lunes, 13 de junio de 2022

HELLER

 

                                                  

 

Raymond, arrumava a casa depois do jantar da noite anterior, depois de mais de quinze anos fora de San Francisco, retornava à cidade que ele tinha vivido sua infância, adolescência, a primeira juventude, com 25 anos tinha ido para NYC, estudar, nunca mais tinha voltado, tinha sido até a pouco tempo advogado das Nações Unidas, era uma vida estressante, pois sempre havia algum problema com algum membro de qualquer delegação.

Os últimos anos da vida de seu pai, o tinha levado para lá, escutado a mesma reclamação todos os dias, quero voltar para minha casa, mas claro ele não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo sendo que era muito distante.

Depois tinha o fato de seu irmão gêmeo David, os dois tinha sido separados, quando fizeram cinco anos de idade, seus pais se divorciaram de mútuo acordo, cada um ficou com um dos filhos.  Uma decisão pensada em Salomão.   O juiz foi contra, mas era vontade dos progenitores. Ele era mais agarrado ao pai, David ao contrário era agarrado a mãe, para eles parecia perfeito.

Nunca mais soube da mãe, seu pai lhe deu o valor do patrimônio que tinha, a casa familiar a gerações, bem como o valor de seu negócio.   Durante muitos anos não souberam dos dois, desapareceram no mundo.

Quando ele começou a trabalhar, volta e meia surgiam problemas, usurpação de identidade, por parte do irmão.  Conseguiu com um juiz, depois de ter ficado com sua conta a zero no banco, que sua conta num único banco, fosse controlada por dígitos, que ele trocava todas as semanas.   Uma semana depois de ter levado seu pai, soube que seu irmão se fazendo passar por ele tinha esvaziado a casa inteira, a deixado nua.

O único que tinha descoberto depois de todos esses anos, era que tinha sido expulso do exército, por conduta inapropriada, a muito custo, pese o secretismo do exército, descobriu que estava num grupo que roubava coisas no Iraque, obras de arte, etc.

Depois disso era como se houvesse desaparecido da face da terra.

Ele cuidou de seu pai até morrer, no final ele o confundia com David, falava com ele, como não entendesse quem ele era, pedia perdão pelo que tinha feito, um dia gravou isso, para quem sabe se encontrava o irmão mostrar, seu pai falando com ele.

As coisas más, as vezes tem seu lado positivo, por causa da doenças de seu pai, conheceu o que hoje era seu marido.  Tinham se casado cinco anos depois de terem se conhecido na consulta deste, quando levou seu pai.  Se encantaram um com o outro.

Ontem o jantar com alguns poucos amigos, tinha sido isso, apresentar Laurie Stamp, que vinha viver com ele em San Francisco.  Tinha reformado a antiga casa familiar, modernizando tudo, tinha transformado o andar de baixo, em um grande salão, com uma cozinha americana incorporada, mantendo somente a velha biblioteca, que na verdade só sobravam os moveis, no momento que viu a mesma, pensou, pelo menos não roubou as estantes.

Tinha feito uma coisa, colocado nas três entradas da casa, câmeras de vigilância, pois assim podia controlar tudo. A da entrada, a garagem que ficava embaixo, bem como a da porta traseira, mesmo assim o resto todo era blindado, sendo necessário uma chave especial para abrir.

Tinha sonhado com seu pai, seus últimos dias, estava fechado no arrependimento, de um lado por ter separados os dois, de outro lado, dizia que David sempre lhe tinha caído mal, não sabia por quê.  Tinha nascido com 10 minutos de diferença, ele tinha nascido primeiro, David depois, era como se fosse o pequeno, pois teve que ficar na incubadora.

Talvez por isso, sua mãe sempre o tinha protegido.  Em casa não tinha nenhuma fotos dela, nem do David.   Seu pai, nunca tornou a se casar, se tinha aventuras, ele nunca tinha descoberto.

Mesmo na época que já estava fora dali, nunca soube de nada. 

Agora a casa, nem parecia a mesma, no andar de cima, tinham três quartos, dois banheiros, tinha transformado o quarto deles, num closet, com a banheiro incluído, os outros dois, tinham um banheiro no meio.

Tinha se levantado com uma certa ressaca, pois ele que nunca bebia, tinha tomado vinho, champagne, com os poucos amigos que mantinha contato todos esses anos, se fosse em NYC, a coisa seria diferente, pois conhecia muitíssima gente.

Era completamente feliz com o Laurie, era um homem feito a si mesmo, filho de uma família de seis irmãos, de descendência Irlandesa, era o último, também o único que tinha ido a universidade sempre com bolsa de estudos, tinha feito medicina, bem como especialização, quando apresentou seu curriculum para San Francisco, foi disputado por dois dos maiores hospitais.   Aceitou o fato de se mudar, pois queria colocar muitos quilômetros, entre ele e sua família.  Eram todos complicados.

Talvez por isso se entendiam, tinham se conhecido justamente num dos últimos golpes de seu irmão contra ele, tinha ficado sem um puto, mas desta vez tinha se saído bem, tinha recuperado o dinheiro, pois tinha feito um seguro, avisado ao banco, do que já tinha acontecido antes, mas claro depois foram descobrir, que ele tinha convencido uma mulher que era caixa, que tinha se apaixonado por ele, que fizesse tudo.   Quem pagou o pato foi ela, esse era seu modus operandi, as mulheres.

Estava colocando as ultimas taças de champagne na lavadora, Laurie ainda estava na cama, com preguiça segundo ele, acabava de passar um pano sobre a bancada, quando viu pela ampla janela parar um carro em frente da casa, com um logotipo na porta, alguma coisa do governo.

Estava ainda de pijama com um roupão por cima.

Abriu a porta usando o código, se aproximou uma senhora com o peso acima do normal, para não dizer gordinha, se apresentou, perguntou se ele era Raymond Heller, ele confirmou, viu uma mulata quem em seu tempo devia ser bonita.  Um garoto pequeno, devia ter uns 3 a quatro anos, era a cara deles quando criança.

Podíamos falar com o senhor?

Sim entrem sentem-se à vontade, vou trocar de roupa, bem como avisar meu marido que temos visitas, viu que a cara da senhora uma interrogação.

Ele nunca dava explicações, tinha se casado com um homem, ponto final.

Subiu a escada enquanto escutava a porta se fechar atrás dele, vestiu uma roupa que estava em cima de um banco no closet, calças jeans, camiseta de manga comprida, um mocassim, velho, avisou ao Laurie, temos visitas, creio que algo relacionado com meu irmão.

Desceu sorrindo, sua arma contra qualquer problema.  Perguntou se aceitavam um café, como a mulher concordou, separou canecas, colocou a cafeteira para muitos cafés, foi se sentar com elas. 

O garoto o olhava com os olhos arregalados.

É que o senhor se parece muito com o David.

Mais bem ele a mim, pois nasci dez minutos antes que ele.

A senhora tomou a palavra, seu irmão se casou com esta senhora, desapareceu fazem dois anos, o pior a contaminou com Aids, mas depois que o menino nasceu. A mesma está vivendo de favores, nunca soube mais nada dele, nossa agência também o procurou, mas foi impossível encontra-lo.

Pois eu nunca mais o vi, desde que nos separaram aos cinco anos de idade.

A mulher falando, era simpática, sim ele me contou isso, por isso quando fiquei gravida, queria que eu abortasse, só voltou depois que David nasceu, ele se chama David Raymond Heller, fez questão de o registra assim, dizia na minha cara que meu nome latino não era importante.

O último ano quando voltou, foi insuportável, principalmente quando descobriu que estava com Aids avançada, o pior tinha transmitido para mim.

Desapareceu, o fato que foi complicado, perdi meu emprego, bem como ninguém da minha família quer assumir cuidar do David, pensam que ele tem a doenças, mas os testes deram negativo.

Filhos da puta soltou.

Nisso entrava o Laurie, todos os olharam, era um tipo impressionante, tinha 1,90 de altura, olhos verdes transparentes, cabelos ruivos, a cara cheia de sardas, bem como seus braços.

Como um imã, foi direto ao garoto, o levantando do chão, que temos aqui, que menino grande, o levantou bem alto, pela primeira vez o David sorriu.

O apresentou, esse é o Doutor Laurie Stamp, meu marido, o conheci quando cuidava de meu pai, somos companheiros a seis anos.

Ele era realmente cativante, estendeu a mão a cada uma, desculpe, tive minha primeira semana no hospital, complicada, por isso ainda estava na cama.

O garoto, imediatamente, ficou ao lado dele.

O problema senhor Raymond, é que Gabrielle Heller, tem que entrar para ficar no hospital, não tem com quem deixar o garoto, ou ele terá que ir para o serviço social, que significa um orfanato.

Nem pensar, nem que não fosse da minha família eu ia permitir isso.  Nessa família basta de separações.

Se o senhor quiser fazer um teste de ADN, eu concordo, falou Gabrielle, pois assim terá certeza de que é filho do seu irmão.

Espere, correu a biblioteca, deixando a porta aberta, o menino foi atrás dele, mostrou primeiro para ele, era a única foto que tinha dos dois, veja, eu com teu pai, quando tínhamos cinco anos.

Realmente era a cara do garoto.

Mostrou para as duas, a foto, as duas balançaram a cabeça, Gabrielle soltou, ele me mostrou essa foto, não em tão bom estado como esta, estava dobrada em sua carteira.

Laurie era mais prático, perguntou em que hospital ela ia se internar?

Quando falou, era um hospital fraco, para pessoas pobres.

Tens todos os exames que necessitam para um ingresso?  O que já fizeste de tratamento.

Meu caso esta avançando rápido demais, já tenho os pulmões muito comprometidos, por isso minha voz ficou diferente.

Nada disso, a esperança sempre esta do nosso lado, se levantou, tirou do bolso traseiro da sua calças jeans um celular, chamou alguém, ficou falando, em alguns momentos se alterou, lhe passaram com outra pessoa, tudo que escutaram foi ele dizer, não façam com que me arrependa de ter escolhido vosso hospital, ainda posso mudar de ideia.

Depois se voltou sorrindo.  Pronto tudo resolvido.

Ficaras no hospital que trabalho, assim posso cuidar de ti. Tens a bagagem de vocês no carro.

Sim, não temos casa, estávamos vivendo num albergue, até a senhora descobrir que o senhor Raymond tinha voltado a viver na cidade.

Não me chame de senhor, por favor, somos família.

A mulher, viu que as coisas andavam rápido demais.  O senhor assinaria os papeis que assumiria a guarda do garoto.

Raymond, perguntou aonde tinha que assinar.  O fez em seguida, Laurie assinou como testemunha.

Vamos buscar suas coisas, em seguida, troco de roupa, vamos para o hospital.

A senhora entregou um cartão com seu nome, eles dois, um cada um, assim podemos manter contato, quisera eu que todos os casos que leve se resolvessem assim.   Depois se aproximou do Raymond, lhe dizendo baixinho, se alguma coisa acontecer, me procure para adotar o garoto.

Foram buscar as maletas, venha Gabrielle, aproveite tome um bom banho, mostrou o quarto que ela podia ficar, levaram o David ao outro, este será para ti, garoto.

Ele olhou o quarto que era novo, riu, um quarto para mim.  Era a primeira vez que falava.

Venha, qual é a tua bolsa, ele sinalizou a pequena, tiraram uma muda de roupa limpa, venha, o levou para o banheiro deles, sabes tomar banho sozinho?

Sim, sempre o faço, mamãe, nunca tem forças.

Mostrou aonde estava o champô, bem como sabonete.  Te esperamos embaixo, Laurie saiu para comprar alguma coisa para o café da manhã, enquanto ele preparava café, fervia leite.

Quando Gabrielle desceu, sorria em sua cara triste, fico mais tranquila, que ele tenha alguém, uma vez teu irmão me disse, Raymond deve ser um sujeito de bem, pois nunca colocou uma denuncia contra mim, eu o roubei várias vezes, esvaziei a casa, mesmo assim não me denunciou.

Não tens a menor ideia de aonde ele está?

Não, quando começaram a sair as feridas nele, ficou horrorizado, confesso que nunca soube com quem tinha andado. Para ele a conquista das mulheres era uma coisa importante.

Creio que fui a única com quem se casou, mas confesso que não tenho certeza de nada, com relação a ele.

Estava vestida corretamente, sem nada demais.  Vendi tudo que tinha para sustentar meu filho.

Hoje de manhã, a senhora veio me buscar, disse que tinha te localizado, então nos trouxe, vim rezando no carro, me perguntando como nos receberia.

Olhaste o David, soltaste um sorriso, sabia que estava bem.

Laurie chegava nesse momento, escutaram o David chamado lá de cima, ele subiu correndo, ele não sabia fechar o chuveiro.  O secou, esfregando bem sua cabeça, o garoto olhava para ele com adoração, claro era a cara de seu pai.

O ajudou a se vestir, depois vamos de compras, precisas de roupa de inverno, que está chegando.

Desceu de mãos dadas com ele, como fazia seu pai com ele.

Teu avô sempre estava de mãos dadas comigo.

Tomaram café, numa mesa redonda, que estava ao lado da bancada, pareciam uma família se alguém olhasse de fora.

O menino estava com fome, devorou o croissant que Laurie colocou na frente dele. Este colocou outro, mas antes ele olhou para a mãe.   Esta balançou a cabeça concordando.

Tomou seu café com leite.   Que gostas de comer de manhã David?

Ele respondeu, o que tiver, as vezes pão duro mesmo serve.

Ele vai a escola perguntou Ray, como gostava que lhe chamassem.

Deveria ir este ano, mas estamos sem casa, então não aceitaram a matricula.

Amanhã resolvemos isso, verdade garoto.  Ele balançava a cabeça.

Apontou com o dedo a biblioteca, vocês estuda muito. 

Nunca parei, sou advogado, um dia te vou explicar o que fazia.

Laurie tinha passado numa farmácia, comprado escovas de dente, uma infantil, que quando ele viu, ficou maravilhado.

Subiu com ele, ia lhe ensinar como escovar os dentes.

Laurie sempre quis ter filhos, estávamos pensando em adotar, mas para isso precisávamos primeiro nos assentar.

Podia ter vendido esta casa, ficado em NYC, mas queria voltar para cá.

Quando desceram, falaram entre eles qual era o melhor carro para irem.

O carro dos dois era pequeno, chamaram um Uber, dizendo quantas pessoas, eram, qual o hospital, o menino adorou, que quando ele acionou o fechamento da casa, toda a parte da frente que era de vidro se cobriu com uma grade de segurança.

Para que não a esvaziem outra vez.  Ficou parado rindo para a Gabrielle, ele me fez um favor, pois levou tudo, a casa era minha de herança, não se falava no recheio, tudo era velho na verdade.

Quando chegaram no hospital, Laurie deu entrada nela, que foi levada a um setor separado, eles levaram o David para fazer exames, lhe fez um check up total, bem como tiraram sangue dos dois para o teste de ADN.

Ele deixou que o Laurie o examinasse.

Depois lhe explicaram que sua mãe, nesse momento estava fazendo exames como ele.

Ele entendia, ela me explicou que tem uma doença incurável.

Se despediram, ele riu quando os dois se beijaram na boca, nos vemos mais tarde, vou ver se ela pode fazer o tratamento em casa, ou se tem que ficar internada.

Os dois saíram, Ray ia fazer compras para o David, o deixou escolher a roupa que queria, umas calças jeans compridas, sua mãe dizia que ele crescia muito, por isso só lhe comprava calças curtas, ele queria uma camiseta como a dele, de mangas compridas, compraram também um casaco de plumas, para o inverno, tênis novo dois, assim podes variar, depois ele ficou como louco quando passaram numa livraria, para buscar um livro pra o Ray, ele ficou como louco na parte infantil, nunca tive um livro, podes escolher o que queira, ele argumentou que na biblioteca tinha muitos livros.

Ray lhe explicou que eram livros para seu trabalho, livros de direito, não serviam ainda para ele.

Perguntou se sabia ler, ele disse que um pouco.

Levou o que ele gostava.

Foram ainda num supermercado aberto aos domingos, compraram leite, coisas que uma criança comia, ele ria muito.

Em casa, perguntou ao Ray como o devia chamar.

Podes me chamar de tio, de Ray do que queira.

Gosto mais de Ray, se sentaram no sofá para Ray ler o jornal, em breve estava dormindo em sua perna, ao mesmo tempo segurando sua mão.

Ele se perguntava como o irmão podia ter deixado um filho para trás.

Ia tentar usar todos os meios para encontrar o irmão se tinha AIDS, devia estar em algum hospital, ao mesmo tempo ia pedir a morgue um relatório das pessoas mortas sem serem reclamadas.

Nunca entenderia com podia ter-se desviado tanto assim na vida.

Quando tinha chegado em casa, tinham se encontrado com a vizinha, era uma senhora amiga da família, apresentou David como filho do seu irmão, que ela se lembrava de criança, realmente é a cara dele.

Perguntou se ela conhecia algum jardim da infância, por ali, para deixa-lo quando fosse trabalhar.   Espera disse ela, chamou sua filha, que trabalhavam em um.  A conhecia desde criança, nunca tinha se casado, já tinham se visto durante a reforma da casa.   Ela quando viu o David, disse que tinha brincado muito com os dois quando criança.

Lhe ensinou aonde era, amanhã o deixas lá comigo, agora estou com menos criança, pois são as que os pais trabalham agora na época das férias.

O leve com uma roupa de esporte, assim ficam mais à vontade, menos mal que tinham comprado uma.

Quando Laurie chegou para almoçar, tinha decidido comer pizza, pois ele nunca tinha comido uma.   Foram a um restaurante ali perto, que já tinham ido nesses dias.

Ele perguntou pela sua mãe, ainda está fazendo exames David, se for o caso ela estiver estável pode ficar em casa.

Mas depois quando chegaram, ele colocou o menino para fazer um cochilo.

O deitou, colocou uma manta sobre ele, mexeu nos seus cabelos, lhe deu um beijo na testa.

Desceu, Laurie estava fazendo café, disse que o caso era grave, não sei como essa mulher não fez nenhum tratamento ainda, o médico encarregado acha muito difícil ela se recuperar, consegui que ficasse num quarto, assim podemos levar o menino para visita-la.

Esse menino é um doce de criança, como meu irmão pode abandona-lo desse jeito, não posso acreditar.   Não sei o tipo de educação que minha mãe lhe deu.

A cabeça dos meus pais, era complicada, embora ele tenha me educado bem, não sei o que se passou com David.

Nunca me esqueci dele, realmente como diz a Gabrielle, nunca coloquei uma denúncia em cima dele, seja pelo roubo do meu dinheiro, seja por ter levado tudo dessa casa.

Eu queria era encontra-lo.

Disse o que ia fazer no dia seguinte, vou tentar descobrir, a partir do lugar que viviam, para ver se posso encontra-lo.

Foi até a biblioteca, falou com um juiz que conhecia, pediu desculpa por lhe incomodar em pleno domingo, lhe explicou o caso.

Este lhe indicou um velho policial, que era um excelente detetive.  Telefonou para o mesmo, marcou no dia seguinte no escritório.   Trabalhavam num escritório de advogados, cuidando da parte de direito internacional, era um experto na área.

Quando o menino desceu, se espreguiçou ao entrar na sala, disse que tinha dormido muito, foi correndo para o Laurie, para lhe dar um beijo, começou a contar tudo que tinha feito, amanhã vou a escola, aonde trabalha a senhora do lado.

Tinham trazido a pizza que tinha sobrado, que ele comeu, tomando um copo de leite, depois ficaram vendo o noticiário, com ele sentado no meio dos dois.

Agora em vez de um pai, vou ter dois não é?

Os dois riram com ele.

Eu não tinha nenhum, agora os outros vão ficar com inveja de mim.

Devia ter sido muito movimento para ele, pois dormiu em seguida outra vez.

Mais tarde os dois subiram, Laurie, fazia questão de o levar no colo, o colocaram na cama, lhe arrumaram para dormir.

Quando foram dormir, deixaram a porta do quarto aberta, para se escutar algum ruido, vamos ter que comprar um desses sistemas de escutar as crianças.

Riram ficaram de mãos dadas na cama conversando.  

Bom amanhã quando chegue nos hospital, vou vê-la antes de começar a trabalhar, creio que poderemos nos revezar algumas noites para estar com ele, como fazíamos com teu pai.

Ray, que tinha o sono mais leve, despertou com ruido, era o David tendo um pesadelo, se sentou ao seu lado na cama, ficou segurando sua mão, isso o fez dormir tranquilo, acabou deitando ao lado dele, pois cada vez que tentava tirar a mão, ele segurava mais forte.

Laurie despertou sem encontrar o Ray, o encontrou dormindo com o garoto.  Ficou na porta rindo, que pai será esse meu marido.  O amava com paixão, por isso tinham se casado.

O despertou, pois já era de manhã, em seguida despertaram o David, para que tomasse banho para ir à escola, não se esqueça de escovar os dentes.

Foram os três junto até a escola, o deixaram com Gisela, ele na hora olhou os dois, que lhe disseram que voltavam para lhe buscar.  Gisela se ofereceu, quando acabe o horário, o levo para casa, quando vocês cheguem, ele estará já pronto para dormir.

Ray foi trabalhar, Laurie para o hospital, queria chegar cedo, para ver a Gabrielle, de lá telefono.

Quando Ray chegou o detetive o estava esperando, o fez entrar na sua sala, comentou com ele que seu irmão levava desaparecido quase dois anos, tudo que sabia era que tinha AIDS, a zona que vivia na época, lhe deu uma foto sua, somos iguais, somos gêmeos.

Lhe deu a pouca informação que tinha.   Se esta morto, jogado num necrotério, quero enterrá-lo ou se está num hospital, quero ajudar no tratamento.

O homem disse seus honorários, ele pagou uma parte adiantado.

Depois começou a trabalhar, tinha entre suas mãos, um caso complicado, tinha expatriado os pais, deixado o filho para trás que estava num orfanato.

Foi visitar o garoto, para conversar com ele.   O caso era antigo, pois depois que expatriaram os pais, esses tinham sumido.  Lhe dava lástima, tinha a mesma idade do David, ficaram conversando, escutou uma voz atrás dele, que facilidade tens de se comunicar com as crianças, era a senhora do dia anterior.

Hermione, verdade, eu estou a cargo do caso, queria saber se o garoto por acaso tinha escutado o nome de alguma cidade, ou coisa similar.

Eu também levo esse caso, pelo visto vamos nos ver muito.  Perguntou pela Gabrielle, pelo David.    Ele esta numa escola, que tem minha vizinha, a Gabrielle no hospital, hoje tem o resultado dos exames, vamos ver se pode fazer o tratamento em casa ou mesmo no hospital.

Pelo que consultei ela tem pouco tempo de vida, se fosse o senhor, adotava o garoto imediatamente para evitar problemas.

Ele comentou que tinha contratado um detetive para encontrar o irmão.  Vamos ver se está vivo ou já passou desta para melhor.

Se despediu do garoto, uma lastima isso, tem coisas que vi ao longo dos anos do meu trabalho, que nunca entenderei as pessoas, como podem separar uma família.

Trocaram informações, a levou até o escritório que trabalhavam, mostrou os casos que estava trabalhando, ela anotou, para verificar se tocava a ela.

Justo nesse momento o Laurie telefonou, disse que ela tinha piorado durante a noite.

Vou para aí, queres vir junto Hermione, assim saberás como a estamos tratando. Se for o caso, prefiro que fales com ela da adoção.   Não penso deixar o menino abandonado jamais.

Pegaram um taxis, foram para o hospital.  Gabrielle sorriu quando viu os dois juntos, Laurie já tinha falado da escola para ela.

Ela disse que preferia que o Laurie falasse da sua saúde, na frente dela, pois tinha que tomar decisões.

Não está reagindo as medicações, pois esta começando o tratamento muito tarde.

Hermione falou que ela devia já pensar em assinar os papeis de adoção do menino, para os dois, pois se eles o queriam, era melhor cuidar disso, do que esperar.  Se melhoras, tudo bem, descartamos os papeis.

Não, prefiro deixar tudo preparado.

Enquanto elas conversavam, ele saiu com o Laurie, falou do orfanato, aonde estava o garoto, agora temos poucos dados sobre os pais, que voltaram para seu pais.  Mas para aonde, vamos tentar levar o caso juntos.

Os dados, davam como se eles fossem de Jalisco, México, mas até agora não tivemos sucesso, estou em contato com a policia de lá.   Tudo que sabem, é que eram um casal jovem que fugiu para cá, pois a família era contra o casamento.   Mas agora não encontram nenhum, nem o outro.

De tarde num momento de folga Laurie foi buscar o David para ver a mãe, ele contou tudo que tinha feito na escola para ela. Os tios me tratam super bem.

Ela avisou que as vezes ele tinha pesadelo de noite, desde que tinham perdido a casa.

Mas não havia jeito dela melhorar, os médicos estavam fazendo todo o possível.

Uma semana depois o detetive deu sinal de vida.  Quando chegou no escritório de manhã, ele já estava lá. 

Infelizmente tenho más notícias, acabei encontrado seu irmão na Morgue de San Diego, morreu ali, deu entrada no hospital sem documentos.  Mas quando mostrei a foto se lembraram dele.

O senhor tem que ir reconhecer o cadáver para dar uma sepultura.

Ele aproveitou o senhor, lhe perguntou que pelo nome ele se ele era descendente de mexicanos.

Quando ele concordou, lhe perguntou se podia trabalhar num outro caso, passou a ficha dos pais do garoto, tudo que sabemos, era que tinham sido devolvidos ao pais de origem, sabemos que a cidade deles, é Jalisco, mas nem o xerife de lá, nos falam deles.

Se o senhor quer trabalhar para mim, será um prazer. Falou com a secretária, para combinar com ele os honorários, lhe pagou o resto do seu caso pessoal, marcaram do dia seguinte ir a San Diego.

Comentou com o Laurie, este disse que ia buscar o David para ver a mãe, vens assim falamos com os dois juntos.

Avisou também a Hermione, que combinou de estar essa hora no hospital.

Quando ela chegou, comentou com ela que tinha contratado o mesmo detetive para ver se encontrava os pais do garoto do orfanato.

Que bom que você nesse caso disponha de dinheiro para essas coisas.

Sim é um departamento do governo, ligado ao de Direitos Humanos da ONU, aonde trabalhei tantos anos.

Dos casos que você me deu, tenho dois similares, são as mesmas pessoas, depois podemos trabalhar em conjunto para resolver.

Quando os dois chegaram, se reuniram no quarto, Gabrielle disse que sentia isso, que ele realmente desta vez tinha partido.  Explicou ao filho, os deixaram falando sozinhos, ela queria explicar a ele que os dava em adoção aos dois.

Ele saiu choroso do quarto, a primeira coisa que fez foi segurar a mão do Ray, você vai cuidar de mim.  Laurie pegou a outra mão, dizendo vamos ser uma família, serás nosso filho.

Duas semanas depois, eles estavam preocupados, pois o aspecto de Gabrielle era cada vez pior, agora usava quase o tempo todo a máscara de oxigênio, os dois sentaram com o David, lhe explicaram o que estava acontecendo, que iria agora a pior, se ele queria seguir vendo sua mãe?

Claro que sim, Tia Gisela, me explicou outro dia todo o processo, sei que ela irá para o céu, mas quero ver até o último momento.

Assim foi.

Uma tarde ao voltar do hospital, estava com um humor de lascar, quando chegou o detetive o estava esperando.

Primeiro perguntou se podia ajudar em alguma coisa.

Ele lhe explicou o que estava acontecendo, tinha mandado cremar o irmão, assim enterraria os dois ao mesmo tempo.

Lamento muito, mas tampouco tenho boas notícias.  Contou o que tinha descoberto, a menina era filha de uma família rica, o namorado de uma pobre, tinha estudado juntos, pois ele o fazia numa escola de ricos, com bolsa de estudos.

Quando ela ficou gravida, escapara para cá.  Tiveram o filho, foram na verdade separados, por causa do pai dela.

Este a recuperou, mas o rapaz está morto, com certeza por ordem dele.   Consegui falar com a mãe, ela diz que o medo dela, é que o menino seja raptado, pelo pai, assassinado.

Redigiu um documento, que o dava em adoção, consegui que o fizesse na frente do xerife, de um tabelião, que reconheceu as firmas inclusive.  Assim ele pode ser adotado aqui.

Falou com Hermione, esta comentou que estava justamente entrando no edifício.  A apresentou ao André Castanho, o investigador.

Contou o caso, ele passou o papel para eles.  Dá pena de ver a garota, pois tivemos que forçar para que o pai deixasse falar com ela.   Ele foi claro não quer o neto por lá, pelo que deduzi, ela vai se casar com um herdeiro de outra família, rica como eles.

Nessa noite comentava o caso com Laurie, que soltou, porque não adotamos também, se cuidamos de um, podemos cuidar de dois.

No dia seguinte primeiro foi como uma bomba, recebeu uma chamada do orfanato, tinham entrado dois homens mexicanos, perguntaram pelo garoto, lhe indicaram um, este levou um tiro na cabeça.

Chamou assustado a Hermione, está também tinha recebido a chamada, mas disse que estava com o garoto no médico, tinha problemas de ouvido, ela o tinha levado.

Tinham matado outro garoto com o mesmo nome.

Ele disse que ou o levava para sua casa, ou para a minha, a senhora decide.

Mas foi de qualquer maneira ao orfanato, a polícia estava ali.   Ele se identificou, contou a história da criança, que tinha separada dos pais, levou o documento que falava da história confirmada pela mãe da criança, devem ter sido os homens do avô, que não queria nenhum cabo solto.  Tinha feito um sinal para a cuidadora das crianças.

Ela concordou com a história.

Saiu, chamou a Hermione de novo, que o levasse para sua casa. Quando chegou ela estava no carro esperando com o garoto.  Entraram, conversaram, ele não sabem que o garoto está vivo, eu posso adota-lo ou o Laurie.  Senão corre o risco de voltarem matarem a este também.

Ela concordou, nisso o Laurie chegava com o David, este quando viu o garoto, correu para ele, ei amigo vamos jogar.

Disse que o levasse para jogar no seu quarto.

Laurie sentou-se lhe contou o sucedido, eles pensam que mataram o garoto, eu confirmei para a polícia, bem como os jornalistas que estavam ali, teríamos que fazer uma adoção na surdina, para ninguém descobrir, passar o nome dele diretamente para a pessoa.

Posso adotar eu, soltou o Laurie?

Claro, já sei que vocês são uma família estável.

Mais tarde depois que ela foi embora, eles perguntaram ao David, se tinha gostado do amigo, estaria na casa dela, até a adoção.

Sim, gostei, sempre quis um irmão para jogar.  Ele tem a mesma idade que eu, lhe perguntei.

Estamos pensando em adota-lo, o que achas.

Uau, vou ganhar um irmão, queria falar imediatamente com o garoto, foi duro convence-lo que podia fazer no dia seguinte.

As notícias no jornal da noite, falavam do crime, um pobre garoto, que estava jogando no jardim do orfanato, deixado para trás por seus pais extraditados ao México, tinha sido assassinado por sicários mexicanos.  Talvez uma longa história por detrás disso tudo, conforme a assistente social confirmou, os pais foram extraditados, no que procuraram por eles em Jalisco, descobriram que o rapaz, estava morto, a mãe prisioneira da família, foi como um ajuste de contas, para um cabo solto.

Dois dias depois o menino estava com eles, trocaram seu nome, entre os dois pequenos, escolheram seu nome, Ray Stamp, a família aumentava.

Semanas depois sua cunhada morreu, a enterraram junto as cinzas do seu irmão, para um descanso merecido.

O detetive, tinha procurado pelas raízes de seu irmão, era uma história complicada, sua mãe logo após o divórcio, se casou novamente, com outro homem, como seu pai, com uma posição social acomodada, teve outro filho, depois se divorciou, deixando o mesmo com seu pai, arrastou com ela David outra vez, anos depois se casou com outro, mas o tiro saiu pela culatra, esse era um bom filho da puta, colocou o David para trabalhar na sua fazenda, explorava o garoto, inclusive se descobriu depois que tinha abusado sexualmente dele.

Entrou para o exército, para escapar de uma condena, por ter quase matado esse homem.

Lá ele se uniu a um grupo de soldados que faziam roubos de armas, roubavam também antiguidades, que mandavam para um coronel nos Estados Unidos, que os vendia ao melhor postor.

Quando isso saiu a luz, foi expulso do exército.  Nas conversas que tinha tido com a Gabrielle, este lhe dizia que Ray tinha tido de tudo, uma vida confortável, boas escolas, universidade, um emprego fantástico, então era justo que ele também gozasse de seu dinheiro.

Ele não entendia por que não os tinha procurado a ele, nem ao seu pai.

Ele achava que teu pai não o queria.

Meu pai nunca se perdoou pelo fato dela o ter levado embora, achava que ela era desequilibrada, mas o juiz concordou com isso.  Além dele ser muito agarrado a ela.

Eu sempre senti falta do meu irmão, se ele tivesse me procurado, o ajudaria.

Gabrielle foi franca com ele, se o tivesse feito, ele teria te explorado sempre.  Te odiava, por ter tido sorte. 

Quando tive o David, ele disse que eu deveria ter tido dois, assim poderia seguir a saga familiar, por isso colocou o nome dele, bem como o teu no garoto.

Foram os quatro ao enterro, que foi muito simples, só estavam as vizinhas, Hermione, mais ninguém.  O enterraram no mausoléu da família, assim descansariam em Paz.

Ele de uma certa maneira passou os anos seguintes, vigiando os garotos, ao mesmo tempo que como casal educavam os meninos estupendamente.

Eram bons estudantes, inteligentes, obedientes.  Foram levando a vida, Ray se aposentou antes, pois tinha começado a escrever, podia passar um dia inteiro na biblioteca, escrevendo artigos para revistas, as quais interessava sobre os direitos humanos.

Escreveu um livro, falando que normalmente os países, assinavam os protocolos de respeito ao assunto, ao mesmo tempo que faziam tudo ao contrário.   A infância, bem como a juventude, nunca eram respeitadas, a educação nunca chegava a todos.

Ele deixava os garotos, agora dois adolescente lerem o que escrevia.  David dizia que ia ser como o pai, escritor.   Aliás ao contrário dos outros garotos, a alegria deles desde criança era ir à livraria para comprarem livros.   Quando os colegas caçoavam deles, ignoravam, diziam que quem fazia isso, eram os mais atrasados na escola.

Juntos foram a Universidade, nessa altura Laurie se aposentou também, compraram uma casa na praia, aonde passavam a maior parte do tempo.  Até se atreveram a aprender surf, apesar da idade. Os dois vinham passar o final de semana com eles, no princípio ao inverno, voltava para casa, mas com o tempo foram ficando.  Tinham uma bela lareira na sala, mas não fazia frio suficiente para isso.

Quando acabaram a universidade, tinham que resolver o que fazer. Ray tinha feito arquitetura, David literatura, línguas.

Este começou a escrever, publicar, na internet, até que foi descoberto por uma editora, os jovens adoravam o que escrevia.

Um dia sem querer tocaram no assunto, vocês nunca falam em namoradas, por quê?

Pai o senhor as vezes para ser tão inteligente as vezes é lento, nós amamos desde criança, mas nunca falamos em voz alta.  Menos mal que Ray foi adotado pelo tio Laurie, senão iam pensar que dois irmãos tudo seria mais raro.  Mas não, sempre vivemos o que queremos, como vocês dois.

Laurie ria, pois desconfiava, os dois estavam sempre conversando, trocando ideias, nunca se separavam, se faziam um programa, iam os dois.

Queriam ir de viagem juntos pelo mundo.

Sem querer eles tinham juntado duas almas gêmeas, nunca criticaram.

Anos depois finalmente se casaram, logo em seguida adotaram um casal de meninos, abandonados pela família.  Construíram na velha casa, um lugar perfeito para essas crianças, que iam visitar os avôs sempre.    Esses babavam nas crianças, a férias eram sempre lá.

Claro as vezes tinham problemas, como todos os velhos, mas iam tocando para frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 6 de junio de 2022

DANCE - DANCE

 


 

Acordou com as articulações doendo como sempre, puta que pariu, ficar velho é foda, foi tudo que pensou.

Nesse momento, escutou através da parede a vizinha com a música como sempre altíssima, ia reclamar, mas parou, riu muito, eram os Bee Gees, porra foi aí que comecei, ria muito, a um ponto que seu sobrinho que vivia com ele, abrir a porta para perguntar o que passava.

Fez um sinal para a casa da vizinha, essa puta música, foi quando comecei, nunca imaginei que ia acabar assim, com artrose, dores das articulações, nada disso.

Fechou os olhos, se podia ver numa discoteca, imitando os passos da época.

Seu sobrinho lhe disse, anda que tenho que levar o senhor a fisioterapia, depois ir para a faculdade.

Obedeceu, se enfiou embaixo do chuveiro, com a água bem quente como gostava, deixou que escorressem pelos seus cabelos brancos como a neve, mas seguiu com a música na sua cabeça.

Não podia reclamar, apesar de tudo, tinha tido um vida fantástica, a um ponto de hoje poder desfrutar de uma velhice interessante.

Nunca poderia imaginar, que acabaria assim, sentado num bar, conversando com todos os amigos, ainda vivos, discutindo política, reclamando do preço dos remédios, falando da família, todos tinham família, ele era o único, que só lhe sobrava um sobrinho.

Nunca tinha deixado de trabalhar, nem de dançar essa era a verdade, adorava quando chegava o sábado, colocar suas melhores roupas, sair com o grupo para alguma discoteca.

Os amigos iam para ligar, arrumar namoradas, ele ia para dançar, que era seu sonho desde garoto, conhecia todo mundo da discoteca.

Quando chegava, era o único que não pagava para entrar, o porteiro diziam, estão te esperando para abrir o baile.   Que antigo, chamar de baile, como se fosse uma coisa de debutantes.

Entrava, ia beijando as amigas, apertando a mão dos amigos, tinha para todos os gostos, cores.

Ali se misturavam sem problemas de raça.

Mal o via o disk jóquei, ainda não se dizia DJ, colocava sua música preferida, ele ia para o centro da pista que estava vazia, soltava as frangas como diziam os amigos.   Parecia que como se isso fosse um chamariz, pois em seguida, a pista era invadida.

Quando acabava a noite, sua roupa estava encharcada, tinha sempre um casaco na mão para a saída da madrugada, pois as vezes fazia frio.

No domingo, custava a se levantar, seu apartamento, se devia chamar apertamento, pois era mínimo, nunca convidava nenhum amigo para ir, pois dizia que se soltasse um peido um voava pela janela.

Mas não reclamava da vida, era seu sonho, tinha vindo de uma cidade do interior, para ser alguém ou mais concretamente ser ele mesmo.

No momento, trabalhava numa loja de ferragens, mas já tinha feito muita coisa desde que tinha chegado.

Despertou da divagação, pois seu sobrinho, insistia que o café estava ficando frio.

Se secou, passou o secador de cabelos, pelos seus ralos cabelos brancos, os amarrou num rabo de cavalo.  Quando desceu, ia reclamar do café frio, mas lembrou-se que a culpa era sua, tomou os comprimidos que tinha que tomar, rindo, pois cada vez aumentava mais.

Quem diria pensou, nunca tinha imaginado viver tanto, quando começou a perder a maioria dos amigos, ou seja por terem ido a guerras, ou por Aids, ele pensou, creio que não passarei dos quarenta, mas justamente nessa idade, foi o melhor da sua vida.

Os poucos amigos que sobravam eram gente do bairro. Tinha sempre morado na mesma zona, nunca pode dizer, “eu vivo em Manhattan”, vivia em Brooklyn que já era muito.

Tinha feito de tudo um pouco, isso era uma verdade, sempre que lhe chamava para alguma coisa estava disposto.

Da época de Disco, discotecas, ele começou a fazer aulas de dança depois do trabalho, logo, conseguiu fazendo casting, trabalhar em musicais da Broadway, com relativo sucesso, dançava, cantava bem, tinha um corpo impressionante, cara bonita, então, sempre conseguia alguma coisa.

Mas seguia trabalhando, fazendo cursos, quando fez arte dramático, diziam que devia fazer comedia, pois ele era o tipo de pessoa que tinha um humor negro, falava as coisas sem sorrir, muito sério, alguma pessoa acreditavam nas loucuras que dizia.

Mas mesmo assim, conseguiu papeis pequenos, que fazia muito bem, nunca foi cabeça de nenhum espetáculo, sempre era um dos coadjuvantes.   Tampouco batalhou nunca por um papel principal, os achava um saco.  Para ele não representavam a realidade.

Quando lhe chamaram para fazer uma peça gay, fez o casting, conseguiu o segundo papel, ficaram anos em cartaz, no final se sentia um papagaio, de tanto repetir o mesmo.

A peça foi transformada em filme, ele seguiu com seu papel.

Mas não gostava de cinema, achava chato.

O seu era o palco, seguia fazendo aulas de dança, tinha que estar em forma.

Sua família o ignorava totalmente, nunca mais falaram com ele.  Ele no fundo achava bem, para que ter contato, se o iam criticar na mesma.

Quando viu que não ia mais a frente, um namorado que tinha na época, conseguiu um emprego público para ele.  Para os que lhe criticavam, fez carreira, começou a subir, porque era bom funcionário.   Era dos que chegavam cedo, adiantava o trabalho, para poder atender o que vinha pela frente.  Seus relatórios estava sempre em dia, o chamava de tudo, inclusive filho da puta, mas não se incomodava.  Se tinha que trabalhar, o fazia direito.

Se o chamava para fazer uma peça, dizia logo que só podia ensaiar de noite, pois trabalhava de dia.

Foi assim que comprou essa casa.  Pois não gastava dinheiro demais, estava sim, sempre limpo, roupa limpa, para ele tinha sido mais importante ter uma lavadora e secadora, que comprar uma televisão último modelo.   Hoje diriam que suas roupas eram fundo de armário, pois serviam para qualquer época.

Seu último grande ascenso no trabalho, se transformou em chefe, seus funcionários o chamava de carrasco, pois exigia que se comportassem como ele, se não gostassem que pedissem transferência.   Os que ficaram eram porque levava a sério o trabalho.

Nunca misturou as estações, quando lhe chamaram para fazer um filme, disse honestamente que o que pagavam, era pouco para que ele deixasse seu trabalho, depois agradecia não ter aceitado, o filme era uma merda.

Seguia saindo nas noites de sábado para se divertir, mas claro as músicas não eram mais as mesmas, ia sim se encontrar com os amigos, conversar, beber alguma coisa, paquerar se não tinha ninguém no momento.

Justamente depois do seu aniversário dos quarenta anos, tinha saído para comemorar com os amigos, esses mui sui generis apareceram com um bolo, numa mesa ao lado tinha um homem que o olhava muito, quando viu que era seu aniversário, o convidou para tomar um champagne com ele.

Tinha gostado do tipo, foi dormir essa noite em sua casa.  Pela primeira vez em muito tempo, ficou para dormir, isso ele não fazia nunca.  Mas Rob, ou Robert, lhe disse para ficar, tinha sido bom demais.

No dia seguinte, tomando café falaram deles mesmos.   Este tinha acabado de se divorciar, de um casamento que tinha sido muito infeliz.  Tinha aguentado muito, pois tinha um filho que adorava.    Os dois tinham a mesma idade, com diferença de meses..

Quando viu, estavam vivendo juntos.  Robert também era funcionário público, passaram a levar uma vida realmente interessante, descobriram que tinham muito em comum.

A casa deles era uma casa de homens solteiros, nada demais, era sim muito confortável, adoravam receber os amigos em casa, para largos bate-papos, quando agora encontrava os sobreviventes, como ele dizia, sempre num dado momento falavam da alegria dele.

Quando seu filho veio morar com eles, foi a melhor coisa do mundo, pois era um rapaz carinhoso, o ajudou quando foi a universidade, logo foi trabalhar no outro lado do mundo, pois era engenheiro mecânico.

Quando se casou os dois foram convidados, conseguiram encaixar uma ferias para ir até o Dubai aonde ele trabalhava em poços de petróleo.   Se casou com uma mulher árabe.

Foi uma festa totalmente diferente.

Anos depois voltaria com seu filho, já doente, os dois cuidaram dele, o garoto foi criado pelos dois, era como filho deles. Agora o chamava de tio, como sempre tinha chamado, era quem cuidava dele.

Robert não suportou a ideia de perder o filho, se tornou triste, mesmo com o neto, um dia despertou com ele duro na cama.

Tinha tido um enfarte enquanto dormia, menos mal que conseguiu deixar uma pensão para o neto, bem como um fundo para ir à universidade.

Ele acabou de criar o garoto, se aposentou logo em seguida, mas foi trabalhar num centro de idosos, dando classe de dança, fazendo teatro com eles. Não podia ficar quieto.

O garoto, quando depois da escola o acompanhava em tudo, nas classes de dança se uma senhora não tinha companheiro, ele se oferecia, nos espetáculos também.

No fundo era como seu filho.

Quando se apaixonou na adolescência, correu para lhe contar, queria saber como proceder, o que fazer.

Foram longos papos sobre sexo. Ria depois dizendo, não deu certo, mas aprendi como devia me comportar.

Agora tinha um namorado da Universidade, que nos finais de semana dormia lá.

As vezes saia com eles, mas se dedicava a escutar o que falavam, pois pensava, esse, já encontraram tudo pronto, pois as gerações gays anteriores tinha batalhado por eles.

Agora podiam se casar, adotar crianças, ele se lembrava da dificuldade, graças a Deus Robert tinha deixando tudo arrumando, que se morresse, ele ficava com a guarda do neto, pois ele só tinha 3 anos na época.

Nunca entendeu por que o filho do Rob tinha escolhido para ele o nome que tinha, Boris, dizia que tinha tido quando criança um brinquedo que se chamava Boris.

Boris o fez outra vez voltar a realidade, tinham chegado à clínica aonde fazia fisioterapia, na volta ia sempre de metrô, ou caminhava por algum parque se o tempo estivesse bom.

Continuava usando o mesmo tipo de roupa de sempre, calças jeans, camisetas, uma camisa por cima, tênis, os cabelos com um rabo de cavalo, diziam que não aparentava a idade que tinha, mas ia andando sempre com calma.

Agora usava um celular, para avisar se lhe passava alguma coisa.

Hoje estava nostálgico, sentia sempre falta do Rob, para conversar, eram capazes de ficar horas e horas falando um com o outro, fosse qual fosse o assunto.

Nunca discutiram, era seu amante, amigo, seu companheiro.  Alguns diziam que tinham inveja dos dois, pois levavam mal seus relacionamentos.

Mal entrou, entrou um homem lhe disse bom dia.

Respondeu, mas ficou olhando, tentando descobrir quem era.

Esse ria muito, eu mudei bastante, mas tu continuas igual, mesmo corpo, mesmo jeito de andar, essa cara a reconheceria em qualquer lugar.

Fechou os olhos, voltou ao passado, claro era Jimmy, dos tempos que era jovem, que ia pelas discotecas a dançar.     Soltou Jimmy, verdade, o namorado de Audrey?

Sim, bom podias não me reconhecer, erámos uns garotos naquela época, nos divertíamos muitos aos sábados, verdade?

Incrível, estava pensando nisso agora de manhã, me despertei com a vizinha escutando no último volume, uma música daquela época, fiquei rememorando, que é só o que nos resta hoje em dia.

Pois é, isso, tomar medicinas, ir à reabilitação, tens razão.

Se sentaram lado a lado depois de um forte abraço.

Me conta, aonde anda Audrey, o último que soube de vocês é que tinham se casado.

Maldita hora que fizemos isso, não durou muito, todo aquele arrebato que tinha quando dançava contigo, acabou, se tornou uma amargada, queria seguir algo que não sabia nem o que era.

Tentou Broadway, mas claro, não se preparou como tu.  Me pediu o divórcio, me deixou pendurado com meu garoto, foi para Los Angeles, tentar Hollywood.  Nunca mais soube dela.

A anos atrás Roger meu filho queria saber da mãe, contratei um detective, mas não encontrou nada, não sei se mudou de nome, ou morreu, nada.

Tens um filho então?

Sim, é médico aqui, por isso venho a reabilitação aqui.

Lhe chamavam para ser atendido, virou-se lhe disse, Greg, me espera, para tomar um café, para conversarmos mais.

No mesmo momento lhe chamara, estava na mesma sala de reabilitação.  Quando terminaram, saíram de braços dados, rindo, aonde fomos parar meu amigo.

Nisso se encontraram com seu filho.  Era alto como o pai, lhe apresentou, dizendo lembra-se que eu te falava de um amigo que dançava horrores, que foi ator na Broadway, filmes, tudo isso.

Pois é esse sujeito aqui.

Vamos tomar um café.

Depois que se sentaram, ficaram tentando lembrar-se dos amigos daquela época.

Sabe, Audrey, me dizia que eu no fundo era apaixonado por ti, eu não dançava merda nenhuma, gostara era de ficar com os amigos, bebendo alguma coisa. Mas quando olhava os dois dançando, ficava admirando, realmente tinhas um corpo incrível, tinha de certa maneira inveja, pois eu era muito torpe.

Te admirava, pois sabia que ias longe, quando fazíamos sexo, ela dizia que eu era muito chato na cama, um dia me soltou, imagina que estas fazendo sexo com ele. Quem sabe assim fazes melhor.   Fiquei puto da vida.    Sem querer imaginei isso mesmo, acabei indo ao banheiro me masturbar.

Mas logo em seguida nosso casamento acabou, viste meu filho, quando me contou que era gay, ficou surpreso, porque eu ri.

Lhe expliquei que quando era jovem, o nosso grupo tinha de tudo, erámos pobre, mas felizes.

Nunca tive nenhum preconceito, se lembra de Telma, aquela mulata alta, pois essa acabou como puta, para sustentar seus filhos, esses quando ficaram adultos, a colocaram numa residência de maiores, tinham vergonha da mãe, as vezes vou lá visita-la, rimos muito.  Ela foi uma que me disse que aproveitasse a vida, que não me casasse com Audrey, me soltou na cara, não vai dar certo.

Eram amigas, sabia o que sonhava Audrey, se não tivesse ficado grávida, teria ido atrás de ti.

Sem querer estavam um segurando a mão do outro.

Descobriram que viviam perto um do outro, foram caminhando pelo parque de braços dados, rindo muito, na verdade do grupo, sobravam poucas pessoas.

Lhe contou que quando ganhou dinheiro, comprou a casa que vivia, era o que eu podia pagar, mas foi aonde vivi os melhores anos de minha vida, contou do seu companheiro, do neto que ele acabou de criar, nunca se recuperou da morte do filho que amava.

Depois nunca mais tive ninguém, claro quem ia querer um namorado, que ama os musicais, as músicas antigas, os jovens não me atraem.  Oitenta por cento dos amigos já morreram, então o que nos restas é seguir em frente.

O mesmo me aconteceu, levei em frente a loja do meu pai, mas claro as grandes superfícies, engoliram tudo, mas segui assim mesmo, para pagar a universidade do meu filho.  Acabei vendendo o local, vivíamos em cima, comprei um apartamento, no mesmo quarteirão, ele até hoje vive comigo.    A pouco tempo perdeu seu companheiro que era militar, diz que tampouco quer ninguém com ele, trabalhar no hospital tem isso, tem uns horários horríveis.

Resolveram comer juntos, riram porque frequentavam quase sempre o mesmo lugar.

Depois o levou a sua casa, pois a conversa estava boa, riam muito, deixaram de falar do passado, para falar do presente.

Jimmy, contou que depois de ter se divorciado, tinha tentado outros relacionamentos, nunca deu certo.   Me dei conta inclusive que olhava os rapazes que se pareciam contigo.  Fui te ver várias vezes no teatro, mas achava que não ia querer se lembrar daqueles tempo, tinha outra vida, eu tinha seguido a minha no mesmo lugar.

Deixa disso, eu teria um imenso prazer. Estavam sentados nas poltronas do salão, fazia tempo que não se sentia assim, feliz.

Comentou com Jimmy, esse encontro me fez imensamente feliz, normalmente venho para casa, fico cismando com a vida, me sinto sozinho.

Estavam de mãos dadas. Ficaram se olhando, acabaram se beijando, um beijo a princípio casto.

Depois se mataram de rir.

Quando Boris, entrou, ficou parado na porta, escutando os dois, cantando músicas que gostavam, rindo muito.

Soltou, a quanto tempo não escuto uma risada assim nesta casa, se apresentou, que bem que o faz rir.  Não briga comigo, mas as vezes é difícil, faze-lo se soltar.

Venha, sente-se aqui, o apresentou, um amigo do tempo de minha juventude, aos sábados sempre íamos dançar nas discotecas, economizávamos para isso, roupa nova, sapatos brilhando, para soltar as frangas como diziam alguns amigos.

Na verdade eras o rei, nunca pagavas para entrar, se levantou, o imitando quando entrava, parava na porta, o disk jóquei imediatamente colocava sua música preferida, ele não parava, dançava muito com Audrey, com Telma, alias com ela fazias um par perfeito, tu um branquela, ela negra, era da mesma altura que você, os dois pareciam comer o salão.

Nessas alturas era Boris que se matava de rir, imaginando como era.

O celular do Jimmy tocou, era seu filho que tinha chegado em casa, não tinha encontrado o pai, ele disse aonde estava, venha para cá o papo está ótimo.

Boris, saiu para buscar cerveja para os dois.  Quando voltou deu de cara com o Roger, tinham tido uma noite de sexo a tempos atrás.

Ficaram rindo, quando entraram, os iam apresentar, mas os dois disseram, já nos conhecemos.

Os dois queriam saber de aonde.

Tio o senhor se lembra que falei de um homem que tinha conhecido num café, que era mais velho, muito sério.   Pois é ele.

O mundo é muito pequeno realmente.  Pediram pizza, ficaram conversando, Roger queria saber como Boris ia na universidade.

Tinham tido alguns encontros, mas Boris pensou que não tinham futuro juntos, pois como sempre tinham problema de horários, agora entendo, pois como estou estudando como um louco para conseguir uma bolsa de estudos, para minha pós graduação, fica difícil.

Tens namorado perguntou o Roger?

Sim e não, não nos entendemos, seus sonhos não casam com os meus. Seu pai tem uma clínica, vai trabalhar diretamente lá.   Eu ao contrário, quero trabalhar em Urgências, para aprender tudo que posso, quero ser cirurgião.

Se quiseres consigo que faças práticas, agora nas férias lá no hospital. Não é um grande hospital, mas para começar fazendo práticas vale a pena.

O levou para a saleta aonde estudava, para mostrar o que estava fazendo.

Os dois ficaram rindo, não nos encaixamos, mas olha os dois.

Eu na verdade me sentia atraído por ti Jimmy, mas nessa época não assumia muito que era gay, embora nunca estive no armário, depois era o namorado de uma amiga.

Amanhã se quiseres podemos ir visitar a Telma, ela ida adorar, sempre fala naquela época.

Ainda continua estilosa, nunca foi uma puta dessas de esquina, era senhorita de companhia, pelo seu aspecto.   Fico com pena, pois os filhos nunca vão sequer visita-la.  Os netos ela só vê no Natal.

Claro que irei contigo. Olha essa casa, é imensa, nem usamos todos os quartos.  Durante um tempo ainda tentei alugar os mesmos, mas claro, esse entra e sai de gente não era bom para o garoto.

Me falou do teu filho, creio que ficou apaixonado na época, mas o via tão sério, que achou que não ia dar certo.

Se voltaram para olhar, viram que os dois estavam se beijando.

Depois foram embora, se despediram, Roger combinou os dias que tinha livre para vir buscar o Boris, ou mesmo o ajudar a estudar.

Boris, ria depois, o senhor imagina, estou entrando com as cervejas, vejo o homem por quem fui apaixonado, ele diz que nunca se esqueceu de mim. Que fui um sopro de ar na sua vida.

Nessa noite dormiu feliz, nem sentiu dores.

De manhã, disse ao Boris que ia com o Jimmy visitar uma amiga daquele tempo, que os filhos tinham colocado numa residência, mas não iam visita-la, tinham vergonha dela.

Os dois foram conversando sobre o encontro deles, Jimmy soltou que tinha dormido feliz, pelo encontro.

Quando chegaram Jimmy o fez entrar na frente, Telma, estava tricotando uma blusa, quando levantou a cabeça, soltou uma gargalhada muito peculiar nela.  Seu grande sem vergonha, por aonde andava.

O Jimmy entrou atrás, o encontrei ontem, ficaram os três sentados, falando daquela época, ela soltou foi a melhor época da minha vida, depois me casei, tive essas duas pestes, o filho da puta do meu marido desapareceu, tive que me virar para educar, criar os dois.

A arrastaram para almoçar com eles.

Greg, disse que na casa dele, tinha espaço, que se ela quisesse ir morar lá, ele ficaria feliz.

Vou pensar no teu oferecimento, tenho uma pensão pequena, que me deixou meu último amante.   Ele me ajudou a mandar os meninos para a Universidade, mas ao mesmo tempo os sem vergonha tinham horror a ele.

Bom esse final de semana, passamos todos na minha casa, vou buscar os filmes daquela época, podemos ficar conversando, escutando músicas, nos deliciando com esse tempo.

Dito e feito, inclusive os dois mais jovens se uniram a eles.

De vez em quando ele olhava o Boris sentado no chão, encostado nas pernas do Roger, sorria, tinha até inveja desse romance, via como o outro, passava as mãos pelos seus cabelos.  Tinham os dois adorado as risadas da Telma, suas histórias.   Acabaram todos dormindo lá, os meninos juntos, arrumaram um quarto para a Telma, eles dois foram dormir juntos.   Passaram um bom tempo abraçados, um olhando o outro, já não estamos para aqueles arroubos de jovens, mas passaram bem, fizeram sexo. Nenhum dos dois tinha barriga, na verdade tinham mantido o corpo de quando eram jovens.  Se despertaram abraçados um ao outro.

Tomaram todos juntos café.   Acabou soltando, parecemos uma família, que se junta.

Ficaram as gargalhadas, quando a vizinha como sempre colocou o som altíssimo, com uma música que dançavam.  Escutaram uma batida na porta, foram abrir, os estou escutando rir como loucos desde ontem, agora entendo, as músicas que escuto, é da nossa época, agora pelo menos tinham parceiros para jogar cartas de noite.

Telma foi viver lá com eles, deixou um bilhete na residência, dizendo aonde vivia, para provocar disse que estava vivendo com dois homens maravilhosos.

Quando os filhos apareceram, ficaram horrorizados, dela estar vivendo com dois homens gays, nunca mais apareceram.

Mas o que ele gostava mesmo era de olhar seus meninos, como eles diziam que iam cada vez mais ficando juntos, se completavam.

Anos depois quando o Boris, finalmente acabou o tempo de residência, já era um cirurgião, no hospital, se casaram.   Fizeram uma festa, com os amigos.

Era o máximo ver ele dançando com a Telma.

Naquela casa, aonde o silencio reinava, passou a se escutar muitas risadas, as vezes a jogatina ia até tarde da noite, mas como eles diziam, não precisávamos ter hora para levantar.

Jimmy o cuidava com mimo, dizia sempre ao seu ouvido, Telma tinha razão, devia era ter te atacado naquele tempo. 

Não tem importância, estamos juntos meu querido, somos felizes, pode ser que naquela época não desse certo, éramos jovens.

Quando os meninos adotaram dois irmãos, que foram abandonados no hospital, a felicidade foi total, agora eram avôs.   Estes reclamavam que iam estragar as crianças com tantos mimos.

A resposta era, avôs servem para isso.