lunes, 14 de junio de 2021

HOOP VAN VALK

 

                                                HOOP  VAN  VALK

Como podia um índio americano, ter um nome como esse, se ria sempre quando comentavam isso, mas entendia a confusão, pois era diferente dos demais.   A um ponto que seu avô que era um homem sábio o mandou estudar fora para escapar do bullying da reserva indígena.

Sentou-se com ele nos joelhos, era um homem imenso, de quase dois metros de altura, forte como um touro.  Sorriu triste, sinto que me arrancam o coração, mas para teu bem, quero que sejas forte, iras para Saint Paul, na casa de uns holandeses, vais estudar lá.  Aqui nunca te deixaram em paz.

Lhe contou por quê.  Teu pai era um tonto, desde criança, quis ser cowboy, estar nos rodeios, como isso fosse a coisa mais importante do mundo.  Era alto como eu, como um dia serás tu, moreno do sol, com uns cabelos negros como de uma águia.  Seus olhos fascinavam as garotas desprevenidas.    Conheceu tua mãe, justamente em Saint Paul, numa feira agrícola aonde se apresentava com um grupo de rodeio.   Ele fazia a cavalo, o que faziam os antigos índios, saltando de um lado a outro.   Uma jovem holandesa que estava aqui estudando, ficou fascinada com ele, caiu na conversa dele.    Um dia apareceu aqui contigo, não podia voltar a Holanda, com uma criança nos braços, já que a esperavam para um casamento combinado de duas famílias ricas.

Me pareceu uma jovem fria, pois te colocou nos meus braços, sequer sorriu ou te fez um afago, virou as costas se foi.  Tampouco perguntou pelo teu pai, que no momento estava no Texas, eu ao contrário me apaixonei por ti no mesmo momento.  Já tinha te visto nos meus sonhos.

Teu pai como apareceu, sorriu, te pegou nos braços, fez um afago, em seguida passou para os braços da senhora que te amamentava, no dia seguinte desapareceu novamente.  Nunca mais o vi.

Eres diferente dos demais, tens os olhos azuis, teus cabelos são castanhos, quase loiros, então para os outros garotos não eres daqui.

Seu avô vinha vê-lo toda semana, enquanto teve saúde, quando fez 20 anos, teve um derrame, agora era ele quem ia visita-lo.  Sem se importar com o que diziam os demais.  Assumia que era diferente, mas também agora tinha dois metros de altura, os cabelos cortados rente a cabeça, estudava direito, com uma bolsa de estudos de atletismo, bem como por suas boas notas.

Acabou a universidade, semanas depois seu avô já muito frágil morreu, mas ele estava ali ao seu lado segurando sua mão.   Lhe disse baixinho, nunca deixe teu filho desatendido.

Na hora pensou que o avô estava delirando, pois era assumidamente gay.  Acompanhou todo o ritual de seu enterramento, foi como ele queria.  Muitos cânticos na língua ancestral.  Ele se comoveu muito com isso.

Mas tinha um problema com empregos, primeiro olhavam o seu nome, tão holandês, depois viam que só constava o nome do seu pai no registro, nunca o de sua mãe, que nem ele sabia como chamava.

Ficava um tempo, como ajudante, logo encontravam uma maneira de o colocarem na rua, o jeito foi entrar para a polícia.  Tinha corpo, falava línguas, inclusive a de sua tribo, isso lhe facilitava, logo era inspetor, tinha um excelente raciocínio, bem como sentido de observação.  As vezes saia para beber, caiu na mesma esparrela de seu pai, conheceu uma garota linda, loira, fez sexo com ela uma só vez.   Em seguida apareceu grávida.  Ficou vivendo com ele, mas sentia falta da Holanda.  Quando seu filho nasceu, lhe deu o mesmo nome, mas desta vez a criança tinha o nome do pai e da mãe.   Nunca se casaram, mas ela não perdoava seus deslizes com outros homens.    Um dia anunciou que tinha falado com um advogado, tinha direito a ir embora com seu filho.  Ele não teve jeito, adorava o garoto, mas abriu mão.   Agora todas as férias ia até lá para ver, passar uns dias com ele.    Ela se casou com um homem rico, que queria adotar seu filho, isso ele se recusou.

Agora trabalhava com o Governador, que tinha sido um companheiro de universidade.  Quando esse fez uma viagem a Holanda, ele foi junto, assim poderia ver seu filho.  Se escreviam sempre, nada de e-mails, o Hope, não Hoop, como lhe chamava, era muito inteligente.  Faria agora 15 anos.   Quando o viu, quase de seu tamanho, tinha esticado muito no último ano, ficou emocionado.  O apertou contra o peito, era muito parecido com ele, a grande diferença era, que tinha os cabelos loiros.

De noite no hotel numa conversa franca, perguntou ao pai, porque não ficava, queria viver com ele, o conhecer.   Estava farto da vida que levava com sua mãe, o marido desta era o mais superficial possível.  Viviam de festa em festa, o queriam mandar para um internato.

Falou com seu chefe o governador de Minnesota que acompanhava, esse lhe conseguiu que como a mãe holandesa, além de seu filho, um emprego como policial, mas logo se destacou, o duro foi conseguir que seu filho viesse viver com ele.  Mas o garoto falou seriamente com o juiz, estava farto da vida que levava, tudo é supérfluo, quero ter os pés na terra, como meus ancestrais índios.      O juiz lhe concedeu a custódia do garoto, mas teriam que se apresentar a cada seis meses, com as notas do colégio.

Hope, não só teve que se adaptar ao novo colégio, bem como ao apartamento que iriam viver, era pequeno em comparação com a casa que vivia antes, ria dizendo aos seus colegas que o apartamento inteiro, cabia no seu antigo quarto.   Mas estava feliz.  Seu pai lhe ensinava a língua da tribo a qual pertencia.

Os dois juntos na rua chamavam atenção, eram super parecidos, altura, maneira de andar, de sorrir.  Um dia foram parados na rua, queriam que posassem para uma revista de moda, Hoop disse que era policial, tinha que pedir licença, falou com os superiores, lhe permitiram, comentou com o juiz, esse riu, realmente juntos vocês formam um par incrível.

Os dois posaram lado a lado, para uma coleção.  Hoop não aparentava a idade que tinha, logo foram chamados para fazer um filme, Hope fazendo de jovem ele de mais velho.   Logo apareceu outro contrato, para um filme aonde faziam pai e filho.  A mãe não gostou muito, no fundo tinha ciúmes, pois eram mais conhecidos do que ela.

Se o filho estava junto, pediam autógrafos a ele, ela deixava de existir, apesar de estar na moda, ser bonita.   Um dia uma garota que pedia autógrafo a ele, disse que poderia ter uma namorada mais jovem, que esta estava velha.  Ficou furiosa, primeiro porque disse que era sua mãe, isso a fazia aparecer mais velha ainda.

Quando foram chamados para um filme no Canadá, precisavam de sua autorização, se negou, apesar do Hope estar de férias.  Quem deu a licença foi o Juiz.  Depois da filmagem, foram a Minnesota, passar uns dias com a tribo.  Tinham visto os filmes que tinham feito.

Dali foi um pulo para fazerem um filme em NYC, mas antes, respeitando a lei, foram a Amsterdam pedir autorização ao Juiz.   Seria a última vez, pois meses depois Hope faria 18 anos.

Hoop fez seu primeiro filme sozinho, pois seu filho tinha entrado na universidade, disse que seu pai tinha direito a voar só.

O filme foi um sucesso, fazia o papel de um detective baseado num livro de um escritor, era um personagem que tinha a ver com ele, pois era rejeitado pela sua família, bem como pela comunidade indígena, nada mais perfeito em sua vida.

O filme fez tanto sucesso, que imaginaram transformar em série.  Com o filho vivendo com ele, seus romances era de beija flor como ele dizia, de aventuras de uma noite.  Até o dia que Hope, apareceu com um namorado.   Ficou surpreso.   Pois era um rapaz com antepassados índios também.   Estudavam juntos, tinham planos de abrirem um escritório de designer.   

Hoop, vinha economizando dinheiro de todos os filmes, para o futuro de seu filho, não queria que ele passasse pelo que tinha passado.   Admirava o talento do filho, para o desenho, era um rapaz criativo, sabia se mover nos meios de comunicação, falava várias línguas.

Quando expuseram seu primeiro trabalho, conseguiu que saísse publicado no Vogue, porque conhecia o pessoal da redação, tinha posado para eles no passado.   Lhes davam força, pois não tinha ficado preso ao peso da fama de manequim, tampouco de ator.

Se viravam em vários meios, tanto podiam fazer um cenário, como compor um figurino de um espetáculo.   Hoop estava sempre atento, falava sempre com ele, que tivesse cuidado com as drogas.

Um dia apareceu chorando em casa, seu namorado, estava preso, por porte de drogas, nunca suspeitei, embora ultimamente o visse agitado demais.  Não sei o que fazer?

Primeiro vamos o ajudar a sair dessa, se podemos, segundo fale seriamente com ele.  Se não consegue viver sem isso, acho melhor voltares para casa.  Até agora vocês não abriram oficialmente uma agência.  Podes fazer isso sozinho.

O rapaz como todos, prometeu se comportar, mas um mês depois de Hope ter voltado a viver com o pai, apareceu morto numa sarjeta, com uma over dose.

Ele não deixou o filho um instante sequer, aceitou fazer um filme em Paris, o levou com ele, logo eram requisitados para trabalhar juntos.  Mas Hope não queria, conseguiu um contrato para fazer justamente o figurino do filme que o pai fazia.

As revistas comentavam que era impressionante, como Hoop se mantinha jovem, ele sem pensar, tirava uma foto do avô, com 90 anos, com pouquíssimas arrugas na cara, bem como um corpo fantástico.   Na foto estava sem camisa numa cerimônia.   Ele agora contracenava com companheiras que podiam ser sua filha.

Mas voltaram para NYC, Hope, abriu seu escritório, seu pai fez questão de ajudar, venho economizando a muitos anos para isso. Siga seu caminho, já sabes o que acontece se te desvia para as drogas.    Ele tinha visto a caída do homem que tinha amado, passou a ter horror a qualquer contato com pessoas que usavam drogas.

Hoop, conheceu um diretor de cinema, o queria contratar para fazer um filme de conotação gay, um professor de universidade que se apaixona por um aluno.   Ele se apaixonou foi pelo diretor do filme.  Começaram uma relação, nunca tinha tido nenhuma, mas avisou, meu filho está em primeiro lugar.

Geoffrey, ou Geo Turner, respeitava isso, em seguida rodaram um filme pesado, no meio da neve, foi um sucesso incrível.   Quando o chamaram para dirigir um filme de cowboys, índios, ele aceitou, desde que Hoop fizesse o papel principal.   Deixou os cabelos crescerem, brincando o chamavam de centauro, pois parecia fazer parte do cavalo.  Ao fazer esse filme, sentiu que a partir do momento que o avô o tinha mandado estudar em Saint Paul, perdido o elo com sua cultura.   Tinha dinheiro suficiente, comprou umas terras ao lado da reserva.  A casa caia de podre, trouxe o filho para ver como arrumar tudo.

Quando Geo Turner foi para Hollywood fazer um filme, ele desta vez ficou, disse ao filho, creio que ele deve seguir seu caminho, eu já percorri o meu, é hora que me reconcilie com meu passado.   As terras tinha umas montanhas no fundo, estava pensando em criar cavalos, foi até lá, encontrou gente de sua tribo colocando numa caverna, um morto, se lembrou que tinha vindo trazendo seu avô.   Concordou com a tribo que podiam seguir seus ritos.

Um dia foi lá com Hope, explicando que tinha permitido, apesar da montanha estar em suas terras que continuassem usando para os ritos.

Ele agora tinha o hábito de ir até lá, voltava diferente, mas não comentava com o pai o que era, um dia foi a reserva falar com o xamã, voltou alterado.

O senhor sabia que seu avô era xamã?

Acho que sim, nos separamos eu era um garoto, pois ele não queria que eu sofresse o bullying dos outros meninos da reserva.   Antes de morrer, me disse uma coisa que me impressionou, que eu cuidasse de meu filho, coisa que não tinham feito meus pais.

Pois cada vez que vou a caverna, os espíritos vem falar comigo, o senhor me ensinou a língua de nossa tribo, mas a língua que falam comigo é mais antiga, como falam em minha cabeça, entendo tudo.

Um deles que é alto, descreveu o bisavô, sempre fica sentado ao meu lado, sou capaz de sentir a mão dele em cima da minha.  Diz que lamenta não ter podido me esperar, mas que era muito velho.   Que eu sou a reencarnação, do único xamã da tribo, que era um garoto loiro, que tinha sido raptado dos homens brancos.   Nessa noite sonhei com ele, quando os homens brancos o recuperaram, ele não se adaptou a viver com eles, sentia que os espíritos o chamava, veio para estas terras, se escondeu nessa caverna, até que desistiram de procura-lo.

Aqui se assentou depois com sua tribo.  Fala em minha cabeça, essa língua tão antiga, por exemplo está dizendo agora que não deves misturar essa raça de cavalo, que deves procurar depois das montanhas em tuas terras, que existem um grupo de Mustang, que deves trazer para cá, éguas, uns quantos potros, criar uma manada tua com eles.   Te farão famosos, em especial um malhado que corre como o vento. 

Reuniram mais dois cowboys índios, sabiam aonde estava essa manada, os encurralaram numa ravina, conseguiram fazer o que ele dizia, mas o Mustang que os velhos tinham falado, sequer deixavam chegar perto.  Hope desceu do cavalo, deixou que a voz que falava em sua cabeça, fosse falando com o animal, este se tornou dócil ao momento, foi seguindo Hope em seu cavalo, até a fazenda.    Tinham montado um espaço muito grande para eles, ele primeiro o acostumou que se aproximasse para passar uma escova, pois tinha o pelo mais largo que os outros, parecia um gato quando ele fazia isso.   Um dia Hope de um salto, subiu ao mesmo, não precisou ser domado.   Mas nenhum dos cowboys se atrevia, sequer se aproximar, pois ele investia.   Um dia um desses índios, trouxe seu filho, um garoto de uns 12 anos, que todos diziam que era retrasado mental.   Quando viram ele estava no cercado com o Mustang com a cabeça apoiada no seu ombro.   Deram o nome do Mustang de Happy, o garoto ficou na fazenda, no primeiro dia queria dormir na varanda.  Com muito custo Hope o convenceu a dormir num sofá de couro do salão ao lado da lareira.   Quando o inverno chegou, tinha um celeiro grande para os Mustang, outro mais afastado para os outros cavalos.   Não houve jeito, o garoto levava uma manta, dormia ao lado do animal, quando viam pela manhã, metade da manta estava em cima do mesmo.  O pai estranhava pois o garoto nunca tinha falado uma palavra em sua vida, agora falava a língua ancestral com o mesmo.   Hope um dia o levou a caverna.   Ele foi direto a uns desenhos na parede, disse que tinham sido feitos por ele. Que era filho do índio branco.

Nunca mais voltou para a reserva.  Quando lhe perguntavam o nome, ele dizia o que tinha antes, que era difícil de falar.  Acabou ficando com o nome de Appaloosa. 

Depois que Hope fez instalar uma antena, podia trabalhar desde ali, com internet, porque volta e meia aparecia alguém com uma criança para ele olhar.

Começou a cultivar com Appaloosa uma horta de ervas, que ele mesmo preparava coisas.

Foram a uma encontro de tribos, levando alguns cavalos Mustang já domados para vender, pois se reproduziam bem.  Foi difícil convencer o Appaloosa de ir, queria ficar ali com seu companheiro.   Dava gosto ver os dois cavalgando pelos campos.

O encontro foi produtivo, mas era interessante ver o Hope, com uns cabelos imensos loiros, presos numa trança ou duas, conversando sentados com os velhos. A maioria eram xamã de suas tribos.   Uma noite um grupo de jovens com tapa rabos, dançavam em volta da fogueira, sem se dar conta Hope tirou a roupa, agarrou um tapa rabos que estava por ali, soltou os cabelos, começou a dançar, cantar com uma voz impressionante, com a cabeça jogada para trás, os velhos diziam que ele estava falando com a lua que estava cheia.   Os outros jovens primeiro ficaram parados, mas depois se incorporaram.

Hoop já estava novamente também com os cabelos largos, mas completamente brancos, de um canal de televisão vieram gravar um vídeo de notícias, saiu em muitos tele jornais.

Dias depois, recebeu uma chamada do Geoffrey, perguntando se podia ir até lá.

Aparentemente estava mais velho do que ele.  Mas foi como reencontrar com um velho amigo.

Este pensava que o encontro seria como reencontrar um velho amante, mas se deu mal, pois encontrou só um amigo.  Hoop já não estava interessado.

Tinha uma espécie de relacionamento com o pai do Appaloosa, coisas sem compromissos, principalmente quando acampavam no campo.   Foram ficando cada vez mais próximos, até que o mesmo veio viver ali, com a desculpa de estar perto do filho.

Os dois amavam ficarem sentados de noite, na varanda da casa, falavam sobre cavalos, sobre as éguas que estavam para parir, quem as apontava era Appaloosa, os cavalos vinha comer em sua mão, os potros o seguiam como se fosse seus companheiros de jogos.

Ficaram sabendo quem era sua mãe, uma mulher que o pai tinha conhecido de outra tribo, que viveu só para que ele nascesse, não chorou após o parto, só foi falar quando veio para ficar ali.

O romance dos dois era impressionante, quando Hoop comentou com o pai, este respondeu honestamente, o conheci quando era garoto, era um bom estudante, mas não teve oportunidades, já amava os cavalos, como o filho.  Fazer sexo com ele, é uma coisa impressionante, pois me sinto realizado, já não posso despertar de manhã, se ele não está na cama, nunca pensei em querer uma pessoa assim.  Agora na minha velhice, tenho um companheiro que conheci em garoto, acho isso fantástico, perguntou isso ao filho, pois sempre o via sozinho.

Pai, pouco me sobra de tempo, os do clã querem que eu participe das reuniões, já não me veem como um estranho.  Pois falo a língua ancestral com os velhos, se esses me aceitam, os outros se calam.  Mas a verdade nem sei por que não sinto necessidade de ter alguém, um dia isso acontecera, já veremos.

Ele vinha ensinando ao Appaloosa a estudar, começou quando o viu com um livro na mão olhando os desenhos, perguntou se queria saber o que dizia as palavras.  O ensinou a ler e escrever, descobriu que tinha uma inteligência superior.   O convenceu de fazer uma prova para o situar na escola.    Na escola indígena ele superava a todos. O jeito era o levar todos os dias a Saint Paul, para ir à escola, nunca tentaram fazer bullying com ele, por seu tamanho, sua força.  Acabou indo fazer veterinária, todo mundo ria, porque os cachorros, gatos, animais de estimação, quando o viam, corriam para ele, como se soubesse, ele vai nos entender.

Raros era os animais que tocava que não se curavam.   Os cavalos, isso já era normal.  Um dia um proprietário pediu que fosse ver seu cavalo.   Era um negro imenso, estava deitado no chão se negava a se levantar.  Ele se deitou ao lado do cavalo, começou a falar com ele.

Quando se levantou, disse ao proprietário, o senhor o tem para procriar, pois foi um cavalo de corrida, não o deixa correr livremente, seu semem pela idade já não funciona direito, já não te dá lucros.

Então não me serve mais.

Acabou o vendendo, o levou para a fazenda, o soltou com o Happy, esses pareciam correr como loucos, estavam sempre juntos.  Quando os colocavam com as éguas, as montavam como numa disputa, de quem fazia mais.   Logo a reprodução dos dois era impressionante.

Black como o chamava Appaloosa, voltava a se sentir vivo.

Seu antigo dono quando soube ficou uma fera, se sentia ludibriado.  Mas ele não permitia que o cavalo montasse as éguas, simplesmente sacava seu semem.

Um dia apareceu com uma escopeta lhe deu um tiro na cabeça, Happy reagiu lhe dando um coice na cabeça, foi uma confusão geral.   Appaloosa, nada pode fazer pelo Black, ficou ali com a cabeça do cavalo no seu colo.  O xerife quando os herdeiros reclamaram, disse que o culpado era seu pai, pois tinha vendido o cavalo de papel passado, então não tinha direito a mata-lo.

Se o outro cavalo tinha reagido, era porque estava no lugar errado.

Happy agora andava triste, até que os potros, nasceram, corriam livres com ele, todos ou eram malhados como ele, ou meio negros como o Black.

Os velhos escolheram Hope para ser o xamã da tribo, a partir do que lhe ensinava as coisas, disse que não tinha mais idade.  Era ele agora que tentava segurar os jovens, orienta-los para estudarem, que não bebesse, falava com eles sobre as drogas, que não eram outros que traziam, mas sim alguns da tribos que iam para a cidade, se perdiam.

Quando voltaram a reunião das tribos, pediram ao Hope para conversar com um rapaz, de outra tribo, estava destinado a ser um xamã.  Hoop quando viu o rapaz, pensou que era uma mulher, voltou com eles no carro sem dizer nenhuma palavra.  Depois em casa, Hope conversou com o pai, o caso era complicado, normalmente as tribos escolhiam como chamam, um índio que não iria se casar, para dedicar-se completamente a tribo.   No caso do rapaz, ele era hermafrodita, se conhecia muitos casos nas tribos, por os casamentos consanguíneos, na atualidade, se tratavam, escolhiam o que gostaria de ser, mas nesse caso a complicação era que o rapaz, dizia que tinha dias que se levantava se sentindo homem, outros dias se sentia mulher.  Não queria se operar, mas sim seguir a tradição, ser xamã.

Hope o levou a caverna, para ver se ele podia ver os espíritos.   Nada, esses ao contrário falaram com ele, que o levasse até uma parte aonde se via um outro enterramento, coberto com barro.   Bata no barro foi o que lhe disseram para fazer.

O rapaz o fez, esse se rompeu, apareceu uma figura coberta de barro, como mumificada, era o próprio.   Era hermafrodita, também, este imediatamente pode finalmente ver espíritos.  Ficou dois dias ali acompanhado do Hope, somente bebendo água.

Agradeceu muito a ajuda, mas tinha decidido ficar como estava, embora sofresse de vez em quando bullying dos outros.  Ficou na fazenda, apesar do inverno, dormia no celeiro, junto com Appaloosa, no meio dos cavalos, montava como ele a pelo, nunca usando cela.

Conversava com Appaloosa, sobre sua situação, este disse ao Hoop, que tinha até uma certa inveja, pois o via como uma pessoa completa, um homem e mulher ao mesmo tempo.

Agora os acompanhava a caverna para a iniciação, quando Hope lhe perguntou, ele quis fazer a iniciação junto.    Um dia caminhando por ali, encontrou uma entrada de outra caverna, escondida por espinheiros.   Era como se ali tivesse vivido alguém escondido muito tempo ou mesmo numa iniciação.  Os desenhos na parede contavam uma história.  Hope fotografou tudo para poder analisar com calma.  Descobriu que se tratava justamente da figura da múmia, contando sua história.    Ao parecer, vinha fugindo de outra tribo, ficou escondido anos ali na gruta, até que a tribo voltou para esse lugar, foi durante muitos anos xamã da tribo.

Tinha morrido justamente nessa gruta, depois levado para a outra.

O mais interessante é que entre Appaloosa e Yupi, como se chamava o outro índio, nasceu um relacionamento, os dois eram loucos por cavalos.  Hoop nunca perguntou como faziam sexo, os dois construíram entre eles, numa parte que lhes deu, uma casa, passaram a viver no meio do campo, com os cavalos soltos em volta.   Eram como seus guias, aonde iam, os cavalos acompanhavam.    Os da reserva, quando tinham problemas com qualquer animal, trazia até os dois.

Hoop já estava com quase 85 anos, quando começou a sentir os achaques da velhice, embora ainda montasse.   Agora entendia o avô, quando o visitava na reserva.   Já queria passar mais tempo sentado da varanda, observando os outros trabalhando.  Hope passava com o pai, todo tempo possível, tinha agora como ele, seus cabelos compridos, cinzentos, o branco misturado com o loiro.   Continuava indo as reuniões dos índios, era respeitado como um xamã especial.

Hoop morreu sentado na varanda, vendo os cavalos correrem livremente no pasto, tinha realizado muitas coisas na vida, se sentia tranquilo.   Como tinha pedido, o ritual foi todo na caverna, envolveram seu corpo nu em um pano fino, depois foi coberto do barro que existia ali, vestido, deixado numa espécie de lugar cerimonial.  Appaloosa com Yupi, desenharam na parede a história de sua vida, para ser perpetuado.

Hope, anos depois voltou a vê-lo em espírito, ficava feliz em poder falar com o pai que tanto amava.

Seguia cuidado dos índios da reserva, ao mesmo tempo que ajudado por Appaloosa, cuidava da fazenda.     Anos depois adotou duas crianças gêmeas, que a mãe tinha morrido no parto, ninguém sabia quem era o pai.  Como ninguém os queria, assumiu ele a educação dos meninos.

Um tinha o nome de seu pai, Hoop, outro o seu Hope. Se divertiam confundindo as pessoas, mas não enganavam Appaloosa, nem ao pai.

O rebanho de Mustang agora era grande, a grande maioria eram descendentes de Happy, bem como de Black, até que nasceu um que era como o brinquedo dos meninos, era tão especial como eles, tinha a metade do corpo para a cabeça branco, do meio do corpo para traz negro, os olhos azuis quase brancos.   Aonde os meninos iam, ele ia atrás.

A Hope parecia como uma continuidade de tudo que tinha visto com os cavalos.

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 7 de junio de 2021

TIRO E QUEDA

 

                                              TIRO E QUEDA

 

Porra, mais uma entrevista, com perguntas capciosas.    Tinha mudado sua conduta, agora, ou as ignorava totalmente, ou conforme o entrevistador ou jornalista que fazia a pergunta, soltava, mas eu comi teu cu, me lembro que estava sujo.

Não que tivesse problema de reconhecer sua sexualidade ou suas preferencias na cama, mas ficava de saco cheio que invés de perguntarem sobre o filme, sobre o que ainda estava fazendo no momento, sempre tocava no que tinha escrito seu agente.  Um livro que em seu momento foi explosivo, ao qual ele não deu a menor atenção, pois no momento estava rodando um filme no Japão.  Sobre um cowboy que acaba misturado com os samurais.

Não sabia, se por causa do livro, ou realmente o trabalho era bom, tinha feito um sucesso incrível.  Detalhe, ele nunca via os filmes que fazia, lhe aborreciam, pois se lembrava de cena por cena que tinha feito, algumas delas várias vezes, porque algum ator ou atriz tinha esquecido o texto.   Ele nunca tinha esse deslize.

Como no momento perguntava ao ator que tinha contracenado com ele, se desligou um pouco, estava pensando que devia escrever realmente suas memórias assim lhe deixariam em paz.

Quando a pergunta voltou ao seu telhado, respondeu corretamente o que queriam saber.

Menos mal, que teria agora um tempo de relax, para cuidar de sua casa em Malibu.

Saiu da entrevista, subiu no 4X4 que estava na garagem do hotel, saiu por detrás do mesmo, assim escapava sempre dos fãs.  Nunca tinha como se esconder, por ser alto demais, um tipo de dois metros de altura, forte, com os músculos bem marcados, achava interessante sempre lhe perguntarem isso.   Como tinha um amigo que tinha um ginásio, dizia que fazia exercícios lá, mas dizia isso porque era sócio do sujeito.   Tinham ido para a cama durante um tempo, até chegarem à conclusão que era melhor serem amigos.

Sentiu que sua cabeça começava a divagar, tinha que tomar cuidado pois o tráfego estava complicado.   Entrou num estacionamento de um supermercado, parou embaixo de uma árvore por causa do sol.  Soltou sua cabeça, ultimamente isso acontecia com frequência, estou ficando velho, isso sim, me lembrar de coisas do passado.

Era o filho mais jovem de um casal que tinham uma pequena fazenda no Oregon, tinha saído diferente totalmente dos irmãos.  Ele era loiro, olhos azuis, pele clara.  Nem podiam dizer que tinha sido trocado na maternidade, pois tinha nascido em casa.   Tampouco que sua mãe tivesse traído seu pai, pois mal saia da fazenda.     Os irmãos, se deliciaram com ele, a diferença era grande, sua mãe pensou que estando na menopausa não precisava mais tomar cuidado.  Já tinha quase cinquenta anos quando ele nasceu.

Nada de escola, mal se colocou em pé, começou a trabalhar, estavam sempre lhe dando ordens, aprendeu a ler e escrever por causa de um trabalhador da fazenda que ficou com pena dele, o ensinava de noite.   Seus pais viviam na cabana, que era mínima, os irmãos conforme fosse ficando grandes, iam viver com os cowboys.   Esse homem, Manuel, era filho de mexicanos, mas tinha ido a escola, sempre estava lendo algum jornal velho, ou um livro que tinha encontrado em algum lugar, viu que ele tinha curiosidade o ensinou.

Os irmãos tampouco saiam muito da fazenda, quando muito iam uma vez por mês com os outros cowboy a cidade, só que esses tinham dinheiro, eles tinham que pedir ao pai.

Este achava que tendo casa, comida e roupas, tinham que trabalhar grátis.   Até que seu irmão mais velho, conheceu uma garota, se mandou com ela, indo trabalhar com um dos homens que seu pai mais detestava.

Tiveram que escutar uma ladainha meses seguidos, sobre os filhos traidores.

Ele era um bom observador, via sempre aonde seu pai escondia dinheiro, mas ficava quieto.

A primeira vez que foi a cidade com os homens, tinham com eles um cowboy novo, um tipo raro.  Não falava muito, fazia seu trabalho, depois se fechava, lendo algo, com um cachimbo na boca.   Sentava-se a mesa para comer, enquanto rezavam agradecendo, ele ficava como o garfo, faca, um em cada mão esperando para começar a comer.

Nesse dia, bebeu um pouco, não estava acostumado, saiu do bar para mijar no beco, foi agarrado por detrás por esse cowboy, quando se voltou, ele o beijou na boca, abaixou suas calças ali no escuro, colocando seu membro para fora, ficou chupando.   Ele adorou aquilo, nunca tinha feito sexo, nem sabia como se comportar.

Na volta veio sentado ao lado dela na caminhonete, sentido o calor das suas pernas.  A partir de então se encontravam as vezes no celeiro para fazer sexo.

Um dia seu pai, pegou os dois, ficou uma fera, colocou o cowboy para fora da fazenda, ficou sem falar com ele dias.     Um dia o chamou, não disse nada, lhe deu um envelope, disse que não o queria mais ali, que ele fosse a vida.   Primeiro ficou furioso, já tinha visto os irmãos fazerem sexo com os outros cowboys, mas ninguém o defendeu.   Sua mãe ficou sentada num canto, com um pano de prato nas mãos, enxugando as lágrimas.  Não tinha ainda 18 anos completos.

No dia seguinte, quando todos saíram, ele entrou furtivamente na casa, roubou mais dinheiro, um dos cowboys o levou até a cidade.    Chegou justo a tempo de pegar o primeiro ônibus que saia.  A partir de então sua vida foi um eterno trocar de empregos, escondia o máximo o dinheiro que ia ganhando, quando se cansava de uma cidade, trocava por outra.

Estava trabalhando perto de Albuquerque num posto de gasolina, limpado um carro de uma velha, para não sujar se macacão, o enrolou na cintura, ficando com seu peito desnudo ao sol.

Foi quando viu um homem se preparando para fazer fotos.   Disse que nem pensar, sempre tinha um idiota lhe fazendo fotos. O homem se apresentou como um fotografo caçador de talentos.     Marcou com ele depois do trabalho, no motel atrás do posto de gasolina.

Fez muitas fotos dele, semidesnudo, mas quando viu o seu caralho ficou como louco, fizeram sexo, agora ele já sabia o que gostava.  Deixava os homens loucos, com o seu corpo perfeito.

O fotografo disse que voltasse no dia seguinte, que ele ia revelar as fotos.   De fato, no dia seguinte, passou no posto de gasolina, lhe disse, caramba, as câmeras te adoram, ficas fantástico nas fotos.

Nessa noite depois de fazerem sexo, o convidou para vir com ele para Los Angeles.  Creio que pode ter oportunidade no cinema.

Tanto falou que foi com ele, mas alugou um pequeno apartamento em cima de uma garagem, enquanto não aparecia nada, ele ficou ali trabalhando.

O Fotografo, James Marcuso, o levou finalmente a um agente. O homem o examinou como se faz com um cavalo, o fez mostrar seus dentes, passou a mão pelos seus cabelos rebeldes, o fez tirar a roupa, se sentiu uma puta em exibição.   Mas o fotografo fazia sinal que ficasse quieto.  O mandou ler um texto, apesar de ler mal, gostou da sua voz.

Na semana seguinte começou sua transformação, dentista para colocarem próteses nos dentes, para ficarem perfeitos, o levou para uma professora, que o ensinasse a ler direito, a entender os textos dos filmes.    Era uma senhora alemã que tinha feito cinema na época do cinema mudo.

Esta o ensinou tudo, a andar, sentar-se, comporta-se numa mesa, segurar um cigarro, um copo de bebida.   A adoraria para sempre, diria depois no seu enterro, que devia tudo a ela, esse personagem criou ela.     O principal, lhe foi clara no primeiro dia, com tua altura, teu corpo, serás sempre o macho alfa do filme.   Portanto, tua vida particular morre, a solução é criares um personagem que represente todo o tempo.   Para o resto, seja discreto.

Ele seguiu ao pé da letra.   Só lhe alertou de uma coisa, o studio que o contrate, vai querer te casar com alguma das estrelas em ascensão, que por acaso será nesse momento, amante de um diretor, ou um produtor.   Não aceite isso, pois pode ser uma maneira deles te controlarem.

Ficaria conhecido como o solteirão de ouro, nunca aparecia com ninguém, ia as estreias sozinho, bem como as entrevistas, nunca respondia, perguntas de caráter pessoal. Criando assim um halo de mistério.  Durante muitos anos, viveu num apartamento, que tinha duas entradas, bem como uma saída traseira, era por esta saída que entrava com seus amantes de uma noite.   Ao contrário dos outros atores, no seu apartamento não existia nenhuma foto sua, ou cartaz de algum filme, sempre dizia que ele se parecia com alguém, mas respondia, sou uma pessoa como outra qualquer.

Mas tampouco passava de uma noite com essa pessoa.  Era uma foda nada mais.

Quando fez seu primeiro papel principal, passou a tomar mais cuidado ainda, usava para sair um óculos como se fossem de grau, penteava seu cabelo de maneira diferente, criava como sua professora tinha lhe ensinado um personagem.

Manteve esse apartamento basicamente até alguns anos atrás.  Quando se ofereceram para o comprar, por muito dinheiro, pois queriam construir um shopping no local.

Era esperto, roubava roupas dos personagens, assim economizava dinheiro, tinha uma conta bem controlado, aprendeu com ela também isso, a administrar seu dinheiro.   Dizia, olhe o exemplo, não acabar como eu.   Quando soube que estava mal, a levou a um bom hospital, pagou seu enterro.

Nos primeiros tempos, fazia o studio a contratar, para o ajudar a compor o personagem, até que ela mesma lhe disse que ele tinha já uma bagagem, que deixasse que ela fosse cuidar de outra pessoa menos afortunada.

Depois disso era considerado um ator de respeito, nunca chegava atrasado, nunca estava bêbado, tampouco usava drogas, tinha um sistema, em sua cabeça era seu trabalho, o fazia perfeitamente, conforme pedia o diretor, depois ia embora para seu apartamento.  Tinha desenvolvido um amor incondicional com os livros, era um leitor assíduo.

Quando se livrou de contratos com studios, seu agente quis que assinasse outro, se rebelou pela primeira vez, disse que não, queria ter o direito de escolher o que fazer, com que diretor trabalhar.  Só assinava contrato por um filme, assim podia fazer o que queria.   Antes o agente lia o texto, o obrigava a fazê-lo, agora podia dizer que não.

Foi subindo, o agente antes lhe sacava 20%, se negou assinar nenhum contrato com ele, a não ser que fosse 10%.   Ficou uma fera, foi quando mandou vigiar tudo que fazia.

Mas não se importou, esse estava acostumado a ser um tirano com seus atores, a partir que ele se rebelou, outros fizeram o mesmo.   O culpava de tudo, inclusive como forma de vingança, começou a lhe esconder textos.   Avisou aos diretores, que o texto tinham que ir direto a ele.

Dez anos depois, estava farto desse homem, que cada vez estava mais amargo.  O mandou tomar no cu, quando tinha que renovar contrato, nem apareceu, mandou um advogado no seu lugar.   Foi quando ele escreveu um livro, contando como tinha descoberto Brad Wood, podia soltar mil podres do agente, mas achava que isso era iniciar um bate boca sem fim.  O melhor era ignorar, quando lhe perguntavam, não respondia nada.  O livro foi um fracasso, justamente por isso, os editores imaginavam que uma briga entre os dois resultaria uma promoção grátis.

Atores que tinham trabalhado com esse agente, começaram a ventilar os podres sobre ele, acabou ficando a margem do mercado, não lhe sobrando ninguém para representar.

Mas claro ficou o estigma que tinha uma vida dupla.   Quando um conhecido entrevistador lhe perguntou em um programa ao vivo, que tinha ido divulgar um filme que tinha feito com muito carinho pelo personagem.  Resolveu corta pelo sano.  Quem não tem vida dupla, por exemplo tu, tens uma amante, todo mundo sabe, mas o público, nem tua mulher não sabe.  O apresentador teve que pedir propaganda, mal conseguia falar.   O olhou na cara, dizendo, vê pimenta no cu dos outros é refresco.  Saia dessa agora.

Se fudeu completamente, a mulher lhe pediu um divorcio milionário.  O apresentador queria saber como ele sabia da amante. 

Ora escutei a mesma comentando com a maquiladora, que na cama eras uma merda.

Nunca mais o chamou para nenhuma entrevista, a não ser que fosse obrigado pelos produtores de seu programa.

Nunca mais nenhum apresentador se atreveu a perguntar nada para ele.

O que achava interessante, os encontros escondidos com o tempo deixaram de fazer graça, mas tampouco se apaixonava ou gostava de ninguém.   Gostava da sua vida, quando não estava filmando, estava fazendo alguma coisa que gostasse.

Mantinha um apartamento em NYC, para o caso de alguma filmagem lá, odiava ficar nos hotéis, quando começou a fazer filmes fora dos Estados Unidos, uma das exigências era uma casa, um professor de línguas, odiava as dublagens.  Por mais difícil que fosse, aprendia o texto, para falar ele, procurava a perfeição.   Agora depois do filme no Japão, tinha se divertido muito, pois era como um gigante no meio dos outros atores, mas se saiu bem.   O ator com qual ele contracenava tinha filhos, esses iam vê-lo na filmagem, se divertia com os garotos.

Um dia estava estudando o texto, um dos meninos, ia lhe corrigindo a pronúncia.  Acabou uma frase o garoto muito sério disse, vais falar isso?

Perguntou por quê?

Acredito que o personagem vai fazer papel de idiota, os japoneses quando forem ao cinema vão rir do personagem,   lhe disse como devia responder.

O diretor ficou furioso, pois era como querer agradar o público, o ameaçou de falar nas entrevistas sobre isso.

Ficou a resposta do garoto, antes de voltar, um dia foi jantar na casa do ator, ele quando soube que tinha sido seu filho, riu.   Esse garoto um dia será roteirista de cinema, o mandou buscar um texto que estava escrevendo.   Ele leu, disse ao ouvido do garoto, quando esteja pronto, me avisar, mas quero fazer o papel do mau.  Riram muito os dois.

O vizinho de NYC que recebia sua correspondência lhe avisou que tinha dado seu endereço a uma pessoa que queria lhe entregar um pacote.

Se esqueceu disso.   Quando estava em sua casa na praia, queria se desligar do mundo, tinha amizade com os garotos que viviam por ali, os que faziam surf.  Aprendeu com eles, depois de cair muito da prancha, até que aprendeu a usar uma Long board.

O sol, faziam com que sua pele ficasse morena, bem como seus cabelos, aonde começavam a aparecer fios brancos, ficassem queimados do sol.

Estava deitado na prancha esperando uma onda ideal, via na praia um sujeito de terno, achou estranho, mas ficou na sua.   Um garoto que voltava disse que o mesmo o estava esperando.

Pegou a primeira onda, viu que o mesmo tirava um celular, fazia fotos.  Quando saiu da água, o mesmo se aproximou se apresentando.   Disse um nome que ele entendeu como Olavo, mas o inglês do sujeito era complicado.   Apenas disse que tinha vindo a Los Angeles a negócios, era advogado, trouxe um texto que me pediram para lhe entregar em mãos.

O convidou para um drink na varanda de sua casa, para que lhe explicasse do que se tratava.

Bom represento um diretor de cinema, disse o nome, Öleg, se trata de um diretor novo, só fez dois filmes, lhe passou um envelope pequeno, isso se queres ver seu trabalho.   O texto é de outro cliente, foi investigador da polícia, escreveu um livro baseado num caso, tudo é verídico, esse caso abalou um pouco o pais.   Enquanto o outro tomava uma cerveja, ele tomou água.

Vou olhar com carinho, como faço com todos os textos que me mandam.

No outro envelope, tem o telefone do Öleg, caso queira falar com ele, mas lembre-se da diferença de horários.

Se despediu, indo embora.  Voltou para a praia, para aproveitar que o dia estava maravilhoso, com umas ondas fantásticas.

Depois de noite, sem querer ler ainda o texto, colocou um dos filmes, o viu do começo ao fim, sem fazer o que normalmente fazia quando lhe passavam algum, via um pouco do princípio pulava para o final.  O seguinte, foi igual, ficou preso ao roteiro, a crueza como retratava os personagens, quando viu já eram as cinco da manhã, foi para a cama, pensando, tenho que fazer um filme com esse sujeito.

Dormiu mal, pois não conseguia tirar da cabeça, cenas dos dois filmes, chegando a misturar um com o outro.   Despertou duas horas depois, ao olhar para a janela, viu que as ondas estavam como no dia anterior.   Para relaxar, pois se tenho que ler o texto, minha cabeça tem que estar livre de prejuízos.

Passou o dia inteiro na praia.  Conhecia uns rapazes que eram loucos por cinema, pediu que vissem os filmes, queria a opinião deles.   Ele nunca tinha feito nada do gênero.

De noite se sentou para ver o roteiro, imaginava que se fosse chato, dormiria ali mesmo no sofá.

Quando viu eram de manhã, tinha lido, relido, uma quantas vezes, voltava algumas cenas a imaginando em sua cabeça.    Não sabia qual era o personagem que iam lhe oferecer, mas sabia o que gostaria de fazer.

Tudo era novo para ele, se sentiu como a primeira vez que pode escolher ele mesmo o texto, que essa excitação de comandar sua própria vida.

Mal acabou de reler, passou a mão no celular, chamou, tinha se esquecido completamente a diferença horária, tampouco sabia se o mesmo falava inglês.

Perguntou por Öleg, disse quem era.   Escutou um silêncio largo, depois uma pergunta sabe que horas são?

Menor ideia, mas não importa, seguiu falando, que tinha gostado do texto, que estava disposto a conversar, que tomaria o primeiro voo para NYC, de lá de noite, pegaria um para Helsinki, que lhe reservassem um hotel, simples, desde que seja limpo serve, vá dormir garoto, amanhã nos falamos.

Fez uma maleta, pequena, pois tinha roupa para frio se fosse necessário em NYC, em Malibu, nunca usava roupas de inverno.

Quando estava comprando o bilhete para Helsinki no aeroporto mesmo, iria ao seu apartamento nada mais, tocou o celular, era o Öleg, estou surpreso que querias discutir o filme, aqui está nevando, faz muito frio.   Não se preocupe, estou acostumado.

Amanha de manhã nos vemos, disse o horário que chegava seu avião.   Foi ao apartamento, separou roupas para frio, se lembrou de um casaco que tinha roubado de uma filmagem no norte do Canadá, era de pele de ovelha.  Um gorro de outro filme, uma echarpe de lã que lhe tinha emprestado, mas nunca devolveu.  Luvas, blusas de lã de gola alta.  As pessoas achavam estranho, pois se tinha que rodar um filme com frio, ele era o único ator que nunca reclamava.

Queria sim, ter um termo com café quente sempre por perto.

Tinha comprado um bilhete de primeira classe, pois um voo noturno, com o tamanho de pernas que tinha era difícil aguentar.  Foi reconhecido nada mais ao entrar na cabine, por uma das aeromoças.   Lhe pediu que não falasse nada, estava fazendo uma viagem clandestina.

Depois de comer alguma coisa, mergulhou outra vez no texto, dormiu segurando o mesmo, até que esse numa sacudida do avião caiu no chão.  Se despertou com a mesma mulher lhe entregando o texto.   Excelente diretor.   Ele fez um sinal com o dedo na boca, que não comentasse nada.

Mas claro, quando o avião aterrissou, o comandante disse em inglês que tinham tido a honra de ter a bordo o grande ator Brad Wood, quem sabe vinha fazer algum filme na Finlândia, o que seria uma grande honra.

Teve que aguentar o suplício, de dar uns quantos autógrafos na fila de controle de passageiros.

Quando saiu, não viu nenhum cartaz, nada com o seu nome, ficou parado sentindo a brancura do lugar.  Até que lhe bateram no ombro. Se voltou pensando que era alguém que queria um autografo, ia soltar, esta me confundindo com alguém.

Era um homem jovem, mais parecia um garoto, estendeu a mão Öleg, tenho que me beliscar, nunca imaginei que ias vir realmente.

Tinha que prestar atenção ao inglês como ele falava, era um sotaque carregado, mas logo se acostumou.  Quando saíram fora, viu a neve, riu, isso me faz me lembrar da minha infância.

Lhe tocava sempre alimentar as vacas no celeiro, odiava isso, os irmãos escapuliam, mas essas tarefas tocava a ele.

Comentou isso com Öleg, esse riu, mesmo tendo demorado para entender.

Tudo parecia branco, a não ser algum edifício pintado ou com tijolos vermelhos nas paredes.

Era curioso por natureza, o levou a um hotel, que de cara viu que era um cinco estrelas, ali não o deixariam em paz.   Quando ele parou na frente, soltou meio irritado, não gosto deste tipo de hotel, quero um mais simples, nada de luxo.

Queres ficar na minha casa?   

Como você achar melhor, vim conversar contigo, depois resolvemos isso.

Ele vivia num edifício moderno, abriu a porta de um apartamento, clean completamente, tudo era claro ou cinza.  Levou até um quarto que tinha mais cor.  É o quarto da minha mãe, quando vem me ver.    Tomou um bom banho quente, colocou umas calças jeans, sandálias, camiseta, quando saiu, viu que no salão, estavam um pequeno grupo.  Duas jovens, dois homens de mais idade.

Os apresentou, pediu desculpas, mas demoraria a gravar nomes.

Perguntaram se queria comer alguma coisa?

Café, muito café, pois quando discuto roteiros, gosto de fazer com café na mão.

Mal se sentaram soltou para o Öleg, que papel pensavas em me oferecer?

O papel principal, disse o nome do investigador.

Nem pensar, quero fazer o outro papel, o do seu ajudante, acho mais interessante, mais forte, mas duro.

A cara do Öleg era de surpresa.

Antes de mais nada, não sei por que me chamas de Öleg, esse é o nome do bandido da história, meu nome é Joki.

Ficou rindo, para mim tudo é novo, terás que me conseguir um professor, para me ensinar a falar direito o texto, isso é uma das minhas únicas exigências, não gosto de dublagem, tem que ser alguém que tenha paciência.

O problema Brad é que o ator secundário já assinou contrato, ele queria o papel principal, mas lhe convenci que esse era teu, que vinhas para cá por isso.

Quem é o ator principal?   Mas antes que respondessem, olhou em volta, se fixou num dos homens que tinha feito o papel principal nos outros dois filmes.

Soltou, amei tua interpretação nos filmes, falou sem parar uns 20 minutos, sobre os dois filmes que tinha visto.   Estavam todos de boca aberta.  Tinha analisado a interpretação do ator, acho que o papel principal tem que ser teu.

Esse riu, eu pensei que nunca ias aceitar esse papel, pois sabes que tem cenas de sexo, de beijos com outro homem.

Se levantou, foi até ele o levantou com os dois braços, o beijou na boca.  Bah, comeste salmão agora no café da manhã.   Todos se mataram de rir.

Sem problemas, mas se ficares de pau duro nas cenas, eu levo uma navalha te corto fora.

Em serio queres o outro papel, me explique por quê?

Eu li o texto tantas vezes, que fui construindo esse personagem.   Ele é policial, não tem um mando superior, nem sempre concorda com tudo que o chefe diz.    Mas se humilha, porque veio do interior do pais.  Tem medo de que falem dele, só é capaz de estar livre quando esta entre quatro paredes com o homem que ama.   Mas demonstra seu amor, na cena que quase morre, se colocando na frente do personagem principal.

Sabes que esse homem, levou entre a vida e a morte, muito tempo, hoje anda em cadeiras de rodas.

Isso, isso falta no texto, terminas muito abruptamente, tens que mostrar essa cena no final. Numa conversa com os dois.

Isso vai ser difícil, não coloquei isso no texto.  Que falava agora era o outro homem que se olhasse bem se parecia com ele fisicamente.   Se nega a falar comigo, diz que nunca soube retribuir o amor que sentia por mim.

Outra exigência, quero conhece-lo.

Fui eu que disse que serias o tipo ideal para me representar, somos parecidos fisicamente.

Uma merda, isso não é representar, me queres por minha estampa, para se sair bem na história, pois eu prefiro o outro.   Não sou muito de discutir, eu escolho o papel que faço, não os demais.

Não se pareces com ele, é mais baixo que tu, tem uma maneira de falar diferente, pois tem um problema de pronúncia de uma pessoa do interior do pais.

Pois que o professor seja daí, ou olhou para o relógio, que horas sai o próximo voo para NYC, vejo que perdi meu tempo.   Se o escritor vai mandar no filme, prefiro ir embora, eu confio no diretor.   Amei seus dois filmes que o senhor Olav ou como se chame me levou.

Esse é meu pai, disse Joki, é advogado, como ia para os Estados Unidos, lhe pedi se podia entregar o roteiro.   Então ele levou os dois últimos filmes que fiz, é isso, agora entendo como conheces o trabalho do Kaapo.

Caralho vou ter um trabalho colossal para aprender todos esses nomes. Quando falava Kaapo, parecia que estava dizendo capo, todos riam.    Vocês não me conhecem, se quero aprender uma coisa vou até o final.

Joki soltou, isso me disseram de ti.   Que eres cabeça dura.

Bom, primeiro, consiga um apartamento com menos moveis, pode ser aqui ao teu lado, mas terás que me aguentar, pois tenho mania de conversar ou discutir com o diretor sobre o texto, de como eu vejo, de como ele vê, mas sempre chegamos a um denominador comum.

Mas se não discutimos nem teu salário.

Quanto é? E o que significa em dólares?

Era muito abaixo do que ele cobrava.   Riu dizendo vais me pagar em prestação?

Ainda nos falta dinheiro para a produção?

Bom podemos fazer uma coisa, como eu fiz com o diretor japonês com quem trabalhei, eu entro na produção, mas terei uma porcentagem do filme.

Ele me disse que fizeste isso, que recuperou o investido, como paga uma parte do que ganha contigo.

Podemos fazer igual, tu consultas com teu pai.

Quando começamos a trabalhar?

Bom dentro de um mês.

Então, quero começar a aprender a falar o texto rapidamente, bem como quero conhecer o personagem.

O primeiro tudo bem, mas o segundo quase impossível.

Ficou quieto, isso conseguiria ele.  Vê se consegue um apartamento.

Outra coisa, quem escreveu o roteiro?

Fui eu respondeu o Joki.

Então não precisamos do autor, metendo o bedelho no assunto, se ele quer que o ator principal seja como ele, que ensine a parte, mas detesto gente metendo o bedelho numa filmagem.  Isso é entre nós.

O mesmo se sentindo ofendido, se levantou para ir embora, o outro ator, colocou a mão sobre a dele.   Entendeu que entre eles existia alguma coisa, mais isso não era problema seu.

Pegou uma caderneta que tinha fechada, abriu começou anotar os nomes, inclusive perguntando como se escrevia.

Quando ficou a sos com Joki, quer dizer que esse sujeito, me queria porque me pareço com ele, fico imaginando inclusive que me ensinaria a me comportar como ele.

Bah, odeio essas coisas.

Me livraste de uma boa, pois eu tinha escolhido o Kaapo, como ator principal, ele sempre trabalhou comigo.   Ele tinha ficado ofendido, com o fato de ter mandado o texto para ti, dizia que jamais aceitaria esse papel, por ser um papel de um homossexual dentro do armário.

O investigador, perdeu o emprego, porque sem querer esse caso saiu dos padrões daqui ele é sempre uma estrela, por sua culpa, morreram dois agentes, além do Oskari, ter ficado numa cadeira de rodas por culpa dele. 

Eu conhecia o livro, ele é cliente do meu pai, foi negociada a venda dos direitos de autor para o cinema, pois teve um divórcio desastroso, a ex-mulher ficou com tudo, além da pensão que paga aos filhos.     Ele escreveu o livro, para conseguir dinheiro, além da simpatia do público com ele.   Não gosta muito do roteiro, mas não pode fazer nada.

Acho que deverias conversar com o outro personagem para ficar mais real isso.

Entro uma das garotas, que disse que tinha conseguido o professor, é um estudante da universidade, diz que se tu melhoras a pronúncia dele no inglês te ensina a falar como o personagem, ou então temos uma velha atriz que é da mesma região, hoje dá aulas de teatro.

Gostaria de conhece-la?

No final do dia, tinha um apartamento ao lado do Joki, descobriria depois que o edifício pertencia ao pai.

A atriz, riu quando ele foi apresentado, disse quase todos os filmes que ele tinha feito, só não tinha visto o japonês.

Estou de férias, poderia acompanhar todo esse tempo, bem como estudarmos o texto como você gosta, dizem as más línguas que eres um ditador com isso.

Contou para ela como tinha começado, mal sabia ler, nem escrever, disse o nome da senhora que o tinha ensinado tudo.   Não só me ensinou direito, como me obrigava a ler livros, depois discutíamos o texto, foi assim que aprendi.   Tinha que descrever o sentimento que pensava que o personagem tinha.   Alguns personagens que fiz no começo de minha carreira, eram desses idiotas americanos, o macho alfa, mas depois que pude eu mesmo escolher os personagens, os textos, comecei a realmente a honrar o que ela tinha me ensinado.  A cada filme, falam do meu trabalho, não da minha pessoa.

Deu o texto para ela ler, no dia seguinte voltou, perguntou qual personagem o faria mais rico no sentido emocional?

O segundo personagem, está mal delineado, mas se descobrimos por que, pode ser um triunfo.

Dizem que está num hospital, mas me informei, dizem que não que já teve alta.  Faz fisioterapia em casa.

Conseguiu o endereço, quando chegaram, ao mesmo tempo chegava o terapeuta com um papel na mão.   O convenceu de deixar entrar em seu lugar.

Quando entrou, o homem era bonito, mas estava de mal humor, foi dando ordens, como um condenado soldado.

Quando o carregou nos braços até a mesa de massagem, ficou olhando para ele, lhe deu um beijo na boca. 

Que merda é essa, ficou olhando para ele, já sei quem eres, o ator americano que vem fazer o papel do filho da puta.

Segurou com suas mãos imensas o peito dele na cama.   Estás mal informado, o personagem que escolhi fazer eres tu.   Mas preciso saber da verdade para construir um personagem que seja real, me escute primeiro, depois me diga que sim ou que não.

Quando li o roteiro nos Estados Unidos, antes mesmo de vir para cá, tinha me apaixonado pelo personagem que representa a ti.    Para mim ele é o herói, não o outro, pois este deixou morrerem duas pessoas sem necessidades.   Creio mesmo que o teu personagem levou o tiro por puro instinto de salvar alguém.   Pelo que li do livro, do roteiro, eras um policial reto, com a cabeça bem plantada.

Veja o que eu ganhei com tudo isso?

Sim ganhaste, as pessoas merecem saber que você era a pessoa certa, não o outro que leva as glorias.  Mas por azar foi denunciado, perdeu o emprego.

Sim fui eu que o denunciou.   Ele tinha um trato com o filho da puta que me deu o tiro, bem como matou os dois policiais.   Tudo porque precisava impressionar seu novo amante com uma casa bonita, tinha ficado sem dinheiro com seu divórcio.

Fez o terapeuta entrar, bem como a senhora.

Eu a conheço do teatro, disse ele.

Sim, esta me ajudando a falar como tu, quero se seja perfeito, por isso preciso de ti.

Depois do terapeuta acabar, ele foi para a cozinha preparar um chá, o pegou nos braços como se fosse uma pluma, o sentou na cadeira de rodas, o levando para o salão.   Agora me conte a verdade disso tudo.

Ele de uma certa maneira tratou bem meu personagem, pois precisava na historia um personagem que fizesse contraponto com ele.

Depois que perdi o impacto de trabalhar com o melhor investigador, de ter um romance com ele, fui descobrindo que era a pessoa atrás da máscara.   A partir desse momento comecei a discordar de seus métodos nem sempre muito limpos, a ele não importava a vida dos outros, mas sim ser reconhecido como um grande investigador.   Quando alguma coisa saia mal, sempre era culpa dos outros, sempre foi um canastrão.  Representava, que lhe tinha dado as informações erradas, essa culpa caia em cima dos que não podiam se defender.

Quando descobri isso, comecei uma batalha com ele.  Um dia sua mulher me escutou discutindo com ele, tentava me convencer de ficar quieto, queria me dar um beijo.   Eu já não queria nada com ele.    Ele na cama era uma mulher, queria sempre ser penetrado, dizia que sua parte homem tinha em casa.   Ela escutou tudo atrás da porta.   Quando chegou em casa, já não estava mais, tinha ido embora com os filhos, pediu o divórcio, quanto mais ele tentava convence-la foi pior, pois contou para todo mundo o que tinha descoberto.    Eu não tinha sido o único, primeiro ele escolhia bem, depois convencia as pessoas de manterem segredo.  Quando descobria um brinquedo novo, transferia a pessoa para outra delegacia, ou para outra cidade.

Quando tentou fazer isso comigo, gravei a conversa, foi o que sua mulher usou no divórcio, pois a queria deixar sem nada.    A partir disso, tentou fazer da minha vida um inferno.

Os chefes acreditavam nele, até as denúncias que fiz, eu tinha tudo documentado, ele entrou aqui em casa, procurando os documentos quando eu estava no hospital, mas tinha guardado tudo num banco, bem como foi gravado fazendo isso.   Por isso teve que escrever o livro.

Vou trazer aqui o roteirista, ele pagou pelos direitos do autor, pode mudar tudo o que quiser, além de que eu além de ser um ator, vou financiar parte do filme.  Ele terá que te escutar.

Melhor, vamos fazer uma bolsa, ficaras comigo no apartamento que tenho ao lado dele.

Isso pode trazer problemas para ti.

Adoro problemas, sou tiro e queda nisso.

O Levou nos braços até o carro, Oskari, lhe disse que podia se acostumar a isso.  Lhe respondeu com voz rouca, eu também.  Estava excitado.

Quando chegou ao apartamento, chamou o Joki, o apresentou, primeiro escute nossa conversa, Oskari, ficou surpreso, ele tinha gravado tudo.    Mostrou uma caneta que levava na camisa, confesso que roubei de um personagem que fiz.

Joki, escutou tudo sem dizer uma palavra, para quem era jovem como ele, tinha uma cabeça fantástica.  Telefonou ao seu pai, pediu que viesse.  Depois de escutar tudo, o pai balançou a cabeça, sim podes mudar todo o roteiro com essa parte da história, para todos efeitos, eu não sei nada, amanhã renuncio a ser advogado dele, pois me mentiu.

Foi uma bela confusão, pois o outro entrou na justiça, mas não ganhou, tinha perdido o beneplácito de ser um grande investigador.   Agora daria margem a que as viúvas dos outros dois policiais, reclamassem um bom dinheiro da polícia.

Claro levou-se tempo para reescrever o texto, ele foi ficando no apartamento com o Brad, tinham largas conversas, ele tinha visto todos seus filmes.   Contou que quando o outro tinha vendido os direitos para o cinema, que seu ator preferido ia fazer seu personagem, não o de um perdedor.

Com isso, ele seguia sendo o papel principal, mas o outro papel era ainda o mais interessante, ao conversar com ele, foi pegando sua maneira de falar.   Um dia despertou com ele tendo um pesadelo, ficou um tempo segurando sua mão, acabou deitado ao seu lado na cama.

Foi um pulo para terem sexo, lhe contou que nunca tinha tido um relacionamento, normalmente nunca me envolvo com uma pessoa, tu eres o primeiro por quem estou apaixonado.

Um sujeito numa cadeira de rodas?

Não muda nada, tivemos um sexo para mim fantástico, as vezes nem sabemos por que, mas foi algo que não quero perder por agora.

Sem que Oskari soubesse foi falar com seu médico.   Esse disse que sabiam de um médico americano que se atrevia a fazer essas operações.   Por favor mande os exames todos, para todos efeitos, eu não sei nada.  Mas pagarei a operação se for preciso.

O médico disse que sim que poderia operar.  Quando Oskari soube, como era nos Estados Unidos, entendeu que tinha sido ele.

Mas fez pé firme, em acompanhar a filmagem, no meio da neve toda.  O tempo dificultava a filmagem, o ator principal, tinha estado ligado ao escritor, mas depois de ler o texto entendeu coisas que não tinha prestado atenção.   Agora representava o personagem com raiva. Como o diretor mesmo tinha serias brigas. Mas acabou atendendo a razão.   O filme era cru, como os anteriores.    Pela primeira vez, depois via o que tinha sido filmado.  Sua fama aumentou, como ele podia gravar uma cena, sem errar nada do texto, falando perfeitamente um finlandês do interior do país.    Inclusive com os palavrões que incluía, que tinha aprendido com Oskari.

Esse o ajudava a compor o personagem, até na maneira de andar, tinham diferentes altura, mas o corpo era similar.   Quando o filme estava em fase de montagem, discutiam algumas coisas, Joki queria fazer uma dublagem para o Inglês, para o filme ser apresentado fora da Finlândia, ele achava que não devia mudar nada.

Acabou concordando em fazer a dublagem, falando tudo em inglês, confessou que não gostou, preferia que tivesse letreiro.  Tanto bateu o pé que concordaram.

O filme se estrearia em Helsinki, mas iria ao festival de Cannes, quem sabe podia concorrer ao Oscar, bem como ao Bafta.    Em Cannes ganharam como melhor roteiro, melhor ator secundário, bem como diretor.

De lá foram para NYC, aonde Oskari foi operado, não saiu do lado dele, nem uma vez.  Ao mesmo tempo o filme era apresentado em NYC.  Ele foi a estreia, pela primeira ver tinha saído nu, em um filme, bem como aparecia na cama com outro homem, beijando o mesmo na boca.

Tinha o outro ator do lado dele, quando lhe perguntaram como era beijar esse outro homem, riu dizendo, mau, tinha que pedir que escovasse os dentes, ele adora comer salmon, me sentia beijando um peixe.   Todo mundo riu.  Além de que o ameacei, se ficasse de pau duro, eu o cortava, afinal agora sou um homem casado.  Isso pegou todo mundo de surpresa.

Pela primeira vez na sua vida, tarde como ele dizia, estava apaixonado por alguém.  Apesar da diferença de idade, queria estar com ele.

Quando Oskari, saiu do hospital, andando de muletas, alguém os fotografou.  Se negou a falar no assunto, tinha que discutir isso com ele.

Não me importo, pois na verdade todo mundo sempre soube que eu era gay.

De lá foram para Malibu, assim poderiam relaxar-se ao mesmo tempo que Oskari voltava a andar.                         Mas foram a entrega do Oscar juntos, ele concorria pela primeira vez como coadjuvante, não se importava, Joki, concorria ao de roteiro.

Pela primeira vez ia acompanhado a uma gala, entraram por uma lateral, pois Oskari andava com dificuldade.

Quando falaram do roteiros, o apresentador falou sobre o filme deles, foi baseado num livro, que segundo parecia relatava um fato verdadeiro, foram descobrir que o livro só falava uma parte da verdade, a outra um dos produtores descobriu, mudaram o roteiro, é um sucesso de filme.  Cru como a vida mesma, sem nenhum ramo de flores no final, tipo foram felizes, comeram perdizes.

Ganhou o Oscar, quando foi apresentado dos atores secundários, ele concorria, o apresentador falou, um ator americano, conhecido pelo seu trabalho, sério, já concorreu várias vezes a este prêmio, nunca ganhou, dizia sempre que esperava o de consolação quando fosse velho.

Agora concorre a esse prêmio com um filme estrangeiro, falando perfeitamente o finlandês, mas isso já se espera dele, com sua mania de perfeição.

Ele ganhou, subiu ao palco emocionado, pois não esperava, sabia que seu trabalho tinha sido bom.    Riu, como não esperava, não escrevi nenhum discurso, mais uma vez quero agradecer a uma pessoa, que em paz descanse, que me ensinou tudo que sei, a um garoto chucro, que nem sabia ler direito.   Me ensinou a ser eu mesmo, a criar os personagens.  Agradeço ao Joki, por ser um diretor maravilhoso, mas agradeço mesmo a possibilidade de ter aprendido a amar pela primeira vez uma pessoa, que representei na tela, Oskari.

Os focos se viraram para a mesa, este com dificuldade se levantou agradecendo.  Ele continuou no palco, fez me ver que é besteira estar escondido atrás de um personagem que criei a muitos anos atrás.  Um aviso, Joki, se tiver outro papel para mim na Finlândia posso fazer, mesmo que seja um bandido.

Todo mundo riu.  Depois se deixou fotografar com o resto do elenco.  Ele que sequer ia a entrega dos prêmios.

Joki estava deslumbrando com Malibu, estava aprendendo a fazer surf com a garotada, escutava suas conversas.    Um dia soltou, isso faz falta em Finlândia, um sol como esse, esse mar.

Quando resolveram voltar para casa, viu que Oskari tinha dúvida, gosto do sol, mas amo o tempo em minha terra, aqui não posso fazer nada, lá vão me readmitir na polícia.

Bom não perco nada, Joki me contratou para seu seguinte filme.  Arrumaram uma casa para os dois, aonde fosse fácil Oskari se mover.   Ele agora levava um departamento que analisava provas.

Mas logo voltou a trabalhar como investigador.   Mas o que gostava mesmo era quando Brad o levantava nos braços para levar para a cama.

Brad, fez mais de 10 filmes pela Europa, até se atrever a dirigir seu primeiro filme, de um livro de um jovem Finlandês, com o qual ganhou muitos prêmios.