carinho, não queria que ele tivesse piolhos, como as outras crianças, roubava nas lojas, sabonete, para que tivesse um banho agradável, o acostumou, ensinou a se defender.   Não podia imaginar que seus ensinamentos o fariam ir em frente.

Agora tinha um problema derivado de sua ferida, os ruídos lhe pareciam mais fortes, uma brecada, ou um estouro, lhe faziam retornar a guerra.

Colocava seu filho para dormir o mais longe dele, pois tinha a visão muitas vezes de uma luta que tinha tido com um vietcong, que acabou matando, mas descobriu que no fundo era um garoto, isso o destroçou por dentro, pensava ele devia ter me matado, não ao contrário, não podia se perdoar por isso.  Quando tinha esse pesadelo, tinha medo de matar seu filho.

Cada vez estava mais tempo em silêncio, sua companheira estranhava, só quando estava perto do filho falava, era como se estivesse dando diretrizes para sobreviver.

As vezes drogado, repetia outra mil vezes tudo relativo a essa palavra, seus significados, seu filho lhe prestava atenção.  Se fosse outra criança, se afastaria, mas ele não ficava ali sentando segurando a mão do pai como se temesse perde-lo.

No dia que desapareceram, o deixou como sempre no acampamento tendo aula com o professor.    Estava se sentindo muito mal, foram atrás de dinheiro, drogas, o ruido da cidade o atordoavam atrás da orelha tinha um tumor, não sabia, isso diriam posteriormente os que fizeram sua autopsia, um tumor imenso no crâneo que lhe devia provocar muitos problemas.

Ninguém tinha entendido como se tinha metido no meio do tiroteio entre a polícia com os traficantes de drogas, sua companheira foi quem primeiro levou um tiro na cabeça, se sentiu outra vez em plena batalha, viu um traficante jogado no chão com uma metralhadora, se apossou dela, saiu atirando para ambos os lados, até que caiu varado por balas.

Foi enterrado como Trevor Aerosmith, porque levava presa no pescoço uma placa do exército com esse nome, número, mas não se encontrou nenhuma família com esse sobrenome. Tampouco na ficha militar constava, quando a preencheu, não colocou parentesco nenhum, como se tivesse saído de um orfanato.

Mal sabia que seu filho, seguiria seus mandamentos, sobreviver de todas as maneiras, que teria um caminho largo pela frente.

 

                                           SAD SMILE

 

Seu nome era inventado, ou melhor roubado, vivia desde criança indo de uma acampamento a outro de homeless, as vezes conseguiam ocupar algum edifício abandonado.

Tinha aprendido a ler, escrever o básico, com um professor que vivia por ali, se ocupava das crianças enquanto os pais iam conseguir algo de comer, que compartiam com ele.  Tinha tuberculose, mas não queria tratar, as vezes quando alguém argumentava com ele, dizia, que adiantava, se não tinha sonhos, nem futuro.

Mas o interessante que insuflava nas crianças a ideia de sonhos a serem realizados.

Um dia seus pais não voltaram, ficou vivendo no mesmo edifício abandonado, agora ele ia pelas ruas pedindo dinheiro, ou mesmo como lhe dava vergonha, recolhia comida jogada em algum restaurante, tinha já uns 12 anos, apesar de tudo era alto, magro, aparentava mais.

Viu um cartaz procurando um ajudante de cozinha, perguntou ao homem que estava ali fumando se ele podia se candidatar.

Procurava andar o mais limpo possível, ali tinha uma garagem, o levou até ali, com uma máquina raspou sua cabeça, embora ele explicasse que lavava a mesma, mesmo que fosse num parque.  O mandou tomar banho, lhe deu uma toalha pequena, uma muda de roupa branca, lhe explicou como amarrar um lenço na cabeça, assim começou a trabalhar para ele, era um restaurante de comida para levar, havia que estar cedo, preparar sanduiches para os que iam trabalhar, depois ajudava a fazer o café, tudo era colocado num saco para a pessoa, o chefe ficava no caixa enquanto isso.  Foi aprendendo em breve manejava muitas coisas sozinho.

Tempos depois, consegui alugar um pequeno apartamento, velho, caindo aos pedaços, mas era jovem para subir os cinco andares sem elevador.

Aprendeu uma coisa, dizer sempre bom dia, para todo mundo, mesmo que seu sorriso fosse triste, sorrir, desejar aos outros o que ele não tinha, no fundo não tinha importância, sabia que dependia dele sobreviver.

Agora afastado dos homeless, ficava com pena do pessoal que tinha desistido de lutar, mas pensava, quem sou eu para julgar, cada um escolhe o seu caminho, não sei de aonde saiu a maioria, que sonhos tinham.

Ele queria sim ter um teto seguro para viver, aonde vivia tinha o mínimo, como comia, no restaurante, trazia para casa o que sobrava, para aquele dia, pois não tinha geladeira, se deu ao luxo de comprar um edredom barato, trouxe do acampamento, um saco de dormir, que lavou, desinfetou, era nele que dormia no chão, mas tinha uma coisa, limpava o lugar muito bem, não era porque era pobre que ia viver sujo.

O patrão tinha o mesmo tamanho que ele, lhe deu uma porção de roupas que não usava mais, ele não se incomodava, estavam sempre limpa, lavava tudo na pia do pequeno banheiro, deixava secando no verão com a janela aberta, no Inverno era um problema mas se apanhava.

Não era registrado, ganhava por fora, guardava cada gorjeta que lhe davam, o dinheiro que o homem lhe pagava, escondia, num velho armário do banheiro, por detrás, num saco plástico, gastava o mínimo possível.   Quando acreditou que fazia 17 anos, procurou ajuda de uma ONG para tirar seus documentos, a muito custo, conseguiu que colocasse que tinha 18 anos.   O patrão era malandro, achava que o tinha ajudado, mas ele de tonto não tinha nem um pelo, procurou nas horas vagas algum lugar, quando conseguiu, com um salário melhor, ser registrado, foi franco com o homem, agradeceu muito a ajuda dele, não ia fechar a porta nunca se sabia do futuro.  O homem se surpreendeu, pois soltou que normalmente as pessoas nem apareciam para acertar o resto do salário.   Por isso lhe pagou o mês completo.

Agora aprendia cozinhar outro tipo de comida, era honesto no que fazia.   Aprendia corretamente, nesse trabalhou durante quase dois anos, seguiu assim, quando saiu, procurou outro diferente.

Quando avisaram que tinham que sair do edifício, pois ia ser demolido, recolheu suas poucas coisas, enfiou num saco, escondeu bem o dinheiro, arrumou outro lugar similar, um pouco melhor, pois tinha agua quente, para o inverno, além de calafetação, o caseiro lhe arrumou alguns moveis, que algum antigo morador tinha deixado, uma velha poltrona, um estrado para colocar um colchão, pelo menos tinha um elevador velho, mas que funcionava.

No verão subia para dormir na varanda que tinha em cima. Gostava de dormir olhando as estrelas pensando no que poderia fazer com seu futuro.

Seguia guardando todo o dinheiro que podia.

Escutou um dia, um dos cozinheiros falando de um curso de cozinha francesa, reclamava que era caro o curso, mas foi se informar.  Lhe atenderam bem, explicou sua situação, sobrava uma vaga, como se fosse uma bolsa de estudos.

O francês se interessou por ele, tinha um restaurante em Toronto, viu que ele se esforçava para aprender.  Um dia se insinuou para ele, demorou para entender, não tinha traquejo sexual, nem vivência no assunto, estava sempre preocupado em sobreviver, para pensar nisso.

Foi honesto com o homem, me desculpa, devo estar entendendo mal, sou honesto, não tenho nenhuma prática sexual, em nenhum âmbito, estou mais preocupado em sobreviver.

O professor ficou de boca aberta, pois viu que ele estava sendo honesto.

Perguntou se ele tinha algum dia livre, vou cozinhar no restaurante de um amigo, vejo que me entendes, se eles te veem trabalhar, pode ser que te contratem.

Pediu um dia de licença aonde trabalhava, foi com o professor.  Ele tinha razão o chefe, disse que era raro um americano se esforçar tanto.  O contratou, ganhava mais, mas nem por isso mudou de casa, seguia economizando.  Como ele dizia, não queria que o mundo o pegasse de calças curtas.

Fez tudo para seguir em frente, mesmo nesse lugar.   Agora já comprava roupas simples para ele, mas descobria aonde comprar mais barato, nada de roupas de marcas como via os outros fazendo.   Para ele o mais importante era andar limpo, por sorte a roupa que usava na cozinha, era lavada no próprio restaurante, por isso estava sempre limpo, ao começar o dia trabalhando.

Aprendeu nova maneiras de cozinhar, agora mais refinada, era intuitivo.

Um dia lhe perguntaram se cozinhava em casa, riu, disse que tudo que tinha na cozinha era uma cafeteira para o café, duas taças, um prato, que nunca cozinhava em casa.

Mantinha como desde o primeiro dia seu cabelo rasurado, pois assim não ficava com o cheiro da cozinha. O mesmo fazia com sua roupa, as colocava dentro de um saco de plástico hermético, assim não ficavam com o cheiro da cozinha.   Este lugar tinha um banheiro para tomarem banho depois de sair.

Deste foi convidado, o que para ele era como se sentir subindo na vida, num outro restaurante que só abria de noite, mas tinha que deixar a maior parte da comida elaborada, então trabalhava da tarde até as duas da manhã, quando saia deixando sua parte da cozinha limpa, brilhando, ninguém precisava dizer que o fizesse, entendia que era parte do seu trabalho.

O proprietário o observava.

Finalmente como lhe pagava o salário num banco, colocou todo seu dinheiro lá, mas quando lhe ofereceram um cartão de credito, não se interessou, fazia uma coisa, sabia mais ou menos quanto gastava por mês, isso ele tinha seu esconderijo, para o dia a dia.

Um dia que foi ao banco, um gerente lhe sugeriu que aplicasse seu dinheiro para ir rendendo, tinha já escutado muitas conversas, sobre aplicações, gente que comprava ações, que se podiam perder, aceitou um sistema, que ele nunca perderia o dinheiro que tinha.

Na parte da manhã, fazia todos os cursos possíveis, aprimorava tudo que sabia, no momento fazia um de doces, coisas delicadas francesas.

Quando o que fazia isso no restaurante saiu, ele imediatamente se ofereceu para o lugar, lhe fizeram o teste, de fazer tudo que estava na carta.  O fez, mas perguntou se podia sugerir fazer algumas mudanças, disse que analisaria no mês o que saia mais, o que saísse menos, colocariam receitas novas.

O chefe estava encantado com ele, pois chegava mais cedo, preparava tudo, depois ia fazer seu trabalho normal, não precisou pedir, nem que o próprio chefe da cozinha o fizesse, recebeu um aumento.

Os anos foram passando, ele achava engraçado em notar, que as pessoas o olhavam, mas ele nunca estava interessado nelas, seguia sendo virgem, não tinha pensado nisso ainda, nem se interessado por ninguém.

Na cozinha gozavam dele, mas não era com ele.   Escutava sim os outros falando das decepções, os romances de uma noite, o frustrados que ficavam.  Alguns reclamavam que buscavam um amor, ou alguém com quem pudessem compartir uma vida.

Um dia lhe perguntaram a respeito, num respiro, antes de começarem o serviço noturno.

Não sabia se dizer a verdade ou mentir.  Por sorte foi salvo pelo gongo, pois o chefe lhe chamou para uma reunião, o restaurante no final de semana, teria uma parte fechada para uma festa, queriam saber o que ele poderia sugerir de doces para o final.

Perguntou se era um aniversário, embora ele nunca tivesse tido nenhum, sabia como preparar.

Sim comemoram o aniversário do patriarca de uma família.

Deu uma série de sugestões de pratos, viria uma senhora experimentar tudo.

Achou estranho, que ela o olhasse muito, mas estava atendo em saber se ela gostava ou não.

Preparou tudo como ela pediu, algumas coisas com um dia de antecipação, no dia da festa, preparou o resto logo cedo.   Depois passou a ajudar o chefe da cozinha a preparar o resto, sem reclamar como alguns estava fazendo.

Se escutava claro que eram muitas pessoas.

Quando acabaram o serviço, o patriarca, pediu ao dono do restaurante, que chamassem os cozinheiros, para elogiar o trabalho.

Quando o viu ficou de boca aberta, perguntou seu nome?

Meu pai sempre me chamou de Trevor Aerosmith, mas descobri depois que esse não era seu sobrenome, que nunca soube qual era, mas mantive esse quando tirei os documentos.

Aonde anda seu pai?

Não tenho a menor ideia senhor, os dois um dia desapareceram, nunca mais os vi. Não sei portanto se morreram ou não.

O dono do restaurante não entendia, então fez um sinal de que podiam ir para a cozinha.

Nesse dia todos receberam uma boa gorjeta.  Que como sempre foi parar no banco.

Dias depois estava para entrar cedo para fazer as sobremesas, viu na porta um senhor bem-vestido.  Perguntou se ele era o Trevor Aerosmith?

Sim sou eu, algum problema?

Podemos tomar um café?

Sim, foi com o homem ao café em frente do restaurante.  Este lhe explicou que o senhor que tinha estado no restaurante, ao qual tinha sido oferecido a festa, disse que tu eres igual ao filho que desapareceu, depois de voltar da guerra.  Se podias fazer um teste de ADN.

Eu já disse ao senhor que não tenho ideia aonde estão meus pais, me deixaram num acampamento de Homeless, a partir desse momento, fui sobrevivendo, fui aprendendo a cozinhar, essas coisas.

Mas porque ele quer fazer isso, já procurou seu filho?

Nunca foi encontrado.

O homem insistiu muito, ele tem uma boa idade, gostaria como ele diz, de morrer tranquilo, sabendo ou não que eres seu descendente.

Combinou com o homem, no dia seguinte foi ao médico com ele logo de manhã.

Duas semanas depois apareceu, perguntou se ele tinha livre a manhã do dia seguinte.

Ele lhe explicou, que usava as manhãs para preparar os doces, assim ganhava um dinheiro extra.

Mas no domingo de manhã, como não abrimos, estou livre.

O advogado comentou, que outra pessoa estaria ansiosa.

Ele depois de tirarem seu sangue, seguiu como se nada tivesse acontecido, nunca tinha precisado de uma família, não ia ser agora que sairia procurando, afinal ele nem sabia o sobrenome de seu pai.

Mas no domingo, se arrumou como sempre, nenhuma roupa especial, fez a barba, rasurou a cabeça como sempre fazia, lavou sua roupa interior, depois foi até o restaurante, aonde o advogado lhe esperava.   Não tinha dado a ele o endereço da sua casa, isso era uma coisa que ele não fazia.

Foram para a parte mais fina da cidade, com edifícios residenciais de luxo.

Quando entrou, viu que a família toda estava ali.

Disse bom dia a todos, espero que todos estejam bem.

Foi levado a uma biblioteca, aonde estavam sentados o senhor, além da senhora que tinha conhecido no dia da prova do restaurante.

Ela se apresentou, bem como seu pai, lhe perguntou se o sobrenome lhe dizia alguma coisa?

Isso eu já respondi, não, se tem a ver como meu pai, eu só tinha meu nome anotado num pedaço de papel, pois o homem que nos ensinava a ler, escrever, no acampamento perguntou um dia, riu muito quando ele disse Trevor Aerosmith, só muito tempo depois fui descobrir que era o nome de um grupo musical, que aliás não gosto.

Gostas de música?

Ele ainda pensou por que tanta pergunta.   Mas respondeu nunca tive tempo para parar para ficar escutando nada.   Agarrei a primeira oportunidade que tive, aos doze anos, para aprender a cozinhar, para deixar de comer comida do lixo, me dava muita vergonha pedir dinheiro na rua para comprar comida, então comia do lixo dos restaurante.

A cara dela era impressionante.

Bom, fez um sinal ao seu pai.

Meu filho, o resultado dos teste deu positivo, fizemos em outro laboratório também, deu a mesma coisa.  Ao que parece você é filho do meu filho Trevor, que desapareceu, logo que voltou da guerra.

Ele ficou olhando serio o homem, não sabia o que dizer.

Sinto muito, eu não preciso de uma família a estas alturas da vida, vejo pelo lugar em que vivem que devem ter dinheiro, mas sou honesto de dizer que não me interessa nada de vocês.

Se levantou, disse bom dia, apertou a mão do homem que devia ser seu avô, desculpe decepciona-lo, mas meus pais, um belo dia saíram para comprar drogas, nunca voltaram, eu aprendi a viver, me defender sozinho, posso dizer que sobrevivi.

Virou as costas, saiu, atravessou o salão interior, até a porta de saída, com todo mundo olhando para ele, foi dizendo até logo, passem bem.

Desceu pelo elevador, nem sabia como ir embora dali, foi até uma entrada do metro, viu qual lhe serviria, foi embora.

Pela primeira vez, chegou em casa, se jogou na cama como estava, cruzou as mãos atrás da cabeça como sempre fazia, tinha pegado esse hábito, porque inicialmente não tinha travesseiro, depois por hábito para pensar.

Não tinha com quem falar sobre o assunto.  Mas claro era bom observador, viu a cara da família que o observava ao entrar, com certeza pensavam mais um para compartir a herança do velho.

Tomou uma decisão, tinha o telefone do dono do restaurante, sempre o tinha tratado bem, o chamou, perguntou se podia conversar com ele.

Foi até sua casa, contou o que tinha descoberto, não quero nada dessa gente, meu medo é que comecem a aparecer pelo restaurante, preferia me afastar daqui.

De uma certa maneira, lhe contou como tinha sido sua vida, não quero nada deles.

O que o senhor recomenda?

Eu não gostaria de perder meu melhor empregado, se eu fosse você enfrentaria a família, se começam a incomodar, peça uma ordem de afastamento, isso posso conseguir com o advogado da empresa.   Mas não fuja, não faça como teu pai, pois no momento que faças isso, nunca mais deixaras de fazer.

Agradeceu muito ao homem.

Esse disse que tinha uma curiosidade a respeito dele, nunca te vi perdendo tempo, falando em romances, ou discutindo futebol, ou mesmo parando o trabalho para sair para fumar um cigarro.

Nunca tive romances, o resto incluído, tinha que sobreviver, quando comecei a trabalhar no primeiro restaurante, foi porque o dono me pegou fuçando no lixo atrás de comida, tinha vergonha de pedir dinheiro, era alto, tinha 12 anos, me deu o meu primeiro trabalho, mas sem registro. Quando fiz 17 anos, ou acho que tinha essa idade, nunca soube quantos anos certos que tinha, procurei uma ONG, eles arrumaram minha documentação, foi então quando descobrir que o meu sobrenome era de uma banda de música, deixei igual, embora quando escutei os dito cujos, não gostei.  Nunca procurei pelos que seriam meus pais, pois imaginei já que andavam nas drogas, ou tinham morrido, ou desaparecido.   Eu não queria ir para um orfanato, primeiro vivi num edifício de okupas, depois quando já tinha dinheiro, fui mudando, agora vivo num lugar decente, simples mas decente.   Meu primeiro patrão me ensinou que eu devia andar sempre limpo, pois isso, coloquei na minha cabeça, que o meu espaço de casa, bem como aonde trabalho sempre devem estar limpos.

No dia seguinte quando chegou, o advogado estava lá com a senhora, que pelo que tinha entendido era sua tia.   Disse que se não o deixava em paz, pediria uma ordem de afastamento, não estou interessado no vosso dinheiro, quero somente seguir meu caminho, tinha pensado em fugir da cidade, mas meu chefe me disse que não devia fazer isso.

Não sabia, tampouco imaginei qual seria o nome do meu pai, ou da minha mãe, por isso, sempre manterei o de Aerosmith, não quero vosso sobrenome.  Financeiramente estou bem, não preciso de nada mais do que eu já tenho.

A cara da senhora era espetacular, sem saber ou não se acreditava nele.  Pediu desculpas, mas tinha que trabalhar, espero que disfrute de vir comer aqui, mas jamais me chamem. Por favor.

Entrou para trabalhar, tive que se concentrar, tinha medo de errar alguma receita.

Nunca mais os viu, tempos depois escutou o dono do restaurante falando de um curso em Paris, perguntou em particular a ele se podia fazer, tinha dinheiro guardado.

O homem lhe disse que lhe daria uma resposta no dia seguinte.

Se sentou com ele, perguntou se ele pensava em voltar?

Sim, só quero saber mais, veja as sobremesas, eu desfruto muito fazendo, mas acabam sendo repetitivas, eu gosto sempre de fazer coisas novas, descobrir como fazer.

Então tenho uma proposta, pago a metade do curso, bem como a viagem.

Agora quem tem que pensar sou eu.  Pois ficaria em divida com o senhor, nunca gostei disso, ter divida com ninguém, nunca comprei nada a prestação, ou como o senhor possa imaginar. Prefiro eu mesmo pagar tudo, tenho dinheiro economizado para isso, já olhei inclusive um voo que me saia barato, um pequeno hotel, afinal o curso são só vinte dias.  Deixarei a maioria dos doces congelados, assim cada dia, teria que retirar somente o que se fosse usar.

A cara do homem era fantástica, acabou contando que a família o tinha procurado para que ele intercedesse, mas rejeitei, depois se ofereceram para comprar o restaurante em teu nome, de novo rejeitei.

Por favor nunca ceda a eles, porque senão eu iria embora.

Preparou tudo, só comprou abrigos de segunda mão, porque seria inverno em Paris.

Conjugou fazer curso, com ir pelos lugares mencionados pelo professor que tinha tido, para comer, imaginar como se fazia isso ou aquilo.

Ao mesmo tempo conheceu os lugares emblemáticos, um belo lugar para acabar a velhice, ao mesmo tempo que pensava, que idiotice, tinha visto tanta gente morrer jovem no acampamento, nunca tinha tirado da memória, um jovem ao qual faltava uma perna, morto com a seringa ainda presa ao braço.   Por isso tinha horror a palavra drogas.

Quando voltou, os senhores do edifício, lhe fizeram uma festa imensa.  Achou estranho, mas acabou descobrindo, o caseiro lhe disse que tinham lhe oferecido dinheiro para entrar no teu apartamento, eu me neguei, nunca mencionaste essa senhora que chegou aqui com um carro com chofer.  Me soltou que queria melhorar teu apartamento.  Lhe disse que sem tua autorização nada feito.

No restaurante lhe fizeram uma festa, nesse mesmo dia, preparou uma receita nova, que o chefe da cozinha provou, bem como o dono do restaurante.  Uau disse ele.  Como pretendes fazer?

Bom aprendi muita coisa, bem como imaginei não gastar todas a ideias de uma vez.  Se mudamos radicalmente a carta, os clientes vão estranhar, então penso que o melhor seria, fazer de uma maneira simples, cada semana retiramos o menos vendido, incluímos uma coisa nova, se faz sucesso, continua na lista, senão cancelamos, incluímos outra.

Mas seguiu sua vida como se nada.

Um dia o proprietário o chamou ao escritório, lá estava a senhora, ela estendeu a mão, sou tua tia Helene, meu pai está muito mal, quer te ver antes de morrer, te peço por favor que vá visita-lo, arrumarei de uma maneira que toda a família não esteja lá para te incomodar.

Assim fez, ele ficou com pena do velho, deitado numa cama imensa, num quarto que era maior que seu apartamento.

Segurou a mão dele, ele pediu que ele se aproximasse para olhar bem seu rosto.

Pediu que abrisse a mesa de cabeceira, tens aí uma carta, minha para ti, mas só abra depois que eu morrer.   Peço desculpas por tudo.

O senhor não tem que me pedir desculpas, talvez eu tenha sido mal-educado, mas cresci me virando sozinho, uma ideia de família me aterra, não saberia como me comportar com uma família como tem o senhor.

Me fale de sua viagem a Paris?

Contou dos cursos que tinha feito, coisas que tinha aprendido.

Lhe perguntou se tinha aprendido a fazer um doce que quando ele ia, visitava esse restaurante para isso.

Ele riu pela primeira vez, meu professor daqui falava nesse doce, fui lá provar, depois aprendi a fazer no curso que fiz.

Como amanhã é domingo, mandarei alguém trazer para o senhor, ou sua filha pode ir buscar.

A filha que estava ali, sorriu, eu irei papai.

Ele segurou sua mão outra vez, disse nela podes confiar, sempre respeitara tua vontade, sua grande lastima, foi nunca ter conseguido encontrar teu pai.

Se despediu dos dois, ela queria mandar o motorista o levar, ele disse que não se incomodasse, pegaria o metro.   Só pediu que ela nunca voltasse aonde ele vivia, isso o incomodava.

Foi embora, no dia seguinte preparou o doce, pediu para o proprietário avisar sua tia.  Um carro veio buscar, no final do dia, lhe chamaram para atender um telefonema, era o velho para agradecer, foi o meu melhor presente em muitos anos, obrigado meu filho.

Ele agora uma vez por semana mandava para o seu avô o doce mas não ia até la, não tinha nada para falar com ele.

Sua tia Helene, lhe avisou da sua morte, pelo menos morreu em paz, em saber que tem um neto que é melhor que os filhos que ele criou.

Lhe avisou da cerimonia do enterro.  Foi com o proprietário do restaurante.  Assistiu a mesma, mas quando lhe convidaram para a recepção, pediu desculpas mas tinha que trabalhar.

Dois dias depois o proprietário lhe chamou, estava rindo, te livraste de uma boa.

Porque perguntou ele.

Teu avô deixou a empresa para tua tia, que não tem filho nenhum, além de deserdar todos os que nunca fizeram nada na vida, que sempre viveram pendurados nele.

Todo o dinheiro que tinha será repartido por ONGs, que cuidam dos homeless, em nome do teu pai Trevor Fustemberg.

Nem ele sabia que esse era o sobrenome de seu pai.  Ele tinha firmemente decidido que seguiria usando o seu Aerosmith.

Um dia foi ao banco para analisar suas finanças, quando lhe apresentaram, tinha um valor incrível, falou como gerente, não tenho todo esse dinheiro.

Ele foi depositado a mando do senhor Fustemberg, quando fizeram isso, disse que tinha deixado uma carta para ti.

Ele tinha se esquecido completamente da carta que tinha entregado em mãos, a tinha guardado.

Quando chegou em casa a localizou numa mesa que guardava suas coisas, tinha se esquecido completamente dela.

Apesar de ser tarde, estar cansado, leu.

Querido neto,

Me deste uma lição muito merecida, eu sempre comprei meus filhos com meu

Dinheiro, teu pai foi o único que sempre foi rebelde a isso.

Entrou para o exército, como uma maneira de fugir de meu controle.

Voltou destroçado, eu queria que fosse para um hospital particular, para que ele

Não tivesse que conviver com a gente que estava ali, que me horrorizava, mas ele

Escapou, indo viver nas ruas com os que tinha passado pelo mesmo que ele.

Nunca mais o encontrei, imagino que tenha adotado o sobrenome Aerosmith que

Era seu grupo de rock favorito.

Minha filha Helene, nunca me perdoou por isso, ela amava o irmão, o procurou como uma louca, por isso confie nela.

Os outros ao longo dos anos, desfrutaram de todo meu dinheiro, já lhes dei dinheiro suficiente a vida inteira.   No dia que apareceste aqui, me perturbaram, tinha medo de que te favorecesse.

Por isso no meu testamento, não consta para nada, mas não sou um velho tonto.  Sei que um dia iras querer realizar teu sonho, ter um belo restaurante francês, por isso te deixo um pouco de dinheiro para isso, não corresponde nem a um terço do que o resto já usufruiu.

Minha filha Helene, ira contribuir com ONGs em nome de teu pai, para ajudar aos incompreendidos que estão pelas ruas do pais inteiro.

Que eu mesmo nunca entendi.  Nem podia imaginar que meu filho vivesse assim.

Perdoe esse velho egoísta, que sempre pensou que sabia de tudo, acabou que descobri que não sei de nada.

Deus te abençoe

Trevor pai.

Ficou emocionado, a guardou bem guardada, a iria colocar num cofre do banco, bem como esse dinheiro, não queria que estivesse na sua conta.

Sem querer do envelope caiu uma corrente com um coração, ali estava uma foto de seu avô quando jovem, com sua avô,

No dia seguinte foi ao banco, alugou uma caixa forte, retirou o dinheiro da sua conta, bem com o envelope, guardou tudo ali.

Uma vez por mês sua tia Helene vinha jantar, depois esperava para comer com ele, alguma receita nova de doce.

Contava como ia as ajudadas, entendi que não posso modificar a vida de todos, mas sim colocar uma espécie de ambulatório por perto, que os ajude, bem como um albergue, para tomarem banho, cortarem cabelos, que tem um consultório médico, o primeiro a funcionar é aonde você me disse que vivia.  Já esta funcionando, ninguém reconhece o nome do teu pai, como apelido da família, por isso, optei a usar o de Trevor Aerosmith.  Que no fundo é bom, pois meus irmãos e sobrinhos não entendem.

Todos fizeram universidade, agora fora os benefícios que sempre tiveram do meu pai, cada um tem um bom apartamento, uma mesada, mas tem que trabalhar, estão tendo dificuldades, pois nunca fizeram isso.

Estou liquidando toda a empresa como ele me pediu, investindo o dinheiro nas ONGs por todo o pais, quando funcione sozinho, vou realizar o sonho de minha vida, viver um tempo em Paris, estudar história da arte que foi meu sonho.

Um detalhe, teu pai adorava ficar na cozinha vendo as senhoras que trabalhavam ali, fazerem comida, dizia que um dia seria um grande cozinheiro, achei essa foto no meio de suas coisas.

Se parecia a ele, na mesma idade, ele no meio das cozinheiras.

Agradeceu a foto, comprou um porta foto, a colocou na sua mesa que usava para estudar.

Agora fazia um curso de francês, queria saber falar direito para um próximo curso.

Tempo depois o proprietário, alegando que estava ficando velho, sem herdeiros, propôs a ele, bem como ao chefe da cozinha uma sociedade.

Foi ensinando aos dois como administrar o restaurante.

Primeiro pensou que estava apaixonado por ele, pois era a primeira pessoa que se preocupava por ele, era mais velho que ele vinte anos, um dia lhe disse isso, sei que o senhor é gay, esta sozinho, podia me ensinar a fazer sexo.

A cara dele foi ótima, Jean Paul Lausde, disse que a muito tempo se interessava por ele, mas tinha medo, pela diferença de idade.   Mas se completavam, só refutou muito ir viver com ele, mas acabou aceitando, ou melhor entraram num acordo, um outro apartamento, aonde passariam a viver, mais simplesmente.   Pela primeira vez, preparava um café da manhã para outra pessoa, Jean Paul dizia que estava vivendo uma segunda juventude.

Lhe ensinou muitas coisas, viveram juntos mais de 15 anos.   Quando ele morreu, deixou o restaurante para os dois sócios.  Mas seu chefe de cozinha, queria partir para outros voos, concordaram em vender o mesmo.

Ele iria passar uma temporada em Paris, tinha ido duas vezes com Jean Paul, nas férias quando fechavam o restaurante, tinha conhecido agora a cidade de outra maneira.  Com o patrimônio que tinha construído, nunca mexeu no dinheiro do avô poderia ter uma vida por um tempo por lá bem simples.

Procurou pela tia, para dizer o que tinha resolvido, soube que já fazia tempo que vivia em Paris, conseguiu seu endereço.

Arrumou uma bagagem, simples, alugou um apartamento, pequeno, mas como ele gostava, limpo.

Quando a procurou, deu que ela tinha uma loja de antiguidades, tinha até remoçado, pela primeira vez a deixou abraça-lo, tinha aprendido isso com Jean Paul.  Antes dele morrer tinham se casado, para ele não ter problemas com o apartamento que tinham juntos, bem como a parte do restaurante.

Agora uma vez por semana se encontravam para almoçar ou jantar.  Ele estava aproveitando para fazer pequenas viagens para conhecer melhor o pais.

Um dia sua tia lhe contou que eles eram judeus, que na verdade seu pai Trevor, tinha adotado esse nome ao entrar nos Estados Unidos.   Toda nossa cultura era de aqui.  Aqui voltei a frequentar a sinagoga, que ele odiava.

O foi apresentando para muita gente que ela tinha conhecido.  Foi quando teve uma paixão impressionante com um escritor, riu muito quando este lhe fez um comentário.

Ela lhe disse como podia ele ter impressionado a pessoa mais chata que ela conhecia, a Flaubert Jean, ele inclusive usa o nome invertido, loucura da cabeça dele.  Me pediu o número de celular.  Deve ter ficado mais surpresa ainda, quando ele disse que podia dar.

Começaram os dois a se encontrar para comer, um verdadeiro namoro.  A primeira vez que estiveram na cama, foi como uma explosão, Flaubert dizia que com ele podia falar, sem ter uma postura de intelectual, pois lhe entendia.  Agora iam a todos os lugares juntos, ele na cozinha da casa dele, preparava pratos para ele.  Ele que era muito magro dizia que ia engordar, não somos jovens assim para esse tipo de comida.

Demoraram a irem viver juntos.  Mas chegou o momento que um já não sabia viver sem o outro, os conhecidos estranhavam, estavam acostumados ao mal humor que sempre tinha, agora era agradável, sorria, quando não queria dizer nada.

Quando começavam alguma conversa sobre filosofia, ou outra coisa, ele voltava ao seu ataque de mal humor, se vocês nunca viveram, a maioria nunca trabalho, como podem querer consertar o mundo.

Trevor se matava de rir, pois ele pensava a mesma coisa.

Trouxe todas suas coisas que NYC, agora convivia mais com sua tia Helene, que sempre lhe contava alguma coisa de seu pai.  Ela não se perdoava, ter aceitado a vontade de seu pai, com relação ao irmão, ele antes de fugir para o exército, meu pai já tinha um casamento combinado para ele, bem como que assumisse suas empresas.

Quando ele desapareceu, fiquei desesperada, perdia o único irmão com quem podia falar, sonhar, compartir desejos, claro nenhum deles encaixava nos objetivos de teu avô.

Mas nunca descobri aonde poderia estar, pois usava esse novo sobrenome, aliás pelo que descobri, foi com ele ao exército.   Depois que te conheci, procurei descobrir quem era tua mãe, mas nada foi possível.  Nos acampamentos nunca estão interessados na vida das outras pessoas. Ninguém sabia nada.

Sabe as vezes penso, que com isso ele me ensinou a sobreviver, o pouco que me lembro, era que sempre dizia bom dia para todo mundo, estava sempre sorrindo, me dizia mesmo que teu sorriso seja triste, não importa, sorria.