lunes, 20 de marzo de 2023

SUBSIST

 

                                           

 

Subsistir, sobreviver a qualquer custo, não é fácil, mas isso pode fazer parte de tua vida, inclusive contar como medalhas para quando chega na parte que é só uma rampa de descida para o final da vida.  O bom é poder olhar para trás, pensar, confesso que vivi.

Nessa fase agora, que ia anotando num bloco, as coisas que ia se lembrando do passado, ria, porque sempre tinha lhe parecido interessante isso, que depois de uma certa idade, as pessoas não se lembravam do que tinham comido, mas coisas do passado sim.

Ele com uma idade precoce, sentia que não pertencia ao mundo de sua família, não encaixava ali.  Eram descendentes de poloneses, que tinham fugido antes da guerra, imagina, judeus, poloneses, não havia maneira que não fosse essa, seu avô era professor na universidade de Varsóvia, quando viu o andar da carruagem, como ele dizia, enfiou tudo no seu velho carro, sua mulher que não queria ir embora, seus dois filhos, no teto arrumou umas maletas daquelas antigas, de papelão duro, com um pouco de roupa para cada um, escondeu embaixo dos bancos, os livros que usava para rezar, nunca ia a sinagoga, rezava em casa.

Se atreveu a fazer uma coisa, atravessar a fronteira com Alemanha, justo na fronteira, ajudado pelo meu pai, roubou umas placas de um carro estacionado numa rua deserta, como falavam todos alemão foi fácil passar por eles, era loiros, altos, olhos azuis, todos muito brancos, atravessaram o pais inteiro, entraram na Holanda, pegaram um navio para os Estados Unidos.

Entraram legalmente no pais, como se viessem de férias, logo pediram asilo, quando Hitler invadiu a Polonia.  Nessas alturas tinham atravessado o pais inteiro, com um Ford de segunda mão que comprou em NYC, não estavam fazendo turismo, procuravam sim um cidade para viver.

Foram parar em Lancaster, porque minha avó disse que dali não se movia mais, estava farta de tanto olhar cidades, meu avô colocava defeito em todas, nenhuma era parecida a sua na Polonia.   Ele conseguiu uma escola para dar aulas, ela colocou os filhos para trabalharem.

O mais interessante era que meu avô sendo professor, os filhos não gostassem de estudar. Logo comprou umas terras fora da cidade, que ela escolheu, começaram a plantar batatas, outras coisas.  Ela aprendeu a dirigir uma caminhonete, ia pelos mercados vendendo o que plantava.

Meu pai foi trabalhar de mecânico, pois ao longo da viagem num carro de segunda mão, aprendeu a mexer nele, meu tio ao contrário, logo desapareceu em direção a Las Vegas, esse adorava a aventura, aparecia de quando em quando, ora rico, ora fudido totalmente, mas nunca saiu de lá.

Meu pai se casou por um acaso com uma polaca como ele, minha mãe era diferente, não era judia, mas sim filha de um pastor protestante.

Uma bela mistura, um judeu com um pastor protestante.  Mas meu avô nunca interferiu nisso, lhe dava igual, eles nunca tinham seguido a religião.  Meu avô dizia que era ateu.

Tive quatro irmãos, todos altos como eu, loucos todos por carros, eu nem sabia distinguir a diferença de um para o outro.  Por isso era a gozação, mas era louco por livros.  Aprendi o polonês primeiro que o Inglês, pois em casa se usava essa língua.  Talvez por isso, tive facilidade em aprender outras línguas.

Era considerado o melhor aluno da escola, por isso me tornei o querido do meu avô que tinha se frustrado com os filhos.   Em casa não existia luxos, meu pai considerava que todos tinham que trabalhar, não pedia a nenhum filho dinheiro, o que ganhavam era deles.

Meus irmãos esbanjavam o que ganhavam, roupas novas, eu me contentava a usar as roupas deles de segunda mão.  Pois com uns 13 anos, comecei a trabalhar na parte da tarde numa livraria da cidade, foi o que me ajudou a seguir em frente.

Guardava todo o dinheiro que ganhava, quando me perguntavam o que queria de presente no aniversário, natal, essas coisas, dizia que queria dinheiro, para ir à universidade.  Meu pai abriu uma conta no banco para mim, assim eu ia guardando.

Dos meus irmão herdava tudo, roupas, sapatos, só me comprava cuecas, meias, os resto eram deles, usavam uma temporada, em seguida não queriam mais.

Todos tínhamos a mesma altura, acima de 1,80 metros, loiros, olhos azuis, pele muito branca, mas meus pais cuidavam que fossemos ao dentista regularmente, afinal o mesmo era seu cliente.    O filho do dentista era meu companheiro na escola, capitão do time de basquete, um tipo complicado, vivia me provocando, pois eu não gostava de nenhum esporte, não me interessava.  Mas se dava mal comigo, imagina, com quatro irmãos maiores, tinha que saber me defender.  A primeira vez que tentou fazer bullying comigo se deu mal, lhe dei um murro em pleno nariz, que fomos parar os dois no gabinete do diretor.  Enquanto esperávamos para falar com ele, o James me olhava, entre surpreso, de uma maneira diferente.

Quando o diretor me perguntou por que lhe tinha dado um murro, lhe disse que não ia aturar que me enchessem o saco, que estava lendo tranquilamente um livro da biblioteca, que este o tinha arrancado da minha mão, destroçando o livro.  Isso não se faz, afinal o livro não era meu, agora terei que comprar com minhas economias, para entregar um novo no lugar.

Nada disso, me disse o diretor, se foi ele quem destroçou, quem tem que comprar será ele.

James me olhava quieto, quando o diretor disse isso, ia reclamar, mas o outro lhe disse que estava suspenso.  Na verdade não cumpriu nenhum dia, pois estava em pleno campeonato, o professor de educação física, conseguiu libera-lo.

A partir desse dia passava por mim, me dizia, bom dia Paul, eu lhe respondia.

As vezes ia caminhando para casa, ele me alcançava, para ir conversando.  Nos tornamos amigos, de uma certa maneira, foi meu primeiro namorado, na escola a única coisa que fazia de esporte, era nadar, mas não competia, adorava a água.   Ele tinha me visto nos banheiros, adorava segurar meu sexo, foi também o primeiro que colocou na boca.   Seus pais estavam sempre fora, então na volta da escola, ele me convidava.  Mas claro eu tinha que ir trabalhar, me desculpava sempre. Mas aconteceu.

Quando chegou a famosa época dos 16 anos, que eu estudava como um louco, para poder ir à universidade com bolsa de estudos, ele arrumou uma namorada, mas me procurava.

Fomos uma vez numa excursão da escola a Bervely Hills, eu me apaixonei, depois fomos ao Píer de Santa Monica, descemos para a praia, tomamos banho de mar.  Pensei, quero viver aqui, ia fazer tudo para isso.  Depois na volta, o professor com segunda intenções, passou pela University of California.  Foi outro amor à primeira vista, ele nos deu folhetos dos cursos, afinal tinha estudado lá.

Eu já tinha definido o que queria fazer, estudar literatura.

Faltava pouco para isso, mandei meu curriculum escolar para a Universidade, para saber se seria aceito.   Quando num almoço da família, verbalizei isso, só meu avô me deu força, ele tinha me introduzido no mundo do livro, era seu único neto que lia em Polonês, inglês, francês, também o que tirava as notas mais altas da escola.

Tinha uma boa economia.  A preocupação dos meus pais, era como ia me manter.

Escapei um dia, peguei um ônibus, fui andar por ali por perto da universidade, queria saber como era, apesar de ser um domingo, tinham muitos restaurantes abertos, eu queria ver se algum procurava gente para trabalhar.  Numa esquina vi do outro lado da rua, uma livraria, fui dar uma olhada, a primeira coisa que me chamou atenção, foi um cartaz, procurando alguém para trabalhar da parte da tarde para a noite.  Tinha um adendo, trabalhar dois domingos do mês, entrei, tinha uma senhora, com uma cara gentil, cabelos brancos, que me pareciam precoces pois não aparentava muita idade.   Lhe perguntei pelo emprego, disse que tinha sido aceito na universidade, que iria fazer literatura, que trabalhava numa livraria em Lancaster.

Lhe expliquei que meu único problema era alojamento, pois imaginava que ali por perto o aluguel seria caro.

Depende do que procuras.

Me estendeu a mão Marie Floret, pelo sotaque vi que era francesa, comecei a falar com ela nessa língua, adorou, ria muito.  Contei que falava polonês, francês, claro além do inglês, que me interessava por literatura, pois queria ser escritor.

Ela primeiro me disse das condições, que queria uma pessoa que começasse a trabalhar as duas da tarde até as oito da noite, dois domingos inteiros do mês, assim eu folgo dois a pessoa outros dois, o salário era quase o triplo do que eu ganhava, mas claro a vida em Los Angeles era mais cara.

Colocou um cartaz, que já voltava, disse venha comigo, tenho um amigo que tem uma oficina mecânica aqui atrás, era um beco.

Justo virando a esquina, se entrava num beco mais largo, ali só tinha uma oficina mecânica de dois andares, em cima um pequeno apartamento.  Fui apresentado para o senhor que me olhou de cima a baixo, mas não dei atenção, falou que tinha feito esse apartamento, por causa do seu filho.   Esse agora era ator de cinema, nunca aparecia.  Subi, com ele, enquanto ela voltava a livraria.

O apartamento, era pequeno, logo na entrada um banheiro, pequeno, mas com um bom chuveiro, depois uma pequena cozinha americana, depois o resto era aberto, só tinha uma cama grande, um armário, o resto teria que comprar.

O sacana do meu filho, levou todo o resto, para aonde esta vivendo hoje em dia, em Malibu.

O homem não parava de me olhar, só faltava pedir que eu tirasse a roupa.

Acertamos o aluguel, me disse como vinha recomendado, me cobraria menos.  Me perguntou se eu queria ser ator também.

Ri muito, nada disso, vou estudar na universidade aqui perto, vou trabalhar no horário tarde noite na livraria, quero ser escritor.

Ele disse que era cliente da livraria, posso colocar umas estantes para ti, se tens livros.

Apertamos as mãos, as suas eram calosas, imaginei as mesmas passando pelo meu corpo, fiquei excitado, ele percebeu.

Voltei a livraria, com o que ela ia me pagar, podia pagar tranquilamente o aluguel, pois ia estudar com bolsas de estudo.

Me perguntou quando podia começar, era uma sexta-feira, eu lhe disse que na segunda-feira, que no sábado ia trazer minhas coisas, se no domingo ela estava podia me ensinar como gostava as coisas.

Nessa noite, isso sentou como uma bomba em casa, todos falavam ao mesmo tempo, eu esperto, tinha convidado meu avô, só tinha que transferir a conta no banco.

No dia seguinte ele apareceu logo cedo com a caminhonete de minha avô para levar o que eu queria, me ofereceu uma poltrona que tinha comprado, que afinal não era o que queria, para que eu tivesse aonde sentar para ler.

Gostou do lugar, bem com fez amizade com a dona da livraria. O Gaspar tinha pintado de noite o apartamento todo de branco como eu disse que gostava, as duas janelas, que davam para o beco, estavam abertas, para entrar ar, para tirar o cheiro.  Ele olhou tudo, foi comigo comprar roupas de cama, tudo que eu ia precisar, disse que era o presente de aniversário antecipado.

Na segunda-feira iria ao banco aonde tinha conta, pediria para transferir meu dinheiro.

Nesse dia já fiquei.  Meu avô depois que comemos juntos, ainda comprou uma série de livros que queria, na despedida me disse segurando meus ombros, o mais importante na vida meu neto, é poder voar, tu começaste a mexer as asas, o mundo é todo teu.  Vou esperar ansioso teu primeiro livro.

Trabalhou todos os dias até começar a universidade, nos domingos livres ia a praia, primeiro a Santa Monica, depois conforme as pessoas foram falando, ia mais longe, aonde tivesse ônibus para ir.

Em casa só tinha coisas para um café da manhã, depois comia num dos muitos restaurantes ali perto, nunca tinha gostado muito da ideia de cozinhar.

Com os olhos muito aberto, começou a descobrir o mundo, todas semanas tirava um dia para falar com seu avô, que lhe contava rapidamente o que acontecia com a família, depois lhe perguntava sobre sua nova vida.

Foi conhecendo os clientes, alguns compravam livros, discutiam com ele, sobre o autor que gostavam, lhe davam o número de telefone, para lhe avisar se chegava algum novo.

Um dia um desses, ao lhe dar o cartão, a Marie ria, soltou na sua cara, não captaste a mensagem verdade?

Que mensagem?

Esta te convidando para o chamar para um café, ou algo mais.

Então entendeu, era como nos livros policiais, ele era carne fresca no pedaço.  Pelas tardes estava um bom tempo sozinho.  Marie, as duas da tarde saia para ir para casa almoçar, depois ia se encontrar com suas amigas para um café, voltava umas duas horas antes de fechar, para fazer o caixa com ele, aproveitavam a lista dos livros vendidos para ver se tinham que encomendar outros.   Ela gostava de analisar, quanto tempo o livro tinha estado ali esperando para venda.

Ele fez uma sugestão, em Lancaster a proprietária, os livros que ficavam muito tempo, colocava em promoção, mas claro ali havia que separar, não se ia colocar um autor famoso assim.

Ela comentou que em sua casa tinha muitos livros que tinha levado, que não pensava tornar a ler, podíamos engordar uma mesa com isso, livros parados, livros de segunda mão.

Ele organizava isso, tinha um caderno só para isso.  Esses livros parados, ele conversava com as pessoas, para saber por que não tinham saído antes.   Descobriu que a maioria não gostava de procurar nas estantes, pois tinham que inclinar a cabeça.   

Quando comentou com a Marie, ela concordava a mesa funcionava mais.  Decidiram deixar só nas estantes livros que eram mais para os estudantes da universidade.

Quando começaram as aulas, descobriu que muitos clientes eram professores lá, inclusive uns dois que lhe tinham dado o cartão eram seus professores.

Um deles dava um curso a parte de escritura, se tornou sua aula favorita, ele tinha uma série de pequenos relatos de sua época de estudante, com esses começou a fazer uma coisa, que faria o resto de sua vida.   Escrever, revisar, revisar, revisar, até ter certeza de que estavam relativamente bons para ensinar no curso.

Esse professor, Darius Walt, riu muito, quando ele entregou um texto assim.  Comentou com ele que queria ver um desses, se ele ainda tinha o original?

Sim conservo todos, usava uma velha Remington, presente de seu avô, como sempre de segunda mão, mas isso não lhe importava o mais mínimo.   Na livraria usava uma parecida, nos momentos que tinha livre, que não entrava nenhum cliente.  Quando estava fazendo algum exercício mental, fazia uma coisa, trocava os livros da mesa de lugar, muitos pensavam que eram novos.

Os romances que tinha, não passavam de uma noite.  Ficava frustrado, esperava se apaixonar, mas descobria que a maioria das pessoas queriam sexo, nada mais que isso.

Um dia conversou justamente com o professor Darius sobre isso.  Ele queria carinho, romance, mas se esbarrava que as pessoas queria sexo nada mais.

Se sentia incompleto.

Darius riu muito, isso é assim, te vem com toda essa estampa, pensam esse é forte, aguenta qualquer coisa, é duro, quer sexo nada mais.

Experimentou fazer carinho, em vez de sexo, a pessoa se levantou foi embora.  Descobriu que a maioria era casada.  Um domingo, estranhou ver a oficina mecânica aberta, se aproximou, viu o dono falando, com um homem de uma estampa incrível, deduziu que era o seu filho.

O apresentou, teve um rechaço imediato com o mesmo, lhe pareceu um sujeito fútil, tinha estampa, nada mais.  Sabia que ele fazia esse papel tão costumas nos filmes bobos, o macho alfa.

Quando voltou de noite o senhor seguia trabalhando, parecia chateado, começaram a conversar, imagina, apareceu porque precisa que eu arrume seu carro, não foi ver sua mãe, que o criou dessa maneira, agora reclama, se acha o umbigo do mundo. Estou aqui perdendo o domingo, quando poderia estar na praia, me distraindo com meus amigos.

Começara a falar das praias, domingo que vem se o tempo estiver bom, irei, como sempre, pego um ônibus aqui na avenida, passo o dia inteiro, fazendo uma coisa que amo, nadar.

Não sabes fazer surf lhe perguntou?

Nunca fiz, fico com inveja das pessoas que fazem, mas nunca fui fazer.

Eu normalmente vou a Venice Beach, lá tenho amigos, que me avisaram muito que não me casasse, nem tivesse filhos, mas o idiota não escutou.

Queres tomar uma cerveja, perguntou ao homem, viu que estava suado. Fechou a oficina, subiu com ele, acabaram na cama, foi a melhor foda que tinha tido em muito tempo, cheia de carinho, gostou, ria com isso.

Ao final lhe comentou das aventuras, que o frustravam.

Veja sou casado, um casamento de muitos anos, ela tem sua vida própria, eu ao contrário, me sobram os amigos, eu quero é isso, calor humano que não tenho em casa, embora me sinta fantástico contigo.

No domingo seguinte, o veio buscar, ele tinha um tipo rancheira, vinha com duas pranchas em cima, vou te ensinar a surfar.

No caminho foi comentando, todos esses meus amigos, os conheci no exército, o primeiro que vão dizer, é que poderias ser meu filho, espero que isso não te importe.

Segurou sua mão, lhe disse, esta semana me senti melhor, encontrei alguém que me entende, pois tinham falado muito, contou para ele, pois os únicos com que tinha falado a respeito, tinha sido a Marie além de seu avô.  A história que tinha apresentado ao Darius, ele tinha mandado para uma revista literária que o tinha publicado.

Quero ler lhe soltou Samuel.

Passou o dia lhe ensinado como surfar, apanhou mas aprendeu, mas o que mais gostou, comentava depois, era ter ficado além da ondas, esperando uma especial, se sentiu em paz, comentou isso com ele.

Também é o lugar que mais gosto.

Na volta, ficou para dormir com ele, disse a minha mulher que ficaria para dormir na casa de um amigo da praia.

Adorava isso, os dois se entendia, se exploravam, fazia carinho, adorava passar a mão pelos cabelos crespos, cheios de fios brancos do Samuel.  Ele dizia não sei o que vês em mim, não sou bonito como meu filho, nem tenho um físico de jovem cheio de músculos.

Samuel, isso não me interessa, apesar de ser jovem, quero poder conversar, trocar ideias, isso tenho contigo. 

Ele quando leu o texto, lhe disse que o entendia, tinha se casado por isso, pensava que ia ter uma família, carinho, tudo que não tinha tido antes.

Nos domingos quando chovia, lhe ensinou a conduzir, o animava a respeito.

Acabou de escrever seu primeiro livro, mandou uma cópia para seu avô por entrega rápida, outra deu ao Samuel, a Marie, além do Darius.

Tinha construído um personagem que não encaixava no mundo de agora, com os valores tão superficiais, incluía isso, de um amor de uma noite, de não conhecer as pessoas, por isso a princípio tinha estranhado, muita gente entrava na livraria, mas conversava sobre o autor, acabavam falando de suas vidas.

Samuel agora escapava algumas noites, disse que iria pedir o divórcio de sua mulher, tinha descoberto que ela tinha uma aventura.   Por isso não reclama os dias que estou fora.

No último domingo o viu com cara de cansado, lhe perguntou o que passava.  Ela assinou o divórcio, mas ficou com quase tudo o que eu tinha a casa, terei que sair de lá.  Só me restou a oficina, meu carro, dinheiro que guardo na conta do banco aqui perto.

Menos mal que não tenho que pagar nenhuma pensão.  Vai se casar com o sujeito com quem tem aventura.

Não seja por isso, venha ficar comigo.

Mas como sempre a felicidade nunca era uma coisa que durasse muito.  Apesar dele insistir Samuel não gostava de médicos.  O via cada vez mais cansado, só estava super bem quando estava na praia.
Marie um dia lhe perguntou se ele realmente gostava do Samuel?

Perguntas isso, por que tenho idade para ser seu filho?

Sim, ele me disse que nunca imaginou ser feliz com alguém, que contigo é.

Pois não sinto essa diferença, com ele posso conversar, o que sentia falta com os outros, tenho com ele, é carinhoso, se preocupa comigo, gostamos de muitas coisas iguais.

Sei que não é só por sexo, como acontece muito agora.

Agora quando ia para casa, se encontravam iam comer ali por perto, pareciam dois namorados, não lhe importava que falassem dele.

Seu livro finalmente foi editado, ele evitou que tivesse sua foto na contracapa, para não descobrirem que trabalhava ali na livraria.

Vendia bem, quando estava já na terceira edição acabou o seguinte.  Justamente nesse dia, voltava para casa, com o pacote de cópias que tinha mandado fazer, para mandar para seu avô, para os outros lerem, fazerem comentários com ele.

Estava louco para o Samuel ler, estranhou que a porta da oficina estivesse aberta, o encontrou no chão, chamou uma ambulância, mas era tarde, tinha tido um enfarte.

Sabia que tinha o telefone de seu filho, chamou a este, lhe disse que estava filmando em NYC, que infelizmente não podia ir.  Que falasse com o advogado de seu pai.

Foi o que ele fez.  Este sabia o que tinha que fazer. Uma cerimonia simples, tinha uma lista de amigos para avisar, que fosse cremado, que levassem para além das ondas, deixassem as cinzas ali.   Tenho uma carta para ti, que ele deixou.

Estava imaginando que o filho agora podia querer o local para vender.

Depois da cerimônia que foi uma surpresa, o local estava cheio, o filho, nem a mulher apareceram.   

O advogado disse que o filho não podia sair da filmagem, mas creio mesmo que não quer perder tempo, só perguntou se tinha algo no testamento para ele.   Lhe disse que ele tinha liquidado tudo, com a mãe dele, seguindo suas ordens disse que tinha vendido o local.

Para minha surpresa deixou sua berlinda, bem como o local com o apartamento para mim, pelos últimos e maravilhosos anos de sua vida.  Bem como um pouco de dinheiro que tinha no banco.

Eu agora, despertava de noite procurando por ele na cama, em breve faria 30 anos, tinha que redefinir minha vida.

Marie, estranhava, que já tendo um livro pelo qual tinha recebido um bom dinheiro, não deixasse de trabalhar na livraria.  Lhe expliquei que não podia, não tinha nada a ver com ela, sim pelo fato de ser meu meio de conviver com outras pessoas, além de compartir ideias, tivemos uma conversa interessante, ela pensava em vender o local que era seu, ir viver com umas amigas numa residência, perguntei quanto queria pelo local.

Me disse o valor, a livraria queria pouco, pois atualmente quem levava tudo era eu. Só vinha nos domingos que me tocava livre.

Aliás, eu nunca entendia o porquê dos domingos, eram dias de turistas, que compravam guias, mapas, livros de fotografia sobre artistas, mas isso só na parte da manhã, na parte da tarde todos iam comer por ali, o movimento era nulo.

Eu na parte de baixo que era oficina, agora só tinha o carro do Samuel, que continuava usando para ir à praia para surfar com os amigos que tinha feito a partir dele.

Dois deles que eram seus amigos de sempre, me perguntavam por que não tinha ninguém, lhes contei que Samuel tinha preenchido minha vida, era o que eu tinha sonhado.

Não estava para voltar outra vez as famosas fodas de uma noite.

Riam quando ele falava nisso, mostraram alguns dos que eu conhecia, esses são famosos por isso, não querem nada, eu sempre digo que é melhor uma punheta bem-feita que isso.

Concordo contigo, o pior é que ele foi durante esses anos o melhor da minha vida, então o patamar é alto.

Riam comigo, diziam que ao largo desses aos eu tinha mudado, agora usava cabelos compridos, com alguns fios brancos, mas minha pele era mais morena.

Quando ia visitar meu avô, ele ria, dizia que adorava minha aparência, já meu pai, meus irmãos, suas famílias criticavam.   Nenhum tinha se interessado pelos meus livros, me achavam um idiota por seguir na livraria.   Segundo meu avô, pensavam que escrever livros não devia dar muito dinheiro.

Um dia fui visitar meu avô, ele me entregou uma caixa, estava bem embrulhada, me disse na hora de me despedir, só abra depois que eu morrer.  Olhei para ele, o via bem fisicamente.

Mas morreu semanas depois, sentado embaixo de um pé de maça que era aonde ele gostava de se sentar para ler.   Segundo descobrimos mais tarde, tinha um câncer, tinha resolvido que já tinha vivido demais, tomou todos os comprimidos de uma medicina, morreu ali sentado com um livro nos joelhos.

Tinha pedido que o cremasse, que deixassem suas cinzas ali ao pé daquela árvore.

Minha avó comentou que tinha sido a primeira que ele tinha plantado, tinha trazido as sementes da Polônia, de um uma árvore que tinham nos fundos da casa.

Sempre que ia vê-los, ele me dava maças dali, ela compotas que tinha feito com as mesmas.

Ela me contou que com os anos, ele tinha vindo se afastando dos filhos, não tinham nada a ver com ele, tu foste o único que realizaste seus sonhos.

Seus filhos queriam vender o campo, mas a minha avó se negou.  Sabia que um ia gastar tudo nas mesas de jogo em Las Vegas, que o outro usaria em besteiras.

Ela tinha aprendido a se mover no meio que vivia, o comercio, fez uma coisa que ninguém esperava, vendeu para um homem que comprava o que ela produzia, dividiu o dinheiro para cada um dos netos, assim nenhum filho podia brigar.

Meus irmão usaram a cabeça, guardaram para seus filhos irem à universidade.  Embora eu olhasse aqueles garotos, não via futuro neles, estavam sempre metidos na oficina mecânica.

A mim não me deixou nada, pois sabia que eu não precisava.

Quando abri finalmente o pacote que ele tinha me dado, tive que rir.  Eram dois cadernos escrito a mão, com a letra maravilhosa que ele tinha, contando sua história, sua juventude, junto tinha um saquinho com três diamantes, que deviam valer uma fortuna.

Fui lendo nas minhas largas noite solitárias, o que ele escrevia.  Começava dizendo que tinha inveja de mim, por conseguir colocar para fora tudo, falando honestamente o que eu sentia, eu ao largo desses anos com o Samuel, ele tinha sido a única pessoa que eu tinha apresentado.  Os dois se deram bem, inclusive veio a cerimônia quando ele morreu.

No que estava escrito, me contava um romance que tinha tido antes de se casar, seu casamento como todos de muitos judeus, tinha sido combinado entre duas famílias.  Tive sorte dizia, tua avó foi uma grande companheira, mas o amor de minha juventude foi um homem que soube anos depois, foi um carrasco com os judeus.

Falava dessa época, de sua juventude, descrevendo conforme ia se lembrando, desse tempo, citava nome das pessoas, a maioria ele achava que estava morta. 

Podia descrever lugares que frequentava em Varsóvia com detalhes, praças aonde se sentava com esses amigos, falavam de seus sonhos, já nessa época ele pensava ir para os Estados Unidos, falava de sua experiencia sexual com esse seu amigo, que tinha medo de tudo, comentava que não entendia como depois tinha se transformado em carrasco.

Ele nunca mais tinha sequer tido vontade de voltar a Varsóvia, principalmente na etapa comunista.

De uma certa maneira, falava da solidão, pois era muito diferente de minha avô, dos seus filhos, apesar da grande aventura que tinham feito, atravessar quase que os Estados Unidos inteiro, os filhos nunca falavam nisso, ele ao contrário tinha realizado um sonho, falava de cada lugar o que tinha significado os dias que tinha estado em cada cidade, o que tinha observado, porque não a tinha escolhido.  Realmente nunca ouvi meu pai mencionar nada a respeito.

Da solidão, até que descobriu que tinha um neto que amava as mesmas coisas que ele, porque sempre tinha me ajudado, não desprezando os outros, serão meros reprodutores de crianças, se deles sair alguma que seja como tu, a ajude por favor.

Um dia estava na livraria, recebeu a visita de um advogado, representava uma grande empresa, estavam interessados no espaço da livraria, bem com aonde ele vivia, queria fazer uma grande construção, um edifício que metade seriam apartamento a parte de baixo um grande estacionamento.

Escutou a proposta, ficou de analisar. Conversou com os vizinhos, 80% já tinha concordado com a venda, só ele basicamente não tinha se resolvido.

Estava tão acomodado ali, que pensou, caralho, talvez seja a hora de mudar tudo, embora gostasse da ideia do trabalho que tinha.

Como demorou, acabou vendendo mais caro, mas pediu tempo, queria encontrar outro lugar para se mudar com sua livraria.

Conversando com esses dois amigos da praia, lhe perguntaram por que não abria ali em Venice, o levaram para ver um local, um deles lhe disse o sujeito está enforcado, cheio de dividas, porque se meteu com quem não devia.    Ficou com pena do homem, o lugar lhe interessava.   Podia se aproveitar da informação, mas pagou o preço justo. Com isso ganhou um novo amigo.

Reformou tudo, o andar de cima dava um apartamento como o que ele tinha, o problema seria o carro, mas acabou resolvendo alugando uma garagem.   Montou uma livraria com uma cara mais moderna, já não teria livros técnicos como os procurados pelo pessoal da universidade.

Separou tudo o que tinha, levou para a biblioteca da mesma.  Estes agradeceram.

Agora levava um outro tipo de vida, se levantava cedo, ia fazer surf, depois voltava, tomava um bom café, banho, descia para trabalhar, usava um balcão moderno aonde podia trabalhar, agora usava um laptop para isso, a velha maquina Remington, agora ficava na mesa grande que tinha em cima.

Convidou a família inteira para a inauguração, mas só apareceu o irmão que era um ano mais velho do que ele, tinha os cabelos todos brancos.   Tinha três filhos, uma mulher complicada, perguntou se podia vir falar com ele.

Ficava pasmo, por viverem tão perto do mar, nunca irem à praia.

Ele desceu no domingo, acompanhado de um de seus filhos, Saul, muito tímido, quase se escondia atrás do pai.  Este conversou com ele, sentados na praia, enquanto o filho estava sentado na beira do mar, olhando para a frente.

Ele está sempre assim, ou grudado com um livro, é o melhor aluno de sua escola, como você, outro dia tentei falar com ele, meu jeito de entrar em contato com ele, foi falar de ti, que era diferente de nós.   Pela primeira vez em alguns anos, vi meu filho sorrir, quando contei como aprendeste a te defender de nós, ele riu.

Minha mulher diz sempre com desprezo que ele saiu como tu, que é gay, que não quer um filho assim.   Pensei muito, desde garoto sempre foste agarrado ao nosso avô, que em paz descanse, mas não encaixava nem com seus filhos, as vezes no meio daquela bagunça do almoço, ele estava em outro lugar, quando te descobriu, parecia que tinha voltado a viver.

Queria que conversasses com meu filho, se queres cuidar dele, eu te dou a guarda dele, não quero que sofra por ser diferente.  Me lembro quando eras jovem, parecias andar com cuidado conosco, para não sabermos como pensava.    Outro dia encontrei o James, aquele teu amigo, um pobre infeliz, se casou, não deu certo, é alcoólatra hoje em dia.

Vou dar uma volta nesse paraíso aonde vives, se ele fica contigo, virei mais vezes desfrutar desse lugar.

Sentou-se com o Saul, começou a falar de um livro que estava escrevendo, sobre ser diferente do resto.    Este lhe contou que um dia tinha ido a casa do bisavô, viu dois livros dele, escondi, comecei a ler, fui anotado as palavras que não sabia o que queriam dizer.  Duas delas, não encontrei o significado, a professora me viu buscando num dicionário, mas mesmo assim eu não entendia, me perguntou aonde eu tinha visto essas palavras, reclamou com minha mãe, que eu estava lendo livros que ela não recomendava para jovens.    Esse escritor, fala muito diretamente as coisas, não respeita as convenções da sociedade.

Lhe perguntou quais eram as palavras, explicou o que as mesmas queria dizer, no conceito que ele tinha usado.   Falou justamente isso, quando eres diferente, as convenções da sociedade, são limitadas, as pessoas normalmente têm problemas a aceitarem isso.

Seus amigos se aproximaram, os apresentou ao seu sobrinho, me ensinaram a fazer surf, quando se afastaram, ele disse que adoraria, mas nem sabia nadar.  Eu te ensino, queres?

Eles tem uma amizade especial, verdade?

Sim estiveram juntos no exército, eram os melhores amigos do Samuel, com quem vivi muitos anos.

Que o senhor quer dizer com vivi?

Isso que estas imaginando, foi o homem que amei muito, demorei muito para descobrir o que significa essa palavra.  Veja hoje em dia, todo mundo diz “eu te amo”, em muitas conjecturas, mas realmente o uso tão grande dela a tornou uma coisa vulgar.  Uns usam a palavra para dizer que fizeram sexo.    Mas fazer sexo, não significa que amas.  Falou abertamente com ele do sexo de uma noite, no fundo são duas pessoas que necessitam de outra coisa, mas poucas tem coragem de enfrentarem, muitas confundem precisar de carinho, um simples gesto, como esse, mexeu nos cabelos crespos dele, isso é um carinho, um afago vamos dizer assim.

Não tem nada a ver com o sexo, algumas vezes na nossa solidão necessitamos disso, não fazer sexo.

Caramba, o senhor fala de uma maneira muito simples tudo.  Quando perguntei na escola sobre isso, sobre dois homens fazendo sexo, foi um escândalo, lá foi a professora chamar outra vez minha mãe, que ficou escandalizada.

Não me chame de senhor, para ti, sou Paul.

Quando seu irmão voltou, os levou até seu apartamento, na livraria estava o homem que tinha perdido o local para ele.  Contou ao irmão que tinha perdido tudo que tinha, pois sua mulher tinha câncer, perdeu o emprego, este local, ficou inclusive a princípio sem lugar para viver.  Agora vive com uns amigos, que o ajudaram, é muito boa gente, conseguiu pagar toda sua dívida, dá a vida para ter um tempo pela manhã, ou no final da tarde pegar umas ondas.

O irmão perguntou ao Saul, sei que já conversaste com teu tio, que em casas andas agoniado com tua mãe, minha pergunta como agora vais entrar em férias, gostaria de viver com ele?

Os olhos do garoto brilharam, claro que sim, me disse que ira me ensinar a nadar, bem como surfar.    Mas adoraria que o senhor viesse me ver sempre, num sinceridade absoluta, disse ao pai, agradeço o que o senhor está fazendo, mas saiba que o amo.

Seu pai foi até o carro, trouxe uma maleta, lhe deu dinheiro, entregou uma caixa com um celular, me chame sempre que queiras.   No domingo, desço com teus irmãos, eles nunca viram como tu o mar.

Tinha um sofá-cama, arrumou para ele dormir.   Aqui tudo é simples, não tenho empregadas, a única coisa que não faço é cozinhar, odeio.

Acho que minha mãe também, a comida dela é horrível, ficamos todos esperando o dia que vamos a casa dos avôs para comermos bem.

Como tinha algumas lojas abertas, foram comprar roupa de praia para ele, bem como umas sandálias, andar na praia de tênis, é um horror.  Comprou todas as camisetas que ele gostou, claro com estampas de surf.

Disse todas as manias que tinha, mas não se preocupe, eu normalmente não vou trazer nenhum homem para casa.

Brian o homem que o ajudava na livraria, ficou encantado com ele, sempre quis ter um filho, talvez por isso me casei, voltei da guerra meio perdido, não tinha madures quando fui, nem quando voltei, minha mulher me ajudou a colocar os pés no chão, mas entre nós as coisas nunca foram 100%, pois tínhamos sonhos diferentes, não queria filhos, embora fosse professora da escola aqui do bairro.  Nunca entendi isso, ela cuidava, educava os filhos dos outros, mas não queria ter os seus.   Um dia lhe perguntei por que, me respondeu furiosa, porque tinha insistido muito, me disse que sabia que eu era gay, não queria filhos assim, que talvez minha genética fosse a responsável.

Ele não sabia que Brian era gay, de uma certa maneira, faziam um grupo da praia, apesar de serem homens fortes, duros na queda vamos dizer assim, eram todos gays, tinha pensado que ele tinha ido a guerra juntos, embora nenhum deles falava no assunto.

Brian lhe contou que ela tinha descoberto sobre ele, porque em seus pesadelos, gritava o nome do homem que tinha amado, o vi morrer num ataque inimigo, fiquei ali sustentando sua cabeça meio destroçada, chorando.

As vezes quando estou nervoso, tenho esse pesadelo.

Soube que o vizinho, vendia o prédio ao lado, com um dos diamantes, comprou o mesmo, aumento seu apartamento, fazendo um quarto com banho para o Saul, outro para ele, assim tinha privacidade.  Muito lentamente, começou a namorar o Brian, sentiam-se atraído um pelo outro, não eram jovens, antes lhe perguntou se ele tinha pensado bem, poderia querer recuperar o tempo perdido.

O que está perdido, já está passado Paul, seria hoje uma besteira, essa garotada, faz sexo como se estivesse espirrando, não quero isso.  Podem até me atrair, mas não, prefiro passar meu tempo fazendo surf com os amigos, trocando ideias.

Seu irmão tinha cumprido com sua promessa, vinha agora aos domingos com seus outros filhos, além de algum outro sobrinho.  Saul agora era quem ensinava os irmãos a nadarem, a fazer surf.

Estava feliz, se abraçava ao pai, quando esse chegava, dizendo, agora sei quem sou.

Na primeira infância, Paul tinha esse seu irmão como ídolo, pois era mais velho do que ele, nunca tinha entendido por que não tinha estudado.

Este acabou um dia lhe confessando, que se sentia protegido pelos seus irmãos maiores, eu era como o cachorro deles, acabou que não fiz amizades na escola, meus amigos eram seus amigos, nunca fiz nada por mim.

Um dia lhe chamou, dizendo que queria falar com ele em particular, se podia?

Claro que sim, marcaram na praia, sabia que Saul estaria ajudando na livraria.  Deu uma desculpa qualquer, tipo tinha que ir ao Banco.

Seu irmão lhe disse que estava se divorciando, que viver com sua mulher, que o acusava todo o tempo de ter sido culpa dele, Saul sair dessa maneira, ela se tornou ultra ortodoxa, eu nem sabia que tinha alguma sinagoga assim.   Deixa os meninos jogados, não sei o que fazer, os conselhos dos nossos irmãos, são horríveis.

Converse com teus filhos, se for o caso, venha viver aqui, essa outra loja que está vazia é minha, porque não a usas fazendo alguma coisa que goste.

Eu adoro consertar motos, achas que poderia?

Claro que sim, eu te ajudo, mas antes fale com teus outros dois filhos, eles são mais velhos que o Saul, vamos ver se te entendem.

Eles adoraram estar aqui, se ela concordar, eles sei que não querem viver com ela.

Vive alardeando coisas, que ninguém a entende, mistura religião, com o fato de ser mãe, faz anos que não me deixa a tocar.  Na verdade nem a procuro, depois que Saul nasceu, ela ficou com problemas, odiou ser mãe outra vez.

Falou com o Brian, esse riu, tens certeza de que queres seguir com o nosso relacionamento.

Mais do que nunca, gostava de conversar com ele, na cama se entendiam bem.  

Na verdade, ele acabou se apaixonando pelo seu irmão, começou a trabalhar junto com ele na loja de motos, quando viram estavam apaixonados.  Ele entendeu, isso talvez era uma coisa que faltava entre eles, se davam bem, mas não eram apaixonados, talvez tivesse sido as circunstâncias, tinha ensinado Josias a surfar, bem como aos garotos.

Fez uma coisa, procurou, tinha dinheiro para isso, quase nunca tinha gastado dinheiro dos livros, estavam todos aplicados, encontrou uma casa no canal, foi olhar com o Saul, que lhe perguntou se podia seguir vivendo com ele.

Claro, eres o filho que eu não tive.

Não estás aborrecido com meu pai, por ter roubado teu namorado?

Imagina, explicou para ele o que tinha acontecido, uma coisa é você ter amizade com uma pessoa, mas é necessário a paixão, como tem os dois, ficaram tanto tempo fechados em si mesmo, que precisam disso.

Isso eu tinham com o Samuel, ele era mais velho do que eu, mas em compensação tinha um coração imenso, nos gostamos desde a primeira vez que nos vimos, mas levamos tempo para chegar a algo.

Encontram uma casa grande, mas ele vinha pensando muito tempo numa coisa, seus livros eram cada vez mais complicados dentro de seu processo de escrever, Saul daqui a algum tempo teria que se preparar para a universidade.

Tentava não influir em nada.

Seu irmão se preocupava que tinha invadido sua casa, ele disse que nem pensar, fez uma coisa que depois iria gerar uma briga com os outros, colocou os dois edifícios, no nome dos filhos do irmão, com usufruto do mesmo.  Liquidou a livraria, iria sentir falta, mas queria viver a vida, nunca tinha viajado.   Pela primeira vez aceitou fazer a divulgação do seu novo livro, foi a NYC com Saul num final de semana, depois viajou pelas principais cidades do pais para isso.

A coisa funcionava melhor.  Desta vez Saul ficou com o pai.

Ele e seus irmão iam a mesma escola, ali no bairro, mas o interessante ele algumas coisas ensinava aos irmãos.

Essas viagens fizeram bem a ele, contacto com outros escritores, sair pelo mundo. Nas férias antes da universidade, foi com Saul, embora tenha convidado seus outros dois sobrinhos, mas estes estavam trabalhando com o pai na oficina mecânica.  Tampouco interessavam-se por estes viagens.

Foram os dois a Paris, percorreu lugares que tinha lido em livros, tinha passado os mesmos para o Saul, os dois se divertiam imaginando como era na época.  Foi um mês superdivertido.

Seu editor lhe colocou em contacto com um editor interessado em publicar seus livros em francês, foi falar com o homem, este se surpreendeu que ele falasse sua língua.

Era sobre os dois primeiros, disse claramente que podia, mas que ele primeiro revisaria os mesmo ou melhor os atualizaria, pois seria interessante, falou do processo que usava de revisar muitas vezes, mas podemos fazer o seguinte, posso fazer isso em francês, assim vocês só teriam que revisar a ortografia.

Lhe ofereceram uma casa, mas ele apesar de gostar de Paris, preferia fazer isso no seu canto, voltaram para casa, de uma certa maneira, se abria em sua frente uma nova oportunidade.

Antes de voltarem, tiveram um jantar num desses restaurantes famosos da cidade, riram muito depois.

Na volta tio e sobrinho fizeram um desafio, tinha os dois feito anotações, iriam escrever um livro, mas sem um olhar o do outro, sobre o que tinham vivido.

Ele agora se dedicava parte do dia, em revisar, atualizar, traduzir para o francês.  Gostava desses desafios.

Quanto ao livro, os dois tinham lido basicamente tudo do Patrick Modiano, um escritor que descrevia Paris de várias épocas.  Quando terminaram, mandaram para a França primeiro, o editor se decantou por publicar os dois juntos, pois tinha feito uma coisa, conforme o capitulo, a visão dos dois do mesmo lugar era diferente.

Quando voltaram a Paris, levava seus dois livros revisados, traduzidos embaixo do braço, desta vez resolveram ficar um tempo, alugaram um apartamento, com dois quartos assim cada um tinha um lugar para escrever.

Quando os livros foram lançados, foram a uma feira de livros em Frankfurt, sabia que ali se negociavam os títulos.   Aproveitou para ir com o caderno do avô a Polônia que nesse momento começava a dar seus passos largos em direção a democracia.

Fez a mesma coisa, ia pelos lugares que seu avô descrevia, foi outra experiência diferente.

Quando voltaram a Paris, Saul, resolveu fazer um curso na Sorbonne, mantinham o contato com seu pai, além dos irmãos.

Ele era convidado para falar nas universidades, sobre essa sua maneira de escrever, foi um tempo novamente que as pessoas se aproximavam dele, para uma aventura de uma noite, mas ele se negava a isso.  Se sentia sozinho, porque lhe faltava uma pessoa de sua idade para conversar, a falta que isso lhe fazia as vezes lhe provocava mal humor.

Quando foi a Tel Aviv, fazer a mesma coisa, lançar seus livros em hebreu, bem como falar na universidade.   Muita gente não sabia que ele era descendente de judeus, quando isso saiu no jornal, o público pareceu aumentar, já não era só o americano.

Quando lhe perguntavam se frequentava a sinagoga, disse que nunca tinha ido, que seu avô tinha cortado esses laços, ao emigrar para os Estados Unidos.

Conheceu muita gente, um dia em Tel Aviv, jantando sozinho num restaurante, se aproximou um tipo, mais ou menos da sua idade, se apresentou como um professor, que tinha assistido sua conferência, o convidou para sentar, pois tinha se sentido atraído pelo outro.

Tiveram uma conversa interessante, quando lhe perguntou se era casado, esse riu.

Fui criado numa colônia ultra ortodoxa, quiseram me casar quando tinha 17 anos, mas eu não queria seguir a vida deles, me sentia diferente, não acreditava em nada daquilo.

Fugi, aqui, existia um grupos de conhecidos, que tinham passado pelo mesmo, o jeito foi cortar os laços de família, entrar para o exército, que eles não aceitam, assim fui literalmente banido, mas era o que eu queria.  Era uma família grande, mas fria, todos voltados sempre para essa coisa do pecado, nada estava permitido, tudo era restrito.

Começou a rir, soltando que ele adorava o pecado.  Acabaram no seu apartamento, dois dias depois se mudou com ele, tinha ao parecer encontrado sua meia laranja, falavam de tudo, contou tudo o que tinha vivido, as suas poucas paixões, quanto odiava esses encontros só para sexo.

Heron, ria muito, eu também, durante um tempo sim, mas depois me cansei, além de que aqui era proibido.  Tudo tinha que ser muito sutil, nada a ver com o que acontece hoje.

Ele estaria de férias durante uns dias, o convidou para ir com ele a Venice Beach, lhe contou o que tinha acontecido, com o seu romance, que agora era o do seu irmão, foi interessante, era um homem sofrido, os dois encaixam perfeitamente.  O resto da família não aceitou, mas ele é feliz, isso é o mais importante.

Heron que tinha um humor impressionante, lhe perguntou se tinha mais irmãos, assim quem sabe ele também amava mais alguém da família.

Passaram por Paris, Saul tinha um romance, com um professor da universidade, estava feliz, escrevendo um livro de como enfrentar uma outra ideia de escrever uma história.

Um dia de manhã, quando chegaram a Venice Beach, despertou sem encontrar o Heron, na cama, se assustou, quando se levantou, ele entrava pela porta, viu sua cara, riu dizendo que não tinha fugido, tinha ido comprar pão para o café.   Ele adorava isso, sentar-se a mesa para tomar o café da manhã, conversando.

O que sentiste quando não me viu?

Foi honesto em lhe dizer que tinha ficado chateado, que estava aprendendo a gostar dele.

Então volte comigo para Israel, eu adoro a praia tudo isso, mas também temos lá, tu estas livre, mas ainda tenho dois anos pela frente antes de me aposentar.  Depois podemos dividir temporadas lá e cá.

Ele se deu bem com seu irmão, com Brian, conversavam muito os quatro.

Um dos sobrinhos ia ficar tomando conta da sua casa.  Assim ele se despreocupava, Saul, voltaria quando acabasse o livro, com seu namorado.

Desta vez ele não tinha apoio de nenhum amigo, era como começar do zero, para se ocupar, aprendeu a escrever em hebreu, ao mesmo tempo que escrevia um novo livro, um personagem que começa uma nova vida, em um lugar totalmente diferente dele.

Conheceu vários amigos do Heron, que tinha passado o mesmo que ele, passou a observar os ultra ortodoxos, que em Los Angeles, basicamente não existiam.

Entrevistou vários deles, para entender o que passava.

Durante esses dois anos, escreveu dois livros, baseados nos sentimentos dos jovens que eram obrigado, ou doutrinados a viverem fora da possibilidade de construírem uma vida fora dessa sociedade, no fundo eram como um gueto dentro de Israel.

Saul pediu socorro pois estava passando uma fase difícil, justo quando Heron se aposentou, foram lhe dar uma força.  Mas ele se repunha sozinho, tinha se enganado com o rapaz que era seu namorado.

Depois foram para Venice Beach, mas tinha se acostumado a viver com Heron, quando esse disse que tinha problemas para se adaptar, resolveu voltar com ele.

Viveram juntos mais de 15 anos, quando ele morreu, Saul veio visita-lo, também foi ficando, arrumou sua vida por lá.

Fazia tempo que tinha vendido sua casa, comprado outra em Tel Aviv, não pensava em voltar.

Quando morreu, foi enterrado ao lado do Heron, que tinha sido o amor de sua vida madura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 13 de marzo de 2023

PUNK MACTOSH

 

                                            SEQUÊNCIA  DE OBERON MACTOSH

 

 

Voltava do enterro do meu pai, Oberon Mactosh, cantor, ator, um grande pianista de jazz, morreu como queria, em cima de um palco, tocando as músicas que amava.

O conheci no orfanato, para aonde me levaram, meus pais tinham morrido nas drogas, uma coisa comum em Los Angeles, tinham saindo sabe-se lá de donde, em busca da fama, fortuna, eu era pequeno, Oberon me adotou.

Descobriu que meus pais estavam no necrotério, os mandou enterrar, fui com ele ao enterro, segurando sua mão, estava deslumbrado com aquele homem alto, bonito, nessa época começavam a ter cabelos brancos, junto estava Donald, um grande amigo dele, bem como companheiro no restos de seus dias.

Me colocou numa escola, perto de casa, vivíamos em Venice Beach, Donald foi quem me ensinou a fazer surf, mas toda semana eles iam ao Orfanato, dar aulas, meu pai de música, ele de artes.

Os dois ainda ajudavam no que podiam o orfanato, me levavam junto, um dia Donald discutiu com ele sobre isso, porque me levava.

Foi quando ele contou sua história, se não tivesse sido adotado ao nascer, pela quem considerou toda vida sua mãe, teria acabado num orfanato como eu.  Nunca devemos esquecer de aonde saímos.

Ele tinha sido cantor desde criança, aprendeu com a mãe, na universidade estudando música, aprendeu a compor, o que fez muito mais tarde.

Me descobriu cantando, me sentei ao lado dele, com seu piano portátil, que levava sempre ao orfanato, cantava “Over de Rainbow”, uma música que minha mãe, quando não estava colocada cantava para que eu dormisse.

Eu sabia a letra inteira, seguiu sendo uma música que me acompanharia a vida inteira, pois sempre a cantava nos seus shows.

Fazia música incidental para o cinema, mas gostava mesmo era de fazer pequenos shows, em boates de jazz.

Tinha uma voz impressionante, quando cheguei aquela idade que trocamos de voz, tive que fazer um tratamento, pois tinha um problema na garganta.

Passei um bom tempo no hospital, tinha um câncer de faringe, mal podia comer, ele estava lá todos os dias comigo, não saiu do meu lado.

Donald se preocupava, pois não trabalhava, ele ria dizendo que tinha dinheiro suficiente para viver várias vidas.

Graças a Deus tinham descoberto cedo o câncer, assim o tratamento funcionou, fiquei sem cabelos um bom tempo, o mais divertido, foi que ele, bem como o Donald, raspavam a cabeça para ficar igual.

Quando meu cabelo voltou, de loiro que era quando garoto, nasceu escuro, um castanho, como o dele.

Quando voltei para casa, estava louco para fazer surf, mas agora íamos ao final do dia, quando o sol não era muito forte.

Adorava os dois, Donald era mais prático, me ensinou a ler e escrever antes do tempo, quando fui para a escola, já sabia fazer isso, gostava de desenhar, um dia sonhei com meus pais de verdade, me levantei de madrugada, os desenhei, tinha medo de esquecer como eram, no meu sonho, pareciam como jovens que eram, loucos para ganhar o mundo.

Quando Donald levantou, eu estava sentado na mesa da cozinha, terminando o desenho, ele reconheceu os dois, falou seus nomes, ficou na minha cabeça.

Oberon quando viu, chorou, disse que de sua mãe verdadeira, nem tinha ideia, tudo que sabia era que era menor de idade, que vinha fugindo de algum lugar, que tinha chocado uma caminhonete contra uma árvore, pelo visto não sabia dirigir, a tinha roubado num posto de gasolina.

Quando sua mãe lhe contava, dizia que essa caminhonete, estava cheia de engradados de galinhas, que voavam penas para todos os lados, um dia ele compôs uma música sobre isso, a fuga, fazia uma parte em bebop, um gênero de jazz, em que fazia a música sem cantar, somente com sons na boca, eu me matava de rir, pois ele imaginava as galinhas saltando, fazendo ruídos.

Eu tinha verdadeira adoração pelos dois, cada um a sua maneira me amavam.

Depois do câncer, minha voz ficou horrível, eu me chateava com isso, pois queria cantar com ele, me consolou dizendo que eu encontraria outra maneira de fazer arte, me disse tens o desenho, escreves bem.

Era uma verdade, as histórias que Donald me contava, eu transformava em desenho, as escrevia ao mesmo tempo, transformando numa coisa que adorava, história em quadrinhos.

Ele me contava sempre uma que tinha inventado, sobre Punk, o personagem de “Sonhos de uma Noite de Verão” de Shakespeare, as histórias que ele inventava, era melhores que a original, depois me mostrou nos filmes, mas para mim, o que me contava de noite eram mais impressionantes.

Mostrei para ele, quando terminei, ele levou para a escola, mostrou a professora de artes, de teatro, essa resolveu montar a história como eu tinha feito.

A de arte conhecia alguém no Pixar Studios em Emeryville, mandou uma cópia do que eu tinha feito.  Veio uma pessoa falar comigo, quando viu que era uma criança, riu muito, me incentivou a trabalhar sempre, me trouxe de presente um computador, bem como um convite para ir ao studio aonde trabalhavam.

Numa semana de férias fomos até lá, alucinei. Sonhei com isso muito tempo, mas Donald como sempre me colocava os pés no chão.   Lá dentro serás um prisioneiro, tens que fazer o que te dizem, deves sim aprender a trabalhar no computador, para conseguir ser como eles, se possível faça um estagio lá quando fores maior.

Procurou, ele sempre era assim, uma pessoa para me ensinar, conseguiu justamente um que tinha trabalhado lá, dizia que era uma jaula de ouro, te elogiavam, mas no final aparecias nos letreiros no final, a gloria sempre era de quem tinha a ideia.

Fiz um curto, a historia de meu pai Oberon, as galinhas voando, usei sua música como fundo, ele ria horrores, levei quase um ano para terminar, com uma fotografia de sua mãe, a inclui na história, ele amou, Donald conseguiu com seu amigo que subisse no Youtube, que nessa época começava, fez sucesso.   Quando me convidaram para participar de um festival de curtas metragem, riram muito quando descobriram que eu tinha na época 14 anos.

Depois não parei mais, fiz como o Donald tinha sugerido, um estagio em Pixar Studios, para saber como era, realmente não encaixava, estava acostumado a trabalhar sozinho, minhas ideias, ali eram ideias de outros, trabalho de grupo, não fiquei contente.

Seu amigo me convidou para trabalhar com ele, num longa que estava fazendo, foi genial, eu com uma cabeça diferente da dele, que tinha mais experiencia, dizia que eu era como um vampiro, o que ele me dizia, ficava, que tinha a criatividade a flor da pele.

Meu pai Oberon fez a música para o filme, que passou em vários festivais, ganhou vários prêmios com isso, cada vez se especializava mais em fazer música.

Quando fiz 19 anos, percebi coisas diferentes no Donald, se esquecia das coisas, estava no meio da rua, de repente não sabia para aonde ia, entrava no supermercado, depois não sabia sair.

O médico disse que tinha Alzheimer, foi uma porrada a toda regra, ele que era uma pessoa independente, de repente mudou, se fechou em si mesmo, pois sabia por aonde iam os tiros, nos dois o ajudávamos, mas infelizmente acabou numa residência de pessoas com o mesmo problema, eu ia quase todos os dias até lá, meu pai Oberon, tirava uma parte da manhã para estar com ele.   Reclamava que era a única hora que ele estava mais desperto, mas dizia sempre que essa doença era como uma maldição, ver uma pessoa como ele desaparecendo nas sombras.

Quando ainda tinha cabeça, um dia me pediu para contar a sua história, foi o que fiz, o meu primeiro largo metragem, em desenho, falando justamente disso, até ele desaparecer.

Seu enterro foi super concorrido, ai descobrimos uma quantidade enorme de gente que de alguma maneira ele tinha ajudado.

A mim me balançou, Oberon entendeu, eu perdia mais uma vez uma pessoa que adorava, ninguém de sua família apareceu, só um irmão que veio depois saber se tinha algum dinheiro de herança.

Mas no testamento dele, tudo que ele tinha, sua casa, o dinheiro de ex-militar, era tudo para o orfanato aonde ele ajudava.  Deixou sim uma carta para nós dois.

A minha dizia que eu tinha sido o filho que ele tinha sonhado em ter na vida.  Oberon nunca me mostrou a sua, sei sim que chorou muito.

O pior que estava tão acostumado a compartir coisas com ele, que fiquei meio perdido.

Passei a fazer isso com o amigo dele, Jackson, com quem trabalhava, esse um dia muito sério me contou como tinham se conhecido.

Jackson tinha chegado a Venice Beach, vindo do interior, precisamente de sacramento, tinha loucura pelo mar, Donald, tinha deixado o exército, com um ferimento na perna, da qual nunca se recuperou, mancava um pouco por isso.   Tiveram um breve romance, mas quando Oberon entrou em cena, viu que Donald só tinha olhos para ele.  Foi quando fui trabalhar na Pixar, quando voltei, ele me ajudou a retomar minha vida, me incentivou a seguir fazendo meus filmes, sempre falávamos, me contava que agora tinha um filho, que me amava, me mandou teus desenhos, para que eu desse uma olhada.

Ficava contente quando vinha te buscar para alguma coisa, mas realmente nunca deixei de ama-lo, Jackson tinha nos ajudado a cuidar dele.

Fizemos os dois um filme, levamos mais de dois anos, desenhando, passando pelo computador, agora entre os dois tínhamos um studio.

Meu pai sempre aparecia, pois adorava fazer a música do filme, ficou conhecido cada vez mais por isso, teve uma época que me preocupei muito, pois fazia para dois filmes diferentes, quando falei com ele, me olhou sério, isso é como um desafio, quero saber se tenho a capacidade de fazer duas coisas diferentes ao mesmo tempo.

Acabou exausto, rimos muito no final, pois as duas músicas concorriam ao Oscar, vieram entrevista-lo por isso, ele como sempre tinha aprendido com sua mãe ser educado, falou dos dois trabalhos em conjunto, como tinha ficado exausto no final.

Depois durante anos, recusou fazer qualquer trabalho nesse gênero, fazia para nós, acompanhava o nosso trabalho, percebi que Jackson tinha transferido o que sentia pelo Donald para ele.

Mas ele ria, dizendo ao Jackson, que se juntasse com sua turma, pois era muito jovem para ele.

O mais interessante, era que nossos filmes participavam de festivais, alguns realmente chegavam ao cinema, mas claro, não eram desenhos animados para crianças, eram assuntos sérios, coisas da vida.

Nunca tinha me sentido interessado nessa coisa de fazer desenhos para crianças, tinha bastado meu primeiro trabalho, o tempo que tinha estagiado na Pixar, para me tirar a ilusão disso.

Gostava do que fazia.

Como dizia meu pai, tens casa, comida, roupa lavada, que mais queres, com o tempo foi me ensinando a saber administrar o dinheiro que ganhava, como sua mãe tinha feito com ele.

Nossas conversas agora era largas, pois nunca me via com ninguém, o que era uma verdade, não me apaixonava, talvez procurasse uma pessoa como ele, Donald, que eram sérios, nada de aventuras de uma noite.

Esperava encontrar alguém para amar, realmente.

Fiquei surpreso quando num festival que fomos, o Jackson conheceu alguém, ficou como louco, pelo homem, mas percebi logo que o mesmo era um tanto excêntrico, adorava drogas, outros bichos, voltei sozinho para casa, ele ficou o esse homem.

Voltou quase um ano depois, um trapo, tinha caído na rede das drogas, foi duro ajuda-lo, mas ele tinha um instinto de conservação, esteve meses internado, fazendo terapia, desintoxicação, coisas impressionantes.  Oberon, ia comigo nas visitas, o escutávamos.

Um dia disse que devíamos fazer um filme sobre isso.

Eu sabia que não devia, de maneira nenhuma provar drogas, por causa de meus pais, ninguém sabia se na época que minha mãe tinha me gestado, consumia drogas, então era um perigo.

Quando voltou, fizemos essa história, que no fundo foi como uma catarse para ele, ganhamos inclusive prêmios, o filme passava em festivais, no Youtube bombava, pois era um ponto de referência.

Alguns diziam que era como um aviso, de como era fácil se perder nas drogas.

Num dos festivais, em Londres, um médico veio falar comigo, pensou que se baseava a história em mim, sorri, mas não disse nada.

Me contou sua história, que tinha tido uma vida tumultuada, que para se manter, conseguir acabar a universidade, tinha roubado drogas dos hospitais que fazia práticas, acabou se viciando, tinha sido um largo caminho para se livrar de tudo que tinha acontecido com ele, que no fundo na época procurava uma maneira de seguir em frente.

Acho que pensou que nos interessava a história para fazer um filme, mas Jackson, soltou, esse sujeito tem cara de embusteiro, com os seus conhecimentos, se informou a respeito do mesmo, o tipo tinha inventado a história toda, queria cinco minutos de fama.

Nem era médico coisa nenhuma, um dia vi um filme na televisão, chamei o Jackson, rapidamente, que olhasse nesse canal, aí estava a história que o sujeito tinha contando, era um filme inglês, baseado num fato real, descobrimos depois que o personagem tinha morrido de overdose, quem contava a mesma era um irmão dele.

Tinha tudo para ser alguém, mas tinha se perdido.

Sempre acontecia isso, alguém se aproximar, eu aprendi a tirar o meu da reta, como dizia o Oberon, as pessoas adoram inventar histórias.

Ele e o Jackson, riam muito comigo, pois sentia que algumas pessoas se aproximavam pelos cinco minutos de fama, eu descartava em seguida.

Em Paris, conheci um cineasta como nós dois, que era Africano, tinha vindo jovem para Paris, tinha feito um trabalho em cima das histórias que contava seu avô na sua infância.

Tivemos um papo genial, saiu comigo para conhecer a cidade, me contou sua vida, tinha tido um relacionamento que tinha arrasado com ele.

Por isso tinha medo de começar qualquer coisa, iria para a Africa em breve, não para o pais de origem, lá tinha sua entrada proibida, pois tinha contado a história de seu avô, o governo militar não gostou.

Eu e Jackson, fomos com ele, nos disse, levem muitos blocos de desenho, pois vamos necessitar.

Passamos um mês viajando em um jeep velho, um homem que tinha sido militar, nos levava a todas as aldeias bem para o interior, a mim me traduzia o que os velhos contavam.

Um deles, foi como um encontro com o passado, começou a falar dos meus pais, falou que não se tinha encontrado nada, pois os dois tinham saído de um orfanato.

Sonhavam em ser grandes cantores, falou da minha vida, com Oberon e Donald, fiquei admirado como sabia, foi aonde ficamos mais tempo, começo a me contar do Orixá que me acompanhava sempre, ele te protege, essa gente que se aproxima de ti, quando apresentas teu trabalho, desconfias sempre, pois ele te diz em tua cabeça, que esse não é o caminho.

Começou a descrever o mesmo, contar sua história, não só como Orixá, mas em sua vida terrenal, dizia que ele era justamente daquela região, falou com o guia para nos levar até uma pequena aldeia as margens de um rio, completamente poluído, pelas explorações mineiras, que faziam os chineses.

Quase nada restava da aldeia, sem saber muito por que, chorei muito, em minha cabeça se começou a formar uma história.

Quando voltamos, passamos de novo para falar e despedir do velho, ele me disse que o que tinha imaginado, daria frutos, que deixasse minha intuição me dirigir.

Quando voltamos, Jackson resolveu ficar um tempo, em Paris, com seu novo romance, iriam trabalhar junto num projeto.

Me disse que usasse sem problemas o studio.

Lhe disse que desta vez, iria trabalhar desde casa, tinha algum dinheiro, comprei o material que necessitava em termos de computadores, programas que usava.

Ainda ganhei mais, pois a empresa que os desenvolvia me contratou para ensinar jovens a usar o mesmo, fiz um programa que procurei que fosse o mais simples possível de ensinar.

Deu certo, agora me pagavam para ir pelo mundo fazendo palestra sobre isso.

Quase dei a volta ao mundo, conheci muita gente, mas no final estava era louco para voltar para casa, não gostava muito de ficar afastado de meu pai.

Oberon já estava com oitenta anos, dizia que era duro na queda, se espantei galinhas para nascer, ainda compunha músicas, que depois me mostrava, tinha medo de se repetir, tu sabes com a idade ficamos repetitivos.

Mas nada, levou uns quatro anos, fazendo um trabalho completamente diferente, uma sinfonia dedicada à sua mãe, nunca tinha esquecido o que ela tinha significado para ele.

Mas me cobrava sempre que eu iria ficar velho e sozinho.

Nessa época conheci na praia, fazendo surf um homem diferente, era muito sério, lhe faltava uma perna que tinha perdido na guerra, tinha um equilíbrio impressionante em cima de sua prancha, tínhamos a mesma idade.

A primeira vez que dormi com ele, me disse, que era melhor eu ir embora, vivia na encosta, numa casa que tinha herdado do homem que tinha amado muito.  Um coronel, que o tinha protegido desde o princípio, mas tenho pesadelos de noite.

Me despertei com ele suando horrores, gritando, cuidado, cuidado, me abracei a ele, se relaxou.

Com o tempo foi me contando sua vida, de garoto que viveu a vida inteira num orfanato, quando teve idade para sair, tinha poucas opções, ir para o exército, se prostituir, vender drogas.

Preferiu o primeiro, pelo menos pode estudar mais, adorava um livro, escrevia histórias que tinham ficado na sua cabeça.

Mostrei para ele meu trabalho, o que fazia no momento, sobre o Orixá, ele ria, dizia que sonhava as vezes com esse homem, que muitas vezes o tinha salvado de morrer.

Foi me contando tudo, eu sabia que era verdade, perguntei se podia incluir na minha história.

Agora me acompanhava durante o dia, fizemos uma rotina, íamos de manhã, fazer surf, depois íamos para a casa de Oberon, que reclamava todos os dias, que se sentia sozinho, depois se sentava conosco para escutar a parte da história que estávamos trabalhando, fui ensinando a John Brother a trabalhar, ele se matava de rir, dizia que eu tinha demorado, mas tinha encontrado alguém que ele via que me amava.

Já posso morrer em paz, soltava, as vezes chegávamos, me contava alguma história que tinha sonhado, entendo o que minha mãe dizia, que com a idade vamos nos lembrando de coisas e pessoas do passado.

Ela falava muito do tempo que vivia com sua família, que eles achavam que ela queria ser puta, por querer ser cantora de musicais.

Um dia me contou toda a história sobre o único homem que tinha amado, como ficou frustrada quando descobriu que ele tinha feito uma operação de vasectomia, que lhe impedia ter mais filhos.  Talvez me dizia por isso o filho que ela desejava, chegou por outro caminho, desde o primeiro momento me dizia, eras o filho que eu esperava.   Me ensinou a amar a música.

Seu pai não sabia, mas gravava todas as conversas que tinham.

As vezes eles chegavam estava escutando alguma música que os dois tinham gravado, me dizia, olhe como eu erro a nota tal. Podia ter feito melhor.  Escutem como ela canta, a força que tinha quando amava uma música.

Um dia chegamos, tinha morrido dormindo, já estava a beira dos noventas, estava com a mobilidade reduzida, pois tinha artrose, o que mais lhe incomodava era a artrose nos dedos, que lhe impedia de tocar piano, então ficava sentado num cadeirão, cantando baixinho as músicas que tinha cantado a vida inteira, as vezes dormia, despertava cantando outra música, dizia que tinha sonhado que estava cantando essa música no palco de algum casino em Las Vegas.

Era duro ver um homem como ele, perder primeiro a mobilidade, segundo, viver do passado.

Só nos deixava entrar em casa, porque sabia quem éramos, estranhos ele não atendia.

Um dia me disse quase num sussurro que tinha sonhado com sua mãe, que lhe apresentava a verdadeira, uma menina.      Chorou muito nesse dia, uma lastima que não a conheci, só irei vê-la do outro lado.

Seu enterro passou quase desapercebido, ele a muitos anos já não fazia shows, com a idade apareceu o medo cênico, achava que ia esquecer a letra da música, um acorde de piano, coisas do gênero, lhe disse que não necessitava de dinheiro, tinha suficiente.

Voltávamos do enterro, ele iria ficar ao lado dos seus amores, o advogado me disse que nem precisava fazer leitura de testamento, que tudo ia para mim, o que ele tinha deixado para o orfanato de aonde tinha me tirado, já tinha entregue pessoalmente.

Contou como tinha sido, fomos ao banco, ele pediu um cheque num valor altíssimo, depois o levei ao orfanato, como sempre as crianças corriam para ele, para escutar alguma música, ou que ele tocasse piano, pediu desculpa, mas suas mãos não permitiam mais, ainda fez uma brincadeira com os meninos, dizendo se algum tocasse piano, ele cantava.

Entregou o cheque a freira que comanda tudo, se despediu de criança por criança, me disse que esperava o dia que fosses ali, buscar um neto para ele.

Era estranho ele nunca tinha falado a respeito.

Voltei a frequentar o orfanato, agora dava aulas lá uma vez por semana de desenho para os meninos, não sei como John, passou ensinar os meninos a tocar piano.  Disse que tinha aprendido um básico com meu pai.

Acabamos nos casando, adotando um casal, dois irmãos que chegaram juntos, mal cuidados, num estado lastimável, iam separa-los, a freira conseguiu que pudéssemos adota-los.

Foi fantástico, John é um pai fantástico, os leva a escola todos os dias, mas ao médico, vamos os dois, três vezes por semana vem uma senhora, com uma enfermeira, para dar uma olhada neles, tem que comer comida balanceada, pois estavam muito subnutridos.

Não tinha conseguido encontrar nenhum parente dos dois, o Orixá disse que os tinha guiado até o orfanato.

Tempos depois tivemos que nos mudar para uma casa maior, adotamos mais dois irmãos, a mãe tinha morrido na rua, eu fiquei louco quando vi os meninos, um era branco outro negro, com a diferença de um ano cada um, quando os vi, estavam de mãos dadas, inclusive dormiam assim.

Dois anos depois adotamos duas meninas, a freira dizia que tínhamos madeira para ser pais.

Talvez tivéssemos realizando o sonho do Oberon de ter netos, sempre dizia que sua mãe com certeza teria me adorado como neto.

O tempo passa muito rápido, agora basicamente todos são quase adultos, estão na época de irem à universidade, cada um quer uma coisa diferente, mas querem estudar em Los Angeles mesmo, para não se afastarem um dos outros, se dão muito bem entre eles.

John os teve sempre quase num regime militar, ao mesmo tempo, é para ele que correm para contar alguma coisa, sabem que quando estou mergulhado num desenho ou criando um personagem, fico como numa casca fechada, ele ao contrário é aberto.

Fazemos no fundo um casal perfeito, pois o que falta a um o outro tem de sobra.

Talvez também por termos saído de orfanatos, entendemos os garotos.

Tenho que trabalhar mais, para ganhar dinheiro, menos mal que Oberon me ensinou a aplicar o dinheiro para render, pois mandar todos a universidade, custa muito, mas não me importo.

Nenhum deles é cantor ou desenhista, mas não me importo.

Outro dia fazendo as contas, já fazem quase trinta anos que estamos juntos, amo o John, sigo o que me dizia o Donald para manter a família unida, sinto falta dos meus pais, sempre, as vezes me pego falando com o Oberon, se posso usar música tal dele, para fazer um fundo a história que estou contando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

martes, 28 de febrero de 2023

OBERON MACTOSH

 

                                              OBERON MACTOSH

 

A primeira parte de minha vida, só fui descobrir com uns 12 anos, quando uns garotos começaram a querer fazer bullying comigo.   Primeiro dizia que minha mãe era uma puta, depois diziam mil coisas.   Meti a mão na cara deles sem remordimento algum.

Claro a chamaram na escola.

Nesse dia me contou sem problema algum, minha história, porque diziam isso, os dois sentados na mesa da cozinha grande lá de casa, tomando café com leite, pequenas madalenas que ela fazia.  Sempre sentirei o cheiro delas em minha vida, porque tinham sempre canela.

A história começava em Montana, aonde ela era uma garota que vivia com uma família imensa, que se escapava para ir ao cinema ver musicais, na verdade em casa a música era uma coisa permanente.   Um dia se escapou com suas economias de caixeira de um supermercado, para NYC, queria tentar fazer musicais na Broadway.   Era bonita, sabia cantar, tinha uma boa voz.

Mas claro como ela tinha muitas, loiras, morenas, altas, baixas, ou seja, ela era uma das muitas candidatas.   Mas para ganhar a vida enquanto não surgiam oportunidade, trabalhava num restaurante de luxo, tinha um aspecto excelente, bem como educação.  Loira, de quase 1,80 de altura, olhos verdes fortes, um corpo de fazer gosto.

Nas horas vagas estudava música, para aperfeiçoar sua voz.

No restaurante sempre cheio de personalidades de todos os tipos, levava muita cantadas, algumas companheiras, cediam a troco de algum dinheiro a mais, ou mesmo a possibilidade se serem amantes de alguém.   Mas ela se negava, era virgem, não ia por aí dizendo isso, mas não estava para aventuras.

Um dos homens que era sempre educado com ela, normalmente vinha a algum almoço de negócios, ou de política.  Pedia sempre um reservado, que fosse ela a atender, pois sabia que se escutasse alguma coisa, nunca falaria nada.   Dizia isso, porque sabia que ela tinha escutado conversas comprometedoras, mas nunca tinha vazado nada aos jornais.

Nesse dia estava discutindo com um advogado seu divórcio, se via que para ele era algo doloroso.  O escutou dizendo ao mesmo, sei que tenho culpa, minha família aqui, eu vivendo em Washington, mas descobrir que me coloca cornos, isso não, vivem num senhor apartamento, as melhores escolas para os garotos, ainda me quer colocar de culpado em tudo, para me tirar dinheiro.  Nem pensar, pagarei quando muito a pensão dos garotos, desde que seja administrada por outra pessoa, não por ela, pois sei que passara a mão em tudo.

Depois que o advogado foi embora, ele ainda pediu uma sobremesa, era um tipo de 1,90 metros de altura, senador, metade de sua cabeça estava branca.  Mas não era tão velho assim, beirava os 55 anos.

Ficou com pena dele, lhe disse honestamente que sentia muito.

O pior Trichie, não é perder teu casamento, é a solidão que sinto a muito tempo, uns filhos que estão contra mim, são uns adolescente mimados, nunca serão nada na vida, pois a mãe os educa para gastar dinheiro como ela, superficiais, outro dia mencionei um escritor para meu filho mais velho, me perguntou diretamente, quem é esse idiota.  Não me contive, lhe disse que idiota era ele, pois era o escritor mais importante dos Estados Unidos.  Walt Whitman.

Ela recitou de cabeça uma frase dele.  Estudei quando jovem, adoro ler, me sobra pouco tempo, pois faço aulas de canto, bem como de música, assim se não consigo ser cantora, posso pelo menos dar aulas.

Ele lhe perguntou seu sobrenome, no dia seguinte, recebeu uma das primeiras edições do Walt.   Ficou como boba, dentro tinha uma dedicatória dele, dizendo que pelo menos nem tudo estava perdido no mundo.

Agora ele ia mais ao restaurante, a negócios ou não.   Uma das últimas vezes, com o advogado para comemorar seu divórcio.

Ela se despediu dele, pois deixava de trabalhar, ia fazer um pequeno papel numa obra de teatro, um musical em cima de uma obra se Shakespeare, “sonho de uma noite de verão.

Ela fazia o papel pequeno, bem como cantava no coro.

Se admirou no dia da estreia, receber um ramo de rosas vermelhas, suas preferidas.  Era do Senador.    A obra não foi muito bem, entendeu então que não adiantava, ela era uma das muitas, como tinha acabado a universidade, estava procurando uma colocação de professora de música.

Vivia num pequeno apartamento, enquanto isso tinha voltado a trabalhar no restaurante, não se incomodava, pelo menos era um trabalho honesto.  Meses depois o senador apareceu outra vez, estava discutindo com uns companheiros, que ele se retirava da carreira política, tenho minha fazenda para cuidar, ele tinha deixado o apartamento de NYC para sua mulher e filhos, a fazenda nunca tinha feito parte de nada disso, a herdou de seu pai, depois que se divorciou.

Os outros foram embora, ele ficou, sozinho, comendo um das sobremesas que era sua preferida, ela lhe trouxe café.

Ele começou a conversar com ela, sinto que não tenha sido um sucesso seu trabalho, mas não se deve desistir.  Ela contou que estava tentando algum lugar para dar aula de música, mas que era difícil.

Sem querer soltou para ele, que os castings as vezes eram complicados, pois algum produtor sempre queria se aproveitar das jovens que sonhavam com o estrelado.

Ainda soltou no seu entusiasmo de falar com ele, que se mantinha virgem, não era para pagar nada disso, imagina, depois nunca mais poderia me respeitar.  Contou que um deles, lhe tinha dito que ninguém saberia.    Mas eu saberia o que tinha feito, vendido meu corpo por uma oportunidade.  Não condeno ninguém que o faça, por isso fiz universidade, estudei, dei um duro aqui.  Quantas garotas daqui saíram pelo mesmo, uma oportunidade de serem amantes de alguém.

Quando deixou seu trabalho nesse dia, ele a estava esperando, saíram conversando como se fosse a coisa mais natural do mundo.  Ele não avanço nenhuma vez com ela, foram ao teatro, ao cinema, ele disse que não fazia isso a muito tempo.

Depois a avisou que iria para Albany, a capital do estado, perto de onde tinha sua fazenda.

Voltou tempo depois rindo, graças a deus não sou tonto, meu pai tinha deixado nas mãos de seus empregados, tudo estava mal organizado.

Nesse dia, comentou que não poderia estar sempre por lá, sentaram-se numa praça, a pediu em casamento.    Ela se espantou, pois o tinha como um amigo com quem partilhar coisas, nunca tinha tido nenhum.    Lhe disse que teriam ir com cuidado, pois iriam pensar que ela estava dando o golpe do baú.

Ele agora vinha pelo menos uma vez por mês, para corteja-la, até que ela aceitou.  Perguntou como ela queria o casamento.  Esperando que ela quisesse alguma coisa toda por alto.

Sejamos práticos, lhe soltou, eu quando muito convidaria duas amigas para uma festa, tu não sei, eres conhecido, eu não tenho ninguém.

Concordaram se casaram num registro civil, ele concordou com tudo que ela quis.  Com suas economias, comprou uma traje branco, num saldos, não escondeu isso para ele.  A muito tempo tinha aprendido a administrar suas economias.

Foram viver na fazenda.  Ela o ajudava a administrar, afinal tinha crescido em uma, a casa era imensa. Foram segundo ela os dez anos mais felizes de sua vida, mas não entendia por que nunca ficava gravida.   Fez milhões de exames, nada.   Quando ele teve pela primeira vez câncer, ficou furiosa com ele, pois acabou sabendo a verdade, ele tinha feito uma operação de vasectomia, na época que era político, quando via os políticos tendo filhos fora do casamento.

Com os dois que tinha de seu matrimonio, já tinha o bastante.   Ela ficou furiosa, nunca tinha falado para ela.   Mas mesmo assim não saiu do lado dele.   Tempos depois ficou pior, o câncer tinha resistido a todos os tratamentos.

No dia que eu nasci, segundo ela, voltava de NYC, depois da leitura de testamento dele, deixava para ela a fazenda, bem como dinheiro da conta conjunta que tinha no banco, tudo que estava na fazenda era dela.   Ela sabia que no cofre do mesmo, tinha muito dinheiro.

Seus filhos fizeram um escândalo, pois para eles deixava pouca coisa, teve que se conter na leitura, pois mandava um recado para os mesmo, paguei as melhores universidade, que eles fossem à luta com o dinheiro que tinha deixado para eles.

Estava com todos os papeis que o advogado tinha entregado em suas mãos, agora teria que decidir sua vida, sabia que os filhos iriam entrar com algum processo, para lhe retirar tudo.

Era de noite, chovia muito, ela voltava para casa, como chamava a fazenda.

Na estrava, não vinha rápido, escutava uma música baixinho, para não se distrair, quando um carro lhe cortou pela frente atravessando a estrada, indo se chocar com uma árvore.  Vi que era uma garota que conduzia a caminhonete, carregada de engradados de galinhas, pois disse que viu pelo retrovisor, as galinhas voando por todos os lados.

Parou o carro ao lado da estrada, saiu correndo, até a caminhonete, a menina tinha a cara cheia de vidro, mas respirava, viu que tinha uma barriga de gestante, um caminhão que parou atrás dela, desceram dois homens.   Um a ajudou a tirar a garota que sangrava muito, o senhor nos leva até Albani, disse o hospital que ela tinha sua conta de seguro.

Foram embora, o caminhão os seguia. No hospital, a conheciam pelo tempo que seu marido esteve lá, pediu para avisarem a polícia.  Enquanto atendiam a garota, esta não tinha nenhum documento, nada que comprovasse quem era.  Estava vestida com um vestido que se via pequeno para ela, com a barriga dilatada, o médico veio falar com ela, está em coma, não creio que escape, teríamos que fazer uma cirurgia, retirar a criança, deve estar de sete meses.

Fizeram uma cesárea, as enfermeiras diziam que criança feia, diziam que era muito moreno, que talvez fosse filho de algum emigrante.

A policia já tinha recebido a queixa do proprietário da caminhonete, disse que estava num posto de gasolina, que foi pagar, quando a roubaram.   Ali perto tinha um prostibulo, mas claro, ninguém reconheceu a garota, pelo que dizia o médico era menor de idade.

Ela foi até sua casa, mas voltava todos os dias, segundo ela, me apaixonei por ti nesses dias, ficava comigo no berçário, fazendo com que me alimentasse.

Tua mãe verdadeira, durou uma semana em coma, mas morreu.  Ela ajudada pela enfermeira chefe, bem como pelo chefe de polícia, conseguiu me adotar.   Me registrou com seu nome de solteira que voltava a usar, Oberon Mactosh.  Quando tinha uns meses, resolveu voltar a NYC, o sonho da fazenda era do marido, não dela.  Queria voltar a trabalhar com música.

Vendeu a fazenda, guardou tudo que estava no cofre numa boa maleta, só levou seus objetos pessoais.  Transferiu todo seu dinheiro para a NYC, alugou um pequeno apartamento, saiu procurando um para comprar, claro não podia comprar em Manhattan, pois seria perder muito dinheiro.   Encontrou um num edifício antigo, tinha sido de um músico, tinha inclusive um piano, se vendia com tudo que estava dentro, era um segundo andar, de frente para a Rua, com muito sol como ela gostava, o edifício tinha cinco andares, mas sem elevador.

O da imobiliária disse que o único problema era que o administrador, não era muito de fiar.

Ela mandou retirar todo o papel de parede velho, repintar tudo de branco, os móveis que não queria, deu para uma ONG, o resto adaptou, a parte que mais gostava era a cozinha do mesmo que era grande, bem como o salão, aonde pensava dar aulas.

Montou um quarto para mim, ao lado do seu, embora nos primeiros anos, dormia no seu.  Gostava também porque havia uma pequena praça perto, aonde podia passear comigo.  Sempre escutava um comentário que respondia de mal humor, como uma mulher tão bonita podia ter um filho tão feio.  Mandava tocar conta da vida delas, que a deixassem em paz.

Logo descobriu o que o da imobiliária tinha falado, o administrador, engava o resto dos vizinhos, ela começou a brigar com eles, exigindo a apresentação de gastos como devia ser, teve apoio de todos.  Acabaram pedindo que ela administrasse o edifício, com isso deixava de pagar o condomínio.   Dois anos depois tinham dinheiro para pagar a colocação de um elevador pequeno, no espaço entre a escada que subia até o último andar.   Os velhos adoravam, assim não sofriam tanto, bem como valorizavam os apartamentos.

Ela mandou arrumar a parte elétrica dos corredores, bem como pintar tudo, uma vez por ano, para que fosse mais claro possível.

O último andar, era uma maravilha, pois eram como dois apartamentos em um só, quando os velhos que viviam ali, foram para uma residência, ela o comprou, reformou transformando em dois apartamentos melhores, para alugar.  Assim engordava suas economias.

Eu de feio, fui me transformando, ela dizia que parecia que saia de um casulo, uma coisa seja verdade era a melhor mãe do mundo.   Começou a dar aulas numa academia de música ali perto, as vezes dava aulas em casa, me ensinou a tocar piano, a cantar desde garoto.

Só não fazia uma coisa, ir à igreja, seja qual fosse, não era com ela.  Lhe perguntei um dia, por isso, pois meus companheiros de escola, a maioria eram católicos, iam fazer primeira comunhão.   Me explicou que não era católica, mas porque eu queria fazer essa parte, como toda criança, pensava na festa, nos presentes que diziam que ia receber.  Riu muito, para isso é necessário uma família imensa, nossa família somos nós dois.   Mas no meu aniversário, ela sempre convidava todos do edifício, para fazer um lanche em casa.  Todos me davam presentes, mas exigia que fossem úteis, livros, jogos que podiam se jogar a duas pessoas, nada do que ganhavam meus companheiros de classe.

Se candidatou ao cargo de professora de música na escola, conseguiu. Montou um coro com os alunos, mas a maioria queria era jogar futebol, basquete, eu não gostava de nada disso.  Fazia parte do coro.

Nossa casa era um exemplo de democracia como ela dizia, eu tinha direito a pedir as coisas, argumentar, mas ela sempre ganhava, pois me obrigava a pensar.  Se pedia alguma coisa tonta porque os outros tinham, me perguntava por quê?

Se meus argumentos vencessem, ganhava, me dizia tens que saber argumentar.

Fui me transformando cada vez mais, era mais moreno que ela, cabelos lisos, olhos escuros, mas fui crescendo, ficando bonito.    As velhas do edifício me adoravam, pois nos momentos livres, me chamava para comprar alguma coisa para elas, me davam um dinheiro por isso.

Sabia o que cada uma gostava, a marca tudo isso, ia ao supermercado perto, com a lista, o dinheiro que me dava, minha mãe me ensinou a administrar, quando tive um bom dinheiro comprei uma das muitas besteiras que os garotos que conhecia tinham, mas logo me desencantei do mesmo, pois surgia outro modelo mais caro, mais moderno.  Se eu nem gostava desse, ela tinha deixado que eu comprasse, pois o dinheiro era meu.

Tens que usar a cabeça, me fez sentar como sempre na nossa mesa da cozinha, pegou a propaganda do que eu tinha, ali dizia que era o mais moderno do mundo, essa baboseiras todas, depois a propagando do novo, era a mesma coisa, agora o mais importante, vamos olhar a parte técnica, me mostrava, na verdade tinha mudado um pouco algumas coisas, mas no fundo era igual ao anterior, me explicou o que era isso, um engana tonto.

Nunca mais gastei dinheiro em besteira.   Houve um concurso de corais entre os colégios, o nosso ganhou.   Eu fazia dois solos, logo vinham me dizer que tinha uma voz muito bonita.

Eu agora estuda num conservatório, depois iria a faculdade como ela tinha feito, tocava piano, bem como sabia ler, escrever músicas.

Mas gostava mesmo era de me sentar ao piano, cantar junto.  No último ano de escola, no show final, sem que ela soubesse, me apresentei, sentado ao piano, cantando sua música preferida, “Over de Rainbow”, os aplausos foram muitos.   Depois toquei minha preferida Moon River, mas a minha maneira.    As pessoas diziam, filho de peixe, peixinho é, pois todo mundo pensava que realmente era filho dela.   Mas claro tinha escutado música a vida inteira, em casa a rádio só se desligava na hora de ir dormir, meu despertador não fazia aquele barulho costumeiro, estava conectado a uma rádio de jazz, me despertava sempre alguma música bonita.

Na universidade, vários caçadores de talento, se apresentaram, mas ela dizia, tenhas cuidado, desconfie sempre de tantos louvores, propostas, analise cada uma.

Acabei formando com uns companheiros um grupo, tocávamos as músicas do momento, era a época dos Beatles, do The Rolling Stones, Elton John, mas me faltava algo, fizemos uma música que foi um sucesso, nos convidaram para ir a um programa de televisão sobre música.

Me perguntaram, como era o cantor do grupo, o que me gostava na realidade, vocês tocam as músicas do momento, mas todos tem formação musical.

Cada um falou a sua, a mim me disseram, cante alguma coisa, eu sabia que ela estava em casa vendo pela televisão.  Falei que a música estava presente na minha casa, desde que abria os olhos, até a hora de ir dormir, que minha mãe era professora de música, 80% do que sabia tinha aprendido dela.

Me pediram para cantar alguma coisa que gostasse, eu nunca poderia depois que sabia da minha história agradecer a ela, pois poderia ter ido a um orfanato, ser abandonado, ou coisa assim.

Por isso, me sentei ao piano, como sempre cantei duas músicas suas preferidas.  O pequeno público aplaudiu de pé.  Houve um intervalo, os outros disseram que tinha sido o máximo, um dos companheiros soltou, estamos no caminho errado.

O mesmo disse o apresentador depois, tens timbre, bem como formação para cantar Jazz.

Eu ri, ela vive me dizendo isso, mas temos que viver nossa juventude, eu nunca parei de cantar nenhuma música que escuto.

Me pediram para cantar outra, ri muito.  Comentei vão dizer que essa música foi feita para uma mulher, mas eu a adoro, podia mudar o contexto da mesma, mas gosto como está, cantei “My Man”, o publico ficou alucinado, pois abaixei o tom da minha voz, cantando quase num sussurro.   O apresentador, riu muito, disse, encontramos no meio de tanto rock, descobrimos um futuro cantor de jazz.  Logo choviam chamadas telefônicas.

Alguém importante me viu cantando, procuravam um cantor para um musical, sobre Jazz, o resto dos cantores eram negros, queriam alguém diferente no meio.

Ela conhecia o musical, tinha feito muito sucesso anos atrás.  Me incentivou a ir fazer o casting, sabia duas músicas do mesmo que tinham feito sucesso, fora do espetáculo.

Ensaiamos os dois em casa, eu cantando ao piano, depois no centro da sala, me dizia, mova-se dentro do ritmo.

Fomos os dois, disse que por nada do mundo ia perder isso.  Se sentou ao fundo do teatro, depois durante anos, fui a gozação das pessoas por isso, o rapaz que vai com sua mãe, ao casting.  Nunca me desculpei, ou consertei isso, tinha orgulho dela.

Fiz como tínhamos ensaiado, fui aprovado de primeira, me disseram que somente teria que fazer aulas de dança para me mover melhor no palco.

Acabou que o espetáculo, era metade de negros, o resto de todas as raças.  Tinha uma música que eu cantava juntos com os outros, o principal deste grupo era um negro com uma voz impressionante.   O rapaz se deslumbrou com a fama, foi encontrado drogado num beco, com uma facada no coração.   Me perguntaram se podia cantar no tom que ele fazia. Ensaiei duas vezes os outros não gostaram porque era a chance deles, o diretor deu oportunidade a todos, mas quem se saia melhor era eu.   A temporada também estava acabando, fiz até o final, emendei com um outro musical da Broadway, sem querer estava realizando o sonho dela.

Se fosse outro, seria o momento de voar do ninho, mas estava tão acostumado a viver com ela, que não tinha por quê.  Tinha aprendido a administrar meu dinheiro, gastava somente o necessário.   Se ia algum programa de televisão, usava uma das roupas do show.

Era para ficar um ano em cartaz, seis meses depois, lhe disse para ela um dia, tomando café da manhã, creio que isso não é para mim, fico chateado de cantar a mesma música todos os dias, ontem me peguei cantando como quem está no chuveiro, com a cabeça em outro lugar, ninguém percebeu, mas eu sim.

Ela sem querer tinha voltado ao meio, montamos um show, os dois cantando, um pequeno grupo, eu ou ela no piano, um contrabaixo, um saxofone, um baterista.  Todos tinham sido alunos dela, nos apresentamos para uma das melhores casa noturna, fomos contratados, para fazer o show, nos dias de semana com menos público, para começar estava bem.

Meses depois fazíamos todos os dias, descansávamos, segunda e terça, mas assinamos o contrato com uma condição, podíamos mudar as músicas sempre que tivéssemos vontade.

As que ficavam melhor, ficavam no show, outras trocávamos, como ela dizia num sistema democrático, todos opinavam.  Logo nos convidavam para apresentar na televisão, a casa estava sempre cheia.   Um dia cantamos os dois nossas músicas preferidos, nos chamaram para gravar nosso primeiro CD, os lucros repartíamos entre todos.

Me chamaram para fazer um filme, era o papel de um cantor de orquestra de jazz.  A principio não queria muito, mas lá fomos para Hollywood, alugamos os dois uma casa em Venice Beach, era longe, mas tinha me apaixonado pelo mar, pelo clima.

O filme fez um sucesso incrível, o que eu não gostava muito eram das músicas, eram boas, mas exigi que fosse com a minha voz natural, nada de imitar o cantor.

Fomos ficando, algumas vezes fazíamos temporada em Las Vegas, outras nas casas noturnas de Los Angeles, nunca parávamos.   Meus dias livres eram para a praia, aprendi a muito custo a fazer surf.  Me apaixonei pela primeira vez, por um homem que também o fazia, tinha um problema no braço, tinha sido militar, ficamos primeiros amigos.  Depois ele aparecia em casa para me escutar cantando.

Minha mãe ao contrário de mim sentia falta de NYC, quando acabamos a última temporada que fazíamos em Los Angeles, me disse, agora tens que seguir sozinho o teu caminho, tinha percebido que eu estava apaixonado, mas não me atrevia a dar um passo em frente, sempre tinha tido namoradas de uma noite, nada mais.  Se acabava também a licença que ela tinha na escola aonde trabalhava.   Sentia falta da sua casa, a tinha tão a sua maneira que lhe fazia falta.

Comecei a me apresentar sozinho, tocando piano, cantando minhas músicas preferidas, nem tinha uma sequência, cantava o que me saia no momento.

Finalmente Brown tomou conta da ação, um dia me disse na cara, como é, vamos ficar nesse lenga, lenga, estou apaixonado por ti, tu também, vamos ficar nesse jogo.  Nesse dia acabamos na cama.   Nunca tinha podido imaginar o que seria algo tão forte.

Fui para uma casa noturna de Las Vegas, ele foi comigo, enquanto cantava, ele fazia a contabilidade do local.  Um dia me disse, esse sujeito é um tonto, se não tomar cuidado vai perder o local.  O dono todos os dias, saia depois de fechar, gastava metade do dinheiro nas mesas de jogo.  Um dia perguntou se não queríamos comprar.   Nos sentamos os dois, tínhamos economias, mas estava longe do mar.   Arrumamos uma casa, nas aforas, numa urbanização, não era grande, mas tinha um bom jardim, bem como piscina.  Nos apanhávamos, minha mãe veio para a remodelação, a convenci de tocar em dias alternados comigo.  Se acostumou a viver com os dois.  Dizia que eu tinha sorte, basta ver como o Brown te olha, te ama muito.

Eu também a ele, essa era a verdade, estava com 35 anos, me sentia completo com ele, volta e meia um casino pedia que eu cantasse com sua orquestra, pois os cantores nunca paravam.

Como o show, tinha um horário concreto, aceitei, não por dinheiro, mas sim pela orquestra, democraticamente como ela dizia, com a sua orientação, fizemos o reportório, eu cantava no nosso local, ela tomava meu relevo, a elogiavam sempre, estava perfeita, seus cabelos bem penteados, uma maquilagem suave, roupas de bom gosto.

Fiz sucesso, Brown ficou com um pouco de ciúmes, pois levava muitas cantadas, mas não me interessavam, acabava o show, ia para o nosso local.

Quando acabou a temporada, estávamos exaustos, vendemos o local, a casa não era problema, fomos passar uma temporada em NYC, chegamos em plena canícula de verão, adorava andar de bermudas, camiseta pela cidade.  Um dia numa praça, encontrei o meu saxofonista tocando ali, estava mal, me parei ao seu lado, ele tocava uma das nossas músicas, comecei a cantar, primeiro ficou espantado, depois se animou, ficamos ali quase uma hora, tocando todo o reportório que fazíamos antes, ele ria, porque a caixa de seu instrumento não parava de cair moedas, notas de cinco.

Quando paramos, Brown, ria, deviam ter aqui um cd para vender, os dois juntos nem precisam trabalhar muito.

Soube que estava vivendo um abrigo, tinha perdido tudo, pelas drogas, mas estava recuperado, nesse dia, comprei um piano elétrico, desses fáceis de levar, aluguei um pequeno apartamento perto de casa para ele, ia comer conosco todos os dias.

Nos dias de verão, nos apresentávamos em vários lugares, até que um dia um repórter nos viu, ficou espantado, porque eu fazia isso.  Tomamos um café, contei a história.

Estou me divertindo, ele ganhando dinheiro, pois lhe dava toda a arrecadação.  Brown descobriu os cds numa loja em saldos, comprou todos, colocava ali para vender.

O puto reporte trouxe gente da televisão para nos gravar, logo choveram convites para nos apresentar.  Voltamos ao mesmo club de aonde saímos, Simba era negro como um carvão um dia soltou quando estávamos ensaiando uma música que sempre tinha sido apaixonado por mim, mas não tinha tido coragem de se aproximar, agora que tenho, tens o Brown.

Brown fazia toda a parte administrativa, aplicava nosso dinheiro, ia aos bancos, os dois vivíamos num dos apartamentos do último andar, minha mãe continuava no seu. Quando do outro lado ficou livre, Simba veio viver nele, as vezes me dizia que lhe doía nos ver juntos, mas Brown o tratava de maneira especial, como se soubesse de alguma coisa, eu nunca falei nada.

Estava ele um dia num banco, depositando nosso dinheiro, quando o mesmo foi assaltado, ele com seu tipo de militar, se mexeu quando não devia, pensaram que tinha uma arma, atiraram na cabeça dele.   Morreu no ato, quando a policia apareceu, não sabia o que fazer, quem me ajudou foi minha mãe, bem como o Simba.

Fiquei no fundo muitos dias, não era capaz de cantar, tocar, de fazer nada.  A casa rescindiu nosso contrato, me vi de novo cantando com Simba pelas ruas, como para me recuperar.

Gostava de fazer isso, ninguém nunca ia imaginar que precisasse de dinheiro, era pelo prazer.

Nos convidaram para participar numa cidade costeira, de um festival de Jazz, ao ar livres.

Era o fim do verão, fomos, eu sentia uma falta incrível de Venice Beach, aonde tinha sido tão feliz.   Logo depois do festival, enquanto pensava na vida, minha mãe morreu.

Desci para tomar café, nos últimos meses ficava mais tempo na cama, estava agora com os cabelos todos brancos, mas sempre arrumados como ela gostava.  Entrei, a chamei, não me respondeu, fui até seu quarto, a vi na cama, dormindo placidamente, a chamei outra vez, mas era tarde, tinha morrido dormindo.

Na leitura do testamento, fiquei vendo como tinha dinheiro, ela sabia investir muito bem seu dinheiro.  Ri muito quando descobri uma conta que entendi que era o dinheiro dos shows que fazíamos juntos.

Desci para viver em sua casa, convidei o Simba para viver comigo, ele entendeu outra coisa, lhe disse que me desculpasse, mas ainda me doía a falta do Brown, não era capaz de me interessar, ele recebeu um convite para tocar em Toronto, resolveu aceitar.

Fiquei literalmente sozinho.   Aluguei os apartamentos de cima, com uma parte do meu dinheiro e do Brown, voltei para Venice Beach.   Recomecei outra vez a tocar nos lugares, agora com quase quarenta anos, era um belo desconhecido outra vez.

O que me surpreendeu que pela primeira vez, conseguia compor músicas, tinha aprendido isso quando estudava, mas era como se tivesse ficado guardado um alguma caixa esquecida da minha mente.

Quando tinha um bom número delas me apresentei num casa de jazz, aonde tinha tocado em Los Angeles, fez sucesso, logo gravaram todas as músicas.  Ganhei um prêmio, gostava dessa nova faceta, me chamaram para fazer a trilha sonora de um filme, li o argumento, bem como tinha uma ideia para musica incidental, preparei com queria o projeto.

Tive que ir a NYC, por um problema com um inquilino, resolvi vender tudo, tinha saído do clima de Venice Beach, para o puto inverno de NYC, pensei já não quero viver aqui, fiquei com um dos apartamentos de cima, mandei transportar para lá o piano da minha mãe, meus livros, nada mais. Vendi o grande, bem como o outro, assim se precisasse tinha um pouso.

Transferi toda a conta para perto de casa.   Um dia conversando com um amigo na praia, esse me contou que ajudava num orfanato, se eu não queria dar aulas de música lá.  Contei para ele, que se não fosse minha mãe teria acabado num, falei do que tinha acontecido.

Passei a ir, fazia sucesso com os garotos, chegava com meu piano elétrico, dava aulas, encontrei uns dois com alma de músicos, fiz uma coisa, institui bolsa de estudos, em nome da minha mãe, assim esses garotos podiam ir a um conservatório de música, entre meu amigo Donald e eu, os levamos para as aulas.

Um dia apareceu um menino novo no lugar.  Seus pais tinham sido artistas, morreram nas drogas, o garoto me viu ao piano, se sentou ao lado, sem saber por que comecei a cantar para a garotada “Over de Rainbow”, ele sabia a letra, começou a cantar comigo.

Me apaixonei por ele, perguntei se podia adota-lo.   A diretora, disse que estavam tentando localizar algum familiar dos pais, mas não encontraram nada.  Ela moveu seus contatos, o consegui adotar, lhe dei meu sobrenome.  O dele era divertido, era Punk, como um personagem do Shakespeare, ri muito com isso, era tudo que ele sabia dele.

Agora tinha uma família outra vez.