lunes, 8 de agosto de 2022

SCOTT STRAUB

 

                                          SCOTT STRAUB

 

 

Apesar do meu nome, parecer alemão, erámos descendentes de judeus convertidos da Irlanda, meu nome inteiro era Scott Smith Straub, o Smith era de minha mãe, uma mulher fantástica, judia por um acaso também, tinha já nascido na América, mas sua família tinha vindo da Áustria.

Meus avôs tinham um sotaque divertido, mas não suportavam meu pai, representava para eles toda a repressão que tinham sofrido.

Explico, por parte de pai, era como uma organização, seu avô tinha sido polícia, seu pai também tinha chegado a chefe de polícia, ele, meu irmão mais velho.

Erámos 4 filhos, meu irmão mais velho, um homem imenso, forte como um touro, tinha sido jogador de futebol americano, minha irmã, que escapou da saga, se formou em filosofia, dava aulas, Bobby meu ídolo, o irmão mais próximo de mim, por último eu, que foi um filho temporão, nasci com uma diferença de seis anos.   Foi um parto complicado, nessa época veio morar com a gente Gertrudes, mais conhecida como Trude.

Ela não era parente, era a melhor amiga de minha mãe, desde jovem, conheceu ao mesmo tempo um companheiro de meu pai, que morreu num tiroteio.  Veio para ajudar a cuidar da minha mãe, depois foi ficando, era mais uma da família, ajudava na cozinha, as duas tinham manias parecidas, podiam conversar horas e horas sobre algum assunto, se matavam de rir, eu adorava a gargalhadas das duas.

Minha mãe, morreu de repente, quando eu tinha 10 anos, de uma certa maneira tudo mudou depois disso, era mais ou menos mantinha a família unida.

Bobby, bem como eu, erámos seus filhos preferidos, ela não escondia isso, meu irmão mais velho John, era o querido do meu pai, minha irmã era a menina dos seus olhos.

Trude, fez tudo para manter a família unida, era a única que ousava enfrentar meu pai, bem como meu avô, como faria minha mãe, foi ela que acabou de me criar, era seu preferido, isso ninguém discutia.

As vezes na hora da comida, reclamavam, que sempre tinha que ter um prato meu favorito, que nem sempre os outros gostavam.

A coisa ficou preta, quando minha irmã apareceu em casa com um namorado, era companheiro dela de universidade.  Meu pai, chegou analisar a família dele, a reciproca era verdadeira, seu namorado não suportava o velho.

Quando se casaram foram viver em San Francisco, os dois eram professores da Universidade, quando muito vinham para o Natal.  Seus filhos tinham uma educação diferente da que tivemos.

Ele por acaso era judeu, o casamento foi feito em duas vezes, uma na igreja católica, para agradar a família, outra no rito judaico, para sua família.   Meu pai nunca tinha perdoado isso.

Meu irmão mais velho se casou tarde, já tinha quase 28 anos, seguia sempre as influências de meu pai.   Um belo dia apareceu com uma mulher completamente diferente, era uma mistura de mexicana com índio navajo.  Para meu pai, meu avô era um escândalo, a tinha conhecido, pois tinha atendido uma emergência, tinha sido assaltada, agredida, ele pegou o ladrão, estava por ali tomando café, a levou para o hospital, foi visita-la todos os dias, era de uma beleza diferente, era professora de crianças com síndrome de Dow.   Contra vento e maré, bateu o pé se casou com ela, meu pai tinha um certo preconceito contra os mexicanos, costa Riquenhos, pois achava que todos eram traficantes.

Ela era uma mulher especial, quando meu pai lhe enchia o saco, se levantava da mesa, pegava o prato, jogava no chão, dizia na cara dele, não me casei contigo, mas sim com teu filho, a vida é nossa, fazemos o que queremos.

Acabaram se mudando para uma pequena cidade perto de Filadélfia, meu avô reclamava, pois John era seu neto favorito, ao contrário do meu pai, acabou achando Dorothea, uma mulher fantástica, acabou indo viver com eles, pois adorava seus filhos.  Tinham três filhos, o último na verdade era adotivo, esse era o querido do velho, tinha síndrome de Dow, tinha sido abandonado pela família.   Eu também o queria muito.

Em casa durante um tempo, só sobramos Bobby, eu, Trude, que dizia na cara do meu pai, queria que tua mulher estivesse aqui, ia acabar contigo.

Eu compartia quarto com o Bobby no sótão, na parte de cima, minha mãe tinha mandado arrumar para os dois, tínhamos todo espaço para a gente.

Meu pai quando estava em casa sempre vinha bisbilhotar o que estávamos fazendo, um dia, sem que ele soubesse, Bobby mandou trocar a fechadura, ficou como uma fera.

Bobby jogava basquete, eu ficava de saco cheio pois todos gostavam de desporte, me cobravam isso, mas eu odiava, não encontrava graça nenhuma nisso.

Assistia os partidos de basquete com o Bobby, só para estar ao seu lado, me explicava mil vezes os passes, mas ria, porque sabia que não me fazia graça.  Um dia me perguntou, então porque vais me ver jogar, ou assiste os jogos comigo?

Lhe respondi olhando na cara dele, eres meu irmão preferido, adoro estar contigo.

Quando foi para a Universidade, foi como perder uma parte de mim, pois sentia sua falta, andava pela casa como um fantasma, ele foi estudar direito, porque meu pai queria.

A grande surpresa foi que de repente largou tudo, entrou para o exército, pelo seu tamanho, seu porte, ele foi ser Policia Militar, meu pai a contra gosto concordou, porque assim ele voltava já para entrar na polícia.

Vivia me cobrando que eu me preparasse para seguir a carreira do Bobby, que estudasse direito, que assim quem sabe entrava como inspetor na polícia.

Quando ele ia a algum julgamento, eu passei a ir, para ver como era, se gostava ou não.  Estava num julgamento impressionante, o juiz tinha proibido fotos durante o processo, eu entrei, arrumei um lugar perto de um homem que me chamou a atenção.  Estava ali desenhando cada coisa que acontecia durante o processo.   Eu adorava desenhar, no dia seguinte, trouxe um bloco como o dele, uma caixa de lápis todos apontados, prontos para serem usados.

Me sentei ao seu lado, fui fazendo o que ele fazia, prestava atenção em quem estava sendo interrogado, fazia o retrato da pessoa muito rapidamente, as expressões das mesma, ele de vez em quando olhava o que estava fazendo.  Quando chamaram o réu para depor, tinha que ser ligeiro, pois a cara do homem a cada pergunta, mudava, ora era irônico, colocava uma cara de chulo, quando o fiscal começou a fazer pergunta se irritava, eu ia virando a página, só desenhava a cara, algum gesto de mão, a forma da cabeça o faria depois, o que me interessava era a expressão.

Quando acabou o dia, o homem me convidou para tomar um refrigerante, eu fui.  Ele discretamente pegou meu caderno, começou a olhar cada desenho, comparar com o seu, me disse, eres melhor do que eu desenhando, olha que desenho a anos.

Consegues captar as expressões muito bem, agora tem que encaixar tudo isso, num contexto maior, me mostrou o que queria dizer, observar o juiz, o fiscal, fazer com simples traços, aonde se sentava cada um, a postura.

No dia seguinte fiz isso, mas tinha que ser rápido.  No final, quando o réu foi condenado, consegui captar toda a sensação de derrota que ele expressava.

Impressionante, me disse, me perguntou meu nome, quantos anos tinha, tens futuro disse ele, gostaria de ver mais trabalhos teus, me deu um cartão com seu nome, Peter Evangelist, marquei de ir a sua casa, para mostrar meu trabalho.

Era uma arapuca, queria sim que eu conhecesse sua mulher, que era uma pintora com um certo nome, quando viu o que eu fazia, se propôs a dar aulas para mim.

Lhe disse que não tinha dinheiro para pagar.   Levantou os ombros, dizendo, eu tampouco pensava em cobrar.

Conversei com a Trude, me disse que o fizesse sem que meu pai soubesse, pois iria fazer um escândalo.   Saia depois da aula, ia para a casa dele, Beth Evangelist, vendia seus trabalhos, nas galerias de NYC, era muito conhecida.

Me escapava aos sábados para ir a algum museu com eles, foi me educando, para que eu entendesse os estilos, os pintores antigos, falava sempre na emoção, que eu conseguia captar a emoção das pessoas nos meus desenhos.

Um dia Trude quase morreu, abriu a porta de casa, estavam dois militares, para dizer que Bobby tinha morrido.

Me chamou, estava branca, pediu que me explicassem, ela estava aturdida.  Eu queria que a terra me tragasse, pois mal escutava o que os homens diziam.

Chamamos meu pai, que veio com um carro patrulha.  Ficou branco, com os olhos cheios de lagrimas, depois furioso, queria saber os detalhes.  Bobby tinha ido apartar uma briga entre dois soldados que se odiavam, um deles lhe cortou a garganta de lado a lado.  Tinha morrido no ato.

Eu me fechei em nosso quarto, chorei como um condenado, nesse dia me neguei a comer, a fazer qualquer coisa.  Só avisei a Beth que não podia ir a aula.

No dia do enterro, notei um rapaz da mesma idade do Bobby, numa das idas a casa no seu período da faculdade, lhe perguntei sobre seu companheiro de quarto, me falou dele, senti que ele gostava do sujeito.  Era o mesmo.

O convidei para a recepção em casa, na verdade o arrastei, queria conversar com ele, o levei ao nosso quarto, tinha colocado numa moldura, um retrato do Bobby, ele ficou ali em pé chorando com os ombros caídos, se sentou no chão, ou melhor foi caindo de joelhos, ficou ali chorando.

Fiquei impressionado, lhe perguntei por que disso?

Me disse que era o culpado que o Bobby tivesse entrado para o exército, me contou o que tinha acontecido, saiam sempre juntos, um dia beberam demais, os dois se sentiam atraídos um pelo outro, acabaram fazendo sexo.

Fiquei confuso, pois não sabia que ele albergava esse sentimentos por mim.  Tinha uma namorada, mas tu conhecias teu irmão, fazia tudo como se fosse o último dia na terra, disse que me amava desde o dia que tinha me visto.

Fiquei sem saber o que fazer, por um lado o queria, mas não sabia analisar meus sentimentos, pedi para trocar de quarto, arrumei uma desculpa qualquer, ele me seguia por todos os lados, tentava me fazer entrar em razão, me dizia que o que lhe tinha mostrado, o amava também.

Arrumei aquela desculpa, que das depois de uma noite de bebedeira, que tínhamos feito sexo porque estava bêbado.

No dia seguinte ele desapareceu, trancou a matricula, entrou para o exército, tentei localiza-lo mas não consegui.   Tua tia Trude, como telefonou para seus amigos, para o enterro, encontrou o meu nome na sua agenda de telefone.

Sou honesto de dizer que meu mundo caiu, pois nunca deixei de pensar nele, descobri depois de tudo que ele tinha razão o amava.   Agora perdi tudo, esperava que ele recapacitasse.  A última vez que veio, estivemos juntos uma semana, disse que ia pedir baixa do exército, que iriamos viver juntos, que enfrentaria teu pai, o resto da família, o que fosse necessário, pois me amava.

Agora estou fudido, o abracei, eu sabia que meu irmão era gay, sempre tinha sabido, como ele sabia que eu era também.   Na última vez que ele veio, mostrei meus desenhos para ele, me disse que eram fantásticos, que eu devia estudar Belas Artes, que não ficasse preso as ideias de meu pai, o via feliz.  Quando o fui levar até o ponto de ônibus, me segurou pelos ombros, me disse que tinha reencontrado seu companheiro, que agora iria tudo bem entre eles.

Ficamos ali conversando, dei o quadro para ele.

Quando descíamos meu pai ficou olhando para os dois, viu o retrato, perguntou quem tinha feito o mesmo, só me disse quero um.

Não sei o que aconteceu, quando chegou o Natal, meu avô soltou uma bomba, disse que ia viver com o John, sei que houve uma discussão entre os dois, tudo que escutei, foi o velho acusando meu pai de querer mandar na vida dos filhos, acabarás ficando sozinho.  Pois meu pai, na ceia pediu ao John que viesse viver em casa, com a mulher e os filhos.  Quem respondeu não foi ele, foi sua mulher, que de jeito nenhum queria viver na mesma casa com ele.  Que ia amargar o casamento deles.   Principalmente que meu pai, nunca se aproximava do filho adotivo deles com síndrome de Dow.   Dizia que não era do nosso sangue.

Fez o mesmo com minha irmã, que soltou na cara dele, que tinham ido embora, que já era difícil conviver com ele no Natal, se mamãe estivesse aqui, nunca ia permitir que te mete-se na vida dos filhos.

No ano seguinte, eu teria que ir a Universidade, ele começou uma campanha, nas comidas, sempre tocava no assunto, porque eu não estudava em NYC, sem sair de casa.

Trude lhe chamava a atenção, mas ele ignorava.

Um dia entrou no meu quarto, viu as paredes, cheias de quadros de pinturas, coisas que tinha aprendido a fazer.   Ficou uma fera, nessa noite a bronca foi imensa, que ele não queria um filho gay, pintorzinho de merda.

Me lembrei da minha conversa com o Bobby, que eu não deixasse que ele dirigisse minha vida.

Desceu uma calma impressionante em mim. Olhei bem na cara dele, lhe disse que ia estudar Belas Artes, tinha uma bolsa de estudo, podia fazer o que quisesse.  Antes de mais nada, saiba que eu realmente sou Gay, ainda não estive com nenhum homem, mas um dia como o Bobby, encontrarei alguém para me amar.

Ficou uma fera, como podia falar assim do meu irmão, manchar sua lembrança.

Lhe disse na cara, sabe por que o Bobby entrou para o exército, contei para ele a história, pela sua cara, corriam lagrimas.

Não vou suportar mais isso na minha vida, amanhã quando volte, quero que não esteja mais aqui.  Trude que estava quieta até então, soltou, não se preocupe meu filho, minha casa que estava alugada esta livre, vamos para lá.

Virou-se para o meu pai, soltou, tua mulher tinha razão, eres um bom homem, mas um cabeça dura de fazer gosto, quero ver você viver agora, nessa casa imensa sozinho, até o velho foi embora porque já não te suporta mais.

No dia seguinte, arrumamos nossas coisas, fomos para sua casa, não era muito longe, há dois quarteirões dali.

Comecei a estudar Belas Artes, me saia bem.  Ia sempre conversar com a Beth, ela me aconselhou fazer aulas com um professor novo.  Tinha vindo de Paris, cheio de ideias, me apaixonei, nada mas olhar para ele.  Devo ter parecido um pateta, pois fiquei olhando para ele de boca aberta.  Começou a rir, me disse que fechasse a boca, pois alguma mosca entraria com certeza.

Comecei a aprender com ele, me dizia sempre, tens técnica, sabes captar as emoções, agora tens que desenvolver um estilo só teu.  Falava todo o tempo nisso com os poucos alunos que tinha.

Um dia nos levou ao seu studio, quando estávamos lá, entrou um negro imenso, nos apresentou como seu companheiro, ele era do Senegal, cozinhava num restaurante ali perto.

Quando vi os dois abraçados, todas minhas esperanças foram para a merda, pois vi que entre eles existia o que eu sonhava, amor.

Passei um tempo, pintando em branco/negro.  Me lembrei das conversas com o amigo do Bobby, o procurei, estava tentando endereçar sua vida, com ele tinha largos bate papos.

Notei que bebia demais, falei com ele sobre isso.

Quando não estou trabalhando, é o único que me sobra, já tentei fazer sexo com outros, mas só consigo se a pessoa for parecida com o Bobby.   A falta dele me faz doer todo o corpo.

Vivemos tão pouco tempo juntos, mas foram muitas emoções.

Eu entendia, apesar de nunca ter sentido essas emoções, tinha vergonha de dizer que ainda era virgem.

Comecei a analisar meus sentimentos, sempre tinha essa coisa da perda, primeiro minha mãe, depois o Bobby, essa angustia, comecei a retratar, com pessoas com a boca aberta, gritando, fiquei imaginando que os gritos de cada um poderia ser proveniente de alguma coisa, comecei a fazer em grande, um na universidade, era um grito de solidão.   O professor quando viu, trouxe o dono de uma galeria, para ver.   Me perguntou se eu queria fazer uma exposição.

O levei a casa aonde vivia com a Trude, mostrei toda a serie que tinha feito a respeito.

Ficou olhando, me disse que tinha material bastante para uma exposição, que a chamaríamos de “O Grito”.

O professor, Beth me ajudaram, queriam que eu assinasse um contrato, os dois disseram que não, ela ainda me sugeriu uma coisa, que o professor concordou. Se fosse bem a exposição que eu pegasse esse dinheiro fosse estudar um ano ou dois na École de Beaux Arts de Paris, que ali poderia melhorar mais.

Fizeram um catalogo todo em Branco/negro, além de um convite muito bonito, na primeira página dediquei a exposição ao meu irmão, que me tinha feito decidir sobre minha vida, a Trude que me tinha incentivado a ir em frente.

Mandei convite, catálogos ao John, bem como minha irmã.  Levei pessoalmente um para meu pai, a porta estava fechada, abriu uma senhora maior que eu sabia que estava cuidando da casa para ele, entreguei o convite, o catálogo, ela me sorriu, disse que entregaria a ele.

Deixei de me preocupar, pois tinha outras coisas em que pensar.

Quando levei o convite ao amigo do Bobby, ele me deu um beijo, disse que não me preocupasse que um dia conheceria alguém para amar.

A noite da exposição foi um sucesso, Trude estava ao meu lado, meu irmão John veio com a família, minha cunhada, me abraçava dizendo que o trabalho era perfeito, os meninos estavam contentes, meu avô veio numa cadeira de rodas.  Já não estava muito bem, mas sempre de mãos dadas com seu bisneto favorito.

Fui entrevistado por dois programas de televisão, jornalistas, a Beth veio, com Peter, que soltou que quando te vi ao meu lado, sabia que ali estava um grande artista.

No final da noite, entrou meu pai, meio sem graça, sem dizer uma palavra andou a exposição inteira, quando me olhou, tinha os olhos cheios d’agua, tua mãe tinha razão, eres um jovem especial.

Depois fizemos uma foto com toda a família, ele me perguntou que significava essas etiquetas vermelhos ao lado dos quadros, lhe disse é que tinha sido vendido.

Só então me dei conta que tinha na inauguração vendido tudo.

Comecei a chorar, abraçado a Trude, agradeci ao Peter, a Beth por terem me ajudado.

Pensei no Bobby, fui me sentar numa praça em frente a galeria, o John veio falar comigo, contei para ele tudo do Bobby, ele sabia.  Como tu ele também era especial.

Me disse que incentivado pela sua mulher, estava fazendo um curso de escritura, ele sempre tinha gostado de ler, agora começava a escrever, me estendeu um livro, o primeiro a ser editado, o dedicava ao nosso avô, que tinha sido o primeiro em ler o que ele escrevia.

Agradeci, depois quando entrei, vi meu avô entregando o livro para meu pai.

Quando soube o que tinha ganho com a exposição, fiquei orgulhoso, resolvi seguir a ideia de que que me tinha dito a Beth, bem como o professor.

Ele se informou para mim, me deu a dica de um lugar para ficar, fez inclusive o contato, de um studio aonde poderia viver é pintar.   Estava feliz por mim. 

O tinha apresentado a família toda na exposição, ele apresentou seu companheiro a todos.

Meu pai fechou a cara como sempre, mas ignoramos como sempre, já não tinha poder nenhum sobre mim.

Assim que aos 21 anos, resolvi voar, conversei muito com a Trude, que agora iria ficar sozinha, mas ela, não se apertou, foi viver com minha irmã em San Francisco, que precisava de alguém para cuidar dos meninos.

Ela fez uma coisa, vendeu sua casa, me deu uma parte do dinheiro, para que eu nunca passasse necessidade, avisei meu pai, que depois mandava meu endereço em Paris.  Só me disse uma coisa, sejas feliz.

Fomos os dois para o aeroporto, eu para embarcar para Paris, Trude para San Francisco.

Nos abraçamos muito, como uma mãe, faria com um filho.

Cheguei em Paris, no final do dia, me relaxei no avião, era pleno inverno, tudo estava cinza, mas imediatamente me apaixonei pela cidade.    O studio era em Montmartre, o homem colocou imediatamente a calafetação para esquentar o lugar, de noite senti frio, mas estava tão feliz que não me preocupei.

No dia seguinte fui a École de Beaux Arts, procurei o amigo do meu professor, esse riu, pois tinha o meu catalogo, terei pouca coisa para te ensinar, fui almoçar com ele, me deu uma lista dos museus que deveria visitar primeiro, aonde comprar material, foi comigo até lá, me disse que eu logo apresentaria um cartão da escola, para conseguir descontos.

Escolhi fazer aula também de escultura, teria dois professores, um me ensinaria a trabalhar com as mãos, outro seria mais conceitual.

Quando voltei o studio já estava quente, coloquei o material que tinha comprado, depois trouxeram mais coisas que não podia levar nas mãos, talvez por entusiasmo, nessa noite, pintei um grande retrato do meu irmão Bobby, mas de uma maneira moderna. Era como se ele fosse um grande arco íris.  Pequenas pinceladas de várias cores, fiquei depois conversando com ele, me preocupava agora, que ainda fosse virgem, que sempre me apaixonava pela pessoa errada.

Dias depois estava no banheiro da escola, escutei o sujeito mais bonito que tinha na minha classe falando com outro, quer apostar que vou fazer com que o americano se apaixone por mim.  O outro riu muito, disse não duvido nada, pois tua beleza ainda vai estragar sua vida.

Dito e feito, se aproximou, começou um jogo de gato e rato comigo.  Mas claro sabendo, fiquei quieto, ele um tipo muito bonito, alto como eu, loiro, olhos azuis, uns cabelos largos um corpo de fazer inveja.

A aposta era que em dois dias me levaria a cama, deixei passar os dois dias, o vi pagando a aposta, chegou-se para mim, me disse, agora estou sem moral, apostei que ia para cama contigo em dois dias, perdi a aposta, mas na verdade acabei interessado por ti.

Vivíamos relativamente perto um do outro, o convidei para ver meu trabalho, amou o quadro do meu irmão, caramba que homem interessante.  Lhe contei a história do Bobby, colocou a mão no meu ombro, sinto muito.  Acabamos na cama, lhe disse que era virgem em todos os sentidos, riu muito, deixa comigo.     A imagem que ficou na minha cabeça, era ele sentado em cima de mim, com os cabelos largos caindo pela cara, suando sorrindo, feliz da vida.   Fizemos sexo de todas as maneiras, riu depois dizendo que devia colocar uma coroa de louros na sua cabeça, pois tinha um recorde, tinha me livrado de todos os pontos virgens do meu corpo.

Os outros colegas, já sabiam que estávamos juntos, pensei que o amava, mas ele tirou isso de letra, o que temos é um desejo sexual, eu não te amo, gosto de estar contigo, mas se aparecer alguém que me atraia, irei à luta, temos que aproveitar a vida, somos jovens.

Dito e feito, mas como agora éramos amigos, me contava, no principio fiquei com ciúmes, mas depois pensei que seria perda de tempo.   Nunca mais voltamos a estar juntos na cama.

Fui conhecendo gente, ia a festas, tomava um copo de vinho, nada mais, não gostava de drogas, nem nada parecido. Queria ter a cabeça despejada para saber o que fazia.  Quando algum que estava bêbado ou drogado queria ir comigo para cama, tirava o corpo fora.  Lhes dizia quando tiveres a cabeça livre disso, tiveres certeza realmente vou para cama contigo.

Tive muitas aventuras, mas agora sabia que não iam durar, aproveitava o momento, me protegia, pois tinha medo de doenças, era consciente, não queria estragar a minha vida.

Mostrei meus trabalhos, para o professor de escultura, gostou muito, foi ao studio, fez fotografia de tudo, foi comigo a uma galeria, aonde ele fazia exposições, mostrou o meu catalogo de NYC, os trabalhos novos, o dono, Marcus Aurélius, riu, dizendo que diferença de uma para a outra, gosto muito, olhou sua agenda, me perguntou quantos trabalhos tinha pronto, me pediu mais dez, foi conosco ao studio olhou tudo, inclusive as esculturas que eu tinha feito, amou uma que tinha feito, era como um elfo, mas era o Bobby, disse que lhe impressionava os detalhes do rosto, do corpo.  Virou-se para mim muito sério, perguntou se tinha sido de algum amante meu.

Lhe disse que não, era meu irmão, que tinha morrido.

Não tinha medo de contar sua a história dele, apenas mencionava que o tinha adorado desde minha infância.

O professor ficou depois, bom me disse, agora é tocar em frente, me orientou como devia agir com o dono da galeria, é um tipo estupendo, mas gosta de ter as pessoas presas a ele.

Fui lhe dar um abraço para agradecer, nos beijamos, me soltou ao ouvido, estou interessado em ti, desde que entraste pela porta da minha sala.

Ai verdadeiramente senti algo, ele era totalmente diferente de mim, moreno, cabelos negros totalmente cacheados, imensos, uns olhos negros que pareciam duas bolas. Um sorriso imenso. Não posso esquecer que me apaixonei perdidamente por ele.  Jean Pierre, era além de tudo muito másculo.   Mas os dois na cama, era uma batalha campal.

No dia seguinte, despertei com ele me olhando, me disse que não queria me assustar, pois era mais velho do que eu, me contou sua história, que tinha amado alguém que o tinha feito sofrer muito, mas que gostava imenso de estar comigo.

Agora as vezes dormia no seu studio, estava fazendo uma escultura imensa para o governo francês.   Outras ele vinha ver o que eu tinha feito, jantávamos por ali, depois ficávamos conversando, acabávamos como sempre na cama.

Fiz um quadro dele, segundo ele muito onírico, pois o pintava como um centauro, ao mesmo tempo pedi para usar seu studio, fiz um centauro imenso, era ele também o dono da galeria quando viu, colocou numa sala a parte, todos os desenhos, bem como o quadro a escultura.

Quando montou o catalogo, ficou estupendo, Jean Pierre me ajudou a fazer.  Dediquei a exposição aos meus novos professores, bem como os que nunca tinha esquecido.

Mandei o catalogo, para os Estados Unidos, meu pai telefonou eufórico, que tinha gostado muito, se ele podia ir.   Acabou vindo ele, Trude, John, foi ótimo, passeamos com eles pela cidade, íamos jantar, conheceu o studio do Jean Pierre, quase morri de vergonha, ao mesmo tempo ri muito, apontou o dedo para o Jean dizendo, se fizeres meu filho sofre, vou atrás de ti, te mato, depois o abraçou.  John era mais cauteloso, conversei em particular com ele, me disse que seu filho mais velho, era diferente dos outros, acreditava que era gay, como devia trata-lo.

Conversamos muito sobre isso, lhe disse que não trata-se diferente dos outros, apenas lhe desse amor.

A inauguração foi um sucesso, fui entrevistado antes num programa ao vivo, estavam todos sentados na plateia.

O centauro, bem como tudo da sala, foi vendida para um colecionador. Só não vendi o quadro do Bobby, queria o ter como um talismã, meu pai chorou muito quando viu o quadro.

Me soltou, quisera ter entendido teu irmão, apoiado, quem sabe não estaria vivo.

A vida depois voltou ao normal, Jean Pierre me disse que agora era da família.

Posei para uma escultura que estava fazendo, me disse que tinha agora um receio imenso, pois tinha a ameaça do meu pai pendente na sua cabeça.

No Natal fomos para NYC, fazia muito tempo que não nos reunimos todos, até meu avô veio, o menino do John, o adotado, estava imenso, conversava normalmente, quando viu o Jean Pierre, o abraçou.   Agora estava sempre agarrado com ele.    O mais interessante era que o velho o tinha ensinado a se comportar normalmente na mesa, ele era mais um.

Segundo ele, era muito inteligente.

Conversei com o filho mais velho do John, foi interessante, me disse na cara, que ainda não sabia o que era, mas se sentia diferente dos outros.

Temos sempre este estigma que somos diferentes, mas lhe disse que cada pessoa era única na vida. Acreditava que uns mais que os outros, pensava nesse assunto, alguns tentavam ser iguais aos demais, esses nunca seriam nada na vida.

Agora de qualquer maneira eu era o tio que era diferente, que tinha ido à luta, que tinha literalmente vencido.

Meu avô morreu logo depois que tínhamos voltado, nos últimos anos, tinha voltado a ir a sinagoga, abandonando a igreja católica.

Nesse inverno, Jean Pierre, pegou uma pneumonia impressionante, acabou no hospital, não havia maneira de melhorar, inclusive fizeram exames para saber se não era Aids, nada disso, não sabia como tratar.  Depois de um mês com máscara de oxigênio o tempo todo, um dia parecia melhor, fui ao studio, buscar roupas, tomar um bom banho, quando voltei tinha morrido.

Uma enfermeira me entregou uma carta.

Foi difícil encontrar sua família, acabamos os amigos fazendo um enterro como ele queria, ser cremado, que suas cinzas fossem colocadas ao pé de uma escultura sua, a primeira que o tinha lançado ao mundo, assim fizemos.

Eu parecia não sentir nada, mas me balançou completamente, meu pai me telefonou abalado, todos me chamavam.

Pensei ir passar uns tempos por lá, mas tinha que acabar um projeto, para a próxima exposição. Ele tinha me deixado o seu studio como herança, lá tinha mais espaço, aproveitei, fiz um escultura dele, como eu o via quando fazíamos sexo, ele ficava esperando que eu tivesse prazer, para o termos juntos, era essa a imagem que eu queria ter dele para sempre.

Os detalhes do rosto estavam todos dentro de mim, não deixe nada fora.  Pela primeira vez me tinha atrevido fazer também um quadro, perto de casa tinha um bistrô, no inverno sempre nos sentávamos na esquina, um dia um amigo fez uma foto, os dois rindo.

Pintei esse quadro, tinham sido cinco anos de vida em comum.  Na exposição, apareceram professores da École de Beaux Arts, bem como companheiros, levei um susto quando vi o que era bonito, estava muito mal, drogas, excessos demais, a imagem tinha ido para a casa do caralho.  Fiquei com pena dele, foi como uma aparição fullgáz, da mesma maneira que entrou, desapareceu.

Quando voltei para casa, fiquei sentado na frente do quadro do meu Bobby, voltava a conversar com ele como sempre fazia.  Se alguém entrasse ia pensar que estava louco.

Ele seguia fazendo parte da minha vida.

Fechei o studio, tinham me avisado que meu pai não estava bem, fui para NYC, passar uma temporada.   Fiquei com ele em casa, arrumei o meu quarto que era imenso, para seu meu studio.   As vezes ele subia, ficava conversando comigo, horas e horas, enquanto eu pintava.

Se lembrava da sua infância, de seus sonhos, queria fazer outras coisas, não queria ser policial, queria ir pelo mundo sem rumo, mas conheceu minha mãe, o jeito foi ter um emprego.

Um dia não levantou, morreu dormindo, John foi quem chegou primeiro para me ajudar com tudo, deixou uma carta para cada filho, pedindo desculpas, mas a culpa era dele, se todos tinham se afastado.  Deixava tudo que tinha, além da casa, para seus netos, que pudessem ser na vida o que quisessem.

Ainda usei a casa um tempo para acabar o material que estava trabalhando, fiz mais uma exposição em NYC, voltei para Paris, lá era minha casa.

Conversando um dia, com o dono de um bistrô, me disse que devia ir ao Marrocos, pois gostaria muito da diversidade lá, me fez um roteiro, arrumou um guia para mim, fui munido de blocos de desenho, podia fazer fotos, mas não tinha pressa.

Levei meses viajando por lá, ao final tinha material impressionante, desenhava os pescadores nas praias, as vezes o ajudava.

Quando voltei, trabalhei imenso, um dia conheci no bistrô um professor, era um pouco mais velho do que eu, estava na França desde garoto.  Me apaixonei completamente por ele, tinha sido casado, mas não tinha filhos.   Era um romance a quatro paredes, ele dava aulas na Sorbonne, tinha medo de muitas coisas.

Mas depois de um tempo, viu que eu não estava passando tempo com ele, se atirou de cabeça no nosso relacionamento. 

Fomos juntos visitar minha família, depois passamos um tempo visitando o que ele queria conhecer, as aldeias nativas.

Voltamos para casa, seguimos até hoje juntos, encontrei o equilíbrio que tinha buscado desde minha juventude.  Ele não era uma beleza, mas sua cabeça, sua maneira de comporta-se era o que eu buscava.

Podíamos debater horas algum assunto, um dia me contou sua história inteira, desde quando era criança no Marrocos, até me conhecer.

Eu tinha me apaixonado no primeiro dia, mas tive que o ir conquistando, agora não imaginamos a vida um sem o outro.

Já não corro tanto para fazer exposições, vou mais lento, me conformo com uma por ano, com muitas esculturas, pinturas, dizem que evolui muito desde que cheguei aqui, eu digo que foi um amor à primeira vista, ter chegado num dia cinzento como era minha alma nesse momento, depois ir descobrindo as cores da cidade, quando chega a primavera.

Alguns me chamam de louco por gostar de Paris no inverno, mas eu sempre digo que as cores que desaparecem no verão, no inverno são mais interessantes.  Ficam rindo com isso, mas na verdade a cor está dentro da gente, por isso amo meu companheiro, suas cores estão todas guardadas na sua memória, quando me conta alguma coisa, sou capaz de sentir todas as cores do que ele descreve.

Viver com ele, me enche de alegria, claro como todo mundo temos nossos momentos complicados, mas nós aceitamos.   Ele me chama de seu branco azedo, mas claro no inverno, minha pele fica mais branca do que é na realidade.

Adoro o contato da sua pele na minha, esse calor que ele irradia, me faz sentir paixão.

Já estamos mais velhos, sábios como ele diz, o que interessa é o que temos um com o outro, o resto é besteira.

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 1 de agosto de 2022

HARLAN COEN

 

                                          HARLAN COEN

 

Está noite ia receber um prêmio pelo CD de música clássica, mais prestigiado do mundo, ali no quarto de hotel, pensava na sua trajetória, a menos de uma semana tinha sido procurado por um advogado, para falar da herança de sua mãe.

Não estava interessado, nem necessitava de nada do passado tinha vencido na vida, nos seus sonhos de jovem.

Tinha nascido como ele dizia no cu do mundo, no campo, perto de um cidadezinha perdida de Montana, sua família estava composta de seus pais, seu irmão mais velho, ele.  Seu irmão mais velho Andrew, ou And, como o chamava, era um jovem lindo, tinha um problema qualquer que tinha feito que não se saísse muito bem na escola, algo em sua cabeça não funcionava, era ele quem tinham que lhe explicar as coisas. 

Seu pai resolveu que já que não se saia muito bem na escola, que o campo precisava dele, o fazia trabalhar sem cessar.   Ele ao contrário era um aluno privilegiado, só não gostava das aulas de educação física, os jogos não eram para ele.  Descobriu que uma senhora, se dedicava a ensinar música, um dia passou por sua classe, estava vazia, ela tocava uma clarineta, aquele som entrou pelo sua cabeça, logo fazia parte de seu corpo, perguntou se podia fazer aula, não tinha noção nenhuma de música.   Ela disse que não tinha importância, claro ele virou a gozação de todos os outros alunos.   Mas fazia uma classe com ela, a partir de como lhe ensinou como funcionava o instrumento, foi como provocar uma catarse, pois conseguia tocar todas as músicas que escutava no instrumento. 

Seu pai achava uma perda de tempo, sua mãe, foi a única que o defendeu, disse que seu pai adorava a música.   Lhe permitiu fazer aulas, ele depois pegava sua bicicleta pedalava como um louco para chegar a tempo de comer, depois ajudar no campo.

Seu irmão era de poucas palavras, o adorava acima de todas as coisas.

Um dia ia chegando no campo deles, quando escutou uns gritos, se aproximou com cuidado, viu que seu pai abusava de seu irmão, não entendia como podia deixar, por ser alto e forte, mas claro a força de seu pai era superior.  Quando acabou, colocou o caralho para dentro das calças, mandou Andrews se limpar, ele correu, pegou a bicicleta, foi direto para casa.

Nessa noite tentou falar com o Andrews, não podia entender como ele podia se submeter assim.

Dias depois conseguiu que ele se abrisse.  Disse que tinham abusado dele primeiro na escola, depois seu pai.  Não sei me defender, um dia ele irá por ti.     Afinal das contas ele não é nosso pai.

Era a primeira vez que escutava falar nisso, procurou saber com sua mãe, com muito jeito, ele sabia como fazer as pessoas falarem, tocou no assunto dizendo que ele não tinha o mesmo sobrenome do pai.

Ela explicou, quando nasceste teu pai tinha acabado de morrer no campo, esse homem era o capataz, acabou ficando quando os outros empregados foram embora.

Entendeu tudo, quando comentou com a mãe dos abusos em cima de seu irmão, ela não acreditou, disse que não podia ser verdade, a partir que ele fazia sexo com ela todos os dias.

Ele estava acabando o curso que existia na cidade, no ano seguinte ele só tinha duas opções ou entrar para o exército, ou ir trabalhar no campo, mas ele pensava outra coisa, em estudar música numa cidade maior.

A professora vivia falando das grandes escolas, de música, aonde ela mesma tinha estudado. Quando ele se formou, ela lhe deu de presente um clarinete que tinha pertencido ao seu pai, para que nunca desista.

Justo nesse momento, um dia voltando para casa, encontrou seu irmão morto, estava enforcado numa árvore, logo a entrada do campo.    Ficou como um louco tentando salvar o irmão.

O que pensava que era seu pai, ficou uma fera.  Tinha negociado com um vizinho o casamento do filho, com a filha deste que estava gravida, vá se saber lá de quem.

Nesse dia, ele encontrou embaixo do travesseiro um pequeno bilhete, de seu irmão, não aguento mais, fuja daqui, pois serás o seguinte.

Dois dias depois, foi avisado que tinha que trabalhar com o pai no campo.  Ele não era muito alto, mas tinha uma coisa, tinha um força incrível.  Quando o homem tentou abusar dele, lhe deu uma surra de fazer gosto.  Alegou para a mulher que tinha caído.

Então o obrigou a casar-se com a filha do vizinho que era mais velha que ele, ele ficou prestando atenção em tudo, viu que o vizinho dava ao seu pai, um envelope imenso, ele foi atrás viu aonde ele guardava o dinheiro, era muito.

Se acabou o jantar com a duas famílias, ele já tinha preparado sua mochila, a única coisa além era a caixa da clarinete.   Sabia aonde o filho da puta guardava o dinheiro, juntou com o do envelope, colocou tudo por baixo na mochila, tinha aprendido a dirigir, com o trator, por isso achava que seria igual, empurrou o carro, até uma certa distância, pois senão o ruido podia despertar os da casa. Como era uma descida foi fácil, se mandou, dirigiu em sentido de direção, até a cidade maior longe dali, tinha duas opções, ou ir para NYC, ou descer para Los Angeles ou San Francisco.   Resolveu que esta última ia bem.    Quando estava para acabar a gasolina, viu que um ônibus parava num posto de gasolina, para se abastecer, que os passageiros esticassem um pouco as pernas.

Viu que ia em direção a Los Angeles, perguntou se passava por San Francisco, o homem disse que sim, mas que no momento só tinha um lugar no final do ônibus, ele disse sem problemas.

Pagou o bilhete, embarcou, deixou o carro ali, pegado a um matorral.

Logo em seguida dormiu, estava cansado, como o lugar, era encostado a uma janela, colocou sua mochila para fazer a vez de um travesseiro.  Assim se alguém tentasse lhe roubar, ele saberia se defender.

Quando despertou foi numa segunda parada depois da anterior, levaram quase dois dias para chegarem a San Francisco, porque o ônibus ia parando, trocaram pelo menos duas vezes de condutor.

Quando chegou ficou deslumbrado, nunca tinha visto uma cidade tão grande, procurou um hotel pequeno ali perto, guardou suas coisas, procurou saber aonde tinha uma escola de música.

Lhe mostraram o caminho, precisaria de um emprego também, não queria torrar o dinheiro que tinha trazido, depois precisava de um lugar para viver.

Levou com ele seu instrumento.  Na escola se informou dos cursos, a secretária disse que esse ano já tinham começado, fazia um mês, mas vou ver se o professor, te entrevista, creio que está no seu horário de descanso.

Voltou em seguida, seguida de um homem mais velho, devia ter uns 60 anos. Lhe disse que o acompanhasse, me mostra o que sabes.

Ele montou o clarinete, pensou nas duas músicas que mais gostava.  Fechou os olhos, começou a tocar, foi até o final sem interrupção nenhuma.

Pensei que não sabias nada.

Minha professora, disse seu nome, me ensinou o que sabia, esse clarinete me deu de presente, seu pai, falou o nome do homem.

O velho, quase chorou, disse que esse homem tinha sido seu professor, mas que da noite para o dia sumiu.

Quando disse seu nome para o professor, este perguntou se era judeu, pois Coen era um apelido de judeu.

Não sei, só que minha mãe nunca ia a igreja nenhuma, pode ser que meu pai sim fora judeu. Tinha descoberto que sua mãe nunca ia a igreja, pois a criticavam por viver com esse homem sem se casar.

Aonde vais viver?

Ainda não sei, cheguei hoje, tinha que encontrar um lugar para estudar, depois isso já veria.

O homem estendeu sua mão, imensa, meu nome é Helmut Klein.   Voltou com ele a secretária, disse que ele já estava muito adiantado, mas que daria classes a ele, justo nesse horário entre as 10 e 11 da manhã.  Le perguntou se sabia ler partituras?

Sim aprendi com a professora, foi uma das coisas que ela me disse que me fariam falta. Mas não custa aprender mais.

Saiu dali morto de fome, quase um quarteirão viu uma restaurante de hambúrguer’s, pediu, ao mesmo tempo que viu um cartaz de que se procurava um ajudante.

Falou com o velho que o servia, disse que nunca tinha trabalhado, mas tinha facilidade em aprender, disse os horários que tinhas disponíveis.  Posso trabalhar de manhã, desde a hora que me diga, bem como a partir das 11:30 até o resto do dia.

O velho sorriu quando ele disse que estudaria música.  Disse quanto pagava.

Agora meu problema só é arrumar um lugar para viver.

O velho que se chamava Abraham lhe disse que podia usar um apartamento que tinha em cima do local, é meu, é pequeno mas creio que te servirá.

Falaram em aluguel, com o salário que ia ganhar, ainda sobraria alguma coisa.  Foi com o homem ver o apartamento, tinha de tudo, o Abraham lhe disse que aqui vivia seu filho que tinha ido para o exército, agora quando vem, fica na minha casa, mas lhe avisarei se vem por aqui.

O apartamento não era grande, um pequeno quarto, uma cozinha americana também pequena, um banheiro, o resto era um salão grande, como o restaurante embaixo.

Esse edifício foi comprado pelo meu avô nos anos vinte, de um homem arruinado, depois meu pai teve o restaurante, agora eu, mas graças a deus meu filho está o exército, minha filha é professora, então ficaram fora da dinastia.

Ele se mudou no mesmo dia, sua bagagem era mínima.

No dia seguinte se levantou as cinco da manhã, trabalhou uma música, que o professor tinha lhe dado a partitura, depois se arrumou para ir trabalhar, trabalho até as dez, saiu correndo para a escola de música, teve aula de partitura, composição, a professora era muito boa, saiu contente da aula, depois foi direto a sala do professor Helmut, apresentou a partitura que ele tinha ensaiado, a primeira pergunta que ele fez, se sabia quem era o compositor, o que queria dizer a música, ele nesse ponto não tinha preparo.   Sabes tocar, tens técnica, agora falta colocar a alma no instrumento.   Para isso tens que entender o que o compositor quer dizer ou contar com ela.

Meses depois, já começava a entender o que o professor dizia, agora quando estudava uma música, buscava saber mais sobre ela, para isso usava a biblioteca da escola, saber do compositor, da música, enfim ia progressando.

Tinha ensaiado até tarde, se jogou na cama cansado, dormiu pesado, sentiu que alguém entrava no quarto, acendeu a luz, deu de cara com um homem com uniforme militar, alto, forte.

Que fazes no meu apartamento?

Aluguei do senhor do restaurante.

Caramba é verdade, ele me avisou, te incomodas se durmo aqui, estou cansado.

Tirou sua roupa, se jogou ao seu lado na cama, ele ficou nervoso, estava só de boxers.

Mas o homem dormiu em seguida, ele acabou se relaxando, a cama era grande, mas despertou pela manhã, com o homem dormindo agarrado a ele, tentou sair de fininho, mas este não deixou, estou a horas te observando.

Lhe deu um beijo, ele se levantou correndo.  Calma camarada, isso não é assim.

Foi tomar banho, depois enquanto o outro tomava, para se relaxar, colocou café para fazer, começou a tocar uma música nova que estava estudando.   Já a conseguia tocar direto.

Quando seu deu conta o homem, estava sentado o olhando, com a toalha presa na cintura, tinham um belo tronco.

Amei, se apresentou sou Phillip, ou Phil, sou filho do Abraham, estendeu a mão, desculpe minha impertinência.

Vou me vestir, a não ser que queiras me ver nu.

Ele não estava acostumado a isso, ficou totalmente vermelho.

Ah, eres tímido, gosto disso.

Ficou totalmente nu, ao se vestir.

Ele ficou olhando totalmente excitado.  Phillip, se aproximou, lhe deu um beijo na boca, posso vir dormir contigo essa noite.

Acho que vou ter que mudar de casa, mas tinha correspondido ao beijo.

Desceram, ele abriu a porta do restaurante, este se colocou cômodo, enquanto ele colocava a maquina de café para preparar o mesmo.

Quando Abraham chegou, ficou feliz de ver o filho ali, disse que tinha acabado de chegar.

Em seguida começou a chegar gente, Phillip, colocou um avental, passou a ajudar.

Ele foi para a aula, dentro do seu horário, mas ao começar a tocar, se esqueceu do outro.

Sem que ele percebesse o professor estava o fazendo aprender as músicas de vários compositores, para ele se preparar para ser solista.

Um dia entrou na aula, viu um homem sentado no final da mesma, o professor fez um sinal de que tinham que trabalhar, que depois conversaria com o senhor.

Era uma composição bonita, ao começar, se lembrou do beijo que o Phillip tinha dado nele, sentiu que a mesma saia mais suave do clarinete.

Helmult não fez nenhuma correção, depois o apresentou ao senhor, era o diretor da orquestra sinfônica de San Francisco.

O homem disse que tinha gostado da interpretação, fez uma correção, podias tocar, esse trecho outra vez, eu gosto que essa parte, pense que estas perdendo um amor.

Ele tocou, pensando se o outro apareceria esta noite o que ia acontecer.

Perfeito.    Apertou sua mão, disse ao Helmut que depois se falaria.

Bom já agradaste ao mais importante, agora irei convidando alguns amigos para te verem tocar,

Lhe deu vários CD’S, escute essas músicas, pode ser importante para ti.

Foi uma surpresa era todos de jazz, teve que comprar um leitor de Cds porque não tinha, ficou encantado com que escutou, mas teve uma música em especial que gostou, claro havia um solo de clarineta.   Na semana seguinte, começou a aprender a tocar o saxofone, era fácil, logo em meses tocava também o Oboé, o professor ficava fascinado com um aluno, com tal potencial.

Depois de ser convidado para tocar com a orquestra Sinfônica de San Francisco, se preparou a consciência para tocar com o professor, este mandou gravar a participação dele, mandou para vários agentes, quando falou isso para ele, soltou ao mesmo que preferia que fosse ele seu agente, pois era uma pessoa em que ele confiava.

Agora que tinha dinheiro, deixou de trabalhar no restaurante, o filho do proprietário, nunca mais voltou, se mudou para outro apartamento, um pouco melhor, seguiu seu rumo, acompanhava o professor a vários concertos, a escutar jazz nos bares ou pequenos clubs de música ao vivo.  Algumas vezes era convidado a tocar com os amigos do professor.

Logo surgiram oportunidades, o professor disse que ele devia se mudar para NYC, aonde era melhor, ele tinha lá uma irmã, foi viver com ela, lhe dizia que tinha feito recuperar sua vida de antes, o lançou no mercado, logo se apresentava na Europa, era conhecido por ser um músico versátil.

No ano seguinte, fizeram uma turnê por várias cidades da Europa, ele mandava sempre para sua velha professora, notícias de jornais, programas de concertos, ela lhe escrevia para o apartamento da irmã do Helmut, assim ele sabia das notícias da mãe.  Como ele não tinha assinado direito os papeis do casamento, o pai da noiva tinha pedido devolução do dinheiro, isso gerou um conflito entre os homens que acabou em tragedia.   Seu pretenso pai estava preso.

Depois de gravar vários CDs, tanto de música clássica, como Jazz, gravou um em especial, com as primeiras músicas que tinha aprendido com a professora, só que agora ele tinha a emoção necessária.  Foi quando ganhou o primeiro Grammy.  O dedicou a ela.

Agora tinha uma banda, já tinha inclusive composições dele, o velho professor, lhe disse que já não tinha idade, para ficar indo de um lado para o outro, agora se dedicava a ser seu agente, mas com a base fixa em NYC.

Ele pelo menos tinha um bom pé de meia.  As pessoas tinha curiosidade porque nunca se ouvia falar em nenhum relacionamento.  Mas em sua cabeça tinha ficado a imagem de seu pretenso pai abusando de seu irmão, nunca tinha se livrado disso.  Mas tampouco tinha se esquecido da sensação do filho do Abraham, abraçado com ele, seu cheiro, o conforto que tinha sentido ao primeiro momento.

Quando voltou a tocar em San Francisco, foi até o restaurante, já não existia mais, tinham vendido o prédio, no seu lugar tinham construído um edifício estreito, moderno.

No dia da estreia, recebeu um ramo de rosas, dizendo, nunca me esqueci de ti, nossa noite foi incompleta, estarei na plateia.

Estava ansioso, sabia que era do Phillip, tocou com toda sua alma.

No final quando saiu, lá estava ele lhe esperando.

Saíram andando, um ao lado do outro, em silêncio, quem falou primeiro foi o Phillip, disse que seu pai o tinha visto sair do apartamento, me disse que não devia me interpor entre tu, tua música, pois um dia serias grande.   Ele tinha razão, voltei cheio de problemas, estive anos fazendo tratamento psicológico, para estar bem.  Acabamos vendendo o edifício, pois ele queria se aposentar.

Agora vivo no mesmo edifício, num apartamento no último andar, queres ir até lá comigo.

Estava nervoso, mas foi, tinha tido aventuras com mulheres, mas nunca se sentia a vontade, eram mais para se relaxar, mas a maioria das vezes, saia frustrado.

Quando estiveram os dois frente a frente, Phillip, o começou a beijar, devagar, não como tinha feito da primeira vez, sussurrou ao seu ouvido, esperei tanto por isso.

Horas depois quando estava lado a lado na cama, lhe disse que ele também tinha esperado por isso, nunca tinha amado ninguém.

Atualmente o que fazes Phillip?

Acabei meus estudos, agora tenho um consultório, atendo principalmente retornados das guerras com traumas, como eu tive.  A coisa vai devagar.

Ele agora tinha um problema, como ia fazer, pois tinha uma turnê, por vários estados, depois por último se apresentaria num concerto benéfico para a primeira-dama do pais.

Não queriam se deixar, agora ele fazia todo o possível para no seu tempo livre ir estar com o Phillip, não sabia discernir se era amor, ou simplesmente uma paixão, mas nunca tinha se esquecido dele.  Então se escapava, ia até lá para vê-lo. Estarem juntos era extraordinário.

Quase não falava, disfrutavam desse dia ou quantos pudessem estarem juntos.

Phillip veio uma vez a NYC, para ver sua participação num grande show de Jazz, depois foram para sua casa, estiveram juntos.

Pela primeira vez se dedicaram a conversar, um sentia falta do outro, Harlan soltou que as vezes conversava com ele mentalmente, sinto tua falta.

Pois temos que resolver isso, eu também me sinto sozinho, quando te vais embora, é como se ficasse vazio.

Preciso conseguir um agente em San Francisco, assim passarei a viver lá.

Mas a coisa se torceu, foi avisado semanas depois que o Phillip estava no hospital, um cliente com problemas o tinha agredido, a coisa estava feia.  Ele tinha um concerto nessa noite, disse que no dia seguinte pegaria o primeiro avião.

Nessa noite foi difícil se concentrar para tocar, mas conseguiu, o levava na alma.

Quando chegou em casa, viu uma chamada, era para avisar que tinha falecido.    Se veio abaixo, nunca tinha sentido isso, desde a morte do irmão, ficou desnorteado.   Logo em seguida, soube que a professora, também tinha partido.

Pela primeira vez se sentiu totalmente sozinho.   Mesmo assim embarcou para San Francisco, foi ao enterro, conheceu a irmã do Phillip, esta disse que ele tinha voltado de NYC, com esperança de que pudessem viver juntos.

Quase em seguida embarcou em uma turnê pela Europa, depois foi para a Asia, aonde gravou mais um CD, esse o consagrou definitivamente, primeiro porque tinha uma composição sua que se chamava Phillip, quando a tocava o público vinha abaixo de emoção.

No seguinte tinha mais duas composições sua.    Passou um tempo em Paris, aprimorando num curso da técnica de composição.

Voltou para seu apartamento, em NYC, mais uma vez levou uma cacetada, pois logo em seguida morreu o Helmut Klein, o queria como um pai, o velho professor o tinha acompanhado ao longo dos anos, tinham largas conversas, aonde lhe dava orientações para cada trabalho.

Conseguiu um agente que pudesse confiar, mas lhe pediu tempo entre os concertos, pois queria se dedicar a compor.

Fez com um grupo novo, um CD totalmente de música novas suas, uma nova faceta, alguns tinham inclusive letras, ou de textos que ele tinha usado, precisavam agora no grupo de um cantor.

Quando este faltou, ele se atreveu a cantar algumas partes da música, o público adorava.

No dia anterior de receber esse prêmio, finalmente um advogado que estava atrás dele, avisou que estaria na cidade, que tinha que falar com ele.

Lhe trazia uma carta, bem como o testamento de sua mãe, que deixava tudo para ele.

Disse ao mesmo, que verificasse se alguém queria comprar as terras, que a ele não interessava voltar.

Alugou durante o verão uma casa, em Fire Island, para poder compor em paz, era a mais distante em termos do movimento que acontecia no verão por lá.

Estava compondo uma peça para saxofone, quando ficou pronta, incluiu na mesma solos de clarinete, bem como de oboé, um dia que estava na praia, um homem veio falar com ele, se apresentou, James Marcus, estou aqui para relaxar, mas o vento me traz tua música, eu sou diretor de orquestra, estive muito doente, por não me cuidar direito, mas nunca tinha escutado essa música, por isso estou vindo falar contigo.

De quem é a música?

É minha última composição, mas ainda estou trabalhando nela, queria que fosse somente com três solistas, mas ainda me falta conjugar com o resto da orquestra.

Que dirias que me ofereço a trabalhar contigo, gostaria muito.  Gosto dessa sensação de ver uma música nascer, infelizmente não sou compositor.

Entre eles, depois de escutarem mil vezes a música, de largas conversas, começara a consolidar uma amizade que duraria anos. Se entendiam de maravilha.

James um dia soltou, eu que sou conhecido como uma pessoa que tem mal humor 24 horas do dia, contigo me sinto muito bem, creio principalmente que não assumes que eres uma estrela da música, já tinham me falado de ti, mas nunca tive a oportunidade de ver um trabalho teu, a não ser através de um CD.

Os papos era intermináveis.  Quando o trabalho ficou pronto, foram os dois a NYC, gravaram o mesmo, para apresentar para alguma orquestra, logo tiveram propostas.

Estrearam a mesma em NYC, foi um sucesso.

James, vinha de um casamento desfeito, com dois filhos pequenos, aos quais não tinha direito a ver, pois sua mulher tinha a guarda do mesmo, tinha lhe acusado de infidelidade.  Tinha levado muito tempo para se abrir com ele.   Me acusou de ser pedófilo, mas tudo não passou de uma montagem.

Seguiram sendo amigos, ele se sentia sozinho depois da morte do Phillip, mas não encontrava alguém que o pudesse fazer sentir emoção.

Os anos foram passando, tinha aventuras esporádicas, nada que o fizesse se apaixonar, as vezes não passava de uma noite.

Numa festa que tinha ido a pouco tempo, foi apresentado a um homem, diferente, era absolutamente direto.   Tua música me acompanha a algum tempo, quase não tenho tempo de parar pelo meu trabalho, agora por castigo, tive um enfarte, seu trabalho me acompanhou durante meu tempo de recuperação, eu sinto na tua música a melancolia que me acompanha a muito tempo, nunca tive tempo de amar.

Quando ia se despedir, se virou lhe estendeu um cartão, o nome era parecido Harlen Boer, adoraria que aceitasse jantar comigo, estou hospedado no hotel Plaza.

Ficou curioso, perguntou ao anfitrião, quem era esse homem.

Ele saiu do nada, construiu um império, agora depois do enfarte, esta mais calmo, é uma grande pessoa, sou seu advogado.

Telefonou aceitando o convite, mas avisou, adoro coisas simples, nada de restaurantes sofisticados.   Tem um perto de minha casa, se quiseres posso fazer uma reserva.

Assim fizeram, imaginou que ele chegaria numa limusine, mas veio de metro.

Agora faço tudo com calma, já trabalhei demais, quero desfrutar da minha vida.

Contou sua história para ele, realmente tinha saído do nada, tinha sido criado num orfanato, mas quando saiu, foi obrigado a servir ao exército, lá aprendeu informática, depois fez um curso mais amplo, começou a trabalhar, a construir programas para isso.

A muito tempo desfruto de tua música.  Acabaram na cama os dois, riram pois se encaixavam a perfeição, gostavam das mesmas coisas.   Ele lhe disse que iria de novo passar uns dias de férias na casa que tinha alugado em Fire Island, agora já é final de temporada, a casa está afastada do resto, então tenho toda calma do mundo para compor, queres vir comigo.

Foram as melhores férias de sua vida, durante uma parte do dia, os dois estavam juntos, depois cada um se dedicava ao seu oficio, mas no final do dia se sentavam para ver o por do sol na praia, abraçados, conversando.

Cada um contou sua vida, de onde tinha saído. Quando voltaram para NYC, ele comentou que tinha ido a essa festa, só porque sabia que ele ia, queria te conhecer, o homem que me faz relaxar com seu trabalho, mas não imaginava que ia me apaixonar por ti.

Montou um escritório perto da casa do Harlan, viviam juntos, ele dizia que seu apartamento era um oásis de paz, pois não tinha luxos, era simples como eles.

Depois de muitos anos juntos, inclusive ele viajava com Harlan, podia trabalhar em qualquer lugar, então aproveitavam.  Não interferiam na vida profissional do outro.

Hoje iria receber seu prêmio por seu último trabalho, logo de manhã, teve uma surpresa, Harlen lhe pediu em casamento, queria adotar, ter filhos, para quem deixar a fortuna que tinha conseguido, senão não terá válido a pena.

Harlan ficou olhando para ele, nunca tinha falado nisso, ficaram se olhando, casar contigo quero, mas o de adotar, terei que pensar um pouco. Se me dás tempo, creio que podemos chegar a uma conclusão.

Acabou de se arrumar, iam os dois juntos, se sentaram entre os convidados de honra, nunca tinha estados assim juntos numa cerimônia.

Ele não estava prestando a atenção no espetáculo, aplaudia, na hora que os outros aplaudiam, mas sua dúvida era justamente se seria um bom pai, todas seus recordações, sempre se ligavam ao homem que tinha vivido com sua mãe, que tinha abusado de seu irmão.  Hoje durante o espetáculo tinha uma música que tinha trabalhado muito com o James, se chamava “Querubim”, era dedicada ao seu irmão, atualmente vinha sonhando muito com ele.

Na hora que o chamaram, recebeu o prêmio começou dedicando ao seu irmão, a todos os que tinham ajudado em sua carreira, inclusive falou pela primeira vez no seu primeiro amor, mas hoje recebi uma proposta, que na verdade são duas, olhou para o Harlen, sorriu, disse aceito tua proposta.

Mas não disse o que era, todos estavam em cólicas por saber, mas ele não disse nada.  Meses depois se casaram na intimidade, seu padrinho era o James, o do Harlen era seu melhor amigo.

Depois foram até o orfanato aonde ele tinha sido criado, que ajudava sempre, dando dinheiro para seguir em pé.

Quando Harlan entrou, viu um garoto, sentado num piano desses de criança, mas o que ele achou incrível, era que ele realmente tocava uma música, se sentou ao seu lado, tirou sua clarineta da caixa, que sempre estava com ele, o montou, começou a acompanhar o garoto, quando este o olhou, tinha a sensação de estar vendo seu irmão.

Foi o primeiro a ser adotado, era como seu irmão, loiro com cabelos cacheados, ficou sendo seu filho, depois Harlen adotou uma menina, ao final tinham cinco filhos.

Se manejavam bem, ele agora fazia menos viagens, se dedicava a compor na casa grande que tinham, pela primeira vez era feliz, sem problemas.

Seu filho, se tornaria com os anos um grande pianistas, outro seria médico, a menina seria uma escritora, os outros dois iriam substituir futuramente o pai nos negócios.

Os dois seguiram juntos, não claro como num desses romances, viveram felizes, comeram perdizes, mas sim lutavam para levar sua família unida para frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

lunes, 25 de julio de 2022

LIONEL

 

                                                   LIONEL

 

Me chamo Lionel Davis, minha infância acabou no dia que minha mãe morreu, ou foi assassinada, ou como acreditei durante todos esses anos, que tinha fugido com tio Bill.

Durante todos esses anos, estive com minha mente bloqueada por uma série de manobras do meu pai, afinal nem sei se é ou não, me fez acreditar que minha mãe tinha fugido com tio Bill, seu sócio no consultório de psiquiatria que os dois tinham.

Eu adorava o tio Bill, era como um companheiro para mim, ao contrário de meu pai, era uma pessoa divertida, já meu pai, uma pessoa que parecia todo o tempo que estivesse brigando com o mundo.   Não me lembro se alguma vez me abraçou ou fez um carinho.

Eu tinha uns 9 anos quando tudo aconteceu, até então, quando os dois começavam a discutir, ele me mandava para meu quarto, mas eu me sentava no alto da escada, ficava escutando, só ele falava.  Sempre reclamava de tudo, nunca nada estava bom.

Seu prazer era humilhar minha mãe, que ele não servia para nada, claro o único que salvava era que era imensamente rica, o que acabava atirando na cara dele, dizendo que se não fosse ela, ele estaria na merda.

Ao contrário do que muitos pensariam, era uma loira sim, mas de burra não tinha nada.  Foi o que salvou a mim bem como seu patrimônio.

Quando foi dada como desaparecida, ele se esbarrou que não podia tocar no dinheiro dela, bem como em suas propriedades.   Tinha também um testamento, que havia que esperar que eu tivesse 18 anos.

Nunca a encontraram, mas tampouco uso de cartões de créditos, dos dois.  Nunca houve rastros.

Na casa de Tio Bill, foi a mesma coisa, nada fora do lugar, só seu carro tinha desaparecido.

Quando soube disso, meu avô materno, conseguiu minha guarda, mas claro, era velho demais para criar um garoto.  Me meteu num colégio interno, meu pai nunca vinha me visitar, a única pessoa que aparecia no meu aniversário, natal, era uma irmã dele, com quem não se dava, quando ela morreu, deixou de aparecer qualquer pessoa.

Só sai desse internato, quando estive para ir a universidade, não sabia muito bem o que fazer com minha vida, era bom aluno em tudo, conversava com meu tutor, mas apesar de gostar de muitas coisas, não sabia bem o que queria.

Um dia tudo estourou, muito cerca de aonde vivíamos, existia um rio, tínhamos ido muitas vezes fazer pick nick numa lugar que tinha praia, logo em seguida, diziam que a profundidade do rio era espantosa.

Mas começaram a construir uma barragem elétrica, desviaram o curso do rio, quando as aguas abaixaram, encontraram o carro do tio Bill, com os dois dentro, só que cada um tinha uma bala na cabeça.   As balas pertenciam a uma arma de meu pai.  Ele fugiu assim que soube que tinham encontrado o carro, mas claro, foi com uma amante, ela o denunciou a polícia, porque em seguida se tornou violento com ela.

Me liberaram da escola, pois tinha terminado o curso antes do tempo.  O advogado que levava as coisas de minha mãe, me acolheu eu sua casa.  Fui com ele ao julgamento.

O homem que pensava que era meu pai, esta ali sentando, olhando para a superfície da mesa, sem levantar a cabeça.

Quando foi interrogado se veio abaixo.   Ele e tio Bill, tinham sido amigos desde criança, estudaram a vida inteira juntos, na faculdade os dois se apaixonaram pela minha mãe, ela era de família rica, meu pai, vinha de uma família de classe média, tio Bill era o único que tinha estudado sempre com bolsas de estudo, pois sua família tinha se arruinado a muito tempo. Do outro lado nas cadeiras, vi seus pais, nunca os tinha visto, não eram tão velhos como tinha pensado.

Dias antes, tinham me retirado sangue para fazer um exame de ADN, que usariam no julgamento.  No interrogatório, seu advogado o colocou como uma pessoa sofrida, enganado pela mulher, pelo seu melhor amigo, durante anos.

Quando o fiscal começou a interrogar antes deles, uma série de amantes que ele tinha tido, logo vimos que ele era propenso a violência, todas diziam que na cama era um banana.  O pior foi quando apareceram dois homens, com uma pinta horrorosa, se viam que tinham as sobrancelhas perfiladas, usavam unhas grandes, cabelos grandes, quando se identificaram, foram perguntados pelo fiscal, os dois eram travestis, tinham sido amantes dele.  Disseram que ele gostava que o pegassem pelos seus pecados, mas no final apareceu o pior, um que vinha vestido de mulher, pois andava assim, disse que ele tinha sido agressivo, quando ele resolveu se transformar em mulher, tinha um apartamento que tinha colocado em seu nome, que tinha vendido o mesmo, para fazer a operação, quase me matou de pancada, fiz uma denuncia é claro, mas ninguém me deu atenção.   Me dizia sempre que o filho não era dele.

Depois do primeiro dia, conversei com o advogado de minha mãe, que me fez me sentar com o fiscal, contei tudo que me lembrava, das eternas discussões dos dois, que ele tentava humilhar minha mãe, ela lhe jogando na cara que ele só a queria pelo seu dinheiro.

Inclusive era proprietária do prédio aonde tinham a consulta.  Que quem me tratava bem era o Tio Bill, era o único que demonstrava me querer.  Quando vinha jantar, me colocava na cama, me contava histórias, me dava um beijo na testa.

No dia que tudo aconteceu, vi que ele pegava minha mãe, depois saíram os dois, no dia seguinte me disse que os dois tinham fugido.

Nesses anos todos, nunca tinha me visitado, eu sentia falta sim do tio Bill, dele nenhuma, nunca tinha feito um carinho, nada.

Só te chamaremos para depor de for necessário, não tens que passar por isso.

Sabiam que ele estava sem dinheiro, que a casa estava empenhada, bem como o edifício do consultório, ninguém sabia como tinha conseguido o dinheiro.

Finalmente o fiscal o chamou para depor, foi um horror, depois das amantes, dos travestis, ele estava um frangalho de pessoa.  Primeiro contou uma porção de mentiras, que tinha me protegido desses dois, que eram amantes desde o tempo da universidade.

O fiscal lhe perguntou se tinha certeza de que era seu filho?

Disse que sim, que ia sempre me visitar no colégio, que nunca tinha me faltado nada.

O advogado teve que me segurar na cadeira, pois eu queria gritar que era mentira.

Quando o fiscal soltou, que pelas provas de ADN, eu não era filho dele, mas sim do Bill, ele ficou furioso, perdeu os papeis, como se dizia, até isso eles me roubaram.

Tinha se casado com minha mãe, durante um período que Bill estava no exército, tinha sido dado como desaparecido, ela estava grávida, isso atestava um documento que estava em poder do advogado.   Meu avô materno, era um judeu muito rico, a tinha obrigado a se casar com separações de bens, ou seja ele não tinha direito a nada.   Por isso nunca tinha podido aceder ao que ela tinha.

Uma miserável seguiu falando, uma loira puta como todas as outras putas que apareceram aqui.

Todas mereciam morrer, lástima que só matei essa puta que era minha mulher.

Não houve como o fazer parar, ele disse que a tinha feito ir a casa do Bill, que tinha feito os dois entraram no carro, tinha dado um tiro na cabeça de cada um, jogado o carro no rio na parte mais profunda.    Olhou em minha direção, nesse momento me livrei desse bastardo, apontou para mim.

O que ele não esperava era que eu ficasse em pé, lhe grita-se assassino, me roubaste o que mais gostava na vida, meu querido tio Bill, bem como minha mãe, que vá para o inferno.

Ele abaixou a cabeça, nesse momento se fez uma grande confusão.  O juiz interrompeu o julgamento, mandou que me levassem ao seu gabinete, fui como fiscal, com os dois advogados. Contei tudo que sabia, que era mentira, que ele nunca tinha ido me visitar, que tinha passado todos esses anos preso na escola, nunca saindo para nada.

Virei para o juiz, perguntei se podia me considerar como maior, para me livrar dele.

Isso será outro processo, mas não vejo por que não.  Terás que seguir em frente.

Eu confessei que tinha pensado que realmente tinham fugido, porque os dois sempre se mostraram carinhosos um com o outro na minha frente.   Bill sempre segurava sua mão na hora de ir embora, lhe dava um beijo.

Quando sai, me apresentaram os meus avôs, os pais do Bill, me abraçaram com lagrimas nos olhos.  Eram pessoas simples, se quiseres vir viver conosco, será um prazer.

Ele era a viva imagem do Bill, que agora sabia que era meu pai. Me agarrei a ele, chorei muito.

Depois nessa noite jantaram na casa do advogado, enquanto eu não fosse independente, não podiam fazer nada.   Contei como o Bill se comportava comigo, as histórias que me contava, como me colocava na cama, o beijo que me dava na testa, esse outro, nunca se aproximou de mim.

Como dizia o advogado, era tudo como se fosse uma novela de mau gosto, tudo porque ele queria se casar com ela, pensando que seria rico.

No último dia do julgamento, seu advogado nem sabia o que dizer, porque já tinha perdido a causa.  Ele foi condenado a cadeia perpétua, sem direito a pedir liberdade.

Não fez nenhum movimento, tinha envelhecido uns 20 anos de um dia para o outro, ombros curvados, seguia olhando o tampo da mesa, passou por mim na saída, eu lhe virei as costas.

Tinha matado meu pai, minha mãe.

Dois dias depois, o juiz assinou minha independência, o advogado com um tabelião levaram na frente dele, o testamento dela, havia uma carta para mim, que coloquei no bolso, existiam muitas propriedades, que vinham do meu avô, inclusive seu imenso apartamento em Chelsea em NYC, além de dinheiro no banco, do parte de meu avô havia uma caixa forte que também me pertencia, que eu só tinha direito a abrir quando fizesse 18 anos, eu calculava com o dinheiro que receberia, teria dinheiro por muitos anos.

Nos dias seguintes, tiramos documentos de identidade, eu assumiria o sobrenome de minha mãe, me passava a chamar Lionel Stainer, não queria levar o dele de maneira nenhuma.

Deixei passar pelo menos duas semanas, falava todos os dias com meus avôs, eles viviam em Filadélfia, eu lhes disse que logo iria visita-los.

Só então, tive coragem de ler a carta.  Quando fores maior de idade, saberás que foste fruto de um amor muito grande.   Eu me apaixonei pelo Bill, logo que o vi, mas claro incluía seu amigo que sempre estava junto.    Quando Bill foi chamado para ir para o Vietnam, não houve maneira de escapar, meu marido sim, conseguiu.  Mal Bill embarcou, descobri que estava gravida, fiquei quieta, mas ele descobriu.  Nem um mês depois Bill foi declarado desaparecido em combate, ele me convenceu a me casar com ele, para que tivesses um sobrenome, que não te chamassem de bastardo.   Ele sabia o que era isso, pois não era filho do homem do qual levava o nome, o que descobri depois que era uma maneira de me enganar, não era verdade.

Anos depois quando recuperaram o Bill, ele quando voltou era um trapo de homem, tinha sido prisioneiro durante anos, era um cadáver ambulante, mas quando te viu, sorriu, disse que tu eras igual a ele quando criança.  Começou então um largo tratamento, que nunca soube quando ia acabar.   Pois seus traumas eram muito grande, pensei em pedir divórcio para cuidar dele, me disse que infelizmente já não tinha capacidade de amar mais, tinha perdido tudo.  Que a única coisa boa era te ver.

Por isso quando vem aqui em casa, gosta de ficar brincando contigo, contar histórias, te colocar na cama.   Mas fora isso, sua casa, é pequena, vive num quarto, que mais parece uma cela de um monge, não suporta muita gente junta, lhe dá medo.

Me diz sempre que bem ou mal, ele tem um pai que o criou.  Por mais que lhe explique que ele nunca se aproxima de ti, que te engole, porque senão não tem a vida que pediu a deus, com nosso dinheiro.

Agora Bill, esta melhor, tomei coragem, vou pedir o divórcio, não quero mais viver essa mentira, quero ter uma família com o Bill, ele nos ameaça de acabar conosco, te deixar sem pais, já falei com o advogado, ele nunca poderá se nos acontece algo, tocar no dinheiro que será para o teu futuro.

Teu avô meu pai, leva muito mal esse assunto, pois nunca gostou dele, tampouco gosta do Bill, diz que tem problemas demais com o que lhe aconteceu na guerra.

É uma verdade, poderia ser um homem violento, mas se transformou num homem frágil, está dividido, tem medo de causar problemas para ti.   Te ama muito, mas seu medo de não controlar sua neurose é muito grande.

Não importa, eu te amo demais meu filho, foste filho desse amor imenso que sinto por ele.

Beijos, tua mãe.

Ela sempre me dizia como te pareces ao teu pai, eu olhava o outro, não consigo mencionar seu nome, nunca me pareci com ele.

Sou loiro como ela, como o Bill, tenho os olhos dos dois, azuis, sou tão alto como ele era.

Fui visitar meus avôs, agora podia me mover sozinho, já tinha posse de meu dinheiro, aluguei um pequeno apartamento, não queria viver no que tinha sido do meu avô, que era imenso, imagina tinha vivido sempre num quarto normal no colégio, os quartos ali eram imensos.

Agora entendia o Bill, ele devia viver numa cela, porque sabia que não precisava mais do que tinha.

A casa dos meus avôs era muito simples, no quarto dele, estava igual segundo ela, nunca mudei nada, ali estavam seus troféus, de estudante, a maioria não eram de esporte, mas sim de debates que participava, era muito inteligente.

O velho me disse, que quando voltou, era assustador, ela pele e osso, nem sabiam como podia se manter em pé.  Levou anos para poder comer direito, se comia demais vomitava.

Tinha pesadelos horrorosos, pois dizia que o acordavam de noite para tortura-lo, durante o tempo que este aqui, passou a dormir num quarto em cima da garagem, mas podíamos escutar seus gritos de madrugada, me levaram até lá. Era um quarto pequeno, com uma cama simples, alguns livros em cima da mesa de cabeceira, um livro grande em cima da mesa que usava para estudar, embaixo da janela, tinha um livro sobre como criar um filho.

Disse aos meus avôs que dormiria ali esses dias, queria estar perto dele, se podia sentir seu cheiro.   Ela chorou muito, me contou que quando me viu a primeira vez, chegou aqui chorando, que nunca tinha pensado em ter um filho tão bonito.   Lhe perguntei se te ia reclamar, ele disse não posso, como vou cuidar de um filho se não consigo cuidar de mim mesmo, dos meus pesadelos.

Me deixaram ali sozinho, abri o livro, era um desses que falam das crianças desde que nasce, a margem estava escrito, não estive presente quando tudo isso aconteceu, como posso recuperar.

Depois haviam folhas soltar, eram pensamentos dele, de como podia fazer que eu o amasse.

Será que um dia me aceitará como pai.

Em outras paginas soltas, estava o que eu tinha conversado com ele nesse dia, como era minha risada, como o tinha feito feliz, ao deixar que me colocasse na cama, que lhe tinha falado que gostava demais disso.

Nessa noite sonhei com ele, sorria para mim, estava feliz.

Passei muito tempo com os velhos, eram gente simples, se espantavam como eu podia gostar de estar ali, contei como era minha vida no colégio, como era meu quarto, que como Bill, eu gostava de ler, que basicamente tinha lido todos os livros da biblioteca.

Que me dava muito bem com o cozinheiro, bem como o que era meu orientador, para o resto eu era o aluno perfeito, que absorvia todas as matérias.

Poderia inclusive me candidatar a uma bolsa de estudos na universidade, estava adiantado.

Mas confessei que não sabia o que fazer ainda, precisava de tempo para pensar.

Quem me deu de uma certa maneira uma solução, foi meu avô, me contou que Bill, tinha um sonho desde jovem, de ir pelo mundo, aprender coisas, seu sonho na verdade era a arte, mostrou dois desenhos dele, tem uma caixa, cheia de desenhos de ti.

Quando abri a caixa, ali estavam um estojo de aquarela, bem como cadernos de pintura, todas as páginas, tinha meu rosto, rindo, chorando, pedindo alguma coisa, as vezes tinha uma anotação, perdi tudo isso.   Muitas fotos minhas.

Fiquei com os pequenos pinceis, bem como o estojo de aquarela, me deram os cadernos, que levei comigo.

Me despedi deles, disse que ia realizar o sonho do Bill, antes de ir à universidade, tiraria um ano sabático, para conhecer os lugares que ele gostaria de ter ido.

Falei com o advogado, fomos ao banco, me deram um cartão de credito de estudante, assim eu poderia ir me movendo.

Tinha encontrado nessa caixa, uma série de guias turísticos velhos, os ordenei por época que tinha comprado, quais eram os seus interesses, tinha inclusive pequenos papeis que dizia o que queria conhecer.

Comecei por Berlin, comprei um bilhete de avião, me informei bem numa agência, a vendedora que me atendeu, me falou do tipo de hotéis que os jovens como eu faziam, eram hotéis dedicados a estudantes, como eu poderia ir me movendo, viajando de trem, sem pressa.

Assim fiz, visitei os museus, as pessoas riam, pois os guias turísticos eram velhos, mas não me importei, segui o que estava ali, se descobria alguma coisa nova tudo bem.

Comecei a formar na minha cabeça, a ideia de arte, tinha estudado história da arte na escola, mas claro eram informações sem muita profundidade, o que fiz foi comprar umas cadernetas Moleskine, anotava tudo que via, analisava o mesmo, quando chegava no hotel, existiam habitações compartidas, mas sempre pedia uma para mim em solitário, gostava do meu espaço, não queria compartir, durante o café da manhã, escutava o que iriam fazer durante o dia, mas quando chegava a noite que começavam a beber, a pensar em festa, eu sequer tinha curiosidade, não queria me perder, antes de realizar meus sonhos.

Me sentava no silêncio do quarto, escrevia minhas impressões das coisas que tinha visto durante o dia, alguma coisa que gostaria de ter falado com o Bill. Comparava sua anotações com o que tinha visto.

De Berlin, fui a Praga, foi uma viagem de trem fantástica, de lá fui para a Itália, fui conhecendo todos os lugares que ele pensava.  Ria as vezes sozinho, pois me lembrava de suas anotações.

Via os outros da minha idade em grupo, mas não me interessava, falava com eles, mas o que queria era ir ao meu ritmo, alguns bebiam demais, depois vomitavam, eu pensava que absurdo, depois quando falavam criticavam a maneira das pessoas viverem, pois não tinha nada a ver com América, então achavam um absurdo.   Pensavam esses quando voltem, jamais se lembraram do que viram.

Tiravam sim muitas fotos, pensei em comprar uma câmera mas preferia, fazer pequenos desenhos nos meus cadernos Moleskine, escrevia todas as conversas idiotas que escutava, para depois pensar a respeito.

Quando cheguei a Roma, fui obrigado a ficar num hotel maior, mas nada de luxo, escutava os turistas falando, pensava, os da minha idade serão estes amanhã, que se fixam em detalhes idiotas, sem olhar como vivem, como pensam os daqui.   Eu preferia conversar com as pessoas nos bares, restaurantes, os que não eram turísticos, para entender como levavam a vida, como pensavam.

Fui até o sul, ao final da bota, como dizem que forma Itália, voltei pelo litoral, era pleno verão todos iam a praia, não era meu campo de batalha, gostava de praias vazias, aonde pudesse estar sozinho, acabei entrando na França pelo sul. Fui conhecendo tudo que Bill tinha sonhado, agora era meu sonho, me divertia, comecei a conhecer gente, falava bem o francês, pois meus professores tinham sido bons, bem como amava a maneira deles cozinharem.

Todas as semanas falava com meus avôs, queria saber como estavam, falava do que tinha visto, dos sonhos de meu pai, agora conseguia chamar Bill de meu pai.

Meu avô falou que o psicólogo com o qual fazia terapia, tinham um diário que ele tinha deixado para o outro ler, tinha demorado a encontra-los, mas estava lá para mim quando quisesse.

Quando cheguei a Paris, era aonde tinha mais anotações do Bill, estava ali tudo que ele tinha sonhado conhecer, fiz isso primeiro, depois fui visitando os museus, parei numa loja para comprar mais Moleskine, escutei a conversa de dois jovens, eram estudantes de belas artes, fiquei curioso, perguntei aonde era, foram me mostrar, se fizeram de guias pela escola, até que um professor perguntou o que eu fazia ali.   Lhe expliquei que era Americano, que ainda não tinha me decidido, mostrei o Moleskine, aonde tinha desenhado várias coisas que tinham me chamado a atenção durante a viagem, claro era tudo em tamanho pequeno, buscou na sua sala uma lupa, disse que era incrível o que eu fazia em tamanho pequeno, que eram excelentes meus esboços.  Podia me apresentar para o semestre seguinte.

Fiquei feliz, quando falei com meu avô, ele me disse que minha avô não estava bem a tempos, que estava num hospital, que o tratamento era caro.  Desliguei falei imediatamente com o advogado, iria para lá, mas que a transferissem para um bom hospital, que tivesse do melhor.

Minha bagagem era pequena, tinha sim muitos Moleskines, tinha sempre viajado com o justo.

Tomei o primeiro voo, pela primeira vez viajei em primeira classe, pois era aonde tinha lugar.

Cheguei de madrugada em NYC, fui direto para Filadélfia, ela agora estava no melhor hospital da cidade, num quarto particular, ele estava com ela, segurava sua mão amorosamente.

Me abracei a ele, que chorava, ela estava entubada, estava em coma.

Voltou a si dois dias depois, abriu os olhos, me viu, confundiu com meu pai Bill, sorriu, morreu.

Foi duro para ele, mas fiquei ali ao lado dele.  No enterro, não tinha muita gente, ele sorriu tristemente dizendo que a maioria dos amigos tinham morrido.

Depois perguntei o que ele queria fazer, ficar vivendo ali, ir viver comigo, o que pensava em fazer.   Quero ficar aqui, o médico me disse que ele estava muito fraco, fiquei ali com ele, arrumei um professor de desenho, mostrei meus pequenos esboços, o homem ficou impressionado, eu achava graça, pois os tinha feito sem pretensões nenhuma.

Arrumei uma senhora que vinha limpar a casa, fazia comida para os dois, nos acostumamos a ficar horas sentados lado a lado na pequena sala, fui contando minha viagem para ele, as vezes lia o que tinha escrito, comparando as anotações de meu pai Bill, com as minhas, ele se matava de rir, ele sempre teve muita imaginação.

O senhor imagina, num museu em Paris, me peguei falando com ele, pois mencionava um quadro que ele parecia gostar muito, quando vi as pessoas me olhava, pois eu ia comentando como via o que ele tinha mencionado, mas eu o via igual.  Acabei tendo uma gargalhada, pois iam pensar que estava louco.   Teria adorado fazer esse viagem com ele.  Mas sentia a presença dele sempre.

Estar com meu avô facilitava, pois Bill era realmente muito parecido com ele.   Me entregou o diário que o psicólogo tinha entregado.   Li somente duas páginas, há muito sofrimento nessa parte, não fui capaz de ler tudo.

Nessa noite li as primeiras páginas, ele descrevia a jaula que tinha vivido muito tempo, primeiro com outros homens, à medida que esse foram morrendo, ele foi ficando sozinho, ao final, dizia que tinha conversado muito com ele mesmo, que os guerrilheiros, pensavam que ele estava louco.   Um deles o tinha ensinado a falar a sua língua, conversava com esse.   Mas também era o mesmo que os superiores mandavam torturar, depois vinha até a jaula, pedia perdão.

Chorava segurando sua mão, mas quando se aproximava alguém, o maltratava, foi esse homem que o liberou, meu pai o tinha ensinado a falar inglês, atravessou a selva toda com ele, se escondendo, as vezes o tinha carregado.   Eu já não devia pesar nada, pois me carregava como quem carrega um boneco.  Quando chegaram perto de um acampamento o deixou, desapareceu, depois o procurei quando acabou a guerra, mas nunca o encontrei, dizia seu nome.  Talvez tivesse sido morto.

Contava da aldeia que vivia, como tinha sido recrutado para ser guerrilheiro, os americanos tinham matado toda sua família, sua mulher, seus filhos, mas ele achava que Bill era boa pessoa, pois quando ele chorava, este secava suas lagrimas com os dedos.

Não morri, só por causa desse homem, devo minha vida a ele.

Depois a volta, os pesadelos, as torturas, foi então que me lembrei que ele não tinha unhas, tinham arrancado todas, seus dedos eram diferentes, alguns completamente torcidos, mas me fazia bem seus carinhos.

Quando soube que eu era seu filho, chorei como um condenado, que vontade tinha de poder abraça-lo como fazia quando era garoto.

Meu avô escutou que eu chorava, veio ficar perto de mim.  Me abraçou, cantou uma canção que ele cantava quando me colocava na cama.

Pela primeira vez tinha ódio do homem que me tinha arrebatado tudo isso.

Mas o interessante que ele não o culpava, procurava entender.

O mais terrível, foi ler que quando minha mãe quis fazer sexo com ele, explicar que era impossível, tinham lhe arrancado o escroto, ainda deram o mesmo para um cachorro sarnento que estava por ali.  Contava o medo que passou a ter dos cachorros quando se aproximavam dele.  Não tinha ereção nenhuma, não era mais um homem, mas o outro não entendia isso, um dia lhe mostrei para que visse do que eu falava, que não devia ter receio de mim.

O que aconteceu o deixou chocado, que o outro tinha abaixado, colocado seu membro na cara, o beijado.  Foi quando me confessou que tinha me amado desde que me conhecia, que ansiava que eu fizesse sexo com ele.   Depois riu amargamente, agora nem fazes com ela, nem comigo.

A pergunta se ele sabia disso, porque o tinha matado, bem como a ela.

Pediu ao advogado, se podia conseguir que falasse com ele.

Ficou horrorizado quando o viu, era um caco de pessoa, segundo soube depois estava viciado em drogas, tinham abusado dele ao princípio, mas agora era tratado como um lixo.

Falou do diário do Bill, levou um susto, quando perguntou se falava bem dele.

O amei desde o primeiro dia que o vi, quando éramos jovens uma vez fizemos sexo, depois ele nunca mais quis, dizia que iria destruir nossa amizade.  Buscava todos os homens que se pareciam com ele, me humilhava para ele me querer, mas quando conheceu tua mãe, ficou loucamente apaixonado, vê-los juntos era uma tortura.   Quando desapareceu, fiquei como louco a princípio, nos apoiamos um no outro.   Mas quando nasceste, ela te olhava de uma maneira que eu não suportava, sabia que ela via o Bill em ti.

Depois comecei a chegar tarde em casa nos dias que ele ia te ver, imaginava os dois fazendo sexo, era uma tortura, até o dia que ele me mostrou seu corpo, todo marcado pelas torturas que tinha sofrido.  Queria beijar cada ferida, mas ele não deixou, me explicou que jamais poderia fazer sexo.

Mas ela queria ir embora com ele, contigo, me deixando para trás, dizia que não suportava mais estar comigo, sabia do que eu andava fazendo, andando com putas, com homens que se parecessem a ele.

No julgamento só apareceram os trasvestis, mas na verdade houve muitos homens na minha vida.   Te mandei para um colégio, ou melhor disse ao teu avô, que não suportava tua presença, pois eras parecido com Bill, tinha medo de abusar de ti.   Por isso nunca fui te ver, saber que tinha matado meu melhor amigo, mas não suportava a ideia de que eles quisessem viver sem mim.

Quando estava muito perdido, ia me sentar na beira do rio, ficava conversando com os dois, me escondia para me masturbar, me lembrando da única vez que fizemos sexo.

Me perdoe, embora não seja digno disso.  Tenho Aids, não vou viver muito mais.

Lhe disse que o perdoava, pois imaginava viver como ele tinha vivido.

Nesse época meus desenhos ficaram negros, tinha escutado muita miséria, muito ódio, todas as coisas más do mundo.  Talvez por isso nunca me aproximava de ninguém.

Meu avô me aconselhou a ir a um psicólogo, pois me escutava as vezes chorando de noite.

Aceitei seu conselho, comecei a conversar com um senhor, fui falando tudo que tinha vivido, a solidão que tinha vivido na época da escola, a dificuldade de me aproximar inclusive com os da minha idade.   Lhe disse que não tinha experiência sexual nenhuma, que não me sentia atraído por ninguém.

Com o tempo fui melhorando, segundo meu professor, meus desenhos foram ficando mais claros, fiz meu primeiro quadro, um retrato do meu avô, ele ficou emocionado.

Meu professor dizia que eu deveria ir fazer um curso numa escola de Belas Artes, mas não queria deixar meu avô sozinho.   Um dia ele não se despertou, fiquei ali parado, chorando, pois tinha perdido o último elo com o meu passado.

Chamei o meu advogado que veio imediatamente, o enterramos ao lado de minha avó, bem como aonde estavam as cinzas de minha mãe, do Bill.

Ele tinha vendido o apartamento do meu avô em NYC, dizia que alugar era jogar dinheiro fora, tinha o feito por um bom preço, colocamos isso numa conta, que eu pudesse usar mais fácil.

Embora a casa do meu avô paterno agora era minha, me deixou de herança, eu voltaria a viver lá um dia.

Fui passar uma larga temporada estudando na escola de Beaux Arts de Paris, aluguei um studio, aonde pudesse viver, fui conhecendo gente, me obrigando a sair, só não fazia uma coisa, não bebia, nem consumia drogas, quando me cobravam lhes explicava que não era a minha.

Nem sentia curiosidade.

Um dia estava trabalhando num quadro na escola, o professor me apresentou o dono de uma galeria, foram até meu studio, viram tudo que eu tinha, me ofereceu uma exposição, foi assim que comecei a ser conhecido, Lion Stainer.

Tinha transporto para a tela, todo os sofrimentos do meu pai, isso impressionou muita gente, quando me entrevistaram fizeram perguntas a respeito, respondi sinceramente, que tudo se baseava nos diários de meu pai, do seu sofrimento como prisioneiro vietcong.

Fiz mais duas exposições, sobre outros assuntos que gostava, foi quando me apaixonei pela primeira vez.

Um homem se aproximou, disse que tinha conhecido meu pai na universidade.  Disse que nunca tinha se aproximado, pois os três formavam um grupo fechado.

Começamos a conversar, fomos jantar, ele era muito mais velho do que eu, mas me apaixonei assim mesmo, ele a principio se assustou, mas não me importei, voltei para viver com ele nos Estados Unidos.  Vivemos juntos até ele morrer.

Mandei reformar a casa do meu avô em Filadélfia, de tanto tempo fechada as paredes estavam mal, na reforma, transformei o andar de cima num grande studio aberto, passei a viver lá. De vez em quando fazia alguma exposição.

Sentia falta do meu companheiro, pois se uma das coisas que fazíamos muito era conversar, ele tinha ficado muitos anos trabalhando para o governo americano, nas embaixadas, tinha um bom relacionamento, me apresentou muita gente do meio de arte, pois tinha sido adido cultural fora do pais.

Alguns me criticavam, pois pensavam que estava com ele por dinheiro, ele se matava de rir, dizia que eu era milionário, o que era pobre era ele.

Trabalhava nessa época como se tivesse febre, meu trabalho foi mudando, era uma maneira diferente de ver a vida. As cores de repente apareceram em meu trabalho, cada vez foram ocupando mais e mais espaço.

Ele adorava, eu dizia que ele era isso para mim, vida.

Quando ele morreu eu tinha 40 anos, pensei nunca mais vou amar assim.  Tinha vivido com ele desde meus 26 anos, era muito tempo.   Nunca tinha feito sexo com mais ninguém, tampouco sentia necessidade.

Alguns se aproximavam de mim por interesse, graças a deus eu percebia de imediato.

Tinha um amigo seu, que vinha sempre ao studio conversar comigo, dizia que admirava o amor que eu tinha por ele.

Um dia de surpresa me apresentou seu filho, ele era gay, mas tinha sido casado antes.  Começamos a sair, ele pensava muitas coisas como eu, sentia que sua mãe o tinha pressionado muito para odiar seu pai, que isso o tinha feito perder tempo de viver com um homem a quem amava. 

Um dia começamos a brincar, acabamos fazendo sexo.   Ele se achava heterossexual, nunca tinha imaginado nada disso, no dia seguinte disse que tinha que pensar, sumiu uma semana sem dar notícias.

Um dia voltou, disse que não tinha conseguido me tirar da sua cabeça, começamos a viver juntos, saímos com seu pai, este tinha uma agenda impressionante, pois adorava uma festa, ir dançar, a nós não, gostávamos de estar no nosso canto, lendo, escutando música, um agarrado ao outro.

Quando fui para Filadélfia, ele conseguiu ser transferido para lá.

A principio estranhou um pouco, mas estávamos perto de NYC, quando queríamos escapávamos um final de semana, mas avisava ao pai, queremos estar contigo, não com um bando de gente.

O pai me agradecia, fazer feliz ao seu filho.

Vivemos juntos até hoje, agora temos quatro filhos adotivos, tivemos que ampliar a casa, imaginava meus avôs como estariam contentes com isso, escutar ruídos de crianças pela casa.

A vida seguiu em frente como sempre, nada para nunca.