miércoles, 22 de enero de 2020

FIM DE CARREIRA


                                                   FIM DE CARREIRA



Ao se olhar no espelho, seu lado esquerdo estava perfeito, mas o direito nem tanto, tudo devido ao tiro que tinha levado na cara.  Seria preciso uma boa recuperação com uma cirurgia estética.

Ficou olhando esse lado do rosto, tinha visto pelo olhar das enfermeiras, que pensavam, coitado tá fudido.   Mas tudo o que ele via eram os dois lados de sua personalidade.  O lado que estava perfeito, simbolizava, o tipo bonito que conquistava todo mundo.  O outro lado parecia a cara real do seu interior, da sua alma negra como uma bela noite sem lua, em que a escuridão lhe permitia sair, sem que lhe reconhecessem.

Estava farto de tudo. Realmente não tinha esperado o tiro essa era a verdade.  O sujeito lhe apontou a arma, infelizmente era um garoto, se via que estava assustado.  Lhe pediu o celular, a carteira, seu tênis, suas calças.  Ele ficou parado olhando, como se estivesse falando com outra pessoa que não fosse ele mesmo.  Ainda fez um gesto para dizer, é comigo que estas falando?

Esse movimento assustou o garoto.  Ele caiu para trás, a distância era curta, por isso foi como se tivesse arrancado metade de sua cara.  Olhou desde o chão, ele tinha se mijado nas calças.  Ia lhe perguntar para que precisava disso.  Era para comprar drogas.   Olha o que ela fez comigo.

Mas não conseguia se mover.   O garoto saiu correndo, sem levar nada.  Alguém tinha escutado o tiro, olhou na janela, o viu jogado na sarjeta, chamou a polícia, evidentemente sem se identificar.  Afinal ser testemunha de acusação de alguma coisa no Brasil era uma merda.

Ainda tentou se sentar, acreditava que a pancada em sua cabeça, tinha sido forte.  Junto com a polícia, chegou uma ambulância.   Pensavam claro, vamos levar mais um para o necrotério. Mas nada, o sujeito estava vivíssimo da silva.  Ainda conseguiu tirar sua carteira, para que lhe levassem para o hospital que tinha direito.

Era de madrugada, imagina um serviço de emergência, as pessoas abrindo a boca, cansados de esperar. Os médicos loucos para irem para casa.   Mas quando o viram, alguns o reconheceram.  Fizeram o melhor que podia.  Depois é claro teria que ser com um cirurgião de estética. 

Agora pode ser que lhe desse um papel de drácula, ou algum outro personagem do terror.  Seu agente estava impaciente com o tempo que perdia diante do espelho.  O chamou a realidade, vamos que temos hora com o cirurgião plástico.  

Justo nesse momento, pensou, se isso me faz livrar de tudo que odeio, de que estou farto.  Não quero mais interpretar o galã, o garoto sonso, o de boa família.  Isso creio que se acabou.

Evidentemente que sua carreira de ator, tinha acabado no momento que tinha levado tiro. Mas em momento algum fez qualquer reclamação.   Quando a polícia veio lhe interrogar, para saber se podia reconhecer quem tinha feito esse estrago.   Disse somente, desci do taxi, mas estava escuro, eu cheio de drogas, creio que foi um mal-entendido.  Não tenho menor ideia de quem foi.  O agente de publicidade do canal, ficou furioso pois isso vazou.   Que ele dissera que estava extremamente drogado.   Não era uma mentira.  Vinha se drogando a meses, pois já não conseguia se mover sem isso.

As eternas repetições de personagens, os putos closes em sua cara, considerado o homem mais bonito do Brasil, tinha ido para o caralho. 

Quando falou com o cirurgião plástico, disse, só quero que arrume minha boca que esta torta, que me dificulta falar, o resto não me preocupa muito, o chamou para seu lado, não quero ficar mais bonito.  

Este o olhou assustado, pois imaginava que queria que recompusesse toda a beleza que tinha, isso significaria pelo menos umas quantas operações. 

Quando comentou isso, sua única pergunta foi, o que lhe pedi, quantas cirurgias representam.

Só uma, o mais simples é arrumar a boca torta, para falares direito, colocar um enxerto em cima de tudo que está aberto. Depois com o tempo, irmos reconstruindo o rosto.

Vamos a isso então.  O agente da emissora, disse que o melhor era falarem com outro cirurgião, mas ele olhou a este, apesar de jovem lhe inspirava confiança.  Tenho todo tempo do mundo para recuperar minha vida.

Uns vinte dias depois saiu da clínica, em momento algum, tinha sentido pressão para mudar o seu rumo.   Somente chamou a pessoa que cuidava de seu dinheiro.  Tinha dinheiro suficiente para  bastante tempo.  Ele nunca tinha gastado muito.   Inclusive com as drogas, na verdade lhe ofereciam.  Ia a uma festa, estavam todos cheirando, ou fumando um canudo.  Para que se preocupar.   O que sempre lhe preocupava, era quando bebia muito, nunca sabia quem ia encontrar na sua cama no dia seguinte.   Isso sim lhe molestava, ficava furioso com ele mesmo, porque nem sabia se tinha feito sexo ou não.  Realmente tinha como um buraco na sua cabeça.

As vezes era algum homem ou uma mulher, ou os dois ao mesmo tempo.

Se olhava no espelho, se perguntava, era isso que esperava de sua vida.  Estava farto, não tinham em momento algum imaginado isso.

Tinha ilusão, que foi desaparecendo com o tempo.  As vezes era necessário que o chamassem a realidade, pois se desconectava, talvez pelas drogas, do que tinha que dizer.  Sentia que sua cara articulava da mesma maneira sempre.

Tinha claro sua casa que tinha comprado com ilusão, pois adorava o mar, mas pouco a podia usar, era em Arraial do Cabo, tinha poucos vizinhos.  Tinha conseguido simplesmente desde que a comprara de um conhecido, passar uns 15 dias lá, entre novelas.

Chegou em casa, desceu do Uber, com chapéu, óculos de sol.  Entrou cumprimento o porteiro, que perguntou pela sua saúde.  O senhor não sabe o fuá que fizeram suas seguidoras aqui na frente.  Tínhamos que limpar a calçada todos os dias, por causa das velas. 

Devem ter pensado que morri.  Teria que sair desse apartamento porque era da emissora, não seu.  Mas isso lhe dava igual, tirando suas roupas, seus livros, nada era seu.

Separou a roupa que gostava, camisetas, dois blusões, roupa interior, sunga de praia.  Jogou tudo dentro de duas maletas, pegou uma mochila que estava com o laptop, o celular,   desceu pelo elevador de serviço para a garagem.  Esperava que seu carro funcionasse. Tinha a voz um pouco diferente, pois com a operação ainda não podia articular direito.  Antes de sair, olhou para o espelho, de qualquer maneira ele era outra pessoa.

No dia anterior tinha renunciado a renovar ser contrato, seu agente estava furioso, mas não era com ele, não queria passar por mais quatro operações. Queria tão somente sua vida de volta.

Passou num posto de gasolina, encheu o tanque, foi embora, não chamou ninguém,  Aliás, não tinha a quem chamar.  Esses amigos todos que tinha, eram companheiros de trabalho, nunca tinha tido intimidade com nenhum deles.

Era mais fácil considerar o pessoal que cuidava dele, maquiadores, cabelereiros, os ajudantes de vestiário porque esses cuidavam dele.

Sentiria falta da Marta, uma negra que quando ele estava no studio, era como sua sombra.  Ela sim cuidava dele, embora fosse paga para isso.   Foi visita-lo umas quantas vezes no hospital.

Contou as fofocas dos bastidores, como ele já tinha cenas gravadas da nova novela, tiveram que encontrar um substituto.      Outro como ele. Com estampa, mas uma merda como ator.

Não foi isso que sonhei para mim, essa era a verdade.  Tinha sido criado pelos avós, seus pais se separaram, cada um refez sua vida com outra pessoa, ele ficou para trás.  Seus momentos trágicos tinha sido justamente a perda dos avós um seguido do outro.   Encaixou justamente quando fazia sua primeira novela.   A pouco tempo a repetiam num horário da tarde, viu alguns capítulos que trabalhava. Teve que rir, que canastrão.  Estava no hospital, pediu a enfermeira para colocar em algum filme americano.

Sabia que as enfermeiras, sentiam lastima pelo que tinha lhe acontecido.   Ele ao contrário, se encontrasse aquele garoto outra vez, era capaz de lhe dar um beijo na testa em agradecimento.

Não tinha menor ideia do que ia fazer, mas ia viver sua vida.

Parou num supermercado a entrada da cidade, comprou as coisas que gostava de comer, um básico.  A casa tinha uma boa cozinha montada, podia cozinhar como sempre tinha feito, antes de ser famoso. 

O mais importante, era comprar café, coisas básicas, como arroz, ovos, hum pensou, um arroz com ovos fritos, ah quanto tempo não comia isso. Ficou com água na boca.

Chegou à casa, abriu a garagem, meteu o carro dentro, tirou as coisas, foi levando para a cozinha.   Tinha que ligar a geladeira, todos os aparelhos elétricos estavam desligados, abriu as janelas, o quarto ficava no andar de cima.  Ele gostava mesmo era do salão.   Tinha até uma lareira para o inverno.  Ele ia passar bem lá.    Subiu, abriu a imensa janela que cobria toda a extensão do quarto. Afastou bem as cortinas, ficou encostado na parede olhando o mar, quase dormiu ali em pé.  Fechou a janela, deixando uma fresta para entrar o ar.   Não tinha problemas, sem vizinhos na frente, nem dos lados, tinha liberdade. Uma das coisas que atraiam naquela casa. Sua intimidade.  Fez um café, sentiu o cheiro do mesmo. Riu lembrando do médico, que lhe disse que mais um tempo consumindo drogas teria que recompor o tabique nasal.

Adeus merdas.  Nesse dia, estava indo para casa cedo, pois percebeu que iria cair na cama, com um sujeito muito bonito, mas que já tinha passado nas mãos de muita gente.  Estou fora, mesmo meio drogado, escapou.

Isso de acordar sem saber quem estava ao seu lado também.  Chega de beber, drogas, menos o rock roll que ele gostava.

Não ia chorar o leite derramado, afinal ele também era culpado de muita coisa.  Como todos os jovens queria ser famoso.      Era bonito, queria a fama.                Mas tudo tem seu preço essa era a verdade, nua, crua.  As vezes lhe parecia divertido que algum companheiro ainda encontrasse tempo para se enamorar de alguém.   Outros viviam escondidos em seus armários, trancados a sete chaves.

Abriu as cortinas, depois as janelas do salão deixando o ar do mar entrar.  Respirou fundo, com a caneca de café na mão.   Foi tomando devagar, não tinha menor noção do que ia fazer. Mas uma coisa era certa, tinha que procurar outra profissão.

Riu para si mesmo, o melhor era que seu nome real, não era o usado na televisão, portanto não teria problemas com nada.   Ele agora era  o de sempre. Dave Njord, por isso era loiro, seus pais eram estrangeiros.  Alias naquele pais, quem não era emigrante, riu de um conhecido que gritava em bom som que era raça pura.  Se lembrava da cara dele, podia ser tudo menos raça pura.

Tinha ido ver o cirurgião antes de sair da clínica.  Era um tipo de uns 45 a cinquenta anos, fizeste bem em não aceitar todas as operações, dentro de cinco ou mais anos, terias que refazer todas, porque as cicatrizes começariam a aparecer.   As luzes do studio iriam te marcar.  O sol prejudica menos que essas luzes.   Lhe contou que ia para a casa de praia.  Como faço, penso em me bronzear.   O médico, tirou dois tubos de creme do armário, lhe entregou, passe isso, vá tomando sol na cara devagar, assim ficarás com a pele por igual.  Principalmente na zona do enxerto.

Abriu as maletas, colocou tudo dentro do armário, tirou roupa de cama, preparou a mesma, vestiu uma sunga, foi para o mar. Antes passou o creme, apesar de ser final de dia, não queria deixar a pele desprotegida.    Foi descendo as escadas que levavam a praia, sem cruzar com ninguém.  Se houvesse em toda extensão da praia, umas dez pessoas, seriam muitas.  Deixou a bermuda, com a camiseta, chapéu, óculos ali na areia, mergulhou, sentiu que a água lhe liberava de tudo, nadou um pouco, mergulhou naquela água limpa.  Depois ficou boiando, sem se importar com nada.

Pela primeira vez em muito tempo tinha vontade de rir, não as risadas de um texto, ou porque estava numa festa, contavam uma besteira todo mundo ria. Isso tinha acabado.

Voltou para a praia, tinha um homem parado ali perto de suas coisas. Na hora não entendeu.

Moço não deixe suas coisas assim, a praia esta vazia, embora não seja o Rio de Janeiro, tem malandro também.

Vi o senhor sair da casa, vais passar uma temporada,  eu sou pescador aqui, posso lhe trazer peixe fresco no tempo que estiver aqui.

Vou morar uma boa temporada aqui, a casa é minha.

Tenho a sensação de que já vi o senhor em algum lugar?

Não creio, sou novo por aqui, meu nome é Dave, ou David, como queira.

Sim gosto de peixe, de camarão,  pode trazer.

Se vestiu, secou a cara, colocou o óculos, chapéu.  Aonde posso tomar uma cerveja, esqueci de comprar. 

O rapaz, agora de perto o via melhor, devia ser mais jovem do que ele, muito queimado do sol, com os cabelos todos queimados.

Bom se o senhor sobe por ali, mais adiante, quem um barzinho, meio pé sujo, mas a cerveja é gelada.

Queres vir tomar uma cerveja.

Uma loira gelada, nunca se recusa não é verdade?

Eu nunca ia pensar que eras pescador, tens cara de surfista.

Também faço.  Vim para cá, por causa do surf.  Tive um acidente num campeonato, uma prancha bateu na minha cabeça, quase fui para o outro lado.   Se um americano, não me recolhe, tinha morrido.   Eu nasci aqui, tinha uma grana, comprei uma casinha, mais para lá, vim embora.   Me afastei de tudo, precisava de deixar de pensar nisso de campeonato atrás de campeonato, no fundo estava sempre sozinho. Entende.

Sim, comigo aconteceu o mesmo.   Me cansei do que fazia.

Estavam tomando já a cerveja,  mal chegaram ele o apresentou ao Tonho, é boa gente, quando estão os turistas, é melhor ser conhecido, pois ele tira a cerveja mais gelada prá gente.

Como é teu nome?

Dagoberto, Berto ou Dago, deixo a escolha das pessoas. Eres a primeira pessoa com quem tomo uma cerveja.  Não costumo conversar muito.  Gosto de ficar na minha.  Antigamente, gostava de fumar um baseado, mas não posso por causa de uma medicina que tomo.

Tenho sempre que sair ao mar com alguém, pois pode me dar um ataque epilético.  Graças a deus são rápidos. Não é perigoso.

Por isso vou com um velho pescar, ele não tem filhos, me adotou.  Com ele falo muito, talvez porque inspire confiança.

Ele coitado adora televisão, quando vou tomar uma cerveja com ele, sou obrigado a ver novelas. Diz que é mais fácil que ler um livro.

Eu acho tudo uma merda.   Ficaram os dois rindo.

Olhando bem de perto, se via que estava mal cuidado, mas que era bonito.  Quando tirou o boné que usava, para coçar a cabeça, viu que tinha uma cicatriz que atravessava toda uma lateral,  ali não tinha cabelos.

Ah, estas vendo a cicatriz, pensei em tirar. Depois pensei bem, para que. Assim me faz lembrar do tempo que era um campeão do nada.   Porque tiras o dinheiro, resta só o prazer da  água.

Isso eu tenho agora sem me preocupar.  Alias faço uma coisa que as pessoas aqui devem achar loucura, adoro tomar banho de chuva, no mar, a água fica quente.  Cai na besteira de fazer aqui na praia, fiquei nu, entrei na agua, não vi que tinham dois carros parados, na parte em cima.  Quando voltei os idiotas tinham chamado a polícia.  Mas de noite, quando faz muito calor, sempre dou um mergulho.  Noite de lua cheia então que maravilha.

Caramba, estou falando mais do normal.  Talvez seja porque me inspiras confiança David.

Só estas me escutando sem falar nada.

Gosto de escutar as pessoas. No que fazia, não tinha tempo para nada.  Agora por muito tempo terei tempo para pensar, até em voz alta, sem ninguém para me incomodar, me dar ordens.

Ainda não sei o que vou fazer da minha vida, mas pronto descubro.

Só tenha cuidado para não casar, eres bonitão, mas casar é uma furada.

Foste casado?

Quase, ia fazendo uma besteira, para provar a todo mundo que era macho.  Depois parei para pensar, sou macho quando aguento uma onda enorme, porque tenho que ficar provando que sou homem.  O mais importante é ser uma pessoa inteira.

Sim isso é verdade, o meu problema  Berto, é que me meti com muitas merdas, me perdi, de repente tudo estourou em minha volta, cai na realidade.

Entendo, gostei que me chamaste de Berto, é o diminutivo que mais gosto.

Voltaram andando, o outro sinalizou uma casa muito pequena lá em cima.  É quase um barraco, mas também não preciso mais que uma cama, um cadeirão para olhar o mar. Basta.

Quando quiseres, me chame para nadar, de noite se for o caso.

Amanhã tenho que levantar as cinco, senão íamos nadar hoje à noite.

Entrou em casa pensando, que simples falar com uma pessoa que não sabe quem sou, dentro em breve ninguém mais vai se lembrar de mim.

Olhou no espelho do banheiro como estava o enxerto.  Viu que estava normal.

Nunca tinha tido muita barba, mas agora, a tinha a meio fazer.  No hospital as enfermeiras faziam para ele, para não se machucar.

Fez um sanduiche, olhou aonde sentar, ele tem razão, um cadeirão é necessário.  No salão tinham poucos moveis, só um sofá que virava cama. Vou comprar um para aqui, outro para o meu quarto. Assim posso me sentar olhar o mar.

Ficou sentado na varanda de cima, comendo o sanduiche.   Quando olhou para baixo, lá estava o Berto.  Se quiseres mais tarde podemos tomar banho de mar.   Falei com o velho, está mal, não quer sair amanhã.  Diz que os ossos lhe doem, sinal que vai chover.   

Queres um sanduiche?

Não, vou para casa tomar um banho, mais tarde te chamo. Tchau David.

O viu subindo, pensou que interessante, diz que tem confiança em mim.

Nisso viu que ele caia no chão.  Desceu correndo, quando chegou perto viu que estava tendo um ataque.  Levantou sua cabeça que estava no chão, tirou a camiseta para apoia-la, lhe abriu a boca, colocou um troquinho de madeira que estava por ali.  Mas realmente foi rápido.

Merda, não devia ter tomado a cerveja, mas queria me enturmar contigo.

Não seja por isso, eu fiz a mesma coisa.  O ajudou a se levantar, gostou do contato da pele, o acompanhou até sua casa.  Quer ver como é pequena.  Na parede de fora, estavam várias pranchas de surf.   Uma pequena varanda, com um cadeirão desses que aguentam o sol, depois um retângulo relativamente grande, com uma cama perto de uma janela, uma arara com roupa de surf, camisetas, bermudas.  Do outro lado uma mesa pequena, com duas cadeiras, um fogão, uma geladeira. Nada mais.

Realmente está perfeita  Foi ao banheiro lavar a boca.  Assim não posso te beijar em forma de agradecimento.

Realmente lhe deu um beijo quando voltou. Tinha um sabor especial, passou a mão pelos seus cabelos.  Você é bonito demais. Mas o que gostei mesmo foi de falar contigo.

Colocou a cabeça no seu ombro, tava precisando disso, um ombro para encostar minha cabeça cansada.

Sentara-se fora nos degraus da escada da varanda, ficaram olhando o mar.  David, você me dá paz, não me deixe mais beber, cai muito mal.

Estou proibido uma série de coisas, menos trepar, comer, dormir, cagar, mijar.  O resto quase tudo.  Fico olhando para essas pranchas, tudo que posso fazer, é me deitar nelas, ficar olhando o céu.   Se entro com elas no mar, perco o equilíbrio, caio direto na água.

O mais engraçado, é que sou gay, desde garoto, comecei a fazer surf para estar perto dos outros garotos.  Mas nunca transei com nenhum.  São muito preconceituosos. Por isso ia me casar.  Mas depois pensei, para que, fazer uma garota infeliz, algum dia a iria trair com um homem, iria tudo a merda.

Mas de você gostei, quando te vi na água, pensei, esse garoto não é daqui, deixando tudo na praia, fui la vigiar.  Em momento algum me deste como um intruso. Sorriste, começaste a conversar comigo.  Os que sabem quem eu sou, ficam logo com cara de pena, a mesma coisa quando viste a cicatriz, não vi nenhum gesto ou cara de repulsa.  Tampouco quando te beijei agora mesmo.  Estava necessitado.  Você viu alguém correr para me socorrer, ninguém, só o velho faz isso.  Mas hoje tá lá do outro lado.   Eu ficaria ali, até passar, sem ninguém se aproximar.  Ou então se a praia estiver cheia, ficam todos em volta te olhando como um desgraçado.  Apesar que tomo remédio, não posso tomar nenhum forte, porque tem efeitos colaterais.  A coisa foi feia, fiquei quase dois meses em coma.

Bom deixa para lá não paro de falar.   Virou-se me beijou outra vez na boca, a sua era suave, depois colocou de novo a cabeça no meu ombro.  Hoje vou dormir tranquilo.

Nisso começou a chover, o puto velho tinha razão, ia chover. Tirou a camiseta velha, tinha um corpo fantástico, magro, mas musculoso, queimado do sol.  Seu primeiro impulso era tirar a camisa fazer o mesmo.  Não queria se levantar pois tinha o pau duro.  Ainda era cedo para ter algo assim.

Vou para casa deixei tudo aberto, vai entrar agua. A chuva tinha parado um momento.  Amanhã nos vemos.  Lhe deu um beijo na boca. Essa primeira noite necessito dormir sozinho ok.

Foi para casa, a cada tramo, se virava para trás, abanava a mão.

Tinha encontrado alguém com mais problemas do que ele, mas queria ter certeza das coisas, não queria fazer sexo, por fazer sexo.   Mas que tinha gostado do beijo, isso tinha.

Odiava ficar beijando as garotas nas novelas, era uma coisa gelada. Cenas de sexo então nem se fala.

Realmente a cortina do quarto estava toda molhada, mal chegou à chuva caiu com toda força. Fechou as janelas, tomou um banho quente, sentiu vontade de dormir. Afinal tinha o hábito no hospital de dormir cedo, ou melhor lhe davam uma medicação para dormir.

Deixou uma manta nos pés da cama, mas dormiu direto.  Acordou relaxado, era o primeiro dia livre de sua nova vida.

Escutou uma batida na porta, pensou que era o Berto, quando puxou a cortina era um senhor de cabelos brancos compridos.

Perdão, sou o pescador que diz o Berto.                Sou seu tio, mas se digo isso tenho que o ficar lembrando.   O Berto não dormiu, esta na varanda, enrolado num cobertor, esperando pelo senhor, pois tem medo de esquecer quem é o David. Esse é o seu nome, não é?

Sim, mas porque ia me esquecer?

É uma das sequelas do seu acidente, ele nunca se lembra quem estava com ele, pode lembrar as pessoas que estão sempre por perto.  Por isso quando fui lhe dar o remédio da noite que o faz dormir, ele não quis, me contou que o tinha conhecido, que o senhor tinha socorrido no seu ataque, que lhe tinha beijado. Que o melhor tinha deixado ele ficar com a cabeça no seu ombro.

Por isso não quer dormir.  Pode por favor ir até lá, ficar com ele um tempo, até que durma.

Claro que sim, mas não me chame de senhor, só de David.

Vestiu uma camiseta, óculos escuros, chapéu, o sol já estava a pino.

Quando chegou na varanda Berto abriu um sorriso imenso.  Vê tio, não me esqueci dele, agora posso dormir.  Ia dormir ali mesmo.  Mas o levantou, pegou a manta, o foi levando para dentro abraçado, ele ia com a cabeça no seu ombro.  Deita comigo, o velho fez um gesto afirmativo que sim.  Trouxe água, uma pastilha.  Ele tomou como um menino.  Se deitou na cama, bateu a mão ao seu lado, tenho que dormir assim, pois me acostumei no hospital. Ele se deitou ao seu lado, ficou encostado, em seguida estava dormindo. 

Esperou um pouco, lhe fazia bem saber que estava na cama com alguém, não uma pessoa que ele nem conhecia.  Que depois iria alardear para todo mundo, dormi com fulano.

Ele queria era paz de espírito, nesse momento o tinha.  Esperou um pouco, se levantou devagar, sem fazer ruído.  Viu que ele estava num sono profundo, com um sorriso na cara.

Saiu, sentado nas escadas estava o senhor.

Obrigado, senão ia ser um inferno o dia inteiro, não tenho mais idade para isso. Afinal tenho 85 anos.  Quando ele tem um ataque, fica difícil, por isso pago um menino para ficar o seguindo, o olhando, mas esse está doente estes dias.

Ontem me procurou depois que esteve contigo, estava eufórico, o que é muito difícil.  Disse que a muito tempo não falava assim com ninguém, que lhe inspirava confiança.

Ele teve uma vida muito difícil.   Era super ativo, os pais não o entendiam, uma inteligência nata. Seu pai é meu irmão.  Um idiota renomado.   Seus pais se separaram, ele passava cada dia numa casa.   Isso o confundia.  Se escapava para a minha, que ficava em frente a praia, no posto 6, ainda tenho o apartamento.  Então o levava para nadar no Arpoador.  Ele ficava como um louco vendo os garotos de sua idade surfando.  Lhe comprei uma  prancha, ninguém lhe precisou ensinar, já tinha aprendido só de olhar.  Agora fugia da casa do pai ou mãe que lhe correspondia aquele dia, passava o resto do dia dentro d’água.   Era impressionante, como sempre tivesse feito isso.   Houve um campeonato para os jovens.  Ele ganhou em duas categorias.  Ficou feliz, me agradeceu na hora da premiação, pois o tinha encaminhado.  Daí para os grandes campeonatos, foi um pulo, eu me aposentei, falei com meu irmão, que agora tinha outro filho, sua ex-mulher, a quem o novo marido não suportava um garoto hiper ativo dentro de casa.  Ele foi morar comigo.  Tinha seu quarto sempre em ordem, ficou mais calmo.  Mas o mar sempre foi sua paixão.  Eu também sempre amei o mar, mas gosto de pescar, ele as vezes diz para as pessoas que sou um pescador a quem ele ajuda.  Se fica o dia inteiro sem me ver, se confunde.

Uma parte da sua cabeça guarda tudo do passado, mas do dia anterior nada.  Por isso venho le dar o comprimido de noite, assim sabe quem sou eu de manhã.  Por isso não queria dormir.

O retiraram d’água no dia do acidente, praticamente morto, com a cabeça toda aberta.  Não foi culpa do outro rapaz. A onda era muito forte.   Ele vinha na frente liderando, quando a prancha escapou do outro que caiu, foi direto a sua cabeça.  O vídeo deu a volta ao mundo.  Nem assim seus pais, chamaram para perguntar nada.   Estávamos em San Diego, menos mal que o hospital era excelente.  Os organizadores cobriram todas as despesas, afinal tem seguro para acidentes.

Ficou mais de dois meses em coma, quase três, cinco operações, mas as sequelas são complicadas.  Uma medicação que lhe proíbe quase tudo, provoca os ataques, uma outra, que ele tenha que mijar mil vezes ao dia.  A única maneira dele dormir é tomando um comprimido, senão fica ansioso.  Eu quase fui a sua casa ontem a noite, mas me proibiu.  Me disse, se ele gostou de mim, voltará de manhã, vou esperar para não me esquecer dele.

Obrigado David, te olho, mas não me pareces estranho.

Tive um problema quase igual ao dele, tive que refazer parte da minha cara, por isso uso chapéu, por causa do sol. Eu o entendo, estou refazendo minha vida também.  Fiquei contente de o conhecer, o convidei para uma cerveja, como ele não disse nada pensei que podia beber.

Enquanto estiver por aqui, ajudo o senhor, não sei o seu nome?

Henrique Valadares, mas todos me chamam de Henry, porque sempre tive cara de estrangeiro.

Bom vou fazer comida, porque o comprimido, fara um efeito pequeno, normalmente tem que tomar dois comprimidos, mas só dei um.

Eu o ajudo, gosto de cozinhar.  Ficaram conversando, sobre peixes, ele abriu a geladeira, na parte do congelador, havia uns quantos.  Vou fazer uma sopa de peixe que ele gosta.

Duas horas depois Berto começou a se mexer na cama.  Deite-se do lado dele, assim saberá que estavas por perto.

Se deitou, Berto se virou na cama, deu de cara com ele, sorriu, alô, dormiste bem?

Sim, tu também.

Sim estavas comigo,  o abraçou, dormiu mais um pouco em seus braços.  Há muito tempo ele não sentia essa tranquilidade.

Voltou a acordar.  Bom dia homem conhecido.  O reconhecia, mas não se lembrava do nome, seu tio tinha explicado que nunca devia perguntar, sabe quem sou, lembra-se de mim, nada que lhe pudesse fica pensando, pois não se lembraria do nome.  Diga simplesmente David.

David, bom dia homem conhecido Berto.  Desta vez foi ele quem o beijou suavemente.

Ele disse ao seu ouvido, não vou fazer sexo contigo, porque sei que o velho esta ai.  Ficou rindo, ele me enganou, choveu ontem. Hoje tem sol.   Podíamos sair para pescar.

Nada disso, vamos nos levantar para comer, porque ele fez uma sopa de peixe.

É a sua melhor comida, quando despertava, parecia uma criança.  Se levantou espreguiçando, vou tomar um banho, lavar os dentes, já volto, não desapareça.

O Henry, sorria, fico feliz quando o vejo bem.  O que me preocupa, é que já tenho muita idade para cuidar dele.  Por sorte esse garoto me ajuda. 

Ele voltou feliz da vida, nu completamente,  seu corpo brilhava, todo molhado a luz do sol. Tinha na mão uma toalha, podes me secar. Estendeu a toalha.

Ficou meio sem jeito, porque tinha ficado excitado, mas fez o que ele lhe pedia. Como se não tivesse passado nada, vestiu uma bermuda, uma camiseta, estou pronto para mais um dia.

Tomaram a sopa juntos, ele ria, tinha vontade de lhe dar mil beijos. Mas tinha que tomar cuidado, nunca tinha se apaixonado na vida.

Depois ficaram sentados na varanda. Se lembrou que tinha colocado a máquina de lavar, queres vir a minha casa, tenho que colocar roupa para secar. Foram andando.

Ele ia em silencio, alguma coisa te preocupa Berto?

Sim, que eu me esqueça de ti.  Nisso vinha pensando, já imagino que o velho te contou que esqueço das pessoas.  Por isso fiquei te esperando, dizendo teu nome muitas vezes.  Não queria esquecer.

O ajudou a colocar a roupa para secar, depois lhe mostrou a casa. Quando chegaram ao quarto, ele o empurrou para a cama, Nessa quero dormir contigo.  A minha é pequena como a casa.

Rapidamente tirou toda a roupa ficando nu. Tirou a sua também, se deitou ao seu lado, tua boca parece ser tão suave, lhe beijava.  Mas te aviso, não sei fazer sexo direito.

Agora tinha medo, não sabia o que fazer, se relaxou, ficaram se beijando,  de repente, ele começou a se comportar como uma pessoa que sabia das coisas.  quando viram faziam sexo normalmente.  Me veio na cabeça que é assim que se faz.  Depois ficaram abraçados, ele dormiu outra vez agarrado a ele.  Quando despertou disse, David, foi bom fazer sexo contigo.

Estava sonhando contigo, me dizia seu nome é David, não posso esquecer.

Estava sorrindo. Sabe David, eu pensei durante um tempo que estava morto, aquela água toda em cima de mim.  Mas não estava vivo, quando acordei o velho estava ali, como sempre.

Ia se levantar da cama, só mais um pouco David.

Depois lhe disse, que se vestisse, que iam a cidade comprar cadeirões para colocar na varanda, de cima, outras para baixo.

Vais me levar contigo, tenho que avisar o velho.

Claro o avisamos, venha, saímos pela garagem.  Sentou-se no carro, sorrindo, foram até a casa do velho, lhe avisaram.  Este pediu que comprasse medicamentos, lhe deu as receitas, com dinheiro junto.

Eu tenho aqui, mas ele insistiu.  Temos dinheiro, apesar do aspecto que temos, há dinheiro suficiente.

Deixou que ele escolhesse os cadeirões, tinham que ser grande, pois ele gostava de se enroscar.  O homem ficou de entregar no dia seguinte logo cedo.

Foram a farmácia, depois tomar sorvetes, andar um pouco pela cidade.  Pareciam dois namorados.  Realmente estava feliz, nada mais de pesadelos de não saber quem estava na cama com ele.

Porque não dormes lá em casa hoje, assim amanhã, esperamos juntos os cadeirões?

Claro como dois namorados.

Levaram os medicamentos para o Henry, quando disse que ele ia dormir na sua casa, lhe deu um cartão com comprimidos, dois antes de dormir.

Comeram alguma coisa, ficaram conversando.  Sabe o chato David, leio um livro, no dia seguinte não me lembro da história, mas me lembro dos que lia antes.

Ficaram deitados na cama, abraçados, ele olhando sua cara.  Não eras muito feliz, verdade David.  Gosto quando me olhas, sorri para mim.  Sei que é só para mim.

Fizeram sexo, num determinado momento, se sentou em cima, dizendo, a você eu deixo me penetrar, mas tem que ser com essa coisa, não se lembrava do nome da camisinha.  Ai como uma criança, deixa que eu coloco.  Foi uma loucura, não sabia precisar o tempo, mas com ele tudo era suave excitante.  Tiveram um orgasmo juntos. O agarrava beijando.  Caramba foi a melhor coisa que me aconteceu.

Viu que estava com sonho, com uma toalha húmida o limpou.  Depois lhe deu  a pastilha, dormiram agarrados um ao outro.  Os dois tinham mania de dormir de lado. Se encaixavam.

Despertou de madrugada, sorriu, ele continuava a dormir.

De manhã, o olhou, primeiro disse, foi bom, foi bom David.  Já sabia quem ele era.

Temos que ir acordar o velho para ir pescar, esta um dia bonito, vou pedir que nos leve a uma praia para nadar.

Foram andando a casa do velho, este já estava com café pronto.  Assim não vamos pescar nada, que ajudantes, levantando tarde.

Tomaram café, foram descendo para a praia, ajudaram o Henry, colocar o barco na água, saíram.  Henry lhe piscou o olho, então dormiste bem hoje Berto?

Como os anjos, David me deu os comprimidos, me abrigou durante a noite, de manhã me lembrei dele em seguida.   Estavam em cima de um cardume de peixes, o Henry jogou uma rede, em seguida trouxeram muitos peixes para o barco.  Mais adiante havia uma praia vazia, sem casas, areia branca.   Minha praia preferida, quando foram se aproximando, tirou a bermuda, camiseta, nu mergulhou na água, Henry lhe disse, pode ir com ele. Fez a mesma coisa, mergulhou nu, ficaram nadando, seguindo o barco até a praia.  Se jogaram os dois na areia.  Descansaram um pouco, voltaram ao mar.

Isso sim é vida, pensou, uma pessoa que gosto, liberdade.

Quando saíram d’água, Henry tinha feito uma fogueira, estava enrolando dois peixes em folhas de bananeira, como fazem os índios. Fica ótimo. Ficaram os dois ali sentados nus, sem problema nenhum. Vigiem, que vou dar um mergulho. Quando Henry tirou a roupa, ficando nu, seu corpo para a idade era estupendo. Tinha pelos, por todo o corpo, brancos contrastando com a pele queimada do sol.

A partir de então, Berto viva na casa de David, era uma sintonia completa.  Estava sempre atento a que tomasse seus comprimidos,  já inclusive percebia quando estava para ter um ataque. Meses depois foi com os dois para uma revisão médica.  A coisa não foi bem, um dos escanares mostrou um vulto, logo abaixo das cicatrizes.  Examinado com cuidado, era uma massa que crescia rapidamente.  O médico foi sincero, se pode operar, extrair uma parte, mas impossível, mostrou uma parte, se cortamos aqui, se tornara um vegetal.

Claro Berto tinha noção de tudo. David chegou a suar frio, quando escutou isso tudo. Pode aguentar um ano, mas seus ataque serão mais frequentes, cada vez que bata com a cabeça ao chão, essa massa se deslocara, provocando um ataque maior.

Consciente disso tudo, voltaram todos calados para casa.  Não me importa, se posso seguir vivendo contigo, tudo bem.  Agora já não tinha problemas, sabia que estava sempre com o David.  Um dia muito consciente lhe disse, te amo, foi o melhor da minha vida, se para te encontrar tive que passar por isso, valeu a pena.   Agora, inverno, dormiam em baixo, para ele não ter que subir escadas, acendiam a lareira de noite, ficavam abraçados. 

A David, voltou o sentido de escrever o que tinha passado com ele.  Quando era jovem os professores elogiavam sua maneira de escrever.

Escreveu uma história similar a sua, mas com um final, mas trágico, baseado em pesquisas de jornais, artistas que surgiam, eram engolidos pela máquina, desapareceriam em seguida.

Falou com uma atriz que sabia que seu marido era editor, mandou o texto, este resolveu que o publicaria, mas com o seu nome verdadeiro.

Agora escrevia uma outra história, falando da perda de seus avós, que eram seus verdadeiros pais.  De fato, nem sabia aonde viviam seus pais verdadeiros.

Tinha comprado uma televisão, para o Berto se distrair, enquanto ele mergulhava em seus silêncios de escritor.  Fez isso porque percebia que ficava nervoso lendo um livro.  Quando chego ao final da página, não me lembro do começo, fico sem entender as histórias.   Os filmes em breve deixaram de fazer sentido, via os documentais de surf, ao que as vezes acabava chorando.   Um dia começou a gritar aflito, David correu até ele, estava vendo a si mesmo surfar. Na Austrália, um  vídeo antigo. As lagrimas corriam pelo seu rosto, se abraçou ao David, perdi tudo, mas tenho a ti.   Agora tinha que ter a atenção no que escrevia, ao mesmo tempo nele, tinha as vezes cinco ataques por dia.  Nenhum remédio conseguia controlar. Se notava ao lado da cabeça aonde estava a cicatriz, um volumem exterior.

Quando chegou o verão, mal podia se mover.  Pedia a David, me faça amor por favor, assim sinto que ainda estou vivo. Era difícil esse ato, mas o fazia.  Agora sabia o que era o amor por outra pessoa.

Quando o livro foi lançado, queriam que ele fizesse uma turnê pelo Brasil para lançar o livro, disse que era impossível, pois não podia abandonar a pessoa que vivia com ele.  Concordou em gravar um vídeo. Mas exigiu que só filmassem o lado que não o identificava com o ator  antes famoso.

Um mês depois Berto morreu dormindo,  sentou-se ao seu lado na cama, pela primeira vez pode chorar tudo o que sentia. Tinha verdadeira convulsão chorando.  Se perguntava, porque te encontrei, para te perder, isso é uma grande maldade.  Mandou um garoto avisar o Henry.  Esse ao contrário, só disse, finalmente descansou.  Consolou David, providenciaram sua vontade, ser cremado, que suas cinzas fossem lançadas ao mar, na praia que iam sempre.

David, a muito custo acabou o livro, dedicava um último capítulo ao Berto, como encontrar num reiniciar de vida, uma pessoa que vais perder menos de três anos depois.  O editor, em seguida aceitou o livro, pois o anterior tinha tido uma venda estupenda, principalmente entre os jovens que era dados como não assíduos aos livros.   Desta vez, primeiro fizeram um vídeo, com ele de frente.  Seus cabelos imensos, loiros, caindo pela cara, o vídeo só enfocava sua cara, a do lado bonito o outro não tanto.  Falava da perda dos avôs, do amor de sua vida.  Da luta por seguir o dia a dia, numa reconstrução de sua vida.

Logo descobriram que ele era o ator a tempos desaparecido, se negou a falar do assunto em todas as entrevistas.  Exigia que falassem do livro.  Em mais de uma entrevista, se levantou, foi embora.

Outro sucesso.  Queria escrever um falando dos dois.  Mas claro precisava do consentimento do Henry.   Iam sempre os dois a pescar.  Estavam os dois na praia, falou sobre isso, seria uma maneira de prestar minha homenagem ao homem que amei.   Não tem que me pedir licença, se vais contar a historia de vocês. 

Sabe Henry, o pior é despertar, procurando por ele na cama, despertar pensando se lhe dei os comprimidos para dormir o não.  Sonho conosco nesta praia, conversando.  O dia que  ele descobriu quem eu tinha sido, lembra-se.   Ele estava vendo uma telenovela, para não me perturbar, a via sem som.  Não me dei conta, o que era.  Aqui na praia, ficou me olhando, se levantou, foi olhar o lado bom. Beijou minha cabeça, disse o meu nome, em seguida o do personagem.  Na hora não me lembrava, mas quando voltamos para casa me mostrou a novela.

Eu ri muito, vimos um capítulo junto, depois de noite me dizia, vira o rosto para lá que quero fazer sexo com o outro, vou te trair com o personagem da novela.   Riamos muito disso.

Ele manteve seu sentido de humor até o final.   Dias antes de morrer, disse que tinha valido a pena, pois pela primeira vez tinha amado.  Eu lhe disse o mesmo.  Realmente nunca tinha amado ninguém.

Semanas depois teve que ir ao Rio, pois uma parte de seu rosto estava inflamado, foi ao cirurgião, ele não entendia por que depois de tanto tempo, havia uma pequena inflamação no implante.  Temos que verificar, se isso vai se estender.  Agora não era questão de salvar sua beleza. Mas sim sua articulação.  Acabou ficando um mês no hospital, se aborrecia enormemente.  Henry numa das visitas trouxe seu laptop, assim ele podia escrever.  Disse que tinha aparecido um rapaz, que viu as pranchas de surf, tinha perguntado se estavam para alugar.  Tinha competido com o Berto na Austrália,  está retirado.  Naquela época os dois ficaram amigos, conversavam muito, Berto lhe falava daqui, das águas limpas.  Veio para ver se o encontrava.  Está vivendo lá na cabana.  Vai sempre pescar comigo. 

Quando ficou bom, estava com a cara diferente, pois tinha sido necessário para recompor o pedaço que tinha tirado, retirar do outro lado do rosto um bom pedaço, tinha ficado com a cara esticada.  Tinha um certo problema de articulação que fazia que sua voz ficasse diferente.

Durante esse tempo, somente lhe visitava, o Henry, seu editor, as vezes sua mulher.  Quando lhe perguntava se ele não sentia falta de representar, dizia que nem pensar, nunca tinha sido tão infeliz como naquela época.

Porque não me escreves um monologo, para que eu represente.

Assim que tiver uma ideia, como tenho na cabeça a composição de um texto, o farei para ti.

Quando voltou, foi imediatamente ver o Henry, tinha esquecido completamente do novo morador da casa de Berto.  Ia subindo a encosta, levou um choque,  parecia estar vendo Berto em pé na varanda.  Henry que estava lá acenou para ele, mas o choque tinha sido tão forte que virou as costa, voltou para casa chorando.  Tirou sua roupa na praia, ficando de cuecas slip que podiam passar por uma sunga, mergulho esperando que a água do mar, acalmasse seu coração.

Quando saiu, estavam o Henry e o rapaz.

Eu imaginei seu choque, realmente de costa ele se parecia com o Berto.  Mas de perto, era diferente, usava óculos graduados, tinha os olhos verdes, a pele mais morena.

Falava um português muito carregado. Desculpa te perturbar, Henry me contou a história de vocês.   Ficaram ali na praia sentados, Henry examinou sua cara.  Estas outra vez diferente, como foi a última operação.

Mais dolorida, porque tiraram um pedaço daqui para colocar do outro lado.  Não aceitei os remédios para dor, tenho medo de me viciar.

Henry mandou seu garoto, ir buscar umas latas de cervejas para eles.  Ficaram ali horas falando,

Por que vieste atrás do Berto?

Uma larga história, quando o conheci, tínhamos o mesmo problema, estar dentro do armário, num ambiente totalmente machista.  Essa era a nossa conversa.   Estava interessado nele, mas me disse que se guardava para uma pessoa que pudesse viver com ele.  Eu fui para um outro campeonato, logo em seguida ele sofreu o acidente.  Levei muito tempo para descobrir aonde era esse lugar que ele falava.

Quando cheguei aqui,  não sabia que tinha morrido, me indicaram para falar com o Henry, que eu já conhecia.  Quando vi a cabana, pensei a casa dele.  Foi quando encontrei o Henry, que me contou o que tinha passado.  Fico feliz, porque ele teve a pessoa que queria, com a que sonhava.  Fui duas vezes com o Henry, para ele te ver, mas achei que tinha que esperar para te conhecer.

Pois é o médico me proibiu chorar, pois isso acontecia sempre que sonhava ou pensava nele.  Aproveitei esse tempo para escrever, contar nossa história desde o dia que cheguei aqui, que o conheci.  Falei abertamente dos meus sentimentos por ele.   Achei que com isso tinha suplantado tudo, mas ao te ver de costa, foi como uma bofetada na minha cara.

Henry trouxe peixe, fizeram  na cozinha de casa.  Conversou com os dois muito, apesar de estar ali tanto tempo, não conhecia muita gente.

Graham, tinha vivido por meio mundo, aonde houvesse uma praia para surfar, lá ia ele, até que num campeonato rompeu as duas rotulas.  Também tive que colocar próteses nos dois joelhos.

Gosto mais hoje de andar de barco com o Henry,  pescar. Ler, escrever.  Quando estas pelo mundo, fazendo surf, eres patrocinado, os prémios são teus, não tens tempo de gastar, nem precisa, é como uma aposentadoria quando paras.

As pessoas me perguntam pelos troféus, nunca tiveram importância, são peças que não levas nas tuas viagens.  Mandei tudo para a casa dos meus pais sempre.

Agora falavam sempre, saiam de barco, ele estava revisando o texto da história.  Pediu aos dois que a lessem para comentar.  Henry, devolveu, dizendo, não posso, creio que vou ter um enfarte se ler mais do que li.   É muito real.

Graham, leu, veio uma noite, lhe abraçou, chorou no seu ombro.   Vim para cá pensando em tentar encontrar o amor com o Berto, encontrei a ti. Deu-lhe um beijo, com sabor a sal das lagrimas.  Ele era mais alto, mais forte, me levantou, me levou para cama, para me amar.

Não resisti, precisava de carinho, sexo, sei lá.  Primeiro me senti traindo o Berto, mas me lembrei que já não estava ali.

Fui me acostumando que aquele homem viesse, dormir na minha cama, que me preparasse a comida.  Henry já não saia com o barco, se sentia velho.  Dizia aos dois, aproveitem vivam a vida.  Íamos a praia, que já estavam construindo algumas casas.   O paraíso vai ser perder.

Quando vimos, estávamos a cinco anos juntos.  Finalmente acabei o texto do monologo, a atriz leu, ficou louca por ele, sua reclamação, mas é um homem.  Não posso fazer isso.

Claro que pode.  Ela começou a ensaiar, mas criava um estereótipo do personagem, uma mescla de Henry, dos homens de minha vida.  A cena era imutável,  Um homem sentado, lembrando dos amores de sua vida.  O diretor, um dia me pediu, se podia fazer uma cena que ela não conseguia.  Eu sabia o texto, afinal o tinha lido milhões de vezes.  Me sentei no palco, como num estalo, saiu tudo, como eu imaginava o Henry que gostava de contar histórias, as risadas do Berto, as largas conversas com Graham, eu tentando me reencontrar. Mas não parei, fui falando até o final o texto.

Viu dizia ela rindo.  É ele quem tem que fazer isso.  Ela produzia o espetáculo.  Falou tanto que o Graham me disse, porque não fazes, isso tira o mal gosto da tua boca, de fazer televisão que não querias.

Aceitei, desde que usasse meu nome original.  Com esse nome ninguém me conhecia, minha cara era diferente.  As críticas nos jornais, falavam de um novo ator, que tinha inclusive escrito o texto.  Logo recebi convites para a televisão, mas me neguei, não precisava de dinheiro para minha vida tão simples.   Levaram muito tempo para descobrir quem eu era.  Mas era um assunto morto.

Quando acabou a temporada, um ator de São Paulo queria fazer o texto, disse que podia, era sempre dinheiro em caixa.   Mas tinha tirado o mau gosto de representar.  Agora tinha que viver minha vida com o Graham cuidar do Henry que estava muito velho.   Para que precisava de mais.  Mas a foto dos dois um dia na nossa praia, continua na mesa de cabeceira.

Eu dizia sempre, o homem que me fez ser quem eu era atualmente, realmente devia a ele ter-me reencontrado, ser eu mesmo sem dores, aceitando meu passado inodoro como eu chamava.

Agora era feliz.
















lunes, 13 de enero de 2020

BULL HEAD - CABEÇA DE TOURO


                                             BULL HEAD  - CABEÇA DE TOURO



Tudo que se lembrava era a ação final. Ter voltado para resgatar seu companheiro ferido, ele nunca deixava um companheiro para trás.  Escutou como que muito longe gritos que diziam para voltar.  Nesse momento estourou a bomba. Não sabia se era terrestre ou uma bomba jogada pelo inimigo.  Depois disso nada, negrura total.  Sonhou com seu pai, este falava tranquilamente, uma coisa rara nele.     Tens que voltar, ele não sabia a que se referia, voltar para aonde, se estava pela primeira vez em sua vida num entorno tranquilo, coisa rara para ele que sempre tinha buscado uma paz interior.

Foi sugado por uma força maior que ele, pensou que ainda estava na batalha.  Como era isso, se num momento estava em paz, no outro numa batalha.

Sentiu que uma mão apertava a sua, uma voz conhecida que dizia, filho da puta, desperta de uma vez.  Não posso mais te ver assim, esquece esse puto passado de uma vez.  Recomeça tua vida.  Sentia uma dor na perna esquerda, insuportável. Foi abrindo os olhos devagar, que apertava sua mão era seu irmão Valknut, seu imenso corpo esse cabelo loiro completamente despenteado como sempre.  Por mais que sua mãe passasse pente ou escova em seguida estava como se nada. Dizia em seguida, esse tua sangue ruim não deixa nem o cabelo em paz.

Tentou sorrir, com a lembrança, mas não podia tinha algo na boca.  Em seguida viu uma enfermeira, com um médico negro, retirando um tubo de sua boca.   Seja bem vindo ao mundos dos vivos Gudbrand.  Agora sorriu, fazia muito tempo que ninguém dizia seu nome completo, todos o chamavam de Bull Head, ou Espada de Deus, que era o que significava seu nome.

Filho da puta, tornou a dizer seu irmão, tens que parar com isso, não aguento mais, ter que correr ao um hospital para ficar segurando sua mão. Levantou a mesma, estava cheia de tubos.

Até quando vou ter que lembrar-te que não eres um deus nórdico como dizia papai.  Eres um simples mortal como qualquer outro. Estou farto disso, na hora que estiveres bem, vou te dar uma surra de fazer gosto.

Estive com papai agora mesmo, me disse para voltar.  Só não entendi para onde?

Sabes que estas em coma a mais de 20 dias.  Te trouxeram de tua última missão diretamente para cá.

Se lembrou do companheiro, lhe perguntou se tinha conseguido salva-lo?

Já estava morto antes de chegares até ele, segundo teus companheiros, foste um louco indo por ele.

Não ia deixar um companheiro nas mãos de fanáticos.  Sabe-se lá o que poderiam fazer com seu corpo.

Ele já está enterrado, quase que temos que enterrar a ti também.

Que passa com minha perna esquerda que doí muito. Tentou se levantar para olhar, mas seu irmão colocou a mão sobre seu peito impedindo. Nisso viu do outro lado do quarto, um homem moreno.

Ah, te apresentou Gunter, meu namorado.

Como, é isso.

Oras te esquece que estou divorciado a mais de 10 anos, finalmente encontrei uma pessoa que gosta de mim como sou, um bruto. Fez um sinal, o homem se aproximou.  Era tão alto como seu irmão, mas uma versão morena. Um sorriso de dentes brancos, olhos azuis. Gostou do sujeito de momento.  Deu um sorriso, cuide bem deste meu irmão, com mania de me proteger de tudo.

A voz do outro era rouca, notou que tinha uma cicatriz no pescoço. Claro que cuido, creio que isso de proteger é uma coisa dos irmãos.  Sem ele não estaria vivo.  Olhou para Valknut com um olhar de adoração.

Puxou uma cadeira se sentou do outro lado da cama, segurando sua mão.  Parece que a família cresceu, verdade, três marmanjos loucos.

Voltou a dormir, foi como estar se afundando, naquela cama de sua infância, um colchão de plumas de ganso, feitos por sua mãe, viviam num campo perto de Blue Ridge, Virginia, seu pais parecia um deus nórdico, dois metros de altura, cabelos vermelhos, uns braços dignos de Thor, um deus da mitologia Viking, essa era sua origem, um emigrante, tinha se casado ao chegar aos estados unidos, com uma mulher loira, olhos azuis, muito simples.  Minha mãe era uma viúva de guerra, tinha as terras que tinha herdado do marido.  Quando viu aquele homem tão grande se apaixonou perdidamente por ele.  O adorava, respeitava, mas ficava uma fúria quando ele bebia, ficava violento.  Ela conseguia coloca-lo rapidamente em ordem lhe gritando.  Nunca levantou a mão para ela, mas eu, meu irmão, os animais conhecíamos sua violência.  Nada se sabia sobre seu passado na Noruega, nunca falava nisso.  Para ser real, era de poucas palavras, trabalhava sim, por 10 pessoas. Mas quando se tratava de relações humanas ele era uma negação.  Quem levava o negócio da família era sua mãe  Elizabeth, tinha uma cabeça privilegiada.   Os dois irmão tinham que ir à escola impecáveis. Sempre estavam limpos, esfregados como dizia seu irmão.  Antes de saírem de casa para a escola, os esperava na porta com um pano úmido, limpava qualquer coisa que estivesse suja, esfregando.

Por seu pai, estariam trabalhando no campo, mas ela não queria isso, queria que seus filhos pudessem ir à universidade, coisa que ela não tinha podido ir.  Na verdade, somente Valknut tinha ido.   Aquele homem imenso, era professor de historia da Universidade de Virginia.  Ele imaginava sempre o irmão entrando numa sala de aula, com todo seu tamanho, 2 metros de altura, com os cabelos loiros eternamente despenteado, com uma voz poderosa. Os alunos deviam temer que os matassem.    Ao contrário, era uma pessoa carinhosa, no trato pessoal, falava baixo, nunca levantava a voz.   Talvez por isso, quando se casou com sua namorada de toda vida, creio que ela esperava outra coisa.  Um ano depois de casados, o abandonou sem dizer uma palavra, pediu divórcio, desapareceu no mapa.   A partir de então viveu sozinho, na casa que tinham.  Nunca o tinha escutado falar de romances nada, agora aparecia com um homem,  era gay como ele.

Iam os dois a escolas, na porta de casa, depois de serem esfregados, sua mãe dizia Valknut, cuide de seu irmão, não o deixe fazer besteiras, quero os dois de volta a casa, imaculados entenderam, nada de brigas.   Dizia isso, porque destoávamos completamente dos outros garotos, erámos altos, grandes, fortes para nossa idade.  Tínhamos que sentar no final da classe, porque segundo diziam os professores, atrapalhávamos a visão dos outros alunos.

Na minha turma, sempre tinha um que queria me desafiar.  Eu nunca entendi por que, passava deles.  No recreio logo procurava meu irmão, para comermos o lanche que minha mãe preparava todos os dias.   Eram grandes sanduiches, no pão que ela mesma fazia, tinha sempre um pedaço de carne assada, cortada em finas fatias, ovos cozidos cortados finos, alface de sua horta.   Os outros garotos sempre olhavam com inveja.  Depois os dois, íamos para a quadra de basquete, jogar juntos.  Ele sempre ganhava é claro.  Era tão fechado, que basicamente respondia aos outros companheiros por monossílabos.

Eu tinha que esperar que acabasse suas aulas, pois sempre tinha uma ou duas mais do que eu. O que ele dizia que eu tinha que esquecer, aconteceu justamente num dia desses que eu o esperava.  Tirei uma pequena bola que levava sempre na mochila, comecei a jogar com ela, um grupo de garotos entre 16 a 17 anos, se aproximou, começaram a me provocar, coitado hoje não tem seu santo protetor, me empurravam.  Eu estava proibido pela minha mãe de usar violência.  Só tinha 12 anos, mas era forte, nunca tinha noção da minha força.  Era a terceira regra ao sair de casa, nunca brigar na escola.

Resolvi, como as vezes fazia, tomar o caminho de casa, assim deixariam de me incomodar, a escola estava justamente ao final da pequena cidade,  logo estava uma floresta.  Pensei, me escondo ali até que meu irmão venha.  Mas o grupo de garotos aumentou, eram uns 10, todos fortes, pois trabalhavam no campo junto com seus pais.

Num dado momento, um deles me acertou com uma pedra na cabeça, cai, meio desmaiado, não tiveram dúvidas, me arrastaram para fora da estrada, me abaixaram as calças, me seguravam pelos braços, pernas, riam dizendo olha que bunda branca tem esse idiota.  Pensa que é um Viking, mas não passa de uma bunda branca.  Um a um forma abusando de mim, quando tentei reagir, me deram com uma pedra na cabeça, perdi completamente o conhecimento.

Despertei, com a cabeça no colo do meu irmão que chorava.  Como vou explicar isso em casa, não cuidei de ti como devia.  Só entendi, pela dor que sentia, quando passei a mão pela minha bunda, veio cheia de sangue.  Levei um susto, de repente tudo me doía, mal conseguia me mover.  Levei um tempo para entender o que tinha me passado.  A ira tomou conta de mim, os ia matar um a um. Meu irmão me levantou, arrumou minhas calças, tirou uma toalha aonde sempre vinham os sanduiches, que devíamos usar depois de comer para lavarmos as mãos. Me limpou para não sujar as calças.  Antes de chegar em casa passávamos por um riacho que fazia justamente a divisa da propriedade com a do vizinho.  Tirou minha roupa, a sua, me levou para a parte mais funda, sempre fazíamos isso no verão, era outono, a agua estava fria. Me lavou, eu parecia um boneco em suas mãos.  Lavou minhas cuecas, até não ter nenhuma mancha de sangue, a toalha.  Parecia que estava fazendo uma ladainha, vamos nos vingar, mas não conte nada ao pai.  Ele vai te bater porque não te defendeste, a mim pelo menos. Depois ira brigar com o pai de cada um.  Mas vamos nos vingar, pegaremos cada um, nenhum vai escapar.

Eu sabia cada um que tinha feito isso, tinha ficado na minha cabeça, quem ia se vingar era eu. Sentia um ódio que tinha medo de estourar.  Nunca ia poder perdoar o que tinham feito comigo. Eu era uma criança, grande, mas criança.  As lagrimas agora escorriam pela minha cara, de um lado pela vergonha que sentia perante meu irmão, outra a humilhação que seria vítima na escola.   Tinham feito isso com outro garoto, a família foi embora da cidade de vergonha.  Na minha cabeça parecia uma máquina elaborando a minha vingança.

Eu tinha uma pequena mania, fazer bonecos de troncos de madeira que esculpia, os escondia todos por imaginar que iriam gozar de mim.   Nas horas que me escondia embaixo da casa, tinha meu esconderijo.

Quando meu irmão achou que tudo estava bem, fomos para casa, por sorte nossa mãe estava na sua horta, meu pai no campo.   Me fez tomar outro banho, buscou na lata que minha mãe, guardava produtos para curativo, achou mercúrio cromo, me disse vai doer, mas é melhor desinfetar.   Doeu muito, mas aguentei.

Estivemos nervosos os dois o resto do dia, sem dizer uma palavra.   Em casa isso era normal, nunca falar muito.  No dia seguinte os dois tínhamos febre, minha mãe pensou que tínhamos gripe, nos obrigou a ficar na cama.  Isso durou dois dias.  Mal minha mãe virava as costas, ele vinha segurar minha mão, as vezes chorava, não te protegi, beijava minha mão pedindo desculpas.   A culpa não tinha sido dele, pois se eu não tivesse tomado o caminho para casa nada tinha acontecido.   Por mais que lhe dissesse isso, não lhe convencia.

Voltamos a escola.  Ele imaginava os que tinham sido, mas eu não dizia quem tinha sido.  Estávamos comendo, o que tinha chefiado o grupo se aproximou para fazer uma gozação, meu irmão se levantou irado, lhe deu um murro na boca, quebrando todos seus dentes da frente. Se dizes mais uma palavra, corto teu membro seu idiota.

Foram os dois parar no gabinete do diretor.  O outro saiu mal parado, pois era mais velho que meu irmão, todos o tinham visto a provocação.  

Isso que dá querer ir de macho por cima dos mais jovens que tu.  Estas expulso por uma semana. Que o idiota de teu pai, nem tua mãe apareçam aqui.  Pois te tem mal educado, pensado que eres melhor que o resto da escola.    Seu pai tinha sido prefeito da cidade, tinha roubado muito, agora era o mais rico.  Se achava acima do bem e do mal.

O idiota em vez de ficar quieto, contou ao pai dele, que meu irmão o tinha pegado, foi até ao campo que meu pai estava arando, reclamar,  teve uma doble despesa, comprar dentadura para ele, outra para seu filho.  Meu pai deu uma surra no homem de fazer gosto.  Quando chegou em casa, apertou a mão do meu irmão.  Nunca deixe ninguém te humilhar.  Quando o xerife apareceu com a reclamação, meu pai contou, que estava trabalhando, que o idiota tinha chegado com um carro último tipo, parado na frente do seu trator, pedindo satisfação, como meu irmão se atrevia bater no filho dele.  Mal educado como sempre.  O Xerife que detestava o homem, riu muito, contou para todo mundo, o homem virou uma gozação na cidade.

Mas minha vingança não estava consumada.  Tive a paciência de procurar um tronco de madeira grosso, esculpir em forma de um caralho, lixei bem, ficou completamente liso.  Eu agora saia pela noite, ia até a cidade, de bicicleta que meu pai tinha comprado uma para cada um por não levarmos desafios para casa.

Descobri a casa do sujeito.  Observei aonde era seu quarto, subia numa das noites, a janela estava meio aberta, fui andando sem fazer ruído, dei-lhe um soco na cabeça como tinha feito comigo,  o arrastei até a praça principal, o amarrei com uma corda, abaixei suas calças, enfiei o caralho de madeira no seu cu, o deixei ali, amarado no coreto.

No dia seguinte na escola não se falava em outra coisa.  Quem poderia ter feito isso.  Nem meu irmão que dormia como uma pedra, tinha me escutado sair nesses dias.  Cada semana fazia com um dos que tinham abusado de mim.  Achavam que era um maníaco que estava atacando os garotos de mais idade da cidade.  Nenhum deles tinha visto quem tinha sido.  Alguns tiveram que levar pontos no cu.  Mas afinal meu irmão desconfiou, entrou um dia embaixo da casa, encontrou meu trabalho.    Quando voltávamos da escola, me fez parar no riacho, com alguma desculpa.   Me perguntou por que tinha feito isso.

Não sei do que estas falando.

Tirou da mochila, o último que estava esculpindo.  Tornou a perguntar por quê?

Só lhe respondi o que seria minha máxima durante anos.  Quem com ferro fere, com ferro será ferido.

Me abraçou, não faças mais nada. Por favor.

A sorte do último que faltava, deve ter contado a família, esta se foi da cidade na calada da noite, só o fui encontrar já adulto.  Mas me vinguei igual.  Era o mais frágil do grupo, me disse que queria se enturmar, que só tinha me segurado.  Mas me vinguei de outra maneira, o levei a um hotel, lhe penetrei tantas vezes durante dois dias, que chorava ao final, me pedia mais.

Acabamos amigos, durante um tempo foi meu amante secreto, pois era militar como eu.  Morreu num combate no Iraque.

Acordei com um sabor amargo na boca, parecia sangue. Alguma coisa tinha se rompido dentro de mim.  Tive que ir para a sala de operações.

Quando voltei a consciência na habitação, lá estava meu irmão sozinho.  Tiveste pesadelo todo o tempo depois de voltar a si.  Creio que isso te fez rebentar alguma úlcera que estava ai escondida.  Sentou-se na cama, me levantou, passando o braço atrás de mim. Falava no meu ouvido, pelo amor de deus, tudo isso tem que acabar.  Tu achas que matando todo mundo, vai recuperar o mal que te fizeram.   Tens que te perdoar de uma puta vez.

Mudou de assunto, gostaste do Gunter?

Lhe disse que sim, mas me explica como aconteceu isso.

Quando meu casamento acabou, fiquei muito abalado, não podia entender o que tinha acontecido, tampouco pedir explicações, pois ela se foi com outro.

Comecei ir a um psicólogo.  Era uma consulta, de três psicólogos, um dia conheci o Gunter que esperava hora no seu.   Começamos a conversar, rimos, temos o mesmo sentido de humor, os silêncios prolongados como sempre tivemos.   Foi casado também, sua mulher lhe abandonou com um filho pequeno que tem paralisia cerebral.   Como não tem família, poucos amigos, não tinha com quem falar, começou a ir ao psicólogo.   Na segunda vez que coincidimos, o convidei para tomar café.  Começamos a sair como dois namorados, um dia acabamos na cama, gostamos até de fazer sexo da mesma maneira.  Finalmente me encontrei, sou feliz com ele. O ajudo a cuidar do menino. Tem uma inteligência fora do normal, a paralisia só lhe afeta um braço, as pernas, mas parece que não o incomoda.

Como agora estava sentado, ia dizer que a perna me seguia doendo, foi quando olhei para baixo, a pergunta estourou na minha cara, aonde estava o resto da minha perna.

Fiquei desesperado, perdão me esqueci que não devia te levantar, enquanto o médico não falasse contigo. Apertou um botão, o médico apareceu em seguida.

Me explicou que quando me recuperaram, faltava a perna do joelho para baixo, não podiam voltar para procurar, o jeito foi fechar a amputação.   Durante muito tempo, vais sentir falta dessa perna, vai doer parecendo que esta ai. Mas logo poderemos colocar uma prótese moderna, seguiras andando como se nada.

Eu só pensava como ia fazer, pois era um SEAL, da unidade de Dam Neck, em Oceania em Virginia, nunca tinha saído do meu próprio estado.  Tinha conhecido meio mundo em operações da companhia.   Tinha entrado para a marinha, pois tinha que encontrar uma maneira de extravasar minha agressividade.   Logo fui chamado para ser um Seal.  Era conhecido como Bull, ou Bull Head, pela minha força, tamanho, cabeça dura.   Pois levava sempre até as últimas consequências uma operação, nunca deixava nenhum dos meus homens para trás.

Vão te condecorar por esta última operação, mais uma medalha no teu peito, te aposentas com um bom salário, agora terás que encontrar o que fazer.

Numa das noites que meu irmão ficou comigo, falando como sempre do Gunter de seu filho, acabei lhe contando do único que tinha escapado da minha vingança na cidade.   Um dia estávamos comemorando uma operação, estavam ali um pessoal da aeronáutica.  Reconheci o único que tinha escapado.

Fiquei transtornado, tinha bebido um pouco. O segui, o golpeei, o levei para o hotel barato que me hospedava, entrei pela entrada de serviço, o algemei na cama. Esperei que voltasse a si, tinha lhe amordaçado.  Lhe perguntei se lembrava de mim, fez que sim, que tinha saído do bar por isso, que o passado lhe tinha voltado como um tapa na cara.  Sei o que fizeste com os outros. Confessei ao meu pai, ele resolveu ir embora.  Era um fraco como eu.

Me perdoe, eu não te penetrei, apenas te segurei. Sinto muito tudo isso. Tornei a amordaça-lo, o penetrei muita vezes durante dois dias.   Ao final, ele pedia que eu repetisse, pois gostava, ficou apaixonado por mim, eu por ele, nunca tinha sentido isso por ninguém.  Passamos a nos encontrar,  ele tinha um apartamento.  Adorávamos fazer sexo um com o outro, mas sabes como é tudo que é bom dura pouco.  Sua equipe foi para a guerra do Iraque, seu avião caiu, morreu queimado.

Nunca mais pude estar com ninguém.  O tinha perdoado, mas ainda sinto seu cheiro, quando penso em sexo.

Meu irmão me abraçou.   Passou um tempo, pude começar a fisioterapia, não queria ir a entrega de medalhas em cadeiras de rodas, iria de muletas, mas nunca numa cadeira de rodas.

Começaram os testes com as próteses, tinham que encontrar uma que eu me adaptasse.  Era uma coisa incomoda.  O enfermeiro que me atendia, usava uma.  Fizemos amizade, me contou o que tinha acontecido, uma bomba tinha explodido, junto ao hospital de campanha, ele tinha saído para fumar um cigarro, me pegou de surpresa.

Mas amo esse trabalho, ficamos amigos, agora podia sair com muletas ainda, acabamos em sua casa na cama.  Tinha um boa bunda, eu ficava como louco, depois de tanto tempo sem fazer sexo.

Fui receber a medalha, pois tinha que resolver minha situação, meu irmão veio com o Gunter, o filho, meu namorado também foi. Os apresentei aos dois, Valknut, Gunter, esse é meu namorado, Pablo.   Ficamos amigos os quatro.

Meses depois já podia andar com a prótese, com uma simples bengala, mas me saia bem, teria revisões médicas tanto por isso, como pela operação.  Resolvi seguir os conselhos de meu irmão, comecei a ir a um psicólogo.  O mesmo era um homem com um sorriso simples, tinha creio que uns sessenta anos.  Quando consegui verbalizar minha história, a vingança, o que tinha acontecido com o único que tinha escapado.  Falava sem parar com ele. Um dia me disse, já pensaste em que queres fazer de tua vida?

Não sabia o que responder, afinal tinha passado dos meus 18 anos, até os 35 na marinha, na Seal, sabia executar ordens, matar, me vingar do mundo, lutar, lutar, dar tiros, apunhalar se fizesse falta.  Mas nunca tinha imaginado que isso acabaria um dia.

Voltou a me falar do passado, me disseste que fazia esculturas de madeira, porque não tentas isso outra vez. Nem que seja para te relaxar.

Nessa época, Pablo foi transferido, ou pediu transferência, fiquei sem saber.  Me disse que as vezes quando estava nervoso, fazer sexo comigo era difícil, pois me tornava violento.  Tenho medo de me acostumar a isso a tua violência.

Não me tinha dado conta, mas analisando, vi que tinha razão, quando tinha que lhe penetrar era com violência.  Parei para analisar, com o outro era isso, ele adorava violência, por isso me pedia que o penetrasse uma, outra vez, outra vez, quanto mais violento eu era, mas satisfação tinha.

Conversei isso com meu irmão, relaxa, já encontraras um meio de que isso pare de acontecer. Porque não vens ficar um tempo comigo, a casa é grande.  Gunter esta o dia inteiro fora, o garoto na escola especial que via.  Comentei com ele o que me tinha dito o psicólogo.

Fui viver com eles, comecei a passear pela cidade, até que encontrei um pequeno bosque, procurei encontra ramos que pudesse esculpir.

A primeira coisa que fiz, lembrando de minha infância, foi um cavalo, para o Bruno, filho do Gunter, este como tinha me visto um dia com a prótese,  creio que identificou comigo, falava muito, contava da escola.  Queria ir a uma escola normal, não quero que me veja como uma pessoa doente.  Sem saber muito por que, comecei a lhe fazer massagens, exercícios que tinha aprendido com Pablo, para lhe ativar a circulação das pernas. Ele ria dizendo que um dia iria correr uma maratona.

Quando perguntei ao Gunter porque não ia a uma escola normal, já que tinha uma inteligência superior.  

E que nesta está o dia inteiro, nas outras, teria que levar, depois ir busca-lo. Lá ele almoça, cuidam dele. Aqui teria que mudar de emprego.  Custa caro sustenta-lo nessa escola, é a melhor da cidade.

Gunter, não estou fazendo nada, isso para mim seria quase uma distração.  Queres experimentar.  No ano seguinte, ele foi para uma escola normal, eu levava, ia busca-lo, lhe fazia comida, lhe dava banho, me lembrava sempre de meu irmão cuidado de mim, quando me feriram na alma.

Lhe inscrevi numa escola de natação, eu tinha que fazer exercícios, assim íamos os dois.  Todos nos tomavam por pai e filho.   Ele ria, dizia que era verdade.  Sempre me pedia uma escultura para algum amigo que fazia aniversário.   Agora, quando não estava estudando, ficava comigo no sótão da casa, me vendo fazer esculturas.  Agora faça uma boneca para uma amiga.   Isso foi fazendo que começassem a me pedir pequenas esculturas para presente.

Porque não fazes todos enfeites de uma arvore de natal me pediu.   Fizemos uma foto, mandou para todo mundo.  Com ele falava coisas de adultos.  Ele achava o máximo, seu pai viver com meu irmão, chamava os dois de pai.

Nos dias que estavam os dois com o menino, eu saia para tomar uma cerveja com algum companheiro do Seal, mas descobri que isso me fazia mal.   Um dia voltando de um encontro com alguns desses companheiros.   Vi um bar gay.  Sem saber por que entrei.  Eu destoava completamente do local.   Tinha um show,  um homem grande, com barba fazia um show, quando me viu, disse, meninas a atacar, um gigante esta aqui. Mas cuidado eu vi primeiro.

Fiquei no balcão, tomando uma cerveja, ninguém se aproximou, devia ter uma cara ameaçante. Até que um homem alto de barba se aproximou, levei um tempo para reconhecer o que estava em cena vestido de mulher.

Ah, agora sabes quem sou não é.  Estava te observando, creio que ninguém se aproximou, porque lhe disse que tinha te visto primeiro.  Quando entraste, do palco te vi.  Pensei, que homem.  Fiquei com curiosidade, nunca te vi por aqui.

Fiz uma pergunta em vez de responder, por que fazes show?

Porque me diverte, gosto de contar piadas, não me vejo como mulher, mas se me visto assim com a barba, posso contar coisas, as pessoas riem, se esquecem um pouco de suas vidas dramáticas.

Pedi uma bebida para ele.

Não posso, sou alcoólatra, levo sem beber fazem cinco anos, mas aceito uma coca cola.

Ficamos conversando, pela primeira vez, ria com o sentido de humor que tinha, num intervalo de show,  todos olhavam os dois rindo. Virou-se dizendo, eu não disse que tinha visto primeiro, passou os braços pelos meus, agora é meu.

Fomos para sua casa que não era longe.  Esperava uma autêntica casa de um mariquita, ao contrário, tinham um salão imenso, mais parecia uma biblioteca, me contou que era professor de historia da arte na universidade.  Ri, porque não podia imaginar isso, lhe disse que imaginava todos os professores de arte, com cara de intelectual, óculos, fechados em si mesmo.

Isso me dizem todos. Pois sempre tive humor. Creio que de família.  Sou descendente de italianos, em minha casa, a que tem mais humor é minha mãe.  Nos começamos a beijar, ele não era para nada efeminado. Sem querer na cama, comecei a ser um pouco agressivo. Parou me olhou nos olhos, se vais ser agressivo, sinal de que não sabes fazer sexo.  Deixa comigo, me levou a loucura, quando vi tinha me penetrado.   Ia reagir, mas estava gostando.  Passamos uma noite fantástica.   Lhe perguntei se não tinha ninguém em sua vida.

As pessoas acabam irritadas com meu sentido de humor, quando digo que quero apresentar a família, fogem.  Depois sou uma pessoa tranquila, ou seja, dois extremos.  Gosto de falar, contar piadas, mas também gosto de ficar quieto lendo, estudando.

Lhe contei das pequenas esculturas que fazia. 

Se levantou nu, tinha o corpo como eu, cheio de pelos,  voltou com uma escultura minha nas mãos.  De onde tiraste isso, é minha.

Eu quando ganhei isso da filha de uma aluna, fiquei imaginando quem poderia ser o escultor, pois é um primor.  Se foi tu, tens uma coisa na tua alma, que é muito grande, cheio de delicadeza.  Voltamos a fazer sexo, me levava sempre a loucura, com sua tranquilidade, nada a ver com a experiencias que tinha.  Desta vez se sentou em cima de mim, me fez penetrar-lhe, mas um olhando na cada do outro. Pela primeira vez me emocionei fazendo sexo.

Depois abraçados na cama, lhe disse ao ouvido, quero conhecer tua família, vais gostar da minha também.  Vivo com meu irmão, seu companheiro, o filho deste, para quem comecei a fazer esses pequenas esculturas, que ele distribuiu na escola.

Estas me pedindo em matrimonio, rimos muito, imagina nos dois com esse tamanho, nos casando. 

No dia seguinte um domingo, acordei com o celular, era meu irmão preocupado aonde poderia estar.  Em vez de responder lhe disse que tal se fossemos comer num restaurante italiano.

Riu dizendo, estas apaixonado?

Sem comentários, ele despertava ao escutar minha voz. Me deu um beijo, bom dia.

Meu irmão respondeu do outro lado.  Espero que seja uma pessoa maravilhosa. Nos vemos no almoço, depois me dizes aonde é.

Caramba desculpas, estavas falando com teu irmão?

Antes de mais nada, nenhum dos dois até agora falou seu nome, lhe disse o meu, ele soltou em seguida a Espada de Deus. Quando lhe disse como me chamavam, ria, encaixa contigo.

O meu, mais italiano não pode ser Antonio Grassieto, todos me chamam de Toni, tu como me queres chamar.

Um dia te direi ao ouvido, ok.  Os convidei para comer num restaurante italiano, mencionaste um ontem, podíamos reservar uma mesa.

Ele tinha me olhando diferente quando tirei a prótese para ir a cama, uma das coisas que tinha me excitado, foi que tinha passado a língua aonde tinha a perna cortada.  Lhe comentei isso, riu foi impulsivo.

Tomamos banho, ou prefere outra coisa.  

Não lhe respondi, comecei a provoca-lo.

Tu eres uma caixa de surpresa.  Na hora que descobri que não sabias fazer sexo, verbalizei, pensei, esse se levanta vai embora imediatamente.

Pois realmente descobri que não sei fazer sexo, mas as classes desta noite foram ótimas, fizemos sexo calmamente, saboreei cada momento.  Lhe disse, ao ouvido, não queres que saída da tua cama, da tua casa, da tua vida.

Olha Bull, realmente para minha surpresa, não quero, nunca estive tão à vontade com alguém. Falamos, posso fazer uma piada, as vezes fazes cara de não entender, para, pensa, ri.

Em minha casa não havia muito humor, tampouco palavras.

Tomamos, banho, ficou preocupado, me perguntou se necessitava de um banco para me sentar no chuveiro.

Não posso me equilibrar, mas ele me lavou inteiro, nunca tinha tido isso, contei para ele o que tinha me acontecido, porque me lembrei do meu irmão no riacho me dando banho. Ficou me olhando sério.  Por isso te assustaste quando te penetrei?

Sim, nunca permiti isso a ninguém.

Nos vestimos, minha roupa cheirava a cigarro, lhe disse que teria que passar em casa para trocar de roupa.   Te levo, assim vamos todos ao restaurante.  Telefonou, enquanto me vestia, voltou rindo.  Lhe perguntei o que era, riu, depois te conto, senão estrago a surpresa.

Quando chegamos a casa do meu irmão, nem precisei apresenta-lo, foi entrando, disse seu nome, beijou os dois, agarrou Bruno o levantou ao ar, garoto que distribuiu esculturas que fazem milagre.

Disse aos dois que ele tinha uma escultura minha, que tinha lhe chegado através da filha de uma aluna dele.

Bruno ria muito com ele, pareciam duas crianças.

Fui trocar de roupa, só escutava risadas na sala. Quando voltei, já estavam todos prontos. Teríamos que ir em dois carros.  Ajudamos a colocar a cadeira de rodas no carro do Gunter, que era especial para isso.  Bruno disse quem manda serem grandes não cabem aqui.

Quando chegamos ao restaurante, ficamos fora esperando eles chegarem.  Saiu uma outra copia do Toni, só que mais moreno. Foi logo soltando, filho di uma putana, só assim apareces.

Abraçou, pareciam dois ursos se abraçando. Me abraçou também, com dois beijos estalados na cara.  Quando viu o carro estacionando, os dois descerem, caralho, preciso montar uma mesa imensa para essa família.

Ajudou a tirar o Bruno do carro, esse ria dizendo outro barbudo, será que papai Noel está dentro.

Quando entraram no restaurante,  Gino começou a gritar, Mama, veja quem está aqui, teu filho querido, mas não vem sozinho. Ele esperava uma mulher imensa, mas não era uma mulher normal, com os cabelos brancos apanhados num coque a maneira antiga, sentada na caixa do restaurante.  Saiu dali, foi direta ao Bruno. Vem acompanhado de um neto para mim.  Este ria, tinha um sorriso cativante.  Toni apresento meu irmão seu companheiro, a mim. Ela segurou minha cara com as duas mãos, me estalou dois beijos, gosto, boa escolha filho.

Nos levou para uma sala a parte, avisou Gino, diga a tua mulher para tomar conta do caixa, vou estar com minha nova família.  Esse desgraçado do Gino não me deixa comer Bruno, falava com o garoto, como sempre o tivesse conhecido.  São uns mal agradecidos, imagina tive quatro filhos, viveram a vida para comer, por isso são tão grandes, mas para sua mãe, nunca dão comida, tens que me ajudar a colocar esses sem vergonhas na ordem.

Era ótimo ver o Bruno rindo.  Disse tens nome de italiano. Bruno, começou a dizer nome de italianos que se chamavam Bruno.

Que gosta de comer. Fale no meu ouvido.   Ele lhe disse alguma coisa, se levantou dizendo já volto.

Gunter ria, caramba, que família movimentada.

Toni, disse, não viste nada. Quer apostar que ela vai fazer a comida para ele, ao mesmo tempo vai chamar os outros dois com a família para tomarem o café. Pior eles que se atrevam dizer que não, escutaras um escândalo.  Dito e feito, devia falar com alguém em italiano, uma imposição que estejas aqui dentro de duas horas, ou vai ter.

Sempre foi assim, podíamos fazer o que queríamos, mas dava dois gritos, ficávamos quietos. Ela nos criou nesse restaurante, até hoje o restaurante é seu, do Gino, o único que gosta de cozinhar.

Iam perguntar pelo menu, para fazerem os pedidos.  Toni disse, esqueçam, verão o que vai acontecer.  Em seguida, começaram a aparecer coisas na mesa, Gino da porta disse, a mama disse que todos são grandes, que nos vão levar a falência, devem comer muito.

Mas veio ela trazendo, um prato especial para o Bruno, a carne estava cortada tão pequena, pequenos pedaços de pizza. Depois comes macarrão feito por mim.

Perguntou se ele comia sozinho, ele orgulhoso disse que sim.  Sentou-se ao lado dele, olhou Gunter, disse eres um grande homem. 

Bruno contou que eu lhe levava na escola, ia busca-lo, íamos nadar.

Mas Bruno, esse gigante não trabalha?

Não tem uma perna postiça, me obrigou a levantar a calça, mostrando minha prótese.

Sabe mama, aquela pequena escultura que a senhora adorou quando foi lá em casa, é ele quem faz.

Se levantou, me beijou na testa, aprovado, pode casar com meu filho.

Todo mundo ria, eu não sabia aonde me enfiar. 

Vais ter que te acostumar, falo tudo o que penso. 

Comeram até se fartar, Bruno batia a mão boa na barriga dizendo que estava cheia,

Espera um pouco, eu fiz Tiramisu hoje, vamos esperar chegar o resto da quadrilha, esses mafiosos só veem me visitar para comer.

Quando chegaram os outros, ele teve que rir, era como Toni tinha comentado, ruidosos, riam, contavam coisas.  O maior, era engenheiro, tinha dois filhos, mais ou menos da idade do Bruno, em seguida começara a conversar com ele, normalmente.  É primo de vocês, italiano, Bruno.

O outro irmão parecia o mais quieto, casado com uma loira oxigenada, cintura fina, bons peitos, mas se via que era quem tinha as calças na casa.

Virou-se para o Toni, perguntando a quanto tempo nos conhecíamos.

Ele contou com detalhe, estava no meio do show, contando uma das minhas piadas preferidas, vejo aquele homem imenso entrando, se colocou no balcão, o imitava, lá do palco disse para todo mundo, meninas um gigante, mas eu vi primeiro, é meu.

Todos riam com naturalidade.  Esse meu filho, sempre foi assim. Todos são inteligentes, práticos, mas ele foi gostar da arte.  Sabe tudo sobre arte.  Essa casa, parece um museu. Uma vez fui a Itália, queria me arrastar a todos os museus.  Lhe disse que de coisa velha, bastava me olhar no espelho.

Realmente o humor vinha da mama.

Já foste a Itália Bull?

Foi ponto de partida de uma missão, mas como sempre não vi nada.

Mama, Bull foi Seal, por isso usa essa prótese, agora está retirado, voltou a sua infância, fazendo essas esculturas.

As crianças imediatamente orientadas por Bruno, le levantaram a calça para olharem a prótese, pela primeira vez não lhe incomodava.

Quando viram Gino, a mulher tinham se juntado ao grupo.  Esse tinham um filho que estudava em New York na universidade. 

Ficaram ali até tarde da noite.  Bruno estava feliz, não queria ir para casa. Me despedi de todos, a mama falou no meu ouvido, ele nunca fez isso, apresentar logo no segundo dia, sinal que gosta de ti.  Não te assustamos muito verdade?  Porque depois que nos apresenta, os namorados desaparecem.  Somos muito unidos, sempre estamos juntos.

A beijei, encontrei uma família, agora terei que apreender italiano.

Foram todos até o carro, para ajudarem, a confusão era grande, Bruno se matava de rir.

Lhe disse, amanhã cedo vou te buscar para a escola ok.

Meu irmão me olhou rindo, não vens para casa.

Não posso me embruxaram.

Fomos para sua casa.  Por deus isso me dá, medo nessa hora sempre me dizem, é impossível conviver com tua família. Vão embora, nunca mais vejo a sombra deles.

Desta vez deste com os burros na água. Quero ficar contigo.

Estivemos conversando até tarde, menos mal que não tenho aulas amanhã, senão ia aparecer com olheiras.  Tenho que preservar minha imagem de um professor sério,  bonito.

O agarrei, lhe estampei um bom beijo.  Falar nisso professor, queria continuar com as aulas, em que o senhor é mestre.  Fomos para a cama, estava louco por ele, ao mesmo tempo tinha medo. Mas resolvi arriscar.   Não tinha nada a perder na verdade.

Pedi somente que pusesse um despertador, pois tinha que ir em casa, trocar de roupa, levar o Bruno a escola, fazer meu dia a dia.   Me perguntou aonde ia nadar.  Lhe disse. Posso ir junto.

Claro que sim, hoje podes ir como convidado se gostas podes ficar como socio, se paga pouco.

Levamos Bruno a escola, lhe perguntei se queria que ficasse na sua casa, vou trabalhar se não te incomoda, estou estudando algumas coisas para ensinar.  Bom posso levar o que estou fazendo, quero te mostrar o meu lugar de trabalho.

Tinha uma série de pequenas esculturas prontas, escolhi umas para sua mãe.

Ela vai adorar.   Me falou das esculturas africanas, um dia deste podemos ir ao museu, gostaria de te mostrar.

Contigo vou ao inferno Toni. Como sempre acabamos nos beijando.  Assim nunca nos desgrudamos, creio que é melhor ficar aqui, senão vou te atrapalhar.

Nada disso, teremos que apreender a conviver.

Mas acabamos no meu quarto, pois comecei a separar alguma roupa, ele começou a cheirar minhas cuecas, não resisti.  Lhe disse para cheirar a que tinha posta. Me tirou a roupa completamente fizemos sexo sem sequer tirar a prótese.     

A partir desse dia, não queria faltar com o compromisso ao irmão, vivia na casa de Toni, mas ia todos os dias levar, depois buscar, natação, depois o trazia para a casa, até os pais chegarem, quando estava Toni era fácil, faziam de carro.

Um dia que foram busca-lo ele viu um garoto esperando com o Bruno, este pediu para esperarem um pouco, pois o carro que vinha buscar seu amigo estava atrasado.  Era um garoto moreno, com uns olhos verdes, Toni ficou conversando com ele.

Quando chegou o carro, viram que era de um Orfanato.  Teu amigo vive num orfanato?

Sim, não tem menor ideia de quem eram seus pais. Porque vocês, não o adotam, tenho certeza de que a mama vai gostar.  Um ficou olhando para a cara do outro sem dizer nada.

Na volta para casa o silencio era pesado.   Em que estas pensando Toni?

Naquele garoto.  Fiquei impressionando com a sua conversa, é inteligente, respeitoso.

Não me diga que queres adotar o garoto?

A resposta foi única.  A mama ia amar.  Uma pausa longa, eu também, mas se descobrirem do show, nem me deixaram chegar mais perto do garoto.

E se nos casamos?

Como, não estas falando em sério?

Sim, escuta Toni, levamos um ano juntos, não temos segredos, eu vou assistir teus shows, não me escondo mais de ninguém. Te adoro, contigo encontrei uma paz, gosto de estar contigo, o resto é coisa tua.

Bull, me emociona isso.   Realmente, veja, chegaste, ocupaste um lugar vazio, aonde nunca nada aconteceu.  Quando sabiam que eu fazia o Show, ou viam a minha família, corriam feito coelhos com uma matilha de cães atrás.  Não só ficaste, como adora estas reuniões, inclusive com a família do teu irmão junto. Agora na verdade somos todos família.

Toni, na verdade nunca pensei em ter filhos, pensava que não estaria vivo para ama-los como devia.   Depois quase nunca estive com mulheres.   Portanto, não sei. Vamos falar primeiro com a professora do garoto, para ver o que diz.

A professora, disse que o garoto por ser muito fechado, ficaram admirados dele fazer amizade com o Bruno.  Nenhum dos dois jogavam futebol.   O temos aqui, porque a escola do orfanato é muito fraca para o nível que tem.

Te dou o telefone da pessoa responsável por ele no orfanato.

Ele resolveu ir até lá.   Se apresentou, mostrou sua carteira de identidade, fui do Seal, mostrou que estava fora por causa disso.  Tenho uma boa aposentadoria, ganho dinheiro fazendo esculturas de madeira, olhou atrás dela, viu uma, como essa veio parar aqui.  Seu sobrinho deu para o Bill, ele deixou aqui, porque sabes que os outros garotos não têm nada.  Seu que teu irmão cria junto com seu companheiro um filho, em cadeiras de Rodas.   Foi o Bill que me contou.   Quero deixar claro que sou gay, meu companheiro é professor de historia da Arte, esta apaixonado pelo garoto. Se puder adota-lo, eu ou ele, gostaria de saber.

Ela disse que ia se informar, depois falaria com ele.

Ela levantou sua ficha no Seal, o chamou dizendo que sem problemas, perguntou se eram casados. 

Estamos nisso, pedido está, mas ainda não sabemos.  Com o garoto junto pode ser quer sim.

Bruno saiu da escola o dia seguinte, que seu amigo estava feliz da vida.  Que queria ser adotado por eles.

Sugiro apenas que seu companheiro deixe de fazer shows, pois isso podia ser um problema. Comentou isso com o Toni.  Mas tu é quem sabe, eu te admiro por fazer.

No seu último dia de show, quando estava na metade do espetáculo, ele saiu do fundo aonde ficava sempre, subiu ao palco, todo mundo levou um susto, se ajoelhou, abriu uma caixa, com um anel de compromisso.  Queres te casar comigo.

Toni virou-se para a plateia, Quem se lembra no dia que ele entrou aqui, eu disse, eu o vi primeiro. Estamos juntos a muito tempo.  Agora nos casamos.

Claro que quero amor de minha vida.   Nunca o tinha beijado, vestido de mulher.

A festa foi ótima, nunca mais se esqueceriam de uma festa ao grande italiana, foi no restaurante, a mistura, família, pessoal da universidade, gente que fazia show, foi grande.  Bill estava deslumbrado, de estar sozinho, tinha uma família imensa.  La Mama, não o soltava, agora sou tua Nona, como sou do Bruno, realmente dizia que gostava mais dos dois que de seus netos mal-educados.  Valknut, Gunter, resolveram casar na mesma cerimônia.  A coisa foi grande.

Em casa, Toni tinha arrumado um quarto só para o Bill, este agora deslumbrado tinha dois pais, como seu amigo Bruno.   Os dois se sentaram com ele explicando tudo.  Não me importo, melhor dois pais que nenhum.  A diretora disse que se vê que os dois se amam. Então agora tenho uma família, um primo que adoro, que mais quero.

As vezes de noite tinha pesadelo, quem corria era Bull, com uma perna só, em segundo estava lá segurando sua mão.  Contava-lhe uma história, esperava que dormisse outra vez.

Toni dizia que não esperava que ele se tornasse um pai dessa maneira. 

Para quem teve um pai, como tivemos, que as palavras pareciam tiradas com um abridor de garrafas.     O vocabulário de meu pai era muito restrito, as palavras mais conhecidas, eram sim, não, talvez, vou pensar.

Então nunca sabíamos quando estávamos agradando ou não.

Bill, sabia que não devia entrar quando a porta do quarto estivesse fechada.  Respeitava isso, dizia ao Bruno, sei que estão fazendo amor.  Gostam demais disso.

A vida seguiu adiante, agora velhos, iam a formatura de universidade dos dois.  Era impressionante ver o Bruno na sua cadeira de rodas, fazendo o discurso de sua turma,  seu nível era impressionante.  Na semana seguinte foram no do Bill, se formava em arquitetura.

A mama estava feliz da vida, Queria que fossem a Itália conhecer a cidade aonde tinha nascido.

Mas morreu antes, eles tinham prometido levar suas cinzas para enterrar lá.   Foram os três, durante umas férias.  Falaram com o padre da igreja, Toni explicou a vontade de sua mãe,  não criou nenhum problema, arrumou um nicho para colocar suas cinzas.

Depois estiveram viajando pela Itália inteira. Se deram conta que eram felizes.  Quando voltaram, seguiram suas vidas.  Bill jamais se esquecia do Bruno, o amigo que tinha encontrado seus pais.

Bull quando encontrava algum conhecido do Seal, apresentava o Toni meu marido, este é meu filho Bill.  Alguns rapidamente partiam, outros vinham em seguida conversar com o Bull, para saber como levar seus  romances escondidos.

Uma lastima, disse um dia ao Toni, que os machistas não permitam, isso, viverem com liberdade individual.