lunes, 11 de noviembre de 2019

TORMENT


                                            TORMENT



De novo o mesmo pesadelo, era algo recorrente, se repetia sempre que estava exausto, ou tinha tido um dia duro, que o cadáver apresentasse alguma coisa que o fazia se lembrar do seu passado. 

Anos frequentando psicólogos, terapeutas, psiquiatras, nada conseguia resolver a questão, ou seria ele que se apegava a isso para não se esquecer nunca o que lhe tinha acontecido.

No dia anterior, tinha feito a autopsia de uma menor de idade que tinham cortado a cabeça, metido num saco, mas enterrado junto com o resto do corpo. Também tinham cortado os dedos, mas colocado dentro de luvas para formar a mão, as tinha cruzada como um enterro normal.   Quem encontrou o cadáver, tinha sido um cachorro, que estava com seu dono, passeando no meio da floresta.

Foi chamado imediatamente, era o forense de New Port.  Sempre tinha se perguntado, porque tinha optado por essa ocupação, por seus estudos universitários, poderia ter sido qualquer coisa no ramo da medicina.

Sempre tinha sonhado em ser médico, embora se tivesse diplomado muito tarde, não tinha se adaptado a nenhuma coisa dentro da medicina.   Quando lhe perguntavam por que era forense, respondia rispidamente que era a única parte da medicina, em que os pacientes não reclamavam.

Durante muito tempo esteve em urgências, mas se estressava muito, a adrenalina lhe fazia ter crises de ansiedade, tinha sido aluno brilhante em cirurgia, mas estava sempre com medo de erar.

Se preparou a consciência para ser médico forense, passou sem a menor dificuldade.  Nunca deixava nenhum cabo solto no processo.  Analisava exaustivamente cada paciente, como ele chamava os defuntos.  Quando sabia o nome, falava com o mesmo mentalmente, examinando cada parte do cadáver.

Era respeitoso com o mesmo, quando o devolvia a família, algumas vezes falava com a mesma.

O detetive encarregado desse caso, veio falar com ele, a jovem vivia num orfanato, saia todos os dias do mesmo, para trabalhar num lar de pessoas maiores.  Queria ser enfermeira.

Quando soube disso, ficou impressionado, porque essa jovem não tinha sido adotada, era bonita. Cabelos loiros, olhos azuis, um corpo relativamente perfeito.  Quem a tinha matado, não tinha abusado sexualmente dela.

Explicou ao detetive, que não entendia ainda, porque cortar a cabeça, os dedos da mãos, parte por parte, voltar a colocar dentro de uma luva branca, cruzar os dedos com a outra mão.

Tinha mandado examinar as luvas, para ver se tinha alguma coisa de drogas. A primeira conclusão, era que tudo isso tinha sido feito, com a pessoa consciente, somente o corte final da cabeça devia ter acabado com a agonia da vítima.

Por isso teve pesadelo essa noite, tinha ido dormir tarde, porque ficou fazendo o relatório, detalhadamente, com fotografias, dados extensos.  Sabia que os detetives não gostavam de tantos dados, mas eram necessários num caso como este.

Verificou, no computador, para ver se na região, tinha acontecido anteriormente um caso assim.   Nada, nos registros.

Teria agora que consultar do estado inteiro de Oregon, depois os do FBI, da CIA,  para saber se havia algum caso similar.

Nessa noite o sonho recorrente, lhe parecia mais vivo, pois um dos primeiros momentos de consciência do que tinha presenciado, quando tinha 17 anos, tinha sido exatamente o corte dos dedos.

Voltava aquela sensação de angústia, de dor, o grito sufocado pelo adesivo que cobria sua boca.   Esse grito sempre repercutia em sua cabeça. Cada vez que desmaiava, o filho da puta, lhe jogava um balde de água, misturado com sangue, até que entrou num estado catatônico.   Foi assim que o encontraram, junto ao corpo, vestido como o torturador, com um bisturi nas mãos.  Não estava mais preso na cadeira, tampouco, podia se mover.  Levou meses internando num psiquiátrico. Estava sempre sentado, quando foi finalmente levado a julgamento, não podia falar, não conseguia verbalizar nada.   Mas o juiz tinha pressa, pois queria se aposentar com um grande caso.   As provas, lhe davam igual, lhe condenou a cadeia perpetua.   Demorou tempo para ir a prisão, quando foi transferido para a mesma, já podia dizer que ele não tinha matado a ninguém.  Mas já era tarde.

Foi abusado desde o primeiro dia.  Era jovem, bonito, tiveram que o manter em isolamento.  Todos que estavam ali, quando viam aquele rapaz de cabelos negros, sobrancelhas curvas, boca carnuda, um corpo jovem, o queriam para si.

Depois de vários vezes que esteve na enfermaria, acabou fazendo amizade com um enfermeiro que as vezes substituía o próprio médico.  Estava ali há tanto tempo, que sabia quase todos os procedimentos.

Conversou com ele, junto com o policial que distribuía as celas.   A melhor maneira, era que ele passasse por amante do enfermeiro.   Prometo não tocar em ti.

Lhe impressionava, era a quantidade de vezes que este rezava. Lhe explicou que era mulçumano, durante muito tempo não tinha sequer noção a direção de Meca, mas isso não lhe importava, o que lhe valia era a intenção.

Ahmed tinha se convertido dentro de uma outra prisão, mas mesmo confrontado com o fato de ter cometido um assassinato, tinha encontrado na fé, um caminho.   Alguns presos, rezavam com ele durante o dia. 

Dalton lhe perguntava como podia acreditar num deus, que o tinha abandonado desde infância.   Não conhecia seu pai, sua mãe tinha desaparecido logo depois que ele tinha nascido. Tinha sido criado pelos seus avôs, que lhe deram tudo, nunca comentava nada sobre sua filha.  Nem falavam mal da mesma, apenas diziam que tinha escolhido um caminho tortuoso para ir em frente.

Ele era o bicho raro da escola, sempre muito inteligente, o melhor aluno em tudo.  Desde jovem sonhava em ser médico, lia tudo que podia sobre o assunto.  Os abusadores de sempre, o tratavam mal.  Mas ele sempre conseguia escapar.  Era um bom jogador de futebol americano, isso lhe ajudaria talvez a entrar para a universidade.  Apesar que os professores lhe diziam que com as notas que tinha, não ia precisar.

Justamente no último ano, seus avôs morreram com uma diferença de semanas um do outro.   Ficou a cargo de uma vizinha até que fizesse 18 anos.

Foi quando tudo aconteceu.  Estava conversando com uma companheira de classe, quando foram agredidos, sedados, metidos num furgão.   Mas quando despertou, levou um susto, ali estava um dos filhos de papai da escola.  Somente ele, ninguém mais.  Estava preso numa cadeira, justo em frente a sua amiga, deitada numa cama de hospital, improvisada.

Ficou com os olhos arregalados. O que este louco estava fazendo. Começou um processo, infernal, sua companheira de classe, estava presa na mesa, ele ia cortando lentamente cada parte dos dedos das mãos, quando terminou, começou com os dos pés.  Ela gritava de dor.  Ele não podia gritar porque tinha uma fita adesiva fechando sua boca. Por duas vezes quase morreu sufocado, pois tinha começado a vomitar.   Este ria, dizendo eu sempre soube que não passavas de um gay de merda, um fracote.  Jogava água fria, com o sangue que ia recolhendo. Tentou gritar no momento que estava sem a fita adesiva na boca, mas levou um murro tão forte, que desmaiou, quando voltou a sim, estava outra vez sem poder falar.  O grito ficava dentro de sua cabeça.  Agora ele abria totalmente o corpo da garota, de cima até em baixo.  Tudo que se pergunta, aonde esse filho da puta tinha apreendido a fazer isso. Era perfeito com o bisturi. Acreditava que fora o momento que ela tinha morrido. Gritava com todas suas forças, mas ele mesmo não se escutava.  Até que os seus próprios gritos o ensurdeceram.   O outro ria muito, com os olhos dilatados, hoje pensava que por causa de alguma droga que tinha tomado.

Num dado momento, já nem conseguia ver, por causa das lagrimas que rolavam em sua cara. Tornou a lhe jogar água, porque queria que visse como cortava, com uma serra de madeira, a cabeça. 

Aí tinha sido demais, o grito que estourou dentro de sua cabeça, além do pensamento, em seguida fará o mesmo comigo.

Desmaiou, quando acordou, embora não estivesse atado, estava deitado no chão, lhe colocavam algemas, via dois homens pôr em cima deles.   Um deles lhe perguntava por que tinha feito isso. 

Mas não podia falar, seu último grito tinha sido tão forte, que tinha rompido as cordas vocais. Mas tudo isso ele via, como se não estivesse ali.

Em sua cabeça, sua única preocupação, era aonde estava sua companheira.

O homem pisava em seu peito, não lhe permitindo mover-se.

O outro lhe dizia que não podia ser ele o assassino, porque estava em estado catatônico.

Que nada, deve ter tomado drogas para poder fazer o que fez com esta, com as outras também.

Se perguntava que outras?

Só encontraria respostas muitos anos depois.

Depois de muito tempo, conseguiu ver jornais daquela  época, aí pode entender.  Tinha sido acusado de matar sua companheira, bem como outras quatro garotas, da mesma idade, mesmo tipo físico.      Acusavam a ele, porque tinham descoberto sua paixão pela medicina.  O Fiscal tinha usado isso como argumento.    Pelo visto seu advogado de defesa era um mequetrefe desses que não se esforçam para nada.  Segundo o fiscal, ele tinha tudo contra ele.  Se lembrava vagamente do detetive que depôs contra ele.   Só um, o outro que tinha visto não aparecia. Ainda procurou o outro lentamente pelo público, o viu sentado na última fila, com uma cara contrariada.  O julgamento foi rápido.  Prisão perpetua, ele não podia falar nada, as cordas vocais não funcionavam, tudo que escutou nesse momento, foi seu grito interior de sou inocente.

Ele nem sabia quem eram as outras vítimas. Anos depois conversando com Ahmed, chegou à conclusão que tinham se aproveitado dele, como bode expiatório.   Cada vez que tinha pesadelos na prisão, Ahmed, descia de sua cama, lhe segurava a mão, rezava.  Finalmente depois de um tempo, escutando sua voz rezando, se relaxava, dormia.

Aprendeu a fazer essa reza, embora não conseguisse desculpar Deus, pelo que lhe tinha acontecido. Ele com sua voz rota, pois tinha uma voz extremamente estranha.  A princípio lhe doía muito falar, mas com o tempo, essa dor desapareceu, ficou com uma voz de uma pessoa que fumou a vida inteira, mas nunca podia levantar a voz.  O tom era sempre o mesmo, monocórdio.  Por isso talvez, tivesse dificuldade de trabalhar atendendo pessoas.

Sob as asas de Ahmed, foi aprendendo tudo sobre enfermaria, sabia costurar a consciência uma ferida, ajudava em tudo ao outro.  Os dois rezavam sempre na cela que compartiam.

Quando Ahmed morreu, lhe disse antes, que nunca perdesse as esperanças, que ele estivesse aonde estivesse, estaria rezando por ele.

Ocupou seu lugar na enfermaria, lá tinha sido abusado pela última vez.

Desta vez se vingou, porque o mesmo que o tinha agredido, voltou semanas depois, ele aproveitou para lhe administrar um medicamente que sabia que acabaria com sua vida.   O outro saiu rindo da consulta, dizendo que ia conseguir que fosse compartir cela com ele, assim abusaria dele todas as noites.

Morreu nessa noite, de um enfarte, provocado pela medicação.

Fazia sete anos que estava dentro da prisão, não se lembrava mais quantos anos tinha, a sensação era que sempre tinha estado ali.  Tudo que fazia, era conseguir todos os livros de medicina para ler.  Tinha conseguido terminar seu curso, dentro da própria prisão.  O exame tinha sido excelente.

Um dia apareceu um guarda, lhe dizendo que tinha uma visita.

Ficou surpreso em encontrar o outro policial. Este lhe deu um sorriso triste, me desculpa ter demorado tanto tempo. Tive que esperar que o detetive que te perseguiu como um demônio, fosse assassinado num assalto, para poder reabrir teu caso.

O consegui, porque os assassinatos voltaram a acontecer, um novo fiscal, quando viu as provas que eu tinha, além do que continuava acontecendo.  Levamos teu caso, a um novo juiz, que ficou horrorizado.  Tinha sido um complô muito bem orquestrado, contra ti.

Precisavam um bode expiatório, para inocentar o filho de um dos homens mais ricos da cidade, um lunático, mas consegui pega-lo em fragrante.    Seu pai, me ofereceu mundos e fundos, se eu conseguisse outro bode expiatório.  Mas se deu mal, porque consegui que falasse do que tinha acontecido contigo.  Ele sabia do que o filho fazia, subornava o detetive, o fiscal, além do juiz.   Por isso teu julgamento foi rápido.

Na verdade, como uma execução sumaria.   Agora estão todos presos.  Precisava que tu pudesses comparecer como testemunha do que aconteceu com tua amiga.

Ela sequer era uma amiga, a tinha encontrado por um acaso, estávamos na mesma classe, quando parou um carro negro, nos sequestrou.  Creio que hoje me chamariam de vítima, que  estava no lugar errado, na hora errada.

Volto dentro de dias, com um advogado, que aceitou defender-te, num novo processo. Teu caso foi reaberto.

De fato, dois dias depois, ele apareceu com um advogado, um homem forte, muito sério.  Lamentou os anos que ele tinha perdido de sua vida.

Contou tudo que podia se lembrar, falou do grito que tinha dentro de sua cabeça, de não poder falar, para se defender, sabia pelos médicos que tinha estourado suas cordas vocais, por isso falava dessa maneira.

Falou do tempo que tinha estado no hospital psiquiátrico, os abusos que tinha sofrido na prisão durante todo esse tempo.  Quase cheguei a acreditar que tinha realmente feito tudo isso que diziam os jornais.  Pois só descobrir de tudo que tinha sido acusado, pelos jornais da biblioteca da prisão.

Não tinha ideia, quando falei com os daqui, disseram que meu caso não tinha apelação.

O advogado perguntou, quem lhe tinha dito?

O diretor da prisão, numa das vezes que fui com Ahmed denunciar os abusos, ele me respondeu, quem mandava eu ser jeitoso.   Não fez nada a respeito.

O advogado, pediu que ele tivesse paciência, reclamou com o diretor, dizendo que agora a coisa tomava novo rumo.  O melhor que o dito cujo fazia era colocá-lo numa cela especial.

Não gostou muito, mas como vinha acompanhado de um policial, atendeu.

Primeiro, a toque de caixa, revisaram todo seu processo, foi liberado.

Saiu num dia que caia uma chuva torrencial, ficou parado do outro lado da porta, não tinha ideia para aonde ir, tinha crescido um pouco, ou suas roupas tinham encolhido. Ficou um tempo encostado na porta de ferro, esperando que seus olhos se acostumassem a chuva.  Foi quando viu o advogado, junto com o policial esperando do outro lado da rua.  O policial desceu com um guarda-chuva, o levou até o carro.

Tinha como medo de andar na rua, quando desceram diante de um hotel caro.   Pediu se podiam ir para um lugar mais simples.  Tinha medo de ficar ali.  Todos apontariam para ele, não saberei o que dizer.

Queres ficar na minha casa, lhe perguntou o policial?

Não tens família?

Não, vivo sozinho.

Ok, se não incomodo, tudo bem.

Foram dois dias de julgamento, depois soube que, já tinham prendido, o juiz, o fiscal do caso.  O detetive não, porque tinha morrido antes.

Foram, dois dias, de interrogatorio, quando se cansou no primeiro dia, a emoção de recordar agora falando, do que tinha visto, o grito que não podia sair. Tudo que tinha acontecido na prisão, principalmente dos abusos, em que o diretor não tinha feito nada a respeito.

Tudo dessa vez ficou esclarecido.

Depois depôs no processo dos outros acusados, ele não conhecia nem o juiz, o fiscal, tampouco o pai do assassino.

Esse quando o viu, disse que tinha errado, devia ter-lhe deixado morrer com seu próprio vomito. Riu muito, como se tivesse contado uma anedota.

Disse ao juiz que não sabia quem os tinha sequestrado, somente sabia que eram duas pessoas altas, vestidas de negro, que lhe tinham injetado alguma coisa.

Que quando tinha despertado, o acusado já estava cortando os dedos da vítima, o tinha reconhecido, como um companheiro de escola, embora nunca tivesse estudado com ele.

Contou tudo novamente, mas sem olhar diretamente ao acusado, pois esse tinha um sorriso na cara, como se o que contasse lhe dissesse que era o melhor.

Seu advogado defendia que ele devia ir para um hospital psiquiátrico.  Mas acabou mesmo indo para cadeia perpetua, como tinham feito antes com ele.

O acusado, dizia que sabia exatamente o que estava fazendo, pois tinha estudado nos livros de medicina de sua mãe. Durante o processo, contou que sua mãe, consciente ou inconsciente tinha matado vários pacientes num hospital de Seattle, depois se casou com seu pai.  Desde que nasci, ela nunca saiu do seu quarto, passava o dia inteiro fechada nele. Fui criado pelos empregados, meu pai estava totalmente preocupado com seus negócios.

O único dia que vi a porta do quarto aberta, foi o dia que chegou a polícia, pois tinha se suicidado.

Herdei todos seus instrumentos, ou melhor os roubei do armário aonde estavam escondidos, passei a usa-lo com pequenos animais abandonados.   O primeiro ser humano que usei, foi uma menina de uma escola perto da minha. Mas só lhe cortei os braços, os dedos da mão.  Pois me faltavam um serrote especial para ossos.

Contou tudo como fazia no julgamento, sem mover um musculo da cara.

Depois de semanas se recuperando, o advogado o aconselhou a pedir o que quisesse ao governo.

Tudo o que eu quero é mudar de nome, que me deem um certificado para poder entrar na universidade, bem longe daqui, aonde ninguém me conheça.   Vender a casa dos meus avôs, para poder começar uma vida nova.

Conseguiu tudo isso, embora a casa dos avôs, estava em ruinas, o valor não era muito alto, mas daria para começar a vida em outro lugar.

Quando embolsou o dinheiro, na surdina da noite, com seus novos documentos em nome de Dalton Malcon, não sabia por que tinha escolhido esse nome.  Eram dois personagens que o intrigavam Danton e Malcon X, lutadores pela liberdade.

Queria ir mais longe possível.  Conseguiu entrar para estudar Medicina na universidade de Oregon.  Foi um aluno brilhante, embora fosse o mais velho da turma.   Em seu primeiro dia de uma aula de anatomia, quando viu o professor ensinar como cortar um cadáver, desmaiou.  Foi a chacota do dia, mas se recompôs.   Quando teve que fazer o mesmo, foi a perfeição.

Durante o curso, se esforçava ao máximo, sabia que tinha que guardar dinheiro para quando chegasse a época que tivesse que estar interno num hospital.

Por isso, ia a Universidade, depois trabalhava num restaurante antigo, numa zona que estava ficando deserta. Lojas fechadas, decadência.  Mas foi aonde encontrou emprego sem muita dificuldade, vivia numa pensão perto.

Um dia um velho cliente, que vinha todos os dias no mesmo horário para jantar, se engasgou, ele socorreu o homem, que lhe agradeceu muito.  Passou a falar com ele, a lhe deixar gorjetas.   Um dia o viu estudando, estava com um livro nas mãos, na verdade um tratado sobre câncer de pulmão.  O homem curioso se perguntou, porque se interessava pelo assunto.

Estudo medicina de manhã, depois venho trabalhar, aproveito os momentos de menos movimento para estudar.

O velho lhe fez várias perguntas, principalmente aonde vivia.

Quando lhe contou que era a volta da esquina, numa pensão que caia aos pedaços.

Rindo lhe disse, se fosse por isso, ele poderia lhe alugar um pequeno apartamento, no edifício que vivia.

Venha, não é longe, vamos até lá.

Realmente era no quarteirão seguinte. Restavam poucos edifícios no quarteirão, a maioria tinha sido demolida para dar lugar a novas construções.

Embaixo tinha uma loja fechada, o homem ou melhor Marcus lhe esclareceu que era sua, tem muita coisa dentro ainda para vender, mas um dia desses me expulsaram para demolir o edifício.

O apartamento era pequeno, mas excelente, ainda funcionava tudo.  Podes ficar com ele se te agrada, não precisa pagar aluguel.

Passou dois dias limpando o pó do mesmo.   Pó das demolições em volta.

Agora pela tarde trazia comida para o velho, pois quase não conseguia andar.  O levou várias vezes ao hospital aonde por fim fazia práticas em urgências.

Foi quando chegou a conclusão que amava a medicina, mas não o contato com os pacientes.  Tinha um bloqueio a respeito. Inclusive consultou um psiquiatra do hospital a respeito.

Pouco tempo depois, conversando com o velho, pois já tinha passado por várias especialidades, não encaixando em nenhuma.   Vendo um filme com o velho, contava a historia de um médico forense.   

O velho comentou, que talvez devesse experimentar, eram clientes que nunca iriam reclamar, se algo saia errado.

Gostou da ideia, começou a se especializar, funcionava, a pessoa estava morta, já não falava, nem fazia perguntas.

O velho morreu tempos depois, um dia que ele estava até tarde da noite trabalhando.   Lhe deixou o edifício, dizendo que o melhor era vender logo de uma vez ao melhor postor.

Tinha saído o posto de New Port, vendeu o edifício, pode assim alugar uma boa casa, com vista ao mar, um carro pequeno.  Todos sempre comentavam sobre seu trabalho, tudo muito sério, cuidadoso.   Mas conviver com os outros, nem pensar.

Nada de romances, tinha sofrido tantos abusos sexuais, que ainda lhe faziam a vida complicada neste aspecto.

Seu grande prazer era velejar, tinha comprado um barco pequeno, aprendido a manobrar o mesmo.  Amava sair a mar aberto, sentir o poder do mar.

Voltou a realidade, depois de verificar que sim, havia casos isolados no estado.  Cidades diferentes, modus operandi, diferentes.

Lhe parecia uma única pessoa.   Ou está copiando uma parte do que sabia que estava na cadeia, ou não sabia o que pensar.

Revolveu chamar o detetive que o tinha ajudado, o telefone sempre chamava, mas ninguém atendia. Quando finalmente conseguiu falar, quem atendeu foi uma voz diferente.

Perguntou pelo detetive, a voz explicou que infelizmente tinha sido assassinado.

Após um minuto de susto, se identificou como o forense de New Port, que tinha lido o processo do assassinato da 5 garotas, tinha no momento um caso parecido.

Perguntou como tinha morrido.  Ficou com os pelos do corpo inteiro eriçados.  Tinha sido seu torturador.

Mas não estava preso?

Mas conseguiu escapar, matou seu pai, o inspetor da mesma maneira.   Com o inspetor foi pior, pois fez um buraco na cabeça, enfiando o cabo da arma em sua cabeça.

Depois desapareceu.  Mas seu modo operandi, mudou, agora se filma fazendo tudo isso, depois coloca nas redes sociais de internet.

Pediu uma foto do mesmo na atualidade, ao mesmo tempo uma cópia do processo.

O recebeu em seguida via fax, imprimiu.

Agora tinha uma vantagem, sabia quem ele era. Podia identifica-lo, teria que se preparar para caça-lo. 

Tinha uma dúvida, se contar isso ao detetive que estudava o caso da cidade.   Mas somente lhe alertou dos outros casos.

Devia estar operando na região, pois tinha acontecido em várias cidades em volta de  New Port.

Passou o retrato para o detetive que se ocupava do caso, mandando o relatório que tinha recebido.

Em momento algum falou de si mesmo, não lhe interessava chamar atenção para sua pessoa.

Ele tampouco seria reconhecido, tinha mudado completamente, usava outro nome, usava cabelos largos, a grande maioria brancos, tinha mais força, se exercitava a diário, talvez um pouco mais esperto.

Passou a patrulhar as ruas com um 4X4, grande, com os vidros tintados.   Uma noite viu que o detetive seguia alguém, resolveu seguir para ver o que fazia.  Tinha acurralado uma pessoa.  Em comparação com o outro, a figura do detetive era frágil.  Estavam num beco sem saída. O outro quando se sentiu acurralado, investiu sobre o detetive, o apunhalando.

Dalton não teve conversa, lhe disparou com uma pistola elétrica, no momento que começava a se levantar, caiu de costa.  Chegou perto, lhe administrou um sedante para cavalo, por via intramuscular.

Com esforço, conseguiu levar o mesmo até o carro, o deitou na parte traseira.

Tomou o pulso do detetive, estava apenas desmaiado, chamou uma ambulância, saiu dali correndo.

Levou seu carniceiro, para o seu local de trabalho.  A estas horas da noite estava tudo deserto.  O colocou com uma certa dificuldades num carrinho. Deu-lhe mais sedantes, tirou  o carro dali o deixando a um quarteirão.

Retirou a roupa do sujeito, o colocou numa gaveta para os mortos, tinha lhe aplicado tanto tranquilizante, que imaginava que dormiria até o dia seguinte.

Tinha que se preparar para o que tinha pensado fazer.

Durante o dia lhe aplicou mais tranquilizantes, ao mesmo tempo que fez com ele exatamente o mesmo que tinha feito quando o tinha como prisioneiro.

Ficou sabendo notícias do detetive, este tinha encontrado o homem, tentando caçar uma jovem. Está o delatou.  Ele só se lembrava até a entrada do beco, quando o outro tinha investido contra ele, o apunhalando.

Toda cidade estava buscando o assassino, principalmente agora que tinha quase matado um detetive do corpo de polícia.

Quando chegou a noite, passavam das dez, acreditava que agora ele estaria consciente, tinha fechado o edifício inteiro.  Não fazia parte do mesmo edifício da polícia.

O retirou da gaveta, o colocando em cima da mesa, tinha o bem atado a mesa. A boca coberta com uma cinta adesiva.

Esperou que ele recobrasse consciência, queria que ele sentisse o que suas vítimas sentiam. Quando retirou a cueca que era a única peça que tinha ficado no corpo.  Finalmente entendeu por que ele não agredia sexualmente as vítimas, daí talvez sua raiva com elas.  Tinha o membro de um garoto, tinham lhe capado, não tinha os ovos.

Quem será que tinha feito isso, seu pai ou sua mãe. Ficou olhando sua cara, queria que ele visse quem fazia o mesmo com ele.

Olhava para ele, buscando quem o tinha assim amordaçado, manietado.  Mas não entendia.

Então lhe mostrou uma foto sua de jovem.

Viu que o outro entendia agora, Começou a rir, como se fosse algo cômico. Mas a cinta adesiva não permitia soltar a gargalhada.

Lentamente cortou seus dedos das mãos, os do pés, via que este gritava, mas não saia nenhum som.  Isso senti eu quando fazias isso com minha colega de escola, lembra-se.  Me jogavas água, misturada com sangue, cada vez que desmaiava. Agora serei eu que vai te maltratar.  Cada vez que sentia que ele ia desmaiar, lhe jogava água fria na cara.

Perguntou, balance somente a cabeça, quem fez isso com teu membro, teu pai?

Ele balanço negativamente a cabeça.

Tua mãe, ele balançou afirmativamente.   Ou seja, seu ódio pelas mulheres viam daí.

O abriu de cima abaixo. Lhe deixou aberto.  Não queria que morresse ainda.  Aproveitou que tinha desmaiado, tirou a cita adesiva da boca, puxou a língua, a cortou.  Lhe jogou água fria para despertar, lhe mostrou sua língua.

Depois lhe deu um sedante novamente. Colocou tudo dentro de um saco negro, além do resto do corpo.  Trouxe o carro, até o armazém de cargas para defuntos. Colocou na parte traseira.

Voltou a morgue, limpou todo o resto de sangue que poderia estar ali.  Normalmente era o único empregado, mas não queria correr risco. Lavou inclusive a gaveta aonde ele tinha passado o dia.   Colocou seu traje de trabalho na máquina de lavar roupa, como fazia todos os dias ao acabar o trabalho.

Entrou no carro, foi em direção ao porto, contornando pela vias secundárias, escutando a radio da polícia, com seus boletins.

Todos diziam que estava tudo tranquilo nas ruas.

Quando chegou ao porto, num carrinho de supermercado que sempre estava por ali, levou o corpo para o barco.  Saiu do porto para alto mar.   Abriu a bolsa, para que o outro respirasse bem.

Viu que estava desperto, com uma pergunta na cara, o que ia fazer com ele.  Tinha lhe estancado as extremidade, para que não dessagrasse.

Uma hora depois, parou o barco, o incorporou, foi jogando pela borda, com as mãos protegidas por luvas, os dedos, um a um olhando em sua cara.  Nunca cometeste o crime perfeito, esta zona sempre está cheia de tubarões.  Depois de jogar os dedos, viu que o sangue tinha atraído os mesmos. Agora vais tu servir de comida para eles.  A cara de pavor que o outro fez, até lhe causou pena.

Devias ter pensando a muito tempo no mal que fazias, isso vai pelo meu amigo, que mataste, por todas tuas vítimas, por mim que perdi sete anos de minha vida, por um crime teu.

O arrastou para a borda, fez com que olhasse os tubarões que rondavam por ali. Sem contemplação nenhuma, o atirou ao mar. Viu que no lugar havia como uma batalha.

Afastou o barco, ficou olhando, se dirigiu a outra direção, passou o resto da noite pescando.

Quando voltou ao porto, já era de manhã, foi cumprimentando os conhecidos, que apreciavam seus peixes.

Tinha limpado o barco a consciência, para não deixar nenhuma prova.

Dias depois, levou o saco de cadáveres limpo, outra vez para a morgue.  Visitou o detetive no hospital, este depois da operação que lhe tinham feito, estava se recuperando.

Não se escutou mais falar no assassino.

Ele muito quieto, continuou sua vida normalmente, até que conseguiu uma transferência para trabalhar em San Francisco.

Lá tentou refazer sua vida, embora seus pesadelos continuassem, seu torturador, agora aparecia sem rosto, já não via quem fazia essas maldades.

Agora frequentava a mesquita a miúde, ia quando estava vazia, rezava pensando em Ahmed, fazia como ele tinha ensinado, pedindo perdão.  No caso pela sua vingança, ao mesmo tempo se sentia tranquilo por ter livrado o mundo de um ser maligno.

Entendia que o mesmo, reagia aos impulsos das maldades que sua família tinha feito com ele, mas as outras pessoas não tinha nada a ver com isso.

Anos depois viu uma jornalista entrevistando um escritor na televisão, este escrevia a história do mesmo, tinha descoberto as maldades da família.  Algum empregado ou alguma mulher que o tinha criado contava como tinha sido sua infância.

Deveria ser terrível viver com uma mãe louca, um pai dominador, sua escapatória era praticar maldades com outras pessoas para descontar o que lhe passava.

Ele apenas estava no lugar errado, no momento errado, tinha pagado por um crime que não tinha cometido, embora agora se descobrissem não lhe importava.

Tempos depois descobriu que tinha um câncer na garganta, tranquilamente tomou uma decisão de não fazer tratamento nenhum.  Viveu os restos de seus dias, em seu barco.  O mar sempre lhe dava tranquilidade.

































 












martes, 5 de noviembre de 2019

PRINCIPE ALBERT


                                   PRINCIPE ALBERT

 


Ao final de sua vida, quando diziam que vivera o suficiente para ver muitas coisas, mudava o assunto com alguma coisa ou pergunta filosófica.

Mesmo agora distante da época mais complicada, não gostava muito de ficar preso no passado.  Passado, significa que já passou, não tem concerto.  Mesmo que lhe pedisse que escrevesse sobre o assunto se negava.  Mal sabiam que tinha um diário dessa época que interessava tanto as pessoas.  Mas nunca tinha cedido a tentação de fazer uso da mesma.  A única vez que levantou a voz, foi quando pediu uma autorização para fazer um projeto, mostrou os registros, do que tinha sofrido com a guerra, estando em Berlin.   O estado para não levantar um escândalo, lhe deu atenção, ajudou a realizar seus planos.

Queria levantar um edifício em cima do antigo palácio da família, o governo queria que reabilitasse no original.  Como um homem do futuro se negou redondamente.  O mais importante era preservar a biblioteca da família, mas que fosse de uso dos cidadãos.

Quando foi chamado para falar a respeito diante da presidenta da republica, apresentou uma cópia de seu diário.  Tinha sido o único nobre da Alemanha, que não tinha nem participado, nem fugido durante a guerra.  Tinha ficado para proteger o grande bem da família. Sua Biblioteca.

Quando a quis tirar da Alemanha, Hitler, todos seus cumplices não tinham permitido.  Na época ele idealizou um plano.  Como a biblioteca compreendia muitas salas, conseguiu que um arquiteto amigo particular, judeu, lhe ajudasse, depois conseguiu que o mesmo fugisse com sua família para a suíça.

Sem levantar muitas suspeitas, escavaram por debaixo da biblioteca central, fizeram 4 pisos. Que ao mesmo tempo serviu para esconderem muitos amigos judeus.

Já prevendo que a guerra iria chegar a Berlin um dia, se programou.  Quando descobria algum interesse por algum livro ou manuscrito, o escondia nos andares de baixo. A ele se acedia usando uma estante falsa que escondia a escada para baixo.

Tinha sido uma sorte, pois com os bombardeios aliados, só sobrou mesmo, a parte central da biblioteca.  Viveu como prisioneiro em seu próprio palácio, a partir do momento que resolveu nunca apoiar a Hitler. 

Obrigou que sua família com a desculpa de passarem uma temporada protegidos em um palácio rural que tinham na fronteira com a suíça, escapassem para lá.

No momento de sua briga com o governo, alegou inclusive que não pedia dinheiro nenhum, que o fazia com o dinheiro da família.

O projeto foi realizado, poucas pessoas percebiam que dentro daquele edifício de aço e cristal, abrigava uma das maiores e mais completas bibliotecas da Alemanha.

Ali só entravam estudiosos, ou pessoas indicadas por universidades para fazerem pesquisas.

De sua família o único que tinha perdido a vida servindo à Hitler tinha sido seu genro.  Um idiota rematado, como costumava dizer ele.  Se creia de raça pura, mas não sabia que entre seus antepassados existiam vários judeus.   Morreu numa das primeiras batalhas que participou no norte da Africa, quando já tinha ordem para voltar.  Ele conseguiu avisar ao mesmo, que se voltasse seria sua morte.  Iria para um campo de concentração.

Foi quando conseguiu que sua avó, sua mulher, filhos fossem para o palácio rural, de lá para a suíça.  Entregou a sua mulher a autorização de usar uma das contas da família, avisando que controlasse os gastos, pois só existia esse dinheiro.  Teriam que sobreviver com ele.  Nenhum deles tinham trabalhado nenhum dia de suas vidas.  Era chegada a hora de irem em frente.

Fez uma reunião com toda família, os empregados que estavam a anos na casa.  Só ficariam ele e dois empregados, não necessitava de mais. O resto acompanharia a família ao exilio.

Conseguiu as devidas autorizações, assim foi feito. Jamais contou a família das outras contas que albergavam toda a fortuna da família.  Se não sobrevivesse, isso estava explicito no testamento.  Queria que os filhos fossem a universidade, como ele tinha feito. Por isso sabia do valor da educação, do que possuíam na biblioteca.

No dia da partida, cada um levava em suas bagagens manuscritos que deviam ser depositados num banco.  Eram os mais preciosos, sabia que os loucos que acompanhavam o Führer se interessavam por eles.   Eram manuscritos, que falavam do Grial, das cruzadas, da genealogia dos grandes mitos alemães.   Só respirou, quando soube numa mensagem cifrada que estavam a salvo.

Com muito cuidado, ajuda dos amigos judeus, foi transferindo paulatinamente a biblioteca para o subsolo. Reservou uma parte para ter aonde esconder pessoas.  

Quando descobriram que a família inteira tinha escapado para a Suíça, que seu genro tinha feito um ataque suicida, não se sabia se estava morto ou não, no deserto do Saara.  Acreditavam que tinha entregue o próprio avião as forças inimigas.

Foi levado para interrogatório, mas por ordem do próprio Führer não lhe tocaram.  Não entendiam porque tinha ficado.

Ele mostrou um documento que tinha conseguido de punho e letra do Führer que se comprometia em preservar a biblioteca, seu custodio, para o futuro da Alemanha.

Se acabaram as festas, ou qualquer outra comemoração naquela casa.  Uma parte do palácio passou a ser usado para escritório de publicidade da Nova Alemanha.  Era a parte mais visível do palácio, mas o resto foi aos poucos sendo blindados.

Fez um verdadeiro levantamento de bens, anotou cada quadro, cada objeto de arte existente na casa.  Os quadros mais valiosos desapareceram por inteiro. Foram para o subsolo, só restou os que tinham aparecido em alguma fotografia para não levantar suspeitas.  Uma das entradas, a mais escondida, que se saia por um túnel ligado a cozinha, servia para fazer entrar os que necessitavam de proteção. Quem iria desconfiar que justamente num lugar ocupado pelos nazistas, abrigavam judeus.

 Cada vez que algum chegado ao Führer vinha para alguma consulta, levava um quadro, ou um objeto de arte, fazia com que o mesmo assinasse um documento, confirmando sua retirada.  O mesmo fazia com os livros solicitados.  Quando começaram a pedir manuscritos, a solução foi fazer cópias, tinha dois padres franciscanos escondidos no subsolo. Tinham falado mal de Hitler o Vaticano não tinha movido nenhuma palha para ajuda-los.  Então alegava que só possuía na verdade uma cópia. Assim podiam mudar alguma coisa nos textos para enganar os gananciosos que iam atrás de riquezas da Igreja.   Todos os dias acompanhava missa com esses dois padres.  Afinal era católico.

Relatava exatamente o que tinha acontecido quando um bando, não tinha outro nome para mencionar, um bando de delinquentes, com títulos isso sim de universidades, que queriam saber aonde estavam os manuscritos relativos ao Santo Grial. Pois para maior gloria da Alemanha, esta devia ter a posse, a proteção do mesmo.  Foi a única vez que lhe ameaçaram de tortura.  Perguntou quem tinha dado tal informação a respeito.  O homem que o interrogava disse que seu genro tinha se gabado com os amigos a respeito.

Meu genro não passava de um ignorante, mal sabia ler, escrever apesar de sua família possuir uma das maiores fortunas da Alemanha.   Portanto devia se referir a uns livros de escritores franceses que falavam no assunto, mas dai a possuir um manuscrito a respeito, havia uma grande diferença. Seguido por esses homens, subiu nas escadas da biblioteca, buscou todos os romances, livros a respeito, que na verdade não tinham fundamento nenhum.  Eram histórias nada mais, especulações.

Os manuscritos estavam eram bem guardados.

Não queria que os mesmos caíssem em mãos da igreja, nem que a mesma tivesse cópia deles.  Havia que preservar o legado da família.

Os padres franciscanos um dia vieram reclamar que tinham que compartir muito espaço com os judeus, que isso não estava bem.  Descobriu que um dos judeus era um grande falsário,  lhe interessava tê-lo sob sua proteção.  Cometeu uma única vez uma maldade em tudo isso.   Não podia permitir que os padres franciscanos saíssem dali, contassem ao Vaticano o que ele possuía, nem tampouco aos nazistas, a solução foi envenena-los, esconder os corpos no jardim.

Manteve até sua morte o judeu falsificador, pois esse conseguia documentos para os outros que ele ia abrigando.  O difícil era ajudar e manter essas pessoas escondidas.  Havia que fazer compras de mantimentos para alimentar, isso era controlado.

Havia sim era de compartir com o que tinham.  Sempre que pediam asilo, lhes dizia, que trouxessem o que pudessem de comida, pois não podia levantar suspeitas.

Muitas ficavam na verdade o tempo suficiente para o falsário conseguir documentos falsificados, em seguida partiam.  Ninguém queria ficar naquela Alemanha, que já não era sua casa, nem eram benvindos.

O único que ficou até o seu final foi justamente o falsário. Foi sua grande companhia, pois costumavam se sentar pelas noites numa sala abaixo da biblioteca, mas montada com todo conforto, disfrutando de um chá, que no final era o mesmo que ia perdendo a cor, a cada vez que era reusado.   Tinham largas conversas, sobre todos os assuntos.  Apreendeu a confiar nesse homem, que era o único que saia, para conseguir ou mesmo roubar papeis para trabalhar.

Quando este morreu, sentiu como se tivesse perdido um familiar ou amigo querido.  Nessas alturas Berlin já estava sendo bombardeado.  Tentou tirar de Berlin a parte vista da biblioteca, mas foi avisado que não se atrevesse.   Era uma pessoa bem informada, sabia pelo amigo falsificador, que havia duas frentes em avanço.  De um lado os aliados, de outro lado os Russos, rezava cada dia, implorando que quando invadissem Berlin, sua casa ficasse no lado dos Aliados.  Poderia negociar, salvar o que tinha protegido tanto tempo.

No dia do bombardeio principal, aonde perdeu a vida o falsificador.  Estavam pelas ruas, buscando crianças ou pessoas que necessitassem de proteção.  Justo quando o céu ficou negro de tantos aviões.  Conseguiram salvar algumas crianças que vagavam perdidas pelas ruas. Quando chegaram ao palácio, a parte usada pelo setor de propaganda do Führer, já não existia mais, 80% do palácio já estava no chão, com muito custo, entraram na parte central da biblioteca, que ele tinha conseguido levantar um muro de apoio, recolocar as livrarias no lugar. Mas a claraboia renascentista já não existia.  Muitos livros tinham caído das estantes mais altas. O duro era alimentar essas crianças.  A cozinha, quase tudo que tinham escondido para comer tinha desaparecido. Mas lutou para preservar isso até que chegaram os aliados.  Nos dias prévios teve que lutar com seu próprio medo, levar em conta em primeiro lugar as 50 crianças que estavam ali, tão assustada quanto ele. Nesse momento só restavam ele e seu fiel valete.  Dividiam cada troço de chocolate, água para dar para todo mundo.  Quando escutou o ruído dos carros de combate, não sabia se eram americanos ou para seu terror russos.  Na noite anterior o pouco que tinha dormido tinha tido sonhos em que os russos o faziam prisioneiro, nunca mais iria ver sua família.

Mas para sua sorte eram americanos.  O Fiel valete saiu e conseguiu voltar com um Coronel do exercito americano.  Ele se identificou, lhe mostrou cartas do Embaixador Americano, que este tinha lhe deixado como salvo conduto.  Falou da biblioteca, tudo que estava ali, nunca mencionou nada que pudesse comprometer sua coleção.  Pediu a ajuda para as crianças que estavam ali, podiam ficar até que tudo entrasse nos eixos, mas necessitava de comida para elas.   Isso ele conseguiu fácil. Mas foi levado para um interrogatório, enquanto os americanos cercavam, protegiam o que restava do antigo palácio.  Já sabiam da existência dele, por seu filho que tinha se engajado no exercito aliado.   Mas se ele só tem 17 anos. Ficou pasmo. Pois o filho costumava lhe dar muitos desgostos.  Não queria estudar, dizia que tinham dinheiro para varias gerações.   Lhe entregaram uma série de cartas de sua família.  A muito tempo não sabia nada deles.   Tinham inclusive procurado o advogado, mas este tinha de fontes seguras que ele continuava vivo, defendendo o legado familiar.

 Depois de tanto tempo as vezes confundia a cara de alguém que tinha abrigado, mas não se lembrava da cara dos da família.

Depois de semanas, apareceram funcionários da cruz vermelha, para tentar encontrar parentes das crianças que ele abrigava.

Nenhuma deles queria sair de aonde estavam, a maioria nem sabia quem era, mas tinham apreendido a confiar nesses dois homens que as salvara das ruínas.  Com ajuda de algumas pessoas, de militares, conseguiu recuperar uma outra parte do palácio, transformar em uma espécie de orfanato, a cruz vermelha ia se encarregar disso tudo.  Ele dava aulas as crianças procurava através de correspondência manter contato com a família.  Esta dizia tinham feito uma reunião, pensavam em emigrar para Nova York, aonde poderiam viver bem.

Quando recebeu essa notícia, a conclusão que chegou foi que pensavam em continuar vivendo como sempre.  Escreveu para o seu advogado dizendo que de maneira nenhuma poderiam saber de seu testamento, nem de suas contas secretas.  Sua filha viúva era quem estava a mando dessa ideia.  Tinha dinheiro da família de seu marido, e foi a primeira a partir. Nesse meio tempo finalmente comentaram que a avó tinha falecido, sido enterrada no cemitério de uma pequena vila.  O único que pensava em regressar era seu filho, que ainda estava no exercito inglês. Agora lhe escrevia muito, dizendo que finalmente entendia as coisas que o pai lhe cobrava.   Sua mulher ao saber que não havia mais dinheiro, que o palácio tinha sido destruído, ocupado o que sobrava pela cruz vermelha, lhe pediu divórcio. Tudo isso ele soube, assinou papeis, sem ver nenhum deles, não se movia de Berlin para nada.  Era seu pensamento ficar para ver reconstruírem a cidade.

Seu Fiel valete Hans, foi até o palácio rural, mas este estava totalmente destruído, incluído as plantações.  Tudo teria que sair do ponto zero.   Escreveu para o advogado, que no caso de divórcio tudo que poderia oferecer a mulher seria, justamente o que sobrava, esse palácio, destruído.  Mas por sorte ela alegou que tinha conhecido, pensava em se casar com um rico comerciante americano, não precisava nada dele.

Todos desapareceram de sua vida num simples suspiro. Tudo isso através de cartas, nada em pessoa.  Hans ainda lhe perguntou se isso não o incomodava.  A resposta foi, que tinha descoberto que nada disso importava, tudo que lhe restava eram as lembranças dos momentos difíceis, das pessoas que tinham ajudado.  Das crianças poucas puderam recuperar suas famílias.  Sobravam 40 crianças, entre 25 garotos, 15 garotas.   Quando ele via na rua o que estava acontecendo, ia recolhendo outras, abandonadas.

Conseguiu que lhe dessem dinheiro para melhorar o que sobrava do palácio, construiu uma sala aula para essas crianças. 

O coronel americano, agora seu amigo, lhe trouxe um dia um jornalista para fazer uma entrevista.  Ele contou por alto o que tinha feito nesse tempo de guerra. Proteger seu patrimônio, ajudar pessoas, os judeus ou qualquer outro perseguido pelo regime, agora as crianças abandonadas.  Quando a reportagem saiu, alguns aos que ele tinha ajudado, mandaram dinheiro, roupas para as crianças.  Sua preocupação imediata era o inverno que se aproximava, pois teriam que manter essas crianças protegidas.  O exercito lhe ajudou nisso, com material militar para o frio.  Estavam abastecidos de chocolate e outras coisas.  Aos poucos os antigos empregados que tinham ido para a suíça retornaram.  Hans os colocou para trabalharem, retiravam os restos do palácio, encontrando alguma que outra peça de valor. Conseguiu transformar uma parte do jardim num invernadeiro, plantaram legumes que cresceriam rápido para ajudar alimentar os garotos.

Mas na sua cabeça um plano se desenhava, queria construir um edifício moderno para albergar a biblioteca. Tinha conseguido dar emprego a dois antigos funcionários da biblioteca Nacional, estes agora estavam catalogando tudo que tinha sido salvo.

Dois dos garotos se interessavam por livros, foram apreendendo com eles.  

Filho reapareceu, esteve algum tempo por lá.  Em momento algum se falou em dinheiro.  Finalmente ao filho que livros, papeis velhos lhe importavam uma merda, que pensava que os americanos passariam a mão em tudo no final.  Foi claríssimo com o pai.  A irmã, e sua mãe gozavam de uma boa situação nos Estados Unidos, ele iria para lá.   Assinou uns papeis para o pai, sem ler.  Não sabia que estava renunciando qualquer possibilidade de ter uma herança.  Quando foi chegando ao fim de um inverno miserável, comprando tudo o que podia num mercado negro.  Todo seu pensamento era, não posso deixar essas crianças desistirem da vida.

Hans um dia comentou que tinha apreendido a admirar, gostar do patrão. Os dois compartiam tudo.  Quando começaram a comentar do plano Marshall, resolveram que deviam aproveitar, fazer alguma coisa.  O Sul era mais fácil plantar.  Hans partiu com alguns dos garotos maiores que se interessavam por trabalhar a terra, dois homens mais que os estava ajudando no invernadeiro.  A ideia era aproveitar toda a parte possível do antigo palácio, plantar a terra, criar um grande invernadeiro para sustentar as crianças.  Cada vez mais tinham algumas que estavam perdidas, com fome.  Algumas as famílias tinham morrido de fome, além de doenças depois do inverno brutal.

Um dia andando na rua, viu um garoto ser apanhado, por estar roubando um troço de pão.   O dono da padaria queria bater no garoto, mas ele não deixou. O levou para sua casa, lhe disse que tomasse um banho, vestisse roupas que tinham por lá, que a partir de agora poderia viver ali. Quando viu os outros garotos, viu que ficava desconfiado. O levou a biblioteca, este ficou de boca aberta. Disse que adorava os livros, que seu avô cada vez que Berlin era bombardeada, lia histórias para ele.

Porque ficastes assustado, ficaste com uma cara estranha quando viste as outras crianças.

Porque escutei falar de gente que está se aproveitando, pegando crianças nas ruas para abusar delas, o mesmo fazer com que roubem.

Aqui só tem que estudar, pensar no futuro, contou que o Hans tinha partido para criar um lugar de plantio no Sul, assim poderem alimentar todos.

Sabes dirigir?

A cara do garoto foi espetacular. Abriu os olhos, um grande sorriso.   Adoro carros. 

Então podes ser meu ajudante, as vezes tenho que sair de carro, para ir buscar alimentos no mercado negro.        Preciso de um ajudante.  Descobriu em seguida que o garoto era especial, era um sobrevivente.  O fez estudar, o ajudava.  Passou a ser seu parceiro nas conversas noturnas.  Quando Hans avisou que a primeira colheita estava feita. 

Fez com que o Max, nome que ele deu ao menino, fosse com um outro empregado buscar tudo que podiam.  Deviam viajar de noite para não chamar a atenção.  Conseguiu um salvo conduto para passarem pelos controles rapidamente.

Quando o coronel comentou com ele sobre as obras roubadas, passou uma lista do que tinham levado de sua casa, os livros também. Conseguiu recuperar muita coisa.  O coronel agora o ajudava a aplicar dinheiro que tinha conseguido do Plano Marshall, investindo em pequenas indústrias que iriam crescer.

Se passaram cinco anos, foi quando entrei na vida dele.  Meu pai, era seu filho.  Tinha conhecido minha mãe logo que chegou nos Estados Unidos.  Se apaixonou, me tiveram.  Mas infelizmente continuava impulsivo, atraindo catástrofes. Se meteu em corridas de carros, teve um acidente.  Morreu logo depois. Minha mãe lhe escreveu, ele nos convidou para ir viver com ele.  Ela acabou virando uma espécie de secretaria dele, eu fui criado como todos as outras crianças que lá estavam.  Comia com elas, estudava,  brincava, me tornei amigo de muitas delas.

Ele continuou lutando para realizar o seu sonho. Agora as universidades, necessitavam de livros.  Ele nunca cedeu nenhum, mas permitia que se a pessoa viesse indicada pela universidade, poderia ter acesso, estudar na biblioteca.  Acabou se transformando numa paixão para mim, para o Max.  Eu o tinha como um irmão maior.

Max foi o primeiro em ir à universidade, os garotos que não queriam estudar ele mandava para o Hans no campo. Os dois criaram uma sociedade de produção de alimentos.  Tudo que sobrava era transformado em geleias, e outros produtos.  O tempo passou, sentia uma adoração imensa por meu avô.  Era sábio, estava sempre pensando em como ajudar alguém, incentivar que os jovens estudassem.  Estava sempre disponível na biblioteca para isso.  Minha mãe junto com outras mulheres que vieram trabalhar na casa, era a encarregada de vestir, calçar todos eles. Nunca foi um orfanato. Mas sim a casa de todos.

Max adorava ler um livro, sentar-se em frente à mesa, discutir com meu avô sobre o escritor, o que ele queria realmente dizer com o que escrevia. Queria ser jornalista, foi incentivado a isso.

Quando chegou a minha vez, resolvi estudar arquitetura, pois na minha cabeça desenhava milhões de formas, espaços para a biblioteca.  Era a minha meta.  Creio que devo ter feito mais de mil projetos sobre o mesmo tema.  

Quando sentiu que sua vida começava a declinar, me mandou fazer uma viagem, visitando as principais bibliotecas do mundo. Queria que a sua fosse um marco em nome da família. Estaria aberta a todos estudiosos.  Com o dinheiro entrando, tinha começado outra vez a comprar edições, livros antigos. Nunca aparecia seu nome, mas sim o meu. Quando todos os garotos tiveram suas vidas arrumadas, ele disse que tinha chegado a hora.  Mas antes quis fazer uma coisa. Apesar de ser seu neto, criou um documento que me adotava e ao Max, que passava ter seu sobrenome.

O título seria meu, mas me avisou que nos dias de hoje não valia nada.  O que valia era a minha cabeça.

Sentávamos os três, até altas horas da noite, discutindo o projeto, o último andar seria sua morada ou o seu palácio junto ao céu.

Quando se começou a construção, apareceram os corpos dos franciscanos, ele disse à polícia que ele mesmo tinha enterrado os dois.  Os encontrei, escondido na casa do jardineiro meio desmoronada pelos bombardeios, mas nada pude fazer por eles. Achou melhor enterrar, pois sabia que nesses dias ninguém fazia nada por ninguém.  Foram envoltos em lençóis velhos em forma de sudário, foi tudo.   A polícia acreditou, pois não havia maneira de acreditar que fosse assassinato, justo por uma pessoa que protegia a todos, ainda por cima católico.

Mas nos seus últimos dias me contou por que tinha matado. Não podia permitir que denunciassem os judeus, contassem o que havia no subsolo.

Eu o entendi,  creio que teria feito igual.

A inauguração do edifício foi muito comemorada pela imprensa, os políticos vieram fazer a sua vênia a um homem que tinha permanecido em plena guerra sem tomar nenhum partido. Seu único cometido, tinha sido proteger o legado de sua família. Uma biblioteca.  Para a inauguração ele fez trazerem todos os manuscritos que estavam guardados na Suíça, bem como apresentou toda a coleção de quadros da família, expostos num pequeno museu.  Alguns quadros que tinham sido levados jamais apareceram.

Não queria ser enterrado, foi cremado, suas cinzas colocadas em um nicho na parte alta do edifício.  Assim seguiria vivendo em seu palácio/biblioteca.

A obrigação de perpetuar, seguir o seu caminho, recaiu sobre mim.  Nunca apareceram sua filha, nem seus descendentes por aqui para reclamar nada. Creio que escreveu a cada um explicando como funcionava a coisa. 

O trabalho que tinha feito o Hans, teve como seu ponto, pois o deixou para todos que ali trabalhavam. Foi transformado numa grande cooperativa agrícola que funciona até hoje.

Na missa de sua morte, me pediram para falar. Agora eu ostentava o título de Príncipe, que tinha sido seu.  Eu comentei que nunca tinha visto meu avô como um príncipe.  Pois era um homem simples, com um grande ideal, como gostava de sentar-se com os garotos para comer nas refeições.  Estavam ali pelo menos 80 por cento das crianças que ele tinha ajudado.

Quando li seu diário, as preocupações diárias em manter, salvar seus livros, os judeus ou qualquer outra pessoa perseguida. As noites de insônia preocupado com as crianças que estavam pelas ruas, embaixo dos bombardeios, as buscas pelas ruas das mesmas. Foi como conhecer mais profundamente meu avô.  Consultei com o Max, se devíamos ou não publicar tudo o que ele dizia.  A resposta do Max, foi que se ele não tinha feito quando podia, porque iriamos agora publicar. Ele já tinha o que queria, seu sonho realizado. Uma biblioteca moderna aonde se pudesse estudar, pesquisar.   Sentia falta dele, das largas conversas que mantínhamos. Agora tocava a mim seguir enriquecendo seu legado.






















miércoles, 23 de octubre de 2019

VINGANÇA


                                                                    VENDETTA



Paola, não conseguia se concentrar nos orações da manhã, tinha uma sensação que o dia não seria bom, mas como explicar isso.   Na verdade, sempre que tinha essa sensação acontecia alguma coisa.  Estava no convento desde os 13 anos, odiava estar ali, mas tinha sido vontade de seu pai. 

Evidentemente com 13 anos, não tinha podido fazer grande coisa.  Mas tinha conseguido retrasar o máximo possível, tomar os hábitos.   Primeiro esteve como aluna interna.  Quando ela imaginou que poderia finalmente voltar a viver com sua família, principalmente ao lado de sua irmã Ofélia, o pai se negou, disse que ela tinha que pagar os pecados da família.  Não sabia de que pecado ele falava.

Ofélia era sua irmã mais velha, tinha uma diferença de idade de 5 anos, portanto atualmente era maior de idade.   As vezes conseguia entrar para visitar sua irmã, mas a madre superiora era uma grandíssima filha da puta.  Quando ela vinha, imediatamente chamava seu pai.

O grande senhor Olivares. 

Esse as vezes permitia a visita, outras simplesmente mandava seu guarda costa ir busca-la, depois a reprendia brutalmente, por ter ido perturbar a paz de sua irmã menor.    Ela tampouco sabia, porque sua irmã tinha que estar ali.

Paola, se lembrava da última vez que  Ofélia tinha conseguido entrar, mesmo vigiadas ao longe por umas das monjas mais antipáticas do convento.   As duas tinham se sentado no jardim do claustro, de mãos dadas, Paola com a cabeça no ombro da irmã, dizendo que não sabia mais quanto tempo aguentaria viver ali.

Ofélia, lhe consolava, dizendo, que assim que pudesse vinha busca-la, havia de encontrar um jeito de sair dali.

Depois de comungar, uma coisa que detestava fazer, lhe parecia muito hipócrita, pois se não tinha como pecar, ou imaginava que uma pessoa ocupada o dia inteiro, em rezar, rezar, rezar, vai ter tempo para pecar.

Quando saia da capela, a bendita irmã Consolação, ali estava esperando, para seu foro íntimo, pensou, como essa mulher pode se chamar Consolação, sé é o diabo em pessoa.

A madre superiora, quer falar contigo.  Tudo isso disse secamente, como um general.

Se dirigiu ao gabinete da madre superiora, claro seguida pelo seu cão de guarda Consolação.

Quando bateu na porta, esta se abriu imediatamente, viu que sua irmã estava sentada muito ereta num cadeirão velho, com a cara fechada, tinha um papel na mão.

A madre superiora, Joana dos Anjos, outro nome errado pensou, como essa mulher pode se imaginar um anjo, se é o diabo personificado.

Entre, explicava sua irmã, que não podes sair, pois deves tomar o hábito, justamente dentro de dois dias, conforme a vontade de seu pai.

Observou que Ofélia estava contrariada, se levantou, pelo menos posso falar com minha irmã em particular?

Sim claro, acompanhada por a irmã Consolação é claro.

Pode se abraçar a sua irmã, saíram de mãos dadas do gabinete.

No claustro, conseguiu manter a irmã Consolação, o mais distante possível, dizendo que o que tinha que dizer a sua irmã era particular.  

A outra tentou argumentar, mas Ofélia, impôs com um dedo que se mantivesse afastada.

Primeiro tenho uma notícia, que pode ser boa ou má ao mesmo tempo.   Papai faleceu a dois dias, portanto agora sou a responsável por ti.   Mas essa filha da puta da Madre superiora, tem uma ordem dele antiga.

Vou tentar conseguir uma ordem com o Juiz, pois é necessário que venhas a leitura do testamento, porque se tomas o voto, essa filha da puta, irá no teu lugar.

Se tivesse como te tirar daqui, por exemplo amanhã, seria perfeito.

Paola ficou quieta um instante, lhe perguntou se tinha carro?

Sim agora levo eu o carro.  Por quê?

Olhe para o chão, me abrace como me consolasse.

Desenhou no chão com a ponta da sandália, a entrada do convento, fez um retângulo, sinalizando por aonde podia escapar.  Não fale nada, mas encontrei a tempo uma saída. Se me espera por entre as 11 e meia noite, quando tudo ficam em silencio, escapo.   Hoje mesmo.  Pode ser?

Ofélia lhe deu um beijo na cabeça, estas maquinando a muito tempo, não é?

Finja que chora a morte de nosso pai.  A abraçou como se consolasse, dizendo a seu ouvido, essa filha da puta, quer que tomes os votos imediatamente, para ficar com tua parte da herança.   Mas não vou permitir.

Paola acompanhou a irmã, até a entrada, se fazendo de triste.

Na verdade, não sentia absolutamente nada com a morte do pai.  Este sempre tinha sido frio com as duas, pois queria um filho homem, para levar seus negócios em frente.   Teve que se contentar que Ofélia estudasse, fizesse universidade, hoje em dia administrava a maior parte dos negócios.

Reze esta noite por nosso pai em tuas orações, Paola.  Deus te recompensará.

Viu que a Madre superiora, aguardava a saída de Ofélia, para lhe falar alguma coisa.

O dia passou lentamente.

Paola, nas orações da tarde, se lembrou como tinha conseguido descobrir essa saída.   Uma das noviças, que entrou para a ordem, gravida, ficou justo na cela ao lado da sua, acabaram ficando amigas.  Descobriu que fora seu pai que tinha sugerido ao seu, que a deixasse lá.   As duas conversaram muito, inclusive Paola lhe dizia que seu pai insistia que devia tomar hábito, para pagar pelos pecados da família.  Isso nunca entendi.

A outra lhe abriu os olhos, nossos pais, são mafiosos, queriam filhos homens para levar seus negócios escusos.  Me apaixonei por um rapaz da cidade, ele não gostou, só sei dizer que ele desapareceu, não sei se o mataram ou não.   Mas vou escapar daqui.   Tenho um grande amigo de infância, que esteve trabalhando numas obras de conservação do convento, descobriu uma saída.  Me disse como, só temos que descobrir aonde é.  Uma brecha, numa das partes da antiga muralha, estava tapada por arbustos, duas árvores, que não deixavam ver o espaço, se podia passar tranquilamente.

Tanto fizeram que acabaram descobrindo.  Mas no dia que sua amiga, tentava escapar com o amigo, apareceram os homens de seu pai, já a pegaram do lado de fora, assassinaram seu amigo na sua frente.

A Madre, imaginou que alguém lhe tivesse facilitado a saída pela porta principal, castigou severamente a monja que tomava conta da porta, trocando pela irmão Consolação.

Sua amiga teve o bebê, um lindo garoto de cabelos vermelhos.  A madre superiora, disse que era filho de satanás.

No dia que um casal veio buscar o garoto, ela estava limpando o chão do corredor. Enquanto a Madre superiora acompanhava os mesmo até a entrada, entrou na sala, anotou o nome do casal, seu endereço em Palermo.

Quando a Madre superiora voltou, ela continuava limpando o chão.  Ainda lhe deu uma bronca dizendo que fosse mais rápida.

Com sua amiga, tinha o hábito de se reunirem de noite, na parte alta do convento, um dia descobriram que nas noites de lua cheia a Madre superiora, tirava toda sua roupa, bebia muito, ficava deitada nua em cima da grama. Se retorcendo toda, algumas vezes se fazia acompanhar de alguma noviça, outras se masturbava depois ficava dormindo.

Sabia que nessa noite seria noite de lua cheia.  Por isso o melhor era escapar hoje.

Tinha levado pouco a pouco para essa saída, roupas normais que as pessoas deixavam quando entravam para a ordem.   Como as vezes lhe tocava, limpar esse lugar, levava depois escondida peças de roupa. Uma camisa, calças, um lenço para a cabeça.  Enfim tinha um enxoval bem escondido.

Quando a noite se fechou, ficou de tocaia, observando o que fazia a madre superiora.   As 10 horas, ninguém mais podia estar fora de suas celas, era quando ela saia da sua.

Viu que tirava toda a roupa, ficava nua em pelo, tinha nas mãos, duas garrafas de vinho.  Quando estava já na segunda, começou a dormir, depois de ter-se masturbado.

Desceu descalça do andar de cima, se aproximou sorrateiramente, tirou as chaves do hábito da madre superiora, seu gabinete, ficava mais ou menos próximo dali.  Tinha colocado muito azeite na porta do mesmo dias antes.  Abriu a porta lentamente, viu que esta estivera trabalhando até mais tarde, o cofre estava aberto, num envelope, colocou todo o dinheiro que tinha ali, além de documentos, pois queria descobrir mais coisas.

Saiu, fechou bem a porta, voltou para perto da madre, esta seguia dormindo, num gesto de vingança, dobrou o hábito, com as roupas interiores, saiu rapidamente levando tudo, chaves, roupas, tudo, assim quando ela se despertasse, não poderia entrar para se vestir, a veriam nua.

Saiu pela entrada secreta, trocou de roupa, aproveitou a bolsa que estava escondida, para levar o hábito da madre superiora.    Quando saiu, ficou nas sombras, até que avistou sua irmã, encostada num carro velho. Viu ainda no chão a mancha de sangue, aonde tinham matado o rapaz que ia ajudar sua amiga.

Correu até ela, se abraçaram, foi rápida dizendo, vamos embora daqui.

Já depois de uns dez minutos quando sua respiração se normalizou, perguntou se iam para casa.

Não, pedi emprestada a casa de uma amiga da universidade, pois assim essa louca não nos encontrara, até irmos ao tabelião, para a leitura do testamento.

Porque fazes justamente amanhã 18 anos, assim ela não pode dizer que tem tua guarda.

Riram as duas. 

Quero te avisar, vou me vingar dessa filha da puta.

Como descobriste essa saída?

Lhe contou a história da amiga, me disse que papai, sugeriu ao dela para a internar, que virasse uma monja para pagar os pecados da família.  Me disse que os dois eram mafiosos.   É verdade isso?

Sim, é verdade.    Já veras no tabelião, vai se apresentar um filho que ele tinha com uma das empregadas de casa, ele ficará com a parte que é da Máfia, a mim me tocará, os negócios que são limpos, ou mais ou menos limpos.   Já tive uma conversa com ele, que arrume outra maneira de limpar o dinheiro sujo, ou que compre todos os negócios, não tenho menor intenção de seguir com isso.

Quando chegaram na casa no meio do campo, depois de guardar o carro numa garagem, quem passasse pela estrada, apenas veria uma casa fechada, sem ninguém.   Não estava muito longe da cidade, mas em campo aberto.

Sentaram-se na sala, ficaram rindo.  Finalmente juntas outra vez.   As duas tinham passado sua infância, Ofélia sempre a tinha protegido, brincava de bonecas com ela, pois era mais jovem.

Amanhã, tenho que te preparar para algumas coisas que vais saber depois no tabelião, assim não vão te pegar de calças curtas.

Vamos dormir, amanhã conversamos.

Toda essa agitação, a tinha cansado, mas ao mesmo tempo não a deixava dormir.   Imagine, finalmente depois de tantos anos, tinha conseguido escapar do convento.   Ficou imaginando, a madre superiora despertar, não encontrar suas roupas, nem chaves, quando conseguisse entrar no seu escritório, encontraria o cofre vazio tanto de dinheiro, como de documentos.   Queria ver o que fazia.

No café da manhã, as duas sentadas uma na frente da outra, lhe contou a Ofélia o que tinha feito, essa dava sonoras gargalhadas.   Bem feito, quem manda ser filha da puta.

As duas depois, com uma segunda caneca de café nas mãos, sentaram-se na pequena sala.   Me conta o que querias dizer ontem à noite.

Quero que saibas que te amo como minha irmã.  Mas na verdade não somos, eu sou filha do segundo casamento de nosso pai.   Tanto quando nasci, ele já tinha muita idade.

Você é filha da única filha que teve do primeiro casamente.  Ou seja, sua neta, por isso ele falava em pecado da família.   Tua mãe fugiu com um homem da Chechênia, que durante um tempo serviu de guarda-costas dele.    Pelas fotos que a minha me ensinou, era linda. O checheno, foi trabalhar para uma família de mafiosos, inimigos do teu pai.    Ele mandou atrás deles, uma série de homens, de sua confiança, para trazerem  tua mãe de volta.   Mas nunca descobriu aonde estava.  Se casou de novo, eu nasci, a vida seguiu.   Por um sopro de alguém dos seus inimigos, ele descobriu aonde estava tua mãe.   Quando finalmente a encontrou, foi num lugar meio abandonado, meio morta, com uma seringa pendurada no braço, tu chorando ao lado porque tinha fome.   Ele te pegou nos braços, viu que tinhas o mesmo olhos dela, que eras idêntica a ela em criança.    Tua mãe suplicava por mais drogas. Ele virou as costas, mandou que um dos homens disparasse na cabeça.   Não queria mais passar vergonha.

Te trouxe para casa, minha mãe se  encaprichou imediatamente de ti, por ele teria te abandonado na porta de um orfanato.  Mas minha mãe criou nós duas como se fossemos irmãs, nunca deixou de se referir a ti como sua filha.  Enquanto esteve viva, ele nunca se atreveu a fazer nada contra ti.  Pois te lembras como ela era, quando ficava brava, parecia uma leoa.   Não permitia muitas vezes, sequer que ele se aproximasse de ti.   Creio que isso te salvou.

Antes de morrer, me pediu que sempre te protegesse, eu era mais velha, repetiu mil vezes enquanto esteve mal, que não permitisse que te afastasse de mim.   Mas nosso pai, não pensava assim.  Na primeira vez que disse que não podia te levar para o convento.   Me deu uma bofetada, que me jogou no chão.

Me lembro dessa cena, estávamos na biblioteca da casa, não foi?

Sim, exatamente. Cada vez depois quando eu começava a falar, me ameaçava.  Só que eu já sabia quem eras.  Quando fiz 18 anos, o afrontei, me disse que tinhas que pagar pelo pecado da tua mãe, quando argumentei que não tinhas culpa, me disse que não tinhas sangue puro.

Evidente que cada vez que brigava com ele, me ameaçava de não me deixar mais entrar no convento para te ver.   Fiquei quieta, esperando que tivesses 18 anos, que fazes hoje.   Assim poderia te tirar, até que descobrir que se fizesses os votos antes, tudo ficava para o convento.  Passei a ter tanto ódio dele, que passava mais tempo em Catania do que aqui.   Assim não tinha que conviver com ele.  Ficava na casa dos meus avôs, que sempre pensaram e pensam que eres filha da minha mãe.  Nunca contei a verdade para eles, estão velhos, te adoram, para que estragar a imagem que tem.  Não é verdade?

Por que nunca foram me ver?

Claro que foram, mas nunca os deixaram entrar, nosso pai não permitia.  Essa filha da puta da Madre superiora é prima do nosso pai.   Faria qualquer coisa para botar a mão no dinheiro.

Vamos olhar os documentos que roubei?

Depois de lerem tudo, muitas propriedades, rendas de dinheiro aplicado em nome somente dela. Lá estava a procuração do velho, lhe dizendo se ela conseguisse que fizesse os votos antes dos 18 anos, para pagar os pecados da mãe dela, tudo que lhe tocasse de herança, iria para o convento.   Uma bela soma em dinheiro iria para a Madre superiora.

Documentos de vendas de bebês em adoção, a filha da puta, não dava em adoção, vendia as crianças. Ah isso vai dar uma vingança maravilhosa.   Extratos de banco, com uns valores impressionantes.   Depois do tabelião, aonde negarei a posse dos documentos, vou mandar uma cópia para a diocese, outra para Roma.

Melhor, creio que nosso irmão a odeia tanto como nós duas.   Ele tem um rapaz que trabalha em informática, vamos pedir ajuda a ele.

O conheces bem?     

Sim, depois que fostes para o convento, o velho o trouxe para viver lá em casa.  É muito boa gente, está louco para escapar disso tudo da Máfia.    A parte que lhe toca, ele está transformando em negócios honestos.  Creio que com o tempo conseguira livrar-se de tudo.

Como é o nome dele?

Honorato, o velho antes de morrer, finalmente o reconheceu como seu filho.  Senão não poderia herdar.

Agora como nos duas, se chama Honorato Montecalvo.   Sua mãe morreu, ou desapareceu,  o desapareceram com ela, não sabemos.

Contaram o dinheiro, era um valor surpreendente.  Que filha da puta, a comida do convento é uma merda, se alguém precisa ir ao médico, ela chama uma enfermeira para pagar menos, para termos roupas de inverno, há que pedir nas missas.   Enfim, creio que ela pensava em escapar algum dia com todo esse dinheiro.

Passaram o dia inteiro, falando, lembrando-se da sua infância, somente uma vez, o celular da Ofélia tocou, era o Honorato.  Para perguntar se tudo tinha saído bem.

Perguntou se era seu aniversário hoje?

Quando Ofélia disse que sim, disse que passaria no final do dia, para se conheceram, comemorarem a data.

Depois que ela desligou, Paola perguntou, se não tinha medo que ele as denunciasse?

Não, o conheço muito bem.  Como nos duas, sofreu nas mãos do velho.  Este uma vez, inclusive, colocou uma arma em sua mão, para matar um homem que lhe devia dinheiro.   Se negou redondamente a fazer isso, dizendo que seu pai era um assassino, ele não seria.   Com quinze anos, enfrentava o velho, apanhou dele.  Mas hoje como é muito alto, o velho lhe ameaçava, ele ria na cara dele dizendo, sou mais alto, mais forte que tu.  O velho ia abrir a gaveta do meio da biblioteca, aonde tinha uma arma, mas sempre era tarde pois ele tinha um revólver na cabeça dele. Deixou de encher o saco dele.   Sempre resolve seus problemas dialogando com as pessoas.  Só não perdoa dívidas de  viciados em drogas, ou dos que roubam.  Faz uma coisa simples, os denuncia a polícia.    O velho ficava puto da vida com isso.

Tem um amigo que é advogado, muito bom por sinal, foram amigos de infância.  Estudaram juntos até a universidade.   Só que enquanto o outro fazia direito, ele fazia administração de empresas.   Eu fiz psicologia, para entender toda essa barafunda, já que o velho não permitia que eu fosse a um psicólogo.

Não é fácil ser filho de pessoas prepotentes.

Imagina, estar num lugar que odeias, sem saber por que, não te permitem sair dali, é pior que uma prisão.

Como ia pagar o pecado de uma pessoa que sequer conhecia, ou não me lembro nada?

Eras um bebê quando ele te trouxe, acredito que não chegavas a ter nem 3 meses.

Minha mãe, podia ter te rejeitado, mas ao contrário, ela adorava crianças, seu sonho, era ter mais filhos, mas não podia, quase morreu quando nasci. 

Eu sempre a amei como minha mãe, rezava sempre por ela.  Vais me achar louca, mas estava tão farta do convento, que a princípio rezava, mas depois aproveitava as rezas para me evadir mentalmente dali, sonhar com outra vida.

Quero agora liberar uma amiga, que lhe roubaram o filho, vive numa clausura total, mal a deixam sair de sua cela.    Mas sou esperta, sei quem tem seu filho.

No final do dia, chegou o Honorato.

Ela imaginava um sujeito bruto, qual nada, estava bem vestido, não era bonito, tampouco feio, tinha uma cicatriz no meio da cara.  Quando ficou olhando para isso.

Tranquilamente disse, que tinha sido obra do nosso querido pai, porque me neguei a obedece-lo.

Trouxe um bolo, champagne, temos que brindar tua maioridade.   Essa madre superiora vai se lascar amanhã, ficaram rindo os três.

Paola contou o que tinha feito, precisamos deixa-la na miséria, ela vendia os bebês que iam parar no convento.  Mostrou os documentos.

Amanha falo com meu Hacker, ele é muito bom nisso, além de meu amigo advogado, que vai estar presente, caso ela queira alguma coisa.  Amanhã venho busca-las para ir ao tabelião, me das as chaves que ela usava, eu usarei nas minhas calças, quero ver o que ela vai fazer.

Comeram bolo, beberam a cada copo brindando sua maioridade.

Depois falaram coisas de suas infâncias.  Ele no final riu, dizendo, que o velho era um mau pai, mas também lhe tinha saído tudo errado com os filhos.   Se ele soubesse o que ando fazendo, se ia revirar na tumba.  Nós temos que aproveitar nossas vidas.   Mal fiz 18 anos, acredita que queria me casar com qualquer moça de alguma família mafiosa, para aumentar seu poder.   Nunca descobriu que sou gay.  As duas fizeram cara de surpresa.  Bom agora sabem de um segredo meu, como eu sei de alguns de vocês duas, estamos empatados.

No dia seguinte pela manhã, ele veio num carro negro, moderno, busca-las para irem ao tabelião. O escritório deste ficava justamente entre a delegacia e o fórum.

A Madre superiora quando a viu, com os cabelos curtos, bem penteados, bem vestida, só faltou espumar.

O pior foi quando entraram, sentaram-se, atrás do Honorato o seu advogado David de Montforte,  explicou ao tabelião que tinha trazido seu advogado, para qualquer problema.

Honorato, fez um movimento abrindo o casaco, as chaves da Madre superiora aparecendo, ficou pálida. Não abriu a boca em momento algum.  Quando o tabelião disse que a presença dela não era necessária, já que Paola, tinha completado maior idade, não tinha tomado os hábitos, neste caso, não toca nada ao convento.

Mas meu primo, me prometeu dinheiro, para cuidar de sua filha.

Sinto muito senhora, não consta nada disso no testamento, posso lhe dar uma cópia, mas verás que não aparece nada relacionado com dinheiro em seu nome.

Ela estava furiosa, soltou um filho da puta, me enganou. Se levantou, então posso ir embora?

Sim, com toda certeza.

Virou-se para o Honorato, pedindo que lhe devolvesse suas chaves.

Como?   Perdão não sei do que a senhora está falando.  Virou-se para seu advogado, quero que vás com essa senhora, até a polícia,  ela vem vendendo bebês a muito tempo. Isso vai contra a lei.  Ela correu para a porta, mas do outro lado tinha um segurança.  

Se sentiu acuada, mas os acompanhou até a polícia.   Honorato tinha feito copias dos documentos. Da venda de bebês.

Enquanto isso, o tabelião lia o testamento.    Honorato ficava com uma parte dos negócios, Ofélia com a construtora, outros pequenos negócios, a mansão era de  Paola, pois na verdade pertencia a sua mãe, como herança, além de dinheiro.

Quando saíram, viram um carro da cúria, levando a Madre superiora.   Assim que entrou na delegacia, telefonou para o bispo, parece que são parentes, em seguida, apareceram dois advogados para libera-la, pagaram sua fiança. Creio que tudo ficará por isso mesmo.

Paola com sua cabeça privilegiada, disse, vamos ficar quietos um tempo, vamos ver como ela vai se comportar.   Podemos completar tirando todo o dinheiro rapidamente do banco, transferindo para uma conta em nome de outra pessoa.

Honorato chamou imediatamente seu Hacker, que ele fosse para a Mansão.   Ofélia tinha mandado preparar um grande almoço de aniversário, para sua irmã que voltava a casa.

O Hacker, era um sujeito que no meio da multidão, passaria por um estudante universitário, jovem, com calças jeans, camisetas, um óculos que lhe dava cara de um tio inteligente.

Depois de comerem, conseguira, através dos papeis que Paola tinha roubado, entrar na conta desta,  que era administrada a distância,  descobrir seu código,  fizeram a transferência para um conta em nome de um dos homens do Honorato.  Deixaram a conta com 100 euros nada mais.

Andaram fuçando tudo.   Como nesse momento ela estava usando internet, ele conseguiu colocar um vírus, para ver com quem ela falava.    Estava num grande bate boca com o bispo, pois esse tinha obrigação de protege-la.  Afinal eram família.

Bom já sabemos por aonde vai a coisa.  Honorato deu imediatamente ordem a Eduardo, o nome do Hacker, que conseguisse descobrir tudo sobre o Bispo.

Paola contou ao David, o problema de sua amiga, do filho vendido, lhe deu todos os dados das pessoas que ela tinha visto levando o garoto.   Mas o grande problema  David, é tira-la de lá.   Ela só tem 17 anos.

Contou a eles, o que gostava de fazer a Madre superiora.  Ela deve imaginar que ninguém sabe o que gosta de fazer.   Contou a história que as duas tinham descoberto, de como ela gostava de ficar nua na relva, se masturbando.

Ainda temos lua cheia, hoje, mais dois dias. 

Eduardo comentou que tinha um amigo, que fazia uns vídeos excelentes, que se pudesse entrar no convento, ele poderia filmar a mesma.

Eu os levo até lá, ensino como entrar, de onde podem, que fazer o vídeo.

Ofélia, logo alertou do perigo.

Honorato, disse que mandaria uns homens para cuidar de tudo.

No dia seguinte de noite, por volta das 10:30, ela ensinou como eles podiam entrar, subir ao telhado por uma parte da muralha antiga do lugar.   Explicou detalhadamente como ela fazia.

Ficaram aguardando, ela já vinha meio bebida, falando palavrões,  isso não vai ficar assim, eu vou destruir essa garota.   Arruinou a minha vida, vai ver com quantos paus se faz uma canoa.

Eles estavam vendo tudo desde um furgão escondido no meio das árvores.   Ofélia comentou, parece que estamos participando de um seriado de polícia americano.

Ela estava meio bêbada, por isso seu strip-tease , estava um pouco torpe.   Pegou um pepino grande, com uma garrafa de vinho na boca, foi bebendo, ao mesmo tempo se masturbando com o pepino.

Ofélia estava escandalizada,  minha irmã, não me diga que vias isso sempre?

Não, só descobrimos, minha amiga e eu, quando tentávamos escapar.

Quando ela começou a roncar, os rapazes abaixaram do telhado.    Honorato, com a chaves, mandou abrir a porta principal, fecharam a irmã Consolação, no quarto que usava, ao lado da porta.   Enquanto isso, Eduardo, seu amigo, desciam, levaram as roupas da madre superiora.     Os que estavam na porta da frente, começaram a tocar o sino, foi a maior confusão.  Todas vendo a madre superiora, completamente bêbada, nua como tinha vindo ao mundo, dormindo a sono solto na relva.

Tiraram uma cópia, mandaram para o Bispo, avisando que tinham mandado uma cópia, para o Cardeal, outra para Roma, para todos os canais de televisão do país.

Ficaram Honorato, seus homens, esperando pelo Bispo, já sabiam de sua vida o bastante, quando seu carro chegou na entrada do convento, pararam o mesmo.   Honorato e ele tiveram uma conversa muito séria.

Embora já fosse tarde.   Todos os jornais já traziam uma foto na primeira página, da superiora deitada na relva. Com uma tarja negra em cima da parte sexual.   Os títulos eram variados, tipo confias tua filha para aulas com esta senhora, outras mais ofensivas.   O vídeo foi parar num canal de televisão local.   Com toda documentação foi presa. Alegava que tinha sido roubada.  Mas não havia provas.

Paola aproveitou a confusão para liberar sua amiga.  David, já tinha localizado o casal, estes preferiram devolver a criança, com medo do escândalo.  Paola junto com sua irmã, acompanharam os dois, para ficarem com familiares da mãe da garota, era menor de idade.  Quando viram que ficavam bem,  voltaram para casa.

O escândalo foi a um nível, porque quanto mais buscavam, mais podres encontravam.  A máfia, tinha usado toda a vida o convento para receber filhas, mulheres que não queriam mais, algumas encontraram ali um pouso.  Mas a maioria se sentia prisioneira.  Quanto a ordem, esta não reconhecia esse convento, pior a madre superiora, não era na verdade uma religiosa.  Encontraram envolvimento do bispo, de um cardeal de Roma, envolvido com a máfia.  A megera tinha documentação de tudo.

Resultado o convento foi vendido, pois na verdade tinha um dono, transformado posteriormente num hotel rural.

A madre superiora, acabou amargando anos na cadeia.

Paola, se sentia vingada, mas não tinha imaginado as proporção do escândalo. Resolveram vender tudo que tinham na Sicília, indo viver em outro país.   O mesmo fez Honorato, que mantinha um largo relacionamento com David.  Num dado momento, desapareceram os quatros de circuito.   Alguns afirmavam ter visto os irmãos em NYC, outros em San Francisco,  Sydney, Rio de Janeiro, mas nunca mais foram encontrados. Todo o escândalo tinha abalado a velha maneira de trabalhar da Máfia.  Não foram perseguidos, porque chegaram à conclusão, que era hora de se modernizarem.  Administrarem melhor seus negócios, transformando os mesmo em coisas seguras.   Uma nova geração, chegava ao poder, com títulos universitários, com outras ideias.  A velha casta Siciliana, desaparecia.