lunes, 8 de febrero de 2021

AZAR

 

                                           AZAR

 

Desde que entendia por gente, sempre tivera um azar monumental, nunca nada dava certo, a começar que tinha sido abandonado na porta de uma igreja de madrugada, depois foi levado a um orfanato, estava desnutrido, depois de exames, teve que ficar muito tempo sob observação, segundo a irmã que o cuidou não foi nada fácil.

Quando tinha uns cinco anos, começou a crescer normalmente, de feio que era ficou um garoto bonito.   Logo todos queriam adotá-lo, mas as irmãs eram restritas com as famílias, era necessário, realmente ter condições.

A primeira família que tentou adotá-lo logo caiu sobre suspeita, não eram o que aparentavam, justo no dia que ia ser entregue, a polícia os pegou na porta do orfanato.   O faziam em vários estados para depois vende-los a pédofilos.

Durante as visitas ele até tinha se encaprichado pela senhora, que era muito bonita, bem vestida, cheirava bem.   Mas depois escutou que ela era a chefe da quadrilha, como podia uma pessoa ser assim.

Finalmente com oito anos foi adotado, mas logo levado para uma das cidades perto de San Diego, tinha uma pequena praia, mas a família o queria para realmente trabalhar como um escravo, quando não fazia o que pediam, lhe davam uma surra de cinturão.   Aguentou o quanto pode, mas um dia que tinha levado uma bela surra, porque tinha deixado cair uns pratos, de madrugada se mandou.     Foi se esconder perto de um parking de trailers, gente que trabalhava numa fábrica.

Uma senhora com uma boa cara, com os cabelos amarados em rabo de cavalo o descobriu morto de fome.   O levou para seu trailer, curou suas feridas nas costas, lhe deu comida, quando chegou seu marido que estava fazendo o turno da noite, ficou impressionado, mostrou para ele uma foto, era igual ao filho que tinham tido, explicou que tinha morrido em outra cidade.  

Quando a polícia procurou trailer por trailer, o apresentaram como seu filho, mostraram os documentos, suas fotos desde criança, a partir desse dia passou a se chamar John Chevalier, era bem cuidado, ajudava a senhora que agora chamava de mãe, todos os dias, mas ela logo o colocou numa escola ali perto, descobriu que ele não sabia nem ler, nem escrever.   Sabia na verdade um básico que tinha aprendido no orfanato.

Ao entrar na escola, o mandaram sentar numa carteira, que ao parecer ninguém queria sentar-se, descobriu depois que o menino que se sentava ali, tinha morrido.  Com isso ninguém se aproximava dele, como se fosse um estigma.

Alguns mais velhos o ameaçaram, mas o que era agora seu pai, como já imaginando que isso aconteceria, por ele ser bonito, tinha lhe ensinado a se defender.  Lhe ensinou truques de boxe, ou mesmo uma autodefesa um tanto dura, tipo dar um chute no saco do outro, ou meter os dedos nos olhos, essas coisas.

No primeiro ataque que lhe fizeram se defendeu, por sorte um professor viu tudo, pois o outro garoto era filho do diretor.  Abusava disso, por pouco não lhe expulsam da escola, tinha lhe dado um belo pontapé no saco.

Ninguém mais se atreveu a molestar, não se incomodava de ficar sozinho no recreio, pois a maioria se dedicava a encher o saco dos outros.  Aproveitava para ler, estudar, precisava recuperar o tempo perdido.

Um dia vieram avisar que seu pai tinha sofrido um acidente na fábrica, acreditou imediatamente que era devido ao seu azar.   Sua mãe postiça, disse que nada disso, eram coisas que aconteciam, tinha caído uma viga que estava sendo transportada pelo ar, por acaso ele estava trabalhando justo embaixo.   A viga acertou justo sua nuca, fazendo com que caísse para frente em cima da máquina que usava, essa lhe serrou um pedaço da cabeça.

O caixão estava fechado para que as pessoas não ficassem bisbilhotando.   Como sua mãe Doriana dizia, a fábrica lhe pagaria uma pensão de viúva, assim não passariam necessidades.    Mesmo assim ela trabalhava todos os dias arrumando as casas dos chefes da fábrica para não faltar nada para ele.

Quando começou a secundária, arrumou um emprego num armazém na parte da tarde, o filho do patrão, estudava com ele.   Nunca lhe dirigia nenhuma palavra, nem no armazém, tampouco na escola.   Quando o pai lhe dizia para dar uma ordem, chegava perto dizendo, o velho mandou você fazer isso ou aquilo.

No dia do baile de formatura, sua mãe, fez questão que ele fosse, seu pai ficaria orgulhoso de ti, com suas economias tinha lhe comprado um terno de segunda mão, que ficava perfeito no seu corpo, pois o trabalho no armazém lhe tinha feito criar músculos.

Ficou a maior parte do tempo sentado à parte, escutando as conversas, todos falavam em ir para a universidade.  Ele não tinha se candidatado a nenhuma bolsa de estudos, pois simplesmente era um aluno regular.   De notas altas, seu nível ficava entre 7, 8, quando muito 9, nada de tapinhas nas costas.   Dava um duro desgraçado, pois tinha certa dificuldade para se expressar.

No fundo tinha uma certa inveja, sua mãe vinha falando sobre isso, que talvez devessem se mudar de cidade, ir para mais perto de San Diego ou mesmo Los Angeles, ela tinha uma irmã que vivia em Venice Beach, não se viam a muito tempo, mas quem sabe.

Justo essa noite quando chegou em casa a encontrou morta, alguém tinha entrado para roubar, só podia ser alguém que fosse drogado, pois naquela casa tudo era o justo.

Sabia que ela tinha um esconderijo, mas disso ela só tinha mostrado para ele, para garantir nosso futuro dizia.

A polícia veio, mas se via que não iam fazer nada, ele se culpava que não devia ter ido ao baile, foi a única coisa que o detetive foi simpático, não adianta te culpar, pois se talvez estivesses aqui, teriam te matado também.      Por sorte uma vizinha viu quem tinha sido, um conhecido dali que ultimamente tinha se viciado em cocaína.  Não teve sequer que se vingar, pois encontraram o mesmo com uma sobre dose.

Como sua mãe pagava o aluguel adiantado, ainda poderia ficar mais um mês por ali.  Tinha que pensar no que fazer.   Esperou os ânimos se acalmarem, para ir buscar a lata que ela escondia suas economias.   Quando viu a quantidade, se assustou a princípio.  Daria para começar a vida em qualquer lugar.   Nada do outro mundo, para alguém como ele, que tinha o básico estava bem.   Ultimamente vinha usando as roupas do que tinha sido seu pai, pois tinha agora a mesma altura dele, bem como corpo.

Um dia ficou sentado na praia pensando no assunto, se deu conta que alguém se sentava perto, era o detetive que tinha atendido o caso.   

Em que estás pensando, para estar tão sério na tua idade?

No que vou fazer da minha vida, não sei que rumo tomar.  Tínhamos pensado em ir para Venice Beach aonde ela tinha parentes, apesar de não os ver a muitos anos.    Mas dizia que família sempre seria família.

Bom, nem sempre é assim, mas se você não os conhece, pode ser mais difícil, não gostaria de ir estudar?

Sim, mas não tenho notas para ir à universidade com uma bolsa. 

Mas poderia entrar para academia de polícia ou mesmo para o exército, embora eu não recomende esse último, serias bucha de canhão, lhe explicou o que queria dizer com isso, as pessoas pobres vão para serem mortos em lugar dos políticos que inventam essas guerras.

Se quiseres posso te indicar para a academia de polícia, passe amanhã na delegacia que eu faço uma carta para ti.

Assim fez, o homem foi extremamente simpático com ele, disse que não era dali, sim de Los Angeles, que estava ali só durante um curto período, substituindo um detetive que tinha sido assassinado.   Dentro de semanas voltava para Los Angeles, lhe deu seu número de celular.

Sentiu que sua sorte mudava, como se tivesse alguém o protegendo.

Juntou seu dinheiro, pediu as contas no armazém, colocou o pouco que tinha numa mochila, foi embora, não ia sentir falta daquele lugar, apesar de ter tido a sorte dessa boa família.

Foi direto ao endereço que ele o tinha dado, fez os exames, foi aprovado, nada de nota máxima, mas sim o justo para entrar.     Passou por todos as provas de calouros, aguentando ao máximo a barra de tudo isso.   Passou a levar o curso muito a sério, pois lhe interessava, era curioso, intuitivo, prestava atenção aos detalhes.   No primeiro semestre tirou uma boa nota, coisa que ele não esperava.  Se saia bem nas coisas práticas, o que era elogiado.  Quando começaram as aulas de tiro, todos ficaram surpresos, pois era excelente na pontaria.  Raramente errava uma, inclusive o levaram para um campeonato que participavam os melhores, ficou em segundo lugar, porque um sacana o distraiu ao momento.  Seu orientador lhe disse, vês, quando estas de serviço uma simples distração de segundos, pode ser fatal para ti.

Nesse dia, justo depois de receber a taça, o detetive se aproximou dele.   Bom vejo que não me enganei contigo, eres excelente, quem sabe depois que termine o curso não te consiga um lugar na delegacia que estou.

Seu professor, depois lhe disse, sei que foi o inspetor que te apresentou para os testes, esse homem é um dos melhores homens da polícia, como tu, tem uma pontaria certeira.  Sua vida está cheia de desgraças, perdeu a mulher, bem como um filho que estava por nascer.  Nessa vida que levamos, família é sempre um problema, nunca temos tempo para eles.

Travou uma amizade com o professor, este lhe contou que tinha optado por dar classes, por ter diversos ferimentos que lhe impediam trabalhar direito.

Num final de semana, tinha saído com os companheiros, encontrou o mesmo, num bar, os amigos de repente desapareceram, o deixando para trás.  Ficaram conversando os dois, quando viu tinha perdido o ônibus para voltar, tomou uma decisão, ficarei num hotel.

O professor o convidou para dormir em seu apartamento, não vivo na escola, mas sim aqui na cidade, amanhã fica fácil para ires desde lá.

Não será nenhum inconveniente para o senhor?

Nada, imagina, eres meu melhor aluno, como vai ser um inconveniente, começaram um bate-papo largo.       Quando viram estavam se beijando, foi franco com ele, nunca tive relações sexuais com ninguém, sou novo em tudo isso.

Mas tudo deu certo, de uma certa maneira agora passava os finais de semanas juntos, discretamente para não chamar a atenção.

Quando acabou a academia, foi chamado pelas suas notas, em termos de aproveitamento por várias delegacias, aceitou a do inspector, ele recomendou que primeiro fizesse trabalho de rua, foi o que aconteceu.  Um ano patrulhando a cidade, cada x tempo em um bairro.  Depois passou a compartir um carro com um companheiro.   O que veio genial.

Mas se destacou logo desde o início, por ser observador, mesmo sendo um simples polícia, levava luvas, protetores de calçados, para nunca sujar a cena de um crime.  Quando chegava os inspetores, tinha tudo anotado, as anomalias do local.  Isso impressionava, pois os outros policiais não tomavam cuidado, principalmente os que estavam a muito tempo em serviço, quando passou a andar de carro, tinha sempre um bloco para anotar as ocorrências, à parte, além do próprio computador do veículo.  Depois de três anos, fez concurso para inspetor, na prova escrita tirou uma nota média, mas ao mesmo tempo, na oral, entrevistas, se saiu bem, uma das perguntas claves, pois todos pareciam saber como tinha trabalhado todos esses anos, disse que anotava tudo que lhe parecia suspeito, as vezes no formulário não havia espaços para isso, mas ele memorizava detalhes. 

Foi ser assistente do inspetor que já o conhecia.  Os colegas não o receberam muito bem, pois era como apadrinhado do mesmo, mas se esforçou tanto em se sair bem no trabalho, que não se importou com isso.    Mantinha o relacionamento com o professor, embora tivesse agora um pequeno apartamento perto da delegacia.

Seu primeiro caso real, que o tornou de certa maneira famoso, foram chamados para atender um homicídio, numa mansão de um homem muito rico.   Era o fotografo das grandes estrelas do cinema, além de reportagem para grandes revistas.

Quando chegou ao local do crime, entrou na sala, ficou parado, observando tudo, as coisas não encaixavam.  Começou a analisar o entorno.   O amante do fotografo, descia as escadas, com um celular na mão, prestou atenção, que estava borrando fotos.   Quando lhe perguntou se o celular era seu, ficou confuso.   O retirou de sua mão, colocando dentro de uma bolsa de provas.  Perguntou ao polícia que estava ali desde o princípio, se ele estava com a mesma roupa.  Disse que não, estava vestido todo de negro.  Mandou o mesmo ir buscar a roupa anterior como prova, o que ele estranhava, era que o morto, estava em cima de um tapete, este não tinha muito sangue, para um homem da altura que tinha, devia ter perdido mais.  Deu ordem que ninguém se movesse de seu lugar. Com a equipe técnica, mandou passar luminal na escada, não deu outra apesar de estar limpa, apareciam pontos de sangue.

A essas alturas já tinha dado ordem a um policial, para colocar algemas no amante.  Com sapatos protegidos, subiu.   No quarto verificou que o tapete estava grande demais para o espaço, quando levantaram o mesmo, havia resto de uma mancha de sangue.      O homem tinha sido assassinado no andar de cima, quando entrou no seu local de trabalho, era fácil perceber que tinham remexido o mesmo.  Tinha procurado alguma coisa, mas pelo visto não tinham encontrado.  Voltou ao quarto, a cama tinha sido arrumada recentemente, ficou parado no umbral, procurando alguma coisa que no primeiro momento tinha lhe chamado atenção.  Foi passando o dedo com a luva pelo marco da porta, até que encontrou o que achou diferente, um cartão fotográfico, pois na sala de trabalho, tinha uma câmera fotográfica, mas lhe faltava justo o cartão.   Colocou dentro de um saco plástico, mandou procurarem pela sala, um laptop ou qualquer tipo de computador.

No carro sempre levava um, pediu que o trouxessem.    Primeiro viu foi uma foto, o amante com outro homem em cima, depois um vídeo, os dois fazendo sexo falando, quando se via que eram descobertos, o outro era um famoso ator de cinema, casado, com uma família. Se via que se levantavam, talvez nesse momento, o morto tenha retirado o cartão, enfiado ali no marco da porta.   Quando seu chefe chegou, começou a relatar tudo.   Pediu ao mesmo policial que o tinha atendido antes, que dessem uma batida pelas lixeiras da rua, que era uma descida, ver se encontravam algum tapete por ali.

Os técnicos tinham já levado o corpo para examinar, ele foi relatando o que tinha suspeitado, primeiro o tapete não tinha muito sangue, segundo o amante apareceu impecável, tentando borrar coisas de um celular que não era o seu.   Tinha recebido o policial com outra roupa, negra, que já tinha ido para análise.  O escritório estava mexido, como se estivessem procurando alguma coisa que não encontraram, mas isso não era importante, sim o cartão fotográfico enfiado no marco da porta.

Se via totalmente a cara do outro.   O inspetor deu imediatamente ordem para irem a sua casa, que os acompanhassem a delegacia.   Bom trabalho inspetor, comentou o chefe.

Nesse momento chegava o empregado.  Quando soube o que tinha acontecido, soltou logo de uma vez.   Esse viado, sempre que o patrão se ausentava, trazia alguém para casa, me dava o dia livre.   Falei várias vezes isso com o patrão, mas não parecia lhe importar.  Pelo que escutei ele pensava se casar com o amante, já que não tem família.  Mas ultimamente estava mais desconfiado, deve ter voltado antes do que foi fazer.

Tens sua agenda de trabalho?

Sim sou eu quem organiza tudo.  Deveria estar em San Diego, depois iria a San Francisco para uma seção fotográfica que foi cancelada. Por isso voltou antes.

Os acompanhou a delegacia.    O amante, era um tipo desses que ao entrar em qualquer lugar, imediatamente chamam atenção, pois destilam sexo.   Além de bonito, um corpo atraente, mas o incrível era que tinha uma voz horrível.  Parecia de uma velha histérica.   Talvez por isso não tinha conseguido fazer cinema.

Foi chamado pelo patólogo, quando viu o cadáver, entendeu imediatamente, o homem tinha um piru de criança, por isso devia aguentar o outro, talvez aceitasse suas traições por não poder dar o que o outro também necessitava.

O policial que tinha revistado o quarto encontrou, estava ali numa maleta, objetos sexuais, que deviam usar durante o relacionamento sexual.

Voltou a delegacia, o amante, disse que ele só tinha ajudado nada mais, quem tinha matado o fotografo, tinha sido o ator.  Afinal tinha uma reputação a zelar.

Acabou confessando o que ele suspeitava, sim que tinha amantes, pois o seu companheiro não era capaz de satisfazê-lo, que pensavam em se casar, mas que ele vinha adiando sempre o compromisso.     Que o ator era seu amante a muito tempo, tinha prometido ao outro, que não iam mais se encontrar, por isso este tinha ficado furioso.

O ator ao ser confrontado com tudo, negou o assassinato, disse que tinha sido o outro.  Justo estavam no interrogatório, quando o policial que ele tinha mandado vistoriar as lixeiras, avisou que tinha encontrado a arma do crime.   A escultura de um Oscar, que o mesmo tinha ganhado pelas fotografias de um filme.

O caso resolvido foi um escândalo, os dois condenados a prisão, ficaram os dois num jogo de empurra, até que quando o empregado disse que ele tinha outros amantes, o ator, contou outra versão.

De qualquer maneira as manchetes dos jornais, fizeram muito propaganda em cima dos inspetores.   Mas ele tirou o corpo fora, quem deu as entrevistas foi seu chefe.

Os outros inspetores, passaram a respeitá-lo, bem como pedir auxílio de vez em quando.

Como tinha anotado tudo a respeito do crime, conseguiu conversar com o amante, relatando sua vida antes, durante até o crime.  O mesmo fez com o ator, acabou escrevendo um livro na surdina, mostrou para o inspetor, que gostou muito.   A anos atrás tinha salvado de um sequestro, o filho de um produtor, mandou o texto para ele dar uma olhada, ver se valia a pena, pensar num filme.

Este telefonou em seguida, dizendo que estava interessado em comprar seus direitos autorais.

O melhor que fazes, contrata um advogado para isso.   Esses contratos são sempre enganosos.

Ao mesmo tempo ele tinha mandado o texto para uma editora, que estava interessada.

Com todo esse dinheiro, comprou uma casa, nas encostas, com vista privilegiada da cidade, mas tudo era simples, ele não tinha luxos, enquanto os outros se esmeravam em usar trajes caros, ele apesar de não ter família, pensava no dia de amanhã.

Como dizia sempre para seu namorado, quem saiu da merda, tem que tomar cuidado, pois pode voltar a ela.

O namorado, tinha um certo ciúme do seu sucesso, agora se encontravam menos, um belo dia, pelo celular, anunciou que tinha sido convidado para a escola de Quantico, que partia no dia seguinte.   Ia viver sua vida.    Ficou desolado, não sabia dizer se o amava, ou se tinha se acomodado na situação, de não ter que procurar aventuras por baixo do pano.

Sair do armário, sempre era um problema.    Teve mais dois casos, complicados, como sempre escrevia tudo, a respeito, um deles teve tamanha repercussão mediática, que se viu de repente cercado de jornalista, a cada lugar que ia.   Descobriu depois que alguém vinha dando informações a respeito do caso, os passos que ele podia dar.

Era um dos muitos colegas invejosos de seu talento para resolver os casos.   Combinou com seu chefe que só se reportaria a ele, assim não teriam vazamentos.

O caso era complicadíssimo, pois implicava políticos, gente de cinema, da alta sociedade, novos ricos.    Acabou destapando uma rede de sequestro, abusos sexuais, posteriormente morte de uma série de adolescentes, todas pensando em fazer carreira cinematográfica.

Incluía inclusive uma madame que fornecia as jovens para essas festas, em que rolavam drogas, mas na verdade quem cometia o crime final, era um homem que trabalhava para um deles, cujo trabalho era devolvê-las a madame.

Quando acabou de escrever a história, muitos produtores estavam interessados, para fazer um filme.    Ele esperou primeiro lançar o livro, que foi um sucesso, assim poderia pedir mais pelo texto para o cinema.

O queriam contratar para acompanhar a filmagem, mas se negou, dizia que depois de ter vendido o livro, bem como o roteiro de cinema, era como um filho que se coloca no mundo esperando que cresça, siga adiante.

O seguinte caso, chamou depois de Perfume.   Quando entrou no lugar do crime, a casa de um perfumista, havia um cheiro no ar.   Era diferente, prestou atenção nos detalhes da cena, tinha a sensação de que o homem teria atirado o frasco com a essência no chão de proposito, para que não pudessem roubar a ideia.   Era um homem alto, forte, deve ter lutado, pois se via que na luta, muitas coisas tinham caído no chão.      Mandou examinar embaixo das unhas, tinham lhe esfaqueado várias vezes.   O legista achava que a primeira tinha sido nas costas, que então ele tinha se virado, deve ter reconhecido a pessoa, pois o perfume caiu ao chão, ele começou a imaginar a cena.   Prestou atenção na sequência que podia ter acontecido.

Pode ter sido uma mulher, pois as duas primeiras facadas não foram muito profundas, se via que tinha queimado alguma coisa num cinzeiro grande.   Talvez a fórmula, pois se notava sangue na peça de vidro.   Ele tinha tido tempo de se defender, bem como proteger sua fórmula.

Quando a empregada, uma senhora de idade Mexicana chegou, ficou aos prantos, disse que tinha despedido dias antes sua ajudante, pois achava que ela estava copiando os experimentos dele.   Que ali faltava seu laptop, este estava sempre em cima da mesa.   Creio que o senhor usava um código próprio para escrever, pois a última discussão dos dois foi sobre isso.

Foram até a casa da ajudante, a pegaram com a mão na massa, tentava decifrar a maneira como ele escrevia, viu as unhas dela, tinha a sensação, que estava sujas.

Mandou o legista analisar se tinha alguma coisa embaixo da unha.

No interrogatório, ela disse que o tinha encontrado morto, que tinha recolhido o laptop, para saber se estava ali a lista de produtos do seu último perfume.

Por enquanto era a única suspeita.   Alegou que apesar de a ter despedido, eram próximos um do outro, que trabalhava com ele a anos.

Que agora estava trabalhando num perfume para uma marca italiana.

Poderia a ter incriminado simplesmente por isso.  Mas algo lhe dizia que nada era tão simples assim.  Mandou examinar o laptop do assassinado.

Descobriram que não estava no seu melhor momento, que estava desenvolvendo perfumes para cadeias de boutiques, pois o seu auge com as grandes marcas tinha passado.  Que além de estar devendo muito dinheiro pelo trem de vida de levava, com gastos altíssimos, estava sem caixa.

Esse novo perfume seria sua ressureição.

A ajudante confirmou que as duas primeiras facadas tinham sido dela, mas que as outras não, quando sai, ele estava vivo, só levei o laptop.  Discutimos, pois na verdade, algumas coisas do perfume novo, tinha sido sugestão minha, mas como sempre ele iria levar a glória sozinho.  Sempre fazia isso com todos os ajudantes.   Fiquei furiosa, pois não me escutava.

Mas claro, ele tinha misturado algumas outras coisas, como marca própria, coisas que nunca contava a ninguém, que estavam sempre em seu laptop.

Enquanto discutíamos depois das duas facadas, ele queimou a fórmula que estava escrevendo, dizendo que tudo estava em sua cabeça.   Sua origem é árabe, por isso creio que está escrito em árabe ou farsi.

Mas fora, ele tinha muitos inimigos, a quem devia muito dinheiro, principalmente nos cassinos de Las Vegas.  Creio que descobriram que já não estava no seu auge, pois demorava para pagar suas dívidas. 

Mas vocês olharam o sistema de segurança, que tinha fora da casa?

Com muito custo descobriram aonde estava, revisaram a casa pelo menos umas duas vezes, estava num armário com fundo falso.  Uma pequena saleta, que tinha cofres, além do sistema de vigilância.     Se via a assistente entrando, depois saindo com o laptop, o horário confirmava que ainda estava vivo.    Depois um carro chegando, descendo dois homens, chineses de algum cassino de Las Vegas.  Saiam discutindo, falando alto.   Mandou a gravação para um intérprete.

Quando escutaram, eles estavam surpresos com a reação do homem, pois os tinha atacado, dizendo que já não havia nada para roubar.

Mandou os retratos dos dois homens para Las Vegas, bem como o nome do cassino que costumava frequentar.

O negócio era mais complicado, tinha prometido desenvolver um perfume para uma empresa chinesa que a lançaria no mercado internacional, mas não tinha cumprido o trato, se dedicando a fazer o perfume de sua vida.     Os atacantes já não estavam mais em território americano, bem como o que tinha dado a ordem.

De qualquer maneira a secretária foi acusada de agressão. Cumpriria condena muito tempo.

Era um caso de muitas voltas.   Desta vez escreveu a história, mas sem poder levá-la adiante, havia uma queixa de seus colegas que usava dados dos crimes que resolvia para ganhar dinheiro. 

A editora, lhe cobrava que escrevesse mais histórias, usou sua imaginação, criando um detective que em nada se aparecia a ele.  Pura obra de ficção, tirada de crimes publicados nos jornais.

Não lhe puderam acusar de nada, inclusive um, que o crime tinha acontecido em Miami, ao conversar com os colegas, pois o caso estava parado. Perguntou se precisavam de ajuda, ele ia sair de férias.   Foi até lá ajudou a resolver o crime.

O livro foi um sucesso, uma produtora, lhe perguntou se queria escrever os roteiros de uma série, baseada em seu personagem.   Conversou muito com seu mentor, este disse que devia acertar, pois o trabalho deles era incerto, bem como a pensão por aposentadoria, irrisória.

Justamente nesse momento, foi ferido perseguindo um bandido, lhe destroçou o ombro já não poderia atirar com esse braço.  Ficou os primeiros meses chateado, sem poder trabalhar, resolveu então aceitar, fez um curso, para aprender a escrever os roteiros ele mesmo.

Se destacava entre os alunos pela sua imaginação.  Se dedicava de corpo e alma a escrever, pois sua vida amorosa era sempre um desastre.    Nunca durava muito tempo com ninguém.

O único que o tinha visitado no hospital, foi o seu amigo inspetor, esse disse que se aposentava, iria viver um tempo na Itália, aonde costumava passar suas férias.  Um dia lhe levou a sua casa, uma caixa cheia de blocos de anotações dos crimes que tinha investigado, era como ele detalhista.   Não tenho o dom de escrever, mas tu sim, aproveita.

Para a série, aproveitou, criou um companheiro para seu personagem, o amigo inspetor, eram duas pessoas muito diferentes uma da outra, quando trabalhavam juntos, estava sempre discutindo os detalhes.   O primeiro livro bem como o roteiro, lhe mandou para Itália.  O velho telefonou, rindo, dizendo que tinha se divertido com a história, era como ver em sua mente os dois discutindo os casos.

Comprou uma casa com seu dinheiro em Malibu, de frente para o mar, quando o inspetor voltou, o convidou para ficar lá.  Havia espaço suficiente para os dois.   Começaram a escrever os dois juntos.   Um caso do jornal lhes chamou atenção, resolveram investigar por conta própria, acabaram eles descobrindo o culpado, pois a polícia acusava outra pessoa.

Algumas pessoas os procuravam agora para investigar algum caso.

Se entendiam tanto, que pareciam mais um casal de amantes.  Um dia discutindo isso, pois comentavam que entre eles existia algo.   O velho inspetor disse que sempre o tinha querido, mas tinha medo, não tinha experiência além dele ser mais jovem. 

Foi um relacionamento produtivo em todos os sentidos, se entendiam de maravilha no que faziam, embora John tivesse medo de mais uma vez por azar perder quem amava. O outro dizia que isso era besteira, que o dia que tivesse que morrer, era porque tinha chegado sua hora, nada mais certo, como um mais um são dois.

Mesmo assim viveram muitos anos, chegaram a ganhar um Oscar por um roteiro, de um filme que nunca pensaram que chegaria tão longe.

Quando John morreu, antes do homem que amava, que era mais velho que ele, na cerimônia o velho inspetor mencionou, tinha tanto medo de me perder, quem perdeu fui eu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 1 de febrero de 2021

LETRA E MÚSICA

 LETRA E MÚSICA


Tinha plena consciência do que tinha se metido, estava outra vez em reabilitação, por consumo de álcool.    Há anos tentava se livrar disso, mas sempre encontrava um motivo para ter uma recaída.    A primeira vez que tomou um porre, foi para se vingar de seu pai, tomou do meu melhor whisky uma garrafa inteira, que tinha acabado de ganhar, levou uma surra de fazer gosto, a partir disso, quando tinha problemas era o que fazia.

Era o último filho de uns 15, sua mãe parecia uma velha, perto de seu pai, como dizia Maria José, ou José, basicamente tinha tido um filho ao ano, quando ele nasceu, normalmente tinha o parto em casa, mas foi complicado, José chamou uma ambulância a levou para o hospital, ela pediu ao médico se podia fazer com que não tivesse mais filhos, ele achou uma besteira, mas ela disse que tinha 15 filhos, que não aguentava mais.   Como o teve de cesárea, o médico aproveitou para lacrar o ovários, assim não teria mais filhos.

Seu pai quando soube ficou uma fera.  Era metido a intelectual, professor de história na universidade, tinha boa pinta, vivia cortejando as alunas.

Ela sabia disso, mas se vingou direitinho, passou a dormir num quarto só dela, mandou trocar a fechadura, se fechava por dentro.   Ele ficava uma fera.   Talvez por isso quando morreu, apareceu uns quantos filhos atrás da herança.

Vivíamos num imenso casarão, na rua Cosme Velho, um dos poucos que aguentaram em pé, sem se transformar em condômino.   Minha mãe, viveu até aos meus 10 anos de idade, quando foram abrir seu testamento, dizia que só podia fazer isso, quando eu tivesse 21 anos, antes disso nada.   Começou um tempo de penúria, levei muito tempo para entender por quê?

O velho teve que se adequar a levar uma vida mais simples, reclamava dizendo que seu salário ia  todo para alimentar tantas bocas.   Ai já sabia que quem tinha dinheiro era ela, não ele, tentou vender o casarão, mas o advogado disse que ele não podia, eram casados com separações de bens, o pai dela, um português das antigas, nunca gostou do meu pai, então fez com que se casasse com separações de bens.

Houve uma época inclusive que ele teve que começar a vender escondido, alguns livros da sua biblioteca pessoal, muito famosa na época.   Teve que dar aulas em colégios, afinal criar tantos filhos era difícil.   Assim que as coisas melhoraram, me mandou para um colégio interno, pois dizia que eu era o único que não se parecia com ele.   Isso era uma verdade, tinha saído a minha mãe, era mais moreno que os outros, cabelos crespos, olhos verdes como o dela.   Me mandou estudar interno, pois dizia que não podia me olhar.

As festas, natal, ano novo, meu aniversário, passava com a José, que era a única que me procurava, já não trabalhava mais lá, não podia pagar seu salário.   Enquanto eu estava ela aguentou, mas quando fui embora, saiu de lá.

Eu na verdade só sentia falta da minha mãe e dela, pois o resto me maltratava, eu tinha que usar as roupas velhas dos meus irmãos, aliás um ia passando para o outro à medida que crescia.

Já estava na faculdade, sem que meu pai soubesse, tinha entrado com uma bolsa de estudos, pelas minhas excelentes notas, vivia na casa da José, no morro Santa Marta.    Não me importava, ajudava os outros jovens de lá quando tinham dificuldades em aprender.

Comecei a estudar filosofia, queria ser escritor.   Mas claro lá no morro me perdi pela música, ia as rodas de samba, escrevia poesia, depois a transformava em música, o pessoal gostava.

Pela primeira vez tinha gente que gostava de mim.

Um dia, cheguei em casa, um tanto quanto bebido, ela me chamou as falas, se segues assim, serás um bêbado que perdeu seu futuro, num copo.

Quando fiz 21 anos, o advogado nos localizou, disse que tínhamos que ir a leitura do testamento.

Todos caíram do cavalo, inclusive o velho.  Esperavam colocar a mão na mansão e vender.

Tudo era para mim, o único filho que ela tinha amado.  Os outros a ignoravam.  Meu pai tentou impedir, mas o juiz, tinha um na leitura do testamento, porque o advogado pediu.

Disse que nanai, que estava bem escrito, como registrado em cartório, que ele não podia fazer nada, inclusive a conta no banco era minha.

Não podia imaginar o que tinha de dinheiro lá.   O advogado a vinha aplicando todos esses anos.

A primeira ordem que dei, foi uma suave vingança, mandei vender o casarão, todos tiveram que arrumar suas maletas, ou como dizia a José, seus panos de bunda, saírem noite adentro, levando tudo que podiam do recheio da casa.   Não me importei, pois  a muito tempo que as coisas boas o velho tinha vendido.

Verdadeiramente o rifaram, ninguém queria ficar com ele, tantos filhos para nada, dizia a José, acabou indo viver com uma das minhas irmãs mais velha que já era casada.   Vendeu o resto da biblioteca.

Como morreu meses depois, me acusaram de ter sido o culpado de sua morte.  Eu ri na cara deles, tão culpado como vocês que mamaram dele a vida inteira, vão trabalhar seus vagabundos.

Com o dinheiro, comprei um bom apartamento lá pros lados do Posto Seis em Copacabana, era antigo, mas grande, levei a José comigo, afinal era ela a minha família.  Tinha me cuidado, vivia a anos em sua casa, nunca ninguém me procurou.

Era uma vingança bem dada, dizia ela.   Esses sem vergonhas não fizeram nada a vida inteira, agora teriam que se apanhar.  Mudei meu nome, passei a usar o nome do meu avô materno, pois tinha uma foto dos dois, era parecido com ele, Joaquim Andrade, um português respeitado, que tinha feito fortuna, trabalhando como um louco.

Acabei a faculdade, agora participava com os companheiros de encontros musicais, aprendi a tocar violão, assim escrevia as músicas que compunha.   Logo consegui mostrar uma que tinha feito para a Elizeth Cardoso.   Ela gravou, em seguida foi um sucesso, logo consegui outras, assim foi.    Mas sempre, tinha que controlar a bebida, José me controlava o tempo todo, quando morreu, a enterrei ao lado da minha mãe, afinal merecia.

Durante um tempo fiquei em branco, sem saber o que compor, mas dessa dor da segunda perda, fiz uma bela música, um samba canção que na voz de uma das cantoras mais cotadas do momento, estourou nas paradas.   As mulheres se aproximavam de mim, pois sabiam que tinha dinheiro, mas isso não funcionava.  Tinha uma vida intima, restrita, quando queria sexo, procurava numa sauna, ou mesmo num botequim.  Gostava muito de um mulato, ou negro, que no sexo fosse paciente comigo.

Essa parte da minha vida, acabava sempre mal, nunca ficava com ninguém, gostava muito da minha solidão, era perfeita para a vida que levava.      Quem ia aguentar um cara que bebia demais.

Não aparecia em entrevistas, ou mesmo rádios, jornais, revista, vivia no meu mundo, me negava a falar da minha vida, sair em fotografias.

As cantoras normalmente adoravam a minha música, diziam que eu tinha o dom de falar o que elas gostariam de cantar.

Um delas dizia sempre, você entende dos nossos sentimentos como mulher, é como se estivéssemos falando do nosso interior.

Nunca mais nenhum irmão me procurou.   Agora quando era internado, me perguntava pela família, dizia que não tinha.   Na verdade, não podiam me encontrar, pois eu tinha outro nome e sobrenome, que não era como o deles.    Volta e meia sabia de alguma besteira que algum deles tinha feito.   O velho que fez tudo para preservar seu bom nome, agora via tudo ser arrastado na lama.

Nunca estendi a mão para nenhum deles.

Estava no hospital para exames, sabia que o problema era o álcool, mas era meu balsamo, quando os psicólogos perguntavam era o que eu dizia.

Um enfermeiro, muito parecido comigo, me levou para os exames.   Ria dizendo que éramos parecidos.   Imagina que na minha casa, me chamam de intruso, pois ao parecer, sai a minha avó e a um tio que não conheço.    Perguntei seu nome, ele era filho de um dos meus irmãos.

Meu pai, vive do conto, assim que nasci, minha mãe deu no pé, disse que como nunca tinham se casado, não devia nada a ele.    Falava muito de um passado que viviam numa boa, mas que tinham perdido tudo, pelo destino.  

Queria estudar medicina, mas não pude, mas adoro o que faço, estou juntando dinheiro, um dia poderei passar para medicina.   Prática não me falta.

Os exames não foram bem, teria que me operar, deixar de beber, levar uma vida melhor.

Na operação me tiraram um dos rins, o baço, outras merdas que já estavam estragadas.  Teria que agora ter um enfermeiro para me cuidar.    Perguntei ao rapaz se não queria juntar mais dinheiro, me cuidando nas suas horas vagas.    Posso cuidar do senhor pelas noites, de dia trabalho aqui, conheço uma garota que pode cuidar do senhor durante o dia, eu ficaria com o turno da noite, isso é consigo.

Gostei da garota que ele me apresentou, trabalhava somente quando a contratavam para substituir alguém.   Era muito divertida, quando fui para casa, ela foi junto, me fazia comida, me controlava bem, Jair, chegava no final do seu turno, já vinha de banho tomado do hospital, o fazia sentar-se para jantar comigo.  Era muito divertido, depois nos sentávamos na varanda que dava para o Mar, ficávamos ali, tocando violão, compondo alguma música juntos.

Fizemos uma que foi um sucesso.   Lhe disse que ia contatar com alguém, assim avisei uma das minhas cantoras, que tinha uma música própria para ela.   Escutou, depois cantou comigo várias vezes, arrumei a letra para ela, como sempre fazia.

Quando recebi o pagamento pela música, por ter sido publicada, entreguei tudo a ele, para pensar em pagar a matrícula.   Ficou como um louco.    Agora ia a faculdade de manhã, mas de noite estava lá em casa, acabou sendo um filho para mim.

Uma vez me perguntou pela minha família, se eu não tinha nenhuma.   Contei a minha história, o quanto tinham me tratado mal, por ser o único parecido com minha mãe, os anos todos que passei num internato, porque não lhes interessava nada.   Nunca entendi por que, nem meu pai me queria.

Acabei sendo criado por uma empregada, que foi minha segunda mãe, quando eles pensavam que iam colocar a mão na mansão, se deram mal, pois era para mim. Creio que se minha mãe tivesse deixado para eles, me mandariam a merda, para ficar com tudo.

Foi tudo ao contrário, quando morreu o velho, ainda aparecerem uns quantos filhos que tinha por fora.   Viveram na boa vida muitos anos, o velho não os preparou para enfrentarem a vida, agora nem quero saber deles tampouco.

Tu eres o único que me tratou bem, já somos parceiro numa música.

Ah seu meu pai soubesse, nunca ajudou minha mãe em nada, ao contrário, era capaz de aparecer para pedir dinheiro emprestado.   Ela deu um duro danado, trabalhando como uma louca para que eu pudesse pelo menos fazer uma faculdade.   A que ela não tinha feito, mas morreu jovem, minha avó acabou de me criar.

Quando ele se formou, já estava muito melhor, saia com os velhos amigos, riam porque eu tomava um guaraná, ou coca cola, beber jamais.

Voltei a compor, as minhas cantoras agora diziam que minhas músicas tinham perdido a dor, agora tinham mais alegria.

Não me importavam, pois gravavam a mesma, sempre faziam sucesso, eram dinheiro a mais.

Mas claro o tempo passa rápido demais, uma noite despertei com umas dores tremendas, chamei o Jair, que veio correndo, me examinou, chamou uma ambulância, fomos para a clínica aonde ele antes tinha sido enfermeiro, agora era médico.   Depois de muitos exames, disseram que eu precisava de um transplante de rins, teria que fazer hemodiálise, senão a coisa ficava feita.     

Ele quando entrou no quarto, meu viu muito sério, me provocou, dizendo que pela cara ia sair um samba canção, o fiz sentar-se.    Olha meu filho, eu te quero como se fosse isso mesmo, eu estou com 75 anos, se por ter dinheiro consigo uns rins, que lucro?   Nada, teria mais tempo para viver uma vida chata, cheia de cuidados.   Você se lembra quando foi trabalhar para mim, a merda de vida que eu tinha, minha única alegria era quando vinhas de noite, que tocávamos violão, conversávamos.

Não quero fazer hemodiálise, tampouco um transplante, não me interessa, a culpa disso é toda minha, tirarei direito a alguém mais jovem, que tenha uma família, que precisa disso para seguir em frente.

Tentou me convencer, depois veio o médico dos transplantes, este sim acabou concordando comigo, que teria uma vida limitada pela minha idade.

Preparei tudo a consciência, disse ao advogado, que agora era um velho, que veio com seu filho, queria que ele procurasse entre os descendentes de meus irmãos, algum que valesse a pena investir.   Deixava uma grande parte para o Jair, mas queria saber se algum deles tinha chegado a algum lugar.    Fizeram uma verdadeira sindicância.  Só encontraram duas garotas de pais diferentes, que eram professoras, essas deixei uma parte.

Estava vivendo a base de morfina, com um oxigênio ligado a mim 24 horas do dia.   Mas podia ir em paz, tinha feito uma coisa que amava, música, mas letra e música, ainda disse ao Jair, a maioria das pessoas nem sabem quem eu sou, só me conhecem pelas minha músicas, isso se um apresentador diga algo, a maioria não diz. 

Soube que um amigo, com quem participava das rodas de samba, tinha montado uma escola, retirei o dinheiro que tinha que receber de várias músicas, o Jair fez contato com ele, lhe entreguei esse dinheiro para comprar instrumentos para sua escola.   Foi único, me disse que agradecia, esses meninos precisam de um lugar seguro para aprender alguma coisa, de uns dois ou três seguirem em frente já fico contente.

Um dia, senti, era o momento, via ali ao pés da cama, a José, bem como minha mãe, estendi os braços, fui com elas.

  

 



 




lunes, 25 de enero de 2021

GET AROUND - DAR A VOLTA POR CIMA

 

                                                        GET AROUND

                                             DAR A VOLTA POR CIMA

 

Estava furioso, mas não sem razão, as coisas no último mês, tinham saído do seu controle, tudo tinha ido para a casa do caralho, como ele dizia.

Voltava de uma viagem ao Canadá, aonde tinha ido atender um cliente, era arquiteto, decorador, tudo que fizesse falta, apesar de viver em Londres era americano, já vivia e trabalhava no Reino Unido, para mais de dez anos.   Os mesmo dez anos que vivia junto com um jornalista que tinha conhecido nada mais ao chegar, durante seu primeiro trabalho.  Afinal ele o tinha lançado no mercado por causa de uma reportagem.

Era o querido dos novos ricos, que compravam mansões velhas para restaurar, queriam era aparentar, ele era experto em saber restaurar essas casas as transformando no mais moderno possível, além de aproveitar os moveis antigos, misturando com os modernos, os mais caros do mercado.   Sempre que induzia um cliente a comprar alguma coisa, recebia claro dinheiro por fora.

Tinha ido justamente finalizar um trabalho.   Um inglês que tinha emigrado para o Canadá, com uma mão na frente, outra atrás, tinha comprado uma mansão, mas ao ver um trabalho seu, o contratou.    Fez o projeto, foi ao Canadá várias vezes, separou todos os moveis antigos da casa, os mandou restaurar, os transformando em algo moderno, visitou as lojas de lá para saber negociar as compras.   Todo mundo o conhecia das revistas de decoração que chegavam lá.

Foi relativamente fácil, tinha agora contrato para mais duas.  Mas claro nunca nada é cem por cento perfeito.

Mal desembarcou, o levaram a parte, dizendo que seu namorado Boris Smith, tinha um problema que por conviverem tinha que fazer uns testes.  Não se preocupe com a sua bagagem, nesse momento um agente a está recolhendo a levará para sua casa.

Pelo visto Boris estava infectado com algum vírus, não sabiam, se tinha ido para Bielorrússia com o vírus ou se tinha contraído lá.   O levaram para o hospital, viu de passagem, Boris como numa bolha, um quarto especial, para pacientes com vírus estranhos.   Seu fotografo também o tem, mas em grau menor.  O senhor Boris está em coma induzido.

O fizeram fazer todos os tipos de exames, ao final o levaram para uma sala, aonde estavam dois médicos, ainda com humor brincou, um me dará uma boa notícia, o outro vai me ferrar, é isso?

Realmente pode ser isso, o senhor não tem o menor indício do vírus, portanto contraiu lá, mas passo a palavra ao meu companheiro um oncologo.

Nos exames, descobrimos que o senhor tem um tumor no pulmão, o quanto antes opere será melhor, pois é um dos tipos raros, teremos que extirpar metade de seu pulmão, além de quimioterapia, radio, o que faça falta.

Ele entrou nessa roda viva, lhe operaram em seguida, cancelou os contratos que tinha, explicando a razão.   O médico lhe disse o senhor é jovem, forte, esportista, o que era uma meia verdade, as pessoas o olhavam para seu físico, pensavam que passava o dia inteiro em algum ginásio fazendo fitness.    Odiava fazer exercícios, o tinha pela sua juventude trabalhando duro para chegar ao final do mês.

Como Boris estava em coma, resolveu que se operaria ali mesmo.   Antes da operação ficou sabendo da verdade, que já desconfiava.   O pobre fotografo, era sua primeira experiencia numa reportagem desse calado.   Mas claro Boris o tinha escolhido porque era jovem, bonito, além de fazer seu tipo.   Filho da puta pensou, desde que tinha começado com uma conversa de terem uma relação aberta, já desconfiava, mesmo antes, sabia que nas viagens que fazia, sempre pintava uma certa aventura.

Por isso, sempre se protegeu, usando camisinha, o outro reclamava, mas não abria mão, depois de ter visto na sua juventude a quantidade de gente morrer de AIDS, não fazia concessões. 

Boris dizia que a sensação não era a mesma, queria sentir seu imenso aparelho dentro dele, vibrando.   Sempre era exagerado em tudo.

O rapaz contou que os tinham separado, tinha colocado Boris dentro de um containers de transportar produtos, ele em outro.   Morri de medo, mas fiquei quieto, não sabia direito o que tínhamos ido fazer, tampouco de que ia a reportagem.   Fazia apenas um mês que estava no jornal.   Como ele era famosos, pensei que lançaria minha carreira.

Quando esteve a sós com o rapaz, perguntou se tinha acontecido algum relacionamento sexual com Boris.   

Tentar ele tentou, mas não sou gay, inclusive me ameaçou que seria minha última reportagem, creio que afinal foi ele quem criou essa confusão toda.

Ficou com pena do rapaz, com um ódio mortal do Boris.

Estava já na última seção de quimioterapia, totalmente calvo, tinha perdido todo seu cabelo, que diziam que era um dos seus charmes, largos, loiro, que casavam muito bem com a estampa que projetava.

No meio do corredor, se encontrou com o agente com quem tinha falado todo esse tempo, vinha lhe dar a notícia que Boris, tinha falecido, sem voltar do coma.  Se ele queria ir vê-lo, disse que não, acabo de sair de uma seção de quimioterapia, melhor não, lhe deu o nome do advogado do Boris, ele com certeza providenciara tudo.   Não tempo cabeça para isso, nem me sinto bem.

Quando entrou no seu quarto no hospital, levou um susto, ali estava parado, um homem alto como ele, de costa, com um roupão do hospital, com a cabeça coberta, quando este se voltou, viu que o mesmo chorava.  Foi até ele o abraçou, sinto muito pelo Boris, era um grande amigo meu.  Ficaram os dois ali abraçados, um com a cabeça no ombro do outro.

Era seu antigo fotografo, não fui nessa viagem, porque me descobriram um câncer, muito complicado, pois me atingia em dois lugares, acabo de fazer a segunda operação.

Esse filho da puta, levou esse garoto, com certeza para ter uma aventura, me desculpa falar assim, mas eu tive uma aventura com ele quando começamos a trabalhar junto.  Nas viagens ele queria sempre aproveitar.   Dizia que em casa, contigo, tudo era normal, que te amava, mas ele queria sexo duro.    Se metia em muitas confusões, lhe disse que um dia acabaria mal.

Sinto muito, mas acredito que necessitavas saber.

Soltou, um americano, arquiteto, decorador, com uma excelente aparência, para aparecer em sociedade, mas por detrás era um filho da puta de muito cuidado.  Se sentaram os dois, ele comentou a história da camisinha, nunca confiei nele totalmente, por isso me negava a viver na mesma casa, queria ter a minha, caso acontecesse algo.  Mas era ele quem não saia da minha.

No último dia antes de viajar, começou com uma conversa estranha, mas eu estava mais preocupado com meu projeto, nem lhe escutei.

A única coisa boa, foi que no meio dessa confusão descobrir que tinha esse câncer, mas adiante seria impossível me curar.

Ficaram de se ver, lhe caia bem, estavam os dois carecas, mas eram atraentes.

Quando saiu do hospital, foi a cerimônia que o advogado dele tinha montado, mas se negou a falar nada.   Vens a leitura do testamento?

Por que faço parte dele?

Sim uma parte sim.

Foi para sua casa, retirou todas as roupas do Boris de lá, deu para um mendigo que vivia ali na esquina.  Não queria nada dele mais por lá.

O pior veio na semana seguinte, as pessoas sabiam o que tinha acontecido com o Boris, portanto assimilava que como ele tinha estado tanto tempo no hospital, era que tinha a mesma coisa.

Telefonava para os conhecidos, todos tinham desculpas para não se encontrarem, na verdade eram mais amigos do Boris que dele.

Tampouco apareceu nenhum contrato, ou pessoa o procurando, quando falou com os clientes que tinha atrasado o trabalho, tiraram o corpo fora, como se ele tivesse um vírus também.

Sentou-se no seu pequeno salão, pensou, creio que está na hora de voltar para casa.   Tinha um pequeno apartamento no Soho, que um amigo alugava a anos para turistas.  Lhe disse que estava voltando, que mandasse pintar o mesmo, já veria o que fazer quando chegasse.

Avisou seu caseiro, que deixaria o apartamento, antes iria contratar uma empresa para mandar suas coisas para NYC.   Nesses anos, tinha encontrado muitas peças interessante, faziam parte da sala que atendia os clientes.

Foi a leitura do testamento, ficou surpreso, deixava tudo para ele, o apartamento, que ele pensava que era alugado, bem como dinheiro.  Não tinha ninguém mais na leitura, para uma pessoa que tinha milhões de amigos, só ele era o que recebia algo.   Mas nenhuma carta, nada.

Nem pensou muito, mandou que o advogado vende-se a casa, com tudo que estava dentro, afinal se tinha nesses anos todos, ido umas 10 vezes lá era muito, comentou isso como Advogado, era ele que sempre estava na minha casa.

Foi com o advogado transferir o dinheiro para sua conta, bem como este mandou preparar uma procuração para vender a casa.

Depois que a transportadora embalou tudo, levando para dois containers, nunca tinha pensado que tinha tanta coisa.  Se a venda da casa fosse boa, poderia comprar um apartamento melhor para ele.

Se sentiu um filho da puta, pensando nisso, mas fazer o que, tinha que recomeçar sua vida.

Ficou uns dias num hotel, antes de ir embora o advogado lhe chamou, pois tinha vendido a casa, muito bem vendida afinal.  Os novos donos o queria contratar, mas disse que tinha compromissos em NYC, que não podia aceitar.

Depois do dinheiro no banco, combinou de com o gerente, como fazia para transferir.  Antes de ir embora, direto para NYC, foi ao Luxemburgo, muitos clientes lhe pagavam por lá, tinha uma bela soma, dinheiro ganho pelo seu trabalho.   Poderei escolher agora os clientes.

Passou por Paris, para ir ao Marche de Saint-Quen, aonde comprava muito, passou uns dias visitando todos os antiquários, que conhecia, separando peças, tinha uma ideia na cabeça, iria colocar em execução.   Quando via algum casal de namorados procurando algo, se lembrava do Boris, sentia em sua boca, um sorriso amargo.  Tinham feito muito isso, andarem por ali, procurando coisas.     Mesmo assim, visitou uns quantos com esculturas que adorava, bem como máscaras africanas.   Comprou muita coisa, contratou uma empresa que sempre fazia isso para ele, mas quando escutaram falar em NYC, riram, deixaste de explorar os ingleses.   O homem tinha muito senso de humor, era um português, que tinha emigrado para lá jovem.   Vais enganar em outra freguesia.   Nesse dia foi almoçar com esse homem, lhe caia bem, tinha quase 65 anos, não pensava em se aposentar, meus filhos, foram a universidade, cada um tem sua vida, ninguém vai levar isso em frente, meus empregados, precisam de mim.

Quando o último se aposentar, vou pensar no assunto.  Se despediram, se depois vieres, me procure, lhe deu seu número particular.

Finalmente foi para NYC, seu velho apartamento lhe pareceu uma merda, era realmente mais para turista.   Imediatamente começou a procurar o que tinha ideia na cabeça.  Falou com imobiliárias, a zona que queira, Madison Ave, Park Ave, Lexington Ave, mas acabou achando mesmo na 2and Ave.    Uma bela loja, que já tinha sido de antiguidades, além de um apartamento em cima.  Comprou o apartamento, a loja alugou do mesmo proprietário, com a possibilidade de comprar mais à frente.   Contratou gente, seu amigo que alugava o apartamento para ele, conhecia muita gente, lhe indicou um grupo de poloneses, que faziam trabalho de restauro.   Foi ver dois trabalhos deles, conversou com o chefe, se trabalhas bem, depois os contratarei para outros trabalhos com clientes.   Mas aviso, sou exigente demais.

Sei quem é o senhor, me mostraram muitas vezes trabalhos que saíram em revista, queriam igual.   Venha comigo, telefonou a uma pessoa, o levou para ver o apartamento, era um projeto dele, para uns ingleses.   O apartamento era exatamente igual ao seu projeto, pediu licença a dona examinou tudo, anotou em um livrinho que levava, depois falou do o Paul Kina, veja, encontrei esses dois defeitos, isso eu nunca admito.

Ele riu, fiquei esperando isso, coisas que os que nos contratam não querem gastar dinheiro.

Foi com ele ao local, ali mesmo começaram a trabalhar, ia anotando tudo que queria, era muito trabalho, desde tirar duas paredes do apartamento, bem como raspar todo chão de madeira, substituir tabuas do assoalho, por outras iguais.

Na loja, mandou limpar tudo, deixar um espaço totalmente diáfano, só não iriam retirar nenhuma coluna. 

O advogado, bem como ele resolveriam todo os papeis de licença.   Quando tiveram visto bom, começaram a obra.  Eram todos parentes, pois se pareciam muito uns com os outros.

Na segunda vez que foi, pois Paul queria que visse algo que tinha descoberto, uma escada que dava a um porão, que não aparecia no projeto, quando conseguiram abrir a porta, encontraram um cadáver ali.

A polícia apareceu, Paul ainda tinha dito que era melhor ficar quieto.  Isso atrasaria a Obra.

Olha, Paul, nem sei quem é, mas merece nosso respeito.  Depois que a polícia levou tudo, puderam quase quinze dias depois limpar tudo.  Por sorte não tinha cheiro.

O policial voltou umas duas vezes, ficaram na dúvida, a escada que levava ao porão vinha do apartamento de cima, também dava para a loja.    O proprietário, nem sabia da existência, tinha herdado do seu tio o local, bem como o apartamento.   Era um homem complicado, quando meu pai morreu, me meteu num internato, que só sai para ir à universidade.

Era casado com uma mulher linda, quando voltei aqui, segundo ele ela tinha morrido, não tinham filhos, portanto pode ser ela.   O mistério levaria muito tempo para resolver.

O melhor agora era que tinha um porão para guardar as mercadorias.

Apressou o Paul, pois em breve estaria chegando os containers de Londres, bem como os de Paris.

Ele lhe perguntou se não ia precisar de uma pessoa para trabalhar com ele, tinha um filho, que não vivia com ele, mas que estudava artes. Quem sabe.

Quando viu o rapaz, era uma cópia do Paul, mais jovem.  Riu, pensou, mas prefiro o pai.

Soltou isso na cara do Paul.  Esse riu, eu também escolheria o senhor.  Mas uma aventura entre nós estragaria o negócio.

Quando o container de Londres chegou, um deles era os moveis de seu apartamento, com os homens do Paul, foi colocando tudo no lugar.  Algumas vezes dava uma ordem, mas não lhe entendiam.   Paul resolveu tudo, vou trazer um rapaz que trabalha comigo em outro projeto, quando viu o rapaz, ficou de boca aberta.  Era um homem espetacular.

Se entenderam ao primeiro momento, Joseph Grain, contou que tinha estudado dois anos de arquitetura em Lodz, mas que por necessidade tinha emigrado.

Ele lhe dizia como queria os quadros, ele explicava aos homens, um deles tinha tentado colocar de cabeça para baixo um quadro.   Joseph soltou que ele tinha um bom gosto incrível.

Pois é Joseph, aprendi trabalhando, não queres trabalhar para mim, se esses homens vão trabalhar nos meus projetos, eu vou precisar de alguém que entenda o que quero, possa explicar melhor.

Falo com o Paul, sei uma maneira de falar com ele.

Paul ria, encontraste um substituto para mim.   Sim é uma pessoa que pode ser o elo entre nós nesse trabalho, pois nem sempre posso estar em todos os lugares.  Cuidado, não corra atrás dele, espere para ter alguma coisa.

Quando a obra ficou toda pronta, justo dois dias depois chegaram os containers de Paris, Joseph o ajudava a guardar, separar tudo no porão, separando o que iria imediatamente para a loja, tinha feito uma espécie de escritório que encaixava no resto.

Montou a loja como se fosse uma casa, tinha moveis suficiente para isso, nada de parecer uma loja que quinquilharia, mas sim de projetos, decoração.  Fez a inauguração convidando antigos clientes, amigos, além de amigos de amigos.  Fez um contato com uma revista de decoração a mesma em saia em Londres, logo fizeram uma reportagem com a loja, bem como seu apartamento.

Sentou-se com Joseph, lhe disse, sinto falar isso, mas tens que te vestir melhor, vou te ensinar, pois vamos viver de aparências.   Outra sugestão, é que voltes a estudar aqui, eu te ajudo, assim podes discutir projetos comigo, uma coisa que sempre é bom duas cabeças pensando.

Em breve saíram dois projetos, um era uma casa de praia em Los Hamptons, um milionário a tinha comprado para sua nova esposa.    Foi ver a casa numa manhã com Paul e Joseph, discutiram examinando tudo, a escadaria, estava mal, todos os quartos precisavam de reforma, os banheiros nem se fala, imaginaram uma cozinha moderna no lugar.

Teriam que contratar uma secretária para quando se ausentassem.   Na volta quando pararam para um café.  Paul disse, rapaz tenho que tirar o chapéu par ti, estas transformando o Joseph em tudo que ele sonhou. 

Riu dizendo, creio que ganhei um filho, não um amante, para isso prefiro você.

Um dia saíram os dois para jantar, Paul apareceu bem vestido, mas de maneira simples, contou que tinha se divorciado nada, mas ao chegar a América, sua mulher o largou por um americano rico, era muito bonita, me levou o garoto com ela.  Não vou dizer que não tive aventuras, algumas, mas com homens poucas, mas desde que te vi, não te tiro da minha cabeça. 

Ele também contou o que tinha acontecido com ele, de uma maneira ele me ajudou, mas foi um bom filho da puta.   Contou a história da camisinha, tinha visto tanta merda na vida, que nunca me atrevi a fazer de outra maneira.  Ele descobri depois gostava de sexo duro, isso eu não lhe dava.

Acabaram essa noite os dois na cama, foi o que ele tinha imaginado, gostava da sensação de estar com outro homem, não com uma pessoa frágil.   De manhã, como era um domingo, ainda disse ao Paul, não vais te fazer agora, eu bebi muito ontem, não sei de nada.

Venha aqui seu sem vergonha, tinham explorado seus corpos até a exaustão, mas sem penetrações.  Sem querer quando viu, Paul buscava camisinhas, porra ele vai me penetrar pensou, mas foi ao contrário a colocou nele, o deixou lhe penetrar, era impressionante o que sentia.   Depois com uma voz rouca disse um dia desses tens que me deixar fazer o mesmo.

Passaram o dia juntos, Paul lhe comentou que tinha uma casa que lhe tinham chamado para olhar, em que a dona queria se desfazer de todos os moveis de sua sogra, alguns podem ser restaurados.

Rindo disse, terias que encontrar um pessoal, que seja bom, eu posso ensinar, montarmos uma oficina de restauro, inclusive para os próximos clientes.   O trabalho foi em crescendo, Paul não queria viver com ele, mas passava os finais de semana na sua casa.

Os dois se davam extremamente bem, mas Paul tinha medo de que os outros empregados falassem alguma coisa.   Mas um dia, acabou soltando, não posso mais viver sem estar perto de ti, estou sempre contigo na minha cabeça outro dia distraído chamei um dos rapazes com teu nome, ficou rindo, até me dar conta foi tarde, todos já sabem.    Embora achem que dei o golpe contigo.

Agora ficava sempre por lá, saiam iam jantar fora, ao cinema, coisas que os dois gostavam.

Sempre examinavam casas antigas que tinham moveis para vender.

Os amigos de Paris, lhe avisaram que tinham muitas coisas novas para ele.  Deixou a loja com o Joseph e a garota, aproveitaram a época do Natal e ano novo, foram para Paris os dois, Paul estava chateado pois queria passar pelo menos uma festa com o filho, mas a sua ex-mulher sempre atrapalhava.

Assim se distraiu, foi divertido andarem por Paris, jantaram nos lugares de James gostava, ao negociar com os fornecedores, ele ajudava.  Buscava defeitos nas peças para torna-las mais baratas alegando que teriam que mandar restaurar.

De lá foram numa visita rápida a Lodz aonde ainda vivia a mãe dele, não sabia como apresentar o James, mas nem fez falta.  A senhora era gente boa, Paul tentava convence-la de ir viver nos Estados Unidos, ela se negava.

Ainda visitaram vários antiquários, o problema era o transporte, falou com seu amigo português, ele mandaria buscar tudo, de Paris mandaria para NYC, tinha jantado juntos uma noite, se deu bem com o Paul.

Vários anos se passaram, a empresa ia bem, Paul mantinha a sua, o único problema que tinham era o filho dele, que não aceitava muito bem o relacionamento dos dois, quando vinha de férias Paul ficava em sua antiga casa com o filho, se viam no trabalho nada mais.  Mas como tudo, era possível aguentar.

Foram chamados por um proprietário, que tinha um imóvel, no princípio do Harlem, muito procurado por gente que já não podia pagar os aluguéis do Soho ou do Village.

Era um prédio estreito, de três andares, os dois de baixo estava vazios, mas no último vivia uma senhora, que não podia mais sequer descer as escadas.   O edifício tinha uma historia macabra, pois o inquilino do primeiro andar, tinha ficado morto meses no apartamento, ninguém tinha sentido sua falta, quando a polícia por causa do mal cheiro veio abrir com os bombeiros o encontrou morto.      Segundo a autopsia, tinha morrido de um enfarto cerebral.

Quando visitaram o edifício, os apartamentos eram excelentes, tinha sido uma casa única, que tinha sido dividida em apartamentos, tinha na parte traseira, um bom espaço, hoje abandonado.

Quando falaram com a inquilina do terceiro andar, ficaram com pena, pois a mesma, usava um andador, não tinha como descer os três andares, conversando lhe perguntou por que não ia viver numa residência, a partir que não tinha ninguém.

Não posso pagar tudo sozinha, minha aposentadoria é pequena.  

Falou com o proprietário, se o senhor paga uma parte da residência, ela sairá, lucraras mais com um apartamento reformado, com um aluguel mais alto do que ela paga.   Diga que lhe pagas o mesmo que ela de aluguel aqui, assim ficaras livre.

Depois antes de se mudar, disse que enquanto o vizinho debaixo era vivo, ela escutava através da torre da lareira, as vezes ruídos estranhos.

O proprietário quando trouxe a planta, aparecia um porão, mas demoraram para encontrar a porta, estava atrás de uma estante, acharam estranho, quando finalmente conseguiram abrir a porta, o cheiro era forte, impediu os homens de descerem.   Chamou imediatamente seu conhecido da polícia.   

Este chegou lançando uma brincadeira, só me chamas para isso, para uma cerveja, um jantar a luz de velas, nunca.     Paul, ficou com ciúmes, ele riu, não dando muita importância.

Quando os bombeiro chegaram, encontraram embaixo, cinco cadáveres de garotos, de várias idades.  Estavam presos na parede com correntes, isso atrasou a obra, vários meses.

Paul enquanto isso estava fazendo uma obra em Long Island, um edifício, antigo, que foi esvaziado por dentro.   Um dia verificando a obra, uma viga imensa caiu sobre ele, lhe fraturando a coluna cervical, bem como a cabeça, teve uma morte instantânea.

James ficou totalmente comocionado, mas o filho chegou, levou o pai com ele, sequer lhe permitindo participar do enterro.

Quem resolveu tudo, foi o policial Guiseppe Lord, mas conhecido como Lord, pois tinha além de uma bela estampa, se vestia muito bem.

Podemos ir ao cemitério, de longe assiste a cerimônia, sei que estas chateado, mas é a melhor maneira de evitar uma encrenca.  

Joseph como era amigo da família foi, depois lhe contou que o medo do filho era que tivesse que dividir herança com ele.    Como não lhe interessava o trabalho do pai, fechou a empresa.

Ele montou uma sociedade como Joseph, ele se encarregaria agora dos homens, é do trabalho, mas só recontrataram os melhores, pois muitos eram parentes do Paul, viviam do conto.

Quando a obra dos três apartamentos ficou pronta, o proprietário que tinha outros imóveis, viu que valia a pena o restauro.  O contratou para mais dois outros.   Abriu um mercado novo para ele e o Joseph, que agora era socio com ele.

Agora, pelo menos uma vez por semana, ou fim de semana, almoçava ou jantava com o Lord, esse era divertido.   Dizia que depois do que aguentava, se ficasse de mal humor, era pior, tinha sido do exército, Polícia Militar, portanto quando saiu, foi fácil arrumar emprego.  Um dia lhe contou que o grande amor de sua vida, tinha conhecido no exército.   O tinha encontrado bêbado, era muito jovem, não queria estar ali, assim que pode deu baixa, mas tinha sérios problemas de neurose de guerra.  Ataques de raiva, ou se metia nas drogas, foi duro de contornar a situação, acabou morrendo por overdose.

Escapava, mas voltava como um cachorro sem dono, passei a ter horror, ser totalmente contra as guerras.  Eu no meu posto, estava bem protegido, vi muita merda depois trabalhando de policial.   Como quando nos conhecemos, descobrir que por ciúmes o marido trancava a mulher no porão, esse agora, era um pédofilo, creio que os garotos estavam vivos quando ele morreu, pois morreram de fome e sede.      As vezes meu trabalho me deixa enojado.

Um dia depois de muito tempo, finalmente resolveram experimentar fazer sexo, amizade já tinham, viu que ele realmente gostava de estar junto com ele.   Foi uma experiencia fantástica.

Anos depois Lord se aposentou do seu trabalho, realizou seu sonho, numa das casas que ele reformou, montou um pequeno restaurante, com muito carinho.   The Lord, era o nome, pequeno, para poucas pessoas, com a cozinha a vista, trabalhava junto com um ajudante indiano, faziam um tipo de comida diferente.

James fez todo o projeto, não era um lugar barato, mas logo a crítica aplaudia a comida fusion que faziam, saiam nos jornais e revistas,  todos diziam para ampliar, mas nem pensar dizia ele, já é difícil organizar tudo,  era uma espécie de comida de mercado.   A carta estava sempre mudando, assim como ele dizia, nunca ficaria enjoado de fazer as comidas.

James levava as vezes os clientes para comer, se era uma cliente, levava pela tarde, para um lanche.   Não abriam aos domingos, era o dia deles.  Ficavam juntos, conversando, fazendo sexo.  Tinham a vida que queria, todos os dois tinham dado a volta por cima em muitos problemas, mas tinha sobrevivido.

As vezes James era convidado por clientes, para um fim de semana em Fire Island, mas agradecia, não era o que gostava de fazer.

Domingo era uma coisa relaxada.   Levantavam tarde depois de uma seção matutina de sexo, tomavam um bom café da manhã, normalmente Lord, trazia comida do restaurante para não terem nenhum trabalho.  Iam ao cinema, jantar fora, com o Joseph e a garota que era sua namorada que trabalhava na loja.  Como uma família.