martes, 14 de julio de 2020

ROCK


                                                   ROCK
Meu nome verdadeiro é Rockefeller, mas todo mundo me conhece por Rock, imagine dizer a alguém, já me bastam os do banco, que me chamo Rockefeller Macfarley, muita gente pensa que é por causa do ritmo Rock and Roll, nada mais longe da verdade.  Fui criado dentro da música Country, porque era o que escutávamos na Rádio.
Sou o filho temporão de uma família rural, comigo foi tudo por um acaso, a diferença com meu irmão mais velho é de dez anos.  Ele era um tipo, quase dois metros de altura, com um corpo incrível, tudo pelo trabalho do campo.  Parecia um jogador de futebol americano ou nadador, mas ao contrário tinha medo da água, nem sabia nadar.
Eu ao contrário não sei se nasci por descuido, cheguei a 1,75 metros de altura, tinha como ele um corpo bom.   Estudamos o básico na cidade mais próxima, ele antes de mim,  meu pai morreu dois anos depois que eu nasci, uma ferida mal curada, além da cabeça dura que tinha ao não resolver cuidar-se, dizia que tudo se cura por si só.
Então tocou a ele levar as terras que tínhamos, ele, eu o ajudava, era uma terra ruim como dizia minha mãe, cheia de pedras, meu ofício desde pequeno era ir tirando as pedras amontoando por ali.   O bom de trabalhar com ele, era que cantava o tempo todo as músicas country que escutava pela rádio, cantava altíssimo, para se fazer ouvir por em cima do trator.  Foi a minha primeira paixão.  Ele era tudo para mim.   Me defendia quando algum garoto se metia comigo, alias adorava uma briga.  Dizia que assim se descarregava.
As garotas da cidade próxima brigavam por ele, se é que se pode chamar de cidade, um lugar com três ruas paralelas.  A sorte do lugar, era que ficava ao lado de uma estrada interestadual, mas com um tráfego de merda.   Até isso aqui é horroroso, dizia minha mãe, odiava viver lá, tinha sido enganada dizia, sou de cidade.   Infelizmente estava desgastada pelo tempo, pela vida dura, quando vi uma foto sua de jovem, fiquei com a boca aberta. Tinha sido uma preciosidade quando jovem.
Meu irmão se chamava Marc Macfarley, foi um grande cantor de Country, tudo começou por um acaso, eu tinha uns 15 anos, ele 25, as vezes o encontrava na varanda de casa no final do dia, olhando o campo, aonde estava plantadas batatas, milho, algo de cevada para os animais.  Seu olhar era triste, sem querer lhe comecei a cantar uma música que tinha na minha cabeça, ele se virou ficou me olhando, quando parei me disse, repete, repeti, riu de onde tiraste essa música fedelho.  Bati na minha cabeça, daqui.
Ele começou a cantar com aquela voz potente que tinha, a letra falava de ter plantado, a espera, o vazio dessa espera, quando estas só, da solidão de ficar olhando a paisagem de tudo crescendo.
Escreva para mim, quero ter essa música em minha cabeça.
Uns quinze dias depois, ele estava arando a terra, perto da estrada, quando viu um carro descapotável, parado.   Perguntou ao homem o que passava.  Este ficou de boca aberta quando viu meu irmão, com aquela velha camisa de quadros, aberta, mostrando um peito peludo, forte, calças ajustadas jeans, era uma beleza de olhar.
Meu irmão arrastou com o trator o carro até a casa, chamou o mecânico da cidade, enquanto isso o homem já tinha se refrescado, sentou-se na mesa para comer conosco. Tinha se apresentado como Gene Brow, era agente de cantores, tinha ido a uma feira, para escutar cantores locais.  Voltei com a mão vazia, nada de novo, só imitadores.
Minha mãe lhe ofereceu um quarto que não era usado para dormir, na cidade não tem hotéis. Riu dizendo, quem ia querer vir passar uns dias nesta merda de lugar.
O mecânico disse que teria que pedir a peça para o carro, o levou para sua oficina numa grua. O Gene ficou lá em casa, no dia seguinte estava sentado na varanda, viu meu irmão arando, cantando altíssimo, com sua voz poderosa, para se escutar por cima do trator.
Ficou de boca aberta, quando meu irmão parou, pois ficava repetindo uma e outra vez a música, para encontrar a maneira perfeita para cantar a mesma, lhe disse que tinha uma voz fantástica, mas porque cantava tão alto?
Lhe explicou, senão não escuto o que estou cantando, mostrou o trator, tento que a letra dessa música fique melhor.
De quem essa música?
Do pirralho, de quem vai ser.  Já cansei das músicas que escuto no rádio, ele sempre tem letras na cabeça, me canta a mesma, depois vou arrumando para minha voz.
Me canta outra que ele tenha feito.
Lhe cantou a música da tristeza, automaticamente abaixava seu tom de voz, parecia que estava sussurrando ao ouvido de quem escutava.
Queres vir comigo para Nashville, só precisas aprender a modular um pouco tua voz.
Minha mãe que escutava tudo, disse que só se fossem todos, pois estava farta de viver ali, que eu merecia algo melhor.
Na verdade, meu irmão nunca seria capaz de deixarmos para trás, porque amava minha mãe acima de tudo.
O homem concordou, ela vendeu as terras ao vizinho que sempre a tinha cobiçado, juntou um pouco de merdas que tínhamos, trapos dizia ela. Subimos na nossa caminhonete, fomos seguindo o Gene até Nashville, nos colocou todos num hotel barato, mas no dia seguinte ela já saiu atrás de uma casa para nós, tinha dinheiro da venda das terras. Encontrou uma casa simples, fora do centro, de madeira, dizia que amava isso.
No mesmo dia, eu segui Mac, para as aulas que ele ia ter, ficava do lado escutando tudo, aprendendo por osmose vamos dizer assim.   A professora tinha sido cantora de Country, até que perdeu a voz, por um câncer nas cordas vocais.
Ensinou o Mac a modular a voz, a colocar-se em cena, a cantar minha música, dizia, pense que estas cantando no ouvido da pessoa amada.
Eu ficava como louco, pois era impressionante.  Um dia me escutou a fazer seus exercícios, disse que era de família, que eu modulava muito bem em outro tom.  Podia fazer falsetes inclusive, sem querer soltei outra música que estava na minha cabeça, falava de admiração por uma pessoa que pode ensinar, apesar das tragédias, tem um motivo para seguir adiante.
Uau, saiu agora da tua cabeça?
Sim disse eu, fiz para a senhora.
Ela trabalhou mais essa com meu irmão, como devia cantar essa música.
Gene o levou a uma audição, estávamos os dois aprendendo a tocar guitarra, a mim, me saia estupendamente, tinha basicamente aprendido de ouvido, as cordas eram como seguir meus dedos guiados pelo que escutava na minha cabeça.
Ensaiamos muito.  Lá fomos os dois, tinham umas 10 pessoas escolhidas pelo Gene para escutarmos, nem tinha ideia de quem eram.
Mac cantou, soltou a voz, como não sabia ainda usar direito o microfone, cantou como fazia na fazenda, mas controlando a voz, modulando,  eu lhe seguia como contraponto, nos momentos que tínhamos combinado.
A primeira ficaram em silencio, um homem gordo, imenso de grande, em que a roupa parecia muito pequena, pediu outra, mas country.   Ele soltou a primeira que tinha feito para ele.
Bom agora estamos de acordo, quem compôs essas músicas?
Mac me apontou, o homem olhou para mim, com minha cara de garoto.  Riu, esse pivete escreve música?
Então escute a melhor que ele fez.  Soltou a que tinha composto para ele na fazenda, essa posso cantar de diversas maneiras.  Quando terminou uma mulher que estava ali, aplaudiu.
Fazem uma dupla perfeita, Gene, precisamos que ele tenha acompanhamento certo, o rapaz toca direito, mas ele com esse corpo a guitarra parece um brinquedo.
Foram dias e dias montando o grupo, Mac como era cabeça dura, disse que só queria gente em quem ele confiasse.
Mas continuamos indo as aulas, um dia estava sentado na sala, vi um livro aberto, por curiosidade, comecei a ler, era de Walt Whitman, a professora me viu lendo de boca aberta, me falou quem era.
Pediu que eu lesse, depois comentou, tens uma voz linda, me disse abaixe o tom um pouco a deixe ficar um pouco mais rouca.
“Apenas me movo, pressiono, sinto com meus dedos, e sou feliz, tocar com meu corpo a do outro e quase todo o que posso resistir”
Me desafiou a compor uma música só com isso.
Fiquei dois dias, compondo a música, era um tanto erótica, imaginava como um prenuncio de sexo.
Quando Mac escutou, disse que eu estava libidinoso, de devia parar de bater punheta, tentar fazer sexo com alguém.   Ele dizia isso, porque as mulheres viviam correndo atrás dele, se fazia de desentendido, rindo, mas só escolhia as de um dia.
Minha mãe, não se intrometia, vivia feliz na sua casa nova, comprava roupas, tinha ido a cabelereiro, cortado pelo sano como dizia, agora estava mais jovem, tinha comprado cremes para a cara, para a mão.   Saia com as amigas que tinha feito, não se intrometia em momento algum com a nossa vida.
Um ano depois, com a maioria de músicas minhas,  Mac fez sua primeira apresentação, foi um sucesso, gravamos um disco.
Gene queria que Mac aparecesse como compositor das músicas, das letras, mas a professora, antes dele assinar contrata algum o orientou.  Nada disso, isso seria como roubares teu irmão, se essas músicas funcionam, lhe explicou como funcionava a coisa.  Eu sempre ganharia algo, quando ele cantasse, ou tocassem a música no Rádio. 
Gene ficou uma fera, mas já sabia que quando Mac dizia uma coisa, não arredava o pé.  A única pessoa que conseguia convence-lo era eu.
Assim fiquei conhecido como compositor.
Depois do sucesso do disco, tocando na rádio, já com bastante dinheiro, Mac, comprou uma Motorhome, para sairmos de tour por um sem fim de cidades, feiras agrícolas, a lista era imensa, minha mãe se negou terminantemente a sair de sua casa, que eu fosse em seu lugar, cuidando do Mac.  
Fez uma reunião comigo, me dizendo que não o deixasse beber muito, nada de fumar erva, nem drogas.
Eu agora, agora quando não me apareciam músicas na cabeça, pegava uma ou duas frases do livro, desenvolvia uma música.   Mas claro as transformava em minhas essas palavras, mudava o sentido delas.
Um dia Mac estava de bares com os da banda,  estávamos numa feira, fiquei sentado num monte de feno, na frente de um lugar cheio de animais, pensando, estava no mundo da lua. Quando apareceu um Cowboy, ficou parado me olhando.  Mas claro eu estava em outro mundo.
Garoto acorda, estou falando contigo, quando o olhei, fiquei de boca aberta, tinha a camisa aberta, num peito peludo, um sorriso de cara a cara, as pernas arqueadas, Vem vamos dar uma volta, vi você tocando com Mac, depois soube que as musicas era tua.  Fiquei pensando esse garoto não tem vivência para falar dessas coisas.
Ficamos sentados no chão, seu nome era Scott, me perguntou se eu já tinha amado na vida, se tinha sofrido por amor, como podia compor se não tinha experiencia.
Para um cowboy de rodeio, ele era inteligente. Me olhou nos olhos, dizendo vou te ensinar a amar. Foi a primeira vez que fiz sexo.  Minha cabeça explodiu, ele foi me tirando a roupa desabrochando tudo, puxou minhas calças para baixo, me segurando pela cintura, beijou meu corpo inteiro, me chupou o caralho, fez de mim um boneco de trapo. Fiquei alucinado.
Os dias que estivemos ali, nos encontramos todos os dias de noite, ficávamos conversando, depois acabávamos fazendo sexo.   Fiz uma música para ele, falando nisso, de como passávamos de uma conversa, a que ele fosse me desvestindo, que me sacava a virgindade em todos os sentidos.  Não coloquei um personagem masculino nem feminino na letra, falava como se fosse ele, tendo esse privilégio de fazer isso com uma pessoa virgem em todos os sentidos.
Nesse dia o sexo, foi como uma despedida, ele ia em outro sentindo que não o da nossa turnê, sabia que ia sentir falta dele, me disse no último momento, vou sentir falta de ti, me beijou apaixonadamente.
Nesse dia cheguei tarde a Motorhome, meu irmão queria saber aonde tinha estado.  Vi que tinha bebido demais, mudei o rumo, fiquei bravo com ele, tens que te controlar, sei que todos querem te oferecer mais bebidas, mas agradeça, não podes ficar bêbado todos os dias.
Seu mal talvez fosse esse não sabia dizer não.
Quando lhe mostrei a música, ficou como louco, primeiro quero saber para quem compuseste essa música, porque vou partir a cara desse sujeito.
Fiquei de boca aberta, como sujeito.
Ninguém faz uma música assim, a não ser que estivesse com outro homem, achas que não sei da vida.  Venho fudendo o Gene todo esse tempo.  Gosto de homens também, não sou tonto.
Lhe contei o que tinha acontecido.
Soltou, pelo menos tiveste um romance, com Gene é só um momento de sexo nada mais, se quero romance, tenho que ter sexo com uma garota, me preocupando se não é uma menor de idade.  Ele fica vigiando, olhando as vezes, depois pede que eu o penetre.  Filho da puta.
Vamos arrumar essa música, entre os dois arrumamos a letra, quando cantava, mandava o grupo parar de tocar, só eu tocava a guitarra, cantava com a boca quase colada ao microfone, rouca, como se estivesse fazendo sexo.   As mulheres ficavam loucas, mas percebi que os homens também.
Um dia estava acertando contas com Gene, afinal ere eu que levava as contas de tudo, no dia seguinte iria ao banco depositar na conta, tínhamos uma conta em conjunto.
Quando entrei na Motorhome, lá estava ele deitado com um homem, fazendo sexo. O homem gemia como um animal, fiquei parado sem saber o que fazer, excitado, Mac me disse, tire essa pau para fora, de para ele chupar.    Foi uma das muitas vezes que participei de sexo com ele, o pior era que me beijava na boca, me dizia ao ouvido, meu único amor.
Quando percebia que algo ia acontecer, desaparecia do mapa, não queria isso, estava confundindo minha cabeça.   Se a cidade era grande, me vestia diferente, camiseta, tênis, amarava meus cabelos compridos num rabo de cavalo, ia aos lugares gays.   Tinha aquelas famosas relações de uma noite, pois no dia seguinte não estaríamos ali.
Um dia voltava de madrugada, escutei o Gene brigando com ele.  Só escutei Mac dizendo, tire esse cu sujo da minha frente, o caralho é meu coloco aonde queira.  Quando entrei, tinha um rapaz da minha idade, sentado nu na cama. Meu irmão estava em pé, completamente nu, o Gene possesso, entendeu que tinha perdido seu lugar. 
A partir desse momento fui a ligação com os dois.  Sabia por exemplo que no dia que ele cantava essa música era porque queria um homem com ele.   Eu escapulia, pois não queria que ele me beijasse na boca, me confundia.  Fui buscar na biblioteca o que era isso, um incesto.
Ele quando me neguei uma vez a participar, riu dizendo que eu tinha medo de me apaixonar por ele.  Como dizer ao teu irmão, que estava apaixonado por ele desde garoto.  Mas não uma paixão física, apenas ele era meu mundo.
Uma frase do livro me chamou a atenção “ Zombam de minha confusão na calma luz do dia”.
Compus uma música, falando dos meus sentimentos. Não mencionava sexo, nada.
Ele escutou a música, soltou eu nunca zombaria de ti, sei que me queres como sempre desde criança.  Eu sempre vi teu olhar de admiração. Como o mesmo tenho por ti, por saber colocar palavras na minha boca para que eu expresse meus sentimentos.
No show desse dia, ele soltou, agora meu irmão, me apontou, vai cantar para vocês sua última música.   Lhe disse baixinho que não podia, nunca tinha enfrentado o público sozinho.  Olhou na minha cara, nem se atreva a não fazer, cante como se fosse para mim.
Assim fiz, o publico ficou louco, cantei em ritmo de balada.  Depois do show, dois rapazes se aproximaram de mim, para dizer que isso tinham sentido da primeira vez que tinham feito sexo.
No dia seguinte tínhamos uma entrevista na rádio.             Gene já não nos acompanhava, apenas administrava os contratos, acertava contas comigo.                    Estava mais triste, apagado, fiquei preocupado.
Ele exigiu que eu participasse da entrevista, ria, conversava descontraído com o locutor, agora quero que escutem essa música incrível que compôs meu irmão, que cantou ontem a noite com sucesso.  Me obrigou a cantar.
Em seguida a radio começou a receber chamadas de telefone, Mac se levantou, disse agora é contigo.
Fiquei ali, atendendo a cada chamada, escutando as pessoas falarem do que tinham sentido, ao escutarem isso.     Um homem com uma voz suave me disse que tinha sido assim a primeira noite de sua vida com outro homem.
Quando terminou o programa, o diretor da rádio disse que se eu quisesse um emprego, era meu.
Nessa noite conversei com Gene, me preocupava os dois, quando lhe perguntei o que sentia pelo Mac.   Disse somente que tinha se acostumado a fazer sexo com ele, que nunca tinha imaginado ser rechaçado.
Mas o amas?
Não sei o que é amor, apenas quero que ele me penetre nada mais.
Depois do show, vi Marc conversando com  os músicos, iam a uma festa, voltou bêbado, drogado, isso passou a ser o cotidiano.   Quando brigava com ele, me dizia que não o entendia, me pedia perdão.
Fomos fazer uma apresentação na televisão em Los Angeles, nunca tinha visto o mar assim, fiquei fascinado.  Nesse dia ele estava mal humorado, tínhamos uma entrevista numa rádio, que na verdade tocava música Rock, para os mais jovens, lá pelas tantas, disse, já escutaste a voz do meu irmão cantando baladas, me fez cantar a maldita música.   Ele a chamava de confusão. Aconteceu o mesmo, as pessoas telefonavam para falar comigo.  Eu paciente respondia a tudo, olhando na cara dele.
No hotel, nessa noite, chegou com um rapaz, como ele totalmente drogado,  como era uma suíte fui dormir no outro quarto.  Quando despertei de manhã, escutei o rapaz gritando, corri, não via o Marc, o rapaz estava agarrado na cortina do quarto, quando olhei para baixo, vi o Marc na piscina boiando com o corpo virado para baixo, nu completamente.
Disse ao rapaz, que se vestisse, que saísse dali rapidamente para evitar confusão. 
Ele é o teu namorado?
Não, por quê? 
Pois ele passou a noite inteira me chamando de Rock.  Disse que não podia viver sem mim. Eu lhe dizia que não me chamava Rock, mas isso não o incomodou, seguiu fazendo o mesmo.
Olhei finalmente o rapaz, era super parecido comigo, apenas a diferença era os cabelos.
Me vesti, desci correndo, mesmo sabendo que era tarde,  ele não sabia nadar.  Tinha pulado da varanda dentro da piscina.  Chamei o Gene, esse cuidou de tudo, pela primeira vez fez um gesto de carinho no rosto do meu irmão.   Eu me sentia como uma pedra de gelo.
Avisei minha mãe, disse que me esperava em Nashville.  Ele ia ser enterrado lá.
Quando chegamos, a vi depois de quase quatro anos rodando pelos Estados Unidos, de braço com um homem de sua idade.   Me disse que estavam vivendo juntos.
O enterro foi uma coisa impressionante, da mesma maneira que estava cheia de garotas, também havia muitos garotos chorando, na hora não entendi por que, até que vi o que tínhamos feito sexo a três.   Depois se aproximou, marcamos de conversar.
Mais tarde tomando um café, me disse que Marc o tinha chamado muitas vezes para fazer sexo, mas que só o chamava de Rock.   Pensei que era uma brincadeira, pois ele sabia que eu gostava de Rock And Roll, até que descobri teu nome, me penetrava, ficava passando a mão na minha cabeça, dizia que eu cuidava dele, essas coisas.
Eu não sabia, fiquei me culpando, por achar que ao ter aceitado a participar do sexo a três, tinha feito aflorar nele isso.
Um advogado me procurou, para que eu fosse ler seu testamento.        Nem sabia que tinha feito, me disse, que no dia antes de termos ido a Los Angeles.  Perguntei se minha mãe deveria ir, disse que sim.   Mas ao sair, se virou, ia me esquecendo, deixou isso para o senhor.
Era uma carta, a letra dele sempre tinha sido infantil.
Quando nasceste me apaixonei por ti, eras pequeno, quase podias caber na minha mão, creio que fui teu pai desde essa época. As vezes você de noite corria para minha cama, para dormir comigo.  Eram momentos incríveis, eu te amava, protegia.   Aceitei ir para Nashville, aonde nunca fui feliz.  Gene ia para minha cama, já na fazenda.   Fiquei louco por ele, mas depois descobri, que não passava disso, ele para esconder sua homossexualidade, fazia sempre tudo escondido, não conseguia sair desse círculo vicioso.  Não conseguia escapar disso, aquele dia que descobri que tinhas feito pela primeira vez sexo com um homem, morri de ciúmes, fiquei furioso comigo, pois tinhas esse direito.  Mas cada vez que te via perto de alguém ficava com ciúmes, não entendia meus sentimentos.
O pior foi, te peço desculpas por isso, no dia que basicamente te obriguei a fazer sexo a três, quando te beijei, senti amor, passei a ficar procurando isso, queria fazer sexo com pessoas que se parecessem a ti, buscava a ti, até que entendi que isso não era normal.
Quando chegava bêbado, ou drogado em casa, lá estavas tu, para me cuidar, chegou a um ponto que fazia de proposito, pois queria isso, que me cuidasses, na verdade o fizeste isso muito tempo.  Sei que foste falar com o Gene, pensando que eu o amava.   Para nada, tinha descoberto o amor de outra maneira.
Essa é a última viagem, não suporto mais, quero fazer sexo contigo, mas não posso, sou uma vergonha.
Adeus, cuide-se, mas lembre-se que eres melhor músico, compositor, canta baladas como ninguém.   Não deixe que te arrebatem isso.   Não fique em Nashville, busque teu lugar.
Passei o dia inteiro chorando, finalmente colocava para fora tudo, chorei tanto, que no dia seguinte tive que ir ao advogado com óculos escuros, para esconder minha cara.
Minha mãe, estava vivendo sua segunda vida, parecia feliz.
A leitura era simples, me deixava tudo o que tínhamos no banco, além de transferir todos os direitos autorais das músicas para mim.    A minha mãe, lhe deixava dinheiro também numa outra conta.  A única coisa que tenho é a Motorhome, fica para ti, ou a vendas.
O advogado depois conversou comigo é com o Gene, para resolvermos os problemas das músicas.
Depois saímos, Marc tinha falado com ele o que estava acontecendo.  Eu sinto muito, mas gostaria de levar tua carreira, sempre nos demos bem, sabes falar cara a cara comigo, isso eu gosto.  Quisera ter músicos como tu.
Me lançou como cantor de baladas, de repente descobriu, que meus fans não eram só ali, fazia sucesso nas grandes cidades.   Em San Francisco, o publico era totalmente gay, achei graça disso, depois fomos para NYC, foi uma loucura, descobrir que os gays me adoravam.  Tampouco escondi que o era.  Gene achava que isso não era bom.  Mas estava seco de músicas novas.
Nosso contrato terminava, lhe disse que não pensava ficar mais de turnê, que queria parar um tempo, que queria recuperar minha vida, saber na verdade quem eu era.
Ele montou o show de despedida, em Los Angeles, fui de novo a muitas rádios, televisão, a última rádio era aonde tinham me convidado para trabalhar.  O apresentador, me perguntou se eu podia cantar de novo aquela balada que meu irmão gostava tanto.   Cantei, mas chorando no final.   Segundo o diretor, se colapsou a linha telefônica pela quantidade de gente chamando. Atendi a todos que pude. Queriam me consolar. 
Durante o show que estava lotado, eu disse que me retirava por um tempo, que precisava saber quem eu era na verdade.  Todos esses anos segui meu irmão estive na estrada todos os anos da minha juventude.  Agora me cobro quem eu sou.  Agradeço a todos, seguirei compondo, os verei algum dia.
Gene ficou furioso, tinha um contrato embaixo do braço, para tentar me convencer, mas lhe disse que não.  Ainda tentou me chantagear, que estava velho demais para procurar novos cantores, lhe disse na cara que se aposentasse.
Aluguei uma casa em Venice Beach, aonde tinha passado bons momentos com Marc na praia, ninguém nos conhecia, como agora, cortei meu cabelo imenso, passei a usar as roupas que antes usava como disfarce, era um a mais entre todos os outros ali, aprendi a fazer surf.
As vezes ria, quando estava no mar, pensando o quanto Marc tinha medo da água.
Tinha algumas aventuras, mas nada demais,  precisava me recompor.  Um dia lendo o jornal, vi um anúncio de um curso de escritura.   Pensei comigo, talvez isso me ajude com as letras que agora me saiam tão complicadas, que me davam um trabalho incrível para colocar para fora.
Justo no dia que começava o curso, logo pela manhã bateram na porta de casa.  Ela o rapaz que tinha dormido com Marc em sua última noite.  O convidei para se sentar, lhe procurei uma cerveja, já que não bebia.
Soltou logo de cara que estava indo a uma terapia para deixar as drogas, aquela noite foi super confusa na minha cabeça. Eu era fã dele, o conheci num bar gay, mas o reconheci em seguida, me fez sinal para ficar quieto.
Todo o tempo me chamava de Rock, mas só depois descobri que era teu nome.  A partir dai minhas lembranças ficaram mais clara.  Ficou um bom tempo sentado comigo na cama, abraçado, passando a mão para minha cabeça, só então entendi que não estava falando comigo, mas sim com quem estava atrás da outra porta.   Por isso de manhã pensei que eras o namorado dele.  Creio que te chamou várias vezes, me segurava a cara, me beijava, me dizendo que o estava fazer beijar outra pessoa, que era a ti que queria, mas chorava ao mesmo tempo, depois me penetrou selvagemente, chorando todo o tempo.  Dizendo, Rock te amo, que vou fazer, que vou fazer.
Quando despertei, o procurei por todas parte, quando olhei pela janela que ficava em cima da piscina, foi que o vi.    Levei uma bofetada na cara vamos dizer assim.  Quando gritei, saíste, era como ver eu mesmo num espelho, mas com cabelos compridos.
Depois descobri que chamavas Rock, aí minha cabeça embaralhou tudo.  Por isso comecei a terapia, para drogas, vou a um psicólogo também.   Foram muitos anos fazendo sexo com quem não devia, me meti em muitas confusões.    Mas uma coisa eu sei, que de verdade ele te amava.
Primeiro claro, entendia que pela cabeça dele isso devia ser um pecado.   Mas quando falava, demonstrava amor.  Acho que nunca terei esse tipo de amor de nenhum homem, queria que soubesses disso.
Eu sei, as lagrimas rolavam na minha cara.  Demorei tempo demais para entender isso, nem sei como, ele foi durante minha infância, minha figura paterna, eu o acompanhava por todos os lados, era sua sombra.   Quando chovia, ou tinha trovões, corria para a cama dele, ficava agarrado a ele.  Sentia que estava protegido.  Na época da escola, havia o famoso bullying, eu foi lá meteu a bronca em todo mundo.
Quando saímos pelo mundo na maldita Motorhome, essa era nossa casa.  A princípio nunca trazia ninguém, via que tinha namoradas, o peguei fazendo sexo com seu agente, mais bem apenas lhe metendo o caralho pelo cu.    Fiquei muito confuso, depois descobri que sempre tinha sido assim, desde um princípio.   Creio que nesse momento alguma coisa se rompeu dentro dele, pois passou a trazer jovens para fazer sexo.   Mas sexo de uma noite, que era o tempo, que estávamos numa cidade.  Ele quando descobriu que eu durante uns dias num rodeio, estive várias noites com um cowboy, ficou puto da vida, me chamou a atenção, ficou bravo comigo, na hora não entendi.   Achei que estava era bancando meu pai.
Tudo foi se estropeando, eu fiz uma música falando disso, me obrigou a cantar, todo mundo gostou, ele não, os jovens se aproximavam de mim, pois entendiam o que eu estava cantando.
Quando por qualquer motivo brigava comigo, me obrigava a cantar essa música.  Ele pensava que eu não via, que saia do palco para cheirar cocaína.     Nossas brigas eram frequentes, pois ele saia, voltava com alguém,  depois chorava, me perdia perdão.  Um dia perdi a paciência, lhe disse que não era nem seu namorado, que as merdas fazia ele sozinho, que eu continuava sendo seu irmão.  Isso foi no dia que ele te conheceu, bateu a porta foi embora, quando vi que vinha acompanhado, fui para o outro quarto.
Eu também vou a um psicólogo, quero entender esse amor dele por mim.  Eu sempre o adorei como se fosse o pai que não tive.  Na verdade, nos dávamos carinho mutuo, pois minha mãe tampouco era carinhosa, estava farta da vida que ela não queria, até que ele sem querer lhe deu a escapatória.   Ele não queria ser cantor, queria continuar na fazenda, lá era seu porto seguro.
Então agora entendo, que ele foi perdendo o rumo durante todos esses anos, sorria, quando queria chorar.  As vezes estávamos na estrada, ele ia olhando o campo, logo tocava no assunto de como era feliz lá.  Que devíamos ter ficado os dois um cuidando do outro.
No fundo, não sei como funcionava a cabeça dele.            Foi um erro não perceber o quanto ele sofria, mas  tinha descoberto uma coisa que amo, escrever músicas que ficam rondando na minha cabeça.   Hoje começo um curso de escritura, para ver se a transformo numa coisa menos complicada.
Nos despedimos, lhe agradeci ter vindo.  Trocamos número de celulares, apertamos a mão, foi como despedir do meu passado.
Gostei do grupo que faziam as aulas, o professor era jovem, lhe disse que nunca tinha chegado a universidade, que escrevia música, que dado a um bloquei, as letras agora surgiam em minha cabeça, muito complicadas, que tinha dificuldade de encontrar palavras, para transformar em uma letra mais fácil de entender.
Voltando descobri que vivia perto da minha casa, me disse que também tinha passado por uma crise que entendia.   Atualmente dava aula, por ser sentir bloqueado no meio de um livro.
Ficamos amigos, conversamos muito.  Quando escrevi uma letra que estava na minha cabeça, foi até em casa para trabalharmos.  Era como se eu quisesse colocar para fora um sentimento que estava num lugar escuro.  Falamos muito nisso.  Aproveitei comecei a analisar esse sentimento com o psicólogo.   O que era afinal que eu sentia pelo meu irmão.  O que tinha sentido quando fiz sexo com ele, além do outro rapaz.  Me fez recordar com detalhes.
Acabei aceitando, que queria estar no lugar do outro, queria que beijasse só a mim.  No meio disso tudo, fui ao casamento da minha mãe.  Não queria, mas fui.  Tivemos uma conversa antes, falamos no Marc.  Ela me contou que na verdade tinha se casado com meu pai, porque estava gravida de outro que a tinha abandonado.   Mas não pensei que ia viver naquele lugar que odiava.    Concordou que ele nunca tinha sido carinhoso com Marc, pois era tão diferente dele, que acreditava que não era seu filho.   Era mais alto que ele, loiro, olhos verdes.  Quando tu nascestes, sim, se via que era filho dele, mas morreu pouco depois.   Marc ficou apaixonado por ti, não saia do teu lado.  Mal eu virava as costas, lá estava ele contigo no colo.
Sei que ele queria ficar lá, mas quando vi o Gene indo para a cama dele, o que faziam, tínhamos que ir embora.   Não fui boa mãe eu sei, devia ter os acompanhado nesses viagens, mas queria uma vida para mim depois de tudo.
Fiquei com pena dela, mas de qualquer maneira, talvez se Marc soubesse que só era meu meio irmão, poderia ter sido mais feliz com o que ele chamava de seu pecado.
Gene foi ao casamento,  estava velho, falou que realmente tinha um bloqueio com suas emoções, que amava Marc, mas não sabia ser carinhoso, achava que ele estando contente dentro de mim, bastava, mas ele queria mais, esse mais eu não sabia dar.  Agora estou sozinho, não bebo, fico horas e horas escutando sua música,  na verdade tua.  Preste atenção, falavas sempre em amor.   Ele quando cantava, era esse amor que ele queria também.
Voltei para casa de um lado confuso, de outro mais relaxado.  Falei com o psicólogo, se achava, se ele sendo meu meio irmão, seria errado ter sexo com ele.                 Me falou de uma serie de personagens que tinha tido sexo com seus irmãos.        Na verdade, nenhum saiu bem parado da situação.
O que acho é que deves procurar um novo caminho para ti, seja compondo, ao ler esta última letra sua, é um hino ao amor entre dois homens.  Achas que algum cantor vai querer assumir isso de cantar essa música.
Comecei a trabalhar na rádio, fazia um programa a partir da meia noite, colocava músicas que gostava, músicas que ia descobrindo, pela própria rádio, as pessoas me ligavam, comentavam coisas.   Um dia quando dei por terminada a música, a toquei no programa.   Contei que a música estava a muito tempo dentro da minha cabeça, mas que acreditava que nenhum cantor ia se arriscar a cantar a mesma.
Apesar de ser de madrugada, o sistema de telefonia da rádio se colapsou.   Achavam que devia ser eu a lançar a música. 
O problema era que não queria voltar outra vez a fazer turnês intermináveis, sem ter tempo para mim.   Fui trabalhando várias músicas, alguém a gravou, publicou no Youtube, um dia vieram me dizer quantas pessoas no mundo inteiro adoravam a música, as ajudava a se entender.
Aceitei uma série de apresentações, em teatros pequenos, formei uma nova banda, alguns da antiga outros novos.  Lá fui eu outra vez, estrada afora.   Mas agora, só fazia capitais. A segunda depois de Los Angeles foi em San Francisco.  O teatro era grande, mas estava lotado.  Subi ao palco, cantei duas canções antigas, parei respirei fundo, essa música agora a lancei no programa que faço.       A fiz para meu irmão, no fundo para mim mesmo, buscava me entender.  A cantei inteira, o silencio era impressionante, quando acabei, a plateia começou a cantar sozinha a mesma, fiquei parado no palco, chorando, agradeci escutar todos cantando era um consolo que necessitava.   Em NYC, foi igual, o público adorava a música.                Circulava no Youtube, quando a plateia cantava para mim.
No final estava louco para voltar ao meu programa da rádio, sentia essas pessoas perto de mim, concordei em dar shows no final de semana quando não tinha programa, mas só uma vez por mês.
Segui a vida em frente, um dia uma pessoa chamou a rádio, soltou, eu sou um cowboy solitário, me chamo Scott,  que um dia encontrou sua alma gêmea, mas a deixou escapar.   Me arrependo muito, será que essa pessoa aceitaria se encontrar comigo?    Quando nos encontramos, aos meus olhos ele continuava o mesmo, nessa noite nos mergulhamos outra vez um no outro.  Nunca tinha tido esse tipo de relacionamento com outra pessoa.    Me contou que tinha um rancho, perto de Nashville, que quando me procurou, meu irmão o espantou, não teve coragem de voltar a procurar, mas ao escutar minha música na rádio, tomou coragem.  Queres passar uns dias no rancho comigo, é pequeno, para que eu possa leva-lo basicamente sozinho.        Tirei férias da rádio, fui com ele, quando desci da sua caminhonete, me senti em casa outra vez, não era igual, mas estava em casa, entendia agora o que dizia Marc, ao falar vendo passar os campos.
Fui ficando, estamos mais de 10 anos nesse ficando, me procuram para cantar em shows daqui, mas não, prefiro cantar para Scott, na varanda da nossa casa.  A sintonia que sinto com Scott, não tem igual.   Quando brigamos por alguma coisa tonta, ameaço ir embora, ele se ajoelha pede que eu fique.  Mas na verdade, nem pensava em passar da porta.


















lunes, 6 de julio de 2020

GET AWAY


                                                       GET  AWAY

Tinha escapado outra vez da casa aonde estava sob custodia, era sempre mais o mesmo, queriam abusar dele.  Agora com 16 anos, já não era um tonto, com 12 anos tinha conseguido escapar, delatar o sujeito que estava abusando dele.  Um pédofilo procurado, tinha sido vendido basicamente pelo sistema.   Quando o recolheram, prometeram que se testemunhava contra o sujeito, cuidariam dele.   Nada aconteceu, acabou o juízo, foi levado para um albergue de menores, de aonde não podia sair, em seguida, outra vez sobre a guarda de uma família que era desconcertantes, pois ora o homem, ora a mulher invadiam seu quarto atrás de sexo.
A mulher dizia que a culpa era dele, ser um moreno tão bonito.
Nem sabia direito quem era, pois tinha ido passando de mãe em mãe, o que se dizia seu pai, era um louco de muito cuidado, tinha uma aparência espetacular.  Fazia com que as jovens se apaixonassem por ele, dizia que precisava de alguém para ajudar a cuidar do filho, quando a coitada já estava na sua rede a colocava para se prostituir, passar drogas.                  Elas nunca o denunciavam pois achavam que ele as ajudaria.   Só uma não caiu nesse conto, o denunciou, foi preso, condenado, descobriram muitas coisas no seu passado.             O teste de ADN, dele, não coincidia com o meu, fui levado em seguida para um orfanato.  De lá adotado num sistema mal cuidado por um casal, logo fui vendido.    Assim fui levando a vida. 
Desta vez tinha jurado que não voltaria para o sistema de governo, ia arrumar minha vida de qualquer maneira.
Estava ali na parada de ônibus, abaixo de uma chuva torrencial, quando parou um carro ao seu lado, o sujeito já tinha passado antes, ele sabia o que o homem estava buscando.   A conversa mole, queres companhia nessa chuva toda.  Esta ameaçando um temporal de fazer gosto. Venha moro perto.
Ele aceitou, pelo menos, quem sabe podia dormir numa cama.  Mas mais uma vez viu que tinha errado no seu juízo.   O sujeito era daqueles, cheio de músculos, forte, com a cabeça raspada, apesar de tudo conforme o ângulo, era bonito.
Quando entraram na casa, ele já temendo o pior, ficou de sobreaviso.  Viu que o homem tinha todas as janelas fechadas por dentro com cadeado, a porta da cozinha também, o banheiro tinha a janela tapada.  Mal entraram ele fechou a porta com outro cadeado, estava prisioneiro.   O mesmo disse como desculpa, estavam na zona dos tornados.    Estava ameaçando um, que parecia forte.   Realmente o vento fazia um ruído na casa imenso.
Tentou alcançar as chaves, que estavam presas na calça do homem, este lhe deu um murro no peito o jogando longe.  Não tente me roubar.
Eu só quero a chave do cadeado para ir embora.
Nada disso, ainda não fizemos sexo, garanto que vamos fazer muito.
O levou para a parte de baixo da casa, aonde ele viu, aqui posso gritar, que ninguém vai me escutar.   Porra estou fudido.
Viu ali toda espécie de aparelhos para musculatura.   O sujeito, simplesmente arrancou sua roupa, mas quando ele pensou agora ele vai me arrebentar, nada, ficou parado olhando para seu sexo.  Não me enganei, poderemos nos divertir horrores.  Começou a o provocar de todas as maneiras, mas ele estava desesperado, não conseguia ficar excitado.  O homem o algemou mesmo ele lutando contra ele, numa tabua que estava ali meio inclinada.  O fez cheirar algo de um vidro, mesmo contra sua vontade ficou com o sexo duro.  O outro fez de tudo com ele, não podia se mexer ou defender.  Tentou com as pernas dar-lhe patadas, levou foi um puta murro na cara.
Tens que colaborar bonitão, pretendo fazer muitos vídeos contigo.   Os velhos vão adorar, ver esse caralho bonito, moreno.
O deixou ali, ele escutava movimento no andar de cima, mas perdeu a noção se era dia ou noite.   Vou ter que ser engenhoso se quero sair daqui.
Ele desceu com um prato com um sanduiche, coca cola de lata, o soltou, vê se te comporta, abriu um armário que estava na parede, feito de madeira bruta.  Viu uma quantidade de CDs arrumado em fila.  Tudo garotos com quem fiz sexo.
Todos colaboraram, depois foram embora tranquilos, pelo sorriso dele, viu que de tranquilos nada.
Ele colocou uma rádio, com notícias, está dizia que o tornado alcançaria terra dentro de momentos, que todos estivessem abrigados.  Talvez seja minha chance nesse momento, o homem olhava para ele, passando a língua nos lábios.  Não terei como escapar disso, seu caralho ainda estava sob efeito do que ele o tinha feito cheirar.  Passava por ele o alisava, tentava beija-lo. Mas era bruto em tudo que fazia.   Ouviram um estrondo imenso, parecia que a casa se balançava, ele subiu correndo a escada, tinha certeza que se ficasse o homem o mataria, ficaram correndo na parte de cima, como num jogo de gato atrás do rato, não havia muito aonde se esconder, num determinado momento, quando já estava quase sem folego, ele foi se aproximando, com uma faca na mão, desta vez tu passaste não acabou a frase, o teto inteiro desabou em cima dele, as vigas todas da casa de madeira, caíram sobre suas costas.  Ele correu na parte de baixo, procurou roupa para vestir, encontrou roupa que devia ter sido de algum outro garoto, cheiravam a mijo, seja quem fosse tinha mijado na calça, não importava, uma camiseta que também cheirava a mal,  escutou outro estrondo, se caia mais uma parte da casa.
Apesar das luzes piscando, viu que no armário aberto, tinham um portátil, bem como uma caixa de metal. As chaves estavam na porta, procurou uma que pudesse abrir a caixa, dentro muito dinheiro, bem como uma agenda de direções, deviam ser seus clientes.  Na parte de baixo viu uma mochila de couro negra, enfiou o dinheiro dentro de um saco de plástico meteu tudo ali.
Buscou um casaco para sair no meio do temporal.  Calçou seus tênis velhos, ainda dava para usar, todos seus movimentos eram automáticos, desesperados.
Pegou uma barra, que dessas que se usam para colocar pesos, subiu, viu que ele tentava sair debaixo das vigas.  Chegou por detrás, acertou na sua cabeça a barra várias vezes, viu quando ele caiu. Foi a cozinha lavou a barra, desceu, a colocando no lugar.   Esses anos todos presos em casas desconhecidas, aonde o que podia fazer era ver filmes, por puro instintos, pensou tenho que destruir tudo, levou as chaves para cima, abriu a porta da cozinha, que dava para uma garagem.   O carro estava ali, viu vários galões com líquidos amarelos, cheirou, era gasolina, subiu com dois, foi jogando nos moveis, gastou esses dois, voltou por mais, um derramou pela escada abaixo, inclusive no armário.   Foi até o homem, se lembrou de um filme que o sujeito coloca o celular no micro-ondas, esse explode, colocando fogo na casa, de um outro filme Shooter o ator Mark Wahlberg, explode a casa, rompendo a tubulação do gás,  procura como tinha visto no filme a ligação, a rompe abre a porta da cozinha, joga uma caixa de fosforo que estava por ali, na gasolina, foi como se iniciou o incêndio.   A explosão já escutou um tempo depois escondido detrás de um tronco de árvore imenso que tinha caído com o tornado.
Depois correu o mais que pôde, com a mochila nas costa, com a chuva lhe atrapalhando a visão, vais adiante, viu como um celeiro, a casa tinha voado inteira, mas o celeiro só estava inclinado, não viu viva alma.    Ali encontrou um baú cheio de roupas de algum garoto de seu tamanho, inclusive umas botas, de couro.  Trocou rapidamente a roupa molhada, a colocando num saco de lixo.     Como lhe ficavam bem, escolheu mais uma calça jeans velhas, bem como camisa de quadros, camisetas, uma cueca já amarela pelo tempo.
Nesse momento a chuva e o vento, deram uma parada, saiu correndo, por detrás se via uma estrada em direção a cidade de aonde tinha vindo.  Sabia que a parada não estava muito longe, viu ao longe ainda as chamas da explosão.   Correu tudo que pode.  Quando estava na parada passou uma senhora num chevrolet velho, parou dizendo, hoje não creio que apareça ônibus nenhum por aqui, vou a cidade mais próxima, que está fora do círculo do furacão, esse vai voltar logo, é um perigo ficar ai.   Era uma senhora de idade.
Não parou de falar, sem perguntar nada a ele, minha casa ficou arrasada, o celeiro meio caído, menos mal que me abriguei na casa de uma vizinha que é de material resistente, vou para a casa da minha filha, os telefones não funcionam.    Parece que a casa do homem estranho que se mudou a meses atrás, foi destruída por uma explosão.   Aquele homem me metia medo.
Estava sempre com todas as janelas fechadas.  O único momento que perguntou o que fazia ele por ali.   Estava esperando um ônibus, para ir para San Francisco, foi o nome que saiu nesse momento.
Então te deixo na estação de ônibus.  Acho que tem um que sai dentro de duas horas, disse olhando seu relógio.   Como é seu nome?
Mark Berg, disse usando o nome do ator, mas só o final de seu sobrenome.
Muito bem Mark, espero que o tornado não alcance o ônibus, riu muito de sua piada.
O deixou justo na frente da estação.   Espere, abriu uma bolsa que estava no chão, minha amiga é exagerada, me deu dois sanduiches imensos, não acredito que bar da estação esteja funcionando.   Pelo menos ainda estava seco.
Viu numa placa que o ônibus para San Diego saia em 15 minutos, correu ao guichê, pedindo um bilhete, o homem mal olhou, se tivesse olhado, teria visto um garoto assustado.
Até a metade do caminho, só tenho um lugar no final do ônibus, depois troque de lugar. 
A ele lhe importava uma merda isso, pagou, entrou correndo no andem da estação, viu aonde estava o ônibus, o condutor já estava dentro, vamos, que o temporal volta em minutos, se consigo pegar a estrada, será mais fácil.
Mesmo assim o começo da viagem foi emocionante, pois ao longe conseguiam ver os estragos que fazia o furacão, animais voando, telhados desaparecendo num sopro.   Parecia um filme de ação, ficou colado a janela, até que toda essa paisagem desapareceu, ficou escuro como a noite, começou a chover sem parar.    Na parada seguinte, uma família que estava mais à frente desceu, mas não subiu ninguém, o condutor ainda esperou uns minutos, mas nada.  Creio que com esse tempo desistiram da viagem.  Seguiu o caminho, ele mudou de lugar, pois o final do ônibus era desconfortável.  Em seguida se relaxou, usou a mochila que com as roupas, lhe serviam de travesseiro, ao mesmo tempo que a protegia com o dinheiro que tinha dentro.
Não tinha ideia de quanto tinha, mas era algo para ele começar a vida. Dois dias e meio depois iria chegar a San Diego, ficou tentado em várias cidades a descer, principalmente em San Antonio, ou Tucson, ao descer na Estação, mudou de pensamento, se me buscam, irão a San Diego,  comprou um bilhete para San Antonio, tinha deixado no ar, San Francisco e San Diego, se é que iam procura-lo.
Quando chegou a San Antonio, buscou um hotel pequeno para se hospedar.  Nessa noite contou o dinheiro que tinha na mochila, tinha mais de dez mil dólares em notas grandes.  Uau pensou, posso me virar, mas na verdade preferia procurar um trabalho.  Entrou numa loja que vendia de tudo, comprou umas calças, bermudas de surfistas, duas camisetas, cuecas e meias, viu um tênis barato também colocou no carrinho.
No caixa quando estava pagando, perguntou se não sabia de nenhum emprego para um jovem, preciso trabalhar.
O homem chamou uma senhora de cabelos compridos brancos que estava falando com outra senhora.   Melissa, não procuravas alguém para fazer pequenos serviços, o rapaz está procurando emprego.
Ela o olhou de cima a baixo, que sabes fazer?
De tudo um pouco, vivi em casas de acolhida, aonde me faziam trabalhar de tudo, até cozinhar um pouco eu sei.  A mim me basta olhar para aprender, gosto de prestar atenção aos outros trabalhando, nunca se sabe se vamos precisar ou não.
Como te chamas?
Mark Berg, nem sei por que tenho esse nome, já que meu pai era mexicano, minha mãe não sei, pois nunca a conheci.
Bom eu moro perto da praia, posso precisar que venhas comprar material para mim, passar máquina no jardim que dá para a praia, as vezes preciso de algumas coisas da cidade. Sabes conduzir?
Não mas posso aprender, ou posso ir de ônibus se for longe, ou andando se for perto.
Bom tenho um pequeno apartamento no fundo da casa que antigamente quando vinham muitos surfista por aqui eu alugava, mas acabavam me dando dor de cabeça.   Podes ficar lá, tem cama, banheiro com chuveiro, até uma pequena piscina.
Ela transmitia confiança. Na caminhonete velha, foi dizendo que era pintora, mas hoje em dia vivendo de sua velha gloria, pois ninguém se interessava mais por seu tipo de pintura, herdei de meu marido, essa casa, por isso vivo aqui.  Não é nada demais, na verdade não passa de uma cabana, no meio dessas casas de veraneio.
Tens bagagem?
Não senhora, só o que acabei de comprar, essa mochila, com outra muda de roupa, mas a cueca já está cheirando mal, bem como a bota.  Tenho que jogar fora, pois estiveram molhadas, nem eu aguento o cheiro. 
Devias ter comprado um chinelo para andar pela praia, mas no puxado atrás, deve ter alguma esquecida pelos surfistas.
Quando chegaram mostrou primeiro o lugar para ele, ficava na frente da praia, ele ficou deslumbrado, era muito bonito.  Depois de colocar o carro num puxado ao lado da casa, lhe mostrou o que ela chamava de apartamento,  era um quarto comprido, com uma cozinha num armário, bem como um banheiro pequeno, mas ele podia tomar o banho ali.
Devias ter comprado escova de dentes, sabonete, bom eu te arrumo isso, da próxima vez, compras, reponha na minha dispensa.  Venha lhe vou dar uma toalha de banho, roupa de cama, depois também compras para ti, pois sou muito desligada, sempre me esqueço de comprar essas coisas.   A cozinha de sua casa era boa, grande, ali estava a televisão, com duas poltronas, faço meu final de dia aqui, ou sentada na varanda vendo o por do sol.   Não gosto muito de cozinhar, faço o básico.  De noite sanduiches.  Ao falar isso a barriga dele começou a roncar.
Ela riu, toma a toalha o sabonete, a roupa de cama, tome um banho, jogue essa roupa suja no lixo, bem como essa bota, agora sinto o cheiro.
Ele fez isso, quando saiu do banho, ela o chamou, vamos sentar na varanda da frente, olhar o pol do sol acompanhada, será bom,  deu uma lata de coca cola para ele, atravessaram o salão ele ficou de boca aberta, o salão era seu studio de pintura, ficou parado na frente de um quadro que era a paisagem de um por do sol.  Chegou a sentir lagrimas nos olhos de tão bonito que era.
Ela sorriu, ganhaste meu coração garoto.  Amanhã durante o dia, me limpas o studio, eu te mostro meu trabalho.  Se sentaram fora, ficaram vendo o por do sol  em silencio, era impressionante, a praia estava vazia.
No sábado iremos a um lugar que fazem um mercado, isso se fizer sol,  ali aproveito para vender telas pequenas com paisagens, que uso como dinheiro para comprar material, algo de comida.  Assim economizo, me ocupo também, enquanto não vem o click para pintar algo grande.
Se sentia bem ali com o corpo lavado, a cabeça parecia que tinha barro de tanta sujeira que saiu. Ficou super contente.                       
Ela disse que gostava de dormir cedo, no verão é mais problemático, porque tem muito turista, no final de semana sempre, gente que vem ou de San Francisco, ou de Los Angeles, que tem casa aqui na praia.
Se tem ondas, muitos surfistas, jovens, os que tem carro, essas coisas vão a outras praias.
Pela primeira vez em dias dormiu contente, enfiou a mochila no fundo da cama, se ela tentasse pegar, ele saberia.
Mas acabou dormindo como uma pedra, só despertou com o ruído na casa.  Se levantou lavou a cara, colocou uma camiseta nova, as bermudas de surfista, como ela disse, ali tinha uma sandália dessas de dedo.  Descobriu também uma bicicleta que os pneus estavam murchos além de um skate.  Isso ele sabia usar.
Ela o chamou para tomar café.  Depois o levou para o studio, varra tudo por aqui, tinha um pote cheio de pinceis sujos, ela lhe ensinou como limpar, como os deixar secando.  Tinha um bloco imenso num cavalete preso com uma pinças, o desenho de um homem, velho, cheio de rugas.
Ao lado uma foto de aonde estava tirando o desenho.   De um viagem a Marrocos que fui, a muitos anos atrás com meu marido, ele escrevia, eu pintava, ficamos mais ou menos 3 anos percorrendo o Pais, por isso tenho muitas fotos que estou usando agora.
Veja esse quadro, era uma garota, com um menino pendurado atrás, recolhendo ervas, muito bonito, a expressão da garota era de tristeza.  Quando comentou isso, rapidamente ela respondeu, a vida das mulheres nesse lugares é uma merda, estão desde criança fadadas a serem uma mulas de carga.   Os homens não fazem grande coisa, a maioria fica rezando ao Alah, tomando chá.
Quando ele acabou de limpar os pinceis, pediu que limpasse umas espátulas, tenho horror a fazer isso, com os anos piorou, explicou como se limpava, deixar de molho, ir raspando uma com a outra.
Olhe a geladeira, vê se consegue preparar algo de comida com o que tem.  Para mim pode tostar pão.
Ele olhou, procurou aonde cozinhar, preparou uma salada com o que tinha na geladeira, depois fez ovos fritos dois para cada um, tostou o pão.
Quando a chamou, teve que o fazer várias vezes, estava tão concentrada no que fazia que não via mais nada.
A chamou de perto, ela levou um susto, me esqueci de ti.
A comida vai esfriar.
Se sentaram para comer, disse que os ovos estavam como ela gostava, para molhar com o pão, me lembre de te dar dinheiro para comprar comida no supermercado, lhe explicou como ir.
Vou arrumar aquela bicicleta que está no quarto detrás.
Era do meu marido, creio que ao lado do supermercado tem um senhor que arruma. Ele sempre levava lá.
Lhe deu dinheiro, para compras, a bicicleta ele disse que tinha um pouco de dinheiro.  Foi andando até aonde ela tinha falado, deixou a bicicleta com o homem, que ia arrumar enquanto ele fazia compra.   Tinha olhado tudo que faltava na geladeira. Anotou mentalmente, não sabia escrever direito, ler sim, mas escrever tinha dificuldade.
Comprou com seu dinheiro, blocos de desenho, lápis de cor, um estojo de aquarela de criança, de tarde se sentou olhando o mar, foi desenhando, depois tentou usar a aquarela, ria como uma criança, porque ia fazendo por intuição, não notou que Melissa estava atrás dele olhando.
Não está mal, mas o papel não é apropriado para isso, espere, foi buscar um bloco especial para aquarela, lhe explicou como se fazia. Tens quer ser rápido, pois o papel absorve a tinta, precisas tentar colocar uma por cima da outra para dar certo, fez um exemplo para ele.  Entendeu?
Sim, vou experimentar, um pouco depois fazia numa velocidade boa para quem faz aquarela.
Ela ficou admirada com a destreza dele, foi ensinando ele a trabalhar.   No final de semana, se sentou depois de suas obrigações, observando os surfistas, pintando os mesmo, ia fazendo tirando a folha do Bloco para  secar, as vezes retornava a mesma para mais alguns detalhes.
Melissa estava encantada com o trabalho, lhe ensinou como fazer sua assinatura, com um pincel mais fino.  Podes fazer um M.B. junto o ano. Assim documentas que época pintaste isso.
Ele sorriu sem graça, disse para ela, na verdade não sei meu nome, pequei esse nome de um ator de cinema, abreviei para não ser igual ao dele, Porque para mim é difícil escrever o nome inteiro dele.
Não sabes escrever?
Muito mal, nunca ia a escola tempo demais, pois ou era abandonado, ou ia para outra família, algumas não me colocavam em nenhuma escola, queriam o dinheiro que o governo paga para elas.
Vamos resolver isso, vou arrumar uma professora para ti, mas tens que te aplicar.
Tinha uma vizinha na parte de trás, tão antiga como ela ali na praia, tinha sido professora, quando ele lhe quis pagar.        Disse que não cobrava, porque seria uma distração para ela, se aborrecia de não ter o que fazer.          Ficou pasma com a facilidade que ele tinha de aprender, misturada como desejo de saber mais.   Ensinou tudo o que pode para ele, inclusive matemática prática, de como conferir um troco, coisas assim.   Uma vez por semana ele fazia compras para ela nunca ficava com o troco, prestava contas exatas.  Melissa achava isso engraçado, porque os de sua idade, com certeza iriam ficar com o troco.
Sempre tirava tempo para andar de skate pela linha de praia, pois mais adiante havia uma avenida que na verdade não passavam carros, era como um passeio largo acompanhando a praia.
Depois se sentava ali na frente da casa, desenhando ou fazendo aquarelas, quanto teve uma boa quantidade, acompanhou Melissa a feira, ajudou a carregar a barraca que ela usava, a arrumar os quadros pequenos, o ensinou a colocar as aquarelas, num envelope, que um lado era transparente.  Resulta que no primeiro dia ele vendeu todos, gostavam da coisa do surf.
Para a próxima prepare mais, vou te ensinar a trabalhar com tinta acrílica, que pode ficar melhor, preparou das duas coisas, um dia ficou de boca aberta, ao longe apareceu um veleiro, ele foi desenhando a aproximação do mesmo, depois ficou na linha atrás dos surfistas.   Ele desenhou e pintou os dois juntos.
No dia da feira, foi vendendo, até que parou um casal na frente deles, dizendo olha nosso veleiro aqui, o rapaz nos acompanhou.  Era um homem alto, com uma mulher muito bonita, um rapaz da idade dele.  O  mesmo disse que o tinha visto desenhando na praia.
Não sabes fazer surf?
Não, mas gosto de olhar mais do que pensar em fazer.
Nos dias de feira de peixes, ia ficava anotando detalhes dos peixes, passou a ilustrar com eles seus desenhos.  Cada vez ia acrescentando mais coisas.
Os anos foram passando, quando acreditava que fazia 18 anos, já tinha aprendido a conduzir a caminhoneta de Melissa.  Mas precisa de documentos.
Um dia a viu remexendo umas gavetas, procurando documentos.  Até que achou.
Meu filho morreu no Marrocos, contraiu uma doença, nunca disse aqui que tinha morrido, que achas de usar o nome dele oficialmente.
Como era o nome dele?
Robert Montgomery, mas podes seguir usando esse de Mark Berg como se fosse teu nome artístico, fica melhor.
Foi com ele, tirar os documentos, meu filho precisa de seus documentos, para tirar carteira de motorista.  Atualizaram tudo, oficialmente ele era agora Robert Montgomery, além de filho da Melissa.
Agora ela a levava a todos os lados, um dia pediu para colocar na caminhoneta os quadros grandes que estava no studio.    Os embalou todos antes, depois entre um e outro, colocou lençóis velhos que ela usava para limpar pinceis.
Quando chegaram a San Francisco, ela tomou a direção, pois conhecia o caminho aonde iam.
Foram a uma galeria, que comprou todos os quadros dela.  Dali foram a um banco, ela abriu uma conta no nome dele, depositando tudo.  Assim se me acontece alguma coisa, estas coberto, depois ela foi a um advogado, lhe mostrou ali perto uma loja de material de pintura, os alunos de Belas Artes, compram ali.  Leva meu cartão de artista, diga que é uma encomenda para mim, olhe o que queiras, assim podes seguir pintando. Ele fez todas as encomendas dela, foram dormir num hotel, ela se registrou com seu nome, o apresentou como seu filho.
No dia seguinte foram visitar um museu, que ela queria mostrar umas obras suas antigas, que vais gostar, são de uma época que pensava diferente.
Tinha um muito grande, ele ficou sentando num banco mais atrás admirando.  Te sentias exuberante não é, qual idade tinhas.
Quando ela disse, ele sorriu, estavas solteira e apaixonada, não é verdade.
Sim, mas era por outro homem, o verdadeiro pai de meu filho, me abandonou no dia que ele nasceu, disse que não tinha madeira para ser pai. 
Mas quando me casei, meu marido adotou meu filho.    Infelizmente ele não viveu muito, tinha uma saúde frágil, no Marrocos contraiu uma doença normal ali nas crianças, mas não resistiu.
Agora que falas nisso, quando eu morrer levas minhas cinzas para enterrar com ele, vou deixar escrito aonde ok.   Foi em Fez uma das antigas capitais do pais.  Foi lhe falando da cidade, da sua cor, do Zocco, era como se ele estivesse vendo, eram tantos os detalhes que ele ficou com a cabeça cheia.   Em casa tenho uma serie de fotografias de lá, depois te mostro.
Agora dava aulas para ele de pintura a óleo, lhe foi aumentando o tamanho dos quadros, em breve os dois dividiam o studio.
Um ano depois, estava trabalhando, quando olhou para ela, estava sentada, sem se mover, ficou assustado, chamou uma ambulância como tinha aprendido fazer.  Eles a levaram para o hospital, ela tinha tido um pequeno enfarte, mas em consequência disso passou a ter os movimentos complicados, ficava horas sentada na varanda, as vezes a via falando com alguém.             Um dia perguntou com quem falava.   Com meu marido, com meu filho, amigos que já partiram.  Explicou a ele o que deveria fazer se ela morresse, quero ser cremada, nada de missas ou qualquer outra coisa.  Lhe entregou um cartão, chames imediatamente esse advogado. Se for num final de semana, chame esse outro número que é o seu particular.   Escreveu num papel tudo como queria.
Ele pediu se ela podia posar para ele, fez um quadro grande dela sentada numa cadeira da varanda dessas trançadas, com um vestido florido que tinha, com seus imensos cabelos brancos soltos pelos ombros.    Ele pensou que não conseguiria, mas ela ficou emocionada ao se ver através dos olhos dele.
Está perfeito meu filho, agora só o chamava assim, nunca podia imaginar que herdasses de mim o talento, as vezes confundia realmente ele com o filho que tinha tido, o chamando inclusive de Robert ou Bob.
Os da galeria vieram visita-la, ela pediu para ele mostrar todos os quadros que tinha feito do Marrocos a partir das fotografias dela.   Parece como se estivesses lá, ela teimou dizendo que seu filho tinha estado lá com ela.  Ele tinha escutado ela falando de cada fotografia com tanta paixão, que sentia isso ao pintar.
Ficaram interessados em fazer sua primeira exposição.  Quiseram lhe oferecer um contrato, ela telefonou ao advogado que mandou um rapaz recolher o contrato para ver.   Disse ao Robert pois o conheciam assim, que não assinasse nada, que fosse sempre livre.
Marcaram a exposição, parecia que era ela que ia expor, foram juntos para San Francisco, ele disse como era para colocar os quadros, disse para escreverem ao lado a história, ela ditou a uma secretária o que devia escrever.  Ele tinha pintado suas memorias.  Ela nunca tinha pintado nada de lá, porque lhe lembrava o filho.   Agora que ele voltou, eu amo isso.
Na inauguração, estava sentada num cadeirão como num trono, falando com as pessoas, os que a conheciam murmuravam, como esse reencontro com o filho lhe fez bem, está menos agressiva.
Venderam 90 por cento dos quadros, saiu matéria no jornal.   Ele só não quis vender o quadro grande dela.
Semanas depois morreu dormindo, com um sorriso nos lábios, ele pensou ela encontrou com o marido e o filho.   Avisou o advogado, ela deixou uma serie de coisas para serem feitas, não tenho experiencia nenhuma nisso.
Um deles veio, providenciou tudo, como ela queria ser cremada, num caixão simples de pinho, com a mesma roupa do quadro.  Que ele levasse suas cinzas para Fez, tinha uma indicação, tumulo número 97.
Ele devia depois escutar a leitura do testamento.
Perguntou que é um testamento.  O advogado lhe explicou.
Foi até lá com o coração apertado, teria que deixar a casa aonde tinha sido tão feliz, tinha aprendido uma nova profissão ali.  Agora tinha dinheiro no banco, não só o que ela tinha depositado, bem como o da sua própria exposição, numa das vezes que foi ao centro da cidade depositou o dinheiro que tinha escondido, não tinha usado quase nada.
Estranhou, pois pensou que teria mais gente para escutar o que o advogado ia falar.
Eres como seu filho o único benificiário de seu testamento, ela te deixa tudo, a casa, o dinheiro que tinha no banco, bem, como a caminhoneta.  Deixou uma carta para ti também.
Voltou para casa, agora era dono de uma, depois iria ao banco, se sentou na varanda para ler a carta.
Meu querido Bob,
No dia que te vi na loja, primeiro levei um susto, eras parecido ao meu filho, tinha a mesma cor de pele dele, dos olhos, esses teus cabelos que estavam tão sujos.
Quando te vi desenhando pela primeira vez, pensei meu filho vive nesse garoto, passei a te amar como se fosse ele, tratei de te ensinar tudo que sei, pois tenho certeza que serás melhor do que eu fui.
Eres rápido desenhando, eu sempre fui lenta, por isso fazia fotografias.
Encheste meu final de vida, que não podia ser melhor, te deixo o meu studio, tudo o que possa possuir, só te peço aquilo que te disse, leve minhas cinzas para perto do meu filho.
Um beijo nesse teu coração imenso.    Melissa.
Ele ficou ali na varanda, tinha realmente perdido a mãe que nunca tinha tido,  olhava agora o por do sol, com que esperando que ela viesse se sentar ao seu lado.   Continuava dormindo no quarto detrás.
Nunca tinha subido ao andar de cima, era somente dela.
Foi uma surpresa, encontrou quadros dela quando jovem, fotos imensa dela, sentada como no quadro que ele tinha pintado.  Ela o marido, o filho, esse realmente se parecia com ele.
Quando recebeu as cinzas, procurou saber como devia fazer para ir até Fez.  Dali não havia voos diretos, na agência de viagem lhe aconselharam ir até Londres, de lá a Casablanca, alugar um carro, ir a Fez.    Lhe arrumaram um Riad para se hospedar.  Lhe explicaram que a maioria falava francês, mas alguns falavam inglês.
Conseguiu uma licença para levar as cinzas, dentro de uma maleta de mão.  Fez um voo San Diego, Londres, de lá outro até Casablanca, eram muitas horas de voos para quem nunca nem tinha subido num avião,   Arrumou um hotel, perto da praia para se hospedar.  Ficou dois dias ali, sentando olhando o mar, estava guardando tudo na sua cabeça.   Mas no segundo dia, saiu com seu bloco de desenho, sentou-se no cais, começou a desenhar tudo, as crianças vinha ficar perto dele.  Ele lhes dava uma moeda, ela se sentavam quietas para que ele as desenhassem, ficavam impressionada com a rapidez com que ele desenhava.  Alguns realmente posavam, gostavam de fazer isso.
Falavam com ele em sua língua, era como se ele as entendesse.
No dia seguinte recolheu o carro comprou um guia, conversou numa agencia de viagem, que lhe fizessem um roteiro,  iria primeiro a Fez para cumprir sua obrigação,  depois iria devagar aos lugares que lhe interessavam.
Lhe traçaram um roteiro.   Iria direto a Fez, aonde tinha o Riad reservado, de lá na volta iria visitar umas ruinas romanas, entre Fez  e Mequinez,  lhe disseram o que visitar lá.  Foram reservando para ele todos os Riad.  Voltaria a Casablanca, de lá iria bordeando o mar até Esauíra, lá ficaria 10 dias num Riad, depois iria a Marrakesh, a Uazazate, voltaria a Marrakesh, Casablanca, por último se ele decidisse a Rabat, mas lhe disseram era francesa demais.
Levou três meses fazendo esse viagem, a quantidade de blocos de desenhos que comprou era imensa, caixas de lápis de cor, outra quantidade, ainda material para aquarela.  Em alguns lugares dormiu no furgão que tinha alugado, em praias, em aldeias de pescadores, aonde parava para conversar, desenhar.   Estavam acostumados com turistas que faziam fotos, mas que desenhasse não. Ainda mais que tinha a mesma cor que eles, deixou os cabelos crescerem, estava sempre com um turbante em volta da cabeça, como eles usavam.  Sem sentir foi aprendendo a falar, a entender o que lhe diziam.  Em Esauíra, se deliciou desenhando, fazendo aquarela dos barcos, de uma praia cheia de surfistas.  Um deles inglês, lhe perguntou se queria fazer sexo, pensando que ele era dali.  Quando disse que era americano, ficou olhando para ele, nesse dia ele se questionou, porque nunca se interessava em fazer sexo.  Talvez pelo que tinha sofrido, não sabia explicar.
Em Marrakesh, fez a mesma coisa, entrou nos palacios que podia se visitar, desenhou os pátios, contratou um guia que o levou aonde ele tinha pedido.  Foi visitar a casa Majorelle que pertencia ao YSL, passou horas ali desenhando, bem como La Cotovia uma torre impressionante de uma mesquita. Visitou também La Menara, um belo lugar, mas sua paixão pelas cores o levou mudar toda sua viagem, em Uazazate.  Ficou conhecido por lá, passava os dias pelas ruas estreitas, desenhando as mulheres com ruas roupas coloridas, bem como os homens com seus turbantes, anotava detalhes de portas de madeira, bem como lâmpadas.   Comprou tapetes de Lã para levar para a casa da praia.  Voltou a Marrakesh, mas só dormiu uma noite, foi para Casablanca, conseguiu despachar tudo que tinha comprado, que lhe aguardasse no aeroporto de San Diego.  Mesmo assim pagou um excesso pelos seus cadernos de desenhos.  Quando desembarcou em Londres, uma aeromoça lhe chamou atenção pois estava de turbante, cuidado pode complicar sua entrada.    Claro ele estava de barba grande,  cabelos imensos, chamava muita atenção.  Mudou de roupa no banheiro do aeroporto, seguiu para San Diego.  Alugou um furgão tinha se acostumado a usar um.  Levou horas para liberar tudo que era seu que estava no aeroporto como coisas despachadas.  Só o seu material, eram duas caixas de cadernos.
Avisou o Advogado que já estava de volta, contou como tinha sido emocionante, encontrar o que ela tinha lhe pedido.  Tinha feito inclusive um desenho baseado na fotografia que tinha encontrado no andar de cima, o tumulo, o jarro com sua cinzas, ela junto como filho como na fotografia.
Os da galeria queriam ver todo material que ele tinha trazido.  Os convidou para passarem o final de semana, pois era um casal gay, lhe cedeu o quarto dela. Que estava igual. Os deixou foleando horas e horas todo os cadernos.
Disse que faria por sequência da viagem.  Que pensavam em arrumar o studio primeiro, depois começaria a trabalhar.  
Os dois comentaram com ele, que nessa viagem ele tinha deixado de ser um garoto, para ser um homem diferente.                  Lhes contou o que tinha acontecido com o Surfista em Esauíra, da confusão que o rapaz tinha feito.
Porque não ficaste quieto, aproveitavas fazia sexo com ele.
Isso queria falar com vocês, tenho confiança para isso, fui tão abusado em criança, que não me sinto a vontade, nem com vontade de fazer sexo.  Pode me aconselhar um psicólogo para que eu possa conversar, terei que ir a San Francisco.   Assim converso com um.
Aqui mesmo vive um amigo nosso, já tem uns cinquenta anos, mas é uma pessoa agradável, telefonaram para ele, este foi até a casa.  Ficaram andando na praia, ele contou mais ou menos o que tinha acontecido, os primeiros abusos que tinha sofrido nas casas de acolhida.
O Cristóbal, disse que tinha encontrado um lugar incrível para conversarem, podia usar sua varanda.
Estiveram ali sentados conversando muito tempo.  Falou da viagem que tinha feito ao Marrocos, a emoção que tinha sentido, cumprindo os sonhos de sua mãe postiça, na praia, quando perguntaram se queria fazer sexo, que se deu conta que não pensava no assunto.
Evidentemente estás te protegendo a muito tempo dessas recordações,  quando chegaste aqui encontraste um lar, um oásis para descansar.  Seguiram falando vários dias.
Um dia Cristóbal chegou o encontrou colocando na tela um desenho, perguntou de aonde era?
Fez, Marrocos, aonde estive como te contei.  Estive andando pela Judiaria de lá, vi esse símbolo numa sinagoga antiga, pegada ao cemitério. 
Minha família esteve por lá, contou o Cristóbal, meu filho acaba de retornar de uma viagem que fez a España, buscando a origem dos nossos antepassados, foram expulsos primeiro de Castilla, foram para Granada, finalmente atravessaram o estreito, viveram em Fez, para ele foi muito importante isso.  Ele encontrou um diário de meu bisavô, quando veio para América, aqui foi interessante o mesmo deixou de acreditar em qualquer deus, nunca mais praticou nada, nem o Sabbat, nem circuncisão dos filhos nada. Meu pai tampouco, sabia que era judeu, mas isso não lhe importava, o meu filho ao contrário, necessitava depois de ler o diário, refazer o trajeto do avô, inclusive fala o dialeto Sefardita, bem como o Árabe.   Como te entedias por lá.
Foi interessante, pois ao final eu os entendi. Aonde ia estava cercado de garotos, eles falavam sem parar, só faziam silencio quando me viam desenhando.  Em Uazazate, aluguei um burro, para levar cavaletes, meu material, para desenhar a cidade por fora, me acompanhavam o tempo todo, espera.
Procurou um desenho que tinha feito, dos meninos cercando o burro, tomando banho num riacho ali.   Fiz esse auto retrato também, ele no meio da garotada.   Um dia no Riad, me olhando no espelho, com turbante, roupas dali, me fiz um autorretrato assim também, sempre me parecia mais um deles.       Os velhos também me recebiam bem, pois era educado, antes de desenha-los, perguntava se podia.  Oferecia chá para eles, eles achavam graça dos garotos me seguirem.   Dizia que eu os estava ensinando a serem respeitosos com os mais velhos.
Posso trazer meu filho aqui?
Claro que sim, não tenho amigos da minha idade, as vezes o filho do vizinho vem de férias, mas como faz surf o tempo todo quase não o vejo.    No último verão veio acompanhado de um amigo da universidade, fez que não me conhecia.
Essa coisa dos preconceitos já conheço de longa data, quando era mais jovem me incomodavam, um dia perguntei a Melissa, ela disse que todos não passavam de uns tontos porque tinham dinheiro.
Dias depois ele apareceu com o filho, estava justamente pintando um homem do Zocco de Fez, sentado em sua pequena loja de telas de lã.   Tinha lhe encomendado um traje, um casaco que o homem tinha costurado tudo a mão, numa velocidade espantosa.   Esse seria o seguinte quadro.
O filho era mais moreno que o pai, talvez pelo sol da praia.  Joseph estendeu mão, que maravilha teu trabalho. Eu atravessei o estreito, para ir a Tanger, aonde se perde a pista da família, para aparecer mais tarde aqui.
Na sinagoga de Fez, tem uma lista de pessoas que habitavam ali, pode ser que consiga alguma informação, a dona do Riad, era uma Francesa, Judia segundo ela, tinha se casado com um árabe marroquino, por isso vivia lá.   Te dou o telefone, pede para ela verificar.
Ficaram conversando um tempo, perguntou se podia voltar no final do dia para seguirem conversando.  
Lhe disse a hora que costumava parar para ficar olhando o pôr do sol.
Na hora exata, ele tinha acabado de tomar banho, estava com os cabelos molhados, como um cachorro, o outro riu, fazendo a comparação, balançou a cabeça, o molhando, pediu desculpas.
Foi buscar Coca-Cola, ele seguia sem gostar de bebida alcoólica. Joseph perguntou porque, não sei talvez da minha infância, quando via gente drogada ou alcoolizada, peguei pavor de me imaginar assim.
Agora ele vinha todo dia conversar.  Lhe falava de Sevilla, Córdoba, Granada, aonde tinha estado na España, buscando fontes de referência da família.
Acho interessante meu pai nunca se interessar por isso, mas creio que foi sua educação, ele disse que leu o diário do bisavô, como se fosse um romance.
Cada um na verdade tem uma maneira de reagir.  Eu só comecei a me questionar minha sexualidade, quando me confundiram com um marroquino, me perguntando se queria fazer sexo.  Quando respondi em inglês, que era americano, desistiram no ato.
Levo tanto tempo embutido nessa capa de proteção que nem sei como será o dia que me interesse por alguém.
O outro ria, eu ao contrário, imagina, queria descobrir de aonde tinha saído, quando cheguei na España, era um gringo, todos queriam fazer sexo comigo.  Os olhava, meu interesse era outro, quando perguntava se tinham alguma ascendência Moura, como eles chama os árabes, mudavam de assunto no ato.
Também tinha colocado minha sexualidade a parte.   Me questionava coisas que mais tarde quando estendi minha viagem a Israel entendi.   Agora os Gays de lá são mais livres, mas antes estavam dentro de um armário a sete chaves.    Mas realmente sou como tu, necessito de tempo para me interessar, me tornar amigo pelo menos.    Acredito sempre nisso, que há que ter uma amizade também nesse relacionamento, não pode ser só sexo, pois este acaba, o que fica é a amizade.
Vinha ver todos os dias seus trabalhos, viu o desenho do seu autorretrato, soltou que ele ficava super interessante vestido assim.  Se fosse contigo para cama, ia pedir que colocasse um turbante.  Ficaram rindo.
Se queres posso colocar, não sei por que fiquei excitado.
O levou para seu quarto no fundo da casa. 
Joseph perguntou se esse era seu quarto apenas para fazer sexo?
Olha podia ter-me mudado para o quarto da Melissa, mas para mim é um santuário, gosto de continuar vivendo aqui.  É simples não preciso de muita coisa, tirei sim a estante aonde tinha o fogão, coloquei um tapete de lã que comprei por lá,  um cadeirão para ler as vezes que não tenho sono.  Nunca pensei em me mudar para a casa.  Lá está a cozinha, o meu studio, raramente subo para o quarto que tem lá em cima.
Ficaram um longo tempo se beijando, conversando, até que realmente partiram para o sexo, foram se explorando devagar, quando chegaram ao clímax os dois ao mesmo tempo, foi ótimo.
Agora vinha dormir todos os dias com ele, meu pai outro dia me abordou, estando preocupado por ti, não por mim.  Lhe contei como levamos a coisa.  Ficou mais relaxado.
Buscou para saber como era as roupas safardi, mas fazia quando ele não estava, sempre cobria a tela com um lençol velho.  Até que terminou.  O deixou ali a mostra,  Joseph entrou, esteve falando por celular com alguém, até que se deu conta do quadro.  Parou de falar, ficou com a boca aberta.  Se aproximou dele, o abraçou.    Incrível isso.  Quero ele para mim.
É um presente para ti, pelos momentos maravilhosos que temos passados juntos.
Tenho uma má notícia, me chamaram para dar aulas na Universidade em San Diego, estaremos mais afastado.
Eu entendo, deves ir, estás a tanto tempo esperando essa oportunidade, que deve ir.
Mas, nós dois?
Venhas quando queira, sabes que eu sentirei tua falta,  mas os caminhos são assim, tua vida profissional tem que ter importância, a quanto tempo estas esperando essa oportunidade.
Já perdi a conta, se não aceito, será mais difícil sair outra.
Então, se podes escapar para os finais de semana, afinal não estamos tão longe.
Passavam o final de semana juntos, até que um dia Joseph lhe disse que tinha conhecido um professor, que lhe interessava.
Conversaram a respeito, se despediram como amigos que sempre tinham sido.
Realmente sentia falta dele, principalmente para ter com quem falar.
Quando tinha uma boa quantidade de quadros, avisou os da galeria, que vieram como loucos para ver, estamos esperando a muito tempo essa oportunidade.
Estavam maravilhados com o que tinha feito, a única concessão de avanço, tinha desenhado dois quadros grandes, com os barcos de Esauíra.   Eles queriam fazer dois catálogos, um com os desenhos, outro com a pintura.  Eram tantos os desenhos, que esse seria o número um, só com Casablanca, Fez, algo de Esauíra,   Um dos primeiros grandes de  Uazazate, uma panorâmica da cidade que ficaria no final da Galeria.
Esperaram os catálogos ficarem prontos, começaram a divulgação, foi entrevistado pela televisão, contou o que tinha ido fazer lá, não disse que o rapaz de quem levava o nome estava enterrado lá.   Expos o desenho de Melissa com o filho, mas este não estava a venda.
Antes mesmo, recebeu um convite para expor em NYC, pela primeira vez.
Os quadros estavam vendidos, agora levavam o nome dos compradores que emprestavam os mesmos.   Mesmo assim como a galeria era maior, preparou mais 10 quadros imensos, o dos garotos, ele com o burro, foi vendido rapidamente para um museu.   Os outros, as mulheres carregando agua,  os velhos na frente da sinagoga, todos vendidos, eram imensos todos.
A capa do catálogo de NYC, era seu autorretrato de árabe.  O de desenho, já tinha esgotado a primeira edição, agora estava na segunda.
Na de San Francisco, Joseph apareceu com seu pai, além de seu namorado, imediatamente não gostou do sujeito, mas não comentou nada, achava que era porque estava com ciúmes.
Antes de ir para NYC, Joseph apareceu para conversar, o viu com uma cara de fazer pena, mais uma vez me enganei, meu pai quando o conheceu, disse que não confiava nele, eu fiz ouvidos surdos, me dei mal.
Lastima que vou para NYC amanhã, senão iriamos conversar muito a respeito disso.   Joseph perguntou se tinha conhecido alguém.
A verdade, verdade é que não tinha muito trabalho, tampouco saio tanto para conhecer gente.
Em NYC, foi uma roda viva de entrevistas para jornais, televisão, as perguntas as vezes eram cretinas, ele não respondia, só dizia a seguinte.   Uma entrevistadora lhe perguntou por que fazia isso.
Porque as perguntas são cretinas, não gosto de perder meu tempo falando besteiras.  Se me perguntas algo interessante respondo.
Esteve contente, mas louco para voltar para seu atelier, queria seguir trabalhando, tinha uma outra viagem em mente.   Mas ainda lhe faltava muito para acabar.
Seria como uma segunda exposição sobre o mesmo tema.  Agora o catalogo era sobre Marrakesh, Uazazate, as marinhas com os barcos, eram imensas, sempre com surfistas misturados,  um dos quadros lhe deu trabalho, pois tinha mais de dois metros, eram os barcos chegando as pessoas ajudando a traze-lo até a praia, fazendo uma fila imensa, puxando a corda, num desses, se colocou junto.  Fez um auto retrato dele de peito nu, com turbante colorido que usava nesse dia, ajudando os homens a arrastarem o barco.  Depois ao lado retratos de todos eles, assim sem camisetas, com panos na cabeça, alguns com uma caixa de peixes na cabeça, os peixes como que saltando da mesma.   Os garotos na praia, querendo aprender surf, fazendo com pedaços de madeira.   Revendo todos os desenhos, riu, pois tinha sido feliz ali, bem como Uazazate, pois tinha sido considerado um deles.  Isso que não usava todos os desenhos, pois eram muitos.
Tinha também muitas paisagens das ruas estreitas de Uazazate, a cor da terra subindo pelas paredes, alguns velhos sentado na porta de suas casas, com quem tinha parado para desenhar e conversar.
Quando tudo ficou pronto, estava exausto, pois se levantava as vezes a seis da manhã, porque a imagem esta ali em sua cabeça viva, querendo sair.
Um dos críticos comentou justamente isso, que seus personagens estavam tão vivos que ele não estranharia que se levantassem, saíssem andando dos quadros.
Lhe convidaram para sair, para conhecer a cidade, foram jantar, não conhecia direito o grupo, um deles lhe disse, não entende as indiretas não?
Indiretas, não sei do que falas.
Estão todos se oferecendo para ti, é como se nada, contínuas na tua.
Desculpe não estou acostumado a conviver, passo muito tempo no studio, gosto de coisas simples.  
Para complicar o arrastaram para uma discoteca, primeiro ficou surdo com tanto barulho, não bebia, viu que todos fumavam erva.  Foi saindo de fininho, na rua parou para respirar, um homem ficou rindo.   Se vê que não gosta de ambientes assim, eu tampouco, fui arrastado por um grupo de amigos.
Vim ver uma exposição, amanhã, de um artista que gosto muito, ele me faz lembrar o tempo mais feliz de minha vida, quando vivi no Marrocos.
Estas brincando comigo, não é?
Não, porque ia brincar contigo, era um tipo completamente diferente, barba grande, cabelos como o dele compridos, mas ruivos misturado com branco.  Eu vivo basicamente perto do mar, venho raramente a cidade, tenho apartamento aqui, mas desde que fui viver em Fire Island, deixe de vir a cidade.   Aproveito a paz para escrever.  Como sabem que vivi muitos anos no Marrocos pediram para que eu escrevesse sobre o assunto no Times, inclusive amanhã tenho uma entrevista com o rapaz.
Ficaram conversando, foram tomar um refrigerante ali perto.  Ele se identificou como Thomas Brookmaster, escrevi vários livros sobre o Marrocos, agora escrevo romances.
Tu com te chamas?
Robert Montgomery.  Não disse o nome que usava para assinar os quadros.
Quer vir até minha casa, ou preferes que marquemos alguma coisa amanhã?
Prefiro amanhã depois que tenhas tua entrevista.  Aonde vai ser?
Na Galeria, ira um fotografo, vou entrevistar o rapaz.
Se lembrou disso, que tinham lhe pedido que colocasse o turbante, para a entrevista.
O levou até seu hotel, antes que ele entrasse, posso pedir um beijo de boa noite?
Sim claro, trocaram número de celular, amanhã nos falamos.
Achou interessante o homem lhe interessar, afinal era um tipo diferente, relaxado na maneira de vestir, como ele, viu que tinham algo em comum.
No dia seguinte se vestiu como sempre, nem notou que a camiseta estava suja na parte de baixo de manchas de tinta, nunca dava muita importância para isso.   Como fazia frio, colocou o casaco que tinham feito para ele em Fez, bem como um pano em volta do pescoço, se lhe pedisse, colocaria na cabeça.
Foi para a galeria, atendeu a primeira entrevista, numa sala a parte, posou para as fotos, voltou para sala para descansar, 15 minutos depois lhe anunciaram o Thomas, ficou de costa para a janela, esperou que entrasse, então se virou.
O que fazes aqui? Foi sua pergunta.
Sou Mark Berg, o pintor que vais entrevistar, mas também me chamo Robert Montgomery, uma larga história.
Ficaram os dois rindo, o fotografo não entendia nada. Quando esse pediu que pusesse o pano na cabeça como turbante, lhe perguntou sério.  Tens certeza disso, o uso com orgulho, porque me sentia um deles, mas fazer pose de uma coisa tradicional, me parece fútil, desagradável.
As perguntas era sérias.   Como sabia dos lugares aonde tinha estado, falou o que tinha se sentido em cada um.   Mas te confesso que talvez tenha sido Uazazate, aonde me senti em casa, me receberam como um igual, talvez a cor da minha pele, ou minha postura, estão acostumados com turistas que vem fazem uma fotografia, ou um selfie, que esta mais de moda, vai embora em seguida, ou fica fechado dentro de um Riad, porque acha bonito.
Eu me levantava cedo, pois gostava de pegar a luz da manhã, para fazer aquarelas, desenhar, venha, foram a sala de exposição, apesar de ser um auto retrato, pois não fiz baseado em fotografia, mas sim num desenho, os meninos me acompanhavam o dia inteiro para  me ver trabalhar.  Conversava com ele, numa mistura de língua ou sinais.  Se riam muito comigo, como eu com eles.     Os velhos, ah, com esses tens que ser respeitoso, mas isso me ensinou minha mãe Melissa.  Ela tinha vivido um tempo por lá, então estava sempre falando.  Eu fui na verdade levar suas cinzas para deixar no cemitério de Fez.  Foi uma das coisas mais emocionantes da minha vida.   Tinha uma ideia, mas pensei que não aguentaria ficar três meses por lá.  Agora não consigo tirar isso da cabeça.  Se eu quisesse ainda faria outra tanda de  quadros, os tenho dentro de minha cabeça.  Tomei consciência de que tinha sido os melhores momentos da minha vida.  Talvez volte, depois entre por cima no Senegal, mas dizem que é perigoso.
De uma certa maneira quero me adentrar na arte negra.
A cada pergunta do Thomas que estava gravando, ao mesmo tempo que um dos homens que lhe acompanhavam faziam um vídeo.
O que fazia o vídeo lhe perguntou se não tinha relacionamentos, nem família.
Não tenho ninguém na minha vida, como desde da morte de Melissa, não tenho família, ela foi o melhor que aconteceu na minha vida, me ensinou a pintar, quando observou que eu tinha um certo talento.  
O mesmo fez outra pergunta, alguém ventilou que você continua dormindo num quarto pequeno atrás da casa, quem falou sobre isso, disse que ganhaste muito dinheiro, mas continua vivendo como se não tivesse, agora mesmo, se nota que sua camiseta está suja de tinta.
Primeiro claro que esta suja, sou um pintor, não vou me vestir uma roupa nova porque estou dando uma entrevista. A única coisa nova aqui é esse casaco que esta aí, mostrou o casaco numa poltrona.  Gostei como costuravam em Fez, a mão, se tens o catálogo de desenhos, verá dois, um eram os movimentos da mão do homem, que o fazia numa velocidade incrível.                Outra porque foi feito com amor pela sua profissão.                    Isso eu sempre respeito, mas não vou te responder, eu gosto da minha vida como esta.   Talvez o fato de dormir no pequeno quarto, me faça ter os pés no chão, me lembrar quem sou, de aonde sai         .  Isso é só meu, está guardado dentro de mim.
O homem ia fazer outra pergunta, mas Thomas lhe cortou, lhe perguntando se tinha feito contato com o mundo intelectual do pais.
Na verdade não Thomas, sou tímido, creio que prefiro estar entre a gente do povo, pois eu sai daí,  aprendi a escrever tarde, a ler, leio os livros velhos que  Melissa tinha em casa, li o que ela tinha sobre Marrocos antes de ir.      Imagina, nunca tinha viajado de avião, lá aluguei um furgão para andar pelo pais.  Dormi em praias, algumas vezes em Riad, uns bons outros nem tanto.
Gostei por exemplo que vi em Esauíra, de todos ajudando o barcos chegarem à areia, a descarregar os peixes, mas sempre com cuidado como se fosse seu.            Isso não vemos aqui, todos querem saber até a cor da merda que fazes.   Com quem vais para a cama, ou quem te incomoda, então vamos falar mal da pessoa.
Vivo numa casa velha, que era de minha mãe, continuo pintando no atelier que era o seu,  de vez em quando encontro algum tubo de tinta esquecido por ela em algum lugar.      Por isso não vou embora.            No verão a coisa fica mais complicada, pois a praia está cheia, nunca fecho a porta, as pessoas entram para olhar o que estou fazendo.   Como comecei pintando surfistas, me perguntam por que agora retrato essa gente feia.    Tento ser educado, para não dizer, não te olhaste ainda no espelho.   Outros querem encomendar um retrato, lhes digo que não faço isso, ao menos que o rosto da pessoa me diga algo.
O dono da galeria fez um sinal, dando por acabada a entrevista.
Mark, Robert, foi um imenso prazer em te conhecer.  Queres jantar comigo essa noite?
Sim, mas vou embora amanhã, sinto saudade de ver o mar.
Foram jantar, ontem parecias duvidar que eu não te conhecia, nunca tinha visto uma foto tua, as únicas que me mandaram era as que estavas com turbante.  Ficas diferente, gosto também como falas, sem problema nenhum de ser franco.
Depois foram andando pela ruas sem rumo, até que Thomas lhe disse, vivo ali, mostrou um edifício antigo, queres subir?
Foi como entrar num mundo caótico, cheio de mascaras, coisas dos países por aonde ele tinha andado.
Se aproximou, aquele beijo de ontem a noite só me deu vontade de dar mais beijos.  Aviso não tenho ninguém, vivo sozinho como tu, adoro minha solidão para escrever.
Estavam nus em cima de uma cama, me senti atraído por ti, na hora que te vi na discoteca, tinhas uma cara de chateado por estar ali, bem como eu, houve uma época que eu necessitava dessa musica no último volume, para abafar o que tinha na cabeça.   Mas hoje o silencio para mim é importante.   Ficaram juntos a noite inteira.
De manhã, ele se despediu, tinha que passar no hotel, para pegar sua bagagem, para ir para o aeroporto. 
Não se preocupe eu te levo.  Quero que tenhas meu endereço, pois se queres estar de novo comigo, como eu quero o teu, caso tenha vontade de ir te ver.
O levou ao hotel, depois ao aeroporto, se despediram com um beijo.  Assim que tiver o texto te mando uma cópia.
Uma semana depois recebeu um envelope daqueles antigos pardos, dentro estava o texto que ele tinha escrito.
Começava, tive a oportunidade de conhecer um grande artista, que retrata a terra que amo, fui esperando encontrar alguma brecha na sua história, mas esse homem, é fiel à si mesmo, vive como quer, sem se importar com o glamour de ser o pintor da moda.  Foi criado por uma mulher que não conheci, mas que sei que pensava da mesma maneira.
Posso dizer abertamente que me apaixonei por essa pessoa.   Quando vês em seus retratos, os personagens saindo do mesmo, parecem ter a intensão de falar alguma coisa, de se expressar seus sentimentos, tens realmente a ideia de que esse homem captou tudo.   Pelo que sei, não faz fotografias, ficou dias convivendo com essas pessoas desenhando cada expressão.  Espero que um dia me receba em seu atelier.  As fotos que acompanhavam, era ele ao lado dos quadros que Thomas mais tinha gostado.    O melhor era ele na frente do quadro com os meninos, o burro.  Embaixo, estava escrito, isso diz tudo dessa pessoa.
Lhe chamou, não atendeu, meia hora depois, ele lhe chamou, perdão, não tenho o hábito de levar o celular nos meus passeios pela praia.
Ficaram conversando.  Num rompante lhe perguntou por que não vinha passar uns dias com ele.    Dois dias depois estava trabalhando, ainda tinha ideias sobre Marrocos, estava pintando uma sinagoga de Fez que tinha entrado, era cheio de detalhes, um único homem com uma chilaba branca, estava lavando seus pés para entrar na sinagoga, ele tinha ficado impressionado com isso, estava acostumado a ver as pessoas colocarem suas melhores roupas, para irem a igreja.   Esse homem estava com a roupa do dia a dia, mas tinha lavado suas mãos, seus pés, o rosto, o braço.
Sentiu uma sombra na porta, Thomas, com a bagagem no chão encostado olhando para ele, senti que falavas com esse homem.
Estava pensando no respeito que tem pela oração, eu não acredito em Deus ou Deuses, mas admiro quem tenha uma fé assim.
Correu para ele, se abraçaram.   Então aqui é teu pequeno paraíso.  Levou as coisas dele para seu quarto, depois foram se sentar na cozinha para conversarem.   Num determinado momento ficou quieto, se levantou, foi para a varanda.
Isso  é a minha reza diária, me sentar aqui, como sempre fizemos, olhando o mar, deixando que a nossa cabeça, flutuasse além do horizonte.
Ficou ali de mãos dadas com o Thomas.
Este foi ficando, entendia agora o que ele dizia, ele realmente podia escrever sem ser perturbado, podia passar dias até que aparecesse alguém pela porta.   O observava agora uma pintura que fazia, era as mulheres subindo uma rua, em fila, cada uma com um alguidar de  barro na cabeça, com água para suas casas.  Algumas eram crianças ainda.
Ficava sempre de boca aberta, com sua concentração total, a sensação que tinha tido no primeiro dia, era a mesma, ele estava falando com essas pessoas.
Nesse dia ao olharem o por do Sol, contou o relacionamento que tinha tido com o Joseph, o que este tinha ido buscar do passado de sua família Sefardita, pensei em fazer isso, ir a España.
Sevilla, Córdoba, Granada, depois cruzar o estreito, entrar por Tanger, Tetúan, Rabat, depois descer outra vez, indo para Uazazate.   Desta vez quero aproveitar, vou levar para esses meninos, lápis, cadernos, passar um bom tempo por lá, me impregnando de tudo isso.
Thomas o ficou olhando, creio que vais precisar de um companheiro, para irem trocando a direção da Motorhome que fores alugar. 
Ele riu, estava mesmo pensando em comprar uma, depois vender antes de voltar.
Queres realmente ir comigo.  Levo o mínimo de bagagem, mas material muito para poder desenhar, pintar, essas coisas.  Que precisas tu?
Meu laptop, o amor de minha vida, alguma coisa de roupa, porque gosto de estar nu com ele.
Desfrutaram muito, porque agora um chamava a atenção do outro para algum detalhe, o mais interessante foi um dia que estavam os dois na praia, em Casablanca, prontos para adentrarem rumo a Uazazate, quando um rapaz parou na frente de Mark, voltaste, eu sabia que um dia voltaria,  era um dos meninos do quadro.
Que fazes aqui tão longe de casa.   Estou trabalhando na construção, mas é o que me toca, não tenho muitos estudos.   Gostaria, pensei que aqui poderia trabalhar, aprender.  Mas vejo que não, venho dormir aqui na praia, pois não tenho casa.
Nos vamos amanhã cedo para tua cidade, queres vir, passe esse tempo conosco, vou ver se te levo comigo.    Era o garoto que lhe fazia milhões de perguntas sobre américa, como era  viver lá.     Ele lhe olhou sério, sempre foste honesto comigo, isso não significa que queres fazer sexo comigo, como todos esses que se aproximam de mim.
Não para nada, tenho o que quero, colocou a mão em cima do Thomas,  Olha essa noite, de dou um saco de dormir, amanhã, vamos embora, queres vir.
Sim quero voltar para casa. Lá pensarei na tua oferta.  Foram a viagem inteira, com Thomas ensinando o rapaz a falar inglês.   Quando chegaram a Uazazate, saiu correndo, voltou com os meninos, agora todos grandes, gritava, eu não disse que ele ia voltar um dia.
Thomas tinha a revista com a reportagem, mostrou a foto dele, na frente do quadro.
Aquilo era uma festa, ficaram na motorhome, fora da cidade, mas todo o dia tinha garotos, os velhos vinha conversar com ele, se deixarem desenhar, falavam com ele, o rapaz de se chamava Mahamud, dizia, sabes o que ele disse.
Ele respondia perfeitamente, sim, não sei por que os entendo.   Perguntou se ali havia uma professora.  Sim apareceu dois jovens, não muito maior do que os outros rapazes.  Ele era do grupo, como a família tinha mais dinheiro, tinha ido estudar em Marrakesh,  aonde conheceu a jovem, com quem tinha se casado.    Perguntou o que precisava para a escola.  
Nos falta tudo, cadernos, lápis, livros, tudo.  Thomas arrumou uma caminhonete, foi com eles até Marrakesh, compraram tudo o que eles precisavam, mas em grande quantidade, Mark tinha dado o dinheiro.   Depois começou a ajudar as famílias, que os velhos diziam que mereciam ser ajudadas.
Como uma maneira de pagar ou retribuir o dinheiro que tinha ganho com os quadros. Numa das idas a Marrakesh, foram ao consulado americano, para conseguir visto para o Mahamud, lhe disseram que era menor de idade.   A solução foi o Thomas que era conhecido, no consulado, adotar o rapaz.
Deixou a Motorhome para que os professores pudessem ter uma casa, viviam os dois num quarto, foram até Marrakesh, para pegar um voo para San Diego, via Madrid, depois Miami, finalmente em casa. Antes de voltarem, conversaram como iriam fazer. Thomas não pensava deixa-lo, foi a NYC, vendeu tudo que tinha por la, inclusive a casa da praia. Enquanto isso, ele comprou a casa dos herdeiros da vizinha, ampliaram a deles.  Mas a casa de Melissa ficou igual.   Como ela tinha feito com ele, conseguiu uma professora, que lhe ensinou a falar, escrever direito.  Perdeu um ano recuperando tudo.   Hoje em dia fazia universidade, sempre falava, como era o mais velho da turma, os outros o respeitavam.
Era um exímio surfista, tinha inclusive ensinado ao Thomas, ele não podia perder tempo, tinha que pintar.   Tinha altas conversas com o Thomas sobre a idade de ouro dessa parte de Andaluzia, quando estiveram habitada pelos Árabes, então todos os quadros referentes tinham uma figura como ele tinha visto nos livros que tinha comprado, mas com a cara dos habitantes de Uazazate.
Tornou a pintar várias coisas.       Começou a sentir dores nas articulações, os médicos atribuíam o fato de ele ter sido desnutrido em sua infância.   Diminuiu o ritmo, não pintava por dinheiro, não necessitava de muito para viver, mas sim, agora usufruía mais da conversas intermináveis que tinha com Thomas.    Mahamud ou Mud, como o chamavam os amigos, dizia, que os vê de longe, parece que vão sair aos tapas.  Eu sempre digo, estão apenas conversando.
Ele mesmo entrava as vezes nas conversas, colocando seu ponto totalmente oposto, por ter vivido tudo aquilo.
Um dia contou sua verdadeira historia aos dois.   Ficaram olhando para ele, sem saber se acreditar ou não.  Mas pela força dos detalhes, acabaram acreditando.
Quando Mud, se formou na universidade, era o orador, falou de aonde tinha vindo, um paraíso miserável, sem futuro.   Um dia quando era criança, apareceu um homem da mesma cor que a minha, com um furgão, carregado de blocos de papeis, eu ia aonde ele ia, queria ver o que ia desenhar ou pintar, as figuras pareciam sair do papel.  Procurei não perder nenhum dia de sua companhia.   Dava gosto ver esse homem, conversando com os velhos da sinagoga, com todo respeito do mundo, ao mesmo tempo que ia desenhando seu rosto.  Bom esse é um dos meus pais, quando o reencontrei com meu outro pai, em Casablanca, estava cansando de tentar melhorar minha vida, me apresentei diante dele, me disse amanhã vamos para aonde vivias, depois te levamos para América.   E assim fizeram, sempre me cuidaram como seu filho, me deram a oportunidade de estudar, me formo hoje graças a eles.  Obrigado por serem meus pais.