lunes, 7 de junio de 2021

TIRO E QUEDA

 

                                              TIRO E QUEDA

 

Porra, mais uma entrevista, com perguntas capciosas.    Tinha mudado sua conduta, agora, ou as ignorava totalmente, ou conforme o entrevistador ou jornalista que fazia a pergunta, soltava, mas eu comi teu cu, me lembro que estava sujo.

Não que tivesse problema de reconhecer sua sexualidade ou suas preferencias na cama, mas ficava de saco cheio que invés de perguntarem sobre o filme, sobre o que ainda estava fazendo no momento, sempre tocava no que tinha escrito seu agente.  Um livro que em seu momento foi explosivo, ao qual ele não deu a menor atenção, pois no momento estava rodando um filme no Japão.  Sobre um cowboy que acaba misturado com os samurais.

Não sabia, se por causa do livro, ou realmente o trabalho era bom, tinha feito um sucesso incrível.  Detalhe, ele nunca via os filmes que fazia, lhe aborreciam, pois se lembrava de cena por cena que tinha feito, algumas delas várias vezes, porque algum ator ou atriz tinha esquecido o texto.   Ele nunca tinha esse deslize.

Como no momento perguntava ao ator que tinha contracenado com ele, se desligou um pouco, estava pensando que devia escrever realmente suas memórias assim lhe deixariam em paz.

Quando a pergunta voltou ao seu telhado, respondeu corretamente o que queriam saber.

Menos mal, que teria agora um tempo de relax, para cuidar de sua casa em Malibu.

Saiu da entrevista, subiu no 4X4 que estava na garagem do hotel, saiu por detrás do mesmo, assim escapava sempre dos fãs.  Nunca tinha como se esconder, por ser alto demais, um tipo de dois metros de altura, forte, com os músculos bem marcados, achava interessante sempre lhe perguntarem isso.   Como tinha um amigo que tinha um ginásio, dizia que fazia exercícios lá, mas dizia isso porque era sócio do sujeito.   Tinham ido para a cama durante um tempo, até chegarem à conclusão que era melhor serem amigos.

Sentiu que sua cabeça começava a divagar, tinha que tomar cuidado pois o tráfego estava complicado.   Entrou num estacionamento de um supermercado, parou embaixo de uma árvore por causa do sol.  Soltou sua cabeça, ultimamente isso acontecia com frequência, estou ficando velho, isso sim, me lembrar de coisas do passado.

Era o filho mais jovem de um casal que tinham uma pequena fazenda no Oregon, tinha saído diferente totalmente dos irmãos.  Ele era loiro, olhos azuis, pele clara.  Nem podiam dizer que tinha sido trocado na maternidade, pois tinha nascido em casa.   Tampouco que sua mãe tivesse traído seu pai, pois mal saia da fazenda.     Os irmãos, se deliciaram com ele, a diferença era grande, sua mãe pensou que estando na menopausa não precisava mais tomar cuidado.  Já tinha quase cinquenta anos quando ele nasceu.

Nada de escola, mal se colocou em pé, começou a trabalhar, estavam sempre lhe dando ordens, aprendeu a ler e escrever por causa de um trabalhador da fazenda que ficou com pena dele, o ensinava de noite.   Seus pais viviam na cabana, que era mínima, os irmãos conforme fosse ficando grandes, iam viver com os cowboys.   Esse homem, Manuel, era filho de mexicanos, mas tinha ido a escola, sempre estava lendo algum jornal velho, ou um livro que tinha encontrado em algum lugar, viu que ele tinha curiosidade o ensinou.

Os irmãos tampouco saiam muito da fazenda, quando muito iam uma vez por mês com os outros cowboy a cidade, só que esses tinham dinheiro, eles tinham que pedir ao pai.

Este achava que tendo casa, comida e roupas, tinham que trabalhar grátis.   Até que seu irmão mais velho, conheceu uma garota, se mandou com ela, indo trabalhar com um dos homens que seu pai mais detestava.

Tiveram que escutar uma ladainha meses seguidos, sobre os filhos traidores.

Ele era um bom observador, via sempre aonde seu pai escondia dinheiro, mas ficava quieto.

A primeira vez que foi a cidade com os homens, tinham com eles um cowboy novo, um tipo raro.  Não falava muito, fazia seu trabalho, depois se fechava, lendo algo, com um cachimbo na boca.   Sentava-se a mesa para comer, enquanto rezavam agradecendo, ele ficava como o garfo, faca, um em cada mão esperando para começar a comer.

Nesse dia, bebeu um pouco, não estava acostumado, saiu do bar para mijar no beco, foi agarrado por detrás por esse cowboy, quando se voltou, ele o beijou na boca, abaixou suas calças ali no escuro, colocando seu membro para fora, ficou chupando.   Ele adorou aquilo, nunca tinha feito sexo, nem sabia como se comportar.

Na volta veio sentado ao lado dela na caminhonete, sentido o calor das suas pernas.  A partir de então se encontravam as vezes no celeiro para fazer sexo.

Um dia seu pai, pegou os dois, ficou uma fera, colocou o cowboy para fora da fazenda, ficou sem falar com ele dias.     Um dia o chamou, não disse nada, lhe deu um envelope, disse que não o queria mais ali, que ele fosse a vida.   Primeiro ficou furioso, já tinha visto os irmãos fazerem sexo com os outros cowboys, mas ninguém o defendeu.   Sua mãe ficou sentada num canto, com um pano de prato nas mãos, enxugando as lágrimas.  Não tinha ainda 18 anos completos.

No dia seguinte, quando todos saíram, ele entrou furtivamente na casa, roubou mais dinheiro, um dos cowboys o levou até a cidade.    Chegou justo a tempo de pegar o primeiro ônibus que saia.  A partir de então sua vida foi um eterno trocar de empregos, escondia o máximo o dinheiro que ia ganhando, quando se cansava de uma cidade, trocava por outra.

Estava trabalhando perto de Albuquerque num posto de gasolina, limpado um carro de uma velha, para não sujar se macacão, o enrolou na cintura, ficando com seu peito desnudo ao sol.

Foi quando viu um homem se preparando para fazer fotos.   Disse que nem pensar, sempre tinha um idiota lhe fazendo fotos. O homem se apresentou como um fotografo caçador de talentos.     Marcou com ele depois do trabalho, no motel atrás do posto de gasolina.

Fez muitas fotos dele, semidesnudo, mas quando viu o seu caralho ficou como louco, fizeram sexo, agora ele já sabia o que gostava.  Deixava os homens loucos, com o seu corpo perfeito.

O fotografo disse que voltasse no dia seguinte, que ele ia revelar as fotos.   De fato, no dia seguinte, passou no posto de gasolina, lhe disse, caramba, as câmeras te adoram, ficas fantástico nas fotos.

Nessa noite depois de fazerem sexo, o convidou para vir com ele para Los Angeles.  Creio que pode ter oportunidade no cinema.

Tanto falou que foi com ele, mas alugou um pequeno apartamento em cima de uma garagem, enquanto não aparecia nada, ele ficou ali trabalhando.

O Fotografo, James Marcuso, o levou finalmente a um agente. O homem o examinou como se faz com um cavalo, o fez mostrar seus dentes, passou a mão pelos seus cabelos rebeldes, o fez tirar a roupa, se sentiu uma puta em exibição.   Mas o fotografo fazia sinal que ficasse quieto.  O mandou ler um texto, apesar de ler mal, gostou da sua voz.

Na semana seguinte começou sua transformação, dentista para colocarem próteses nos dentes, para ficarem perfeitos, o levou para uma professora, que o ensinasse a ler direito, a entender os textos dos filmes.    Era uma senhora alemã que tinha feito cinema na época do cinema mudo.

Esta o ensinou tudo, a andar, sentar-se, comporta-se numa mesa, segurar um cigarro, um copo de bebida.   A adoraria para sempre, diria depois no seu enterro, que devia tudo a ela, esse personagem criou ela.     O principal, lhe foi clara no primeiro dia, com tua altura, teu corpo, serás sempre o macho alfa do filme.   Portanto, tua vida particular morre, a solução é criares um personagem que represente todo o tempo.   Para o resto, seja discreto.

Ele seguiu ao pé da letra.   Só lhe alertou de uma coisa, o studio que o contrate, vai querer te casar com alguma das estrelas em ascensão, que por acaso será nesse momento, amante de um diretor, ou um produtor.   Não aceite isso, pois pode ser uma maneira deles te controlarem.

Ficaria conhecido como o solteirão de ouro, nunca aparecia com ninguém, ia as estreias sozinho, bem como as entrevistas, nunca respondia, perguntas de caráter pessoal. Criando assim um halo de mistério.  Durante muitos anos, viveu num apartamento, que tinha duas entradas, bem como uma saída traseira, era por esta saída que entrava com seus amantes de uma noite.   Ao contrário dos outros atores, no seu apartamento não existia nenhuma foto sua, ou cartaz de algum filme, sempre dizia que ele se parecia com alguém, mas respondia, sou uma pessoa como outra qualquer.

Mas tampouco passava de uma noite com essa pessoa.  Era uma foda nada mais.

Quando fez seu primeiro papel principal, passou a tomar mais cuidado ainda, usava para sair um óculos como se fossem de grau, penteava seu cabelo de maneira diferente, criava como sua professora tinha lhe ensinado um personagem.

Manteve esse apartamento basicamente até alguns anos atrás.  Quando se ofereceram para o comprar, por muito dinheiro, pois queriam construir um shopping no local.

Era esperto, roubava roupas dos personagens, assim economizava dinheiro, tinha uma conta bem controlado, aprendeu com ela também isso, a administrar seu dinheiro.   Dizia, olhe o exemplo, não acabar como eu.   Quando soube que estava mal, a levou a um bom hospital, pagou seu enterro.

Nos primeiros tempos, fazia o studio a contratar, para o ajudar a compor o personagem, até que ela mesma lhe disse que ele tinha já uma bagagem, que deixasse que ela fosse cuidar de outra pessoa menos afortunada.

Depois disso era considerado um ator de respeito, nunca chegava atrasado, nunca estava bêbado, tampouco usava drogas, tinha um sistema, em sua cabeça era seu trabalho, o fazia perfeitamente, conforme pedia o diretor, depois ia embora para seu apartamento.  Tinha desenvolvido um amor incondicional com os livros, era um leitor assíduo.

Quando se livrou de contratos com studios, seu agente quis que assinasse outro, se rebelou pela primeira vez, disse que não, queria ter o direito de escolher o que fazer, com que diretor trabalhar.  Só assinava contrato por um filme, assim podia fazer o que queria.   Antes o agente lia o texto, o obrigava a fazê-lo, agora podia dizer que não.

Foi subindo, o agente antes lhe sacava 20%, se negou assinar nenhum contrato com ele, a não ser que fosse 10%.   Ficou uma fera, foi quando mandou vigiar tudo que fazia.

Mas não se importou, esse estava acostumado a ser um tirano com seus atores, a partir que ele se rebelou, outros fizeram o mesmo.   O culpava de tudo, inclusive como forma de vingança, começou a lhe esconder textos.   Avisou aos diretores, que o texto tinham que ir direto a ele.

Dez anos depois, estava farto desse homem, que cada vez estava mais amargo.  O mandou tomar no cu, quando tinha que renovar contrato, nem apareceu, mandou um advogado no seu lugar.   Foi quando ele escreveu um livro, contando como tinha descoberto Brad Wood, podia soltar mil podres do agente, mas achava que isso era iniciar um bate boca sem fim.  O melhor era ignorar, quando lhe perguntavam, não respondia nada.  O livro foi um fracasso, justamente por isso, os editores imaginavam que uma briga entre os dois resultaria uma promoção grátis.

Atores que tinham trabalhado com esse agente, começaram a ventilar os podres sobre ele, acabou ficando a margem do mercado, não lhe sobrando ninguém para representar.

Mas claro ficou o estigma que tinha uma vida dupla.   Quando um conhecido entrevistador lhe perguntou em um programa ao vivo, que tinha ido divulgar um filme que tinha feito com muito carinho pelo personagem.  Resolveu corta pelo sano.  Quem não tem vida dupla, por exemplo tu, tens uma amante, todo mundo sabe, mas o público, nem tua mulher não sabe.  O apresentador teve que pedir propaganda, mal conseguia falar.   O olhou na cara, dizendo, vê pimenta no cu dos outros é refresco.  Saia dessa agora.

Se fudeu completamente, a mulher lhe pediu um divorcio milionário.  O apresentador queria saber como ele sabia da amante. 

Ora escutei a mesma comentando com a maquiladora, que na cama eras uma merda.

Nunca mais o chamou para nenhuma entrevista, a não ser que fosse obrigado pelos produtores de seu programa.

Nunca mais nenhum apresentador se atreveu a perguntar nada para ele.

O que achava interessante, os encontros escondidos com o tempo deixaram de fazer graça, mas tampouco se apaixonava ou gostava de ninguém.   Gostava da sua vida, quando não estava filmando, estava fazendo alguma coisa que gostasse.

Mantinha um apartamento em NYC, para o caso de alguma filmagem lá, odiava ficar nos hotéis, quando começou a fazer filmes fora dos Estados Unidos, uma das exigências era uma casa, um professor de línguas, odiava as dublagens.  Por mais difícil que fosse, aprendia o texto, para falar ele, procurava a perfeição.   Agora depois do filme no Japão, tinha se divertido muito, pois era como um gigante no meio dos outros atores, mas se saiu bem.   O ator com qual ele contracenava tinha filhos, esses iam vê-lo na filmagem, se divertia com os garotos.

Um dia estava estudando o texto, um dos meninos, ia lhe corrigindo a pronúncia.  Acabou uma frase o garoto muito sério disse, vais falar isso?

Perguntou por quê?

Acredito que o personagem vai fazer papel de idiota, os japoneses quando forem ao cinema vão rir do personagem,   lhe disse como devia responder.

O diretor ficou furioso, pois era como querer agradar o público, o ameaçou de falar nas entrevistas sobre isso.

Ficou a resposta do garoto, antes de voltar, um dia foi jantar na casa do ator, ele quando soube que tinha sido seu filho, riu.   Esse garoto um dia será roteirista de cinema, o mandou buscar um texto que estava escrevendo.   Ele leu, disse ao ouvido do garoto, quando esteja pronto, me avisar, mas quero fazer o papel do mau.  Riram muito os dois.

O vizinho de NYC que recebia sua correspondência lhe avisou que tinha dado seu endereço a uma pessoa que queria lhe entregar um pacote.

Se esqueceu disso.   Quando estava em sua casa na praia, queria se desligar do mundo, tinha amizade com os garotos que viviam por ali, os que faziam surf.  Aprendeu com eles, depois de cair muito da prancha, até que aprendeu a usar uma Long board.

O sol, faziam com que sua pele ficasse morena, bem como seus cabelos, aonde começavam a aparecer fios brancos, ficassem queimados do sol.

Estava deitado na prancha esperando uma onda ideal, via na praia um sujeito de terno, achou estranho, mas ficou na sua.   Um garoto que voltava disse que o mesmo o estava esperando.

Pegou a primeira onda, viu que o mesmo tirava um celular, fazia fotos.  Quando saiu da água, o mesmo se aproximou se apresentando.   Disse um nome que ele entendeu como Olavo, mas o inglês do sujeito era complicado.   Apenas disse que tinha vindo a Los Angeles a negócios, era advogado, trouxe um texto que me pediram para lhe entregar em mãos.

O convidou para um drink na varanda de sua casa, para que lhe explicasse do que se tratava.

Bom represento um diretor de cinema, disse o nome, Öleg, se trata de um diretor novo, só fez dois filmes, lhe passou um envelope pequeno, isso se queres ver seu trabalho.   O texto é de outro cliente, foi investigador da polícia, escreveu um livro baseado num caso, tudo é verídico, esse caso abalou um pouco o pais.   Enquanto o outro tomava uma cerveja, ele tomou água.

Vou olhar com carinho, como faço com todos os textos que me mandam.

No outro envelope, tem o telefone do Öleg, caso queira falar com ele, mas lembre-se da diferença de horários.

Se despediu, indo embora.  Voltou para a praia, para aproveitar que o dia estava maravilhoso, com umas ondas fantásticas.

Depois de noite, sem querer ler ainda o texto, colocou um dos filmes, o viu do começo ao fim, sem fazer o que normalmente fazia quando lhe passavam algum, via um pouco do princípio pulava para o final.  O seguinte, foi igual, ficou preso ao roteiro, a crueza como retratava os personagens, quando viu já eram as cinco da manhã, foi para a cama, pensando, tenho que fazer um filme com esse sujeito.

Dormiu mal, pois não conseguia tirar da cabeça, cenas dos dois filmes, chegando a misturar um com o outro.   Despertou duas horas depois, ao olhar para a janela, viu que as ondas estavam como no dia anterior.   Para relaxar, pois se tenho que ler o texto, minha cabeça tem que estar livre de prejuízos.

Passou o dia inteiro na praia.  Conhecia uns rapazes que eram loucos por cinema, pediu que vissem os filmes, queria a opinião deles.   Ele nunca tinha feito nada do gênero.

De noite se sentou para ver o roteiro, imaginava que se fosse chato, dormiria ali mesmo no sofá.

Quando viu eram de manhã, tinha lido, relido, uma quantas vezes, voltava algumas cenas a imaginando em sua cabeça.    Não sabia qual era o personagem que iam lhe oferecer, mas sabia o que gostaria de fazer.

Tudo era novo para ele, se sentiu como a primeira vez que pode escolher ele mesmo o texto, que essa excitação de comandar sua própria vida.

Mal acabou de reler, passou a mão no celular, chamou, tinha se esquecido completamente a diferença horária, tampouco sabia se o mesmo falava inglês.

Perguntou por Öleg, disse quem era.   Escutou um silêncio largo, depois uma pergunta sabe que horas são?

Menor ideia, mas não importa, seguiu falando, que tinha gostado do texto, que estava disposto a conversar, que tomaria o primeiro voo para NYC, de lá de noite, pegaria um para Helsinki, que lhe reservassem um hotel, simples, desde que seja limpo serve, vá dormir garoto, amanhã nos falamos.

Fez uma maleta, pequena, pois tinha roupa para frio se fosse necessário em NYC, em Malibu, nunca usava roupas de inverno.

Quando estava comprando o bilhete para Helsinki no aeroporto mesmo, iria ao seu apartamento nada mais, tocou o celular, era o Öleg, estou surpreso que querias discutir o filme, aqui está nevando, faz muito frio.   Não se preocupe, estou acostumado.

Amanha de manhã nos vemos, disse o horário que chegava seu avião.   Foi ao apartamento, separou roupas para frio, se lembrou de um casaco que tinha roubado de uma filmagem no norte do Canadá, era de pele de ovelha.  Um gorro de outro filme, uma echarpe de lã que lhe tinha emprestado, mas nunca devolveu.  Luvas, blusas de lã de gola alta.  As pessoas achavam estranho, pois se tinha que rodar um filme com frio, ele era o único ator que nunca reclamava.

Queria sim, ter um termo com café quente sempre por perto.

Tinha comprado um bilhete de primeira classe, pois um voo noturno, com o tamanho de pernas que tinha era difícil aguentar.  Foi reconhecido nada mais ao entrar na cabine, por uma das aeromoças.   Lhe pediu que não falasse nada, estava fazendo uma viagem clandestina.

Depois de comer alguma coisa, mergulhou outra vez no texto, dormiu segurando o mesmo, até que esse numa sacudida do avião caiu no chão.  Se despertou com a mesma mulher lhe entregando o texto.   Excelente diretor.   Ele fez um sinal com o dedo na boca, que não comentasse nada.

Mas claro, quando o avião aterrissou, o comandante disse em inglês que tinham tido a honra de ter a bordo o grande ator Brad Wood, quem sabe vinha fazer algum filme na Finlândia, o que seria uma grande honra.

Teve que aguentar o suplício, de dar uns quantos autógrafos na fila de controle de passageiros.

Quando saiu, não viu nenhum cartaz, nada com o seu nome, ficou parado sentindo a brancura do lugar.  Até que lhe bateram no ombro. Se voltou pensando que era alguém que queria um autografo, ia soltar, esta me confundindo com alguém.

Era um homem jovem, mais parecia um garoto, estendeu a mão Öleg, tenho que me beliscar, nunca imaginei que ias vir realmente.

Tinha que prestar atenção ao inglês como ele falava, era um sotaque carregado, mas logo se acostumou.  Quando saíram fora, viu a neve, riu, isso me faz me lembrar da minha infância.

Lhe tocava sempre alimentar as vacas no celeiro, odiava isso, os irmãos escapuliam, mas essas tarefas tocava a ele.

Comentou isso com Öleg, esse riu, mesmo tendo demorado para entender.

Tudo parecia branco, a não ser algum edifício pintado ou com tijolos vermelhos nas paredes.

Era curioso por natureza, o levou a um hotel, que de cara viu que era um cinco estrelas, ali não o deixariam em paz.   Quando ele parou na frente, soltou meio irritado, não gosto deste tipo de hotel, quero um mais simples, nada de luxo.

Queres ficar na minha casa?   

Como você achar melhor, vim conversar contigo, depois resolvemos isso.

Ele vivia num edifício moderno, abriu a porta de um apartamento, clean completamente, tudo era claro ou cinza.  Levou até um quarto que tinha mais cor.  É o quarto da minha mãe, quando vem me ver.    Tomou um bom banho quente, colocou umas calças jeans, sandálias, camiseta, quando saiu, viu que no salão, estavam um pequeno grupo.  Duas jovens, dois homens de mais idade.

Os apresentou, pediu desculpas, mas demoraria a gravar nomes.

Perguntaram se queria comer alguma coisa?

Café, muito café, pois quando discuto roteiros, gosto de fazer com café na mão.

Mal se sentaram soltou para o Öleg, que papel pensavas em me oferecer?

O papel principal, disse o nome do investigador.

Nem pensar, quero fazer o outro papel, o do seu ajudante, acho mais interessante, mais forte, mas duro.

A cara do Öleg era de surpresa.

Antes de mais nada, não sei por que me chamas de Öleg, esse é o nome do bandido da história, meu nome é Joki.

Ficou rindo, para mim tudo é novo, terás que me conseguir um professor, para me ensinar a falar direito o texto, isso é uma das minhas únicas exigências, não gosto de dublagem, tem que ser alguém que tenha paciência.

O problema Brad é que o ator secundário já assinou contrato, ele queria o papel principal, mas lhe convenci que esse era teu, que vinhas para cá por isso.

Quem é o ator principal?   Mas antes que respondessem, olhou em volta, se fixou num dos homens que tinha feito o papel principal nos outros dois filmes.

Soltou, amei tua interpretação nos filmes, falou sem parar uns 20 minutos, sobre os dois filmes que tinha visto.   Estavam todos de boca aberta.  Tinha analisado a interpretação do ator, acho que o papel principal tem que ser teu.

Esse riu, eu pensei que nunca ias aceitar esse papel, pois sabes que tem cenas de sexo, de beijos com outro homem.

Se levantou, foi até ele o levantou com os dois braços, o beijou na boca.  Bah, comeste salmão agora no café da manhã.   Todos se mataram de rir.

Sem problemas, mas se ficares de pau duro nas cenas, eu levo uma navalha te corto fora.

Em serio queres o outro papel, me explique por quê?

Eu li o texto tantas vezes, que fui construindo esse personagem.   Ele é policial, não tem um mando superior, nem sempre concorda com tudo que o chefe diz.    Mas se humilha, porque veio do interior do pais.  Tem medo de que falem dele, só é capaz de estar livre quando esta entre quatro paredes com o homem que ama.   Mas demonstra seu amor, na cena que quase morre, se colocando na frente do personagem principal.

Sabes que esse homem, levou entre a vida e a morte, muito tempo, hoje anda em cadeiras de rodas.

Isso, isso falta no texto, terminas muito abruptamente, tens que mostrar essa cena no final. Numa conversa com os dois.

Isso vai ser difícil, não coloquei isso no texto.  Que falava agora era o outro homem que se olhasse bem se parecia com ele fisicamente.   Se nega a falar comigo, diz que nunca soube retribuir o amor que sentia por mim.

Outra exigência, quero conhece-lo.

Fui eu que disse que serias o tipo ideal para me representar, somos parecidos fisicamente.

Uma merda, isso não é representar, me queres por minha estampa, para se sair bem na história, pois eu prefiro o outro.   Não sou muito de discutir, eu escolho o papel que faço, não os demais.

Não se pareces com ele, é mais baixo que tu, tem uma maneira de falar diferente, pois tem um problema de pronúncia de uma pessoa do interior do pais.

Pois que o professor seja daí, ou olhou para o relógio, que horas sai o próximo voo para NYC, vejo que perdi meu tempo.   Se o escritor vai mandar no filme, prefiro ir embora, eu confio no diretor.   Amei seus dois filmes que o senhor Olav ou como se chame me levou.

Esse é meu pai, disse Joki, é advogado, como ia para os Estados Unidos, lhe pedi se podia entregar o roteiro.   Então ele levou os dois últimos filmes que fiz, é isso, agora entendo como conheces o trabalho do Kaapo.

Caralho vou ter um trabalho colossal para aprender todos esses nomes. Quando falava Kaapo, parecia que estava dizendo capo, todos riam.    Vocês não me conhecem, se quero aprender uma coisa vou até o final.

Joki soltou, isso me disseram de ti.   Que eres cabeça dura.

Bom, primeiro, consiga um apartamento com menos moveis, pode ser aqui ao teu lado, mas terás que me aguentar, pois tenho mania de conversar ou discutir com o diretor sobre o texto, de como eu vejo, de como ele vê, mas sempre chegamos a um denominador comum.

Mas se não discutimos nem teu salário.

Quanto é? E o que significa em dólares?

Era muito abaixo do que ele cobrava.   Riu dizendo vais me pagar em prestação?

Ainda nos falta dinheiro para a produção?

Bom podemos fazer uma coisa, como eu fiz com o diretor japonês com quem trabalhei, eu entro na produção, mas terei uma porcentagem do filme.

Ele me disse que fizeste isso, que recuperou o investido, como paga uma parte do que ganha contigo.

Podemos fazer igual, tu consultas com teu pai.

Quando começamos a trabalhar?

Bom dentro de um mês.

Então, quero começar a aprender a falar o texto rapidamente, bem como quero conhecer o personagem.

O primeiro tudo bem, mas o segundo quase impossível.

Ficou quieto, isso conseguiria ele.  Vê se consegue um apartamento.

Outra coisa, quem escreveu o roteiro?

Fui eu respondeu o Joki.

Então não precisamos do autor, metendo o bedelho no assunto, se ele quer que o ator principal seja como ele, que ensine a parte, mas detesto gente metendo o bedelho numa filmagem.  Isso é entre nós.

O mesmo se sentindo ofendido, se levantou para ir embora, o outro ator, colocou a mão sobre a dele.   Entendeu que entre eles existia alguma coisa, mais isso não era problema seu.

Pegou uma caderneta que tinha fechada, abriu começou anotar os nomes, inclusive perguntando como se escrevia.

Quando ficou a sos com Joki, quer dizer que esse sujeito, me queria porque me pareço com ele, fico imaginando inclusive que me ensinaria a me comportar como ele.

Bah, odeio essas coisas.

Me livraste de uma boa, pois eu tinha escolhido o Kaapo, como ator principal, ele sempre trabalhou comigo.   Ele tinha ficado ofendido, com o fato de ter mandado o texto para ti, dizia que jamais aceitaria esse papel, por ser um papel de um homossexual dentro do armário.

O investigador, perdeu o emprego, porque sem querer esse caso saiu dos padrões daqui ele é sempre uma estrela, por sua culpa, morreram dois agentes, além do Oskari, ter ficado numa cadeira de rodas por culpa dele. 

Eu conhecia o livro, ele é cliente do meu pai, foi negociada a venda dos direitos de autor para o cinema, pois teve um divórcio desastroso, a ex-mulher ficou com tudo, além da pensão que paga aos filhos.     Ele escreveu o livro, para conseguir dinheiro, além da simpatia do público com ele.   Não gosta muito do roteiro, mas não pode fazer nada.

Acho que deverias conversar com o outro personagem para ficar mais real isso.

Entro uma das garotas, que disse que tinha conseguido o professor, é um estudante da universidade, diz que se tu melhoras a pronúncia dele no inglês te ensina a falar como o personagem, ou então temos uma velha atriz que é da mesma região, hoje dá aulas de teatro.

Gostaria de conhece-la?

No final do dia, tinha um apartamento ao lado do Joki, descobriria depois que o edifício pertencia ao pai.

A atriz, riu quando ele foi apresentado, disse quase todos os filmes que ele tinha feito, só não tinha visto o japonês.

Estou de férias, poderia acompanhar todo esse tempo, bem como estudarmos o texto como você gosta, dizem as más línguas que eres um ditador com isso.

Contou para ela como tinha começado, mal sabia ler, nem escrever, disse o nome da senhora que o tinha ensinado tudo.   Não só me ensinou direito, como me obrigava a ler livros, depois discutíamos o texto, foi assim que aprendi.   Tinha que descrever o sentimento que pensava que o personagem tinha.   Alguns personagens que fiz no começo de minha carreira, eram desses idiotas americanos, o macho alfa, mas depois que pude eu mesmo escolher os personagens, os textos, comecei a realmente a honrar o que ela tinha me ensinado.  A cada filme, falam do meu trabalho, não da minha pessoa.

Deu o texto para ela ler, no dia seguinte voltou, perguntou qual personagem o faria mais rico no sentido emocional?

O segundo personagem, está mal delineado, mas se descobrimos por que, pode ser um triunfo.

Dizem que está num hospital, mas me informei, dizem que não que já teve alta.  Faz fisioterapia em casa.

Conseguiu o endereço, quando chegaram, ao mesmo tempo chegava o terapeuta com um papel na mão.   O convenceu de deixar entrar em seu lugar.

Quando entrou, o homem era bonito, mas estava de mal humor, foi dando ordens, como um condenado soldado.

Quando o carregou nos braços até a mesa de massagem, ficou olhando para ele, lhe deu um beijo na boca. 

Que merda é essa, ficou olhando para ele, já sei quem eres, o ator americano que vem fazer o papel do filho da puta.

Segurou com suas mãos imensas o peito dele na cama.   Estás mal informado, o personagem que escolhi fazer eres tu.   Mas preciso saber da verdade para construir um personagem que seja real, me escute primeiro, depois me diga que sim ou que não.

Quando li o roteiro nos Estados Unidos, antes mesmo de vir para cá, tinha me apaixonado pelo personagem que representa a ti.    Para mim ele é o herói, não o outro, pois este deixou morrerem duas pessoas sem necessidades.   Creio mesmo que o teu personagem levou o tiro por puro instinto de salvar alguém.   Pelo que li do livro, do roteiro, eras um policial reto, com a cabeça bem plantada.

Veja o que eu ganhei com tudo isso?

Sim ganhaste, as pessoas merecem saber que você era a pessoa certa, não o outro que leva as glorias.  Mas por azar foi denunciado, perdeu o emprego.

Sim fui eu que o denunciou.   Ele tinha um trato com o filho da puta que me deu o tiro, bem como matou os dois policiais.   Tudo porque precisava impressionar seu novo amante com uma casa bonita, tinha ficado sem dinheiro com seu divórcio.

Fez o terapeuta entrar, bem como a senhora.

Eu a conheço do teatro, disse ele.

Sim, esta me ajudando a falar como tu, quero se seja perfeito, por isso preciso de ti.

Depois do terapeuta acabar, ele foi para a cozinha preparar um chá, o pegou nos braços como se fosse uma pluma, o sentou na cadeira de rodas, o levando para o salão.   Agora me conte a verdade disso tudo.

Ele de uma certa maneira tratou bem meu personagem, pois precisava na historia um personagem que fizesse contraponto com ele.

Depois que perdi o impacto de trabalhar com o melhor investigador, de ter um romance com ele, fui descobrindo que era a pessoa atrás da máscara.   A partir desse momento comecei a discordar de seus métodos nem sempre muito limpos, a ele não importava a vida dos outros, mas sim ser reconhecido como um grande investigador.   Quando alguma coisa saia mal, sempre era culpa dos outros, sempre foi um canastrão.  Representava, que lhe tinha dado as informações erradas, essa culpa caia em cima dos que não podiam se defender.

Quando descobri isso, comecei uma batalha com ele.  Um dia sua mulher me escutou discutindo com ele, tentava me convencer de ficar quieto, queria me dar um beijo.   Eu já não queria nada com ele.    Ele na cama era uma mulher, queria sempre ser penetrado, dizia que sua parte homem tinha em casa.   Ela escutou tudo atrás da porta.   Quando chegou em casa, já não estava mais, tinha ido embora com os filhos, pediu o divórcio, quanto mais ele tentava convence-la foi pior, pois contou para todo mundo o que tinha descoberto.    Eu não tinha sido o único, primeiro ele escolhia bem, depois convencia as pessoas de manterem segredo.  Quando descobria um brinquedo novo, transferia a pessoa para outra delegacia, ou para outra cidade.

Quando tentou fazer isso comigo, gravei a conversa, foi o que sua mulher usou no divórcio, pois a queria deixar sem nada.    A partir disso, tentou fazer da minha vida um inferno.

Os chefes acreditavam nele, até as denúncias que fiz, eu tinha tudo documentado, ele entrou aqui em casa, procurando os documentos quando eu estava no hospital, mas tinha guardado tudo num banco, bem como foi gravado fazendo isso.   Por isso teve que escrever o livro.

Vou trazer aqui o roteirista, ele pagou pelos direitos do autor, pode mudar tudo o que quiser, além de que eu além de ser um ator, vou financiar parte do filme.  Ele terá que te escutar.

Melhor, vamos fazer uma bolsa, ficaras comigo no apartamento que tenho ao lado dele.

Isso pode trazer problemas para ti.

Adoro problemas, sou tiro e queda nisso.

O Levou nos braços até o carro, Oskari, lhe disse que podia se acostumar a isso.  Lhe respondeu com voz rouca, eu também.  Estava excitado.

Quando chegou ao apartamento, chamou o Joki, o apresentou, primeiro escute nossa conversa, Oskari, ficou surpreso, ele tinha gravado tudo.    Mostrou uma caneta que levava na camisa, confesso que roubei de um personagem que fiz.

Joki, escutou tudo sem dizer uma palavra, para quem era jovem como ele, tinha uma cabeça fantástica.  Telefonou ao seu pai, pediu que viesse.  Depois de escutar tudo, o pai balançou a cabeça, sim podes mudar todo o roteiro com essa parte da história, para todos efeitos, eu não sei nada, amanhã renuncio a ser advogado dele, pois me mentiu.

Foi uma bela confusão, pois o outro entrou na justiça, mas não ganhou, tinha perdido o beneplácito de ser um grande investigador.   Agora daria margem a que as viúvas dos outros dois policiais, reclamassem um bom dinheiro da polícia.

Claro levou-se tempo para reescrever o texto, ele foi ficando no apartamento com o Brad, tinham largas conversas, ele tinha visto todos seus filmes.   Contou que quando o outro tinha vendido os direitos para o cinema, que seu ator preferido ia fazer seu personagem, não o de um perdedor.

Com isso, ele seguia sendo o papel principal, mas o outro papel era ainda o mais interessante, ao conversar com ele, foi pegando sua maneira de falar.   Um dia despertou com ele tendo um pesadelo, ficou um tempo segurando sua mão, acabou deitado ao seu lado na cama.

Foi um pulo para terem sexo, lhe contou que nunca tinha tido um relacionamento, normalmente nunca me envolvo com uma pessoa, tu eres o primeiro por quem estou apaixonado.

Um sujeito numa cadeira de rodas?

Não muda nada, tivemos um sexo para mim fantástico, as vezes nem sabemos por que, mas foi algo que não quero perder por agora.

Sem que Oskari soubesse foi falar com seu médico.   Esse disse que sabiam de um médico americano que se atrevia a fazer essas operações.   Por favor mande os exames todos, para todos efeitos, eu não sei nada.  Mas pagarei a operação se for preciso.

O médico disse que sim que poderia operar.  Quando Oskari soube, como era nos Estados Unidos, entendeu que tinha sido ele.

Mas fez pé firme, em acompanhar a filmagem, no meio da neve toda.  O tempo dificultava a filmagem, o ator principal, tinha estado ligado ao escritor, mas depois de ler o texto entendeu coisas que não tinha prestado atenção.   Agora representava o personagem com raiva. Como o diretor mesmo tinha serias brigas. Mas acabou atendendo a razão.   O filme era cru, como os anteriores.    Pela primeira vez, depois via o que tinha sido filmado.  Sua fama aumentou, como ele podia gravar uma cena, sem errar nada do texto, falando perfeitamente um finlandês do interior do país.    Inclusive com os palavrões que incluía, que tinha aprendido com Oskari.

Esse o ajudava a compor o personagem, até na maneira de andar, tinham diferentes altura, mas o corpo era similar.   Quando o filme estava em fase de montagem, discutiam algumas coisas, Joki queria fazer uma dublagem para o Inglês, para o filme ser apresentado fora da Finlândia, ele achava que não devia mudar nada.

Acabou concordando em fazer a dublagem, falando tudo em inglês, confessou que não gostou, preferia que tivesse letreiro.  Tanto bateu o pé que concordaram.

O filme se estrearia em Helsinki, mas iria ao festival de Cannes, quem sabe podia concorrer ao Oscar, bem como ao Bafta.    Em Cannes ganharam como melhor roteiro, melhor ator secundário, bem como diretor.

De lá foram para NYC, aonde Oskari foi operado, não saiu do lado dele, nem uma vez.  Ao mesmo tempo o filme era apresentado em NYC.  Ele foi a estreia, pela primeira ver tinha saído nu, em um filme, bem como aparecia na cama com outro homem, beijando o mesmo na boca.

Tinha o outro ator do lado dele, quando lhe perguntaram como era beijar esse outro homem, riu dizendo, mau, tinha que pedir que escovasse os dentes, ele adora comer salmon, me sentia beijando um peixe.   Todo mundo riu.  Além de que o ameacei, se ficasse de pau duro, eu o cortava, afinal agora sou um homem casado.  Isso pegou todo mundo de surpresa.

Pela primeira vez na sua vida, tarde como ele dizia, estava apaixonado por alguém.  Apesar da diferença de idade, queria estar com ele.

Quando Oskari, saiu do hospital, andando de muletas, alguém os fotografou.  Se negou a falar no assunto, tinha que discutir isso com ele.

Não me importo, pois na verdade todo mundo sempre soube que eu era gay.

De lá foram para Malibu, assim poderiam relaxar-se ao mesmo tempo que Oskari voltava a andar.                         Mas foram a entrega do Oscar juntos, ele concorria pela primeira vez como coadjuvante, não se importava, Joki, concorria ao de roteiro.

Pela primeira vez ia acompanhado a uma gala, entraram por uma lateral, pois Oskari andava com dificuldade.

Quando falaram do roteiros, o apresentador falou sobre o filme deles, foi baseado num livro, que segundo parecia relatava um fato verdadeiro, foram descobrir que o livro só falava uma parte da verdade, a outra um dos produtores descobriu, mudaram o roteiro, é um sucesso de filme.  Cru como a vida mesma, sem nenhum ramo de flores no final, tipo foram felizes, comeram perdizes.

Ganhou o Oscar, quando foi apresentado dos atores secundários, ele concorria, o apresentador falou, um ator americano, conhecido pelo seu trabalho, sério, já concorreu várias vezes a este prêmio, nunca ganhou, dizia sempre que esperava o de consolação quando fosse velho.

Agora concorre a esse prêmio com um filme estrangeiro, falando perfeitamente o finlandês, mas isso já se espera dele, com sua mania de perfeição.

Ele ganhou, subiu ao palco emocionado, pois não esperava, sabia que seu trabalho tinha sido bom.    Riu, como não esperava, não escrevi nenhum discurso, mais uma vez quero agradecer a uma pessoa, que em paz descanse, que me ensinou tudo que sei, a um garoto chucro, que nem sabia ler direito.   Me ensinou a ser eu mesmo, a criar os personagens.  Agradeço ao Joki, por ser um diretor maravilhoso, mas agradeço mesmo a possibilidade de ter aprendido a amar pela primeira vez uma pessoa, que representei na tela, Oskari.

Os focos se viraram para a mesa, este com dificuldade se levantou agradecendo.  Ele continuou no palco, fez me ver que é besteira estar escondido atrás de um personagem que criei a muitos anos atrás.  Um aviso, Joki, se tiver outro papel para mim na Finlândia posso fazer, mesmo que seja um bandido.

Todo mundo riu.  Depois se deixou fotografar com o resto do elenco.  Ele que sequer ia a entrega dos prêmios.

Joki estava deslumbrando com Malibu, estava aprendendo a fazer surf com a garotada, escutava suas conversas.    Um dia soltou, isso faz falta em Finlândia, um sol como esse, esse mar.

Quando resolveram voltar para casa, viu que Oskari tinha dúvida, gosto do sol, mas amo o tempo em minha terra, aqui não posso fazer nada, lá vão me readmitir na polícia.

Bom não perco nada, Joki me contratou para seu seguinte filme.  Arrumaram uma casa para os dois, aonde fosse fácil Oskari se mover.   Ele agora levava um departamento que analisava provas.

Mas logo voltou a trabalhar como investigador.   Mas o que gostava mesmo era quando Brad o levantava nos braços para levar para a cama.

Brad, fez mais de 10 filmes pela Europa, até se atrever a dirigir seu primeiro filme, de um livro de um jovem Finlandês, com o qual ganhou muitos prêmios.

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 31 de mayo de 2021

HAKAN MEHMED

 

                                     HAKAN  MEHMED

 

Sempre levei a sério o meu nome, mas mais por culpa de meu pai, que dizia que eram importantes.  Era um grande comerciante Turco.  Sou filho do seu segundo casamento, do primeiro tinha cinco filhos homens, dizia a todo mundo era potente, pois só tinha filhos homens. Quando ficou viúvo, foi de férias a Mykonos, aonde conheceu minha mãe, que era de uma quarta geração de turcos na Alemanha.   Tinha a pele muito clara, olhos castanhos claros, um sorriso genial.   Quando nasci, todo mundo queria me ver, pois nasci com um olho negro como os dele, outro claro como o delas.   Virei o brinquedo dos meus irmãos mais velhos.

Como quem cuidava dos outros era uma irmã de meu pai, minha mãe exigiu uma casa a parte, aonde mandasse ela.   Era uma mulher europeia, moderna, atual, lia jornais, fumava, gostava imensamente de música, na verdade não tinha nada de turca.   Tampouco era religiosa, coisa que provocava verdadeira briga entre os dois.

Herdei dela a paixão pelos livros.  Comigo só falava alemão, o que foi uma vantagem, pois aprender línguas ficou fácil.  Vivíamos perto do Grande Bazar, aonde ele tinha muitas lojas, da universidade.   Mas o que eu gostava mesmo, era que ao lado do Grande Bazar, existia um mercado de livro.   Era minha paixão, logo conheci um senhor Irani, Bahar que me ensinou a ler, escrever em Farsi.  Me conseguia livros antigos manuscritos, que eram a minha paixão.  Era um adolescente diferente, não me interessavam os jogos, os negócios familiares.  Alguns da família me criticavam, mas meu pai me defendia.

Queria que um filho fosse a universidade, que ele não tinha podido fazer, seus outros filhos, estavam fadados aos negócios.

Um de meus irmão levava uma loja de antiquário especializada, a cada nova compra, mercadoria que chegava de algum lugar do oriente, me chamava para apreciar com ele, se tinha alguma coisa escrita em outra língua eu era o encarregado de descobrir, para que ele tivesse um ponto a mais de venda.

Com isso acabei falando quase todas as derivações da língua árabe, entendia o significado da escrita.                    Mas minha mãe não descuidava, me obrigou a estudar, inglês, que ela falava corretamente, bem como o francês.  Um sonho ela compartia com meu pai, que eu fosse a universidade.

Fomos visitar sua família em Berlin, voltei carregado de roupas europeias para ir à universidade.   Essa estadia, passei o tempo todo falando alemão, meu pai, coitado ficava de fora, pois falava muito mal.  Sentava-se a seu lado, ia traduzindo o que ele não entendia, este colocava o braços em cima de meus ombro como gostava, sorria.

No primeiro dia da universidade, todos me olhavam, pois ia desde sapatos feito a mão, a roupas de primeira.  Creio que foi quando tomei gosto por isso.   Minha mãe sempre dizia uma coisa, ande sempre limpo, asseado, com as roupas limpas, as camisas têm que estar perfeitas.  Me ensinou como passar as mesmas para que ficassem perfeitas.   Tinha aulas de filologia, além de história, a qual eu sabia tudo na ponta da língua.   Minhas notas eram ótimas, só durante o período depois da morte de minha mãe, é que caíram um pouco.  Fiquei abalado, mas pior ficou meu pai, que criou uma dependência de mim imensa.  Se negava a ficar na casa de nenhum de seus filhos.  Consegui contratar uma senhora que fazia limpeza na universidade para pelo menos limpar a casa.  Saia da Universidade, ia correndo para casa, depois o levava a comer no restaurantes de amigos dele.   Mas estava cada vez mais triste, ficava sentado no salão que não tinha nada do estilo árabe, mas sim europeu, olhando a poltrona aonde ela se sentava para ler, ou conversar com ele, a cada dez minutos soltava um suspiro.

Conversava com ele, sobre a história do pais, sobre os antigos Sultanato, ele sabia tudo, te deixarei algo de herança.   As vezes pela tarde ia a loja do meu irmão, o arrastava comigo, este não gostava muito, pois em seguida estava examinando seu livro de contabilidade.

Se estávamos no Grande Bazar, me fazia ir com ele a todas as lojas que lhe pertenciam, vigiava que não lhe roubassem.  Mas no final do dia, íamos tomar chá com meu amigo Bahar, ele se divertia nos vendo conversar em Farsi, ou quando eu apreciava algum manuscrito que tinha conseguido para mim.

No dia que começou a passar mal, estávamos ali sentados, ele tinha conseguido através de um conhecido em Teerã, um manuscrito, que falava de Mehmed o fundador da dinastia em Constantinopla. 

O levei imediatamente para o hospital, enfiei o pequeno manuscrito no bolso me esqueci dele. Do hospital ele não saiu.  Era uma verdadeira romaria, não só dos meus irmãos, como de seus filhos, amigos dele, homens com quem tinha tido negócios a vida inteira.  A maneira como se comportavam, eram como se despedissem de um patriarca.

Seu enterro tinha muita gente, a maioria tinham negócios com meus irmãos, quem vinha falar comigo eram os professores da universidade, alguns tinham sido ajudados pelo meu pai.

Um advogado me estendeu seu cartão, me disse que depois da leitura do testamento, eu fosse falar com ele em particular.

Quando fomos a leitura do testamento, a cada um deixou a loja que já cuidava, me deixou as lojas que tinha no mercado do livro, pedia desculpas, mas os aluguéis eram antigos, a casa que vivia que estava na verdade em nome de minha mãe.  Teria que me apanhar, pois claro os outros ficavam com muito mais dinheiro.   Mas não disse um pio, não reclamei, me faltavam meses para terminar a Universidade, pensava em ir fazer um curso seguinte em Berlin.

Agora à primeira vista não tinha dinheiro para ir fazer nenhum curso.  Tentaria conseguir uma bolsa de estudo, mas claro isso tinha sempre uma cunha política.   Um irmão de minha mãe tinha oferecido sua casa.   Mas claro precisava de dinheiro.   Os aluguéis não dariam para me manter lá.   Nem me atrevia pedir aos meus irmãos.

Me lembrei do cartão do advogado, me recebeu prontamente, eu achava estranho, pois era muito jovem, o do testamento era o seu advogado de toda vida.

Me explicou que seu pai tinha sido funcionário do meu, toda vida, que levava uma das lojas de tapetes. Ele pagou os meus estudos, reclamava dizendo que teus irmãos, eram bons negociantes, mas não se interessavam pelos estudos.

Era uma verdade, o que tinha a loja de antiguidade, me soltou na cara, que meu futuro seria levar uma das lojas de livros, que não davam muito lucro.

Me estendeu, duas caixas, uma grande, outra menor.   Me disse que o mais importante era a menor, que a abrisses na sua frente.   Ele sempre tinha sido um apaixonado por caixas de madeira, essa tinha um texto em Farsi, ele sabia que tinha paixão por esta língua.  Um texto falava do futuro.    Quando abri a caixa, tudo que tinha eram uma carta, bem como uma chave.

A carta explicava a outra caixa, diziam que eram diários de nossos antepassados, que eu entenderia quando começasse a ler, a chave era de um apartamento em Berlin, que tinham comprado na última visita, assim quando fosse para lá realizar meu sonho, teria aonde ficar. Deves acompanhar o advogado ao banco, falava o nome do mesmo.   Era a filial de um banco alemão, pedia desculpas que não era muito dinheiro, mas eram economias dele e de minha mãe.

Fui com o advogado, realmente não chegava aos pés do dinheiro que tinha ficado para meus irmão, mas em contrapartida, me daria para começar em Berlin.

Como já tinha aonde ficar, me dava autonomia de vender a casa dali, que isso eu nunca faria, ou mesmo as lojas.   Sabia que não valeriam nenhuma fortuna.

Tinha minhas economias também, fui até Berlin, numa viagem barata, fora de estação para uma entrevista com os professores.  Logo me aceitaram, um em especial, que disse conhecer meu tio, me disse que poderia conseguir, se eu trouxesse meus diplomas, que desse as classes de Farsi, embora houvesse poucos alunos.

Aceitei, embora não fosse muito dinheiro, era algo.

Fui ver o apartamento, não era tão grande como nossa casa, é claro, uma sala relativamente grande, pois estava sem móveis o que era bom, mas tinha uma janela imensa que dava para um parque, o quarto era bom, bem como o banheiro, um dia o reformaria, mas agora dava para o gasto, além de uma pequena cozinha.    Estava no meio de um bairro de maioria turca. Então teria aonde comprar comida, bem como muitos restaurantes.

O mesmo professor, me soltou, se queres impressionar, já que te veste de maneira europeia, corte os cabelos, raspe essa barba que caracterizam os turcos, te comportes como um alemão. Chegaria à conclusão de que ele tinha toda razão, mas claro, no bairro, tinha que falar turco para me entenderem, pensavam que eu era um alemão pobre.

Voltei a Istanbul, me despedi da família, pedi ao meu amigo Bahar, que fosse viver na minha casa, que cuidasse dela, que continuasse me mandando os manuscritos que sabia que eu gostava.

Aluguei um carro, para levar meus livros, misturei os manuscritos no meio deles, para disfarçar, fui cuidar da minha nova vida.

Só me dei conta que não tinha aberto ainda a caixa dos diários de meus antepassados, quando comecei a colocar os livros no lugar.   Um vizinho me ajudou a montar as estantes, tinha comprado os moveis todos em IKEA, esse riu comigo, dizendo um intelectual turco, vai ensinar os alemães.   Quando abri a tal caixa, primeiro senti o cheiro dos livros, alguns eram ainda folhas de pele de cabra, outros, tinham a capa belíssima, toda com um trabalho artesanal, um papel suave, frágil.  Os fui arrumando por época, seria material do meu estudo dai por diante. Colocando a roupa no armário, descobri o último manuscrito.  Era mais ou menos da mesma época dos primeiros que tinha herdade de meu pai.

Quando fui devolver o carro, o lugar vendia carros de segunda mão, fiquei apaixonado com um velho Volkswagen de 1970, sua proprietária o tinha guardado numa garagem, tinha o motor perfeito, era vermelho sangue, perfeito para mim.

Comecei tudo ao mesmo tempo, a estudar, dar aulas, quando descobriram que falava quase todas as nuances da língua árabe, me saíram mais classes.

Um dia estava saindo da aula de Farsi, tinha um homem me esperando fora, se identificou como sendo da biblioteca Estatal de Berlin, se apresentou como Hans Shueber, o convidou para um café.

Começou com uma conversa longa.

Senhor Hans, vamos direto ao assunto, pois tenho trabalho a fazer, nunca perco meu tempo em estender um assunto que não entendo.

Necessitamos de alguém, para desenvolver um trabalho junto a quantidade de manuscritos que temos em Farsi, as derivações de árabe antigo dos países que estiveram sobre o julgo da União soviética.   Podemos contratar por horas ou mesmo como um emprego fixo.

Podemos lhe mostrar o que temos, se lhe interessa, negociamos.  O senhor acabaria sendo um funcionário do governo.

Primeiro prefiro dar uma olhada no que os senhores possuem, mesmo tendo que assinar um termo de confidencialidade.

Tenho meu tempo atualmente empregado, entre dar aulas, ter aulas de pós-graduação, bem como textos de diários que herdei da família, que remontam a muitos anos atrás.  Bem como sou devoto de manuscritos em Farsi, bem como das outras línguas.   Tenho um pequeno acervo a respeito.

No momento trabalho em um sobre a construção de uma mesquita em Teerã, que além de desenhos, constam medidas, projetos.

Caramba, eres justo a pessoa que procuramos. Te aconselho a registrar tudo que seja de sua propriedade ou ter num cofre, sempre é bom ter uma proteção.

Marcou com Hans para o dia seguinte a tarde, que teria livre.   Não podia reclamar, as coisas iam bem.  Falava com o seu amigo, cuidador de sua casa.  Este lhe contou que um de seus irmãos tinha ido falar com ele.  Mas os conhecendo, tinha deixado um papel com o Bahar, uma cópia com o advogado, em que explicava que o homem tomava conta de sua casa.

Falou por acaso, para ficar tranquilo com o advogado.  Esse disse que esse mesmo irmão o tinha procurado para discutir se não tinham direito a essa casa.  Quando soube que sempre estivera em nome de sua mãe, não gostou muito.    Qualquer coisa te informo.

Foi a Biblioteca Estatal, no dia seguinte, disse que tinha hora marcada com Hans Shueber, o levaram a uma parte subterrânea, aonde ele tinha um escritório, todo fechado por vidro, a temperatura ambiente era própria para conservação dos livros.  Parou na entrada, sentido o cheiro dos mesmo, era como lhe dizer seja bem-vindo.

Hans lhe apresentou ao diretor da biblioteca, estiveram conversando, lhe passaram um manuscrito, ele em seguida começou a ler, quase se esquece da presença dos outros. Leu o que estava escrito em alemão.  Explicou que havia uma palavra confusa, que ele podia ter duas interpretações, mas creio que é como a pessoa o escreveu.  Veja, foi apontando as palavras, anotando a parte as mesmas, elas formam uma mensagem a quem for ler o manuscrito.

A ideia que esse manuscrito, que discorda de uma séries de medidas tomada por um Íman, no ano de 1820, se refere a construção de uma mesquita que não estaria voltada para Meca.

Como, deixasse um rastro de código para se poder ler o que escreve.

Tínhamos consultado um imã, vimos que observou algo, mas se calou, como se nós quiséssemos interferir em alguma coisa deles.

Perguntaram de sua disponibilidade.  Ele tinha analisado com seu travesseiro no dia anterior, suas opções.   Umas das turmas não lhe interessavam, pois os alunos não estavam verdadeiramente interessados no tema, o professor que ele estava substituindo, o levava de rédeas frouxas.

Posso negociar isso, apenas necessito das manhãs, posso começar a trabalhar a partir das dez, dois dias tenho aulas, três dou aulas, mas necessito 4 horas de noite para trabalhar em casa.

Lhe ofereceram um salário, bem como um contrato indefinido, que o ajudaria a ter nacionalidade alemã que já tinha pedido, através dos documentos de sua mãe.   Ajudariam inclusive nisso.

Lhe mostraram sua sala, Hans Shueber, lhe indicaria os manuscritos que devia ler, traduzir, fazer anotações pertinentes.

Amanha concreto isso, pois necessito falar com a Universidade, não os quero deixar na mão, já que me receberam tão bem.

Comentou com os dois, que os pais tinham comprado esse apartamento para ele, no momento que decidiu seguir os estudos em Berlin.   Explicou que os dois tinham morrido, pouco tempo um do outro.

Não podia reclamar, dali foi direto a universidade, o reitor, já tinha recebido uma chamada do diretor da Biblioteca, só pediu que ele continuasse até o final do curso, com a pequena turma adiantada, pois estavam aprendendo muito com ele.

Agora com um salário como o prometido, seria mais fácil, até poderia se mudar do bairro, mas gostava de aonde estava.

Chegava logo depois das aulas, se fechava com o manuscrito que estivesse trabalhando, ia anotando a parte tudo que lhe chamava atenção, depois de terminado, escrevia a tradução num laptop, bem como um original, o que era complicado, pois os laptops atuais, não continham letras que representassem a língua antiga.

Hans as vezes almoçava com ele, dizia que ele era rápido no assunto.   Temos agora dois estudantes que estão interessados em alguns temas, se puderes ajudar.

Um era seu aluno na universidade, mas o outro, avisou em seguida ao Hans, me parece estranho que um aluno iraniano, venha estudar aqui manuscritos de sua língua original, mas busca algo em concreto.   Melhor investigar a pessoa.   

Não deu outra, era um agente do governo que queria saber o que possuía a Biblioteca, para poder reclamar.

Estava agora trabalhando um manuscrito muito antigo, as páginas feitas de pele de cabra, eram perfeitas, a caligrafia era apaixonante, bem como o texto, poesias dedicadas a alguém a quem pelo visto nunca mandava nada.   Falava de uma pessoa, sem se referir a sexo.   A princípio pensou que era escrito por uma mulher, mas a letra era masculina, sabia diferenciar.  Ficou um pouco confuso.    Releu mil vezes, a última com uma lupa, para ver se a colocação das letras lhe davam alguma orientação.   Falou com o Hans, a respeito, se não tinham mais nenhum do gênero.   Como mencionava um lugar em específico, falou com seu querido Bahar, para ver se descobria algo mais.

Bahar riu, quem me mandou te ensinar tudo isso, agora aguento.  Estou te mandando uma caixa com alguns novos que consegui.

Mas o texto não saia da cabeça, analisou as páginas finais, ali tinha duas interpretações, a outra pessoa se casa, iria ter filhos, esqueceria do amigo.   Aí, estava uma palavra, que tinha sido borrada, reescrita.   Chegou à conclusão que tinha sido escrita de um homem para outro homem. Comentou isso com o Hans.   Precisamos de uma lupa mais potente.  Foi difícil descobrir que essa palavra, tinha sido borrada, reescrita outra vez.  Só notei porque a letra é um pouco diferente.

Ia bem no trabalho, no que desenvolvia para sua pós graduação, seguia recebendo uns quanto manuscritos vindo de Bahar.

Recebeu um maior, com uma carta escrita por ele, isso creio que é uma história inteira, ou um romance.   O li algumas vezes, mas sem entender direito, como o aluno suplantou o mestre, espero que decifres tudo isso.

Sem querer era a complementação da poesia, mas agora contando em prosa, a história de um romance proibido.

Registrou a propriedade, para depois mostrar ao Hans, esse queria adquirir imediatamente para a biblioteca.

Primeiro quero ler, analisar, depois já pensarei.

Sem querer, tinha encontrado o tema para sua pós graduação.

Quando comentou com o Hans, este foi direto, como ele gostava, queria saber se ele era homossexual, para gostar do tema.

Confessou que tinha tido experiencias, mas nunca amei ninguém, se isso que queres saber, mesmo aqui, tive algumas aventuras, mas não passaram disso.

Admirava a forma de amor de seus pais, mas nunca tinha se interessado por ninguém a esse ponto, tampouco se sentia atraído por qualquer pessoa que conhecia.

Via a vida noturna de Berlin de longe, sem saber muito bem como interagir, na verdade saia pouco, talvez por falta de companhia.   Seu vizinho o tinha chamado várias vezes, mas as pessoas com que ele conviviam não tinha nada aparentemente com ele.  Quando sabiam o que fazia, soltava um sorriso como dizendo o que faz esse aqui com a gente.  A maioria eram trabalhadores braçais.

Hans ao saber disso o convidou para sair com ele.  Tinha uma forma completamente oposta de vida, era um apaixonado da Opera, de sair para um jantar calmo, aonde se pudesse falar de arte. 

De qualquer maneira, estava acostumado a viver sozinho, começou a conhecer os museus, a observar principalmente obras de artes que as vezes ao seu entender estavam mal catalogadas.

Anotava tudo que lhe parecia mal catalogado, lia inscrições nas pedras, para posteriormente ratificar se estavam certas as traduções.   Foi assim que encontrou um amigo do Hans, que o viu escrevendo ou desenhando a inscrição de uma pedra, percebia que a maioria das pessoas que estava ali, olhavam o conjunto, não os detalhes.  Ficou parado ao seu lado, o observando. Quando se voltou o cumprimentou, mas não se lembrava o nome dele.

Já sei, como todo mundo, que é apresentado em volta de uma mesa, é difícil guardar os nomes, Tom Von Bode, um descendente do homem que coordenou o museu que leva o seu nome.

Trabalhas aqui?

Nem pensar, sou arquiteto, mas interessado em arte em geral, mas me dedico a restauro de casas antigas, no momento estou restaurando uma casa aqui perto, quase um castelo que ficou muito anos, sendo usado só uma parte.  Como o governo o comprou, para montar mais um museu, estou olhando o trabalho de reformas da Ilha dos Museus, para pensar como fazer o projeto.

Ficaram conversando, pois no dia que se conheceram não tinham tido oportunidade.  Falaram de muitos assuntos.     Hans nunca fala do seu trabalho, com medo que possamos depreciar, mas eu considero uma arte saber ler em outras línguas que sequer temos conhecimento.

Lhe pareceu que falava nisso para ele se abrir.   Por precaução, desviou o assunto.  Eram o extremo oposto fisicamente.  Pois Tom, era extremamente branco, quase o padrão ario do homem puro.   Ele ao contrário, por mais que se parecesse alemão, com seus cabelos crespos rebeldes, sua tendência a ter uma barba fechada e escura.

Acabaram na cama, Tom era um tanto agressivo na cama, o que não lhe gostou muito, não se sentia à vontade.   Comentou isso com Hans, esse se matou de rir, ele adora sado masoquismo, vive se vangloriando disso.   Talvez por isso sempre está sozinho, vá com calma com ele.

Passou a evita-lo, se por acaso se encontravam num jantar se sentava no lado oposto a ele, veio falar com ele a respeito.   Dias depois soube que tinha comentado com alguns que ele na cama era como estar com uma mulher barbada.  Pensou em tomar uma satisfação, mas decidiu que o melhor era ficar quieto.

Deixou simplesmente de sair com o grupo do Hans.  Se dedicou plenamente ao seu trabalho, quando apresentou o projeto de pós graduação, logo apareceu uma editora querendo editar o trabalho.   Era uma análise profunda de dois manuscritos, tinha feito um trato com a biblioteca, se deixavam usar o que eles tinham, posteriormente doaria o seu.

Foi convidado para uma apresentação num congresso sobre linguística patrocinado pela Sorbonne.   Tirou férias para ir.  Agora que tinha terminado o curso de pós-graduação, estava mais livre para seu trabalho.  Mudariam seu contrato.

Quando apresentou seu trabalho em Paris, pensaram que ele faria a apresentação em alemão, mas a fez em francês, foi super aplaudido no final.   Não usava nenhuma palavra em alemão.

Lhe perguntaram se tinha algum vínculo permanente com Berlin, respondeu apenas que tinha lá um apartamento, bem como sua documentação hoje em dia era alemã, visto sua mãe ter nascido lá.     Não acredito que estarei preso nunca a lugar nenhum, pois meu interesse é ir em frente.

Quem lhe tinha feito essa pergunta, era o coordenador do encontro.   Logo o apresentou a pessoas importantes do departamento de línguas da universidade, bem como da biblioteca nacional.  Temos uma quantidade imensa de manuscritos da tua área, mas os professores não se interessam em coordenar os mesmo, tampouco os alunos.

Lhe deu um cartão, para que fosse conhecer o local. Era tudo ao contrário de Berlin, se sentia como se estivesse no mercado do livro de Istanbul, por estava tudo sem registro, sem coordenação, ali não existia uma sala fechada, mas sim uma mesa imensa, que se via fora de uso, pela poeira que acumulava.    O primeiro que pegou foi um manuscrito em árabe, que falava do descobrimento uma fortaleza, inclusive dando coordenadas.   Perguntou ao diretor se tinha verificado isso.

O acompanhou ao departamento de arqueologia, deu de cara com um homem mais velho que ele, com uns cabelos crespos como o seu, parecia a juba de um leão enfurecido.  Os olhos eram sagazes.    Apertou sua mão tão forte que doeu, se apresentou com Jean Leon, em seguida estava debruçado em cima de um mapa estudando as coordenadas.

Que coisa mais rara, aparentemente aqui não existe nada, simplesmente é o promontório de um rio, pode ter sido habitado por várias civilizações.   Vou pesquisar a respeito, inclusive posso ir até lá, esbarro no meu problema de sempre, preciso de um tradutor, pois tenho dificuldades para aprender línguas.   Se virou rindo para ele, sacudindo a juba, porque não vens comigo, se estas de férias, iriamos mais rápido, ficou rindo, comigo sempre é assim, é como estar num turbilhão.  Voltaram a biblioteca, queria ler tudo que estava escrito.

Analisou cada palavra, bem como sua colocação num contexto.  Quem escrevia não tinha comunicado a ninguém a respeito, pois temia que sua vida plácida fosse invadida.  Pelo que escrevia eram dias turbulentos.  Conseguiu datar a escritura por volta do fim do século XVIII, telefonou para o Leon como o chamaria sempre. Marcaram de se encontrar essa noite, mal sabia que estava fazendo.

Ele quando falava, olhava diretamente nos olhos da pessoa, falaram horrores, ele tinha levado apontamentos, disse que só teriam que avisar as autoridades Turcas, que iriam pesquisar nessa zona. Pois não constava nada nos mapas.

Saíram essa noite, foi lhe mostrando os lugares que amava, se sentaram na Pont Des Arts, observando a noite.  Perguntou em que hotel estava, lhe disse.   Venha minha casa, esta aqui perto.   Era um terceiro andar em Saint Germain de Prés, o apartamento tinha livros por todos os lados, mas ordenados, falando sobre vários assuntos, mas a sala era como estar num Oásis, pois dava para uma pequena varanda.  Cheio de plantas.  Quando se voltou para dizer que o lugar era maravilhoso, deu de cara com o Leon, o atraiu, o beijou com delicadeza, depois foi dando lugar a um beijo apaixonado.  Quando viu estava na sua cama.  Eram parecidos fisicamente, disse que sua mãe era argelina, talvez por isso.   Nunca tinha estado tão a vontade com ninguém, sempre um sexo rápido, com ele, apesar da aparecia de um leão enfurecido, de todo o caos com que trabalhava, estar com ele na cama era como estar explorando a fundo seu corpo.

Quando terminaram, ficaram rindo um com o outro.  Foi sincero, nunca estive assim com ninguém.

Pois eu já te esperava a tempo, sabia que um dia encontraria uma pessoa como tu.

Dois dias depois partiram, comunicou a Berlin, que se atrasaria, pois tinha se metido numa exploração a partir de um manuscrito.

Quando chegaram a Istanbul, ali já o tinha esperando toda sua equipe, analisaram um mapa da época, partira para o lugar, no segundo dia deram com uma ponta do Iceberg como ele chamaria.   As terra hoje eram inexploradas, restava agora conseguir autorização das autoridades para escavar.   Ele serviu de intermediário, bem como de tradutor.  O levou para sua casa, quando o apresentou a Bahar, este lhe mostrou vários mapas antigos sobre essa zona.

Aparentemente tinha sido uma cidade fenícia, de aonde partiam comerciantes por todo o mediterrâneo, pois estava guardada pela enseada do rio, dali também saiam barcos rio acima. Para buscar mercadorias com que comercializar.

Foi bom ver Bahar, estava ficando velho, melhor que tenho essa casa para viver, senão estaria na rua.

Voltaram a Paris, em seguida recebeu o convite para cuidar desses livros, inclusive com a oportunidade de formar uma equipe, lhe permitiam inclusive participar da escavação, visto ter sido dele a descoberta.

A relação dos dois era impressionante, um começava um gesto o outro terminava.  Podes ficar na minha casa se quiseres, tudo que é meu é teu.

Voltou a Berlin, por algumas coisas, colocou numa caixa os manuscritos que estaria trabalhando, levaria os da família, bem como alguns outros, selecionou roupas, os demais manuscritos colocou num banco, numa caixa forte.

Hans não gostou muito, mas reconhecia que a oportunidade era única, se não der certo volte.

Foi para Paris, no seu velho Volkswagen, que Leão, amou desde o primeiro momento.  Começou a organizar todo seu trabalho na biblioteca, conseguiu dois estudantes de línguas para ajudar, o primeiro mesmo era limpar com sumo cuidado tudo que estava ali abandonado.

Se tinha que usar luvas especiais para tudo isso, nesse ponto era metódico.  Iriam para a escavação dentro de meses.   Viver com o Leon, era como estar sempre em movimento, pois era uma pessoa simplesmente ativa.  O arrastou para todas as grandes bibliotecas existentes na França, ele como lhe mostrar um mundo novo.

Foi com ele para a escavação, levando dois manuscritos da família, para seguir seu trabalho, Bahar veio ficar com eles, não fez nenhum comentário a respeito da relação deles.   Apenas disse que tinha encontrado um amigo a altura dele.

Ajudava com os trabalhadores locais, aos que colocava em ordem. Convenceu o Leon, que os horários de rezas eram fundamentais, um dia apareceu com um Íman ali da região, que veio trabalhar junto aos homens, depois dirigias as preces.

Uma primeira parte começava a aparecer, era como uma torre de vigia, que estava afincada na pedra, foram descendo com a escavação lentamente, até chegarem à base, agora tocava, seguir o resto.   Quando terminaram a temporada, veio o ministro de cultura, elogiou o trabalho, pelo que tinha podido analisar, o lugar chegava até antes dos fenícios.

Cada coisa que tinham encontrado era analisado, fotografado, desenhado, como tudo numa escavação, só podiam levar isso, o resto ficaria guardado em Istanbul.

Leon e ele voltariam várias vezes para analisar alguma peça, que tivesse alguma escritura.

Foi como mergulhar num mundo novo, que ia além do papel.

Por instinto tinha o cuidado necessário ao tocar cada peça, a analisava, as vezes chamava atenção para algum detalhe.

Me completaste soltava Leon, pois necessito disso, alguém que possa compartilhar as coisas.

Estavam ultimando os últimos detalhes da temporada, registrando tudo, tinham avançado bastante, mas na verdade a escavação duraria anos.

Foram chamados a Istanbul, o departamento de cultura, queria que olhassem um lugar novo, dois edifícios antigos, numa região conhecida como um refúgio de judeus, na hora não entenderam, quando chegaram a retirada dos escombros tinha parado, pois tinha encontrado algo no subsolo.   Pelo visto nem sabiam da existência dessa parte. Um poço, com uma escada circular. Foram descendo, quando chegaram embaixo iluminaram tudo, ficaram de boca aberta, pois havia uma verdadeira biblioteca parada no tempo.   Alguém tinha escondido livros ali, por algum motivo desconhecido.   Enquanto iluminaram tudo, viram que a quantidade era grande, mas o túnel seguia adiante.  Leon seguiu adiante com alguns homens, achavam que o túnel passaria por debaixo da muralha da cidade.

Ele ficou ali, fotografando tudo com muito cuidado.  A coisa era, alguns precisavam de cuidados pois estavam por causa da humidade em péssimas condições, outros nem tanto.

Quando voltaram a parte de cima, Jean Leon, disse que deviam cobrir a entrada do poço, para prevenir qualquer coisa.   No departamento os tinha chamado porque sabiam que eu era um experto no assunto.    Lhes disse que se me arrumassem um local, poderia trabalhar, nunca me negaria atender ao chamado da minha terra.      Falei com Bahar, este logo me arrumou dois ajudantes, o problema era conseguir um lugar em boas condições, climáticas.  Cada volume era levado com cuidado, dentro de uma bolsa térmica, levamos mais de uma semana fazendo isso.

Eu ia recebendo cada volume, tirando da bolsa, o classificando.  Tínhamos ali códices muito antigos, bem como manuscritos em uma anterior língua de Israel, até mesmo algo egípcio, era uma coleção incrível.   Encarreguei o meu advogado de descobrir a quem pertencia o solar, sua época de construção, toda informação possível era importante.

Depois de semanas de pesquisa se descobriu que durante a primeira guerra, a casa existente tinha caído, por cima se construiu os dois edifícios pequenos.  Depois de tudo retirado, se descobriu ao lado do poço, uma oliveira, pedimos que se possível datassem a mesma.

Depois da retirada da biblioteca Nazari, nome que dei a ela, pois encontrei manuscritos que vinha de España, justamente falando dos árabes residentes em Granada.

Jean Leon, começou a retirar as pedras que fechavam o túnel, a estrutura de madeira que sustentava o teto do túnel, era incrível, era um cruzamento de vigas imensas das que tinham caído uma foi mandada para uma prova de carbono 14, assim se poderia saber a quanto tempo estavam ali.    Eu achava interessante, tinha ido pelo mundo, mas voltava para trabalhar no meu próprio pais.   Meus irmão se aproximaram para saber se podiam negociar com alguma das peças encontradas.   Lhes mandei falar com o encarregado do governo, pois o que não fosse livros, ou manuscritos, esses com certeza iriam para um museu.

O trabalho seria imenso, discutimos primeiro, a forma de me pagar, pois deixava um emprego bem remunerado na França.   Chegamos um acordo, como não precisava de casa, poderia cobrar menos.

Bahar estava comigo todo o tempo, parecia ter remoçado, estava no seu ambiente.  Estava sempre atendo a tudo. Alguns manuscritos estavam com as folhas coladas pela humidade, era necessário todo um processo para poder chegar a abrir o mesmo.   Lhes ensinei como fazer, tomava seu tempo, mas as vezes depois de 15 a 20 dias se podia abrir algumas páginas.

Outra coisa importante era a iluminação, tudo isso estivera tanto tempo sem iluminação nenhuma que era necessário luz tênue, óculos especiais, bem como luvas que não arranhassem a pele ou papel.

Finalmente se descobriu quem era originalmente o dono durante o período da primeira guerra, um judeu que era professor da universidade de Istanbul.

Jean Leon, finalmente abriu a passagem, dando a um cruze de tuneis que ia dar ao porto. Corria por debaixo de toda a cidade.

Formou grupos para explorar os mesmo para ver aonde davam.   Um inclusive dava a Igreja de Santa Sofia, com uma extensão ao Palácio Topkapi, saindo quase dentro do harem.

Quase se podia percorrer a cidade, pelo subsolo.  Alguns tuneis, tinham com os anos desabado, tornando impossível verificar aonde levavam.   Mas todos ao parecer levavam ao porto.

O colecionador, tinha uma quantidade imensa de manuscritos que era difícil saber de aonde tinha tirado tudo isso.   Apenas se sabia isso, tinha sido professor na universidade.

Como tinha morrido nessa guerra, o local foi basicamente soterrado, se construindo por cima.

O governo agora teria que decidir, se utilizava essa descoberta para uma espécie de turismo subterrâneo, ou simplesmente construía em cima.

Eu levaria pelo menos dez anos em conseguir classificar tudo isso, ao mesmo tempo Jean Leon, estava cada vez mais aferrado a escavação da cidade, ia surgindo quase completa no meio de um penhasco.  Quando finalmente encontrou uma parte da muralha que a protegia, ficou imensamente contente.

Estávamos sempre trocando informações.

Foram chamados para dar uma ajuda aos pesquisadores franceses que digitalizavam o que tinha sido salvo da imensa biblioteca de Tombuctu, era uma decisão complicada, abrir mão do que estava fazendo, ficava meio ano em Istanbul, meio ano em Paris, agora que finalmente tinha classificado tudo, teria que começar realmente a trabalhar.

Os dois conversaram muito, chegaram à conclusão falando com os amigos da universidade, que a quantidade de estudiosos envolvido era muita, se por acaso tivessem dificuldade reais de entendimento os chamariam.

Encontrou num dos diários familiares justamente anterior a primeira guerra, falava da rede de tuneis, em que as famílias com poder aquisitivo alto, escondiam no subsolo de Istanbul suas riquezas particulares, esculturas, tapetes, livros, manuscritos, tudo que tivesse valor, ou pudesse ser saqueado.   Mas não se falava no depois.  Na verdade, só tinham encontrado uma arca com moedas da época do último sultan, na parte embaixo do Palácio Topkapi.

Tinham passado 15 anos desde que se conheciam, a vida dos dois era compartir, se amavam acima de tudo.    Bahar agora muito velho agora dizia que sentia inveja disso, um entrosamento a todos os níveis.  Se um era obrigado a ficar mais dias em Paris, ou Istanbul, sentiam falta imensa um do outro.

Nunca tinha perdido contato com Hans, que vinha as vezes visita-los, da última vez tinha trocado ideias, pois nos achados do poço, tinha encontrado um amarrado de mapas que datavam de mais ou menos da época da conquista de Constantinopla, tinham levado quase um ano, para conseguir separar as folhas imensas de cada peça, todos eram de pele muito fina.

Teve que estudar muito como se fabricava esse tipo de material, para conseguir separar cada mapa, sem danificar o mesmo.

Eram os mapas de Mehmed I, que tinha feito um cerco demorado para conquistar a cidade. Foram analisados por ele, por especialistas do mundo inteiro, que se deslocaram a Istanbul para isso.      O governo os condecorou por esse achado, pois tudo isso colocava a cidade outra vez nos olhos dos estudiosos.

Agora duas vezes por semana dava aulas na universidade aonde tinha começado.  Eram palestras sobre como funcionava tudo que tinha achado.   Mandava filmar em vídeo para poder guardar para o futuro.

Em Paris, era diferente, era como viver em dois mundos completamente opostos, aonde um ele tinha todo o material mais moderno do mundo para pesquisar, em contrapartida no outro tinha que improvisar.

Pela primeira vez ficariam separados, no começo da temporada, ele voltaria a Istanbul, Jean Leon, iria dirigir durante um tempo uma escavação no subsolo de um mosteiro cisterciense na Bretanha, no meio de um imenso campo.

Alguém lhe mandava fotos, abraçado com o Jean, não tinha ideia de quem era, mas ficou com ciúmes.  Remeteu as fotos ao Jean, que veio como uma fera.  Tinha sido um de seus alunos, que querendo ter um romance com ele, sem nada conseguir tinha urdido isso.

Nunca mais vamos nos separar, assim não temos desconfianças.  Nunca poderei amar outra pessoa que não seja tu.

Logo em seguida, foram avisados que o pai de Jean falecia na região de Albi, aonde tinha uma fábrica de tecido.   Os dois não se falavam, pois Jean Leon foi para Paris estudar estamparia, mudou o rumo de sua vida, se dedicando a Arqueologia.    Chegaram num último momento para o enterro.  Quem levava tudo era um primo dele, pensou muito, abriu mão da herança, pois o pai até o último momento achava que ele cederia, deixaria tudo para dirigir a fábrica.

Conversou com seu primo, afinal ele merecia, tinha dirigido a fábrica nos últimos anos. Tinha sido criado dentro dela.  Este se preparava para disputar com ele a herança, não esperava isso.

Esse não é o meu mundo, eu escolhi o meu caminho no dia que deixei essa cidade.

Só então veio conhecer a história da juventude do Jean Leon, que usava inclusive o sobrenome Leon de sua mãe.

Retornaram ao seu trabalho em Istanbul, a cidade escondida, agora se preparava para receber turistas, mas que a viam desde uma parte alta, para não corromper tudo que tinha sido preservado durante séculos.

Nunca saberiam aonde gostavam mais de viver, pois tinham um processo todo especial, quando estavam em Paris, eram franceses, quando estavam em Istanbul árabes. Funcionava bem, nunca faziam comparações entre um lugar e outro, sabiam que eram diferentes.

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 17 de mayo de 2021

LOIRA BURRA

 

                              LOIRA BURRA  - DUMB BLONDE

 

As aparências sempre enganam.   Minha mãe ou minha tia, era uma clássica pessoa que rotulavam de loira burra, nada mais longe da verdade.

Era uma mulher especial, falava cinco idiomas, era formada em filologia.  Na Universidade se graduou Cum Laude, mas os rapazes se aproximavam dela pelo rotulo, se davam muito mal.  Quando contava as histórias dessa época, riamos muito.  Os tontos levavam um susto, pois era capaz de debater com eles uma jogada que o fulano achava genial, apontando todos seus defeitos.    As vezes os provocava, deixando completamente bêbados, se levantava ia embora, se fazia sexo, quando o sujeito virava para o lado para dormir, ia embora.

Apesar de poder dar aulas em qualquer lugar, inclusive na universidade, preferiu aceitar um emprego de assessora, numa enorme empresa de publicidade.

Evidentemente explorava conscientemente sua presença, sabia que quando entrava numa sala se fazia silêncio, se aproveitava disso, para se sentar numa mesa de discussões, enganar as pessoas que pensavam que a estavam levando para o seu lado.   Nada mais longe da verdade, pois quando percebiam, estavam fazendo o que ela queria.

Nunca bebia, fingia que o fazia, mas tinha verdadeiro horror a bebida, tinha crescido numa família de alcoólatras.   Quando minha mãe verdadeira pediu socorro, foi até a cidade aonde tinha nascido, nunca mais retornado.    Encontrou minha mãe nas últimas, gorda, feia, tinha sido uma garota linda.   Nem sabia quem era meu pai, pois trabalhava numa lanchonete de beira de estrada.   Podia ser qualquer um.    Minha tia me encontrou, num berço, todo sujo, mijado, cagado, chorando.   Me apaixonei por ela no ato.            Enterrou minha mãe, me adotou, como parente mais próxima.    Se transformou numa mãe perfeita, para ninguém botar defeito.

Vivia em Los Angeles, num grande apartamento, bem decorado, embora nunca recebesse ninguém em casa, dizia que ali era seu canto, que não gostava de gente xeretando sua vida.

Se chamava Jeannete Müller, ou Jean Müller, como a conheciam, era uma mulher de armas a tomar.   Era tão franca, direta com o clientes, que muitos ao falarem com ela por telefone, pensavam que Jean, era um homem.

Mas um em especial, era louco por ela.   Se transformou em seu marido, depois de anos a cortejando.  Era um grande fabricante de armas, na época que a conheceu, estava casado, tinha um filho.  Tentou algo com ela que saiu mal.  Pois como todos ao se sentar na mesa para atende-lo, lhe disse na cara que não tinha certeza de querer um homem como ele, como cliente.

Ela quando falava, olhava na cara da pessoa, fixamente, até a pessoa desviar o olhar.  Dizia ele depois que foi nesse momento que se apaixonou por ela.

Ele tanto fez, que o aceitou como seu cliente.   Cada vez que ele vinha a Los Angeles, marcava com antecedência, um almoço com ela.    Ficava maravilhado com seu comportamento, entravam num restaurante chic, ela parava na porta, olhava todos que estavam ali, que ficavam de boca aberta, pois sua aparência era impecável.  Nada de um vestido escandaloso, tudo muito simples, mas sua altura, seu corpo, o corte do vestido eram impecável.   Tinha a anos descoberto uma costureira, a qual ela mostrava um vestido das grandes marcas, a senhora fazia igual para ela.

Na mesa, era como se toda a vida tivesse comido nos melhores restaurantes, mas tudo isso aprendeu observando.  O que esse homem Marc Smith, sem querer depois virou meu pai, me tratava melhor que seu próprio filho.  Dizia que eu não era a típica criança burra, chata, conversava com ele a sério.

Ele amava conversar com ela, pois olhava diretamente nos seus olhos, era como se os outros do restaurante, não existissem.    Fazia o mesmo comigo, nos sentávamos para comer, me perguntava pelo meu dia, como tinha ido na escola, tudo isso olhando para mim.  Se eu mentisse ela sabia de imediato.  Eu como ela, era o melhor aluno da escola.

Ele se divorciou, antes de ter qualquer coisa com ela.   Num almoço, colocou na frente dela, um anel com um diamante enorme.   Ficou surpreso, pois ela não fez nenhum movimento para pegar o mesmo.  

Que quer dizer com isso, apontou para a caixa, que era de um grande joalheiro?

Quero me casar contigo.  Estou esperando a muito tempo dizer isso, que te amo.

Os olhos dela sorriam segundo ele contava, não sabia se estava zombando de mim, ou queria me sacanear.

Achas que com isso me compras.  Não sou uma mulher bibelô, para casar contigo, ela não gostava de homens jovens.  Precisas meditar muito no que vais ter ao teu lado.  Não irei a nenhuma festa, para ser exibida como a tua loira burra, tampouco, deixarei de trabalhar.  Minha vida independência é muito importante para mim.  Não quero estar envolvida com os teus negócios, nem que me uses para os mesmos.

Posso te ajudar como faço, mas disso nunca passaremos.  Teremos um contrato de casamento, em que se morres, herdo dinheiro, mas não teu negócio.  Consulte com seu advogado, com o travesseiro, depois voltamos a falar, seguiu comendo, conversando como se nada tivesse acontecido.

De noite, me contou tudo, isso sempre fazia, apesar de ser um garoto, a escutava atentamente, quando não entendia alguma coisa, lhe perguntava.

Só perguntei se gostava dele?

Sim, é um homem atraente, agradável, não fala asneiras na minha frente, tampouco piadas indesejadas, sabe que não sou uma decoração.

Dias depois marcou outro almoço, a levou a ver a mansão que iria comprar para viverem juntos.

Ela olhou cada detalhe da mesma, disse para ele, nunca falamos, mas acredito que tenha investigado, tenho um filho, alias meu sobrinho, mas é meu filho adotivo.   Não abro mão de cria-lo, portanto ele faz parte do pacote.   A mansão está bem, mas tem que estar no meu nome, nada de se nos divorciamos, volta a ser tua.   Quero um contrato com um fideicomisso por se acontece alguma coisa.

Tudo registrado em cartório.  A tua fábrica, que fique para teu filho, um detalhe a mais, quando eu diga NÃO, nunca insista.  Ele concordou com tudo, que ela seguisse trabalhando, do contrato, do fideicomisso, quando trouxe os papeis, ela lhe deu um beijo no rosto, agora espere que meu advogado também vai estudar tudo.

Nesse dia ele tentou algo com ela.    Ela colocou suas mãos, de manicura perfeitas, no seu peito, se já esperaste até agora podes aguentar mais um pouco.

Só quando o advogado devolveu os papeis, com uma serie de restrições, que estavam em letra pequena, ela devolveu o mesmo para ele.  Arrume isso, depois nos falamos.

Fomos passar uma férias numa casa de praia que ela alugava.   Um dia ele apareceu enquanto estávamos na praia.  Estava furioso, não tinha se dado conta do que o advogado tinha feito.  Lhe pediu perdão ali na praia na frente de todos. 

Tirou um outro anel, muito simples, disse que tinha sido da sua mãe.  Eres a mulher da minha vida.  Tudo será como queiras.

Finalmente se casaram, numa cerimônia, simples, com duas testemunhas, eu na frente, ele gostava como eu me comportava com ele.

Nos mudamos para a mansão, eu adorei a casa ao primeiro momento.  Ele abriu uma conta para ela, para as despesas, que ela podia contratar quantas pessoas quisesse.   Mas tudo o que fez, foi contratar um casal de mexicanos que conhecia, ela para cozinhar, ele para administrar tudo.

Quando tinha alguma reunião, contratava a mesma empresa de sempre para fazer um coquetel, ou um jantar.  Nada de grandes exageros, comida simples, mas bem apresentada.  No final do mês, Manoel o administrador, apresentava um relatório ao patrão, que ria, dizia que estaria mais rico, se tivesse feito isso com a esposa anterior.

Seguiu mantendo sua costureira de sempre.  Quando ele teve um convite para um jantar na Casa Branca, pensou que ela iria comprar uma roupa estravagante, ela ao contrário, sabia que a primeira dama, era uma mulher conservadora, se apresentou recatada.  Estiveram as duas conversando um longo tempo, sobre mil assuntos.  Se tornaram amigas.

Ele ficava como um bobo, a vendo conversar com pessoas influentes, sempre tinha conversa, se informava de tudo, se era um coquetel, sussurrava a algum garçom que lhe trouxesse um copo de água, nada de bebida.

Quando algum homem tentava se passar com ela, o olhava nos olhos, dizendo, não creia que tens chance, não eres metade do homem que é meu marido.  Além de que, cheiras mal, não adianta usar um perfume caro, quando estas podre por dentro.

Alguns ficavam furiosos, iam falar com Marc, ele soltava uma gargalhada, quem mandou te meter aonde e com quem não devia.

Em casa só havia duas festas por ano.   Uma era no Dia de Ação de Graças, outra quando no meu aniversário, mas tudo em família.  As que Marc pedia para ela organizar, eram outra coisa, misturava as pessoas, que representava, com as do negócio dele. Mas sempre de bom gosto, impecável.

Uma vez que voltavam a casa Branca ele, lhe comprou um presente em Paris, num grande joalheiro, ela abriu a caixa, riu, é bonito, mas não combina comigo, guardou no cofre, prefiro não usar joias.

A empresa que ela trabalhava, foi engolida por outra maior, foi quando decidiu, que trabalharia desde casa, com alguns clientes que lhe eram fiéis.

Agora passava mais tempo em casa.  Um dia parada na varanda, chamou o Manuel, quem está cuidando do jardim, está horrível.  Ele lhe apresentou um homem, seu parente.

Sinto muito Manuel, acho bem que cuide de tua família, mas não quero esse homem mais aqui.

Agora me levava a escola todos os dias.  Íamos conversando em algumas das línguas que me ensinava.   Um dia, mal desci do carro, ali estava um furgão velho caindo aos pedaços, era meu único amigo da escola, estava a pouco tempo nos Estados Unidos, com ele falava em alemão.

Ela riu, quando nos viu falando.  Olhou como ele se despedia de seu pai.

Foi fazer umas compras, depois ao passar num lugar aonde ficavam mexicanos, ou emigrantes de algum outro lugar, viu o pai do meu amigo, com um cartaz se oferecendo de Jardineiro.

Deu a volta com o carro, se dirigiu a ele em alemão, os outros todos se ofereceram, mas ela disse que pegasse seu furgão que a seguisse.

Ele quando viu a mansão, ficou de boca aberta.   Ela o tempo todo falando com ele em alemão, disse como queria o jardim.   Agora trabalho em casa, por isso da janela da biblioteca, vejo o jardim, explicou o que queria.

  Meu pai quando o viu, ficou com ciúmes, pois era um homem mais jovem.  Mas ficou abismado com a educação do mesmo.

As vezes ele ia nos buscar na escola.  

Minha tia, não se incomodava que Hans viesse fazer o lanche comigo, depois estudar.

Eu lhe ensinava a falar direito o inglês.  Me contou um dia que sua mãe tinha morrido, depois eles emigraram para América.

Manoel não gostou muito, pediu as contas como uma maneira de pressionar minha tia, ela odiava isso.  Lhe pagou tudo que devia, ficamos um tempo sem cozinheira, mas ela se apanhava.

Sua amiga a antiga primeira-dama, lhe indicou um francês, que estava sem emprego, Pierre, ele, Hans pai e filho, ficaram morando nos fundos da mansão, em cima da garagem.

Agora ia junto com meu amigo a escola, já pensando o que íamos fazer quando fossemos a universidade, os dois podíamos disputar bolsas de estudo.

Mas tudo foi a merda, quando o filho do Marc veio passar as férias conosco, o tipo era complicado, um pouco maior que nós dois, ficava provocando brigas, para depois se fazer de vítima.

Quando viu que não caiamos na sua conversa, um dia nos foi buscar na praia, no velho carro do Hans, achamos estranho porque o Hans nunca emprestava seu carro para ninguém.

No dia anterior Junior, tinha ido a fábrica com o pai.    Voltou contado o que ia fazer quando a fábrica fosse dele, uma série de lorotas, sem pé nem cabeça.   Faltava pouco para estar em casa, quando parou num posto de gasolina, dizendo que ia mijar, abaixou do carro, atirou uma cápsula dentro                                                                                                            , fechou a porta a chave.   A cápsula soltava uma fumaça estranha, bem como um cheiro horrível, disse ao Hans, que enfiasse a cabeça num buraco que tinha na parte da frente do carro, ele tirou o tapete assim fez, eu passei para trás, sabia que a porta traseira nunca fechava direito, já estava muito tonto, mas tive força para meter o pé na mesma, isso provocou um ruído, como se tivesse cortando o carro no meio.

Corri para ajudar o Hans a sair, gritava, chamem a ambulância, o puto Junior o vi entrando num taxi.

Quando chegou a polícia, encontrou a cápsula, a velho furgão estava partido no meio.  Eles não sabiam o que era isso, lhes dei o celular de minha mãe, fomos os dois para o hospital.

Ela apareceu com Marc, lhe contamos o que tinha passado.   Esse se colocou furioso, mandou a polícia atrás do filho.   Ele roubou uma coisa experimental na fábrica, não sabemos ainda o efeito.

Quando a polícia chegou para prendê-lo, ele tinha um revolver na mão, atirou, atingindo um policial, outro atirou nele.   Ao trazerem o mesmo para o hospital, o médico avisou que tinha perdido muito sangue, já que Marc era seu pai, seria o mais normal fazerem uma transfusão de sangue.  Ai a porca torceu o rabo, o mesmo não era compatível.  Numa prova de ADN rápida, se descobriu que não era filho dele.

A mãe, apareceu como uma louca, quando soube, disse que era verdade, quando me casei contigo, já estava gravida de outro.

A confusão foi imensa, Marc, quase tem um enfarte.

Eu fui me recuperando, mas Hans não, ele tinha um problema congênito de pulmões, quando tudo parecia estar bem, morreu de noite dormindo.

Hans pai ficou arrasado, depois do enterro, falou com Jean, que não podia seguir trabalhando ali, pois, cada vez que me visse se lembraria do filho.

Jean, tomou uma decisão séria, o que estamos fazendo nessa merda de mansão, aí descobrimos que detestava o lugar, falou seriamente com Marc, iriamos viver no seu apartamento que estava fechado.     Marc como um cachorro perdido concordou.  Fez tudo como ela queria, vendeu a fábrica, apesar que a mesma estava a gerações na família dele.

Pelo menos viveu os dois últimos anos de sua vida ao lado da mulher que amava com loucura.

O pseudo filho foi acusado de assassinato imprudente, indo para a prisão.

Pierre, foi conosco, a vida era mais agradável, mas volta e meia tinha pesadelos, tentando sair do furgão.  Acabei num psicólogo.

Marc se sentia culpado, agora imaginava as muitas famílias que tinham problemas por culpa de suas armas.

Em vez de entrar na faculdade, apesar das minhas notas, resolvi, me distanciar, com um dinheiro que minha mãe me deu, fui para a Alemanha, a terra dos meus avôs os Müller, foi uma surpresa agradável.  Me dediquei a estudar a língua.   Fui ficando, arrumei um emprego, que me permitia me manter, não queria o dinheiro do Marc.

Quando ele morreu, voltei para seu enterro, minha mãe cuidou dele até o final, diria depois que tinha sido o único homem que tinha amado.

Apesar de saber que tinha deixado dinheiro para mim, deixei uma procuração com minha tia, que usasse esse dinheiro, para as ONGs, que cuidavam dos com problemas com as guerras.

Segui no meu emprego em Berlin, até acabar o curso que fazia.

Quando voltei, ela me abraçou, não sabes como sinto tua falta. Ela queria cada vez mais uma vida simples. 

Eu voltei a universidade para fazer um curso de literatura e escrita, foi divertido, um dia encontrei o Hans, estava a mesma coisa, conversamos muito, coloquei para fora, que amava seu filho, ele a mim, éramos dois adolescentes descobrindo o mundo, os sonhos que tínhamos, como seria nossa vida.

Ele ficou me olhando primeiro, depois me abraçou muito forte, me disse baixinho, senti muito sua falta, estava tão acostumado a ver os dois juntos, nunca fizeste a diferença de patrão, filho de empregado.

Como poderia Hans, ele era meu melhor amigo.   O levei para ver minha tia, vivíamos agora numa casa nas encostas de Hollywood, grande, confortável, mas nada exagerado.

Passou a nos visitar sempre, agora era eu que cada vez que o via, pensava no meu amigo, como estaria agora.

Nunca mais fui capaz de amar ou ter amizade com ninguém como tinha por ele.

Passei a dar aulas numa escola, perto de nossa casa, dizia a minha mãe, que tinha razão a maioria nunca fazia ou queria estudar.  Mas sempre tinha algum que se salvava, os incentivava.

Um dia ao sair da escola, me topei com o Junior que já tinha cumprido sua pena.  Estava mais forte, cheio de tatuagens, me avisou, agora vou por ti.

Avisei a polícia, mas não tive que fazer muito, ele estava metido com um grupo que comandava drogas nos bairros de Los Angeles, morreu numa briga de bandas.

De pobre menino rico, virou um bandido.   Me lembrava as conversas com Marc, que sempre falava que se sentia culpado ter-se separado do filho.   Mas que este tinha um gênio complicado, era como a mãe, chantagista, manipulador.

No fundo não tinha os genes do Marc, pelo menos isso ele se livrava das culpas.

Me surgiu uma oportunidade para dar classe numa escola americana na américa do sul, aceitei sem pensar, queria de qualquer maneira estar longe dali.

Só voltei anos depois para o enterro de minha mãe.    Erámos umas poucas pessoas, nada de grandes cerimonias como ela odiava.

Apesar de ter distribuído a herança do Marc, me tocou a parte que ela tinha ganhado, trabalhando toda sua vida.    Vivia no Rio de Janeiro, dando aulas na Escola Americana de lá, embora estivesse farto, pois seus alunos eram garotos ricos.

Vendi tudo, voltei para lá.  Era como estar no meio de uma grande confusão, as vezes me sentia aturdido, com tudo que acontecia por lá, mas levava uma vida simples, num pequeno apartamento em Copacabana, não precisava de muito para viver.  Livros, uns chopinhos com os conhecidos, nada mais.

Assim vou levando a vida, dou aulas a garotada numa escola na favela, me sinto bem.

De ter saído da merda, que era a vida com minha mãe verdadeira, ao luxo, descobri que nem sempre o dinheiro faz a gente feliz.

Volta e meia sonho com o Hans, desperto sorrindo, me sentindo nesse pequeno momento, jovem outra vez.  Outras sonho que estamos dentro do furgão, que toda minha preocupação é salva-lo, me dou conta que o amava como um louco.

Essa juventude ficou parada no tempo, nunca pude recupera-la, tampouco suplantar essas lembranças.