lunes, 9 de enero de 2023

FRIEND'S FOREVER

 


 

 

Olho para trás, sinto um vazio imenso.  Sou o único que resta de uma amizade entre três amigos, ontem me aposentei, a festa foi concorrida, embora sentisse já esse vazio, faltavam meus amigos mais íntimos ali.  Olhava pelo vasto salão, cheio a rebentar, mas não os encontrava, me dei conta que finalmente estou ficando velho, que olho para trás procurando esses amigos que já não estão.

Foram tantos anos de amizade, que só de pensar, as lagrimas escorrem pela minha cara, sem vergonha nenhuma.  Neste casarão que pertenceu a minha família por gerações, que em breve ficará vazio, o deixarei para uma instituição de caridade, que o venda, faça bom uso dele.

Olho os quadros de J. Mara pelas paredes, fico pensando, se pudesse levar para o outro lado, qual levaria, todos tem grande importância na minha vida.  Mas acredito que levaria, um que tenho na minha mesa de cabeceira, que Jiro fez, quando estávamos na escola, é um desenho a lápis, aonde estamos os três.  Ele dizia que tinha se colocado no retrato, porque sempre seriamos amigos de alma.   Grande verdade.

Nos conhecemos no primeiro dia de aula, os três descobrimos depois, nascemos com dias de diferença, mas na mesma semana.  Íamos de mãos dadas com nossas mães, os três diferentes como gotas de água. Jiro descendente de japonês, Bruno de italianos, eu de irlandeses, nada mais distantes um do outro.  Mas nós olhamos, vimos que o resto da turma não interessava.

Nos sentamos todos juntos, um perto do outro, quando a professora disse o nome de cada um, o guardamos para sempre, no recreio já nos juntamos.

Cada um também tinha pais com empregos ou trabalho diferentes, meu pai, era advogado, o do Jiro tinha um restaurante de Sushi, além de dar classe de artes marciais, o do Bruno era gerente de um restaurante italiano em Little Italy, mas vivíamos todos no mesmo quarteirão em Staten Island.

Acabou que nossas mães tão diferentes uma da outra, acabaram amigas, pois todos os dias iam nos levar, como buscar.  Com o tempo, começaram depois de nos deixar, irem tomar um café, fazer compras juntas, foram amigas para o resto de suas vidas.

Já nossos pais, foi mais difícil, meu pai dizia que o pai do Bruno era da Máfia, pois o restaurante que dirigia pertencia a uma família mafiosa.  Descobriria depois que ele odiava esse trabalho, quanto ao pai do Jiro, não gostava por causa das artes marciais.

Mas sem querer acabaram amigos. 

Sem dúvida nenhuma devíamos ser uma grande decepção para eles, nenhum dos três, gostava muito do esporte, mas nos saímos bem nas aulas do pai do Jiro.  Acabaram indo nos ver lutar, nisso na verdade erámos bons, todos chegamos à faixa preta a categoria máxima, creio que foi isso que no final os uniu.   Num dos campeonatos, defendendo Staten Island, ganhamos os três, fizeram uma comemoração conjunta, imagine a confusão de comida, churrasco, com sushi e macarrão, isso virou uma coisa de sempre, pois passamos a comemorar nossos aniversários juntos.

Depois já maiores, não necessitávamos que nossas mães nos levassem, os três caminhávamos para a escola todos os dias, o ponto de partida era a esquina da minha casa, dali partíamos.

Começamos a aprender artes marciais, pois, o famoso bullying que se fala hoje em dia, já existia.  Assim nos defendíamos uns aos outros.  O que incomodava os outros, era que estávamos sempre conversando, fazíamos tudo juntos, um ia ao banheiro, os outros dois também, se jogávamos bola, ou basquete, na mesma equipe sempre.  Não adiantava o professor tentar nos separar, nos recusávamos a fazer o que ele dizia.

Em contrapartida, fomos sempre as notas mais altas da classe, um ensinava ao outro o que não entendia.  Nas provas os professores nos separavam, pois achavam que copiávamos um do outro, o que não era verdade.

Quando chegou a idade de descobrir o sexo, o fizemos juntos, nos escondíamos no porão da casa do Bruno, experimentamos tudo.  No fundo creio que nos amávamos muito, quanto ao amor de um pelo outro, descobri muito mais tarde que era como um círculo.

Mas sexo, descobrimos com um vizinho do Bruno.  Esse um dia nos contou que tinha um vizinho, inspetor de polícia, que a mulher tinha abandonado, vivia ao lado de sua casa, de sua janela dava para ver o quarto do homem.  Ele chegava em casa, ficava de cuecas nada mais que isso.

Tinha um corpo fantástico.  Descobriu um dia que Bruno o olhava, mas nunca fechou cortina, nada disso.

Um dia nos pegou os três olhando através da cortina, mas sabia, que estávamos os três nos masturbando por causa disso.

Nessa época, nossas mães, voltaram a trabalhar, minha mãe era secretária em um escritório de advogados, a mãe do Bruno, era caixa no restaurante que trabalhava seu pai, a do Jiro, ajudava o marido no restaurante.  Então estávamos depois da escola os três juntos.

Teve um ano que pedimos o mesmo de presente de aniversário, um Walk Talkie, nunca deixávamos de nos falar o tempo todo.

Dias depois, estávamos indo para a casa do Bruno, quando vimos fumaça saindo por baixo da porta da garagem do homem, tentamos levantar a porta da mesma, era impossível, Bruno sabia que ele nunca fechava a porta da cozinha, entramos por ela.  Ele estava na garagem, com o motor ligado, já estava desmaiado, Bruno abriu a porta do carro, desligou o motor, entre os três o arrastamos para a cozinha. 

Semanas antes aprendemos numa das aulas, os primeiros socorros.  Começamos a nos revezar a fazer respiração assistida.  Gostei de colocar meus lábios em cima do seu.

Quando ele voltou a si, ficou olhando para nós, dava pena.

Estava completamente nu. Jiro lhe trouxe água, ele só perguntou por que o salvamos, ele não queria viver, se sentia sozinho.

Se tornou a partir desse dia nosso mentor.  Uma coisa nos ligava, os três amávamos os livros, ele também, por toda a casa, estava cheia de livros.

Ele se levantou, colocou um shorts, nos contou tudo.  Sua mulher o tinha abandonado, porque descobriu que ele era gay.  Se divorciaram, em seguida ela tinha se casado com outro.

Meu amante também me deixou, pois queria aventuras, minha vida perdeu sentido.  Viu que Jiro tinha um livro nas mãos que tinha encontrado no chão.  Sem querer começamos a comentar o mesmo, os três já conhecíamos a história.  Foi algo sensacional, cada um tinha um ponto de vista diferente, quando vimos estávamos sentados na cozinha, comendo uma pizza, falando de livros.

Por aonde se andava na casa, tinha livros.  Ele disse que era sua paixão desde criança.

Quando falamos em sexo, ele nos olhou, perguntando se fazíamos sexo entre os três.

Rimos muito, lhe dissemos que a muito tempo, era esse nosso grande segredo.

Quando vimos estávamos na cama com ele, seu corpo era alucinante. Fomos amantes dele, mais de 5 anos.  Nos seus dias livres nos avisava, nos levava a praia, muitos pensávamos que éramos seus filhos adotivos, nunca desmentimos.

Chegou um momento que começou a frequentar o lugar que aprendíamos artes marciais, um dia se apaixonou por um japonês, passaram a viver juntos, através do pai do Jiro, se tornou amigo dos nossos pais.  Descobríamos anos mais tarde, que seguia fazendo sexo com Bruno.

Chegou a época de ir à universidade, discutimos muito com nossos pais, bem como entre nós, com ele, Bernal tinha uma cabeça para entendermos perfeita, não colocava as dúvidas que nos colocavam nossos pais.   Não argumentava, mas sim nos fazia pensar.

Eu queria fazer direito, bem como o Bruno, já Jiro queria fazer Belas Artes, ele era o mais decidido, já Bruno queria fazer direito, para me acompanhar.

Fomos juntos a universidade, Bernal nos ensinou a conduzir, nos deu de presente o carro que tinha sido de sua mulher, estava a tanto tempo abandonado na garagem, mandou arrumar o motor, nos deu de presente no Natal.

Creio mesmo que as três famílias se juntaram por uma coisa, meus pais, tinham imaginado ter muitos filhos, principalmente por causa da casa imensa que ele tinha herdado, mas minha mãe quase morreu no meu parto, ficou incapacitada para ter mais filhos.  A mãe do Bruno foi a mesma coisa.  Já os pais do Jiro, porque queriam ter um filho só, mas que pudesse ter futuro, que eles não tinham tido.

Bruno também era o primeiro da sua família a ir à universidade, o sonho de sua mãe.  Mas ao contrário dos nossos companheiros, não saímos de casa.  Íamos de manhã os três juntos, voltávamos de tarde, ainda usávamos o Walk Talkie para nos comunicar, até surgir o celular.

Fizemos outros conhecidos, mas amigos nem pensar.

Eu estava entusiasmado com a universidade, já o Bruno não.  Um dia tivemos uma conversa séria com o Bernal.  Ele tinha escutado seus pais, falando com um parente, que era mafioso, esse dizia que com o Bruno como advogado, não iam mais precisar contratar nenhum advogado.

Isso o colocava com um pé atrás.   Ele era intuitivo, inteligente, Bernal o questionou de que lado queria estar.   Ele respondeu que da lei.  No último ano da universidade, a deixou, conversou com seus pais primeiro a respeito, entrou para a academia de polícia.  Com o curso mesmo inacabado, entraria depois como inspetor. 

Perdi meu companheiro de debates sobre as coisas do curso.  Jiro sim tinha conhecido muita gente louca, nos apresentou, mas ele nunca se drogava como os outros.

Foi interessante, pela primeira vez tínhamos aventuras com outros rapazes.  Nessa época Bernal, tornou a ficar sozinho. Seu companheiro disse que estava farto de dividi-lo conosco, pois se estávamos juntos, a conversa girava em torno ao que estávamos fazendo.

Agora ia conosco pela noite de NYC, de uma certa maneira nos protegia, contra os que andavam nas drogas essas coisas.  Descobri anos depois, que todos encontrávamos uma maneira de estar com ele só para nós.   Eu adorava ter longos papos com ele, fazíamos sexo, depois ficávamos fumando, conversando sobre lei, como eu devia encarar o que devia fazer a seguir.  Nunca escondemos um do outro isso, mas creio que ele gostava mesmo era do Bruno.

Me questionou muito se queria ser como meu pai, um advogado de um escritório, ele achava isso chato, me dizia que eu devia tentar primeiro ser fiscal.  Fazer uma carreira, além destes terem um bom salário.   Podes ser que ganhes menos, mas poderás construir uma carreira.

O mesmo fazia com o Jiro, um dos programas que fazíamos, por causa dele, era irmos a exposições, ao museus, ver o que havia de novo.  Isso gerava papos homéricos, em seguida, pois com ele podíamos falar de tudo.

Talvez por isso de uma certa maneira estávamos apaixonados por ele.  Ele gostava disso, dizia nunca me encaixei em turma nenhuma, mas com vocês me sinto vivo.  A única coisa que dizia era que nunca entrássemos para o exército, para não ser bucha de canhão.

Os livros agora o comprávamos de uma maneira interessante, cada um comprava um, as visitas as livrarias eram todos juntos, íamos passando um para o outro, inclusive, fazíamos anotações em papeis a parte, marcando o número da página, o que pensávamos a respeito.

Depois claro isso gerava largas discussões.  Não sei se nossos pais, algum dia desconfiaram de alguma coisa, mas nunca falaram a respeito.

No inverno alugamos uma vez uma cabana, para ir esquiar, mas nunca fizemos tanto sexo como desta vez.

Eu tinha uma certa paixão pelo Jiro, seu corpo liso, sem pelos, me excitava sempre. Eu pensava que ele também, pois estava sempre me desenhando.  Hoje pela casa inteira, tenho retratos meus.

Bruno conseguiu ir trabalhar na mesma delegacia do Bernal, esse foi seu instrutor durante muito tempo. 

Eu entrei para os escritórios de fiscais, como ajudante de um que me indicou o Bernal, o sujeito era mal-humorado, estava sempre com a cara fechada, mas nunca aprendi tanto com alguém como ele.  Me dizia leia todo o processo, analise, mil vezes, de todos os ângulos possíveis, olhe bem as provas, bem como as analises dela.  Não deixe escapar nada.  Foi o melhor professor que tive.   Um dia me soltou em plena cara, me olhando muito sério, estávamos almoçando no escritório, estou apaixonado por ti.

Fiquei olhando para ele de boca aberta, sabia que tinha se divorciado a muitos anos atrás, Bernal comentou alguma coisa a respeito. 

Um dia acabei na cama com ele, tudo ficou mais completo.  Mas era um sujeito fechado em si mesmo.  Tinha sido capitão do exército, as vezes quanto tinha muita pressão, tinha pesadelos.

Se agarrava a mim, como se fosse seu salva vida.

Tudo acabou de uma maneira bruta, acabava um julgamento, que tínhamos conseguido a vitória, ele estava falando com os jornalistas, eu estava mais atrás, de repente vi saído entre as colunas, um sujeito com uma arma na mão, gritei, mas aquela confusão de jornalistas falando ao mesmo tempo, ele não escutou, levou um tiro na cabeça.  Fiquei ali segurando a mesma nos meus joelhos.

Foi meu primeiro encontro com a morte, uma bofetada das duras.  Mas meus amigos estava aí para me ajudar.

Nessa época, dividíamos um apartamento imenso no Soho, ainda não era famoso, Jiro acabava de ter sua primeira individual, já tinha dado entrevistas na televisão, era cotado como uma revelação, seus trabalhos tinha influências orientais, bem como adorava usar papel. Depois de ganhar um bom dinheiro, foi passar um ano no Japão, aprendendo técnicas de lá.  Nas férias fomos os outros passar uns 20 dias com ele.

Na volta, outro pancada na cabeça, meu pai morreu, de uma maneira totalmente idiota, vinha andando pela rua, tinha ido visitar um cliente, de repente, começou um tiroteio na rua, voaram sua cabeça.   Mas claro, todos se juntaram para nos apoiar.

Minha mãe tomou uma resolução dura, fechou a casa, como eu vivia na cidade, ela foi viver com uma irmã dela, que era viúva, essa sim falava das nossas vidas.  Dizia que não entendia esses garotos, todos bonitos, solteiros.  Minha mãe respondia, que a vida era nossa, que podíamos fazer o que quiséssemos com ela.

Depois foi o pai do Bruno, uma briga entre facções da Máfia, entraram pelo restaurante adentro dando tiros, ele se jogou em cima de sua mulher para defende-la, acabou ele morrendo.

Todo mundo junto outra vez.   Minha mãe, que estava farta de sua irmã, voltou para casa, convidou a mãe do Bruno para viver com ela.  Anos depois foi a mãe do Jiro, seu pai teve um largo processo contra o câncer, as três se juntaram para cuidar dele.

Depois o mesmo, as três foram viver juntas.  Claro, aniversários, todas as festas, nos deslocávamos para lá.  Bernal estava para se aposentar, as ajudava no que elas não podiam resolver.   Depois da morte do meu namorado, me agarrei a ele como um salva vidas, os dois tinham a mesma idade.  Ele ria, estava com os cabelos ficando branco.  Talvez dos três foi o quem mais perto esteve dele.  Analisava isso, como cada um o via.   Para Bruno ele era como o mestre, para o Jiro, alguém que o entendia na sua arte, na sua busca.  Mas a mim, tinha me orientado, podia discutir com ele os casos.  Quando me nomearam fiscal, pedi para que ele viesse trabalhar comigo, como meu inspetor.   Foram os melhores anos da minha vida.  Todo mundo achava natural, ele estar sempre ao meu lado.

Foi talvez a melhor época da minha vida, era a pessoa que podia discutir de tudo.  Os outros sentiam ciúmes, isso se via, mas claro, o dividia menos com eles.  Bruno estava num relacionamento com um sujeito que nenhum de nós gostava, mas era a vida dele, ninguém interferia, estávamos sempre para ele, quando vinha lamber suas feridas.

Jiro ao contrário tinha se fechado completamente, o mais importante para ele era seu trabalho.

As vezes passava semana sem vê-lo, mas quando nos encontrávamos, eram horas falando, cada um do seu trabalho.   Sua última exposição tinha sido um sucesso tão grande, que o convidaram para fazer uma em Paris.  Lá foi ele, mas nós falávamos horas pelo telefone, quando tiramos férias fomos visita-lo.  Bernal lhe perguntou num jantar, por que ele não tinha namorado?

Soltou que a pessoa que ele amava, estava com outra pessoa.

Vimos sua exposição, saímos pela cidade com ele, nos mostrou o lugar que ele adorava, ficaria mais dois anos por lá.  Desta primeira vez, um dia que Bernal saiu para comprar um presente de última hora, ele se agarrou a mim, fizemos sexo, em pé no corredor do seu studio.  Me disse ao ouvido, te amo muito.

Depois descobri que Bernal tinha feito de propósito, me diria que não sentia ciúmes, porque sabia que ele me amava.

A seguinte perda balançou todo mundo, Bruno morreu no famoso 11S, estava justamente no andar que entrou o primeiro avião, para prender um homem envolvido numa desses desfalques piramidais.   Não sobrou nada dele, se sabia que estava ali, pois tinha falado instantes antes com seu superior, morreu ele, bem como seu companheiro, além de outros dois policiais.

Foi uma porrada em toda regra.  Para Bernal, foi outra vez como perder mais um amigo querido, levamos todos muito tempo para nos recuperar.

Nesse dia os dois fomos buscar o Jiro no aeroporto, pois voltava para NYC, vimos de longe o que acontecia.   Foi uma tragédia impressionante.   Sua mãe quando recebeu a notícia, teve um enfarte fulminante, ele era seu garoto, tinha falado com ele essa manhã.

A ele não conseguimos enterrar, o enterro foi o dela.   Depois foi como conta gotas, minha mãe, a do Jiro, ao final ficamos os três.  Convenci o Jiro de usar dois quartos grandes da casa como studio, nos dois também voltamos a viver nela.

A tristeza do Bernal, era impressionante, se aposentou, se sentia desorientado, foi quando descobrimos que tinha Alzheimer, nos tocou aos dois cuidar dele.   Na mesma época, consegui meu cargo final, ser juiz. Tinha um bom salário, sabia investir o que ganhava, como não tinha que pagar aluguel, além do carro de juiz, com um chofer, era mais fácil.  Pagávamos dois enfermeiros que se revezavam para cuidar dele.

Acho que a única coisa, real que disse, antes de se fechar num mutismo impressionante, foi para o Jiro, cuide do meu garoto, amo os dois.    Meses depois morreu dormindo.

Se não fosse o Jiro, nem sei o que seria de mim.  Me ajudou, eu tinha realmente chegado a amar profundamente o Bernal.  Tinha sido meu mentor, meu amigo, meu protetor, era muita coisa na vida de uma pessoa.

Agora na casa só sobrávamos os dois, as nossas conversas de noite quando chegava, era impressionante, seguíamos lendo os livros, comentando entre nós dois.

Um dia Jiro me disse, que tinha descoberto que me amava, num dia que fazíamos sexo todos juntos, que eu fazia sexo com ele, não queria que eu saísse de dentro dele, me queria só para ele.   A partir desse dia foi assim.   Apesar dos convites, só aceitava expor fora, se pintasse no seu Studio, que viesse buscar, eu ia com ele as vernissages, voltávamos juntos.

Seguimos com o hábito de ir a exposições, aos museus, dizia que comigo podia discutir qualquer coisa.  Que ele um tempo tinha pensado que amava o Bruno, mas esse como ele dizia gostava de explorar horizontes novos.

A dez anos atrás, cheguei em casa, estava tudo a escuras, subi para os quartos que ele usava como studio, o encontrei morto, sentado na sua mesa de trabalho, debruçado sobre um dos muitos retratos que fazia de mim.  Um dia me explicou, cada artista tem uma mania, um desenham mãos, ou alguma outra parte do corpo, antes de começar uma nova série, eu desenho a ti, pois eres meu talismã.   Tinha acabado uma trabalho imenso, que a maioria tinha ido para museus de vários países.  Tudo em papel, ali estava ele me desenhando novamente, quando teve um enfarte.

Senti abrir um buraco embaixo de mim, tudo que pude fazer, foi chamar a emergência, a tempos tínhamos conversado sobre dinheiro.  Bernal deixou tudo que tinha para mim, eu tinha a casa dos meus pais.  Ele dinheiro do seu trabalho, gastávamos pouco, então decidimos, que ajudaríamos a gente jovem.  Ele deixava dinheiro para bolsas de estudos, para jovens com talento.  Tudo estava estipulado.   Eu tinha feito o mesmo, para algum bom estudante de direito, que pensasse em fazer pós-graduação.

Segui trabalhando, pois era o único que tinha, viver na mesma casa seria um suplício, fiz o que minha mãe tinha feito, embora algumas pessoas não entendesse, aluguei um pequeno apartamento sem luxo nenhum, só necessitava de uma mesa grande para colocar os processos que levava para ler em casa.   Tentava me confraternizar com os outros juízes, fiscais, mas os via como uns tontos que não tinham vivido nada.

Escolhi como ajudante um jovem negro, com um futuro promissor, tinha sido fiscal adjunto, era brilhante.  Foi como o filho que não tive, quando resolvi voltar a viver na casa, ele veio junto, as conversas eram impressionante, me surpreendia sua inteligência, ele tinha usado uma das bolsas de estudos que eu pagava para seguir em frente, se sentia agradecido.

Um dia lhe contei toda a história dos meus amigos.  Ele ria, me chamava de velho malandro. Um dia me contou que quando jovem tinha sofrido abuso de uma gang, que depois disso, nunca mais tinha feito sexo.   É o meu companheiro do ocaso, agora será fiscal, nomeado pelo novo governador, eu me aposentei, contei para ele o que tinha sentido na festa, ele estava ao meu lado, mas os outros três não.

Agora o espero chegar todos os dias, para conversar, colocar em dia as novidades, da cidade.

Lhe disse que no momento que se apaixone por uma pessoa mais jovem, ele está livre para voar.  Me diz que nem pensar, que primeiro o ensinei a amar a si mesmo, que me ama com paixão.   Fazemos dois tipo diferente, eu velho, cabelos brancos, posso ser seu pai, ele negro, com uma barba imensa, pois é mulçumano, me ensinou a rezar com ele.

Um dia o surpreendi em seu escritório quando trabalhava comigo, abrindo um tapete, rezando, eu tinha perdido a fé a muito tempo, começamos a conversar sobre isso.  Aprendi a rezar, não vou a nenhuma mesquita, como ele vai, mas rezo em casa, arrumei uma poltrona, que fica em direção a Meca, rezo pensando nos meus amigos, que dia desses com certeza irei encontrar novamente.

As vezes sonho com eles, esperando ansiosamente esse dia, como será vivermos juntos outra vez, mesmo que seja em outro plano.  Na verdade amei a todos, mas nenhum como o Bernal, me lembro sempre, que quando o tiramos do carro, que fazíamos respiração assistida, o primeiro beijo que lhe dei, como ele dizia, pois foi na hora que voltou a si.  Disse que nunca tinha esquecido aqueles lábios contra os seus, nem eu tampouco.  Anos depois me daria beijos larguíssimos, que eu adorava.

Com ele sonho muito, as vezes me desperto procurando por ele, mas já falta pouco, isso espero.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

miércoles, 4 de enero de 2023

POR NATUREZA GIGANTE

 

                                       POR NATUREZA GIGANTE

 

Olhando sua mão levantada, agora se dava conta que a idade não podia se esconder justo nelas.

Pensando no que os médicos tinham falado dele, não estaria vivo a muito tempo, mas ele continuava existindo, indo em frente, agora com quase oitenta anos.

Tinha nascido antes do tempo, porque era muito grande, segundo os médicos um movimento seu no útero de sua mãe, poderia matá-la.  Pesava quase seis quilos, na hora que o retiraram mediante uma cesárea.

Sua avó reclamava que ele já era muito pesado desde criança, o único que aguentava estar mais tempo com ele no colo, eram seu avô, seu pai, pois eram altos.   Os dois tinham por volta de um metro e noventa.

Quando foi a escola, ele sempre era o maior da turma, os pediatras estavam preocupados que não fosse inteligente o suficiente.  Quando fizeram testes com ele, olhava na cara deles, pediam aqueles jogos de colocar as peças dentro dos seus respectivos lugares, eles nunca entenderam que ele fazia ao contrário de proposito, pois aquilo lhe parecia chato.   Amontoava todas como se fosse uma construção, algumas vezes deixava a última em equilíbrio.

Quem prestou atenção nisso foi uma psicóloga, o deixou brincando com todas as peças ali no chão, ele construiu coisas diferentes, não colocou nenhuma nas caixas correspondentes.

Ela o deixou fazer o que queria, no final disse, me ajudas agora a guardar tudo isso, ele imediatamente colocou tudo aonde devia, inclusive separando por cores.

Virou-se para sua mãe, teu filho não tem problema nenhum de retraso, ao contrário vocês vão ter problemas, porque ele é inteligente.

Com 12 anos tinha 1,70 de altura, isso assustava seus companheiros, que fugiam dele no recreio, até o dia que estava ali sentado, um grupo de mais idade jogava basquete, a bola veio parar nos seus pés.  De aonde estava, numa diagonal, no final da quadra, pegou a bola, jogou como tinha visto fazerem na televisão, a bola apesar da distância, passou pelo aro, o treinador viu aquilo, ficou de boca aberta.  

O único problema era que ele usava óculos, para miopia.

Quando o chamaram para jogar basquete, aceitou, só para poder fazer amigos, com isso acabou capitão da equipe.    Estavam em último lugar na tabela de classificação, nos torneios escolares, ele conseguiu subir a equipe até a final.  Dizem as más línguas que perderam a final, por um problema técnico.

Mas nos anos seguintes, foram para cima sempre, ele além disso era o melhor aluno, em qualquer matéria, tinha uma cabeça privilegiada.

Fez amigos, mas aquela das garotas estarem atrás dele, todo mundo, baterem nas suas costas, como se ele fosse o melhor do mundo, não o conquistou muito, pois entendeu que tudo era por interesse.

Mas seguiu jogando, quando entendeu que era a oportunidade de ir a universidade, pois seus pais jamais iriam poder bancar a mesma para ele.

O que se espantavam os olheiros, os que veem das faculdades para olhar os jogadores, eram que suas notas eram excelentes, da maioria, nunca eram.

Era respeitoso, com o entrenador, porque tinha aprendido isso em casa.  Com 16 anos, quase véspera de ir à universidade, começou um dia a passar mal. Sangrava, pensaram primeiro que era pelo anus, depois dos exames médicos, descobriram que ele era hermafrodita.  Seus pais que eram religiosos, ficaram chocados, mas ele sabia que no fundo, sua mãe sabia disso tudo.

A coisa agora era, ocultar isso, para conseguir a universidade ou desistir.

Fizeram um exames mais exaustivo, os médicos se assustaram, porque ele tinha útero, além de com o tempo, se não fizesse ginastica, teria peitos.

Pelo menos uma universidade se interessou nele por causa das notas.  Por sorte era do outro lado do pais, assim o caso não seria um escândalo.

A principio se sentiu confuso, sempre tinha se sentido homem, inclusive era bem dotado nesse aspecto.  A decisão do basquete era por fazer amigos, quando percebeu que isso só tinha uma vantagem de ir à universidade, foi deixando de lado.

Falaram com muitos médicos, mas claro, os psicólogos, diziam que podia fazer uma série de operações, a partir do momento que ele decidisse qual o sexo que queria.

Ele nunca tinha sido burro, ao contrário, estava provado que seu Coeficiente era altíssimo, parou uns dias para pensar, depois de conversar com um psicólogo, em quem sentiu confiança.

Este lhe dizia que a decisão tinha que ser só sua, pois quem viveria com isso o resto da vida seria ele.

Seu pai, bem com seu avô queriam que optasse por ser homem.  Mas claro isso implicaria numa série de procedimentos, operações, anos de operações.  Não estava disposto a isso, porque quando consultava diretamente os médicos, agora ele exigia falar com eles em solitário, sem sua família se meter no assunto.

A maioria, lhe dizia que não saberia como se sentiria no futuro.  Se até agora ele se sentia uma pessoa completa, não viam por que se operar.  O que falavam do sangramento, tinha sido sua primeira menstruação.

Imaginem um homem de 1,98 de altura menstruado, seria a gozação de todos.

Seu psicólogo, lhe disse que resolvesse, não deixasse que nenhum especialista o analisasse, vais virar um elefante de circo, te levarão para todos os congressos médicos, para te exibirem.

Sua avô tinha um irmão que vivia em Los Angeles, era casado sem filhos. O acolheram, trocou de nome, pois isso se podia fazer.

Começou a ir a universidade, fazia duas ao mesmo tempo, as pessoas diziam que uma não encaixava na outra, estudava física, bem como literatura, sempre tinha amado os livros.

Quando terminou a universidade tinha finalmente 2,15 metros de altura. A coisa mais complicada era comprar roupas, embora ele adorasse andar sempre de bermudas, como os surfistas, ter camisetas imensas, seguia fazendo exercícios, tomou hormonas para os peitos não crescerem.  Tênis só por encomenda, tamanho 48, mas o mais interessante é que tinha um ritmo alucinante para seu tamanho.

Fez graduação no MIT em física quântica, aos mesmo tempo que fazia um curso de escritura.

Mas chegou um momento que a física deixou de interessa-lo, mesmo assim, acabou a graduação, embora tivesse convites de trabalhos.  Pensou muito a respeito.  Como o seu psicólogo tinha falado, ele sempre se sentia um elefante de feira.

De repente seu crescimento parou, teve uma mudança súbita no seu metabolismo, os médicos não entendiam por quê.  Os que o acompanhavam a tempo, não entendiam em absoluto por quê.

Nesse período, se sentia confuso, ansioso, calores.  Um dos médicos chegou à conclusão de que ele estava na menopausa, pela sua parte feminina.

Pensava que puta confusão, como posso ter menopausa, se não tenho nem trinta anos, mas claro os exames concordavam.   Foram meses de uma sensação estranha.

Foi passar uns dias com sua família, pela primeira ver percebeu que os incomodava, para seus avôs que tinham idade, ele era uma aberração da natureza.

Aquele aparentemente homem de 2,15 metros, que era ao mesmo tempo um homem/mulher.

Seus pais, no fundo se sentiam confusos, eles mesmo tinham se acusado entre si, para saber de quem era a culpa de ele ser assim.

Chegou à conclusão que nunca poderia viver ali com eles.  O melhor era seguir mantendo uma relação à distância.

Seus tios, ao contrário o queriam como filho, arrumou para dar aulas na universidade de Los Angeles, em física e física quântica.  

Ganhava bem, alugou um apartamento só para ele, dizia que estava cansado de dormir com os pés fora da cama, na verdade necessitava de espaço para sua vida.

Mandou fazer uma cama especial para ele, sua tia confeccionou seus lençóis, o apartamento não era imenso, mas para ele era perfeito.   Tinha tudo que precisava, um espaço para seus livros, uma grande poltrona que mandou fazer, para se sentar para ler.

Uma boa mesa de trabalho para preparar aulas no seu laptop, tinha assim conseguido um equilíbrio.   Na universidade, se dava bem com todo mundo, embora sempre quisessem arrumar uma namorada para ele.

Quando ia a praia, ia muito cedo, na hora que esta não estava muito cheia, ou no final do dia.

Seguia fazendo largas caminhadas, fazia exercícios, na barras que tinham perto do posto salva vidas.  Mas o que incomodava as pessoas, era sua introspecção.

As vezes ria, se sentia atraído por uma mulher, em seguida por um homem, mas nunca se decidia dar um passo além.

Um dos companheiros de universidade, quase tão alto quanto ele, estava passando por um momento difícil.  Um dia estava sentado nos jardins, lendo um livro, ao mesmo tempo comendo um sanduiche.  Este se sentou na sua frente.

As vezes sinto inveja de ti, foi seu primeiro comentário.  Aparentemente estas sempre em paz, não ter vejo nervoso, mas bem sim controlado.

Eu ao contrário, estou sempre descontrolado.   Meus relacionamentos, sempre dão errado, pois acham que com todo esse tamanho sou tonto, o que não é verdade.

Muita gente se apaixona pelo que tenho no meio das pernas, mas depois de saciarem sua curiosidade, me deixam de lado, minhas conversas, os assuntos que me interessam, não fazem parte do universo deles.

Lhe respondeu que disso ele entendia, que os assuntos que o fascinavam, a maioria das pessoas, não se interessavam.   Um psicólogo que me acompanhou durante muito tempo, me dizia que eu tinha que tomar cuidado para não virar um elefante de circo de variedades.

Começaram a conversar, com o tempo virou uma amizade.

Gordon Brown, ao contrário tinha sido uma estrela no basquete, tinha deixado, por um acidente. Mas tinha feito universidade com notas excelentes, ele era professor de Literatura americana.

Discutiam muito a falta de escritores negros.

O pessoal falava dos dois, imagina aqueles dois, desse tamanho sem namoradas.

Scott na verdade passava disso, as vezes alguma pessoa se aproximava, se insinuava, inclusive alunas, pois ele não era feio.   Pedia desculpas, mas dizia que tinha um compromisso sério.

Um dia estavam entrando em sua casa, para emprestar uns livros para o Gordon, quando este no corredor, pegou sua cabeça entre as mãos, o beijou.

Foi um susto, pois não esperava.  Se separou, perdão Gordon, temos que conversar, eu não quero perder um amigo.

Gordon, lhe confessou que sempre tinha sido gay, as complicações que isso implicava, quando comecei a falar contigo, eu tinha sido abandonado por um companheiro, ele só queria o meu piru.

Pela primeira vez na sua vida, se abriu, falou que era hermafrodita.

Gordon, respondeu, não me importo muito, pois na verdade creio que somos como dizem sempre, a meia laranja, ou a alma gêmea um do outro.

Um dia disse ao Gordon que ia ao médico que o acompanhava a anos, precisava saber os cuidados a tomar.

Então vou contigo, já que estamos juntos, nada mais certo que eu sabia dos limites que tenho.

Quando se apresentaram juntos o médico riu, disse que ele tinha não só arrumado alguém a sua altura, bem como podia compartir sua vida.

Só não te aconselho a ficar gravido, pois isso é uma coisa que pode acontecer, tens o útero não desenvolvido, pelo tamanho dos dois, seria uma criança grande demais, poderia te matar.

Talvez seja a hora dos dois conversarem, decidirem qual seria tua opção, homem ou mulher, antes que o tempo passe demais.

Foi o que fizeram, conversaram muito, ele ainda foi várias vezes ao seu psicólogo para conversar, tinha que tomar uma decisão, gostava de ser homem como o Gordon na cama se davam bem, nunca tinha se sentido uma mulher com ele.  Sabia que ele o queria como homem também, pois tinha conversado a respeito.

Esperou chegar a época das férias, fez a operação, Gordon não saiu do seu lado, retirou o útero, ficando somente com sua parte masculina.

Quando se refez de tudo isso, Gordon um dia soltou, se um dia os dois quisessem filhos, podiam adotar, pois ele próprio tinha sido adotado num orfanato.

Tive sorte, de ter uns pais adotivos que me queriam.  Infelizmente morreram anos atrás num acidente de carro, não tinham como esconder que eu era adotado, pois eram brancos, eu negro.  Mas o mais importante era isso, me queriam, eu era o filho que eles desejavam, por isso me esforcei ao máximo para ser bom aluno, um atleta, pois meu pai adorava o basquete.

Portanto se um dia pensamos, tem muita criança no mundo esperando um pai adotivo.

Um dia foi com ele ao orfanato, justo naqueles dias, uma jovem, queria dar seus filhos em adoção, eram gêmeos, um branco, outro negro, de pais diferentes.  Ela conversou com eles, estava na universidade, tinha sonhos, fui irresponsável confesso, mas meus pais são muito estritos, nunca aceitaram isso.

Adotaram os dois, como ainda não existiam os casamentos gays, cada um adotou um, assim não eram separados.

Nunca pensaram que seriam tão felizes, os companheiros falavam, mas eles passavam por cima disso.  Depois de quase 15 anos juntos, quando saiu os primeiros casamentos gays em San Francisco, se casaram tranquilamente, sem confusão.  

Sua tia era a única que sabia de tudo, os apoiou, adorava os meninos, tinha sempre com ela, uma foto dos dois, um em cada braço.

Agora trinta anos depois, olhava para trás, Gordon, estava ao seu lado como sempre, estavam aposentados, levavam uma vida tranquila, numa cidade perto de San Diego, a beira do mar.

Os meninos, tinham crescido, achavam natural, um pai branco, outro negro, já que eram assim.

Sabiam que era adotados, mas isso não lhes importava.  Um era médico, o outro era um dos escritores mais promissores da América.

A mãe deles tinha aparecido algumas vezes, mas claro estava o fator de que nunca tinham convivido com ela.  A tratavam bem, com educação, como tinham sido ensinados.  Mas não iam muito além disso.

Porque olhas tanto tua mão, lhe perguntou Gordon?

Porque nelas posso ver que o tempo passou, que sobrevivi, vivi, sou feliz contigo, tinham enfrentado todos os problemas juntos, sempre.   Nada do famoso comeram perdizes, foram felizes, mas estavam sempre dentro da realidade.

Quando ele teve câncer nos peitos, talvez porque nunca se desenvolveram, Gordon esteve aí como sempre, o apoiando.

Ele quando teve câncer de próstata, foi igual, ficou ao seu lado para tudo.

Os dois agora tinham os cabelos brancos, esperavam por netos, mas os meninos não estavam para esse labor.

O que era médico trabalhava em Urgência, sua grande paixão, dizia que não sobrava tempo, o outro, vivia indo pelo mundo, era jornalista, além de escrever livros muito solicitados.

Eles agora estava sos outra vez, as aves tinham voado do ninho, como dizia o Gordon, mas tinham um ao outro.

As vezes algum vizinho passava pela rua, via aqueles dois homens imensos, de mãos dadas, balançava a cabeça, como dizendo, como é possível.  Mas para eles isso não significava nada.

 

 

 

 

 

 

 

martes, 27 de diciembre de 2022

MESTRE CANJICA

 

 

 

 

 

 

Eu Sei Que Vou Te Amar

Tom Jobim

Eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida eu vou te amar

Em cada despedida eu vou te amar

Desesperadamente, eu sei que vou te amar

 

E cada verso meu será

Pra te dizer que eu sei que vou te amar

Por toda minha vida

 

Eu sei que vou chorar

A cada ausência tua eu vou chorar

Mas cada volta tua há de apagar

O que está ausência tua me causou

 

Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver

A espera de viver ao lado teu

Por toda a minha vida

 

Despertou pensando nessa música, ainda pensou, meu passado me condena, as vezes acreditava piamente nisso, que o passado era como uma onda, ia, voltava, quebrava na praia, mas nunca desaparecia por causa da repetição.

Ele tinha se inventado, reinventado mil vezes, mas seguia como dizia sobrevivendo, isso sempre, as vezes dizia as pessoas, eu sou um sobrevivente de mim mesmo, mil vezes.

Era conhecido pelos íntimos como Mestre Canjica, mas seu nome verdadeiro de Adalberto Castro Mendonça, tinha nascido em Salvador, Bahia, era um soteropolitano da gema, como dizia, além de ser filho de Xangó, Iansã, com um Exu Bara, para o acompanhar a vida inteira.

Era um tipo baixo, como sua mãe, uma mulata para ninguém botar defeito, tinha somente 1,60, foi trabalhar na casa do Coronel Olímpio Mendonça, ela se chamava Doroteia Castro, era uma mulher para ninguém botar defeito.  Ajudava em tudo, principalmente a cuidar da mulher do Coronel Mendonça.   Na época os tratamentos de câncer não eram tão bons como agora, era a segunda vez que tinha a doença.  Cuidou dela até morrer, os filhos nunca aparecia, tinham suas vidas, diziam que não gostavam de ver sua mãe morrer, vieram ao enterro, para saber se depois tinham direito a alguma herança.  Nada, tudo era do Coronel.

Ele se apaixonou por Doro, ou Doroteia, sem remédio, dai nasceu Adalberto Castro Mendonça, ele fez questão de colocar o nome no garoto, para surpresa de muitos, era muito claro, olhos verde, cabelos crespos loiros, um sorriso na cara, o médico riu, dizendo que era raro isso, uma criança nascer sorrindo.

O velho se apaixonou perdidamente pelo filho.  O chamava de Canijo, pelo seu tamanho, quando foi para a escola, claro sofria bullying, mas seu pai o colocou para aprender capoeira com Mestre Surpresa, esse era famoso na época, diziam que era uma caixa de surpresa, pois sempre sabia improvisar, derrotando os que vinham lutar com ele.

O menino se revelou, tinha uma facilidade incrível para isso, não gostava muito era de estudar, tinha verdadeira paixão, vendo sua mãe cozinhar, ela era uma das Yaos, de uma famosa senhora do Candomblé.   Tinha um restaurante na Praia Vermelha, chamado Comida de Santo, tinha licença deles para reproduzir as comidas de suas oferendas.

A lista das comidas era imensa, mas se o cliente pedia para fazer uma entrega, ela a fazia dentro dos preceitos, nunca entregava no restaurante, mas sim na sua casa, que ficava por detrás do mesmo, ali, vivia com seu filho querido, que desde criança a ajudava nesses afazeres, o Coronel ria daquele garoto tão pequeno, mas que sabia de tudo, cada comida, como devia ser, como devia arrumar na oferenda.

Mas Adalberto, mestre Canjica, era apaixonado justamente por esse milho branco, a senhora do Candomblé, dizia que ele era protegido também por Oxalá-Oxalufan, dai estar de sobreaviso de tudo.   Quando a mãe fechava o restaurante, nos dias que ia ao Terreiro ele ia junto, cuidava de todas as quartinhas, colocando água nelas, mas tinha seu preferido, que era Exu Bara, aonde colocava as frutas que ele gostava.  A senhora ficava rindo, esse minino, em vez de dizer menino, nem precisa fazer a cabeça, já nasceu feito.  Saberá ir pelo mundo, como Oxalá manda, se reinventando, sobrevivendo a qualquer preço.

Mas no restaurante de sua mãe, sabia fazer todas as comidas que os clientes iam ali especialmente comer, um acarajé de entrada, alguns ia comer uma moqueca, com tudo que tinha de direito, mungunzá, sarapatel, a lista era imensa.

Ele ia fazer 17 anos quando um dia sua mãe foi chamada as pressa no terreiro, ali lhe explicaram que o Coronel tinha seus dias contados, que ia haver uma grande confusão, com os herdeiros, era melhor mandar Mestre Canjica, se mandar pelo mundo, que aliás era sua obrigação.

Ela chorou muito, resolveu contar para o Coronel, a muito que ele tinha mandado os filhos a merda, tinha uma plantação imensa de cacau, no interior, os filhos queriam tudo o que ele tinha, nunca iam reconhecer o Adalberto como irmão. 

O velho, abriu uma conta no banco no nome dele, colocou lá um bom dinheiro.  Quando soube da história, sentaram-se os três, lhe explicaram a situação, teus irmãos nunca vão se contentar com todo dinheiro que possa dar para eles, vão querer tua parte também, eu fiz as contas, depositei esse valor numa conta no banco, a principio mexa o menos possível nela para não chamar a atenção.  Deves ir embora, quero que esteja vivo para sempre.

Foram ao terreiro, a Senhora fez uma larga proteção para ele, alguns chamava de fechar o corpo, mas no fundo era só uma proteção, ficou ali sete dias, ela lhe disse umas coisas em particular, que seu destino era correr o mundo.  Ajudar a quem precisasse, mas que nunca confiasse demasiado em ninguém, principalmente em se tratando de amor.   Que primeiro ama-se a si mesmo, depois já se veria.   Lhe deu a direção de um filho de santo que ela tinha preparado com esmero no Rio de Janeiro.  Mas cuidado, deixe sempre teu Exu, examinar primeiro para ver se gostas ou não como ele trabalha.

Saiu de madrugada de Salvador, num caminhão de um amigo de seu pai, que descia para o Rio de Janeiro, carregado de Cacau.

Era um senhor, muito divertido, lhe soltou numa das paradas que fizeram para comer, na beira de um rio, aonde aproveitaram para tomar um banho.  Menino, saíste na hora certa, havia um zum-zum-zum terrível lá na Baixa do Sapateiro, um dos teus irmãos estava contratando um cangaceiro para dar conta de ti.

Quando estavam chegando ao Rio, pararam para dormir, sonhou com seu pai, sabia que ele tinha desencarnado.  Quando conseguiu falar com sua mãe, ela lhe contou, os filhos tinham aparecido, levado o pai, para um enterro decente, que a proibiam de ir.

Estou recolhida aqui no terreiro, aqui eles não entram, ficarei aqui um bom tempo, mas tu cuidado, proteja tuas costas, não confie em ninguém.

Na parada seguinte, que fizeram antes de entrar no Rio, viu que o velho ficava estranho, pensou esse filho da puta vai me matar, pegou a mochila, que era a única coisa que tinha, parava nesse momento por ali, o ônibus da Viação Cometa, que fazia a linha São Paulo/Rio de Janeiro, viu que um homem descia, falou com o motorista, pagou o bilhete, quando o velho saiu, ele já não estava mais.  Não tinha comentado de maneira nenhuma com o velho, aonde iria.

Desceu na Rodoviária do Rio, se informou de um endereço, que tinha na mão, dado em segredo pela Senhora do terreiro.  Era logo ali em Santo Cristo.

Foi andando com sua mochila, impressionado com o cheiro do canal do Mangue.  Foi perguntando ali, aqui, até que encontrou a rua, que ficava numa subida, era como uma favela, mas tudo limpo.  A vizinha disse que o homem que procurava, trabalhava no cais do porto, normalmente mais tarde estaria no bar da esquina tomando uma cerveja.

Viu que ele ia, esperar, ela era também baiana, lhe ofereceu comida.  Venha garoto, fiz um sarapatel dos bons.   Foi conversando com ele, aonde ia comprar os ingredientes, na feira dos nordestinos, ali em São Cristóvão, ele comentou que sua mãe era uma cozinheira de mão cheia.

Ela estava preparando uns acarajés de encomenda para o dito cujo bar, ele cuidou para ela com cuidado, enquanto ela fazia outra coisa, preparou os recheios, a sua maneira, ela ria muito, que mãos tens garoto, provou o tempero, está de lamber os beiços.

Depois foi com ela levar até o bar, era a hora que os estivadores voltavam do porto, tomavam uma cerveja, alguns comiam ali mesmo, ela chamou o Ernesto, ele entregou a carta que tinha no bolso.  Ele leu, riu, mais um refugiado da santa Bahia, provou o acarajé, soltou tia Nuncia, a senhora mudou o recheio. 

Mudei nada, foi ele quem fez.  Logo foi contratado para trabalhar ali naquele bar, para começar estava bom.

A casa do Ernesto era pequena, mas estava super limpa, riu ao entrar, pois viu um altar para Exu, entendeu logo.   Ele dormiria no chão, em cima de um colchão que o Ernesto arrumou, mas isso não importava, não ia contar que tinha dinheiro para montar uma casa.

Ficou morando ali um tempo, até ter um salário para alugar um pequeno apartamento mais em baixo, perto do bar.  Mas nunca perdeu a amizade com o Ernesto, era bom na Capoeira também.

Nos domingos iam logo cedo a feira de São Cristóvão, ali olhava os outros tipos de comida do Nordeste, depois aprendeu tudo com tia Nuncia, no barraco dela, não tinha sala, mas sim uma imensa cozinha, com uma mesa imensa aonde se preparava tudo.

Aprendeu as outras comidas.  Ia com o patrão logo cedo, a Cobal, para comprar tudo fresco.  O Bar ficou famoso, no domingo de tarde era super concorrido.

Quando conversou com o Ernesto sobre o pai de santo que tinha falado a Senhora, ele soltou, esqueça, esse virou um engana tonto.  Faz tudo por dinheiro, mal te vê, diz que tens olho gordo em cima de ti, pede logo uma matança, que ele cobra uma fortuna, agora vive com os dedos cheios de anéis de ouro, pulseiras, se o trabalho é mais forte, logo pede uma pulseira de ouro para agradar o santo.  Tudo balela, mal sabe ele que os que fazem isso, acabam mal.

Te levarei a um que vou uma vez por mês, aqui na Mangueira, a mãe de santo é porreta.

Dito e feito, o fez lembrar-se imediatamente da Senhora da Bahia.   Como seu Exu ficou contente seguiu em frente.

Um dia parou um carro na frente do restaurante, isso era raro por ali, que todo mundo tinha carro de segunda mão.   Desceu um senhor bem-vestido, para o Adalberto, muito bonito, sempre tinha gostado de homens mais velhos.

Se sentou numa mesa num canto, ele saiu da cozinha, perguntou o que queria comer, ali não tinha garçom, era ele que saia, perguntava o que queria o cliente.

Isso fez graça ao homem, olhe bem para mim, me prepare o que quiser.   Lhe trouxe de entradas uns acarajés que tinha acabado de fazer, lhe preparou um Vatapá, pois tinha comprado tudo fresco na Cobal essa manhã, de sobremesa, lhe trouxe um bolo de mandioca, que tinha feito de madrugada, antes de sair para o mercado. 

Ernesto dizia que ele dormia pouco.   Ele ria, nada disso, eu quando saio do restaurante, só fazia o almoço, deixava a cozinha brilhando, ia para seu pequeno apartamento, caia no sono, se levantava lá pelas sete horas, preparava os doces, fazia todos esses doces que a garotada adora, bananada, cocadas, brancas, negras, olho de sogra, preparava as bandejas, no dia seguinte entregaria a duas senhoras que ficavam sentadas na porta da casa vendendo, ele as pagava bem.   Sempre era uma maneira de ganhar mais um.

Uma vez por semana, telefonava do orelhão da esquina para sua mãe, essa tinha decidido viver ali no terreiro, o homem que tinha amado, não estava mais, tinha virado a Yao preferida da Senhora.  

Voltando ao cliente, viu que ele cada coisa que comia, anotava num caderninho.  Não foi embora em seguida como faziam os clientes, esperou que ele terminasse de limpar a cozinha, fez uma entrevista com ele, lhe contou que escrevia numa coluna de culinária do O Globo, estava escrevendo artigos, sobre comidas de boteco.  Mas tinha se surpreendido com ele.

Bom a comida daqui, está sempre fresca, vamos ao Cobal de madrugada, compro tudo fresco, assim o que tiver de melhor nesse dia, é o que eu ofereço ao cliente.

O homem baixinho, lhe disse, devias abrir um restaurante, para ti, lhe entregou o cartão, que dia estas livre?

Nunca, eu trabalho de domingo a domingo.

Lhe perguntou se faria uma grande comilança, que queria oferecer aos amigos, me telefona, combinamos.

Ele comentou com tia Nuncia.

Caralho soltou ela, esse homem é famoso, olha aqui no cartão, se faz chamar de Apicius, o primeiro grande cozinheiro que se conhece.  Mas embaixo estava escrito o nome Marcus Silveira.

Logo que saiu a crônica na revista de domingo, o botequim ficou cheio, claro como todo donos, a ganancia falou mais alto.  Ele pediu um aumento, o dono miserável, lhe deu um aumento mixuruca.

Tomou coragem, incentivado por tinha Nuncia, telefonou para o Marcus Silveira, quando contou a história, ele riu, sempre é assim, os donos de restaurantes nunca reconhecem que se não fosse pelos cozinheiros não seriam nada.

Aproveitou, que o dono ia fechar por uns dias, para aumentar o mesmo, pintar, colocar mesas novas.

Combinou a tal comilança.  Só preciso seu Marcus, de um furgão, para ir ao Mercado logo cedo, depois na feira de São Cristóvão, depois sou todo seu.

No dia combinado, apareceu um furgão, ele tia Nuncia, tinham descido, para o largo, para não chamar muita atenção.  Depois foram para a casa do jornalista, que vivia numa bela casa na Gávea.

Os dois se meteram na cozinha, prepararam uma moqueca de lamber os beiços, de entrada ele fez acarajés, uma salada de feijão fradinho com polvo, regada no azeite, cheiro verde, os doces trouxe de casa, um belo manjar de coco, bolo de mandioca, o Marcus tinha contratado dois garçons.

Foi um sucesso, todos queriam receitas, mas isso nem pensar, quando saíram da cozinha, depois de se assearem, cada um com seu turbante do seu santo, receberam uns aplausos merecidos.

Marcus sentou-se com os dois, disse claramente estão perdendo tempo nesse boteco, eu abriria um lugar pequeno para não perder a essência, no centro da cidade, que fechasse aos domingos, afinal é um dia para descansar.  Um olhou para o outro, soltaram ao mesmo tempo, não conheço o centro direito para isso.

Entraram no carro com ele, vou te mostrar um lugar que herdei recentemente, não quero ser sócio, só cobrarei o aluguel.  Era ali na rua do Ouvidor no final, já quase Beco do Teles, o movimento aqui é durante a semana e no sábado.   Era um botequim antigo, precisava sim de uma reforma na cozinha e no banheiro.  Uma pessoa na barra, esse homem que levou vocês para fazer compras, trabalhou aqui, pode cuidar da barra, atender os clientes.

Ou então mantem como gostas, atendes tu, tem lugar para poucas mesas, bem como algumas na rua.

Depois de muito conversar, tia Nuncia disse que tinha umas economias, ele não tinha mexido no seu dinheiro, que só rendia.  Nem tinha tempo para gastar direito, podemos colocar uma senhora vestida de baiana, vendendo doces ali ao lado.  Assim a sobremesa vem dela.

Mas usaremos cada dia a roupa de um santo.

Fecharam negócio, mas honestamente avisaram o dono do botequim que iam se mudar, o homem não gostou nenhum pouco pois imaginava ganhar mais dinheiro em cima deles.

Tinham sido honesto, não tanto como ele, mas iniciaram as reformas, a cozinha ficou moderna, o banheiro também, reformaram o balcão, segundo Nestor, o homem que o levava de compras, era bom estar bem surtido de cerveja, caipirinha, algum que outro refrigerante.

Assim fizeram, deram nome ao lugar, como o da sua mãe, Comida de Santo.  No sábado sempre tinha feijoada, resolveram usar louças de barro, pois eram mais fácil de substituir.

Os dois na cozinha apesar de pequena se apanhavam, Nestor os apanhava de manhã, já carregavam o tabuleiro da baiana, que era uma conhecida da tia Nuncia, compravam peixes, tinham sempre na carta, uma moqueca, o prato do santo do dia, acarajé, foi um sucesso.

Nestor sabia como as pessoas gostavam de cerveja, estavam sempre super geladas, tinha na parte de cima, um congelador, que ele ia repondo, no sábado trazia seu filho para ajudar, a servir as mesas.   As vezes tinha fila de espera.  Quando saíram outra vez no Apicius, era a semana inteira, quando chegava no fim do sábado, estavam sonhando com o domingo, para dormirem até tarde.

No domingo de tarde, sempre subia para ver seu Exu, colocar agua nas quartinhas ele mesmo, embora ali tivesse uma Yao, para fazer isso.

As vezes tinha uma aventura, mas não passava disso, não tinha tempo para romances loucos, nunca tinha saído para boates, ou coisa parecida.  Primeiro não era bonito, era ajeitado como dizia tia Nuncia.

Um dia Marcus apareceu com um cozinheiro francês, esse ficou louco com ele, se meteu na cozinha para ver os dois trabalharem.

Uma vez por mês passaram a ir ao seu restaurante para fazer uma comida especial.  Viu que ele queria era aprender.

Um dia disse para tia Nuncia, esse sem vergonha, quer é roubar nossas receitas, não vamos mais.  O homem insistiu, mas alegaram que era seu dia de descansar.

O mesmo tentou fazer igual, mas claro o pulo do gato ele não sabia.

Marcus não gostou muito, em represália, aumentou o aluguel.   Mas ele era malandro velho, o obrigou a respeitar o contrato até o final.  Andou bisbilhotando por ali.

Tia Nuncia, disse que estava muito cansada, já não tinha idade para tanto movimento.

Ele tinha conhecido uma mocetona na casa de santo, a chamou para trabalhar com ele. Fechou o restaurante, na surdina foi visitar primeiro sua mãe.

Estava muito envelhecida, passou uns dias com ela, voltou a sua luta.

Pensava em abrir em Copacabana, mas viu que os alugueis eram absurdos.  Um dia conversando com um sujeito, ele disse que tinha um no Leme, bem situado, a pessoa que ocupava o local, ia se aposentar.

Foi dar uma olhada, tinha uma boa clientela, o grande problema, era que abria ao meio-dia, bem como de noite.   Bolou uma carta especial, de dia uma comida mais pesada, de noite muito peixe, saladas, tira gosto.  O homem lhe ofereceu um pequeno apartamento logo em cima, assim ele podia entre um horário e outro dormir um pouco.

Montou um esquema, diferente, ia a Cobal logo cedo, deixava tudo preparado, para o meio-dia, que ali era mais tarde, a hora que o pessoal saia da praia, depois descansava, voltava de noite, Nini, sua ajudante, começava a preparar saladas, ele entrava com sopas, ou seja tinham comida para a noite, além claro de uma serie de tira gosto.  Funcionava muito bem, nunca mais claro saíram na coluna do Apicius, tinham deixado o Marcus na mão.

Manteve o Nestor como sua mão direita, para irem ao mercado, de noite seu filho coordenava os garçom.    Os turistas adoravam, era uma comida diferente.  Finais de semana, queriam comer a famosa feijoada do Mestre Canjica.

Conheceu um americano, se apaixonou, era totalmente ao contrário dele, alto, magro, cabelos negros, barba, olhos azuis, Tim O’Brien, trabalhava numa companhia americana.

Ele adorava sacanagem, principalmente dizia que não entendia como ele sendo baixinho tinha um caralho tão grande.

Um belo dia, disse que voltava para os Estados Unidos, iria trabalhar em NYC, por que não vens comigo?

Ele ainda pensou, me engana que eu gosto, aqui eu sou o rei da cocada, mas lá, como vai ser.

Quando chegou o inverno, foi com a desculpa de tirar umas férias para ver como era o ambiente, claro quando chegou o Tim, já tinha outro namorado.

Ele sabia que esse homem não podia ficar sem uma coisa dura na mão, riu muito quando pensou nisso.    Este lhe pediu, fez uma comida boa para os amigos dele, ficaram como loucos.

Foi para ficar uma semana, ficou quinze dias, fez várias comidas, nas casas dos amigos dele, mas cobrando, que malandro que é malandro não bobeia.

Acabou gostando da cidade. Mas claro viver lá era caro, bem com montar um negócio requeria dinheiro.

Voltou para o Brasil, levou mais um ano, com o restaurante, foi a Bahia porque sua mãe tinha morrido.

Conversou com a Senhora, agora muito velha, ela disse para ele que no jogo, aparecia que ele devia se arriscar, mas primeiro faça como fizeste, trabalhe de empregado.

Pensou muito a respeito, conheceu clientes que ficavam num hotel ali perto, um era cozinheiro em Paris, lhe disse que tinha uma comida excelente, mas precisava a ter requinte.

Perguntou como se preparava uma comida para entregar ao santo.

Primeiro o levou ao terreiro, pois ele tinha curiosidade, a mãe de santo, lhe disse para oferecer uma comida para Nanã que era a santa de cabeça dele.

Ele preparou um sarapatel, além de um mungunzá. Arrumou tudo em tigelas brancas.

O Pierre lhe disse, isso é uma boa apresentação, mas imagine isso, num prato de qualidade, arrumado a perfeição, sem o exagero de comida que vocês fazem aqui.  Um prato aqui, comem mais de uma pessoa, não me admira que os pobres sejam gordos.

Pierre conversou muito com ele, claro na cama também, se sentiam atraídos um pelo outro, contou que tinha ao lado de seu restaurante um armazém, se ele quisesse abriria ali um Comida de Santo, Mestre Canjica ria muito, pois a pronuncia era ótima. Fazes uma pequena cozinha ligada à minha, para não ter problema de licença, montas como queres, eu te alugo o local, mas o dono serás tu, nada de sociedade, minha experiencia é horrível.

Pensou muito, quando Pierre estava para ir embora aceitou.  Passou para frente o seu, colocou todo seu dinheiro no Banco do Brasil, assim podia mover para lá.  Lhe deram um cartão de crédito de muito valor.

Claro sair do Rio pleno verão, pegar o inverno de lá, foi duro, conseguiu um pequeno apartamento, justo a volta da esquina.   Primeiro ficou uns meses trabalhando com o Pierre, os dois eram iguais na cozinha, falavam o estritamente necessário.

Aprendeu a ir aos mercados aonde tinham os produtos africanos, similares, evidentemente a comida dos santos vinha de África então era fácil, com o quiabo, foi montando uma carta, mais comestível, ao mesmo tempo que foi reformando o local, sem pressa nenhuma, usando o salário que Pierre lhe pagava.  O medo do Pierre era outro, que ele se apaixonasse por algum francês.

Tira isso de tua cabeça, mon cher ami, lhe dizia, não sou de aventura, se estou contigo, me basta.

Mandou fazer toalhas com tecidos africanos, um dos cozinheiros do Pierre era de Benin, sabia já fazer algumas coisas.   Tinha feito curso de doces, os apresentava os de Brasil de outra maneira, acrescentou alguns doces da cozinha mineira.

Primeiro era fazer um boca a boca, disse ao Pierre, vou fazer umas quitandas, colocar duas africanas vestidas de filhas de santo, distribuindo, pequenas porções.

Lhe apareceram duas emigrantes da Bahia, aí foi fácil, com seus turbantes, colares de contas, não queria guias, mil balangandãs, chamavam atenção.  Abririam de terça a domingo, descansariam segunda-feira.

Logo na primeira semana foi super bem, claro, agora era a propaganda boca a boca. Pierre bem relacionado, convidou críticos gastronômicos para irem almoçar, ou jantar.

A cerveja era servida como no Brasil, muito gelada, bem como uma das meninas fazia caipirinha, as apresentavam em pequenos copos, para as pessoas provarem.

Nos sábados tinham feijoada, que ele se virava para fazer, pois faltavam ingredientes, mas as pessoas não sabiam disso.  Improvisava.  Servia em pratos que tinha mandado fazer, todos de barro esmaltado.   O próprio prato estava dividido em partes, uma para o feijão, outra para o arroz, para a farofa, dai por diante.  Doces, os de sempre, mas agora como sabia fazer sorvetes, apresentava o bolo de mandioca, com um sorvete de maracujá. Era um contraste na boca do cliente.

Aos domingos, tinha um fornecedor de peixes, que lhe trazia logo de manhã, os que ele queria para fazer uma moqueca.  Ficou conhecido também como um restaurante de comida de mercado, estava sempre cheio.  Mas na segunda feira, era seu dia de descanso, além de visitar um africano Babalorixá, que tinha conhecido, fazia suas obrigações.

Esse quando foi ao restaurante, ficou encantado, nos meses de inverno, como era uma comida quente em calorias, tinham reservas imensas.

Não voltou ao Brasil nem para férias.   Muita gente aparecia, para propor franquias, mas ele sabia que isso podia lhe dar dinheiro, mas também muita dor de cabeça.

Pierre tinha se transformado, além de um grande amigo, numa pessoa que ele confiava, amava.

Quando desceram umas férias para a zona do Mediterrâneo, ele lhe disse, aqui, quero ter meu repouso de guerreiro, um restaurante pequeno como o de Paris, para os meses de verão, no inverno só abrir ao meio-dia.  Pela primeira vez, os dois iam trabalhar lado a lado, Pierre tinha aprendido a fazer tudo.  Alia inclusive podia trabalhar mais com peixes frescos.

Foi o que fizeram, venderam tudo em Paris, antes convidou todos os jornalistas que tinham lhe dado apoio nesses anos todos, para uma grande despedida, preparou, um grande banquete de comidas de Santo.   Foi uma reportagem impressionante, dando a dica de aonde estariam os dois a partir de agora.

Montaram um perto de Cassis, numa vila muito pequena, junto ao pequeno porto de pescadores, no verão aquilo fervia. No inverno desfrutavam da casa que tinham construído, um pouco mais afastado, numa pequena praia, ali ele tinha seus santos, integrados a natureza.

Quando viu tinham se passados muitos anos, um dia se olhou no espelho, tinha seus cabelos todos brancos, bem como o Pierre. Agora tinham cozinheiros, que aguentavam a carga, passavam mais tempo desfrutando um do outro.

Levou o Pierre a primeira vez a Bahia, lá ficou sabendo dos irmãos, tinham perdido toda a fortuna do velho, em imensas brigas.   Ele visitou o tumulo do pai, bem como de sua mãe, soube depois que o pessoal do terreiro, tinha conseguido enterra-la justo ao lado do dele.

A nova senhora do terreiro, o recebeu muito bem.  Conversaram muito, pois tinha conhecido sua mãe.

Voltou mais tranquilo para a França, de lá já não se moveria mais.