lunes, 12 de diciembre de 2022

PLAY OFF - DESEMPATE

 

                           

 

Era meu último Play Off, tinha decidido pendurar os tênis, não podia dizer chuteiras porque não era jogador de futebol.

Esperava para entrar na cancha, para a segunda parte, viu uma confusão muito grande na porta, pensou que eram jornalistas, para falarem de seu amigo Sammy, pela primeira vez jogavam em equipes contraria, sentia falta dele para jogar, mas por qualquer motivo que ainda não tinha entendido, ele decidiu jogar no time contrário.  Ele respeitou sua decisão, andava muito estranho ultimamente.    Jogou como nunca, sabendo que era sua despedida, seu contrato tinha terminado, queriam renovar, mas ele não.

Ganharam, era seu segundo anel, depois foi para o vestuário, estava cansado, o treinador, se aproximou, tem uma pessoa querendo falar contigo.  Acabou de tomar seu banho, se vestiu, disse adeus aos companheiros, saiu.

Deu de cara com Charles Jackson, para CJ.   Um detetive que ele era apaixonado, nunca tinha falado nada a respeito, ao mesmo tempo, esse homem era como uma ave agourenta, na sua vida, só aparecia para lhe dar más notícias.

Perguntou o que era desta vez, procurou Sammy com o olhar, ali estavam todos os jogadores que tinham participado do Play Off deste ano.

C.Jackson, lhe apertou sua mão, o arrastando dali.

Perguntou se ele tinha visto Sammy no dia anterior.

Não, depois do partido não quis falar comigo, estava furioso.   Eu estranhei pois sempre falávamos dos jogos, como tinha sido, o que achávamos.  Aliás essas eram as únicas conversas que tinham ultimamente.  Na última temporada, Sammy tinha mudado de time, sem consulta-lo, eles que se falavam de tudo.

Se conheciam desde criança, tinha compartidos desgraças pessoais, bem como triunfos na universidade, ele era o único que sabia que deixava o basquete.  Se não falasse com ele, com quem falaria.   Tinha ficado furioso com ele, como podia fazer isso, se o basquete tinha sido a vida dos dois, todos esses anos, vamos dizer assim, a salvação.

Tinham começado a se afastar, quando Sammy se deslumbrou por ter dinheiro.  Ele ao contrário sempre tinha tido.

Sentou-se numa cadeira dessas de plástico, o inspetor sentou-se na frente dele. Não sabes nada, verdade?

Saber o que?

Sammy morreu ontem a noite, estava completamente drogado, avançou um semáforo, morreu no ato, com a cabeça degolada.

Foi abrindo a boca, mas não lhe saia grito nenhum, seus gritos tinha acabado, as lagrimas escorriam pela sua cara, pareciam uma enxurrada.    Tinha ficado surdo, via que C. Jackson falava com ele, mas não escutava.

Começou a tremer, foi caindo num poço fundo, negro, estava farto de tantas desgraças será que isso nunca ia acabar.

Viu que ele se levantava, mas não se mexeu, ele saiu, voltou com o entrenador.

Desculpe filho, mas não quis te dar essa notícias antes do jogo, entre os dois o levantaram, saíram por uma porta lateral, lhe perguntaram se tinha vindo de carro.  Ele nunca tinha tido carro, andava com o Sammy, para que precisava de carro.

O inspetor, disse que o levava para casa.

Aonde está Sammy?

Não podes vê-lo ainda, estão fazendo a autopsia.

Ele seguia querendo gritar, as lagrimas continuava caindo pela sua cara.  Teve que ser literalmente levado para cima no edifício pelo inspetor, esse abriu a porta, deve ter ficado de boca aberta com seu apartamento.  Ao contrário dos outros jogadores, que viviam em apartamentos suntuosos, ele vivia num pequeno, era o último andar, um sala quarto, uma varanda fechada, com duas estantes cheias de livros, a mesa de centro tinha pilhas imensas, como explicar, que os livros eram tudo para ele.   Sem eles já tinha morrido a muito tempo.

Era conhecido como o EUNUCO, da NBA, pois nunca o tinham ligado com ninguém, nenhuma modelo, ou outro homem.  Vivia uma vida retirada, a única pessoa que sabia de sua história era o Sammy, também era o único que tinha uma chave do apartamento.

Caiu numa das poltronas, só tinham duas.   Agora fazia sentido o que Sammy tinha falado para ele.   “Nem no final me deixas vencer”.

C.Jackson, disse que talvez ele estivesse drogado.

Drogas, sempre as malditas drogas, foi o que soltou.

Colocou as mãos na cara, deixou que as lagrimas continuassem escorrendo por elas.

Perdão soltou, não sei o que te dizer.  Ontem depois do partido estava furioso, mas não fui eu que batalhou contra ele, tinha sido um companheiro seu de equipe.

Falou o que ele lhe tinha dito, saiu dos vestuário furioso.

Fomos nos afastando, apesar de ser meu único amigo, tinha comprado a dois anos um apartamento maravilhoso, levando sua mãe para viver com ele, mas ela preferiu voltar a viver na mesma casa que tinha vivido sempre.

O celular do C. Jackson começou a tocar, ele pediu licença se afastou, ficou escutando.

Eram da autopsia, ele estava até a alma de drogas.

Comentou, que treinador, lhe tinha perguntado isso, antes de Sammy sair da equipe, indo para outra ganhando mais.  Ele tinha se negado, pois já tinha decidido que seria sua última temporada.

Não tinha nada planejado, o basquete tinha sido seu refugio desde criança, era tudo para ele, mas seu psicólogo tinha falado muito com ele, que talvez tivesse chegado a hora de enfrentar a vida de frente, afinal ia fazer trinta e cinco anos, começou a tremer outra vez.

Quando C. Jackson, colocou a mão no seu ombro, desta vez se permitiu colocar a cabeça em cima da mesma, tinha amado toda vida esse homem, embora ele sempre viesse com más notícias.

Este perguntou se tinha alguém que podia chamar para ficar com ele.  Sorriu, só o Sammy me entendia, não tenho ninguém em minha, vida, amigos, família nada.

Pode ir-se eu fico bem sozinho, estou acostumado.

C. Jackson, deu a volta se ajoelho na frente dele, tinha que se controlar, pois o queria beijar, viu que sua têmporas, estavam cheias de cabelos brancos, mas isso aos seus olhos o fazia mais bonito.

Sammy era o único que sabia que eu deixava a NBA, esse foi meu último jogo. Lhe contei outro dia, antes do jogo entre nossas equipes, nada disso me ajuda hoje em dia.  Preciso enfrentar minha vida finalmente de frente.

A mãe dele já sabe?

Sim, está com a família dela.   Queres ir até lá?

Não tens que trabalhar?

Não já avisei que ficarei contigo.

Entrou novamente no velho carro do inspetor, não disse nenhuma palavra, esse de vez em quando num semáforo, lhe segurava a mão.  Se ele fosse uma pessoa que pudesse verbalizar, diria por favor me abrace, me beija.

Mas não dizia nada, isso era uma coisa impossível para ele.  Não sabia verbalizar mais as coisas.

Fechou os olhos, se lembrando como tinha conhecido o Sammy.   Estavam na mesma escola do bairro que viviam.  Os outros garotos nunca se aproximavam dele, pois era diferente, alto, loiro, olhos verdes, já era forte, pois de tarde ajudava no armazém do pai.  Esse era um bom filho da puta, de vez em quando chegava a escola com os braços, com manchas rojas, mesmo usando a camisa de mangas compridas não dava para esconder, que o pai tinha descarregado nele sua fúria.

Sammy era a mesma coisa, seu padrasto, era outro filho da puta.  Um dia uma bola veio parar aos seus pés, ele se levantou, de aonde estava encestou.  Todo mundo ficou de boca aberta, os dois começara a jogar um com o outro, sem nunca terem se falado.  Nenhum dos dois eram de muitas palavras.

Isso passou a ser um ponto entre eles, no fundo de sua casa, no lado da garagem, tinha um aro, ali jogavam no final do dia, ou nos dias que não ia ao armazém do pai.

Quando sua mãe ficou doente, ele ficava em casa com ela, escutava o assobio do Sammy, ela dizia teu amigo está aí, vá jogar com ele.

Ele se desafogava jogando com uma certa violência.

Os dois se entendiam, não faziam parte de grupo nenhum na escola, de nenhuma gang, das muitas que tinham pelo bairro.

Seu irmão, seu ídolo ao mesmo tempo tinha desaparecido, se não fosse sua mãe, ele acreditava que teria morrido.   Era ela que lhe dizia baixinho, tens que sair daqui, talvez o basquete seja o meio que tenhas de conseguir uma bolsa para a universidade.

Quando ela morreu, ou melhor se suicidou, tomando toda as medicações, possíveis, deixou um bilhete para ele, esconda as duas caixas que estão na garagem. Sabia do ela falava, era duas caixas de sapatos, que estavam cheia de dinheiro, ela durante anos tinha feito a caixa da loja de seu pai, pois ele não gostava dessa parte, ele achava que ela fazia isso para ter uma maneira de escapar da vida que tinha.

No último ano, ele a tirou de seu quarto, colocou no de seu irmão Dawson, trazia mulheres diferentes todas as noites, nunca ficava com ela, dava para escutar ele fazendo sexo com elas, porque era escandaloso.

Ele tinha se mudado para o sótão da casa, usava a parte da frente, assim não escutava nada.

Tampouco escutou nada quando ela morreu.   Quando desceu no dia seguinte, encontrou a casa cheia de policiais, seu pai tinha chamado a ambulância, eles a polícia, pois achavam a morte dela suspeita.   Foi a primeira vez que viu o C. Jackson, ele estava começando sua vida de policial.  Pensou antes de entender o que tinha acontecido, que homem bonito.

Foi interrogado várias vezes, seu pai era um homem violento.  Sua mãe tinha os braços cheio de marcas, ele se desculpou dizendo que a tinha sacudido para ver se colocava os comprimidos para fora.

Ficou como um louco, pois sua mãe era o único que tinha, Dawson tinha desaparecido, não sabia nada dele, até o dia que disse que ia embora, pois estava farto de seu pai.

Ele era filho do primeiro casamento, era 10 anos mais velho do que ele.  Seu pai o tinha visto dando um beijo num homem, um jamaicano, chamado Coton Jack, outro C.J. tinha lhe dado uma puta surra, que naquela casa ele não queria viado nenhum, queria homens como ele.

Minha mãe tentou defender o Dawson, levou um murro na cara com toda força, foi parar do outro lado da cozinha, lhe disse, cuida da tua vida, esse filho é meu, faça com que o seu seja homem pois senão o mato.

Dawson tinha desaparecido do mapa, anos depois o encontrei, vivia num acampamento de homeless, tinha entrado para a marinha, usava uma prótese na perna.

Nesse dia meu único consolo foi o Sammy.   Me arrastou com ele para nosso jogo de sempre, gostava da minha mãe. Ficávamos encestando, procurando fazer cada vez mais longe do aro.

Eu sempre ganhava, nesse dia tinha um ódio mortal.

Foi um enterro triste embaixo de chuva, a única irmã da minha mãe, veio com o marido, meu pai disse aos dois para desaparecerem, pois sabia que os dois eram umas merdas.

Assistiram o enterro o mais longe possível.

A partir desse dia, eu só existia nos momentos que estava jogando com o Sammy, erámos os melhores da escola.  O mais interessante, era que também erámos os melhores alunos, as notas mais altas, competíamos nisso também, mas porque um ensinava para o outro o que não tinha entendido nas aulas, eu era ótimo em matemática.  Ele em outras coisas.

Nos completávamos.

No mesmo dia do enterro, meu pai levou uma mulher para casa, mesmo com a distância podia escutar as gargalhadas dele, mas elas nunca ficavam.

Ele saia com seus amigos machões de toda a vida, eles tinham inveja pois tinha um negócio, eram bonitão, assim era fácil, trazer, uma mulher para casa.  Se repetia ou não, nunca soube.   Inclusive uma vez desci para tomar café para ir à escola, lá estava a mãe do Sammy, me disse para não falar nada para ele, meu pai entrou, enfiou dinheiro na mão dela.

Eu já tinha levado para meu quarto, escondido bem as duas caixas da minha mãe.  Agora eu levava o trabalho que ela fazia, tinha aprendido, fazia o mesmo, para um dia poder ir a universidade.

Nessa época vi o Dawson pela primeira vez, da pequena janela do meu quarto, o vi do outro lado da rua, olhando para a casa.  Não era uma cara normal, desencaixada, cheia de ódio.

Corri, mas não o encontrei.

Passei nos meus momentos livres, pois o tinha visto vestido de roupa militar, a procurar por ele, com o Sammy, mas o encontrei um dia, que fui sozinho com minha bicicleta pelo lugar que havia acampamentos de homeless militares.

Um homem tentava roubar minha bicicleta, quando ele apareceu do nada.

O que fazes vindo aqui me procurar sempre, não lhe respondi, simplesmente o abracei muito forte, eu o adorava, era meu ídolo desde pequeno.  Ele dizia que tinha que tomar cuidado comigo, porque quando era criança era como uma sombra dele, estava sempre atrás dele, para receber um carinho, ou que ele me levantasse por cima da cabeça dele, era como o visse de outra maneira.

Falei que minha mãe tinha morrido, que o filho da puta, levava cada dia uma mulher para dentro de casa, que minha vida era um inferno, se eu podia ficar com ele.

Me disse que ia dar um jeito.   Levou muito tempo assim, as vezes ia com o Sammy vê-lo, as vezes estava totalmente drogado, mas não me importava, ficava ali na sua tenda, segurando sua mão.

Lhe perguntei por que não fazia um tratamento para se livrar disso?

Me disse que era o único que tinha, que Coton Jack tinha morrido na guerra, era o amor de sua vida, nada tem sentido.   Um dia apareci, cheio de hematomas, o velho agora pega você não é.

Ficou dizendo baixinho, filho da puta, tenho que lhe parar os pés.

Eu já tinha 16 para 17 anos, era alto, magro, mas meu pai tinha uma força incrível. Tinha sido lutador de boxe em sua juventude. Quando te soltava um murro, não havia como se defender.

Dois dias depois, eu agora usava um casco para não escutar os ruídos, colocava alguma música no último volume.

Escutei mesmo assim um ruido, como se tivesse alguém discutindo.  Sabia que a mulher que meu pai tinha trazido para casa, tinha ido embora, pois tinha sentido a porta da casa bater, algumas saiam furiosas com ele.  Devia ser violento na cama.

Depois mais tarde já estava na cama, escutei uma discussão, pensei que a mulher tivesse voltado, pensei comigo, esse tormento nunca vai acabar.   Me faltavam meses para acabar, tinha a possibilidade de conseguir uma bolsa de estudos, na verdade eu o Sammy disputávamos a mesma, para irmos à universidade, como jogadores de basquete.  A cada jogo nos esforçávamos o máximo, porque sabíamos que tinham olheiros por ali.

Depois escutei como se alguém tivesse caído escadaria abaixo.

Mas até que resolvi sair do meu esconderijo, ou toca, como eu chamava meu quarto, já era tarde, desci, para ir à cozinha, vi meu pai numa posição grotesca aos pés da escada, chamei a ambulância, bem como pedi que viesse a polícia.

Quem apareceu como sempre foi o C. Jackson, mas eu já sabia que ele estava morto, porque tinha aprendido a tomar o pulso de minha mãe.

Eles achavam que alguém o tinha empurrado escadas abaixo.

C. Jackson, me perguntou o que eu estava fazendo, o levei até meu quarto, lhe expliquei que todas as noites ele trazia uma mulher para casa, desde a época que minha mãe estava doente.

Uso esse casco, com a música no último volume, para não escutar nada, mas disse que senti a porta batendo, com faziam algumas mulheres.  Depois o ruido de alguma coisa caindo, mas como ele sempre estava alto de bebida, eu nunca me atrevia sair, porque senão quem levava era eu.  Mostrei ainda as manchas rojas que tinha nos braços, ele tem uma força incrível.

Não mencionei que meu irmão estava na cidade, nem se o tinha visto.  Quando me perguntou do Dawson, lhe disse que era militar, mas não sabia se estava em alguma missão.  Ele não vive aqui a anos.

Me perguntou se queria que avisasse algum parente, lhe disse que não tinha nenhum.

Um dia depois voltou, porque tinha encontrado troços de pele, embaixo da unha, o ADN, era de alguém da família.   Na delegacia, me fizeram ficar nu, uma pessoa da oficina forense, examinou meu corpo inteiro para ver se tinha algum arranhão, o que encontraram foram muitas marcas no meu corpo.  Quando disse que meu pai sempre precisava de um saco de pancadas.

Eles começaram a procurar o Dawson, nesse meio tempo o advogado, estava providenciando o enterro dele, só depois leria seu testamento.

Dois dias depois, apareceu outra vez o C. Jackson, outra má noticia, estava com o Sammy, estudando para os exames finais, ele me pediu para o acompanhar.  Fomos os dois, não disse o que era, lhe perguntei se tinha que chamar o advogado de meu pai.

Não, fique tranquilo.   Já sabemos quem matou teu pai.

Me levou para ver o cadáver de meu irmão, tinha morrido de uma overdose, tinha a cara toda arranhada, pelo visto ele tinha matado nosso pai.

Fiquei arrasado, Sammy avisou sua mãe, ela o deixou ficar comigo.  Nessa noite tive pesadelos, com o Dawson, o matando.

Enterramos os dois ao lado de minha mãe.

Seu amigo todos estavam ali, mas me surpreendi, escutar a maioria deles, dizer, finalmente esse filho da puta palmou, merecia ter morrido a muito mais tempo.

Falei com o C. Jackson, tentando assim talvez, pensar que qualquer um deles, tivesse matado meu pai.

Ele explicou, que ele costumava se meter nos namoros dos amigos, roubando a namorada para uma foda, depois contava para todo mundo.

Fui escutar a leitura do Testamento, pedi ao Sammy para ir comigo, ele se sentou mais atrás.

O filho da puta, pelo menos deixava tudo para mim, nada para o Dawson, deve ter tido a coragem de colocar no testamento que não deixava nada para ele, pois era um viado.

Tampouco tinha nada agora, pois já estava morto mesmo.

Minha tia apareceu com seu famigerado marido.   Falei com o advogado, ia fazer 17 anos em alguns dias, falei da fama dos dois, pedi que falasse com o juiz para minha independência, afinal iria para a universidade.  O velho tinha me deixado a casa, o edifício do seu armazém, bem como o negócio.

Fui com ele falar com o juiz, o advogado tinha tirado informação a respeito de minha tia e seu marido, estava arruinados.

Assinou os papeis, para todos os efeitos, eu era maior de idade. 

Tínhamos o último jogo, demos um varapau desgraçado no outro time.  Eu jogava como um louco acompanhado do meu amigo.

Quando me ofereceram a bolsa de estudos, disse ao selecionador, que eu não precisava, podia pagar minha universidade, mas se eles queriam que jogasse, dessem a mesma ao Sammy.

Antes de ir, chamei o advogado, mandei vender a casa com tudo que tinha dentro, o armazém um chines estava interessado em ficar com o negócio, me pagaria mensalmente um aluguel do local.    Peguei todo o dinheiro das caixas, guardei num banco, fomos os dois para a universidade. Mas dois dias antes, o chamei, Sammy, vamos fazer uma farra.   Claro nossa roupa era de segunda.  Só usávamos os dois, roupas de segunda mão.

Na época era moda comprar roupas no Village, Soho, Chinatown, compramos, calças, camisetas, casacos, sapatos, tênis, tudo que nunca tínhamos tido, eu tinham um lema nessa época, com o Sammy, tudo que é meu é teu, afinal era o único amigo que tinha.

Compartíamos quartos, quem me chamou de eunuco a primeira vez foi ele, pois combinamos um código, se tinha uma meia amarada na porta, o outro não entrava, sinal que estava com alguém.

Isso era sempre ele, eu nunca levava ninguém, tampouco tinha a quem levar.

Tentei fazer sexo com uma garota, mas foi uma decepção, para conseguir chegar a final, tive que imaginar que era o C. Jackson.   Aquele homem me deixava louco.

Mas perdi a virgindade com um dos auxiliares técnicos, da equipe, no banheiro do ginásio, uma noite que cheguei ao nosso quarto, lá tinha uma meia amarrada, fui para o ginásio, fiquei encestando no aro, horas, depois resolvi tomar um banho, ele apareceu, me viu nu, foi um passo.   Depois eu me escondia em seu quarto as vezes.

Mas a brincadeira de Eunuco, já funcionava.

Quando fomos chamados para uma equipe, insisti que o Sammy fosse junto, meu salário era mais alto que o dele.

Ele foi morar num bom apartamento, eu comprei o que vivo até hoje.  Ele quando viu, me chamou de miserável.

Sammy, se lembra do meu quarto em casa, era assim, não preciso de muita coisa, não quero impressionar nenhuma garota.

Ele sabia da minha aventura, com o ajudante de treinador, mas ficou quieto, eu nunca escondi nada dele, tampouco tive nada com ele, era meu melhor amigo.

Chegamos à casa de sua mãe, pelo menos ele tinha comprado uma casa melhor para ela.

Me abraçou chorando, chamei nosso advogado, pedi para providenciarem todo o enterro, perguntei ao C. Jackson, se podia costurar a cabeça dele no tronco, para não fazer feio no caixão.  

Creio que o mesmo estará fechado, com um visor, pois seu estado é lastimável.

Só voltei a casa no dia seguinte, para trocar de roupa, a cerimônia, foi numa igreja batista, pois era aonde frequentava sua mãe.   Um dos novos amigos dele, se aproximou de mim, com um sorriso sarcástico disse, ele no final te odiava, principalmente depois que teu equipe ganhou o Play Off, disse que nunca iria conseguir sair da sua sombra.   Esse me levou a parte, me contou tudo que o Sammy tinha falado de mim.  Que tinha entrado na universidade, porque eu tinha desistido da bolsa de estudos, que quando fomos para a NBA, ele tinha entrado na equipe, porque eu tinha exigido, que ganhava mais do que ele.

Mas ele era meu único amigo, como não fazer isso?

Pois ele contou para toda a equipe que eres viado.

Me senti traído, mas o entendia, como podia pensar isso de mim, ele era o único que eu tinha, minha única família.

Chorei muito toda a cerimônia, não podia dizer aos outros, que chorava, porque me sentia abandonado, por meu amigo de infância.

No dia seguinte, fui com o advogado, para falar da assinatura do contrato.

Tinha saído uma noticia no jornal que eu saia do armário, que era gay.  Usei isso para não assinar o contrato, mesmo assim me choveram ofertas.  Quando quiseram me entrevistar, eu preferi falar do Sammy, que não podia ficar mais jogando, tinha que mudar o rumo da minha vida.

Fiz um balanço geral do meu dinheiro, tinha vendido ao chines a pouco tempo o edifício inteiro, o resto da herança do meu pai, tudo estava aplicado no banco, quando comprei o apartamento que vivia, paguei direto o mesmo, o meu salário sobrava, uma parte dele o destinava a escola de aonde tinha estudado, para ajudar os alunos a serem alguém, mas nunca divulgava isso.

Nem chegava a gastar basicamente meu salário.   Vivia modestamente, não gostava de luxo, a única coisa que tinha de extra era uma cabana em Cape Code, que comprei de um jogador em apuros.   Passava lá minhas férias sozinho.  Sammy ia por aí

com os novos amigos, de festa em festa, as vezes aparecia, eu jamais lhe fiz qualquer comentário, afinal a vida era sua.

Fiquei sabendo que não deixou muito dinheiro para a mãe, pedi ao advogado que vendesse esse apartamento de luxo que ele tinha, que administrasse o dinheiro para ela, não tinha muita noção, sempre tinha sido uma mulher pobre.

Antes de sair da cidade, fui falar com ela, para que não escutasse o que falavam de mim.  Alguns diziam que o Sammy tinha sido meu amante a vida inteira.

Eu sei meu filho, sempre foste amigo dele, mesmo naquele dia que me viste em tua casa, eu tinha feito sexo com teu pai, pois precisava de dinheiro.  Era um bom filho da puta, não fique ofendido.   Sammy me contou que mesmo tua mãe doente, ele levava mulheres para casa.

Soube por um dos amigos dele, que o criticou por isso, que a resposta o deixou horrorizado, que a casa era dele, se ela não gostasse que fosse embora, mas que o filho ficava, já bastava um ser gay.   Coitado nem sabia que eu também era.

Passei o verão escondido na cabana, só saia para fazer compras em alguma cidade perto, não queria ser reconhecido.

Chegou o inverno, segui ali.   Algumas noites tinha pesadelos, em ver o Sammy sem cabeça, ou mesmo meu irmão, empurrando meu pai, pela escada.  Tinha que enfrentar isso, já não tinha uma bola, nem um aro para me distrair.   Vi um cartaz na vila aonde fazia compras, de um gabinete de psicólogo, copiei o numero de telefone, chamei marquei uma hora.

Encontrei uma senhora, com os cabelos brancos, arrumados modestamente num coque, parecia uma avô que nunca tive.

Já no primeiro dia, creio que vomitei tudo que tinha guardado. Desde a minha infância, o amor que sentia pelo meu irmão, como meu pai maltratava minha mãe, sua morte, que eu achava que tinha sido ele.

Fui me sentindo melhor, agora saia para largos passeios pela praia, já não ficava fechado na cabana, logo chegaria a primavera, o verão.

Alguns dias simplesmente caminhava, outros corria, para me manter em forma.

Um dia esbarrei em C. Jackson.   Me perguntou o que fazia ali.

Férias permanente, lhe perguntei o mesmo?

Estou de férias, vi que tinha um braço, preso com um pano em volta do pescoço.

Levei um tiro, estou me recuperando.

Ficamos andando pela praia, nos sentamos numa pedra.  Quando te vi, pensei que más noticias me traz.  Porque sempre que te via, era para alguma coisa chata.

Sinto muito, era uma verdade.  Eu sempre ia assistir teus jogos, te admirava por ter suplantado tudo isso.  Sei que Sammy era teu melhor amigo.   Isso deve ter sido duro.

O pior soltei, foi que todo mundo sempre pensou que ele era meu macho, pois quando mudou de time, contou para todo mundo que sou gay.   Mas entre nós dois nunca ouve nada, me chamava de eunuco, porque sequer tinha aventuras, nem me atrevia por causa do ambiente.

Segues sozinho?

Sim, estou fazendo terapia, para quem teve tantas merdas na vida, achei melhor me afastar, faz mais de ano que estou aqui numa cabana que comprei.

Assim me deixam em paz, alguma coisa farei, mas não sei o que ainda, compro todos os livros que vejo.  Talvez faça algum curso para melhorar, eu fiz jornalismo, mas nunca exerci.

Já estou um pouco velho para começar, na verdade se fosse procurar um emprego, tenho certeza de que me contrataria, para falar de esportes.

Não quero nada disso, durante anos, me escondi atrás disso.  Fomos andando, sem querer lhe soltei que era apaixonado por ele, desde que te vi a primeira vez.  Embora o momento fosse trágico, me apaixonei.   Quando lhe contei que a única experiencia que tinha tido com uma garota, tive que imaginar que estava com ele, para chegar ao final.

Ele ficou rindo, chegamos a minha cabana o convidei para comer, tinha alguma coisa no congelador.   Ele parou na pequena sala, riu, não podia esperar outra coisa de ti, por aonde se olhasse tinha livros, pilhas dele, em volta de uma poltrona que ficava perto de uma janela, que dava para ver o mar.

Se aproximou, segurou minha cara, ele era mais baixo que meus dois metros de altura, me beijou, foi como eu imaginei.

O arrastei para a cama, nos demos conta no dia seguinte quando acordamos famintos, que não tínhamos comida nada.  Estávamos famintos.   A comida que tinha tirado do congelador, cheirava mal.

Me levou para comer num restaurante.

Me contou toda sua vida, com tinha se escondido no armário, desde o exército, depois na polícia.   Que eu sempre lhe atrai, mas achava que eu não era gay, depois imaginou que eu tinha alguma coisa com o Sammy pois estávamos sempre juntos.    Como chorei quando soube que tinha morrido.

Lhe contei o que seu novo companheiro de jogo me tinha falado, que no final ele me odiava, por isso contou para todo mundo que eu era gay.   Que eu tinha ido pela vida, o arrastando atrás de mim. 

Na verdade ele era bom, me fazia melhor, era um grande jogador.

Mas tu, destacava mais que ele, eras brilhante.

Talvez por meu desespero, não tinha outra coisa em que me apoiar, o basquete me salvou a vida inteira.

Fui lhe mostrando o livro que estava escrevendo, falando do basquete, desde o momento que descobri o mesmo com meu irmão mais velho.  O que fazia para suplantar as surras que me dava meu pai, mesmo com dor, não me permitia errar a canastra.

Fomos ficando, quando chegou o momento dele voltar a trabalhar, pela primeira vez fui claro com ele.  Se vais voltar a trabalhar, eu nunca vou superar, um dia que chegue alguém para me dizer que te mataram, não vou poder aguentar.

Por isso, prefiro guardar esse tempo que estivemos juntos, como os melhores dias da minha vida, mas não voltarei a te ver.

Ficou me olhando, soltou, como tu amaste o basquete, eu amo minha profissão, volto no final de semana.

Pela primeira vez na minha vida, tomei uma decisão, manter minha palavra, ele foi para NYC, eu também, arrumei uma pequena bagagem, já iria comprando o que fosse necessário pelo caminho, fui visitar as cidades da Europa, que tinha jogado, mas não conhecia, a não ser através do vidro de um ônibus, nem ao meu advogado avisei.   Desliguei meu celular. Fui embora, era como fugir de tudo.

Fiquei um ano viajando, pensava que interessante, deixas de ser famoso, deixas de existir.  Continuei sim escrevendo minha história toda, entrando em detalhes, de tudo que tinha sentido.

Cheguei por Amsterdam, aluguei uma Motorhome, fui viajando pelos lugares, a parte escrevia comparando o que tinha visto através de um cristal do ônibus, com o que via agora, andando pelas cidades.

Quando voltei, fui direto para a cabana, embaixo da porta tinha uma quantidade imensa de bilhetes do C. Jackson.

Mas não me atrevi a chamar.  Continuava achando o mesmo, se ele morresse eu morria junto. Tinha sido um eunuco toda a viagem, as vezes sentia dor no corpo, por o imaginar ao meu lado.

Mas não era fácil, me negava outra vez a enfrentar outra desgraça, sentia que meu equilíbrio era mínimo.

Dei o livro para a psicóloga ler, dois dias depois me devolveu.  Me disse que eu realmente tinha colocado a carne na assador, mais do que tinha feito com ela.

Mas não podes te esconder para sempre, isso do que tanto foges, faz parte da vida, nascer, crescer, morrer. 

Mandei para um editor, que a muito tempo tinha me perguntado se não queria escrever sobre basquete.

Me chamou, disse que editaria sem pensar duas vezes.  Quando o livro foi lançado, estava dando uma tarde de autógrafos, senti uma sombra na minha frente, senti seu cheiro, fiquei excitado, não podia me levantar, tudo que fiz, foi abaixar a cabeça, começar a chorar.

Quando me controlei, me levantei, ele estava ali, o abracei.  Sou um marmanjo que chora muito. Morri de saudades do teu cheiro.

Sai dali de mãos dadas com ele.

Sentamos numa praça, me disse, que depois tinha entendido o que eu tinha falado no nosso último dia juntos.   Que ao afastar, descobriu que me amava, embora ele fosse muitos anos mais velhos do que eu.

Aonde vives agora?

Disse que depois que o eunuco viajasse por todos os lugares que tinha ido antes, mas que não conhecia a cidade, voltei para a cabana, é o único lugar que fui feliz.  Nunca mudo o travesseiro que usaste para poder sentir seu cheiro.

No final de semana, apareceu, com uma maleta, pedi demissão da polícia, quero viver contigo.

Nisso estamos até hoje, vamos a cidade, para alguma coisa de médico, mas vivemos ali como se não houvesse outro lugar no mundo.  Fizemos amigos que vivem ali o ano inteiro, no verão levo uma livraria, tinha que me livrar de tudo que tinha, uma parte são livros de segunda mão, aviso que estão cheios de anotações do que eu sentia ou pensava.

Escrevi um outro livro, sobre todos os anos que comparti com o Sammy, com se com isso me livrasse da culpa de o ter arrastado atrás de mim.   Pedi uma entrevista para o rapaz que me contou tudo.     Ele tinha estado com o Sammy no último dia.   Podes imaginar que me soltou na cara, estive todos esses anos ao lado dele, ele nunca viu que eu o amava com toda minha alma, que queria ser teu.

Fiquei alucinado, pois o Sammy tinha fama de mulherengo.  Mas agora sei que me amava.

As vezes ainda desperto chorando porque sonhei com ele.  C. Jackson tem ciúmes de um fantasma, pois sabe que tem coisas que eu contaria ao Sammy, mas a ele não.

Um dia nos encontraremos no outro mundo, eu tornarei a dizer a ele, que não sei o que faria se tivesse descoberto isso antes.   Seria seu amante, chego à conclusão que nada disso mudaria o que aconteceu.

Nunca mais toquei numa bola de basquete, tampouco via os jogos.  C.Jackson que gostava, ia ver num bar, pois em casa não tinha televisão.

Se ele esta ficando velho, não aparece, mas eu sim, depois de todos esses anos correndo de um lado para o outro numa pista, estou pagando agora a mudança radical que me impus, sinto dores nas articulações, fui a um médico, me disse que tenho artrose precoce.

Me deu remédio para as dores, mas me nego a tomar, tenho medo, mas escondo através de andar na praia, me obrigo mesmo com dor, como quando fazia, meu pai me dava uma surra, com todas as dores, jogava a bola no aro, uma e outra vez.  Agora ando tudo o que posso.

C. Jackson desconfia, mas sorrio, o meu melhor sorriso, como quando o Sammy pergunta se estava sentido alguma coisa.   Lhe dizia que jamais daria o braço a torcer, que não ia me render.

Estou cometendo os mesmo erros de não colocar para fora o que sempre senti, não sei lidar com a dor.  Mas pelo menos agora sou consciente.

Vai chegar o momento, que terei que andar numa cadeira de rodas, mas tenho esperança de que como o C. Jackson, já tem 80 anos, morra antes de mim.

Ele terá que aceitar meus erros outra vez. Sei que sabe do que acontece, pois as vezes ao me levantar, meu corpo inteiro sente uma dor insuportável, respiro fundo, o obrigo a me obedecer.

Vou levando a vida com ele, com grandes momentos felizes.

O livro sobre o Sammy fez sucesso, mas destinei todos os lucros a escola aonde nos conhecemos.  Descobri a anos, que ela vive das ajudas da igreja batista, então me toca ajudar.

Graças a Deus já não choro muito, esta noite, sonhei com Sammy, com Dawson, me avisando que chega meu momento.   Me esperem já vou.

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

lunes, 5 de diciembre de 2022

WHENEVER

 

                                     

 

Meu nome é John Lion Steiner, descendo de um lado de empresários do dinheiro, de outro lado de joalheiros judeus famosos.   Sou filho do segundo matrimônio de meu pai.  Minha mãe, era daquelas judias que tudo pelo glamour, não era bonita, mas sabia se vestir, se comportar nos melhores salões de NYC, tinha sido apaixonada por um rapaz que não era judeu, na universidade, tinha sido daquelas que iam para arrumar um bom casamento, mas resultou que o homem que queria era pobre.

Terminou a universidade, foi trabalhar numa das joalherias da família, um dia meu pai entrou para comprar um anel para uma amante.  Ela o atendeu, quando o viu escolhendo, uma coisa de mal gosto, lhe perguntou na cara, é para sua amante?

Ele ficou sem graça, ela o convenceu de comprar um anel, que impressionava, mas que não valia muito.  Se o senhor pretende um dia se casar com ela, lhe dê um diamante, mas se não compre esse, lhe custara menos, mas vai impressiona-la.

Impressionado ficou ele, com a desenvoltura dela.  Não comprou o anel, mas a convidou para jantar.   Ela lhe soltou na cara, estou solteira, mas não quero um amante, quero uma família.

Menos de um ano depois se casaram.   Meu avô que era conhecido por ser ranzinza, não gostou do meu pai, porque nunca ia a sinagoga, a fez casar-se com separações de bens.

Ela realizava seu sonho, um grande apartamento no Central Park, festas em que pudesse brilhar, amigas finas, mas como dizia o meu avô, falsas, isso ela veria mais tarde.

Se casaram num casamentos destes Judeus, por todo o alto, afinal ela era a filha preferida dele.

Quando nasci, segundo me contava ele, Abraham Steiner, me tornei seu neto preferido no mesmo instantes.   Diziam que quando pegavam um dos netos no colo, desatavam um berreiro, eu fui ao contrário, ficou imaginando que foi assim, vi aquele homem com os cabelos brancos imensos, uma barba branca, dizem que comecei a alisar a mesma, que passava as mãos pela cara dele.    Foi ele que escolheu meu nome, era o de seu irmão pequeno que morreu nos campos de concentração, com seus pais.

Ele levantou sua fortuna, de joalheiro, com um casamento desses combinados, mas que deu certo, estava sempre lamentando a morte de minha avó, segundo ele a única pessoa que o tinha entendido.

Meu irmão mais velho Remus, era filho de meu pai, com uma escocesa que tinha um mal humor incrível, passou isso para o filho.  Nunca chegou perto de mim, nos finais de semana que vinha passar com o pai.  Quando saiu da universidade foi trabalhar na empresa dele, de investimentos.

Eu ao contrário era a alegria da horta, segundo a governanta da casa, era um perigo, não gostava da maioria dos presentes que me davam quando era pequeno, os destruía e construía de outra maneira.   Um das minha primeiras loucuras, foi pegar um jogo da Lego, em que tudo é reto, me sentar na cozinha, acender o fogo, com uma faca, uma luva destas de cozinha, começar a colocar forma no que tinha construído.  Segundo a cozinheira que ria muito, eu quase coloquei fogo na cozinha.   Meu avô se deliciou, queria ver o que eu tinha feito.

Riu dizendo é o Lion reencarnado não é possível, seu irmão pequeno tinha feito belas artes em Paris, era escultor.

Depois, para não colocar fogo me deram um desses jogos de edifícios, fiz a mesma coisa, colei todas as peças, com a faca de pão, comecei a colocar da maneira que queria.  Ele tinha até morrer essa escultura, tinha feito um urso com ela.

Minha mãe ficava uma fúria, porque eu fazia isso, quando saíram os jogos desses modernos, eu destruí a consola, para ver o que tinha dentro, comecei a colar as peças para fazer um robot.

Duas vezes por semana, ficava a parte da tarde com meu avô, minha mãe ia jogar bridge com as amigas ricas.  Ele me levava para o talher central das joalherias, ficava esperando o que eu ia fazer, adorava ver os homens fazerem moldes das peças que ia executar, havia uma caixa grande que existiam moldes antigos, essa era minha diversão, falava com eles, dizendo um dia te usarei para construir algo.  Selecionava as que mais gostava.  Ele ficava as gargalhadas, dizendo o menino tem bom gosto, era moldes de peças que tinha feito sucesso, a maioria feita por ele.    Os empregados, diziam que era o único dia que meu avô ria.   Para mim, era um absurdo pensarem isso, se comigo estava sempre rindo, falando.

Foi a pessoa em que confiei todos meus sonhos.  Mesmo depois de garoto, já adolescente, meus dois dias com ele, eram imperdíveis, queriam que eu fosse a casa das pessoas ricas, eu odiava.

Soltava logo, hoje não posso é o dia do meu avô.  Ele já não trabalhava, mas íamos a sinagoga, ele me ensinava as coisas, depois íamos pelos museus.  Galerias de arte, me comprou a primeira escultura africana, pois me apaixonei por ela, a tenho até hoje.

Meu pai queria que eu fosse a universidade para fazer administração de empresas como meu irmão, mas me neguei, o velho foi o único que ficou do meu lado.

Queria ir estudar arte, fazia aulas de pinturas, escultura, a primeira que realizei, ele amou, fui até ao talher da joalheria, peguei uma serie de moldes, com ele compus uma imagem, que fui decorando com pedras falsa.   Ele mandou expor na vitrina da joalheria mais famosa.

Foi vendida em dois dias, o vendedor explicou que as pedras eram falsa, mas o comprador amou, quando perguntou o preço o vendedor ligou para meu avô.  Ele soltou um preço absurdo, o homem comprou.   Com esse dinheiro, passei a ter minha conta no banco.

Depois quando íamos a sinagoga, saia para tomar um café com os amigos, contava isso, como fosse a coisa mais importante do mundo.

Quando resolveu em vida, dividir sua herança entre os filhos, o fez particularmente interessante, sentou-se com todos, falou com eles.   Só um queria sua parte em dinheiro ou diamantes, iria viver em Tel Aviv.   Os outros cada um queria a joalheria que já tomava conta, para minha mãe, tocou diamantes, que ao final a salvaram para o resto da vida.

Nunca disse a ninguém, mas me entregou um envelope, fomos ao Banco, ele pediu uma caixa forte, colocou o envelope, bem como umas pequenas bolsas, não me deixou abrir.

Foi passar uma temporada com sua filha pequena, que tinha se casado com o dono de uma galeria de arte, em Paris.  

Eu as vezes chegava em casa, a escutava falando com minha mãe, que o velho era insuportável, que passava o dia inteiro reclamando de seu marido.

Um dia chamou soltou sem mais nem menos, sabe o que fez agora, disse que se aborrece, comprou um local de um antiquário em Saint Queen, imagina nessa idade, voltar a trabalhar, o mais interessante, que os mandou todos a merda, porque foram lá falar com ele, comprou um apartamento pequeno, ali perto, que não estava para viver na Avenue Montaigne, preferia simplicidade no fim de sua vida.

Os filhos voltaram com o rabo entre as pernas.  Eu saberia tempos depois que tinha comprado o apartamento em meu nome.

Estava preparando minha primeira exposição, que participava com outros alunos da escola, quando estourou a bomba.

Meu irmão que tinha assumido o escritório de meu pai, foi preso pelo FBI, estava lavando dinheiro de mafiosos.  Foi pior que colocar merda no ventilador.

Meu pai tinha se afastado dos negócios para lhe deixar se fazer homem como ele dizia, com minha mãe tinham aproveitado esse tempo, para fazerem cruzeiros com os amigos ricos.

Quando a bomba estourou ele estavam num dos melhores resorts de luxo do Mexico.

O escritório foi fechado, os clientes de meu pai desapareceram do mapa, eles voltaram correndo, mas já era tarde, tinha perdido a licença para operar na Bolsa de Valores.

Acabou tendo um enfarte, ficou em cadeira de rodas, eu já não vivia em casa, mas sim num pequeno apartamento no Harlen, num último andar de um edifício antigo, que era ao mesmo tempo meu studio.

Minha mãe, primeiro ficou como uma barata tonta, até que falou com meu avô, que lhe deu uma bronca incrível, tomou o primeiro avião, colocou ordem no pedaço.

Afinal ela tinha fortuna própria, mas a aconselhou a se mudar para um apartamento menor, aonde poderia manejar melhor as coisas.   Meu pai nunca se recuperou, morreu no final do mesmo ano.   Meu irmão estava preso, sua mulher, seu filho, foram morar com os pais dela, acabou se divorciando dele.

Meu avô aproveitou viu os meus trabalhos na exposição, me convidou para ir a sinagoga rezar pelo meu pai.    Pensei que ia falar mal dele, do filho, afinal ele tinha dinheiro investido com eles, que perdeu.   Mas não disse um pio.

Nos sentamos no café que íamos sempre, desta vez os amigos não se aproximaram.

Vê, quando alguma coisa acontece, principalmente se tem dinheiro pelo meio, passa isso, os que parecem teus amigos, somem como ratazanas de esgoto.

Mas não é isso que quero falar contigo, analisou as peças que tinha feito. Acho que devias vir comigo para Paris, entrar para a escola de Beaux Arts, tua tia conhece muita gente de lá, tem um cliente, escultor, vi os trabalhos dele, pode te orientar melhor.  Creio que estas meio perdido nessa confusão toda.  Não se preocupe com tua mãe, pois ela tem uma pequena fortuna pessoal.

Eu me preocupava pela minha mãe, pois nesse momento estava sozinha.  As fabulosas amigas do bridge, das viagens de primeira classe, tinha desaparecido todas, como meu avô dizia, como ratazanas.

Ela, para se distrair, voltou a trabalhar com seu irmão mais velho, justo na joalheria que tinha conhecido meu pai.   Era uma mulher que odiava ficar dentro de casa, contratou duas enfermeiras, elas cuidavam de meu pai.  Foi sincera comigo, não suporto ver o homem que amei, desaparecendo em vida, prefiro isso, pois sou capaz de mata-lo.

Quando meu avô falou com ela, concordou imediatamente.  

Meu pai nunca tinha sido uma pessoa próxima de mim, ao contrário, se fosse por ele, minha mãe teria abortado, dizia que estava velho demais para ter um filho pequeno.  Ele adorava seu filho mais velho.  Que acabou sendo uma decepção para ele.

Mas eu ia visita-lo todos os dias depois da escola de artes.  Ficava olhando na minha cara, enquanto eu mostrava os desenhos dos próximos projetos.   Acredito que eu devia ser uma decepção, pois era um homem que não gostava de arte.

Concordei, passei o Natal, com eles, fechei o meu studio, guardei as poucas coisas que tinha num dos quartos do apartamento de minha mãe, fui para Paris.

Quando, cheguei meu avô estava me esperando no aeroporto.  No alto dos seus quase noventa e cinco anos, se movia como um garoto.   Primeiro fez uma coisa comigo, fizemos todos os passeios turísticos, para que aprendesse amar Paris, depois fizemos passeios pelos lugares que os turistas não iam.   Minha tia ofereceu uma reunião em sua casa, cheia de artistas, discutindo teorias, técnicas, ele disse ao meu ouvido, essa é a gloria dos cinco minutos, fazem sucesso, acham que sabem tudo, te proíbo de falar essas besteiras.  Eu olhava para ele, pronto para obedecer, depois comentei em casa, quanta besteira, se arte para mim, são dez por cento de criação, depois 90 de suor para construir, colocar para fora.

Minha tia me apresentou o escultor que meu avô falava.  Era totalmente fora dos homens que eu tinha visto na sua casa.

Era um homem tosco, se o fosse definir.  Tinha dois metros de altura, ao mesmo tempo eu de brincadeira com ele dizia que seu espaço era imenso.  Ela quando me apresentou, primeiro reclamou com ele porque não tinha ido a sua reunião.

Olhou sério para ela, soltou, eu não tenho tempo para esses veadinhos de presépio. Tenho horror a isso, prefiro ficar tomando vinho num bistrô, lendo um livro, ou mesmo rabiscando ideias.

Se chamava Matheus Harlent, era judeu como nós.   Fui a suas aulas na École de Beaux Arts, um dia me soltou na cara, estas perdendo tempo aqui, esses que nada fazem, que discutem teorias, ou o que esculpir, te fazem perder tempo.

Me levou para seu studio, que era justamente para os lados aonde vivia meu avô.

Era uma antiga loja, bem como no andar de cima, vivia ele.

Embaixo tinha tirado todas as paredes, só deixando as colunas, tinha um forno quase industrial, mesas de trabalho, me olhou nos olhos, dizendo, aqui aprenderas trabalhando comigo. Me disse qual mesa poderia usar.

Perguntou se eu tinha feito escultura a partir do barro.  Aonde estudei achavam isso um atraso, queria que as esculturas fossem modernas, como a própria América.

Me ensinou como modelar, posso dizer que voltei a infância, um dia meu avô contou para ele o que eu fazia em criança.   No dia seguinte, apareceu com uma série de caixas de lego que tinha comprado num mercado, a maioria eram de segunda mão.    Feche os olhos, volte a sua infância, tente imaginar o que fazias.   Fazia tempo que não me divertia tanto, só que agora tinha um maçarico para trabalhar.  Quando acabei, ficou olhando de todos os ângulos, já tinhas madeira para ser escultor em criança.   Me levou comigo, a uma loja de tudo de segunda mão, compramos tudo que o homem tinha de lego, foi assim numa quantas lojas.

Agora, quero que faças uma em tamanho grande. 

Olhei bem para a cara dele, para seu tamanho todo, não podia confessar que estava apaixonado por ele, me levava pelo menos 10 ou 15 anos, não soube durante muito tempo sua idade.

Fechei com panos que encontrei, o local aonde trabalhava, não queria que ele visse.

Quando acabei, mostrei, era seu busto, ocupava dois metros de largo, como dois de altura, era uma escultura imensa.  

Ficou rindo, me deu um soco sem força no peito, me chamou de puxa-saco. Tirou uma foto no celular mandou para minha tia.

Olhou nos meus olhos, perguntou se eu tinha feito esboços?

Não, eu o tenho aqui dentro da minha cabeça, me aproximei dele o beijei.  Ele ficou quieto a princípio.

Não esta bem esse comportamento com teu professor, sou mais velho que você.

Não posso fazer nada, estou apaixonado por ti.

Me segurou pelos ombros, me disse que eu devia me apaixonar por alguém da minha idade.

Nem pensar, são uns chatos, falam demais, tu como eu, gosta de trabalhar em silencio, quando me corriges, o fazes com sentido.

Foi ele então quem me beijou, me levou com ele para seu apartamento em cima, foi como eu imaginei, era como nadar naquele corpo imenso, não queria me afastar dele.

Fomos despertados pela minha tia, que disse que ia buscar meu avô, para ver minha escultura.

Tomamos um banho os dois, juntos, eu reclamei, que dava muito trabalho limpa-lo todo, pois era grande demais.

Quando chegaram só meu avô notou que estávamos os dois com os cabelos molhados, os dois o levávamos compridos.

Minha tia batia palmas, vou mandar um caminhão buscar, para colocar na galeria.

Meu avô parou os pés dela.   Se vais fazer, faça direito, monte uma exposição para daqui algum tempo, o lance no mercado, colocar só essa lá, vai vender, mas também não fará nenhum benefício.

Matheus rindo disse que ia contratar meu avô como agente, pois ele sim sabia defender seus artistas.

Matheus me ensinou a usar um outro tipo de material, vamos usar o barro como base, fazer moldes, depois podes usar esses moldes para esse material mais leve.

Nesse dia meu avô, me abraçou muito quando fomos todos jantar por ali, num bistrô que ia sempre como Matheus, as pessoas que andavam por ali, riam sempre dos dois, pois estávamos sempre discutindo materiais para trabalhar, sem prestar atenção nos outros.

Nessa noite, minha tia, fez uma exceção, depois concordou que o lugar era perfeito para estar.

Meu avô quando se levantou, pediu que eu o levasse até em casa, era logo ali ao lado.

Me disse, não solte esse homem que conseguiste, sei que o amas, pela maneira como o olhas, meu irmão Lion era assim, não o deixe escapar.

Voltei rindo, depois Matheus queria saber por que eu estava rindo, contei o que tinha me falado meu avô, basicamente passamos a viver de uma maneira interessante, íamos todos os dias fazer um lanche com ele, o colocava na cama, ia dormir no nosso apartamento.

Comecei a desenvolver as ideias, ainda fiz umas quantas esculturas com o resto de lego que tinha ali.   Um dia andando por ali, numa loja de ferragens, tinha uma caixa do lado de fora, cheia de parafusos, resto de peças de metal, perguntei ao dono quanto custava tudo aquilo, ele me conhecia, soltou, leve tudo, depois me faça uma pequena escultura para colocar aqui.

Matheus ria da minha ideia, fiz figuras, bustos com barro, mas coloquei todas as peças que tinha na caixa, nelas, depois coloquei no forno, algumas peças se derreteram pela metade, outras inteiras, resolvi policromar as mesmas, deixando esse material de metal aparecendo.

Ficaram completamente diferente.

Tinha já peças para a exposição, mas queria fazer uma grande da mesma maneira, convidei o homem da loja de ferragens, para escolher uma pequena para ele.  Ficou babando, nos arrastou com ele, até a loja, nos fundo, tinham muitas peças de metal enferrujado.   Arrumei um jovem para me ajudar a levar tudo para o studio, separamos tudo já feito, comecei a trabalhar uma grande, era uma escultura do Matheus, nu, como eu o via, ficou horrorizado, as pessoas vão me ver nu, não se preocupe, mudo sua cara.

Justamente nesse dia, soube que meu pai tinha morrido, mudei uma parte da escultura, o fiz de memória, me lembrando como me olhava, quando lhe mostrava meus desenhos, como se não entendesse nada.   Seu enterro ia demorar uma semana, até conseguirem um autorização para meu irmão mais velho sair da prisão para ir.

Eu fiz um busto pequeno dele, para colocar no tumulo. Matheus foi comigo, meu avô queria ir, mas o médico o desaconselhou.

Fomos os dois, com uma caixa pesada no porão do avião, para as pessoas em volta devia se interessante, aquele rapaz, alto, magro, cheio de músculos, dormindo no ombro, daquele homem imenso, mal sabiam que era meu remanso de paz.

Minha mãe tinha ido ao aeroporto, nos buscar.

Conseguiu a muito custo, que meu irmão fosse liberado.   A cerimônia foi simples na sinagoga, só alguns amigos antigos de meu pai, a família de minha mãe, seu filho, bem como o filho deste.

Minha mãe, tinha ido buscar o garoto.

Eu rezei o Kadish, pois meu irmão não sabia, estava emocionado, mas sentia não ter conhecido meu pai, como conhecia o meu avô.  Ele nunca tinha entendido, como podia ter saído um artista na família, se ele odiava a arte.   Os quadros que tinha no apartamento, tinham sido comprados pela minha mãe.

Meu irmão foi outro choque, estava um velho, ombros encurvados, o filho ficou segurando a mão da minha mãe, tinha medo do pai.  Depois minha mãe me contou que sua mãe falava muito mal para ele do pai.

Pela primeira vez o abracei, pois me deu pena.  Disse que tinha inveja, poder viver em Paris, ainda lhe faltavam dois anos de prisão.   Lhe disse que fosse se preparando para quando saísse.

Mas na verdade nunca saiu de lá, o mandaram matar, por ter falado o nome de todos para quem tinha trabalhado.

O resto do tempo, passamos com minha mãe, visitando os museus que Matheus não conhecia.

Em algumas galerias, peguei o cartão, para depois mandar o catálogo da exposição.

Levamos minha mãe, conosco, para passar um tempo com sua irmã.  A desculpa era justamente essa que viesse para a exposição.   Minha tia fez uma festa em sua casa, para receber sua irmã.

Ela adorou claro ser o centro de atenção outra vez.  Outra coisa que adorou foi a loja de seu pai, entendia disso de antiguidades.

A exposição foi um sucesso, ela amou a escultura de meu pai, não podia dizer que só certos detalhes eram dele, o resto era o Matheus.

Ele estava orgulhoso de mim.  Em dois dias se vendeu tudo, o busto dele feito de lego, foi para um museu.   Ele dizia que não tinha obra nenhuma num museu, vinha esse pirralho, na primeira já tinha uma.  Na verdade, não era certo, tinha duas obras suas num museu em Israel.

Ampliamos com a loja que dava fundos com a nossa, dizia que eu deveria ter um espaço só meu.

Meu avô me deu um diamante, embora eu tivesse dinheiro.  Queria que fosse meu.

Os jornais quiseram me entrevistar, pensei bem, olhei para o Matheus, isso eu não gostava de fazer.   Minha tia, me encheu o saco, só concordei em fazer uma coletiva, bem como uma num canal de televisão sobre arte.

A coletiva, foi interessante, pois eu avisei ao princípio, que perguntas idiotas não responderia.

Falei tudo sobre meu trabalho, agradecendo ao Matheus em especial, me ter incentivado a ser eu mesmo no meu trabalho.  Quando falaram da escultura da lego, que era seu busto, cortei o mal pela raiz, contei primeiro o que eu fazia de criança, o desafio que ele me fez.

Um perguntou por que eu adulterava as peças de lego? 

Respondi da maneira muito simples, odiava coisas retas, contei que fazia o mesmo com os brinquedos desses de montar casas, que eram de madeira, colava tudo, depois dava forma com uma faca de pão.  Todos riram.  Mostrei uma foto que tinha da escultura na loja do meu avô.

Para nossa surpresa, minha mãe acabou ficando, morava com sua irmã, no luxo, depois comprou um carro velho, ia todo os dias para a loja do meu avô, com a desculpa que ele vendia barato tudo.  Acabou ficando morando lá, nada a prendia realmente em NYC.

Um tempo antes de morrer, meu avô me chamou para uma conversa séria, estava ali seu advogado.  Levei um susto, me acalmou, queria saber se eu estava disposto a fazer seu último desejo.

Me pediu, que levasse suas cinzas para Israel, que a levasse ao monte Sinai, que as deixasse lá, mas fora da urna.

Meses depois morreu, deixou para minha mãe a loja, para mim seu apartamento.  Me aconselhou que olhasse o que tinha no banco em NYC, nem me lembrava mais do mesmo.

Fui com Matheus, minha mãe, minha tia fazer sua última vontade.

Foi uma viagem interessante.  Matheus nunca tinha falado de sua vida anterior em Israel, eu tampouco perguntava, se ele queria falar bem, senão, me dava igual.

Quando as duas voltaram para Paris, fomos os dois passar um final de semana no mar Morto, ele contou, sua família era ultra ortodoxa, tinham infernizado sua vida desde infância, um dos motivos pelos quais ele não gostava de ir a sinagoga.  Ficou admirado eu saber rezar o Kadish no enterro do meu pai.

Me disse que o tinham obrigado a se casar, mas ele escapou antes, me contou que quando chegou a Paris, tinha se prostituido uns meses, de um ponto de vista, como vingança do que tinham feito com ele, na sua infância e juventude.  Até conseguir fazer o que queria, tinha tido muitos trabalhos.

Fomos olhar de longe sua família, ninguém o reconheceu.  Não vale a pena esfregar na cara deles, que hoje sou alguém, quando eles continuam iguais.  Seria uma vingança dolorosa.

Passei a ama-lo mais, mas percebi que isso o tinha feito mal por dentro, pois passou a fazer um trabalho escuro, começou a ir a um psicólogo, antes me explicou por que o fazia, não queria me encher com seus problemas.  Tudo o que ele tinha feito para escapar, voltava como uma bofetada em sua cara.    Me disse vê, eu te disse, uma vingança seria uma coisa amarga.

O via nervoso, tinha dificuldade para trabalhar, fomos ao médico, estava supre estressado.

Pedi desculpas, por ele ter ido comigo a Israel.   Ele disse que eu não tinha culpa nenhuma, eu era a alegria de sua vida, que nunca tinha pensado em amar alguém como me amava.

Um dia saiu, teve um ataque de pânico na rua, se esbarrou com alguns ultra ortodoxos, isso o deixou desencaixado.   Eu na verdade, não sabia o que tinha passado na sua infância, nem juventude.    Do ataque de pânico, generou, uma catarse profunda nele.  Acordava de madrugada aos gritos, me contou que com a idade de cinco anos, seu pai o trancava com pão e água salgada, para purgar os seus pecados.  Lhe pegava pelas coisas que tinha acontecido com a família na Rússia, quando ele próprio era o culpado.   Era um homem muito retorcido.  Três dias da semana não se comia em casa, ele ia pelas lixeiras dos restaurantes, procurando o que comer, por isso sempre tinha fome.

Um dia não desceu ao studio, disse que queria ficar mais um tempo na cama, me distrai fazendo alguma coisa, quando subi, estava desmaiado, tinha tomado toda sua medicação de uma vez só, chamei a ambulância, mas era tarde.

Demorei a me controlar, perdia assim as duas pessoas que mais tinha amado na vida, meu avô, Matheus.  O advogado era o mesmo do meu avô, ele pedia que suas cinzas fosse enterradas dentro do próprio studio, pois era o único lugar que era feliz.  Me deixava tudo, eres melhor do que eu fui jamais, não deixe de seguir trabalhando.

Foi uma porrada em plena cara, ao qual eu não estava preparado.   Minha tia, organizou uma exposição, vendeu suas últimas obras negras, duas foram para museus, um na Bélgica outro na Alemanha.  

Eu graças a deus, recebi um convite para expor em NYC, fui com a desculpa de dar uma olhada na galeria.   Precisava me afastar dali um tempo.

As duas foram comigo, minha mãe porque se preocupava por mim, minha tia, porque era minha agente, assim também aproveitavam para ver a família.

Ficamos no apartamento de minha mãe que estava fechado todos esses anos, ela disse que ia colocar o mesmo a venda, pois seguiria com a loja do meu avô, não tenho nada mais nessa cidade.   Resultou que a galeria era boa.

Fui olhar os documentos do banco, eram dois apartamentos na cidade, que estavam em meu nome, os impostos tudo isso, iam para essa conta, quando vi a quantidade de diamantes fiquei de boca aberta.

Um dos apartamento era no Brooklyn, não era grande, perfeito para mim, estava vazio, comprei só o necessário, com dois diamantes, aluguei um local que era uma antiga oficina.

Me joguei no trabalho.  Teria que preparar pelo menos 15 peças entre grandes, pequenas.

Inicialmente não sabia o que fazer.  Um dia me peguei pensando no que me tinha falado de sua infância, comecei a desenhar, imaginando como era estar fechado num lugar escuro, com agua salgada, um pedaço de pão, foi a primeira escultura, um dia vi um garoto pedindo dinheiro na rua, fui falar com ele, me disse que pedia dinheiro porque seus pais estavam na droga, tinha que alimentar seus irmãos.  Fui com ele a sua casa, quase bato no seu pai.

Levei ele, bem como o dois irmãos, para o meu apartamento, falei com o juizado de maiores,

Os levei ao médico, cuidei deles, descobri que tinham parentes no Texas, pedi ao advogado que descobrisse tudo.  Eles receberam os garotos.

A cara deles ficou na minha cabeça, continuei construindo a história do Matheus, misturada com a deles.  Quando ficaram prontas as peças, usei meu sistema, de misturar resto de metal, que fui buscar num ferro velho, o dono da galeria ficou louco com o que viu.

Minha tia, com minha mãe vieram para ver, o catalogo ficou fantástico, levaria vários para colocar na galeria, bem como na loja.

Se vendeu tudo na inauguração, isso que o dono da mesma acreditava que não funcionária.

Duas para museus, a primeira foi para San Francisco, a outra para um museu novo em Ottawa.

Logo me saíram exposição em San Francisco e Los Angeles.   Respirei fundo, primeiro fiz uma coisa que muita gente consideraria louca.  Primeiro fui ver se os garotos estavam bem, o mais velho, era o tinha mais problemas, os pequenos não porque não eram conscientes.  Tinham se adaptado melhor.   Perguntei se ele queria viver comigo, me disse que não podia deixar os pequenos, então falei com seus tios, paguei para que ele fosse a um psicólogo.

Dalí fui para San Francisco.  Nunca tinha vivido a vida gay, achei divertido, comecei a esboçar desenhos, fui a um show de Drag Queen, desenhei a várias, algumas pedi que posassem para mim.  Fui andar pelas ruas, a mistura de gentes me interessava, comprei uma câmera fotográfica, sai fotografando todas as pessoas que via pela frente.

Esbocei um desenho, que num primeiro momento, o dono da galeria, imaginou pelo tamanho, teria que ocupar a maior sala da galeria.  Ria muito, isso vai ser uma loucura.

Voltei para NYC, comecei a trabalhar, saia para comer, as vezes me sentava numa praça perto do studio, para refrescar minha cabeça.

Quando via, estava desenhando uma figura, uma cara, uma postura, eram coisas universais que não importava o lugar.

Compus o que queria, cenas que imaginava, a pessoa tendo em sua casa, etc.

Muitas eram uma mistura de barro, metal, policromadas, ou simplesmente em tom de sépia.

Quando estava na última, tirei foto de tudo mandei para minha tia, esperei seu comentário, só me disse uma coisa, se não tivesse comprometido com essa galeria, ia pagar o transporte de todas para levar para lá.  Sabia por isso, que tinha gostado.  Falei com minha mãe também, me soltou teu avô, quando viu o que tinhas feito com o lego, foi o único que se matou de rir, eu nunca tinha visto meu pai rir daquela maneira.  Me soltou que finalmente alguém na família saia como o irmão que ele amava.

Quando o da galeria veio buscar o material, perguntou se eu queria um hotel, em San Francisco, lhe pedi o mais simples possível, pois primeiro eu iria a Los Angeles, enquanto ele levava, montava a exposição, teriam que fazer fotos, montar o catalogo, coisas assim.

Quando estiveres livres, tens que vir a San Francisco para entrevistas.  Sabia que eu odiava as mesmas, mas era natural, queria divulgar tudo.

Fui para Los Angeles, aluguei um apartamento, pequeno, para ir pela cidade, contratei um jovem para me mostrar toda a cidade, foi interessante que ele fez aquela coisa de turista, lhe disse que nem pensar, queria ir pelo lado negro da cidade.  Apareceu com seu pai, que era inspetor de polícia.   Estava de férias, foi me mostrando tudo, me apresentava pessoas, para quando eu viesse por ali, para desenhar.

Quando me levou aonde rolava mais drogas, me aconselhou tomar cuidado.

Nessa parte, o homem que me acompanhava, amigo dele, me aconselhou fazer fotos.  Um dia estava fotografando um beco, aonde estava vários drogados, apareceu uma gang.

Era seu território, me levaram para falar com seu chefe.  Este tinha uma cara espantosa, lhe perguntei se o podia desenhar, como estava, levei a cadeira para uma área mais iluminada.

Me sentei no chão comecei a desenha-lo.   Me olhava com curiosidade.

Lhe mostrei o desenho, no mesmo ele não estava sentado, sim andando como eu imaginava.

Riu muito, fez o gesto de chocar os cinco como se dizia, eu não entendi.  Pedi desculpas.

Nessa noite apareceu aonde eu morava, vinha sozinho, sem nenhum dos detalhes loucos que ele usava, como por exemplo, cordões de ouro, mil pulseiras, roupas estapafúrdias.

Estava vestido normal, com uma calças jeans, camiseta, tinha um corpo fantástico.

Tirou toda a roupa me pediu para desenhar sem nada.   Acabamos na cama, rindo, graças a deus minhas roupas largas não deixavam meus homens verem que estava de pau duro, por tua culpa.  Nos despedimos, ele foi embora levando seu desenho.

Eu ria muito, nunca tinha me imaginado fazendo essas coisas.

Depois fui ficar um tempo em Venice Beach, desenhava o pessoal de lá, os surfistas, enfim um mundo à parte.

San Francisco, foi uma experiencia divertida, muita gente na inauguração, via as escultura marcadas mais de uma vez, disse ao dono da galeria que eu não fazia cópias.

Ele riu disse que ali era assim, todos diziam que queriam a peça, mas no marco com uma, se sinalizarem o valor. Caso contrário no final do dia, tiro tudo.  Mas se venderam 80 por cento, queriam comprar algumas peças da grande, ele disse que não, compunham uma ideia, quem comprou foi o museu de San Francisco, iam colocar no hall de entrada.

Ele ficou de ir inauguração, tinha se divertido pela primeira vez na entrevista, porque muitos sabiam de sua vida, coisas que ele nem tinha imaginado.  Quando começaram a perguntar coisas de sua vida, se levantou, eu avisei, se querem conversar sobre obras bem, caso contrário nada.

Uns quantos foram embora, o resto virou além de uma entrevista, uma larga conversa, de uma hora prevista durou 3, tinha um então, que conhecia todas as fases, tinha ido a Paris, NYC, falava com propriedade.

Houve uma derrapagem, falou na imensa feita de lego sobre Matheus.  Não fez uma pergunta, eu quando a vi em Tel Aviv, fiquei imaginando, com quanto amor a tinha feito, confesso, fiquei com inveja.   A mim as pessoas veem como se eu sou fútil, pois escrevo sobre arte, quando falam o que não gostam, logo me chamam de viado fútil.   Vejo as vezes, até entendo a necessidade do dinheiro, esculturas feitas apenas para decorar.  Mas as tuas não retratam as pessoas as formas de vida, quando vi essa imensa, que compões a população de San Francisco me emociono, me pergunto quantas pessoas se dão conta disso que somos uma mistura de raça.

Ele agradeceu, o comentário, pela primeira vez falou da escultura do Matheus. Sem querer contou da outra, ele ficou horrorizado que eu o retratasse num, como o via, tive que mudar, lhe dava medo, só muito depois entendi por quê.

Talvez desde o princípio na minha infância, meu avô me tirou as barreiras, a maioria das pessoas sabem da história da minha primeira escultura com lego, que dizem que quase coloquei fogo na casa, ele ao contrário amou, me incentivou.   Por isso não tenho barreiras.

O mesmo lhe perguntou como seria a de Los Angeles.

Segredo disse.

Nos vemos lá, não quero perder.

Foi embora, começou a trabalhar, trabalhou a do traficante, imaginando como seus homens o via, não como o carinhoso que tinha sido na cama com ele.  Evidentemente mudou sua cara, não queria se envolver em problemas, seja qual fosse.

Fez várias series, gostava mesmo de uma em que havia prostitutas, foi um trabalho complicado, fez duas esculturas de duas jovens prostitutas, quase garotas, se lembrou bailarina de Degas, fez como se fossem as mesmas, comprou roupas de segunda mão no estilo, as vestiu, teve que recosturar alguma coisa.  Quando vieram para fazer as fotos para o catalogo, o dono da galeria ria, eu vi a de San Francisco, fiquei pensando o que farias para Los Angeles, não me decepcionei.

A recepção era diferente, um cliente da galeria, comprou uma de surfista, que era uma sequência. Iria colocar no hall do edifício de sua empresa.

Recebeu alguns convites para sair, inclusive do jornalista, mas alegou estar cansado, quando este perguntou que ia fazer agora.  Ele disse que voltava para NYC, fecharia o studio por um tempo, iria para Paris enfrentar a realidade, de trabalhar outra vez no lugar aonde tinha sido feliz.

Queria ir trabalhando agora de uma maneira mais tranquila, podiam pensar que ele precisava de dinheiro, o que não era verdade.  Havia momentos, que pensava que jamais voltaria a NYC, isso tinha pensado quando vivia com Matheus, tal coisa não aconteceu, voltou.   Seu avô lhe dizia sempre, nunca digas não. 

Tinha lhe contado, que quando ele partiu para a América, queria que seu irmão fosse com ele, sabia da ameaça de Hitler.   Mas estava apaixonado, nunca poderia imaginar que seria seu fim.

Sua tia lhe agendou uma serie de exposições, se sentou com ela, disse que só faria uma por ano, queria tempo para trabalhar mais tranquilo, sem pressa, pesquisar novos materiais.

Quando falou isso, ela lhe mostrou um catalogo, de um escultor japonês, com uma técnica milenar.    Lhe chamou perguntando se podia lhe ensinar.

Foi imaginando encontrar um velho, mas encontrou um homem de sua idade, riram muito disse, este comentou que tinha aprendido de seu avô, fui o único da família a me interessar.  Só que o avô fazia peças para casa, ele tinha partido para um trabalho maior, tinha um problema de espaço.

Me ensinas, se quiseres vir para fazer trabalhos grandes, falou do forno que Matheus tinha deixado para ele.   O outro se entusiasmou.

Quando lhe perguntou se tinha que levar esposas, ou filhos, disse que não, sou gay.

Aprendeu a trabalhar em peças pequenas primeiro, fez uma série de coisas, mais europeia, tipo ânforas como se usavam antigamente para transportas ou guardar cereais.

Foram para Paris, despachou o que tinha feito, deu a parte do estúdio que ocupava Matheus, um dia surgiu uma relação com Tadao Ado, foram vivendo, o trabalho dos dois, apesar da técnica, era completamente diferente, um tinha uma visão oriental, o outro ocidental.

Sua tia quando viu o trabalho dos dois, fez uma proposta, se vocês trocam de enfoque, o Tadao faz a visão dele do Ocidente, tu do Oriente.

Como os estúdios estavam bem separados, um não via o trabalho do outro, ele se documentou sobre os samurais, seus cavalos, seus trajes de batalha, assistiu vário filme sobre isso, muito Kurosawa.

Quando acabaram, um foi olhar o do outro.  Tadao disse que ele tinha saído melhor parado da história. Mas de qualquer maneira sem se falarem tinham tido ideias parecidas.

Taparam a parte com o nome do autor, para a inauguração, todos acreditavam que a parte japonesa era do Tadao, principalmente como ele tinha feito os olhos.

Quando descobriram a ideia, as pessoas aplaudiam os dois.

Apesar de que o relacionamento deles funcionava, Tadao queria voltar para o Japão, não gostava de viver em Paris.

O deixou ir, não ia prendê-lo não ia fazer uma chantagem para que ele ficasse.  Se davam bem, mas claro nem chegava aos pés do Matheus.

Ele conheceu numa exposição de sua tia, uma artista africano, riram muito, a muitos anos atrás ele tinha conhecido o Matheus.

Quando conversaram, disse, nunca pude esquecer o que tivemos, mas eu tinha que voltar para a Africa.   As vezes não entendia sua postura, escutei falar algumas coisas a respeito dele, na época para um cara que veio do interior, era muito, hoje entendo, pensar em ter relacionamento com um homem que tinha se prostituido, não encaixava comigo, mas quando me dei conta que isso não importava, ele já estava contigo.

Aprendeu a técnica dele, fez uma série a pedido de um museu, em cima da obra de Picasso, Les Mademoiselle D’Avignon. Para colocarem no hall do mesmo.

Acabou fazendo uma séria para a exposição de Berlin, misturando todas, as vezes levava mais tempo, mas não se importou, teve que atrasar várias vezes, a exposição, porque a mistura de técnicas, nem sempre saia como queria.

Um dia estava no Bristô que sempre ia com Matheus, quando um homem veio falar com ele, tinha conhecido o mesmo antes de ele vir para Paris.   Ele já se prostituia em Tel Aviv, para conseguir dinheiro.   Me apaixonei por ele, mas claro não entendia que ele queria ir pela vida sem amaras.  Mas vejo que contigo foi diferente.

Olhando o sujeito, disse que viesse ao studio, o levou aonde o Matheus trabalhava, creio que ele sim te amou, abriu uma cortina, estava uma estante que ele usava, mostrou um busto que estava ali.  Era o próprio mais jovem.

Nessa noite saíram para jantar.  Xarif Farur era um sabra, judeu com árabe.  Estava trabalhando na Sorbonne, um dia os dois resolveram experimentar fazer sexo, para que, nunca mais se separaram.   Sua mãe gostava imenso do Xarif, conversavam horrores. 

Ela dizia nos jantares semanais na casa da tia, que finalmente tinha seu pouso.

Agora iria viver com elas, uma das sobrinhas delas, que tinha estudado arte, mas gostava mesmo de antiguidades, iria ajudar a sua mãe na loja.

Anos depois quando esta morreu, apesar de ter deixado para ele a loja, deu para ela, não precisava disso.

Agora com a idade seu trabalho era mais lento, foi uma vez com Xarif a NYC, para fechar tudo lá, vender o que lhe estava, pois já não queria sair de Paris.    Dois anos depois recebeu uma comenda do Governo Francês.

Estava trabalhando numa série dedicada a Franças, misturava seus heróis, Joana D’Arc, as mulheres da revolução, tinha visto um desenho num livro sobre a revolta, com a caída de Marie Antoniette, fez uma coisa divertida.

Um grupo de mulheres, desenhou as roupas, a fez de verdade com roupas de segunda mão, no meio delas ia Marie Antoniette, como se a própria estivesse levando a revolta.

Alguns críticos não gostaram mas de qualquer maneira foi considerada uma obra feminista.

Levou mais de dois anos para terminar tudo.

Xarif ria dizendo que ele estava ficando velho, mas suas obras agora requeriam mais detalhes para simbolizar tudo o que ele pensava.

Depois dessa exposição, tinha começado a desenhar para executar os mitos gregos.

Mas morreu antes, sentado em sua mesa desenhando.   Xarif tinha ido dormir, ele disse que seguia com seu desenho, mais um pouco.

Quando despertou de manhã, viu que ele sequer tinha ido dormir, estava debruçado em cima de sua mesa.   O que lhe impressionou, que estava desenhando o Matheus, tinha contado a dias, que tinha sonhado com ele, me desculpe Xarif se te ofendo, mas ninguém me entendeu tanto como ele.  Sigo o amando até hoje.

Pediu que suas cinzas ficassem juntas, até descobrirem aonde tinha enterrado a do Matheus levou tempo.