martes, 6 de septiembre de 2022

O

 

                                                   

                                                   TUDO ERRADO

 

Parado na beira da estrada, debruçado sobre o volante, chorava como um bebê desmamado, não era para menos, mais uma vez a coisa saia como um bofetada na cara.

Tinha até medo de ligar o motor, seguir adiante, podia ter vontade de jogar o carro embaixo de outro, provocar uma acidente, mas pensou, assim não só vou matar a mim mesmo, mas outras pessoas que nada tem a ver como meu problema.

Tom Snouter, era um homem de 1,90 de altura, mas quando nasceu, ao contrário de seu irmão mais velho, era pequeno.  O começaram a chamar de Puck, como o personagem do duende de sonho de uma noite de verão, da obra de Shakespeare que sua mãe adorava.

Seus pais tinham um escritório de advogados, um dos melhores de NYC, eram os dois famosos, por serem brilhantes no seu trabalho.  Cada um era especializado num setor, mas na verdade o escritório era de sua mãe que o tinha herdado de seu pai.

Em casa era uma coisa dividida, a menina dos olhos de sua mãe, era seu irmão mais velho, tinha dois metros de altura, forte, vamos dizer bonito, para não dizer lindo, ele o adorava, era completamente diferente dele, que tinha saído ao seu pai, moreno, cabelos crespos, olhos escuros, era alto, mas o irmão mais.

Ele era louco pelo irmão, pelo pai, que era quem o colocava na cama, conversava com ele, era quem lhe dizia que nunca pensasse em ser advogado que era uma merda.

A primeira bomba, foi quando tinha dezesseis anos, os pais se separaram, seu pai conheceu a irmã de uma cliente, era o oposto de sua mãe, morena, cabelos vermelhos de irlandesa, olhos verdes, se apaixonou como um adolescente.  Mas foi honesto, falou com sua mulher, deixou o escritório, foi ser fiscal do distrito.

Ele e sua mãe de uma maneira singular, continuaram sendo amigos, só eram inimigos no tribunal, mas mesmo assim se falavam.   Seu irmão mais velho levou a coisa muito mal, mas foi para a faculdade, fora da cidade, para estudar direito.

Vivia numa hermanidade, aonde estavam outros companheiros como ele, filhos de pais ricos, a maioria queria festas, claro aconteciam muitas.  Raramente vinha a casa, era como se sentisse incomodo, mas veio pelo seu aniversário, seu presente, foi um carro, com a promessa de vir mais vezes.   Tentei falar com ele sobre o que lhe incomodava tanto.

Me olhou na cara, Puck, não de das conta, não somos mais uma família.  Esse filho da puta do nosso pai, destroçou tudo.

Voltou para a faculdade, orgulhoso do seu carro, iriam fazer uma festa pelo seu aniversário, perguntei se não podia ir, me disse olhando nos olhos, melhor não Puck, ainda não eres homem.  Fiquei furioso, claro que eu era homem, lhe respondi que tinha inclusive o piru maior que o dele.   Ficou rindo, estávamos na quadra aonde jogávamos basquete com seus amigos de antigamente.

O piru não faz o homem, o perde, nada mais que isso.  Parece que nunca podemos deixar o mesmo em paz.

Foi embora de tarde, eu fiquei olhando junto a minha mãe na calçada, enquanto ele se afastava.

No dia seguinte, era um domingo, eu me levantei mais cedo, pois ia correr com uns colegas pelo central Park, quando abri a porta do apartamento, tinham dois policiais discutindo quem dava a notícia.

Eu perguntei que noticia, pensando que alguma coisa tinha acontecido com meu pai.  Perguntaram pela minha mãe, ela sim quando lhe disse que estavam dois policiais na porta, se levantou correndo de camisola sem se importar.

A primeira coisa que disse, aconteceu algum acidente com meu filho?

Frank tinha morrido de overdose, misturou álcool, com todas as drogas que rolavam na sua festa.

Eu corri ao telefone, avisei meu pai, que saiu disparado para NYC, ele vivia em New Haven, numa urbanização, fora do centro, aonde viviam muitos advogados, gente rica.

Ele disse que ia imediatamente para aonde estava meu irmão.

Nos dois, fomos no próprio carro de polícia, minha mãe, não dizia nenhuma palavra, tinha a cabeça baixa, com as lagrimas escorrendo sem parar, apertando minha mão, que doía, mas não tinha coragem de retirar.

Quando chegamos, já o estavam levando para a morgue.

Foi uma porrada, segundo os amigos, tinha chegado alterado, mesmo com o carro novo, algo tinha acontecido.   Seu melhor amigo, que vivia em outro lugar, se afastou com meu pai, lhe contou o que tinha acontecido.

Eu escutei tudo, foi como outra merda no ventilador, dizia que meu irmão tinha um romance com um amigo dele a anos, mas que este tinha cortado com ele, porque ia se casar.  Eu não podia acreditar, fiquei abraçado ao meu pai, minha mãe, não queria soltar a mão do meu irmão, chorava deitada na maca que o levava para fazer autopsia.

Finalmente meu pai, a convenceu de deixar que ele se fosse.   Ele conseguiu que tudo fosse feito rápido, para na semana seguinte fazer o enterro.

Eu adorava meu irmão, ele a mim me incentivava, sabia que eu gostava de desenhar, de fotografia, pintar, que a minha não era fazer uma universidade careta como dizia ele.

Tudo foi como passar uma rasteira, consegui com seu amigo, saber quem era que tinha dado o fora no meu irmão fui tomar satisfação.   Mas cheguei tarde, tinha se suicidado.

Eu nunca desconfiei dos dois, o conhecia desde criança também, tinham sido amantes desde sempre, mas quando os via juntos, pareciam dois machotes, disputando as garotas, afinal eram muito bonitos, um dia me peguei imaginando os dois na cama, devia ser uma coisa linda.

Minha mãe, não se recuperou, começou a beber muito, meu pai sempre encontrava um jeito de aparecer em casa, afinal seguiam sendo amigos.  Estava preocupado, dizia que ela bebia muito.

Um dia se sentaram os dois comigo, me perguntaram de um tiro só, se eu pensava em estudar direito.   Eu tinha horror a essa profissão.  Lhes disse que se para eles fosse importante o fazia, mas não era meu sonho.

Isso queríamos escutar, tu tem que ir pelos teus sonhos, não o meu, nem de sua mãe, pense sempre assim.

Ela vendeu o escritório, aos outros sócios, o que foi pior, pois passou a beber mais, eu não conseguia a controlar, me dizia Puck me deixa em paz com a minha dor.

Eu não tinha vida própria, fazia as compras, vinha uma senhora limpar, cozinhar, duas vezes por semana.   Eu nem saia de casa nos finais de semana, pois sabia que eram os piores dias.

Um dia a encontrei desmaiada no banheiro, chamei meu pai, que veio o mais rápido possível.

Enquanto esperávamos o médico, ele me disse que se surpreendia, sempre tinha pensado que minha mãe, era a mais forte dos dois, me enganei, descobri que não sou capaz de exteriorizar o que sinto, ela ao contrário, se afoga na bebida.

Quando o médico depois de exames exaustivos nos chamou, queira que a terra me tragasse, tinha um câncer muito avançado, dos piores, acentuado pela bebida, que tinha acelerado o processo.  Só temos uma solução, cuidados para aliviar a dor, os problemas relativos a isso.

Meu pai consultou vários especialistas,

Agora alguns dias ficava conosco, tínhamos uma enfermeira, mas eu que tinha começado a estudar artes na Parsons School, tranquei a matricula, não podia pensar em estar ao seu lado.

Foi um ano tremendo, eu as vezes despertava chorando, pensava se meu irmão estivesse ali, a coisa iria melhor.   Apesar de todo apoio do meu pai, ele agora tinha dois filhos pequenos, tinha sua outra família também, mas foi um cara estupendo, esteve sempre presente, nos últimos dias dela, não saiu do seu lado.  Ela morreu segurando a mão dos dois, seus últimos momentos lúcidos foi para me dizer que se eu necessitasse, acudisse ao meu pai, ele sempre iria me querer.  Puck querido, cuide se, realize seus sonhos.

Ela se culpava do meu irmão ter ido estudar direito, para seguir com o escritório que era da família.

Me deixou de herança todo o dinheiro que estava aplicado, bem como o apartamento que agora parecia imenso para mim.

Fiquei desnorteado, me senti completamente perdido.  Minha única distração, era ir jogar basquete com o pessoa de sempre.  Voltei para a Parsons, para pelo menos fazer alguma coisa, me dediquei mais a pintura.

Foi quando escutei falar de um studio no final do Soho, de um pintor que tinha falecido a pouco tempo, com ajuda do meu pai, vendi o apartamento, comprei esse studio, podia viver nele.

Aproveitei muitas coisas que estavam ali no studio, a família levou uns meses para retirar todos os quadros dele.

Eu comecei a pintar como um louco, tinham que ir me buscar para jogar, para me relaxar, conheci um membro novo do grupo, era como meu irmão, alto, sempre sorrindo, não sei se foi por isso me aproximei dele.   Ele um dia foi ao studio para olhar meu trabalho, estudava na Parsons também, mas se dedicava a fotografia, a vídeos.

Se insinuou, eu fui honesto, apesar de parecer um adulto, nunca tinha feito sexo com ninguém, nem sabia direito como me comportar, acabamos na cama, mas algo não funcionou, ficamos amigos, com ele podia falar de tudo, se chamava Bill, nunca parávamos de falar, agora tinha um amigo.

Ele fez fotografias do meu trabalho, mostrou para um dos professores, que foi lá olhar, depois voltou com o dono de uma galeria, que me disse, que precisava que tivessem pelo menos mais dez quadros, que me lançaria no mercado, que meu trabalho era excelente.

Falei com meu pai, que um dia veio com os meninos, conhecer direito o meu trabalho, se apaixonou por um quadro que era o Frank, lhe disse coloco na exposição, mas será seu, meu velho como eu o chamava.  Os meninos faziam coro, meu velho.  Ele ria, todas essas coisas, fizeram que seus cabelos agora fossem brancos, o que lhe dava um ar distinto.

Um dia estava sentado num Starbucks, tomando um café, fazendo anotações de uma cena do outro lado da rua.  Levantei a cabeça, vi que um homem olhava fixamente a mim, evidentemente era mais velho do que eu, alto, loiro, com um bigode grande, uns olhos que pareciam um mar.

Passou ao meu lado olhou o que eu estava fazendo puxou conversa, eu estava com as perna moles, com a desculpa de mostrar meu trabalho o levei para o studio, mas bem para minha cama.    Foi como encontrar o parceiro ideal, se via que tinha mais experiencia, me foi ensinando o que fazer, sei que foi uma loucura, depois perguntou se podia voltar, mas tinha compromissos.  Se vestiu, me beijando, eu estava com falta de ar, já não podia imaginar outra coisa.  Quando ele foi embora, sentia uma energia imensa, comecei a pintar o que tinha anotado, bem como um outro quadro ao mesmo tempo, ele olhando aquele edifício através do cristal do Starbucks, segui pintando até de noite, me chamou, se via que estava num carro, começou a falar comigo, que nunca podia ter imaginado isso, se podia voltar no dia seguinte. Assim foi durante, dias e dias, o pessoal da equipe de basquete, ria da minha cara, agora tinha um sorriso de lado a lado.

Bill era o que fazia mais gozação, vejo que encontraste alguém, eu lhe contei por cima que tinha me apaixonado, que tinha encontrado a pessoa perfeita.

Quando os catálogos, convites ficaram prontos, os quadros já estavam na galeria, eu resolvi levar pessoalmente o do meu pai, assim via os garotos, sua mulher me tratava muito bem, sem avisar peguei o carro que antigamente era do meu irmão, coloquei gasolina, fui até lá.

Quando cheguei na sua casa, só estava a babá com as crianças, me disse que meu pai, estava com sua mulher numa festa num club ali perto.  Fiquei um tempo jogando com os meninos, que se divertiam comigo.

Peguei a direção do club, fui até lá, quando cheguei vi num grupo, meu pai, com mais homens, sua mulher Peggy me viu primeiro, chamou meu pai, quando ele se virou, vi que um dos homens era o Bill, o primeiro que pensei, o que faz ele aqui, veio junto com meu pai, lhe entreguei o convite, com o catalogo, disse aos dois, que esperava que fossem.  Peggy, já marcarei com a babá para ficar com eles, assim ficamos num hotel.  Bill se aproximou, não sabia que eras filho do Frank, venha vou apresentar meus pais, hoje fazem 25 anos de casados, por isso a festa.

Quando o casal se virou para mim, senti meu mundo cair com um estrondo, o pai do Bill, era o homem por quem eu estava apaixonado, estenderam a mão, mas não pude, as lagrimas caiam pela minha cara, como uma cachoeira, sair correndo entrei no carro, fui embora, o último que me lembro foi a cara de interrogação do Bill.

Por isso estava ali, não podia pensar, como ele tinha feito isso comigo, esconder que tinha uma família, que era o pai do meu melhor amigo.  Agarrava a direção com todas minhas forças, chegavam a doer, era isso que eu precisava, uma dor externa para poder me controlar.

Nisso parou atrás de mim um carro da polícia.  Um homem alto se aproximou, ficou me olhando me sacudir chorando.   Me perguntou se estava bem, sem saber por que lhe contei, o tipo ficou me olhando, me disse, que azar.  É uma merda que as vezes acontece.

Lhe contei que tinha vindo trazer um convite para o meu pai.

Seu pai mora por aqui, pode estar preocupado contigo, lhe dei o numero do seu celular, meu pai apareceu em seguida.

Quando ele chegou o policial, que era impressionante de alto, estava olhando o catalogo, eu já estava mais calmo, meu pai agradeceu, mas antes ele me pediu um convite, lhe entreguei.

Meu pai se sentou ao meu lado no carro, perguntou o que tinha acontecido, sem saber por que lhe contei tudo.  Estava uma fúria, não comigo, mas com seu amigo.   Mas se ele tem idade para ser teu pai.

Tive que convencer meu pai para não fazer nenhum escândalo.  Ele chamou a Peggy que alguém fez o favor de levar, depois me levou para o studio.

Andava de um lado para o outro, como ele pode fazer isso contigo, eu sempre desconfiei dele, pois uma vez no clube, saindo do chuveiro se insinuou para mim.

Não sabemos como ele faz, mas amanhã, faras um exame de sangue.

Lhe disse que não era necessário pois tinha tomado todo cuidado.   O senhor não está aborrecido por saber que eu sou gay.

Não meu filho, eu sempre soube, te amo muito, para criar mais problemas para ti, já basta tudo que tiveste nesse tempo todo, primeiro teu irmão, depois tua mãe, nosso divórcio. Mas veja a Peggy adora tua companhia, bem como os meninos, quando apareces depois temos que aguentar que não param de falar de ti, dos desenhos que fizeram junto contigo.

Não tenho nada contra a Peggy, sempre me tratou bem, aos meninos eu adoro pai, são como se eu visse o senhor quando criança.  Os dois eram divertidos, porque eram gêmeos, falavam sempre ao mesmo tempo, ou um começava uma frase, o outro acabava.

As vezes queriam desenhar no mesmo papel.

Pedi ao meu pai para não fazer nada, pois poderia ser um problema para meu amigo Bill, ele não sabe de nada, pior que agora podem dizer que sou uma puta, pois fiz sexo com os dois.

Meu pai abriu a boca, Bill é gay também, mas ao mesmo tempo tem uma namorada de muitos anos.   Tal pai, tal filho foi o que soltou.

Quando viu que estava calmo, foi para casa, chamou um Uber para leva-lo, ia custar uma fortuna, mas ele não se importava.

De noite apareceu o Bill, queria saber o que tinha passado.  Lhe disse que meu pai, tinha me contado que tinha uma namorada.

Sim é verdade, não posso imaginar se meus pais sabem disso.  Estávamos os dois falando, quando tocaram na porta, quando abri era seu pai.  Ai a coisa ficou feia.

A cara do Bill era um espanto só.  Agora começava a entender, foi em direção ao seu pai, com os punhos fechados.

Papai, então o senhor é o culpado do que aconteceu.   Seu pai me olhou, pediu desculpas, saiu arrastando o Bill.

Fiquei sozinho, meu mundo tinha desmoronado mais uma vez, mais tarde me chamou, mas não respondi, imagina, estar metido no meio dos dois.   Foi como num momento tivesse descoberto que eu era o mais forte, tinha colocado para fora tudo, sem pensar, comecei a pintar, uma cena diferente, ali parado nas estrada, o policial, me olhando, a cara dele era fantástica, não era um tipo bonito, mais bem um tipo que alguém devia ter dado um murro no nariz, pois se via que tinha brigado muito.

Não sabia por que, o sujeito tinha sido simpático comigo, poderia ter me olhado como mais um viado na praça, ou com qualquer outro adjetivo.   Mas não ficou sim foi me consolando, dizendo que essas coisas aconteciam, que nada era perfeito na vida, que havíamos que seguir em frente.

Fiquei pensando que policial faz isso.

Depois me joguei na cama, pensei em que merda me meti, como posso ser tão ingênuo assim, será que nunca vou aprender.

No domingo, o celular chamou várias vezes, mas só atendi meu pai, porque sabia que ia se preocupar.  Confirmava que no dia seguinte estariam na galeria sem falta, não venda o meu quadro, mostrei a foto para a Peggy que adorou.  O duro é que os meninos querem ir de qualquer maneira, prometi leva-los no final de semana, não param de falar do irmão pintor.

Tiraram da minhas mãos o catalogo, quase saíram no tapas, pois querem olhar o tempo todo.

Vou guardar dois catálogos, assim os dois tem um recordação do irmão mais velho.

Quando falei isso, tudo que senti foi isso, estou ficando mais velho, era um absurdo, pois só tinha 23 para 24 anos.

O dia seguinte, fui para a galeria, acabar de ajudar para colocar os quadros na parede, quando vi o que tinha feito do pai do Bill, tinha pensado inicialmente dar de presente para ele, mas mudei de ideia.  Se fosse vendido pelo menos saia da minha vida.

Fui para casa, antes passei num barbeiro, mandei raspar minha cabeça, como em sinal de luto, me vesti todo de negro, da cabeça aos pés.

Primeiro chegaram os amigos da Parsons, vi que Bill não estava, que merda pensei, perdi um amigo, depois começaram a chegar os convidados da galeria, jornalistas, cronistas de arte de revistas, todos falavam comigo, dois me pediram uma entrevista, chegou meu pai com a Peggy, abracei os dois, agradeci terem vindo, ela, passou a mão pela minha cabeça como minha mãe fazia, estas de luto verdade.  Me entendia.

Mas não tocou no assunto, falou foi dos meninos, espera, antes que me esqueça fui buscar os envelopes, que estavam os catálogos para os dois, fiz uma brincadeira expliquei, coloquei nos envelopes os nomes trocados, mas dentro tem uma dedicatória para cada um.  Sabes que os adoro Peggy.

Então vi na porta parados, Bill como sua mãe, tive que engolir em seco, fui falar com eles, pedi desculpas da cena do outro dia, ela segurou minha mão com as duas suas, não tem importância meu filho.  Bill me abraçou, dizendo que durante essa semana nós falávamos.

Estava ali parado, talvez esperando seu pai, quando vi subindo o policial, saberia que era ele dentro de uma multidão.  Se aproximou, primeiro me perguntou como estava?

Superando, obrigado pelo outro dia, não tive tempo de te agradecer, inclusive pintei um quadro imaginando a cena.

Está aqui?

Não está no studio.

Quero ver se me colocaste bonito no quadro.

O apresentei direito ao meu pai, bem como a Peggy, os dois o conheciam, meu pai agradeceu o do sábado, ele tirou valor do assunto, dizendo, coisas que acontecem.

As pessoas foram indo embora, vi que o quadro que tinha feito do pai do Bill, tinha sido comprado, na verdade 80% dos quadros tinham sido vendidos, meu pai inclusive tinha comprado um para colocar no seu escritório, além o do meu irmão que iria para sua casa, Peggy fez um comentário que gostei, assim os meninos, ficam sabendo que tinham outro irmão, te prepares que farão mil perguntas.

O pessoal da Parsons, me perguntou se queria comemorar, mas dei uma desculpa que estava cansado.

Quando sai, o policial estava me esperando.   Tenho que te escoltar até teu studio, pois dizem que cometeste uma infração, pintando um policial em serviço secreto.

Mas estendeu a mão, eu não sabia o seu nome, ele sim o meu, James Osborne, ao seu serviço senhor Puck.

Me perguntou se esse nome tinha a ver com “sonho de uma noite de verão”, eu lhe expliquei a história.   Me contou que quando adolescente, tinha feito esse papel no teatro da escola, meu sonho era fazer teatro, mas imagina alguém do meu tamanho no palco, fiz uma vez um casting, me disseram que eu parecia um elefante no meio dos outros atores.

Quem te rebentou o nariz?

Ele se matou de rir, isso dá por viver no meio de 8 irmãos, todos irlandeses, se sangue quente, meu pai era espanhol, minha mãe irlandesa, se parece com a mulher do teu pai.

Se começávamos a brigar, ela se sentava, ficava olhando, só dava atenção, para curar as feridas.  Até hoje é assim, sua casa, sempre parece um vendaval, eu vou voltar a trabalhar aqui em NYC, ela quer que eu viva com ela, mas me acostumei ao silêncio, ou santo Silêncio como digo.

Eu também trabalho em silêncio, antigamente, escutava música, mas percebi que só escutava a primeira, o resto desaparecia, pois me concentrava no que estava fazendo.

Tínhamos ido andando até o studio, alguns momentos, nossas mãos se roçavam, eu gostei do contato.

Quando chegamos, estavam ali dos dois trabalhos, o da cena do carro, como se eu estivesse de longe observando, o outro era seu retrato, ele me olhando espantando.

Caramba, como memorizaste minha cara?

Foste meu salvador, me acalmaste, na verdade a história parecia ir bem demais para ser verdade, pior o filho da puta, nunca me disse que era casado, pai do meu melhor amigo.

Mas conversei com meu pai, parece que não é a primeira vez que faz isso.

Já o borrei da minha cabeça, sou muito jovem para ficar sofrendo por um desgraçado.

Fazes bem, não vale a pena.  Quanto queres pelo meu retrato?

Nada, é teu. O interessante, que depois, só podia me lembrar de ti, meu amigo veio até aqui preocupado, no que íamos conversar, o pai apareceu, ele entendeu em seguida.

Não tive que falar nada.   Saíram os dois, me chamaram, mas me neguei a falar no assunto.

Não posso perder tempo pensando nisso, me senti uma puta, mas como as putas, seguem em frente vou seguir como elas.

Tu não eres uma puta, apenas, foste usado por uma pessoa sem escrúpulos.

Bom me fale de ti, James?

Bom já sabe que sou de uma família imensa, não sobrava dinheiro para ir a universidade, nem para estudar teatro, meu pai era polícia, por isso entrei para o corpo, o admirava.

Agora venho para ser inspetor, de uma delegacia aqui perto.   Assim posso tomar conta de ti.

Se aproximou, fui casado, mas me divorciei, seis meses depois, não podia dar certo, não era o que eu queria.  Ela me dizia que parecia que eu estava fazendo sexo com outro homem.

Tinha razão, não consegui te tirar da minha cabeça, não tenho experiencia, se tens paciência podemos experimentar.  Se aproximou mais, pegou minha cara com suas duas imensas mãos, me beijou com carinho, daí foi um pulo para tudo.

Acabou dormindo, me disse que tinha uma semana de folga, se eu não queria ir com ele para uma cabana que tinha sua família, na praia.  Concordei que ia, vamos no meu carro, ou num carro de patrulha.  De brincadeira, já que ele não ia usar mais uniforme, perdi a oportunidade de fazer sexo com um policial de uniforme.

Passamos pela casa de sua mãe para pegar a chave, bem como roupa para ele.

Ela me recebeu muito bem, me deu dois beijos estalados na cara.  Tens quem vir, quando todos os bandidos desta família estejam presentes, vais querer ter uma pistola para dar um tiro para cima, para pedir silencio.

Contei para o James tudo que tinha acontecido nos últimos tempos comigo, a semana passou voando, nenhum dos dois, atendeu o celular, vivemos um para o outro todo o tempo, falamos muito da vida de cada um.

Na última noite, ficamos olhando um para o outro, me disse, quando te vi, pensei, que passa com esse garoto, queria te pegar no colo, mas eres muito grande.

Terei agora que arrumar um apartamento para viver.

Tudo tinha ido tão bem, que lhe perguntei se ele não queria experimentar a viver comigo, terás sim que te acostumar a sentir o cheiro de pintura.

Na verdade do studio, o quarto, ficava mais afastado, com a cozinha, o banheiro, por último o quarto, por isso o cheiro não chegava.

Se posso ter meus livros, não incomodo muito.  Adoraria compartir contigo minha vida, mas sabes que as vezes é complicado, pelas merdas que vejo.

Quando voltamos, a partir que colocamos o celular para funcionar, as chamadas não paravam, olhei, atendi primeiro do meu pai, os gêmeo queriam falar comigo.  O mais divertido deles, disse que eu me preparasse que ia pintar melhor do que eu.  Porque tinha um quadro no salão, queriam um para o quarto deles. Com o Puck.

Depois tinham chamadas do Bill, uma inclusive com recado, se seu pai estava comigo.

Lhe respondi com um outro mensagem, que não sabia nada dele.

Já o James, tinha recados da delegacia, dizendo o horário, que tinha de se apresentar no dia seguinte, outro de sua mãe, dizendo que tinha se encantando com seu namorado, que a família inteira queria me conhecer, terminada dizendo, coitado não sabe aonde se meteu.

Quando chegamos, o Bill estava sentado na porta do Edifício. Como escutei ruido de carro imaginei que estivesses vindo para casa.

O apresentei o James.

Subimos, por que estás procurando teu pai?

Desapareceu, finalmente minha mãe resolveu encarar a situação, sabia a muito tempo de suas aventuras, mas desapareceu, inclusive, levando todo o dinheiro do banco, só não pode usar a conta dela particular, mas a do escritório, toda, os sócios estão como loucos.

Não tenho a menor ideia, sinto muito, mas passei uma semana com o James, na cabana de sua família, na praia.

Vocês estão juntos, me mostrou o retrato do James.  Impressionante os detalhes.

Sim nos conhecemos no fatídico dia da festa, ele era policial lá, viu meu carro parado, chamou meu pai.

James perguntou que delegacia estava levando o caso do pai?

Quando ele disse, é aonde vou trabalhar, me informarei a respeito, depois falo contigo.

Como estás Bill, lhe disse quando o acompanhava a porta.

Mal, pois ele sabia que eras meu amigo, fez isso com mais dois amigos meus, que filho da puta, é como se estivesse disputando comigo os homens com quem eu andava.

Era muito confuso, pois todos tinham idade para ser seu filho.

Comentei isso com o James, amanhã descubro alguma coisa.

Fomos dormir, ele me perguntou como podia preferir a ele, que não era bonito, invés de um rapaz como o Bill.

Estivemos na cama, não funcionou, na verdade creio precisávamos de amigos isso sim, me disse que terminou seu namoro, que não queria ser como seu pai.

Me dá pena, agora terei também que voltar para terminar o curso da Parsons, depois já veremos.

No dia seguinte só voltou a ver o James, na hora que voltou para casa, disse que o companheiro que tinha designado era um tio idiota.

Quando perguntei pelo caso, queria saber por que, investigou muito pouco, falou só com um advogado do escritório, que era novo, não sabia de nada.

Tampouco é que insistiu muito, eu disse que conhecia a família, pois tinham casa aonde trabalhava.   Virou-se para mim, não me diga que vivia numa comunidade gay.

Lhe disse que nem sabia o que era o homem, só o conhecia de vista.

Parece que recentemente houve um escândalo, ele ia a caça dos namorados do filho, é um depredador, namora os jovens depois desaparece.

A mulher quer passar o caso para o FBI, por causa do dinheiro que desapareceu.

Mas ele até agora não usou nenhum cartão de credito, ou coisa parecida, seu celular está fora do ar.

O caso acabou indo para o FBI, começaram a fuçar inclusive vieram falar comigo, mas lhes disse que não tinha ideia.  Que era amigo do filho também, mas pelo que sabia, não tinha ideia.

Tempos depois usou seu cartão de crédito, em Berlin, lá o conseguiram capturar, acompanhado de um menor de idade.

Andava agora nas drogas, com esse rapaz, quando o trouxeram, Bill me contou depois, que estava um trapo.  Não sabemos em que andou metido, mas se nega a falar.

Não quis sequer me ver, mas insisti muito, me disse que fazia isso com meus amigos, para não fazer comigo, que se seguisse seus instintos, teria a mim dentro de casa para abusar, por isso nunca se aproximava muito de mim, a não ser nas festas que fazia questão de posar ao meu lado.

Acabou internado num hospital, lhe diagnosticaram esquizofrenia.

Assinou o divórcio, pediu ao filho que não o fosse visitar, nem sua mulher.

Que coisa mais patética, comentei com o James, menos mal que ele nunca abusou do filho, mas o Bill está arrasado, conseguiu um trabalho com o um jornalista para fazer a semana da moda de Paris, fará a parte de vídeo, que é o que gosta.  Espero que tenha sorte.

Ele agora estava trabalhando em outras ideias, tinha já engatilhado uma outra exposição, mas queria ir com calma.

Uma agência chamou o James, para fazer um casting, parece que ele encaixava no tipo, quando soube que era um personagem gay, pediu para ler o roteiro, fazia o papel de um homem que não encaixava dentro dos padrões, por ser alto, forte, os amigos todos eram gays, era como retorno aos homens da banda, uma peça antiga.  Mas esta acabava num crime, quem descobria era justamente o personagem dele.

Aceitou fazer, vou me arriscar, pediu uma baixa temporal, para fazer o espetáculo, pensava que duraria 3 meses como muito, mas acabou durando um ano.  A mesma ia virar um filme, o contrataram para fazer o mesmo papel.

O bom que eu tinha mobilidade, mas pensei, agora será conhecido, me deixará de lado.

Era ao contrário, me queria mais, me soltou que eu lhe dava sorte, tinha deixado de ter medo.

Nesse meio tempo aconteceu a famosa reunião da família dele, era um escândalo, sua mãe tinha razão, mas ela colocava ordem no pedaço, levantava a voz, todos se calavam.

Que vergonha que vai pensar o Tom dessa família, mas ao contrário eu estava era me divertindo, quando contei para o meu pai, como era, ele convidou todo mundo para um churrasco no sábado.   O melhor, foi ver os sobrinhos dele, misturados com meus irmãos.

Eu peguei uma cena interessante, os dois mostrando aos outros, o quadro com o retrato do meu irmão, eles contando à sua maneira, que era o irmão mais velho deles, que tinha sofrido um acidente, nos sentamos aqui, rezamos por ele.

Peggy fez amizades com as mulheres todas, mas meu pai, adorava era conversar com a mãe do James.

A escutei dizendo, rezei tanto para meu filho dar certo com alguém, que ele pudesse realizar seus sonhos, agora parece que tudo veio junto.  Eles se amam, fiquei preocupada quando o James começou fazer teatro, agora cinema, mas ele só pensa no Tom

A criançada só me chamava de Puck. 

Chamaram o James para fazer uma nova montagem de “Sonho de uma noite de verão”, a ritmo de rock, mas ele não gostou do texto, como queriam montar.  Creio que tinha sexto sentido, pois foi um fracasso de bilheteria.

Fui com ele para Londres, ia fazer um filme, eu passava meus dias andando pela cidade, desenhando, captando ideias, para um próximo trabalho.   Um dia lhe esperava no set de filmagem, um homem se aproximou, ficou vendo o que eu fazia, me perguntou se não podia, desenhar o cartaz do filme, queriam como se fazia antigamente, desenhado.

O fiz, foi muito bom, meu nome aparecia na parte baixa.

Dali passamos 10 dias em Paris, queria ir aos museus, conhecer a obra dos artistas modernos da cidade.

Um paparazzi, nos flagrou numa foto, quis chantagear o James, que ficou rindo da cara do sujeito, esse é meu namorado, pretendo me casar com ele, pode publicar isso.

Me disse hoje tantos artistas saíram já do armário, para que vou ficar dando dinheiro para esse sem vergonha que veio me chantagear, se posso usar esse dinheiro, para quando me casar ir de lua de mel com meu namorado.

Ele passava das festas, dizia que sempre tinha horror dos encontros de família, essas festas cheias de drogas, bebidas, o irritavam, todo mundo é muito falso.

Quando fizemos 10 anos juntos, nos casamos, imaginem a confusão que foi a festa, não sei como sua mãe convenceu um padre católico, que era parente seu, para nos abençoar.

Agora só me faltam mais netos. Pensávamos em alugar uma barriga destas de aluguel, mas sem querer, o irmão pequeno do James, sofreu um acidente, de carro com sua mulher, bem como seus dois filhos pequeno, tinha um casal.   Ele morreu de imediato, mas ela ficou em coma muito tempo, ele conseguiu a guarda dos meninos, quando vieram estavam assustados, eu aluguei o apartamento embaixo do studio, passamos a viver ali, os meninos se acostumaram aos dois, já nos conheciam, o que tornava a coisa fácil.

A mãe acabou morrendo, James conseguiu adotar os meninos, agora quando íamos a casa do meu pai era um festa, eles tinham mais ou menos a mesma idade dos gêmeos, eu adorava ficar escutando as conversas.

Seguimos adiante, James gostava mais de fazer, teatro, sempre estava fazendo algum trabalho, um dia foi comparado com dois atores antigos, pelo seu tipo de cara, eu ria muito, claro os dois tinham o nariz achatado como o dele, Karl Maldem era um deles.

Quando o chamaram para fazer um filme de cowboy, fomos a família juntos, nos divertimos horrores, meu pai trouxe os meninos, para passarem uns dias conosco, estávamos hospedados num rancho perto do lugar de filmagem, as crianças se divertiram horrores andando a cavalo.

Eu fiz muitos desenhos, trabalhava num ritmo mais lento, por cuidar dos meninos.

James, dizia que nunca tinha imaginado que seria assim.  Às vezes me dizia ao ouvido, me apaixonei por essa pessoa sensível que estava parada num carro.

Eu sabia que alguns atores dava em cima dele. Ele fazia uma coisa, o vi fazendo, tirava o celular, começava a mostrar as fotos, meu maravilhoso marido, meus filhos.  A pessoa sabia que dali não ia sair nada, mas se insistiam ele se levantavam com toda sua altura, dizia a cara da pessoa, vá te catar, idiota.

Nossas noites eram fantásticas, eu brincava dizendo que ele tinha sido um aluno brilhante, ai de sacana me dizia, professor, pode me ensinar mais alguma coisa.

Ficávamos rindo, quando não estava filmando, os meninos se jogavam na nossa cama, demorou, mas chegou o dia que nos passaram a chamar de pai.   Um dia ele pegou os dois dizendo para os gêmeos, que tinham sorte, temos dois pais, fantásticos.

Quando nos pediram para uma reportagem, me consultou antes, lhe disse que nem pensar, não gostava disso para os garotos, por mais que se queira esconder deles algumas coisas, não fique bem.   A não ser que precises de publicidade, mas para isso existem outras maneiras.

Quando ganhou um Tony por seu último trabalho, o dedicou a mim, que o fazia forte, para enfrentar a vida, bem como a sua mãe que estava ao meu lado.

Os anos vão passando, meu trabalho é respeitado, o dele também, nossa família vai bem obrigado.

As coisas erradas que aconteceram ao princípio, acabaram nos fortalecendo.  Somos uma família com todos os problemas que essa palavra inclui, vamos levando em frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 29 de agosto de 2022

SAM ROOKE

 

                                      

 

Me chamo Sam Rooke, algumas vezes sentado diante do espelho do meu camarim, fico pensando quando começou minha vida louca, mas sempre sou interrompido, pois me chamam para mais uma atuação.

Trabalho a muitos anos, num cabaré decadente, na parte de Castro, San Francisco, não preciso dizer que é o bairro gay por excelência.

Me apresentam como Sammy ou Tammy, porque as vezes me faço passar por Debbie Reynolds cantando a música do mesmo nome.

Nota, o cabaré é meu, mas claro é hora de pensar em talvez vende-lo, pois tem uma imobiliária me pressionando, quer construir um desses magníficos edifícios sem personalidade, claro também me pesa a idade, mas tenho muitas meninas como eu que passaram por aqui, ou ainda estão comigo.   Do outro lado esta Tom, ele continua comigo a trancas e barrancas.

Descobri muitas coisas da vida através dele.

O dia que ele chegou lá em casa, para mim foi uma festa, minha mãe dizia que eu falava sem parar com ele, que me olhava espantado.

Primeiro, Tom é surdo/mudo, era sobrinho do meu pai, que nunca entendeu por que um belo dia seu irmão mais velho, um bala perdida, apareceu depois de anos, deixou o Tom na varanda com um bilhete, explicando que ia para mais uma aventura, que não podia levar um garoto como ele junto.  Ali estava também uma certidão de nascimento, bem como uma carta dando poder ao meu pai para cria-lo.

Enquanto eu falava sem parar, meu pai, que normalmente as coisas passavam por ele sem dizer nem MU, estava furioso.  Seu irmão nunca aprenderia nada, tinha sido mal estudante, tinha escapado de casa com sua namorada, tiveram um filho, ela desapareceu no mundo, ele ficou com o garoto, nunca parava em emprego nenhum, a anos que não sabia dele.

Tom era um ano mais velho do que eu.    O problema era que nas casas vizinhas só tinham garotas, que queriam que eu brincasse com elas, de tomar chá com suas tacinhas de brinquedo, ou brincar com bonecas.   Odiava isso.

Tom coitado estava espantado, mas eu não queria saber, o primeiro que fiz, foi dar um grande abraço nele, beija-lo, foi o primeiro de muitos beijos ao longo desta vasta vida.

Minha mãe era uma mulher pratica, no dia seguinte conseguiu uma professora para nos ensinar a língua dos signos, o Tom se virava como podia, o ensinou também, chegou um momento que eu falava com ele, mais rápido que ele se matava de rir comigo.

Dizia que eu era um cômico.

Quando chegou a época de ir à escola, não tive dúvida, se ele ia a uma escola especial eu iria também, meu mundo girava em torno dele.

Meu pai só dizia abaixando o jornal, esses meninos têm futuro.

Meus pais trabalhavam no armazém que ele tinha no bairro, um desse de secos e molhados, que vendem de tudo.  O jeito foi tentarmos que Tom acompanhasse as classes numa escola normal, ele se divertia, pois sentávamos na última fila, eu ia ensinando tudo para ele, mas por signos, mas na verdade acabamos numa escola especial, pois ali ele não aprendia.   Eu ao contrario adorava essa escola especial, pois falava como um louco pelos signos, segundo uma professora pela minha cara, esse menino vai acabar num palco, sem dúvida nenhuma, não estava de todo errada.

Uma coisa que eu adorava, era chegar em casa, me sentar na frente do espelho de minha mãe, me pintar como ela, Tom ficava olhando divertido, sei que nunca me denunciaria.

Nosso primeiro grande beijo foi com uns dez anos, lhe perguntei se queria experimentar beijar alguém com Baton nos lábios.  Primeiro foi divertido, mas em seguida, estávamos nos beijando de verdade.

No final ele me disse, gostei, quero sempre mais.

Juntos descobrimos o sexo, no porão de casa, construímos um lugar para brincar, um dia jogávamos de Tarzan, ficamos os dois de cuecas, tínhamos uns doze anos, sabia que o piru dele era maior que o meu, quando vi, o estava chupando, ficamos nos masturbando juntos.

Isso virou um hábito de todo dia.    Nunca nos descobriram, mas meu pai quase pega a gente no flagra uma vez.   

Meu pai, adorava jogar basquete no fundo da casa, ali tinha colocado um aro, nos seus momentos livres estávamos com ele.    Tinha sido capitão de sua equipe na escola, aonde estudávamos tinha futebol, mais nada, uma bola que alguém escondia quando vinha algum professor.  Um dia me perguntou muito sério se eu não me incomodava de ir à mesma escola que ia o Tom.    

Como explicar a ele, que pelo Tom eu iria até o inferno.   Lhe disse simplesmente que era como ir a outra qualquer, ele não entendeu, pois nunca aprendeu a linguagem dos signos, dizia que estava velho demais para isso.

Minha mãe achava um absurdo, quando tínhamos 16 anos, ele 17, meu pai teve um enfarto no armazém da loja, caiu duro.

Os dois deixamos a escola para ir trabalhar com ela, havia dividas para pagar, tínhamos que viver de alguma coisa.   Meu pai falava do irmão, mas era imprevidente, não tinha seguro de vida, seus livros de contabilidade era um caos.   Tom que era bom de matemática, passou a administra tudo. Os dois cuidávamos do armazém também, era muito para minha mãe, isso nos fez ficar fortes, pois tínhamos que mover sacos, nessa época muitos garotos se metiam conosco, mas tínhamos punhos para nos defender.

Claro existia um problema, os dois erámos garotos bonitos, altos loiros, de cabelos compridos, eu adorava mexer nos seus cabelos, ele que eu fizesse isso.   Minha mãe reclamava, se estávamos vendo televisão, eu mexendo nos seus cabelos, me dizia deixa seu irmão em paz.

Ele fazia sinal para continuar.

Íamos ao cinema juntos, as pessoas reclamavam que não parava de fazer sinais para ele, explicando alguma coisa que tinha passado por cima.   Tivemos a melhor juventude que podíamos ter.  Eu via algumas fotos de algum travesti, mostrava para o Tom.  Numas férias fomos para San Francisco, nesse época já fazíamos sexo um com o outro, eu me metia todas as noites na sua cama, quando sabia que minha mãe me chamaria, corria para a minha.

Fomos assistir um show num cabaré, fiquei como louco, ele se matava de rir, lhe disse esse era meu sonho, me olhou sério soltou, se é teu sonho vamos por ele.   Seu sonho ao contrário era estar sempre comigo.

Já tínhamos 18 anos, minha mãe, abriu uma conta no banco para cada um, aonde ele como fazia contabilidade, depositava nosso salário.  Guardávamos tudo, para nosso sonho, na verdade o meu.

Quando minha mãe, descobriu que tinha câncer, tínhamos já uns 24 ou 25 anos, foi uma tragedia, os dois a queríamos com loucura.   Sua irmã veio ficar conosco, disse que nunca tinha visto uma casa tão silenciosa, pois claro os três falávamos o tempo todo pela linguagem dos signos.

Ela ao contrário, percebeu alguma coisa, pois dizia esses meninos assim nunca vão arrumar uma noiva.   Minha mãe um dia se aborreceu, soltou na cara dela que ficou vermelha como um pimentão, não entendes que um vive para o outro, eles se amam.

Ficamos os dois de boca aberta, depois ela comentou conosco, nunca vou criticar vocês, sei desde o primeiro dia, quando meu filho ficou louco quanto te viu Tom.  A partir desse momento entendi que iria te amar para sempre.

Era uma verdade, estar sem ele, era estar sem ar.

Nessa época, nunca soubemos como, apareceu sua mãe verdadeira, ele nem se lembrava dela, estava muito bem casada, com um homem rico, queria saber se ele queria viver com ela.

Me olhou, eu estava sentindo o chão desaparecer embaixo de mim.

Pior que não sabia falar com ele, falava rápido demais.  Minha mãe, salvou a situação, não achas que depois de tanto tempo, não vais conseguir te comunicar com ele. Eu sou sua mãe, sempre viveu comigo, o cuidei como meu.  Não vou permitir que você venha com esse carro fantástico, queira levar meu menino.   Só por cima do meu cadáver.

Fora daqui sua lambisgoia.  A empurrou para fora de casa.  Ainda lhe soltou uma ladainha, aonde estava quando ele precisava de ti, quando tinha dores, quando não sabia expressar o que sentia.  Somos a família dele, desapareça.

Tom se matava de rir, porque minha mãe falava tudo isso, ao mesmo tempo fazendo a linguagem dos signos, quem visse, pareceria uma louca.

Morreu um ano depois, depois de tanto tratamento, colocamos uma peruca na sua cabeça, para estar arrumada no caixão, entre os dois a lavamos, lhe colocamos o melhor vestido, o padre fez uma missa bonita, apesar de nunca irmos à igreja, os clientes foram todos, estava lotado. Nesse mesmo dia, um chinês se aproximou, perguntou se queríamos vender a loja, bem como o armazém com tudo que tinha dentro.  Ele teve que negociar com o Tom que era duro na queda.

Nessa noite conversamos, agora dormíamos juntos como um casal, adorava sentir seu cheiro tão particular, dormimos a vida inteira agarrados um ao outro.

Quando o advogado disse que no testamento de minha mãe, tudo era para os dois, resolvemos ir à luta, vendemos o negócio, mas deixamos a casa como um seguro, falamos muito nisso.

Me preparei para ir à luta, ele só não me permitiu, raspar as pernas, disse que adorava passar a mão pelas minhas pernas peludas.

Comecei a me apresentar pelas espeluncas do bairro gay, até que tive a firmeza de me apresentar no cabaré que hoje é meu.  O homem que levava o mesmo, dizia que eu devia fazer um show, falando, contando histórias, ensaiamos muito com ele, eu levava mais da metade do show, interferia nos show dos outros, fazia sempre um personagem, que se sentava na plateia, começava a questionar quem estava no palco, dizia que tinham desafinado, um deles fazia o papel do irritado, com voz horrorosa, como posso ter desafinado se era um playback.  A plateia vinha abaixo.

Ele soube que era o Tom que administrava tudo que tínhamos, o contratou, ele fazia toda a contabilidade, pagava os artistas, alguns eram atrevidos com ele, eu botava logo a banca, eu vi primeiro.

Ninguém poderia acreditar, que nunca estivemos com outra pessoa que não fosse o outro.

Um idiota uma vez perguntou quem dava para quem, bom o Tom deu uma aula, especial para o dito cujo, na linguagem dos signos.

Mas na verdade acabava o show, eu limpava a cara, íamos para casa, de braços dados, mas vestidos de homens.

Erámos muito parecidos, uma vez bolei um ato, em que entravamos os dois, ele de costa para mim, a parte dele vestida de homem, eu de mulher, era difícil de fazer, isso ficou no show anos, pois o pessoal alucinava, pensava que era só uma pessoa.

No final, como as roupas estavam presas com velcro, nos separávamos para agradecer, mas quem cantava o tempo todo era eu.

Aprendi a cantar, modular minha voz, não fazia playback, o pessoa gostava, não se sentia enganado.   Depois do show, sempre levava uma cantada, eu dizia que fazia bem ao meu ego, mas pedia desculpas, mas tinha compromisso.

Um dia um despeitado, disse que era horrível o que fazíamos, erámos irmãos, que isso era um incesto.

Até explicar para o sujeito que queria chamar a polícia, que éramos primos, foi um custo.

Gerard que era dono local, acabou chamando a polícia, sempre tinha um na entrada, para controlar as confusões.  Botou o sujeito para correr.   Era um tipo bonito, dizia que queria ir com os dois para cama.

Um dia estávamos fazendo sexo, Tom começou a rir, perguntei o que passava, ele contou, estou imaginando esse policial aqui, o levaríamos a loucura, ele pensando em comer a gente, a gente fazendo ao contrário.

Perguntei se ele queria fazer isso, mas já com mau humor.

Me olhou sério, sempre tive a ti, nunca precisei de mais ninguém, isso estragaria tudo, vamos imaginar que ele se apaixona pelos dois, nunca íamos tira-lo de cima de nós.

Um dia estávamos jantando, num domingo, comendo pizza, o policial, apareceu a paisana, era realmente um tipo.  Tinha intimidade para se sentar com a gente.

No final foi claro, fico alucinado pensando em fazer sexo com vocês.

Rimos muito, lhe contei o que o Tom tinha falado, ele parou para pensar, lhe contei desde quando nos amávamos, era um tipo fantástico, disse, tens razão, eu não quero estragar a vida de ninguém.    Tempos depois, apareceu com um outro polícia, nos contou que estava tentando ter uma relacionamento.   Iam sempre lá em casa nos dias que não trabalhava, se por acaso eles estavam livres.   Nos contavam tudo, como iam as coisas, os problemas que podiam suplantar.

Não se davam conta, mas eram muito parecidos um com o outro.

Stan, que era o nome do nosso amigo, ficou arrasado, quando o outro morreu num tiroteio.

Passou mais de dois meses lá em casa, não conseguia ir para a sua, chorava, dizia que tinha perdido uma parte dele.   Mas o controlávamos para que não se metesse em drogas, em bebida nada disso, sempre foi nosso melhor amigo.

Quando Gerard disse que queria vender o local, vendemos a casa que estava alugada, com nossas economias compramos o local.   Fizemos algumas reformas, melhoramos os camarins, que todo mundo reclamava.  Tom administrava tudo com mãos de ferro.

Stan vinha todos os dias depois do trabalho, tinha alugado um apartamento ao lado do nosso, erámos como uma família, quando alguém se aproximava dele, perguntava se devia ou não ir.

Quando se começou a falar da Aids, lhe dizíamos para tomar cuidado, ele obedecia, por isso foi um dos que se salvou.

Vimos morrer um monte de gente, íamos mais a enterro que festas, ajudamos a muita gente, fizemos show para arrecadar dinheiro, íamos aos hospitais, para animar o pessoal, embora saíssemos arrasados.   Stan dizia que agora tinha medo de fazer sexo.

Um dia chegou um policial, que vinha transferido de aonde o judas perdeu a bota, era inspetor, foi ficando amigo do grupo, vinha a casa do Stan.   Um dia me chamou de lado, não tem jeito, vim para cá, para sair do armário, me apaixono logo por esse idiota que convive com vocês, mas me olha com medo.

Contei o que tinha passado com Stan, ele entendeu, foi devagar, finalmente conseguiu, mas eu lhe avisei se fizesse mal a ele, lhe cortava as bolas.

Se casaram antes da gente, logo Paul adotou dois garotos, irmãos, que tinham perdido a família, iriam para adoção, mas claro queriam separar os dois, ele conseguiu convencer ao juiz, que era sério para ter uma família.

Um dia veio um homem do serviço de tutela, sem querer bateu na porta errada, eu o reconheci como um cliente, que ia ao cabaré, mas que fazia tudo escondido.

Bati na outra porta, aonde o estavam esperando, soltei ao Paul, um velho cliente do Cabaré.

Ele entendeu que éramos fora dali, pessoas normais.

Mexeu os papeis rápido, os dois meninos conseguiram uns pais fantásticos.

Agora somos uma família, acabamos comprando o prédio em que vivemos aos poucos, inclusive a loja que está embaixo, quem leva ali um restaurante é um outro amigo nosso.

Aos poucos, o prédio virou um reduto de amigos, todos nos conhecemos, fazemos os aniversário de todos, passamos Ação de Graça, Natal, todos juntos, estamos sempre nos apoiando uns aos outros.

Quando me surgiu a oferta de vender o local do cabaré.  Fizemos uma reunião, já tínhamos discutidos isso antes, mas quem sabe escutávamos alguma coisa, sobre a luz no final do túnel.

Na verdade estava cansado, eram muitos anos andando por esta estrada, sentia que Tom queria uma vida mais simples.

Agora era a vez dele, pensei.   Stan sempre dizia que eu tinha sorte, a maioria dos proprietários de casas assim, perdiam dinheiro, pois não sabiam administrar o local, Tom ao contrário, tinha aprendido com o Gerard, levava as contas justas.

O pessoal que trabalhava, confiava nele, nunca errava nada. Inclusive quando tinham problemas, ele ajudava.   O que era interessante, dizia para a pessoa, que a ideia era minha.

Eu as vezes levava um susto, vinham me agradecer de alguma coisa, não sabia do que estavam falando, mas deduzia que tinha sido ele.

O que me fez tomar a decisão, foi quando ele teve um princípio de enfarte.

Hoje é o último show, estão todos emocionados, hoje de manhã, assinamos os papeis de venda, eu me matei de rir, quando o que queria comprar, começou a falar comigo.   Pedi desculpas, mas essas coisas ele tinha que negociar com o Tom.

Ele sorriu, pensou o cara é surdo/mudo, é fácil de engambelar, foi ao contrário, saiu o tiro pela culatra.  Tom colocou um preço muito acima do valor real, sabia que estavam desesperados, pois já tinham comprado os apartamentos de cima do cabaré.

Cada vez que tentava me colocar na conversa, eu dizia que não, era a ele que tinham que convencer.

Saímos ganhando, Tom fez uma coisa que me pareceu fantástico, esse dinheiro a mais, fez como uma indenização de todos que trabalhavam conosco.  Na verdade só duas pessoas eram fixas, os garotos que levavam o bar.  O pessoal do show, ele contabilizou os anos que trabalhavam conosco, preparou os papeis, entregou um envelope com o dinheiro.

Uma das mais antigas, me disse na cara, se não é porque tenho medo de ti, roubava esse homem para mim.   Ficamos rindo.

O show, foi com a casa cheia, como já tínhamos liquidado tudo, o dinheiro do dia, foi para uma organização LGBT. Assim fechamos com chave de ouro tudo.

Me desfiz de todas as roupas, perucas, com as meninas, elas riam como pode alguém que calça 46 subir nesses sapatos altos, 44.   Técnica dizia eu.

Os últimos meses, levamos debatendo o que faríamos primeiro.

Tom soltou pela primeira vez que tinha um sonho.

Qual é meu amado?

Queria ir conhecer Paris, assistir os shows famosos ao vivo. Mas o melhor foi que Stan e Paul vieram juntos com os garotos, na verdade os shows foram bons, mas nunca tinha visto o Tom se divertir, como quando fomos a Paris Disney.     Ele ria como um louco com os garotos, entraram em todos as coisas, comprava as coisas que eles gostavam.  Quando Stan reclamava, lhe dizia, os avôs são para isso, estragar os netos.   Era uma verdade, tínhamos idade para sermos avós desses garotos.

Foram 15 dias de farra.  Quando voltamos para casa, recebemos a visita de um advogado, sua mãe tinha morrido, deixava sua herança para ele.

Quando ele viu os números, fez uma coisa.

Stan, bem como o Paul que viviam dos seus salários, Tom fez um fideicomisso, para os garotos irem à universidade.  Quando quiseram reclamar, ele soltou que nós dois não pudemos ir porque tínhamos que trabalhar, essa mãe, para ele não significava nada. Portanto o dinheiro era para gastar.

Com uma parte, compramos uma casa numa praia, entre San Francisco e Carmel, Tom pareceu rejuvenescer, ia a praia com os garotos, quando começaram a aprender surf, ele se apontou também, Stan não entendia o que se passava, mas eu lhe expliquei, ele tinha sacrificado a vida inteira por mim, querendo que eu fosse feliz.   Agora é seu momento, quero que ele seja feliz, eu o amei desde o momento que vi, portanto ele merece isso é muito mais.

O mais interessante era ver como os jovens vinha falar com ele, como se o fato de ser surdo/mudo, ele não pudesse contar o que escutava, mas era divertido, vê-lo dando broncas nesses jovens, os meninos que tinha aprendido linguagem dos signos se matavam de rir.

Um dia veio reclamar, esses garotos pensam que porque sou surdo/mudo, sou um idiota, se enganam.  Nessa noite o amei mais que tudo na vida, esse era meu garoto.

A varanda da casa sempre estava cheia de jovens, vinham conversar com esses dois velhos.

Agora passávamos mais tempo nessa casa que em San Francisco, a casa tinha uma lareira fantástica para as noites de inverno.

Desfrutávamos muito, conversando, relembrando coisas da nossa infância, juventude, quando estavam Stan, Paul com os garotos mais.   Eles reclamava que estavam ficando velhos, pois em breve os garotos iam a universidade.  Quando se aposentaram, ficavam cada vez mais.

Tom morreu dormindo, simplesmente tinha um sorriso na cara.

Deixou tudo que tinha para os garotos, no testamento, dizia quero que eles tenham tudo que nós não tivemos.  Porque eles me alegraram muito minha vida, já tinha 75 anos.

Uma carta para mim, que era uma declaração de amor, dizia que quando seu pai o levou para a casa dos meus pais, era consciente que o ia abandonar, porque nunca mais apareceu. Tinha medo, mas nunca esperou que eu o recebesse como fiz.  Me deste amor desde o primeiro momento, fui feliz cada segundo ao teu lado.   Aproveite com nossos amigos os anos que te restem.

No enterro, quem estavam arrasados eram os garotos, porque o adoravam, um deles virou-se para mim, soltou, quem agora vai nos fazer entender a vida.

Nunca tinha desconfiado disso, ele era o confidente dos garotos.

Lhes respondi, que poderia tentar ajuda-los, podiam confiar em mim, nunca imaginei que me metia em camisa de onze varas, mas que no fundo me ajudou a superar muitas coisas.

Além e claro do Stan, que se confessava comigo.  Eu escutava a todos, sem jamais comentar qualquer coisa, me coloquei na pele do Tom.

Só espero não viver muito mais, pois sinto imensa falta dele.

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 22 de agosto de 2022

DESAGRADÁVEL

 

                                                   DESAGRADÁVEL

 

Me chamo Rodrigo Sánchez, como muitos latinos, minha mãe era descendente de Mexicanos, meu pai, ah esse era um filho da puta de muito cuidado.  Pertencia a uma gang, das muitas que existe por NYC, principalmente no Bronx.  Quando nasci ele estava já na prisão, tinha uma sentença inteira para cumprir, 23 anos.

Eu tinha acabado de fazer 22, estava terminando a universidade, sempre com a notas altíssima, tinha estudado graças a bolsas de estudo, por ser um aluno brilhante, nunca precisei ser um atleta, embora, tivesse 1,80 de altura.

Ela deu um duro desgraçado para irmos em frente, passou a viver na casa de sua irmã em Long Island, esta era casada com um italiano, muito boa gente, que tinha uma oficina mecânica.

Minha paixão diga-se de passagem.

Como não era casada com ele, se casou com o homem que era seu chefe, ele me adotou, já que eu só levava o nome dela.  Depois de alguns anos indo visita-lo em prisão, resolveu que isso atrapalhava o futuro dela.

Os dois tinham morrido, justamente nas primeiras férias que tiravam fora do pais, puseram um mapa, fecharam os olhos acabaram escolhendo uma praia na Tailândia, mas claro nunca nada é perfeito, justamente estavam na praia quando ocorreu um famoso Tsunami, desapareceram do mapa, levaram tempo para encontrar seus corpos, a muito custo, o governo americano os trouxe para casa, em caixões lacrados, os enterramos, mas segui vivendo na casa que vivíamos, pois me tocou como herança.

Levei muito tempo para me recuperar, mas tinha apoio de minha tia, de sua família, além é claro do meu namorado, um sujeito espetacular, que tinha se formado um ano antes de mim, em direito.

Eu fazia engenharia mecânica, afinal era louco por motores, desde criança meus momentos livres eram na oficina mecânica do meu tio.

Justamente estava ali com ele examinando um motor de um Cadillac antigo, que estávamos recuperando juntos.

Nisso parou um carro justo na frente, com uns tipos muito estranhos.    A cara de meu tio foi ótima, entendi no momento o que era.

Saiu um homem mais baixo do que eu, se daqui alguns anos eu continuasse vivo teria essa cara, mas não tantos tatuagens como ele.

Saiu do carro gingando como os da sua laia, veio na minha direção, olhou na minha cara, me perguntou se era assim que eu recebia o meu pai.

Sinto, mas meu pai morreu a pouco mais de dois anos, tanto ele como minha mãe, o outro um idiota que se achava o rei do mundo, morreu no dia que entrou na prisão.

Virei, continuei mexendo no carro, não queria nada com ele.  Não o conhecia para nada.

Ficou uma fera, como podia desrespeitar ao seu próprio pai.

Meu tio, que era mais calmo, como espera que te receba como seu pai, se nunca te viu na vida, foi criado de outra maneira, longe do Bronx, longe de tudo isso.

Pois eu saí da prisão ontem, tudo que sonhava era ver meu filho.

Virei me para ele, sabia que tinha filhos com outra mulher, por um acaso já viste teus outros filhos, fui enumerando, dois morreram traficando drogas, um está na prisão, a garota coitada, se prostitui, vens procurar a mim que nunca te vi na vida.  Tenha paciência, eu tenho uma vida, não penso sequer conversar contigo.

Contigo não, deves dizer com o senhor, mas respeito.

Perdi a paciência, era mais alto que ele, podia ser mais forte do que eu, mas eu também sabia brigar, tinha lutado muito, para não ser vítima de abusos.

Me coloquei na frente dele, o olhei diretamente nos olhos, alguma vez te preocupaste se precisávamos de dinheiro, eu de um pai que me aconselha-se, que estivesse presente nos meus bons e maus momentos.   Não, estava preso, por tráfico de drogas, por vender essa merda aos jovens.   Olhe teus outros filhos, seguiram teus passos, aonde foram parar.   Nem pensar, sinto muito, mas não quero nada contigo.

Vi que seus homens, tinha a mão na cintura, sinal de que estavam armados.

Voltei ao carro, segui trabalhando como se não estivesse ali, creio que se deu conta que não valia a pena insistir, ainda tentou argumentar com meu tio, que tinha o direito de me conhecer.

Escutei que meu tio falava baixo com ele, é como tu, cabeça dura, tens que entender que ele não tem nada a ver com o teu mundo.  No final do ano, será um engenheiro mecânico, tudo porque estudou, lutou para chegar lá, sem ajuda de ninguém.

Depois só escutei o ruido do carro indo embora.

Sabia que não ficaria livre dele por muito tempo. Mas fiz tudo para me concentrar, segui mexendo no carro.

Quando chegamos na casa do meu tio, minha tia já sabia da história.   Estava nervosa, como ia ser agora.

A deixei tranquila, não queria nada com ele, isso ela podia ter certeza.

Durante a semana, eu fazia aulas de manhã, depois trabalhava num restaurante, cuidando do caixa, atendendo clientes.

Um dia ele apareceu, com um traje passado de moda, que cheirava a naftalina, queria uma mesa, sem tirar os olhos da cara dele, perguntei se tinha reserva?

Aqui só atendemos clientes com reserva, sinto muito.  Quis forçar a barra, mas justo nesse momento parou um carro da polícia atrás do seu.

Foi embora.

Contei tudo ao Brando, avisei que tivesse cuidado, nessa noite estava eufórico, tinha sido convidado para trabalhar com um fiscal que tinha muito nome.

Fui claro para ele, meu pai não vai me deixar em paz, creio que isso pode ser um problema para ti, eu te quero, tanto que não quero estragar tua vida.   Acho melhor passares um tempo na casa dos teus pais.

Uma semana depois, cheguei em casa morto de cansado, tinha uma prova final no dia seguinte, vi seu carro parado diante do edifício.   Já estava chateado porque o Brando pensou bem, resolveu aceitar meu argumento, seguíamos nos vendo, mas já não ficava na minha casa.

Não o vi por ali, mas estava dentro do meu apartamento.

Que bem vives, me soltou, não me disse boa noite, nada.

Fui até ele, soltei, tenho que estudar, por favor vá embora, pois senão eu chamarei a policia o denunciarei como invasão de domicilio.

Não vão fazer nada, essa é a casa do meu filho.

Como vais provar isso, fazendo uma exame de ADN urgente, se sequer levo teu nome, me deixa em paz, por favor, tenho uma prova importante, prometo que quando esteja terminado o curso, falo contigo, mas agora não.

Se levantou, escreveu num papel o número de seu celular, foi embora, passou raspado por mim, espero que me chames.

Foi difícil me concentrar nos livros essa noite, falei com meu tio, terei que enfrentar essa fera, mas não quero nada com ele.

Acabei os exames, tive sorte, em saber me concentrar, passei com a nota máxima, receberia um diploma cum laude.

Lhe chamei, disse que podia vir essa noite na minha casa, mas que viesse sozinho, sem esse carro horroroso, nada que chamasse atenção.

Ficou puto quando chegou, se deu conta que eu tinha trocado toda fechadura, agora eram várias de máxima segurança.

Estava vestido simplesmente com uma calças jeans, uma camiseta.

Lhe disse na cara, que assim estava melhor, fui até ele, retirei dois cordões imensos dourados que tinha em volta do pescoço, coloquei na sua mão, com isso pareces um idiota.

Como foi teus exames, já acabaram?

Sim, acabaram, me vou diplomar em uma semana, depois irei embora daqui, estarei fora do pais algum tempo, vou trabalhar para uma fábrica de aviões em outro lugar.

Ficou me olhando, sem saber se eu falava sério ou não.

O senhor não me conhece, sou uma pessoa franca, apesar que meu outro pai, minha mãe me ajudaram, eu sempre trabalhei, consegui estudar com bolsas de estudo, fiz a faculdade porque tinha notas excelentes, tudo por meu esforço próprio, não quero nada teu.

Quem era o rapaz que vivia aqui contigo?

Vejo que andaste fisgando minha vida.  Bom esse rapaz, é ou era meu namorado, como vai trabalhar com um fiscal, lhe pedi que se afastasse de mim, pois minha companhia, a partir que tenho um pai, que acaba de cumprir pena de 23 anos, isso podia prejudicar sua carreira, não queria mas aceitou o que lhe pedi.   Sim sou gay.

Ele ficou olhando, começou a chorar, tinha um companheiro que dizia que tudo que fazemos aqui, aqui se paga.

Eu quando entrei para a prisão, fui carne fresca, abusaram de mim, depois abusei de todos os novos que chegaram, depois tinha um garoto, que era meu, fazia o papel de minha mulher, agora descubro que meu filho é gay.   Ironia do destino.

Tens vergonha de mim?

Na verdade não, porque nunca te considerei meu pai, só emprestaste teu esperma, para que eu nascesse, mas o pai que me criou, foi outro, o amava, levei muito tempo para me repor a morte dos dois.

Como morreram?

Contei para ele, trabalhavam duro, a primeira oportunidade que tinham de fazer uma férias, escolheram ir para uma praia em outro pais.  Fizeram um jogo, em cima de um mapa, foram para a Tailândia, foram tragados por uma onda imensa, num tsunami.

Tive que explicar para ele o que era.

Ficou me olhando com a boca aberta, impressionado.

Perdi os dois ao mesmo tempo, mas tinham me educado bem, apesar que o apartamento agora é meu, trabalho, o senhor viu, comecei como garçom, mas hoje dirijo o restaurante.

Acabei meu curso, fui escolhido por essa empresa, para trabalhar para eles, ao mesmo tempo fazer práticas, sobre motores de avião.

Senti que estava orgulhoso de mim.

Me perguntou se eu usava drogas?

Jamais, sequer bebo, nesta casa nunca se permitiu isso, nem eu tive tempo para perder na vida com nada disso.

Fazes bem, olha aonde eu vim parar.   Mas sou honesto, outro dia fiquei ofendido, nunca tive outros filhos além de ti.   Esses meninos, eram filhos do meu irmão, ele morreu na prisão.  Entramos juntos, mas ele morreu dois anos depois.

Eu era um idiota renomado, agora tenho que escapar disso tudo, mal sai da prisão, foram me buscar, acham que tenho mais vivência, por ter convivido com outro marginais.

Tenho sim vivência em me proteger, para conseguir sair vivo de lá.     Na verdade venho me despedir, sairei de tua casa, vou desaparecer por algum tempo, não quero que tenhas vergonha de mim.

Espero que sim, tens dinheiro?

Não, mas sei trabalhar, durante o tempo que estive na prisão, trabalhei na oficina mecânica, entendo de carros.  Não se preocupe por mim.

Por um tempo não terei celular, mas chamarei ao teu com um desses que se usam agora, que ninguém sabe de aonde vem.

Na hora de ir embora, se levantou, sorriu, fico orgulhoso de ti, espero que daqui algum tempo não tenhas vergonha de mim.   Posso te dar um abraço?

Lhe disse que sim, me abraçou, me beijou dos dois lados da cara, disse que estava orgulhos.

Seja feliz.

Uma semana depois embarquei para Londres, de lá para a cidade aonde ia trabalhar.

Me despedi do Brando, sabia que ele já estava com outra pessoa, mais conveniente para ele.

Um ano depois, recebi uma chamada dele, disse que agora tinha outro nome, passava a se chamar Antônio Vargas, que tinha um emprego, que estava tentando borrar todo o passado.

Me chamou de novo na véspera de Natal, me perguntou como ia comemorar?

Lhe respondi que como estava cansando, tinha uma semana de folga, ia passar uma semana em Paris, sozinho.

Já encontraras uma pessoa que te queira.  Feliz Natal meu filho.

Fiquei com pena dele, imaginava como seria os natais na prisão.  Mas minha mãe sempre dizia que cada um escolhe seu destino, tem que aguentar com isso.

Deveria ter escolhido ir para NYC, passar com meus tios, mas estes tinham resolvido se mudar, para Miami, pois minha tia nunca tinha suportado o inverno, os meninos, iriam dentro de breve a uma universidade lá.

Falei com eles, fui para Paris, foi ótimo, apesar de que passar essa noite sozinho foi pesado, mas me distrai do meu trabalho.

Quando voltei, fui procurado por uma pessoa que vinha acompanhando meus progresso, recebi um convite para ir trabalhar em Everret, no estado de Washington, na fábrica da Boeing, era uma coisa boa para mim, além de um bom salário, podia seguir em frente.

Quando meu pai me chamou em janeiro, lhe disse aonde estava.

Ele perguntou se podia me visitar?

Lhe disse que sim, assim que tivesse um apartamento ou casa, lhe avisaria.

Ele veio quando lhe disse, estava diferente, já não usava os cabelos como antigamente, vi que tinha borrado as tatuagens mais chamativas, me disse que trabalhava numa oficina mecânica em Toronto.

Passou um final de semana comigo.  Foi me contando como tinha sido sua vida na prisão, foi claro comigo, estou vivendo com o menino que foi meu companheiro nos últimos anos, quando fui embora, ele tinha saído, o levei comigo.  Estamos tentando que dê certo, de certa maneira ele gosta de mim.   Mas está difícil, sempre usou drogas, estou tentando lhe ajudar, mas fica complicado, se ele não se ajuda.

Quando voltou, me telefonou avisando que tinha que mudar de cidade, pois o rapaz tinha desaparecido, com certeza por culpa das drogas.  Já me daria notícias.

Soube depois que estava em Vancouver, me disse que o desagradável de tudo, foi ter que ver seu companheiro morto por overdose, era muito jovem, uma pena.  Tens razão, fui inconsciente na minha juventude, agora pago por isso.

Tinha feito algumas amizades no trabalho, o sujeito que me ajudava, Rick Nelson, era a gozação, sempre estavam pedindo para cantar, por causa do nome.  Num primeiro momento ficou chateado, pois ele esperava o meu lugar, com o tempo ficamos, amigos, era muito mais velho do que eu, queria esse projeto novo como um filho.

Mas ao me ver jogar no trabalho, ficou meu amigo, nos entendíamos bem, as vezes olhava para ele, estava tão concentrado como eu no trabalho.

Me chamou um dia, dizendo, todas as semanas nos reunimos na minha casa, um grupo de amigos para jogar cartas, tomar uma cerveja, falar da vida.

Pensei o típico encontro de heterossexuais, não vou gostar disso.

Primeiro perguntou se eu tinha alguma coisa contra os gays?

Não, por quê?

Porque todos somos gays, alguns trabalham aqui, mas em outros setores.

Fiquei de ir.    Um dia voltando do trabalho, fazia sempre o mesmo caminho, descia do ônibus, não tinha carro nesse momento, vinha caminhando, a semanas cruzava alguns dias com um rapaz bonito, que me atraia, nessa noite resolvi dizer boa noite.

Parou de repente, me soltou, já não era sem tempo, nos olhamos, mas sequer dizemos olá, ou boa noite.

Me estendeu a mão, se apresetou, Bill.

Eu o convidei para comer alguma coisa, estava morto de fome, ele me levou a um bar desses que ficam abertos a noite inteira, que tinha uns sanduiches fantásticos, me disse para comer o de pastrami, que era muito bom.  Com efeito era.

Me contou que era médico, trabalha em urgências, trabalhava 24 horas, tinha as outras 24 livre.

Fomos para minha casa, pois me disse que morava com seu pai.

Foi fantástico, nunca tinha me sentindo assim com ninguém, nem com o Brando, que conhecia desde jovem.  Foi como entrar numa explosão, sem dizer nada, ficou para dormir, de manhã me disse que fazia tempo que procurava alguém que o fizesse se sentir assim.

Tomamos juntos o café da manhã, lhe expliquei que tinha que ir para a fábrica, me deu seu numero de celular, perguntou se podíamos nos ver essa noite.

A partir desse momento, foram muitas noites impressionantes. Na semana seguinte Rich Nelson, me lembrou do jogo de cartas de sua casa, como tinha prometido ir, fui, sabia que Bill, iria trabalhar até uma determinada hora.

Fazia tempo que não me sentia tão à vontade com um grupo de pessoas, eu não conhecia nenhum deles, eram todos gays, mas nenhum deles era afetados, eu odiava isso.  Dois que estavam ali, formavam um casal, contavam que tinham se casado a meio ano, que estavam agora na fila de uma adoção, os dois queremos ser uma família.

A conversa durante um tempo, derivou nisso, um deles virou-se para o Rick, dizendo, tu pelo menos tem teu filho.

Ele mais ou menos me contou a história, fui casado, foi antes de servir o exército, na unidade de veículos blindados, era o mecânico de todos eles.   Mas claro, tive aventuras com outros homens, me descobri, quando voltei, claro o menino tinha nascido, mas ela estava com outro homem, foi uma disputa incrível, fizemos teste de ADN, era realmente meu, ela bebia muito, acabei conseguindo a guarda do meu filho.

Nos damos muito bem, é um senhor tipo.

Eu estava sentado de costa para a porta, escutei uma voz dizendo, estás outra vez contando a história da ninha vida?

Venha conhecer meu chefe, quando virei era o Bill, ele riu, já nos conhecemos, veio até mim me deu um beijo na boca.

Então é dele que não paras de falar?

Sim pai, é dele, mas não vai contar nada, verdade?

Eu estava completamente sem graça, devia estar vermelho.

Rick, bateu no meu ombro, não passa nada, fica tudo em família.

A partir de então, estávamos sempre juntos.

Um dia perguntei ao Rick por que não tinha ninguém?

Eu me dediquei a cuidar do meu filho, quando era pequeno era difícil escapar para noitadas, não tinha família.  Depois nunca encontrei uma pessoa para me apaixonar.

Eu estava feliz, era isso que valia, um dia meu pai, chegou com um carro, tinha vindo desde Vancouver conduzindo, me trazia esse que tinha recuperado de presente.  Me disse, assim não tens que ir de ônibus ao trabalho.

Como tinha chegado cansado, logo foi dormir, no quarto que tinha montado para quando ele viesse.  Nem tive tempo de falar do Bill.

Este veio tarde da noite, lhe disse que meu pai estava ali, já tinha contado minha história para ele, isso não pareceu lhe incomodar.

Estivemos muito tempo deitados, abraçados um ao outro, falando aos sussurros.

No dia seguinte de manhã, meu pai abriu a porta para dizer que o café estava pronto, nos pegou dormindo nus, abraçados.

Nisso o Bill despertou, ele como se nada estivesse acontecendo, se sentou ao meu lado na cama, riu, peguei meu filho no flagra, riu, me despertei, o vi ali sentado.  Só me disse, não me contaste nada.  Vou preparar mais café, assim tomamos todos juntos.

Bill pensou que ele ia fazer um escândalo.

Ao despedirmos, nos abraçou a cada um, nos deu um beijo, disse ao ouvido do Bill, faça feliz meu garoto, que ele merece.

Nessa noite tínhamos jogo, perguntei se queria ir?

Vou limpar esses bunda moles dos teus amigos.

Lhe disse que ia ser divertido, pois jogávamos por cêntimos.

Mas foi, passei por casa para tomar um banho, não contei que Rick era pai do Bill.

Rick quando viu meu pai, o olhava muito, tinha que avisa-lo, mas deixei passar.

Eles todos bebiam, menos eu, sempre tinha latas de coca cola para mim.

Quando Bill chegou, cansado, da porta soltou, vou tomar um banho, já me reúno com vocês, fui junto com ele.

Rick então comentou, finalmente meu filho encontrou alguém que possa amar, construir uma família.

Meu pai, soltou, eu os peguei essa manhã na cama, pensei que Rodrigo estava sozinho, mas teu filho me parece fantástico.

Quando voltamos estavam conversando como velhos amigos.  Ao levantar para ir embora, para minha surpresa Rick soltou, porque não ficas para conversarmos mais.

Fiquei preocupado, Rick era uma pessoa excelente.

Estava falando com Bill sobre isso, quando escutei meu pai voltando.

No dia seguinte, me disse, antes que o Rick fizesse ou quisesse qualquer coisa, contei meu passado para ele, não quero que tenhas ilusão de encontrar um homem perfeito, ficamos de jantar hoje.   Prefiro assim, ele me atrai, mas tem que saber aonde pisa.

Lhe dei um abraço, assim se faz.

Fui trabalhar, quando voltei de noite, não estava, apareceu eufórico no outro dia, que homem fantástico me soltou.  Me disse que não se importava em absoluto meu passado, que todos tínhamos alguma coisa negra atrás da gente.

Agora éramos quatro, Rick, arrumou um emprego para ele, numa oficina de um amigo dele, passaram a viver juntos.

Eu por desconfiança nunca deixava de observar meu pai. Agora era um homem mais relaxado, sorria mais, estava feliz.

Um dia chegou em casa apavorado, me disse que tinha se cruzado com dois traficantes da época dele, não me reconheceram, mas por pouco, um deles ficou me olhando desconfiado, claro agora não tenho tatuagens, nem a que sinalizava os da gang.   Mas meu medo é por causa do Rick.

Fico, enfrento isso, ou vou embora como sempre?

Fale com ele, vocês agora são felizes, acho que tens que lutar pelo que tens.

Conversaram muito pelo visto.

Mas a coisa ficou feia, queria que ele distribuísse drogas ali na cidade, ele se negou, lhe deram um castigo exemplar, primeiro porque descobriram que era gay, lhe deram uma surra, foi parar em urgência, completamente desacordado, esteve em coma vários dias, Rick, não saiu do seu lado.  Mas por azar, ficou uma figura horrível, tinham lhe cortado a cara toda, como num jogo, as cicatrizes era horríveis, pernas quebradas, bem como um braço, sua recuperação foi lenta, mas tinha Rick, além de nós ao seu lado.

Quando estivemos sozinhos, me disse que pensou que tinha morrido, que estava pagando por todas as merdas que tinha feito quando jovem.  Eu quando fui para a prisão não sabia que tua mãe estava gravida, talvez, tivesse tentado mudar de vida, mas meu irmão mais velho estava metido até o gasganete nessa merda.

Quando soube que ia ser pai, fiquei contente, mas de repente tua mãe deixou de ir, entendi que tinha direito a ter uma nova vida.   Tinha vergonha de terem abusado tantas vezes de mim, inclusive cheguei a gostar das maldades que me faziam, pois assim parecia que estava pagando o preço do que tinha feito de errado.

Nunca me esquecerei, justo dias antes de ser preso, um dos jovens a quem tinha vendido drogas, foi encontrado morto, a primeira pessoa que o viu fui eu.   Era meu companheiro na escola, fiquei horrorizado, disse ao meu irmão que me largava, me deu uma porrada em plena cara, dizendo, quando entras, já não podes sair, seu idiota.

Mas resultou que foi ele quem tinha matado o rapaz, por uma droga de má qualidade, depois quando ficou na prisão, viu que não podia me proteger, que abusavam de mim, uma e outra vez, pensei que ia me defender, olhou lentamente na minha cara, me disse que eu não passava disso de um viado de muito cuidado, basta olhar sempre tuas maneiras, te coloquei na gang para ver se viravas homem, mas errei.  

Deixou de falar comigo, até incentivava que me abusassem. Um dia fui parar no hospital, alguém entrou de madrugada, tentou me matar, era ele, aproximou sua boca ao meu ouvido, dizendo que tinha vergonha de mim, que era melhor que eu morresse.  Por sorte um guarda o pegou, eu já não conseguia respirar, não podia me defender, pois tinha os braços presos por correia.

Quando falaste dos filhos dele, pensando que eram meus, pensei, Deus já o castigou.

Mas essas revanches, com sabor de vingança, na verdade nos deixa com a boca amarga, quando finalmente me aceitaste, eu quase morri de felicidade, mas nunca quis te atrapalhar, tenho orgulho do que eres.

Mas agora terei que ir embora, pois voltaram uma e outra vez, cada vez farão pior, tenho medo por causa do Rick, finalmente alguém me ama, eu também o quero muito, por isso não sou capaz de ficar aqui.

Entre todos tentamos convence-lo, mas eu entendia, era como eu, quando colocava uma coisa na cabeça era difícil de tirar.

O jeito foi convence-lo de primeiro fazer uma cirurgia, Bill tinha falado com um cirurgião de estética, que lhe operou a cara inteira.   Rick, alugou uma casa no campo, para ficar com ele lá até sua recuperação.

Pior, resolveram que iriam embora os dois juntos.  Rick estava loucamente apaixonado por ele.

Por momento, me chamaram para dar aulas no MIT, dentro do processo de motores elétricos, que desenvolvia junto com Rick, concordei se ele fosse.  Foi a solução, Bill conseguiu um emprego lá, fomos os quatros, agora vivíamos todos juntos, num campo fora da cidade, ele com o Rick, montaram num celeiro uma garagem, agora tinha medo de ir à cidade, que o vissem, embora depois da cirurgia tenha ficado completamente diferente.  Lhe dava medo.

Um dia sentados os dois na varanda, me contou que tinha medo pela primeira vez na sua vida. Não só por ele, mas por nós.   Não sei aonde conseguiu uma arma, estava sempre de sobreaviso.

Um dia desapareceu, ficamos alucinados, só deixou um bilhete, não posso viver com esse medo, tenho que deixar de ser a caça para ser o caçador.

Não tínhamos ideia de aonde poderia ter ido.  Na verdade voltou a cidade aonde vivíamos antes, matou os dois que tinham feito com ele essa maldade, entregou para a policia toda a quadrilha, depois de tudo feito, se suicidou, pois sabia que viriam mais por ele.

Para mim que tinha aprendido a ama-lo, foi uma porrada na cara.

Mas estávamos preocupado pelo Rick, este ainda tinha esperanças que ele voltasse.

Me disse um dia, o amei no momento que entraste com ele pela porta, tinha nele alguma coisa escura do seu passado.   Mas antes sequer de me dar um beijo, me contou toda sua vida, que tentava te recuperar, depois de todos os erros de sua juventude.

Aos poucos deixava de ter pesadelos, que eram horrorosos, me avisou deles, proviam dos abusos que tinha sofrido ao entrar na prisão.

Me contou do seu irmão, aqui no campo a princípio parecia feliz, mas os pesadelos tinham voltado piores.

Agora toca levar adiante essa vida.

Convenci Rick de continuar comigo no projeto, mas claro ver o sofrimento do pai, afetou muitíssimo ao Bill, maldisse uma vez o fato de eu ter apresentado meu pai, ao seu.

Foi se afastando de mim, um dia recebeu um convite para ir trabalhar num hospital em NYC, foi embora, apenas me disse adeus, arrastou seu pai com ele.

Fiquei sozinho, de repente tinha um vazio imenso, tinha perdido o pai que tinha recuperado, o homem da minha vida, além de um grande amigo.

O projeto ficou desinteressante, mas as duras penas terminei de fazer.

Recebi um convite para ir trabalhar em Osaka no Japão.  Nem pensei duas vezes, o contrato era bom, tinha economizado todos esses anos, para uma aventura assim.

Aceitei, aproveitei meu projeto, fiz pequenos arranjos nos mesmo, para patinetes, vespas modernas movidas a energia limpa.  A vida me ia bem, mas tinha me tornado totalmente fechado em mim mesmo.

No edifício que morava, tinha como vizinho, um sujeito que pensei que era da Yakuza, sempre me dizia bom dia, boa noite, já falava bem o japonês, um dia me ajudou a subir com as compras, na hora que abriu sua porta, saiu um garoto, me apresentou seu filho, era um garoto com síndrome de Dow, o garoto sempre que me via, vinha me abraçar.

Um dia passeando pelas ruas, fazendo compras, vi que ele era na verdade um tatuador, me explicou que tinha tatuagens para chamar a atenção, fomos ficando amigos.

Um dia me pediu se podia ficar com seu filho, pois tinha que atender um cliente justamente da Yakuza, a babá não tinha aparecido, ele já estava atrasado.

Fiquei no seu apartamento, não podia ser mais japonês, o garoto não podia ser mais inteligente, aparentemente tinha a cara de um garoto com síndrome, mas conversava direito, gostava de jogos, ganhava sempre ele, se matava de rir.

Quando ele chegou, estávamos nos divertindo muito, colocou o garoto para dormir, com muito carinho, fiquei observando.  Depois me convidou para uma cerveja, lhe disse que não bebia, ele tinha pensado que sim, tinha comprado como uma forma de me agradecer.

No que foi abrir a porta, nossas mão se chocaram, dai foi um passo para acabamos na cama, ou melhor dizendo no tatame.

Depois, ria muito, disse que não tinha muita prática, como os americanos, me explicou que na verdade o garoto era seu sobrinho, dizia que era seu filho, para não complicar muito a coisa, meu irmão o ia abandonar, leva-lo a um campo, o deixar perdido, não pude consentir.

Nos tornamos inseparáveis, estávamos sempre com Bobby, eu passei a chama-lo assim, ele gostava.

Comecei a construir coisas que serviam para uma criança, o Bobby era meu cobaia, se ele gostava, sabia que ia dar certo.

Kim, estava todo o seu tempo livre comigo, resolvemos tentar viver juntos, foi o máximo, tínhamos uma ligação forte.   O que mais gostava, era ele me provocar ao máximo, esperar que eu tivesse o orgasmo, para ter isso junto.

Meu contrato chegava ao final, não haviam muitas escolas para crianças assim por ali, perguntei por que não voltava comigo para os Estados Unidos, podíamos nos casar, eu vinha ensinando inglês ao Bobby, ele falava perfeitamente.   Para ele sempre haveria campo de trabalho, pois suas tatuagens eram perfeitas.

Fomos viver numa cidade pequena, mas que tinha escola para o Bobby, tínhamos o mar, que ele adorava, vivíamos quase na frente de uma pequena praia, perto de San Francisco.

No verão Kim não dava abasto de tanto trabalho, eu também, porque abri uma pequena oficina, um dos meus primos veio viver conosco, trouxe sua mulher, seus dois filhos, estes eram pequenos, adoravam o Bobby que inventava milhões de jogos com eles.

Eu as vezes tenho medo de tanto coisa boa, quando o Bobby ficou doente, quase morri, tinha me apegado tanto a ele, que não podia imaginar minha vida sem meu filho adotivo.

Ele quase morreu, mas um médico conseguiu salva-lo, quando fui lhe agradecer, levei um susto era o Bill.   Estava muito diferente, a cara fechada, dura, me olhou de cima a baixo, me disse na cara, vejo que continuas a sobreviver.

Na hora não entendi, depois me contou, Rick tinha se suicidado, não conseguia imaginar a vida sem meu pai.  Então entendia a raiva dele.

Tentei argumentar, mas não houve jeito, quando conheceu o Kim, vi que lhe interessava, começou fazendo uma tatuagem, Kim que era muito tímido, me disse depois que durante a tatuagem tinha tentado fazer sexo com ele.  Quando me neguei se colocou furioso, acredito que teu amigo, toma drogas.

Não podia acreditar, quando falei com ele a respeito, me disse que sim, que eu o tinha abandonado.

Mas o caso era ao contrário.  Lhe disse que deixasse o Kim em paz, pois era um homem simples, não entendia o que ele estava fazendo.

Um dia apareceu em casa, nunca o tinha visto assim, vinha armado, disse que eu tinha destroçado a vida dele.   Não sei se de ver em filmes, Bobby chamou a polícia, que apareceu em seguida.

Falei com o Kim de irmos embora dali, ele disse que nem pensar, lembra-se que me contaste de teu pai, quanto mais fugia, mais complicada ficava sua vida.

Não colocamos denuncia nenhuma, mas Bill, foi obrigado a fazer um tratamento.  Se não fosse porque era um excelente médico perdia o emprego.

Tentou se aproximar de novo, mas lhe disse que respeitava além de amar meu marido, ao meu filho também.

Tempos depois soube que tinha conseguido uma transferência para outro hospital em Miami.

Meu primo me disse um dia, que se lembrava de mim de criança, que as coisas sempre aconteciam comigo, mas que de alguma maneira, eu continuava sobrevivendo.

Era verdade, minha vida estrava cheia de coisas desagradáveis, mas eu sempre me suplantava.

Quando surgiu a ocasião do Bobby ir para a faculdade, deixamos que ele escolhesse o que queria fazer.

Queria ser engenheiro mecânico, pois estava sempre me ajudando com os carros, os meninos do meu primo não se interessavam, mas ele era ao contrário, nem precisávamos dizer o que tinha que fazer, íamos pedir alguma ferramenta, lá estava ele, com ela na mão.

As vezes nos dizia de aonde vinha o ruido.

Quando Kim morreu de um câncer, foi um tratamento longo, muito duro, mas aguentei firme ao lado dele.  Bobby disse um dia, que quando era criança pensava pelos filmes que via, que se alguma coisa se estragasse nas pessoas, era só trocar, como um motor.

Kim morreu segurando a mão dos dois, nenhum tratamento resolveu nada, no final disse que queria ir para casa, morrer olhando o mar.   A estas alturas, já tínhamos 60 tacos, a dor, além da falta dele, quase me fizeram morrer, mas Bobby chegou um dia, me disse que sempre tinha confiado em mim, que não o deixasse sozinho no mundo.

Seguimos vivendo, agora tínhamos um barco, com meu primo, saímos para pescar, o filho da puta sempre pegava o peixe maior.  Era um concurso que ele fazia com os filhos do meu primo que o adoravam.    Depois sempre íamos a uma enseada pequena para nadarmos.

Ele ensinou os garotos, como eu o tinha ensinado a nadar.

Agora com quase setenta anos, sigo com ele ao meu lado.  Quando lhe pergunto se não tem uma namorada, ele ri.  Apesar de ser inteligente, elas olham para mim, não sou um surfista, nem um atleta, tampouco sou bonito, sou mas bem invisível para elas.

Mas a grande surpresa foi que um dia o Bill apareceu, estava muito melhor, disse que tinha feito um tratamento intenso para botar para fora tudo que sentia.  Lastimava a morte do Kim, mas ficou pouco tempo, o que queria era ir para a cama comigo, me neguei, isso não daria certo.

Voltou trazendo um jovem que se sentia como o Billy, tinha síndrome de Dow, mas era médico, os dois se entenderam de maravilha.  Eu dizia que era um complô do Bill para me deixar sozinho.

Mas se era isso o tiro saiu pela culatra, o Jean, arrumou um emprego num hospital lá perto, atende em casa também quem não pode pagar.  Os dois vivem um para o outro, Bobby diz que vive como vivíamos eu e seu pai.  Nunca lhe dissemos que não era seu filho.

Agora os dois entre eles me cuidam.

Pelos menos, me sinto entre dois anjos, pois os dois são fantásticos a sensação que na minha vida acontecem coisas desagradáveis, nunca terminara, mas tenho esperanças.