lunes, 16 de enero de 2023

JORGE DA CAPADÓCIA

 

                            

 

Despertou rindo, tinha sonhado com São Jorge falando com ele, de fundo escutava a música de Jorge Ben Jor, ria sempre com isso, pois sabia que seu dia seria melhor.

Sua mãe era apaixonada por Jorge Ben Jor, quando ele compôs essa música ela não duvidou nenhum minuto em coloca-la no bebê que estava por nascer, todo mundo ria, pois ela não tinha ideia se seria homem ou mulher.

Meu pai foi contra desde o princípio, ele era filho de santo de Xangô, queria que meu nome fosse o símbolo do mesmo.  Ficava dizendo o tempo todo que ela iria contrariar seu santo.

Pior nasci no dia que se comemorava São Jorge, uma grande festa ali no centro da cidade, na igreja dedicada a ele, ela trabalhava numa loja justo em frente, viviam os dois na mangueira.

Logo cedo, quando o sino da igreja começou a tocar, ela trabalhava tranquilamente, pois tinha errado nas contas, achava que eu só nasceria um mês depois.

Estava atendendo uma cliente, que aproveitava que tinha vindo trazer oferenda na igreja, quando rompeu águas.

O menino nasceu ali mesmo, as amigas logo disseram, nasceu no dia dele, vai ser protegido por ele.  Imagina nascer ali em pleno Saara, na Rua da Alfândega, foi um corre, corre, desgraçado, acho que nesse momento, ficou marcada a minha vida, estar sempre no meio da confusão, mas com São Jorge me protegendo.

Imagina alguém se chamar Jorge da Capadócia Silva Santos, pois bem esse é meu nome. Um pouco grande para um pobre.  Quando na escola na lista de chamada, como havia por ali muitos Jorge, a professora dizia alto em bom som, Jorge da Capadócia, todo mundo ria.

Eu a princípio ficava zangado, mas depois me acostumei.  Minha mãe no meu aniversário, para contrariar meu pai, colocava em vez de parabéns, Jorge da Capadócia, cantada por Jorge Ben Jor.

Eles iam trabalhar, me deixava ali numa escola, perto do Campo de Santana, aonde eu passava o dia inteiro.   Ela trabalhou nessa loja até morrer, ele trabalhava na construção. Vivíamos num barraco lá na Mangueira.

Minha mãe dizia que eu não podia escutar a bateria, que começa a dançar, em pequeno, era como se me colocasse uma bateria.

Mas talvez o fato de terem que me deixar em algum lugar para trabalhar, me isolou dos garotos da favela, que desde jovem caiam nas drogas.

Meu pai tinha um padrinho, um coronel da aeronáutica, esse quando fiquei maior, me meteu na escola interno em Barbacena, talvez tenha sido minha salvação.   Só vinha para casa nas férias, era uma festa, ela também tirava férias para estar com seu filho querido.  Eu sempre me questionava por que a vida deles nunca melhorava, levei anos para entender isso, claro com o salário de merda que ganhavam, sobreviviam.  Isso ela não queria para mim.

O Coronel Antônio dos Prazeres entendia meus pais, pois seu único filho tinha se perdido justo aí, nas drogas, ele bem como sua mulher que eu chamava de madrinha, praticamente me adotaram quando eu tinha uns 15 anos, minha mãe morreu, num assalto no ônibus, voltando para casa, cansada do trabalho.  Entrou um filho da puta no ônibus para assaltar para comprar drogas, como ninguém queria dar, deu um tiro, acertando justamente nela.

Meu pai ficou perdido, pois quem vestia as calças em casa era ela.  Só assentou cabeça quando encontrou outra mulher dura de roer, mas que não me queria em sua casa.

O jeito foi seguir na escola, depois vim morar na casa do Coronel dos Prazeres.  Eles dois ficaram me incentivando a entrar para a universidade, pois esse era o sonho dos dois, vivíamos ali no Rio Comprido. Eu de uma certa maneira estava cansado de estar preso, como tinha estado interno na escola.

Pensei muito bem o que queria fazer, ele riu.  Imaginem um mulato claro, cabelos crespos, olhos verdes, que herdei de algum antepassado, 1,85 metros de altura.  Queria fazer arquitetura.  Eles me deram força, bem como um carro de segunda mão, para me deslocar a universidade do Fundão.  Tinha sido bom aluno, passei com uma boa colocação no vestibular.

No final do primeiro ano, eu pensando quando chegasse as férias ia poder fazer uma coisa que amava, me dedicar ao surf, com minha velha prancha de segunda mão.  Nada disso o Coronel arrumou para que fosse trabalhar durante as férias num escritório de arquitetura de um amigo dele no centro da cidade.  Entre centro da cidade, Ipanema, havia uma grande diferença.

Mas fui, adorava a madrinha, bem como respeitava o coronel, sabia que devia demasiado a eles que me queriam como filho.  Eu entendia, eles não queriam de maneira nenhuma que eu caísse nas tentações da juventude.

Quando começavam os ensaios da mangueira, íamos uma vez por mês, assim eu via meu pai, acabado, frustrado com sua vida, sempre que me via, falava da minha mãe, que mulher como ela eu jamais encontraria, eu concordava.

Nos outros finais de semana, eu ia a praia com minha velha prancha para fazer surf, todos me olhavam de lado, pois a maioria tinha das novas.

Não me incomodava, eu gostava mesmo era de estar dentro d’água, aonde me sentia um peixe a mais.

No escritório eu não passava a principio de um office boy, pau para toda obra, mas não me importava, pois ganhava algo.

Eu escutava sempre alguém falado ou reclamando dos cálculos de estrutura, no escritório, o contratavam por fora para os grandes projetos, sem eles nada parava em pé.

Tinha um companheiro que cada vez que via um sujeito trazendo o cálculo do projeto, dizia esse sim sabe ganhar dinheiro.

Me interessei sobre o assunto, pois era fera em matemática, mas depois descobri que ia além disso.   Fui a secretária me informar, me disseram que eu poderia já ir fazendo por fora, como uma especialização, ou terminar o curso dentro de dois anos para fazer.  Se o vais fazendo agora, quando acabe o curso, terás dois diplomas.

Falei com o padrinho, junto com a madrinha, para saber o que achavam.  Ele foi se informar, era uma verdade, cada projeto, o arquiteto que fazia os cálculos, ganhavam uma boa mordida no orçamento.

Me disse que fosse em frente, eu conseguia conciliar meus horários, embora não me deixasse tempo para nada, já ia bem adiantado no curso, quando um dia escutei um engenheiro que trabalhava ali, reclamar, que havia algum erro no projeto, pois tinha se esquecido, que claro o edifício ficava na Barra da Tijuca, seria construído em cima da areia.

Vi o projeto ali jogado, me sentei comecei a fazer os cálculos, realmente havia um erro, recomecei outra vez, vi aonde estava o erro, comentei com o engenheiro, ele me arrastou ao escritório do chefe, tive que comentar que estava fazendo o curso nesse momento, me faltavam meses para acabar, que quando terminasse, teria dois diplomas.

Agora cada projeto que chegava do escritório que fazia os cálculos, me pedia para refazer.

Rápido me dei conta, porque um colega trabalhava ali, que raramente iam olhar o local, examinar a terra, até uma certa profundidade, uma coisa essencial nos cálculos.   Tinha aprendido que teria que analisar a terra, a inclinação, tudo a respeito aonde ia se construir.

Com isso fui refazendo os projetos todos, que voltavam, para ver se estava certo, não reclamava, pois estava aprendendo.   Ia até o local da obra, analisava tudo, voltava com um bloco cheio de anotações.

Quando acabei o curso, além da festa que meus padrinhos fizeram, veio meu pai também com seu filho pequeno.  Ele tinha inveja de mim, eu dele, por estar perto do meu velho.

No dia seguinte o arquiteto chefe me chamou, pensei, claro já não necessitam de um estagiário, vão me colocar na rua.

Era ao contrário, tinha feito uma reunião, ele bem como seu sócio, queriam me contratar, para ao contrário de mandarem os cálculos para fora, que eu os fizesse.   Me pagariam bem, para mim era um bom dinheiro.

Falei com os padrinhos.

A resposta sempre certa do velho coronel, era, tens que começar em algum lugar, ai eles já te conhecem, tudo bem se fosses por fora, ias ganhar mais, mas ninguém te conhece, deixe teu nome aparecer no projeto, isso era uma coisa obrigatória, pois tinha que aparecer quem tinha feito o cálculo de estrutura.

Aceitei, tinha agora uma sala só para mim, além da inveja dos outros.  Mas eu pensava sempre, Jorge me protege.

Ao contrário dos outros ia as obras, observava as pessoas trabalhando, me atrevia a examinar cada detalhe.   Um dia notei que o cimento era uma merda, estava muito molhado.  Era uma empresa subcontratada, falei com o chefe, este ficou uma fúria, pois a mesma era do seu cunhado.  Esse filho da puta, sempre querendo ganhar mais dinheiro.

No que mandou analisar, fez um escândalo imenso, pois claro havia um perigo nisso, as construções na Barra da Tijuca, tinham que ser perfeitas.

Um dos problemas, era que os arquitetos mal saiam do escritório. Alegavam que ir a Barra da Tijuca e voltar, perdiam muito tempo.

Ele como sempre explodia, resolveu mudar o escritório para lá.   Eu arrumei um pequeno apartamento, logo no inicio na parte antiga, que em alguns anos iria desaparecer, para dar lugar a edifícios imensos.   Nos finais de semana, os padrinhos, vinham com meu pai, que estava agora com a cabeça quase toda branca, tinha se aposentado, mas ganhava uma miséria, quando ia embora, eu sempre arrumava um jeito de lhe enfiar dinheiro no bolso.

Ele sorria, eres igual tua mãe, fazia tudo muito simples, para ninguém prestar atenção. Ela estaria feliz com o rumo da tua vida.

Não tinha muito tempo para nada, mas a menor folga, escapava para a praia, fazer surf, isso era uma delícia.    A empresa estava construindo por ali, tinham demolido dois edifícios antigos, iam construir um de uma maneira que queria experimentar, mais moderna, grandes com varanda de frente para o mar.  Trabalhei como um louco nesse projeto, pois por baixo tinha um lençol de água, fiquei estudando todas as opções, pois no momento que demoliram os dois edifícios, se viu que a estrutura estava toda enferrujada.

Comecei a ler, sobre um sistema novo que se usava na Europa.  Meu chefe muito esperto, me deu um bilhete de avião, bem como contato com os fabricantes, para ver como funcionava.

Imaginem que apesar de ter estudado na escola da aeronáutica, nunca tinha feito um voo tão grande.  Se tratava de saber mais que os outros, estudar, isso era comigo.

Madrinha se preocupava porque não tinha nenhum romance sério.  Era uma verdade, tinha romances relâmpagos de uma só noite, nada mais.  Garotas que se impressionavam comigo, mas quando viam meu velho carro, não tinha coragem de me desfazer dele, davam no pé.

Ou quando viam meu apartamento pequeno, apertado, cheio de livros, projetos pelas paredes, deviam pensar esse não vai a lugar nenhum.

Mal sabiam que eu estava fazendo uma caixinha para um dia desses montar um escritório só para mim, já era conhecido.

Embarquei, não sei por que me veio a cabeça a música preferida da minha mãe, Jorge da Capadócia.  Aquilo foi como um estalo na minha cabeça.  Ainda pensei, Jorge, abre meus caminhos.

Foi o que aconteceu. Fui para passar uns 15 dias na fábrica, me viram tão empenhados, embora todos falassem francês, o meu era rudimentar, entendia, anotava, procurava encontrar defeitos.

Antes de ir embora, fui convidado para almoçar com o dono da fábrica.  Foi claro comigo, preciso de gente como tu, que se esforça ao máximo, para isso.

Queres vir trabalhar aqui, escreveu num papel, o que me pagaria por mês, era meu salário de dois anos, fiz os cálculos mentalmente, transformando os valores ao câmbio do dia.

Me faziam um contrato para dois anos, depois me associaria ao projeto que tinham para as zonas de praia do Brasil.   Disse que ia pensar.

No hotel, apesar do fuso horário, telefonei para os padrinhos, levam um susto de fazer gosto.

Contei para eles o que tinham me oferecido, o que achavam que devia fazer?

Nunca cuspa no prato que comeste esse tempo todo.  Acho que deves vir até aqui, resolver esse projeto, falar da oferta, voltar para aí, vamos sentir tua falta, mas é a tua vida.

Falei outra vez com o dono da empresa.

Mandariam um sistema para resolverem o problema imediato do edifício, mas eu tinha que assinar um contrato antes.

Sai da sala dele, telefonei para o meu chefe no Rio, comentei, ele aplaudia, acho fantástico, diga a ele que me interessa ser sócio dele quando venha para o Brasil.

Venha nos oriente nesse projeto, depois a vida é tua.

Foi o que fiz, ia sentir muita falta do mar.  Mas antes de ir embora, fui a igreja de São Jorge, na frente aonde tinha nascido, rezei muito pela minha mãe, que ele me desse proteção.  Nunca tinha tido tempo para ser muito religioso.  Mas ele sempre estava na minha cabeça.

Depois atravessei a rua, me apresentei para algumas amigas da minha mãe, que riram muito, a maioria estava para se aposentar, como elas diziam com um salário de merda.  Uma delas, que tinha inclusive ajudado minha mãe no parto, riu, imagine, era meu primeiro dia aqui, a chefa na minha frente diz ui, só vejo água caído pelas suas pernas, com a confusão da festa de São Jorge imagina como estava isso aqui.

Corri por um lençol, na loja do lado, logo em seguida nasceste tu.

Me contou que nunca tinha se casado, pois não queria filhos, meus irmãos todos acabaram nas drogas, numa vida desgraçada.  Eu nunca pude estudar, mas fico feliz em te ver, imagino como estaria tua mãe sabendo disso.

Meu pai, apareceu no almoço de despedida que os padrinhos fizeram ali no Rio Comprido, estava baleado, de tanto trabalhar, em coisas que já nem podia. Como sempre vinha com o seu filho pequeno.   Este estava chateado, pois queria seguir estudando, mas claro não havia dinheiro.  Me afastei com ele, perguntei o que queria estudar.

Quero ser médico, foi taxativo.

Muito bem, vou te ajudar, falarei com meu padrinho, enviarei dinheiro para teu curso, através dele, está velho, mas não se esqueça é um coronel.

Eu sei, ele já vem me ajudando. Me disseram para vir viver aqui, mas quem vai cuidar do velho, minha mãe desapareceu a muito tempo, agora somos só os dois.

Me sentei quando foram embora com os padrinhos, falei longamente com eles, eu mandaria dinheiro sempre, mas que eles controlassem.  Nos fundos da casa deles, tinha um pequeno apartamento em cima da garagem, já disse para teu pai vir viver aqui, mas ele acha que é por caridade.  Nesse dia subi a mangueira de noite para falar com o velho, arrastei os dois sem admitir discussão nenhuma, lhe fiz ver que o menino tinha direito a seguir em frente.  Os padrinhos tinham me ajudado, senão não estaria aonde estou.  Tanto falei que ele aceitou.

Fui embora mais tranquilo, assim pelo menos ele teria um final de vida mais cuidado, ao lado dos amigos de sempre, bem como meu irmão, Juca poderia ir à universidade.

Cumpri o prometido, todos os meses fazia um deposito para o Coronel, assim ele controlava tudo.  Dizia quando eu telefonava, que mandava a mais, mas dizia que era para os remédios do velho.

Mandava fotos do apartamento que o dono da empresa tinha alugado para mim, me dediquei a trabalhar, fazia um curso pelas noites para falar melhor a língua, poder me comunicar com os operários.

Sem querer o trabalho me proporcionou, oportunidades, que nunca poderia agradecer, quando eram consultados por algum pais, para um projeto, me mandavam, primeiro ir olhar a estrutura que queriam restaurar, examinar o que existia ali, nisso conheci a Espanha, Itália, Alemanha, mas principalmente a própria França.

Fiz nome, escrevi artigos para revistas, falando do nosso produto, explicando o uso, como se devia analisar tudo.  Fui convidado para dar palestras em universidades.  Estava feliz, claro o único que me faltava era uma família, principalmente a praia.

Quando meu pai morreu, voei na mesma noite para o Rio de Janeiro, chegar, sentir o mal cheiro da cidade, que te batia na cara mal saia do Aeroporto, era foda. 

Lá estava meu irmão Juca, mais bonito do que eu me lembrava.  Estava arrasado, eu sentia, porque era meu pai, mas sentiria mais se fossem os padrinhos.

Fizemos o enterro, o coloquei ao lado da minha mãe, Juca chorou nos meus braços, ele em breve acabava medicina, queria fazer uma especialização, lhe disse que podia contar comigo.

Os padrinhos também estavam velhos, era duro ver isso.

Juca estava fazendo especialização ali no hospital da Aeronáutica, ali no Rio Comprido, me disse em que.  Fiquei de olhar para ele, assim ele poderia ir para fora.

Mais uma vez ele me disse, como vou deixar esses dois sozinhos.  Quem estava na porta, foi o velho coronel.

O abraçou, nem pensar, os filhos são para voar, se teu irmão te consegue isso, iremos para uma casa de pessoas de idade lá pelos lados de Jacarepaguá, teremos uma boa vida no final, mas o melhor foi ter ajudado vocês dois que foram como filhos para nós, a ir em frente.

Seis meses depois, consegui o que ele queria, um hospital em Paris, que trabalhava justamente no que ele queria.

Meu chefe é claro, mediou tudo.

Um dia estava conversando com ele, tinha se divorciado recentemente, teve que soltar um bom lastre de dinheiro para a ex-mulher, pelo divórcio, ela ameaçava um escândalo, que para ele seria uma merda.

Me soltou a queima roupa, descobriu que eu tinha um romance, com um velho companheiro de universidade.  Eu conhecia o sujeito, era também casado.

Mas deu uma só cacetada, levei duas, pois ele, aceitou uma oferta de sua empresa que queria a anos que fosse para os Estados Unidos.   Me largaram na sarjeta.

Os dois começamos a sair juntos, ir jantar, tomar um vinho, acabamos na cama nem sei como.

Me contou a crise de ciúmes que seu namorado anterior tinha tido, quando me contratou, dizia que tinha outros interesses.

Só que esses interesses levaram anos para acontecer.

Nas primeiras férias juntos, o levei ao Rio de Janeiro, para conhecer o carnaval.  Quando me viu sambando ficou como louco.  Me dizia depois ao ouvido, só de pensar que eres meu, ficava orgulhoso.

Matei a vontade de fazer surf.  Voltamos, um dia que estava com ele em Paris, dei de cara com meu irmão Juca.

Este estava acompanhado de uma loira daquelas de capa de revista.  Disse que iria acabar o curso em breve, lhe apresentei o Jean dizendo que ele tinha feito possível seu sonho, não fui eu quem conseguiu isso para ti.

Me perguntou se eu tinha mudado de endereço, enquanto Jean conversava com sua namorada, dei uma volta com ele ao quarteirão, contei o que tinha acontecido, que eu agora vivia com ele.

Fui honesto, nunca pensei que fosse amar a um homem, mas aconteceu, além de ser meu melhor amigo.

Contei que tinha ido com o Jean, muitas vezes visitar os padrinhos em Jacarepaguá, me disseram que os chama sempre.  Pois é, estão velhos, dei um dinheiro por fora, para eles poderem ter uma boa vida lá, afinal nos ajudaram aos dois.

Não sabia disso?

Pois é, custa caro, ele mantém tudo com sua aposentadoria, sabe como é na pátria amada, enquanto produzes bem, depois estás de escanteio.

Me perguntou se pensava em voltar ao Brasil, para montar a tal fabrica.

Andamos olhando, mas vejo que os interesses não são os mesmos. Querem como sempre ganhar dinheiro fácil, enganar o sócio estrangeiro.

Jean, como eu, não tem filhos, esta contente com o que conseguiu.  Eu mais ainda porque me projetou para o mundo vamos dizer assim.  Esse mês iremos para Londres, darei durante uma semana aulas em Oxford, para alunos que se especializam.

Não posso pedir mais da vida.  Rindo contei para ele, que tinha levado o Jean, para visitar o lugar que tinha nascido.  Tive que explicar muito, a loja que minha mãe trabalhava, não existe mais, tudo está vindo abaixo ali no Saara.

E tu, pensas em voltar?

Tive um convite para ficar, mas queria justamente falar contigo.  O que achas.

Nos sentamos numa mesa, fiz os cálculos com ele, valia a pena ele ficar. Qualquer coisa te ajudo.

Nada disso, isso já fizeste o bastante, senão teria terminado como meus irmãos, no tráfico de drogas, fudidos, nem sei se algum esta vivo hoje em dia.

Ele foi ficando, chegou a se casar com aquela beleza toda, os dois filhos dele, são meus afilhados.

Jean, foi meu primeiro amor com outro homem, quando se cansou, passou a fábrica para frente, eu fui dar aulas a convite da universidade em Aix en Provence, seguimos vivendo por lá, pelo menos eu tinha o mar por perto.

Mas tinha um sonho, sem querer por dar aulas na universidade, fui com os alunos a Capadócia na Turquia, foi como voltar para casa, me apaixonei.

Consegui com o governo Turco licença para fazer um estudo sobre as cidades subterrâneas, imaginar como tinham sido concebidas.  Foi o máximo, fui para ficar um mês, acabei me interessando por milhões de coisas da área, aprendi a língua, acabei dando aulas na universidade de lá.

Me interessava apesar de parecer absurdo para alguns, como tinham se engenhado para construir essas cidades, pois, era como ir escavando para baixo sempre.  Fazia mapas detalhados do lugar, depois explorava o do andar de baixo, documentava tudo. Para ver como se encaixavam no final.

Escrevi um livro sobre isso.  Fiz aulas com um professor da universidade de Istambul, ele me levou para conhecer a cidade subterrânea, que existia por debaixo da cidade.  Era impressionante, por isso podia viver muito tempo, durante qualquer cerco a cidade.

Estava explorando uma via de acesso, que tinham certeza de que iria dar ao porto, por aonde podia receber abastecimento. 

Jean dizia que esse professor estava apaixonado por mim.   Um dia comentou de durante minha ausência tinha conhecido outra pessoa, que estava apaixonado.  Eu entendi, estava fora de casa meses, lhe desejei boa sorte na sua nova aventura.

Consegui financiamento para explorar tudo o que estava fazendo, o governo Turco me deu permissão para seguir com o professor Ismael, fazendo o trabalho, íamos detalhando tudo, ele sabia como eu era bom desenhando mapas, observando, medindo as estruturas, a pouco tempo, na construção de um edifício muito alto nessa zona, ao colocarem as novas estruturas, tinham afundado.  Fizemos os dois um informe detalhado, acabamos encontrado a via que dava justamente ao túnel que ia até o porto, inclusive uma via, que levava fora da muralha.

Estava feliz, era como se pagasse ao Jorge da Capadócia tudo que tinha feito por mim.

Recebi junto ao Ismael, uma comenda do governo turco.  Agora falava bem a língua, contei a minha história.  No dia seguinte saia nos Jornais.  Para essa cerimonia, veio meu irmão com a família.  Foi uma festa.

Ismael, um dia que quase morremos numa das nossas aventuras embaixo da terra, ele tinha ficado preso, embaixo de um desmoronamento, mandei buscar socorro, mas fiquei com ele, pensou que ia morrer, se declarou para mim.

Passamos a viver juntos, numa vila que comprei com o dinheiro que tinha, uma vez por ano, saia pelos países que me convidavam para falar sobre a Capadócia, bem como nosso trabalho em Istanbul, íamos os dois, eram nossas férias.

Quando ficamos mais velhos, numa das pesquisas que fazíamos, descobrimos, uma cidade antiga, tudo começou por curiosidade, já sabíamos que ali, se levanta uma pedra, descobre algo.  A pequena cidade, embaixo, era uma dessas de veraneio, simplesmente.

Tinha uma pequena enseada.  Subíamos a montanha que estava por detrás, para fazer fotos, achei estranho, uma parte de terra que tinha desmoronado, começamos a imaginar, encontramos uma torre, a equipe de arqueólogos, nos convidou para participar, tínhamos nos conhecido em Istambul, durante nosso trabalho.

Encontrei uma nova paixão, junto com o Ismael, participávamos com os jovens estudantes abrindo a terra para encontrar uma cidade, que devia ter sido comercial, a torre era como um sistema de vigia.  Datava de séculos antes de Cristo, foi emocionante.  A cidade nos agradeceu, encontramos uma casa, ficamos vivendo lá, eu encantado, pelo menos podia tomar banho de mar.   Acabamos escrevendo dois livros sobre o local, agora nos estudavam pelo que tínhamos feito em Istambul, bem como dessa nova descoberta.

Chegamos a acreditar, inclusive ao encontrarmos uma espécie de cripta, que por ali tinham andado os cruzados, mas quando os arqueólogos examinaram, era um lugar de repouso de algum guerreiro de Saladino.   A cidade tinha sido destruída justamente nessa época, pelos cruzados, o tempo a sepultou.

Quando escrevíamos era ao mesmo tempo, eu o fazia em francês, ele em árabe, depois trocávamos ideias a respeito.

Recebi um convite para ir ao Rio de Janeiro falar sobre isso.  Me informei direito, era para meia dúzia de gatos pingados, foi mais fácil convida-los através do governo Turco para que viesse, conhecessem em primeira mão, o que tinha feito por ali.  Se uniu ao grupo o embaixador brasileiro, o tratei como qualquer um, estivemos na Capadócia, aonde contei o porquê do meu nome, depois o que o trabalho por debaixo da cidade, por sorte o tal embaixador sofria claustrofobia não se atreveu a descer.  Depois os levei ao último trabalho, que não tinha acabado ainda.

Por isso queriam que fosse a Brasília para receber uma comenda, me recusei, já não pensava mais em voltar ao Brasil, quando me entrevistaram a respeito, eu soltei na cara, já não devia favores a ninguém, muito menos para o governo.  Soltei que deviam ajudar mais aos estudantes para irem em frente, claro como sempre não gostaram.

Mas tinha minha vida organizada ali, vivia feliz com o Ismael, estávamos sempre mergulhados no que ainda se ia descobrindo, ao final, agora se chegava aonde tinha sido a muralha que protegia a cidade.

Mas nossa casa a beira do mar, era fantástica.  Agora era só esperar o final, pois tinha noção que isso aconteceria, tinha passado por muitos estágios em minha vida.  Afinal tinha uma paz interior, fantástica, pois imaginem um garoto que nasceu ali em plena rua da Alfandega, na frente da Igreja de São Jorge, chegar aonde cheguei.

Meu irmão Juca hoje era famoso em sua especialidade, tinha a mesma noção do que eu, que nunca dariam valor ao que ele fazia.   Vinha agora todas as férias passar dias conosco.

Nunca poderíamos esquecer dos Padrinhos, soubemos que tinham morrido, já meses depois de os terem enterrados, mas na minha última ida até lá, ele foi também, visitamos os dois no cemitério, mandamos rezar uma missa na igreja de São Jorge, para eles.

Fechei a porta, para qualquer lembrança do pais, pois não valia a pena.

 

 

 

 

 

lunes, 9 de enero de 2023

FRIEND'S FOREVER

 


 

 

Olho para trás, sinto um vazio imenso.  Sou o único que resta de uma amizade entre três amigos, ontem me aposentei, a festa foi concorrida, embora sentisse já esse vazio, faltavam meus amigos mais íntimos ali.  Olhava pelo vasto salão, cheio a rebentar, mas não os encontrava, me dei conta que finalmente estou ficando velho, que olho para trás procurando esses amigos que já não estão.

Foram tantos anos de amizade, que só de pensar, as lagrimas escorrem pela minha cara, sem vergonha nenhuma.  Neste casarão que pertenceu a minha família por gerações, que em breve ficará vazio, o deixarei para uma instituição de caridade, que o venda, faça bom uso dele.

Olho os quadros de J. Mara pelas paredes, fico pensando, se pudesse levar para o outro lado, qual levaria, todos tem grande importância na minha vida.  Mas acredito que levaria, um que tenho na minha mesa de cabeceira, que Jiro fez, quando estávamos na escola, é um desenho a lápis, aonde estamos os três.  Ele dizia que tinha se colocado no retrato, porque sempre seriamos amigos de alma.   Grande verdade.

Nos conhecemos no primeiro dia de aula, os três descobrimos depois, nascemos com dias de diferença, mas na mesma semana.  Íamos de mãos dadas com nossas mães, os três diferentes como gotas de água. Jiro descendente de japonês, Bruno de italianos, eu de irlandeses, nada mais distantes um do outro.  Mas nós olhamos, vimos que o resto da turma não interessava.

Nos sentamos todos juntos, um perto do outro, quando a professora disse o nome de cada um, o guardamos para sempre, no recreio já nos juntamos.

Cada um também tinha pais com empregos ou trabalho diferentes, meu pai, era advogado, o do Jiro tinha um restaurante de Sushi, além de dar classe de artes marciais, o do Bruno era gerente de um restaurante italiano em Little Italy, mas vivíamos todos no mesmo quarteirão em Staten Island.

Acabou que nossas mães tão diferentes uma da outra, acabaram amigas, pois todos os dias iam nos levar, como buscar.  Com o tempo, começaram depois de nos deixar, irem tomar um café, fazer compras juntas, foram amigas para o resto de suas vidas.

Já nossos pais, foi mais difícil, meu pai dizia que o pai do Bruno era da Máfia, pois o restaurante que dirigia pertencia a uma família mafiosa.  Descobriria depois que ele odiava esse trabalho, quanto ao pai do Jiro, não gostava por causa das artes marciais.

Mas sem querer acabaram amigos. 

Sem dúvida nenhuma devíamos ser uma grande decepção para eles, nenhum dos três, gostava muito do esporte, mas nos saímos bem nas aulas do pai do Jiro.  Acabaram indo nos ver lutar, nisso na verdade erámos bons, todos chegamos à faixa preta a categoria máxima, creio que foi isso que no final os uniu.   Num dos campeonatos, defendendo Staten Island, ganhamos os três, fizeram uma comemoração conjunta, imagine a confusão de comida, churrasco, com sushi e macarrão, isso virou uma coisa de sempre, pois passamos a comemorar nossos aniversários juntos.

Depois já maiores, não necessitávamos que nossas mães nos levassem, os três caminhávamos para a escola todos os dias, o ponto de partida era a esquina da minha casa, dali partíamos.

Começamos a aprender artes marciais, pois, o famoso bullying que se fala hoje em dia, já existia.  Assim nos defendíamos uns aos outros.  O que incomodava os outros, era que estávamos sempre conversando, fazíamos tudo juntos, um ia ao banheiro, os outros dois também, se jogávamos bola, ou basquete, na mesma equipe sempre.  Não adiantava o professor tentar nos separar, nos recusávamos a fazer o que ele dizia.

Em contrapartida, fomos sempre as notas mais altas da classe, um ensinava ao outro o que não entendia.  Nas provas os professores nos separavam, pois achavam que copiávamos um do outro, o que não era verdade.

Quando chegou a idade de descobrir o sexo, o fizemos juntos, nos escondíamos no porão da casa do Bruno, experimentamos tudo.  No fundo creio que nos amávamos muito, quanto ao amor de um pelo outro, descobri muito mais tarde que era como um círculo.

Mas sexo, descobrimos com um vizinho do Bruno.  Esse um dia nos contou que tinha um vizinho, inspetor de polícia, que a mulher tinha abandonado, vivia ao lado de sua casa, de sua janela dava para ver o quarto do homem.  Ele chegava em casa, ficava de cuecas nada mais que isso.

Tinha um corpo fantástico.  Descobriu um dia que Bruno o olhava, mas nunca fechou cortina, nada disso.

Um dia nos pegou os três olhando através da cortina, mas sabia, que estávamos os três nos masturbando por causa disso.

Nessa época, nossas mães, voltaram a trabalhar, minha mãe era secretária em um escritório de advogados, a mãe do Bruno, era caixa no restaurante que trabalhava seu pai, a do Jiro, ajudava o marido no restaurante.  Então estávamos depois da escola os três juntos.

Teve um ano que pedimos o mesmo de presente de aniversário, um Walk Talkie, nunca deixávamos de nos falar o tempo todo.

Dias depois, estávamos indo para a casa do Bruno, quando vimos fumaça saindo por baixo da porta da garagem do homem, tentamos levantar a porta da mesma, era impossível, Bruno sabia que ele nunca fechava a porta da cozinha, entramos por ela.  Ele estava na garagem, com o motor ligado, já estava desmaiado, Bruno abriu a porta do carro, desligou o motor, entre os três o arrastamos para a cozinha. 

Semanas antes aprendemos numa das aulas, os primeiros socorros.  Começamos a nos revezar a fazer respiração assistida.  Gostei de colocar meus lábios em cima do seu.

Quando ele voltou a si, ficou olhando para nós, dava pena.

Estava completamente nu. Jiro lhe trouxe água, ele só perguntou por que o salvamos, ele não queria viver, se sentia sozinho.

Se tornou a partir desse dia nosso mentor.  Uma coisa nos ligava, os três amávamos os livros, ele também, por toda a casa, estava cheia de livros.

Ele se levantou, colocou um shorts, nos contou tudo.  Sua mulher o tinha abandonado, porque descobriu que ele era gay.  Se divorciaram, em seguida ela tinha se casado com outro.

Meu amante também me deixou, pois queria aventuras, minha vida perdeu sentido.  Viu que Jiro tinha um livro nas mãos que tinha encontrado no chão.  Sem querer começamos a comentar o mesmo, os três já conhecíamos a história.  Foi algo sensacional, cada um tinha um ponto de vista diferente, quando vimos estávamos sentados na cozinha, comendo uma pizza, falando de livros.

Por aonde se andava na casa, tinha livros.  Ele disse que era sua paixão desde criança.

Quando falamos em sexo, ele nos olhou, perguntando se fazíamos sexo entre os três.

Rimos muito, lhe dissemos que a muito tempo, era esse nosso grande segredo.

Quando vimos estávamos na cama com ele, seu corpo era alucinante. Fomos amantes dele, mais de 5 anos.  Nos seus dias livres nos avisava, nos levava a praia, muitos pensávamos que éramos seus filhos adotivos, nunca desmentimos.

Chegou um momento que começou a frequentar o lugar que aprendíamos artes marciais, um dia se apaixonou por um japonês, passaram a viver juntos, através do pai do Jiro, se tornou amigo dos nossos pais.  Descobríamos anos mais tarde, que seguia fazendo sexo com Bruno.

Chegou a época de ir à universidade, discutimos muito com nossos pais, bem como entre nós, com ele, Bernal tinha uma cabeça para entendermos perfeita, não colocava as dúvidas que nos colocavam nossos pais.   Não argumentava, mas sim nos fazia pensar.

Eu queria fazer direito, bem como o Bruno, já Jiro queria fazer Belas Artes, ele era o mais decidido, já Bruno queria fazer direito, para me acompanhar.

Fomos juntos a universidade, Bernal nos ensinou a conduzir, nos deu de presente o carro que tinha sido de sua mulher, estava a tanto tempo abandonado na garagem, mandou arrumar o motor, nos deu de presente no Natal.

Creio mesmo que as três famílias se juntaram por uma coisa, meus pais, tinham imaginado ter muitos filhos, principalmente por causa da casa imensa que ele tinha herdado, mas minha mãe quase morreu no meu parto, ficou incapacitada para ter mais filhos.  A mãe do Bruno foi a mesma coisa.  Já os pais do Jiro, porque queriam ter um filho só, mas que pudesse ter futuro, que eles não tinham tido.

Bruno também era o primeiro da sua família a ir à universidade, o sonho de sua mãe.  Mas ao contrário dos nossos companheiros, não saímos de casa.  Íamos de manhã os três juntos, voltávamos de tarde, ainda usávamos o Walk Talkie para nos comunicar, até surgir o celular.

Fizemos outros conhecidos, mas amigos nem pensar.

Eu estava entusiasmado com a universidade, já o Bruno não.  Um dia tivemos uma conversa séria com o Bernal.  Ele tinha escutado seus pais, falando com um parente, que era mafioso, esse dizia que com o Bruno como advogado, não iam mais precisar contratar nenhum advogado.

Isso o colocava com um pé atrás.   Ele era intuitivo, inteligente, Bernal o questionou de que lado queria estar.   Ele respondeu que da lei.  No último ano da universidade, a deixou, conversou com seus pais primeiro a respeito, entrou para a academia de polícia.  Com o curso mesmo inacabado, entraria depois como inspetor. 

Perdi meu companheiro de debates sobre as coisas do curso.  Jiro sim tinha conhecido muita gente louca, nos apresentou, mas ele nunca se drogava como os outros.

Foi interessante, pela primeira vez tínhamos aventuras com outros rapazes.  Nessa época Bernal, tornou a ficar sozinho. Seu companheiro disse que estava farto de dividi-lo conosco, pois se estávamos juntos, a conversa girava em torno ao que estávamos fazendo.

Agora ia conosco pela noite de NYC, de uma certa maneira nos protegia, contra os que andavam nas drogas essas coisas.  Descobri anos depois, que todos encontrávamos uma maneira de estar com ele só para nós.   Eu adorava ter longos papos com ele, fazíamos sexo, depois ficávamos fumando, conversando sobre lei, como eu devia encarar o que devia fazer a seguir.  Nunca escondemos um do outro isso, mas creio que ele gostava mesmo era do Bruno.

Me questionou muito se queria ser como meu pai, um advogado de um escritório, ele achava isso chato, me dizia que eu devia tentar primeiro ser fiscal.  Fazer uma carreira, além destes terem um bom salário.   Podes ser que ganhes menos, mas poderás construir uma carreira.

O mesmo fazia com o Jiro, um dos programas que fazíamos, por causa dele, era irmos a exposições, ao museus, ver o que havia de novo.  Isso gerava papos homéricos, em seguida, pois com ele podíamos falar de tudo.

Talvez por isso de uma certa maneira estávamos apaixonados por ele.  Ele gostava disso, dizia nunca me encaixei em turma nenhuma, mas com vocês me sinto vivo.  A única coisa que dizia era que nunca entrássemos para o exército, para não ser bucha de canhão.

Os livros agora o comprávamos de uma maneira interessante, cada um comprava um, as visitas as livrarias eram todos juntos, íamos passando um para o outro, inclusive, fazíamos anotações em papeis a parte, marcando o número da página, o que pensávamos a respeito.

Depois claro isso gerava largas discussões.  Não sei se nossos pais, algum dia desconfiaram de alguma coisa, mas nunca falaram a respeito.

No inverno alugamos uma vez uma cabana, para ir esquiar, mas nunca fizemos tanto sexo como desta vez.

Eu tinha uma certa paixão pelo Jiro, seu corpo liso, sem pelos, me excitava sempre. Eu pensava que ele também, pois estava sempre me desenhando.  Hoje pela casa inteira, tenho retratos meus.

Bruno conseguiu ir trabalhar na mesma delegacia do Bernal, esse foi seu instrutor durante muito tempo. 

Eu entrei para os escritórios de fiscais, como ajudante de um que me indicou o Bernal, o sujeito era mal-humorado, estava sempre com a cara fechada, mas nunca aprendi tanto com alguém como ele.  Me dizia leia todo o processo, analise, mil vezes, de todos os ângulos possíveis, olhe bem as provas, bem como as analises dela.  Não deixe escapar nada.  Foi o melhor professor que tive.   Um dia me soltou em plena cara, me olhando muito sério, estávamos almoçando no escritório, estou apaixonado por ti.

Fiquei olhando para ele de boca aberta, sabia que tinha se divorciado a muitos anos atrás, Bernal comentou alguma coisa a respeito. 

Um dia acabei na cama com ele, tudo ficou mais completo.  Mas era um sujeito fechado em si mesmo.  Tinha sido capitão do exército, as vezes quanto tinha muita pressão, tinha pesadelos.

Se agarrava a mim, como se fosse seu salva vida.

Tudo acabou de uma maneira bruta, acabava um julgamento, que tínhamos conseguido a vitória, ele estava falando com os jornalistas, eu estava mais atrás, de repente vi saído entre as colunas, um sujeito com uma arma na mão, gritei, mas aquela confusão de jornalistas falando ao mesmo tempo, ele não escutou, levou um tiro na cabeça.  Fiquei ali segurando a mesma nos meus joelhos.

Foi meu primeiro encontro com a morte, uma bofetada das duras.  Mas meus amigos estava aí para me ajudar.

Nessa época, dividíamos um apartamento imenso no Soho, ainda não era famoso, Jiro acabava de ter sua primeira individual, já tinha dado entrevistas na televisão, era cotado como uma revelação, seus trabalhos tinha influências orientais, bem como adorava usar papel. Depois de ganhar um bom dinheiro, foi passar um ano no Japão, aprendendo técnicas de lá.  Nas férias fomos os outros passar uns 20 dias com ele.

Na volta, outro pancada na cabeça, meu pai morreu, de uma maneira totalmente idiota, vinha andando pela rua, tinha ido visitar um cliente, de repente, começou um tiroteio na rua, voaram sua cabeça.   Mas claro, todos se juntaram para nos apoiar.

Minha mãe tomou uma resolução dura, fechou a casa, como eu vivia na cidade, ela foi viver com uma irmã dela, que era viúva, essa sim falava das nossas vidas.  Dizia que não entendia esses garotos, todos bonitos, solteiros.  Minha mãe respondia, que a vida era nossa, que podíamos fazer o que quiséssemos com ela.

Depois foi o pai do Bruno, uma briga entre facções da Máfia, entraram pelo restaurante adentro dando tiros, ele se jogou em cima de sua mulher para defende-la, acabou ele morrendo.

Todo mundo junto outra vez.   Minha mãe, que estava farta de sua irmã, voltou para casa, convidou a mãe do Bruno para viver com ela.  Anos depois foi a mãe do Jiro, seu pai teve um largo processo contra o câncer, as três se juntaram para cuidar dele.

Depois o mesmo, as três foram viver juntas.  Claro, aniversários, todas as festas, nos deslocávamos para lá.  Bernal estava para se aposentar, as ajudava no que elas não podiam resolver.   Depois da morte do meu namorado, me agarrei a ele como um salva vidas, os dois tinham a mesma idade.  Ele ria, estava com os cabelos ficando branco.  Talvez dos três foi o quem mais perto esteve dele.  Analisava isso, como cada um o via.   Para Bruno ele era como o mestre, para o Jiro, alguém que o entendia na sua arte, na sua busca.  Mas a mim, tinha me orientado, podia discutir com ele os casos.  Quando me nomearam fiscal, pedi para que ele viesse trabalhar comigo, como meu inspetor.   Foram os melhores anos da minha vida.  Todo mundo achava natural, ele estar sempre ao meu lado.

Foi talvez a melhor época da minha vida, era a pessoa que podia discutir de tudo.  Os outros sentiam ciúmes, isso se via, mas claro, o dividia menos com eles.  Bruno estava num relacionamento com um sujeito que nenhum de nós gostava, mas era a vida dele, ninguém interferia, estávamos sempre para ele, quando vinha lamber suas feridas.

Jiro ao contrário tinha se fechado completamente, o mais importante para ele era seu trabalho.

As vezes passava semana sem vê-lo, mas quando nos encontrávamos, eram horas falando, cada um do seu trabalho.   Sua última exposição tinha sido um sucesso tão grande, que o convidaram para fazer uma em Paris.  Lá foi ele, mas nós falávamos horas pelo telefone, quando tiramos férias fomos visita-lo.  Bernal lhe perguntou num jantar, por que ele não tinha namorado?

Soltou que a pessoa que ele amava, estava com outra pessoa.

Vimos sua exposição, saímos pela cidade com ele, nos mostrou o lugar que ele adorava, ficaria mais dois anos por lá.  Desta primeira vez, um dia que Bernal saiu para comprar um presente de última hora, ele se agarrou a mim, fizemos sexo, em pé no corredor do seu studio.  Me disse ao ouvido, te amo muito.

Depois descobri que Bernal tinha feito de propósito, me diria que não sentia ciúmes, porque sabia que ele me amava.

A seguinte perda balançou todo mundo, Bruno morreu no famoso 11S, estava justamente no andar que entrou o primeiro avião, para prender um homem envolvido numa desses desfalques piramidais.   Não sobrou nada dele, se sabia que estava ali, pois tinha falado instantes antes com seu superior, morreu ele, bem como seu companheiro, além de outros dois policiais.

Foi uma porrada em toda regra.  Para Bernal, foi outra vez como perder mais um amigo querido, levamos todos muito tempo para nos recuperar.

Nesse dia os dois fomos buscar o Jiro no aeroporto, pois voltava para NYC, vimos de longe o que acontecia.   Foi uma tragédia impressionante.   Sua mãe quando recebeu a notícia, teve um enfarte fulminante, ele era seu garoto, tinha falado com ele essa manhã.

A ele não conseguimos enterrar, o enterro foi o dela.   Depois foi como conta gotas, minha mãe, a do Jiro, ao final ficamos os três.  Convenci o Jiro de usar dois quartos grandes da casa como studio, nos dois também voltamos a viver nela.

A tristeza do Bernal, era impressionante, se aposentou, se sentia desorientado, foi quando descobrimos que tinha Alzheimer, nos tocou aos dois cuidar dele.   Na mesma época, consegui meu cargo final, ser juiz. Tinha um bom salário, sabia investir o que ganhava, como não tinha que pagar aluguel, além do carro de juiz, com um chofer, era mais fácil.  Pagávamos dois enfermeiros que se revezavam para cuidar dele.

Acho que a única coisa, real que disse, antes de se fechar num mutismo impressionante, foi para o Jiro, cuide do meu garoto, amo os dois.    Meses depois morreu dormindo.

Se não fosse o Jiro, nem sei o que seria de mim.  Me ajudou, eu tinha realmente chegado a amar profundamente o Bernal.  Tinha sido meu mentor, meu amigo, meu protetor, era muita coisa na vida de uma pessoa.

Agora na casa só sobrávamos os dois, as nossas conversas de noite quando chegava, era impressionante, seguíamos lendo os livros, comentando entre nós dois.

Um dia Jiro me disse, que tinha descoberto que me amava, num dia que fazíamos sexo todos juntos, que eu fazia sexo com ele, não queria que eu saísse de dentro dele, me queria só para ele.   A partir desse dia foi assim.   Apesar dos convites, só aceitava expor fora, se pintasse no seu Studio, que viesse buscar, eu ia com ele as vernissages, voltávamos juntos.

Seguimos com o hábito de ir a exposições, aos museus, dizia que comigo podia discutir qualquer coisa.  Que ele um tempo tinha pensado que amava o Bruno, mas esse como ele dizia gostava de explorar horizontes novos.

A dez anos atrás, cheguei em casa, estava tudo a escuras, subi para os quartos que ele usava como studio, o encontrei morto, sentado na sua mesa de trabalho, debruçado sobre um dos muitos retratos que fazia de mim.  Um dia me explicou, cada artista tem uma mania, um desenham mãos, ou alguma outra parte do corpo, antes de começar uma nova série, eu desenho a ti, pois eres meu talismã.   Tinha acabado uma trabalho imenso, que a maioria tinha ido para museus de vários países.  Tudo em papel, ali estava ele me desenhando novamente, quando teve um enfarte.

Senti abrir um buraco embaixo de mim, tudo que pude fazer, foi chamar a emergência, a tempos tínhamos conversado sobre dinheiro.  Bernal deixou tudo que tinha para mim, eu tinha a casa dos meus pais.  Ele dinheiro do seu trabalho, gastávamos pouco, então decidimos, que ajudaríamos a gente jovem.  Ele deixava dinheiro para bolsas de estudos, para jovens com talento.  Tudo estava estipulado.   Eu tinha feito o mesmo, para algum bom estudante de direito, que pensasse em fazer pós-graduação.

Segui trabalhando, pois era o único que tinha, viver na mesma casa seria um suplício, fiz o que minha mãe tinha feito, embora algumas pessoas não entendesse, aluguei um pequeno apartamento sem luxo nenhum, só necessitava de uma mesa grande para colocar os processos que levava para ler em casa.   Tentava me confraternizar com os outros juízes, fiscais, mas os via como uns tontos que não tinham vivido nada.

Escolhi como ajudante um jovem negro, com um futuro promissor, tinha sido fiscal adjunto, era brilhante.  Foi como o filho que não tive, quando resolvi voltar a viver na casa, ele veio junto, as conversas eram impressionante, me surpreendia sua inteligência, ele tinha usado uma das bolsas de estudos que eu pagava para seguir em frente, se sentia agradecido.

Um dia lhe contei toda a história dos meus amigos.  Ele ria, me chamava de velho malandro. Um dia me contou que quando jovem tinha sofrido abuso de uma gang, que depois disso, nunca mais tinha feito sexo.   É o meu companheiro do ocaso, agora será fiscal, nomeado pelo novo governador, eu me aposentei, contei para ele o que tinha sentido na festa, ele estava ao meu lado, mas os outros três não.

Agora o espero chegar todos os dias, para conversar, colocar em dia as novidades, da cidade.

Lhe disse que no momento que se apaixone por uma pessoa mais jovem, ele está livre para voar.  Me diz que nem pensar, que primeiro o ensinei a amar a si mesmo, que me ama com paixão.   Fazemos dois tipo diferente, eu velho, cabelos brancos, posso ser seu pai, ele negro, com uma barba imensa, pois é mulçumano, me ensinou a rezar com ele.

Um dia o surpreendi em seu escritório quando trabalhava comigo, abrindo um tapete, rezando, eu tinha perdido a fé a muito tempo, começamos a conversar sobre isso.  Aprendi a rezar, não vou a nenhuma mesquita, como ele vai, mas rezo em casa, arrumei uma poltrona, que fica em direção a Meca, rezo pensando nos meus amigos, que dia desses com certeza irei encontrar novamente.

As vezes sonho com eles, esperando ansiosamente esse dia, como será vivermos juntos outra vez, mesmo que seja em outro plano.  Na verdade amei a todos, mas nenhum como o Bernal, me lembro sempre, que quando o tiramos do carro, que fazíamos respiração assistida, o primeiro beijo que lhe dei, como ele dizia, pois foi na hora que voltou a si.  Disse que nunca tinha esquecido aqueles lábios contra os seus, nem eu tampouco.  Anos depois me daria beijos larguíssimos, que eu adorava.

Com ele sonho muito, as vezes me desperto procurando por ele, mas já falta pouco, isso espero.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

miércoles, 4 de enero de 2023

POR NATUREZA GIGANTE

 

                                       POR NATUREZA GIGANTE

 

Olhando sua mão levantada, agora se dava conta que a idade não podia se esconder justo nelas.

Pensando no que os médicos tinham falado dele, não estaria vivo a muito tempo, mas ele continuava existindo, indo em frente, agora com quase oitenta anos.

Tinha nascido antes do tempo, porque era muito grande, segundo os médicos um movimento seu no útero de sua mãe, poderia matá-la.  Pesava quase seis quilos, na hora que o retiraram mediante uma cesárea.

Sua avó reclamava que ele já era muito pesado desde criança, o único que aguentava estar mais tempo com ele no colo, eram seu avô, seu pai, pois eram altos.   Os dois tinham por volta de um metro e noventa.

Quando foi a escola, ele sempre era o maior da turma, os pediatras estavam preocupados que não fosse inteligente o suficiente.  Quando fizeram testes com ele, olhava na cara deles, pediam aqueles jogos de colocar as peças dentro dos seus respectivos lugares, eles nunca entenderam que ele fazia ao contrário de proposito, pois aquilo lhe parecia chato.   Amontoava todas como se fosse uma construção, algumas vezes deixava a última em equilíbrio.

Quem prestou atenção nisso foi uma psicóloga, o deixou brincando com todas as peças ali no chão, ele construiu coisas diferentes, não colocou nenhuma nas caixas correspondentes.

Ela o deixou fazer o que queria, no final disse, me ajudas agora a guardar tudo isso, ele imediatamente colocou tudo aonde devia, inclusive separando por cores.

Virou-se para sua mãe, teu filho não tem problema nenhum de retraso, ao contrário vocês vão ter problemas, porque ele é inteligente.

Com 12 anos tinha 1,70 de altura, isso assustava seus companheiros, que fugiam dele no recreio, até o dia que estava ali sentado, um grupo de mais idade jogava basquete, a bola veio parar nos seus pés.  De aonde estava, numa diagonal, no final da quadra, pegou a bola, jogou como tinha visto fazerem na televisão, a bola apesar da distância, passou pelo aro, o treinador viu aquilo, ficou de boca aberta.  

O único problema era que ele usava óculos, para miopia.

Quando o chamaram para jogar basquete, aceitou, só para poder fazer amigos, com isso acabou capitão da equipe.    Estavam em último lugar na tabela de classificação, nos torneios escolares, ele conseguiu subir a equipe até a final.  Dizem as más línguas que perderam a final, por um problema técnico.

Mas nos anos seguintes, foram para cima sempre, ele além disso era o melhor aluno, em qualquer matéria, tinha uma cabeça privilegiada.

Fez amigos, mas aquela das garotas estarem atrás dele, todo mundo, baterem nas suas costas, como se ele fosse o melhor do mundo, não o conquistou muito, pois entendeu que tudo era por interesse.

Mas seguiu jogando, quando entendeu que era a oportunidade de ir a universidade, pois seus pais jamais iriam poder bancar a mesma para ele.

O que se espantavam os olheiros, os que veem das faculdades para olhar os jogadores, eram que suas notas eram excelentes, da maioria, nunca eram.

Era respeitoso, com o entrenador, porque tinha aprendido isso em casa.  Com 16 anos, quase véspera de ir à universidade, começou um dia a passar mal. Sangrava, pensaram primeiro que era pelo anus, depois dos exames médicos, descobriram que ele era hermafrodita.  Seus pais que eram religiosos, ficaram chocados, mas ele sabia que no fundo, sua mãe sabia disso tudo.

A coisa agora era, ocultar isso, para conseguir a universidade ou desistir.

Fizeram um exames mais exaustivo, os médicos se assustaram, porque ele tinha útero, além de com o tempo, se não fizesse ginastica, teria peitos.

Pelo menos uma universidade se interessou nele por causa das notas.  Por sorte era do outro lado do pais, assim o caso não seria um escândalo.

A principio se sentiu confuso, sempre tinha se sentido homem, inclusive era bem dotado nesse aspecto.  A decisão do basquete era por fazer amigos, quando percebeu que isso só tinha uma vantagem de ir à universidade, foi deixando de lado.

Falaram com muitos médicos, mas claro, os psicólogos, diziam que podia fazer uma série de operações, a partir do momento que ele decidisse qual o sexo que queria.

Ele nunca tinha sido burro, ao contrário, estava provado que seu Coeficiente era altíssimo, parou uns dias para pensar, depois de conversar com um psicólogo, em quem sentiu confiança.

Este lhe dizia que a decisão tinha que ser só sua, pois quem viveria com isso o resto da vida seria ele.

Seu pai, bem com seu avô queriam que optasse por ser homem.  Mas claro isso implicaria numa série de procedimentos, operações, anos de operações.  Não estava disposto a isso, porque quando consultava diretamente os médicos, agora ele exigia falar com eles em solitário, sem sua família se meter no assunto.

A maioria, lhe dizia que não saberia como se sentiria no futuro.  Se até agora ele se sentia uma pessoa completa, não viam por que se operar.  O que falavam do sangramento, tinha sido sua primeira menstruação.

Imaginem um homem de 1,98 de altura menstruado, seria a gozação de todos.

Seu psicólogo, lhe disse que resolvesse, não deixasse que nenhum especialista o analisasse, vais virar um elefante de circo, te levarão para todos os congressos médicos, para te exibirem.

Sua avô tinha um irmão que vivia em Los Angeles, era casado sem filhos. O acolheram, trocou de nome, pois isso se podia fazer.

Começou a ir a universidade, fazia duas ao mesmo tempo, as pessoas diziam que uma não encaixava na outra, estudava física, bem como literatura, sempre tinha amado os livros.

Quando terminou a universidade tinha finalmente 2,15 metros de altura. A coisa mais complicada era comprar roupas, embora ele adorasse andar sempre de bermudas, como os surfistas, ter camisetas imensas, seguia fazendo exercícios, tomou hormonas para os peitos não crescerem.  Tênis só por encomenda, tamanho 48, mas o mais interessante é que tinha um ritmo alucinante para seu tamanho.

Fez graduação no MIT em física quântica, aos mesmo tempo que fazia um curso de escritura.

Mas chegou um momento que a física deixou de interessa-lo, mesmo assim, acabou a graduação, embora tivesse convites de trabalhos.  Pensou muito a respeito.  Como o seu psicólogo tinha falado, ele sempre se sentia um elefante de feira.

De repente seu crescimento parou, teve uma mudança súbita no seu metabolismo, os médicos não entendiam por quê.  Os que o acompanhavam a tempo, não entendiam em absoluto por quê.

Nesse período, se sentia confuso, ansioso, calores.  Um dos médicos chegou à conclusão de que ele estava na menopausa, pela sua parte feminina.

Pensava que puta confusão, como posso ter menopausa, se não tenho nem trinta anos, mas claro os exames concordavam.   Foram meses de uma sensação estranha.

Foi passar uns dias com sua família, pela primeira ver percebeu que os incomodava, para seus avôs que tinham idade, ele era uma aberração da natureza.

Aquele aparentemente homem de 2,15 metros, que era ao mesmo tempo um homem/mulher.

Seus pais, no fundo se sentiam confusos, eles mesmo tinham se acusado entre si, para saber de quem era a culpa de ele ser assim.

Chegou à conclusão que nunca poderia viver ali com eles.  O melhor era seguir mantendo uma relação à distância.

Seus tios, ao contrário o queriam como filho, arrumou para dar aulas na universidade de Los Angeles, em física e física quântica.  

Ganhava bem, alugou um apartamento só para ele, dizia que estava cansado de dormir com os pés fora da cama, na verdade necessitava de espaço para sua vida.

Mandou fazer uma cama especial para ele, sua tia confeccionou seus lençóis, o apartamento não era imenso, mas para ele era perfeito.   Tinha tudo que precisava, um espaço para seus livros, uma grande poltrona que mandou fazer, para se sentar para ler.

Uma boa mesa de trabalho para preparar aulas no seu laptop, tinha assim conseguido um equilíbrio.   Na universidade, se dava bem com todo mundo, embora sempre quisessem arrumar uma namorada para ele.

Quando ia a praia, ia muito cedo, na hora que esta não estava muito cheia, ou no final do dia.

Seguia fazendo largas caminhadas, fazia exercícios, na barras que tinham perto do posto salva vidas.  Mas o que incomodava as pessoas, era sua introspecção.

As vezes ria, se sentia atraído por uma mulher, em seguida por um homem, mas nunca se decidia dar um passo além.

Um dos companheiros de universidade, quase tão alto quanto ele, estava passando por um momento difícil.  Um dia estava sentado nos jardins, lendo um livro, ao mesmo tempo comendo um sanduiche.  Este se sentou na sua frente.

As vezes sinto inveja de ti, foi seu primeiro comentário.  Aparentemente estas sempre em paz, não ter vejo nervoso, mas bem sim controlado.

Eu ao contrário, estou sempre descontrolado.   Meus relacionamentos, sempre dão errado, pois acham que com todo esse tamanho sou tonto, o que não é verdade.

Muita gente se apaixona pelo que tenho no meio das pernas, mas depois de saciarem sua curiosidade, me deixam de lado, minhas conversas, os assuntos que me interessam, não fazem parte do universo deles.

Lhe respondeu que disso ele entendia, que os assuntos que o fascinavam, a maioria das pessoas, não se interessavam.   Um psicólogo que me acompanhou durante muito tempo, me dizia que eu tinha que tomar cuidado para não virar um elefante de circo de variedades.

Começaram a conversar, com o tempo virou uma amizade.

Gordon Brown, ao contrário tinha sido uma estrela no basquete, tinha deixado, por um acidente. Mas tinha feito universidade com notas excelentes, ele era professor de Literatura americana.

Discutiam muito a falta de escritores negros.

O pessoal falava dos dois, imagina aqueles dois, desse tamanho sem namoradas.

Scott na verdade passava disso, as vezes alguma pessoa se aproximava, se insinuava, inclusive alunas, pois ele não era feio.   Pedia desculpas, mas dizia que tinha um compromisso sério.

Um dia estavam entrando em sua casa, para emprestar uns livros para o Gordon, quando este no corredor, pegou sua cabeça entre as mãos, o beijou.

Foi um susto, pois não esperava.  Se separou, perdão Gordon, temos que conversar, eu não quero perder um amigo.

Gordon, lhe confessou que sempre tinha sido gay, as complicações que isso implicava, quando comecei a falar contigo, eu tinha sido abandonado por um companheiro, ele só queria o meu piru.

Pela primeira vez na sua vida, se abriu, falou que era hermafrodita.

Gordon, respondeu, não me importo muito, pois na verdade creio que somos como dizem sempre, a meia laranja, ou a alma gêmea um do outro.

Um dia disse ao Gordon que ia ao médico que o acompanhava a anos, precisava saber os cuidados a tomar.

Então vou contigo, já que estamos juntos, nada mais certo que eu sabia dos limites que tenho.

Quando se apresentaram juntos o médico riu, disse que ele tinha não só arrumado alguém a sua altura, bem como podia compartir sua vida.

Só não te aconselho a ficar gravido, pois isso é uma coisa que pode acontecer, tens o útero não desenvolvido, pelo tamanho dos dois, seria uma criança grande demais, poderia te matar.

Talvez seja a hora dos dois conversarem, decidirem qual seria tua opção, homem ou mulher, antes que o tempo passe demais.

Foi o que fizeram, conversaram muito, ele ainda foi várias vezes ao seu psicólogo para conversar, tinha que tomar uma decisão, gostava de ser homem como o Gordon na cama se davam bem, nunca tinha se sentido uma mulher com ele.  Sabia que ele o queria como homem também, pois tinha conversado a respeito.

Esperou chegar a época das férias, fez a operação, Gordon não saiu do seu lado, retirou o útero, ficando somente com sua parte masculina.

Quando se refez de tudo isso, Gordon um dia soltou, se um dia os dois quisessem filhos, podiam adotar, pois ele próprio tinha sido adotado num orfanato.

Tive sorte, de ter uns pais adotivos que me queriam.  Infelizmente morreram anos atrás num acidente de carro, não tinham como esconder que eu era adotado, pois eram brancos, eu negro.  Mas o mais importante era isso, me queriam, eu era o filho que eles desejavam, por isso me esforcei ao máximo para ser bom aluno, um atleta, pois meu pai adorava o basquete.

Portanto se um dia pensamos, tem muita criança no mundo esperando um pai adotivo.

Um dia foi com ele ao orfanato, justo naqueles dias, uma jovem, queria dar seus filhos em adoção, eram gêmeos, um branco, outro negro, de pais diferentes.  Ela conversou com eles, estava na universidade, tinha sonhos, fui irresponsável confesso, mas meus pais são muito estritos, nunca aceitaram isso.

Adotaram os dois, como ainda não existiam os casamentos gays, cada um adotou um, assim não eram separados.

Nunca pensaram que seriam tão felizes, os companheiros falavam, mas eles passavam por cima disso.  Depois de quase 15 anos juntos, quando saiu os primeiros casamentos gays em San Francisco, se casaram tranquilamente, sem confusão.  

Sua tia era a única que sabia de tudo, os apoiou, adorava os meninos, tinha sempre com ela, uma foto dos dois, um em cada braço.

Agora trinta anos depois, olhava para trás, Gordon, estava ao seu lado como sempre, estavam aposentados, levavam uma vida tranquila, numa cidade perto de San Diego, a beira do mar.

Os meninos, tinham crescido, achavam natural, um pai branco, outro negro, já que eram assim.

Sabiam que era adotados, mas isso não lhes importava.  Um era médico, o outro era um dos escritores mais promissores da América.

A mãe deles tinha aparecido algumas vezes, mas claro estava o fator de que nunca tinham convivido com ela.  A tratavam bem, com educação, como tinham sido ensinados.  Mas não iam muito além disso.

Porque olhas tanto tua mão, lhe perguntou Gordon?

Porque nelas posso ver que o tempo passou, que sobrevivi, vivi, sou feliz contigo, tinham enfrentado todos os problemas juntos, sempre.   Nada do famoso comeram perdizes, foram felizes, mas estavam sempre dentro da realidade.

Quando ele teve câncer nos peitos, talvez porque nunca se desenvolveram, Gordon esteve aí como sempre, o apoiando.

Ele quando teve câncer de próstata, foi igual, ficou ao seu lado para tudo.

Os dois agora tinham os cabelos brancos, esperavam por netos, mas os meninos não estavam para esse labor.

O que era médico trabalhava em Urgência, sua grande paixão, dizia que não sobrava tempo, o outro, vivia indo pelo mundo, era jornalista, além de escrever livros muito solicitados.

Eles agora estava sos outra vez, as aves tinham voado do ninho, como dizia o Gordon, mas tinham um ao outro.

As vezes algum vizinho passava pela rua, via aqueles dois homens imensos, de mãos dadas, balançava a cabeça, como dizendo, como é possível.  Mas para eles isso não significava nada.