lunes, 13 de febrero de 2023

SUBURBAN BOY

 

                                     

 

Ele era o quarto filho, sua mãe queria desesperadamente uma menina, naquela época não se fazia exames para saber, nem ela queria.   O pior disso tudo, é que tudo que tinha sonhado era fazer uma universidade, detestava ser dona de casa, muito mais cuidar de crianças.  Não tinha paciência.

Já no terceiro filho, chegou para viver com eles, Lotte uma amiga de infância de sua mãe que tinha ficado solteira, essa foi nossa mãe verdadeira, a que todos respeitavam, acatavam suas ordens, todo mundo dizia que devia ter sido militar, pois só faltava nos colocar em ordem, fazer revisão, isso ela fazia, antes de irmos à escola.

Minha mãe quando me esperava fez um enxoval todo em cor de rosa, queria desesperadamente talvez uma filha, para brincar de boneca, como dizia Lotte.

Mas nasci eu, talvez como dizia o médico, nunca tinha visto uma criança tão feia, nem tão cabeluda.   Era ao contrário dos meus irmãos, todos eles loiros de olhos azuis, como meu pai, eu ao contrário devo ter saído o lado de minha mãe, moreno, cabelos negros, olhos negros.

Ela imediatamente fez uma cirurgia para não ter mais filhos, com isso basta.

Ficou frustrada por não ter uma filha, Lotte estava sempre brigando com ela, pois me queria vestir de menina.  Para o batizado, tinha mandado fazer uma roupa cor de rosa, toda bordada, na véspera, Lotte que nunca tinha sido tonta, colocou a roupa para descolorir, para ficar branca, retirou todas os apliques de rosinhas que tinha, foi minha salvação, imaginava depois com essa história ter todo mundo me gozando quando visse, uma foto.

Ao contrário do esperado, era o querido do meu pai, eu o olhava com admiração, aquele homem alto, quase dois metros de altura, loiros com os olhos transparente, quando era criança pensava não me admira que ela tenha se apaixonado por ele.

Morávamos numa bela casa no Boulevard John F. Kennedy, em Weehawken, em frente ao Hamilton Park.  Da varanda da casa, bem como os quartos da frente se tinha uma vista fantástica de NYC, eu tive o privilégio de dormir num deles, dividia quarto com meu irmão mais velho Brian.  Ele se apaixonou por mim desde que nasci.  Dizia sempre me gozando, era o bebe mais feio que tinha visto em minha vida.  Ele ao contrário era o homem mais bonito que conheci, não me admira que acabasse como ator de cinema.

O outro quarto da frente era da Lotte, meus pais ocupavam um quarto que dava para o quintal da casa, que era uma suíte, no outro quarto meus irmãos Boris, Billy.  Eu quando era pequeno não entendia, todos os nomes começavam com “B”, menos o meu que era Sam, um dia meu irmão me contou em segredo, minha mãe queria que me chamasse Samantha, daí me chamar de Sam.

Não fui a típica criança bonita, tampouco na adolescência, olhava meus irmãos com inveja, pois eles sim eram bonitos, eu tinha uma cara dura, na adolescência cheia de grãos, Lotte sempre me passava produtos, mas fiquei com a pele toda esburacada, tinha um nariz como os da família de minha mãe, grande, ela era descendente de turcos.    De meus irmãos, todos iguais ao do meu pai.   Eles não entendiam por que eu era seu favorito.  Talvez por ser diferente deles, no final da sua vida não os reconhecia, dizia que eu era seu único filho.  Talvez porque era o único que ficou em casa.

Brian era o mais divertido, já tinha nascido para o cinema, essa era uma verdade, alto, tinha, 1,95 de altura, encorpado pelo esporte, era capitão do time de futebol, era bom no atletismo, o querido de todas as garotas, mas ao contrário dos outros participava do teatro da escola.  Eu era obrigado a ler com ele os textos, fazendo o papel feminino.

O mais interessante, era que eu o pegava na cama, ora com garotas, ora com algum amigo seu, quando lhe perguntei sobre isso, me disse que gostava de variar, não me admira que esteja hoje em seu terceiro matrimonio, mas todos sem filhos, nunca os quis ter.  Eu sempre fui seu confidente, achava ótimo isso, me contava as coisas, eu o escutava muito sério, nunca comentei com nenhum dos outros, tampouco com meus pais, ele sabia que em mim podia confiar.

As vezes estava com algum amigo seu no quarto, me mandava vigiar a escada, assim não tinha perigo.   Uma vez o vi com o outro rapaz mais bonito da escola, os dois se rivalizavam nos esportes, nas garotas, os dois estavam fazendo um sessenta e nove, eu devia ter uma 12 anos, lhe perguntei depois que tal era isso.  Me respondeu rindo, já chegara teu tempo, é divertido.

Quando foi estudar arte dramático, minha mãe, virou para ele na mesa, soltou, está na hora de voares de casa.   Isso ela sempre fez com todos, menos comigo, não teve essa oportunidade.

Meu pai não queria, ela batia a mão na mesa, dizendo, os filhos são como os pássaros, tem que voar, ir em busca de outro ninho.   Eu fiquei desesperado, ia perder o único amigo que tinha, mas ela foi com ele, procurar um apartamento pequeno, perto de aonde ia estudar.

Depois foi Boris, resolveu fazer belas artes, foi a mesma coisa, lhe disse na cara, não quero que minha casa vire um studio de pintor, ou o que seja.   Lotte se matava de rir.

Hoje Boris vive em Paris, fez duas exposições com sucesso em NYC, se mandou para Paris, só voltava quando tinha algum enterro, primeiro minha mãe, depois do velho, por último da Lotte.

Billy, foi o único meio louco da família, se metia em milhões de confusões, gostava de uma boa erva, um belo dia, ninguém precisou falar para ele voar, se mandou, de vez em quando mandava um cartão desses turísticos, dizendo aonde estava.  Trabalhava em poços de petróleo, seu negócio não era estudar.   Eu ao contrário deles, tinha encontrado meu refúgio nos livros, comecei lendo os da Lotte, ela adorava os romances água com açúcar, no escritório só tinham livros de direito, pois meu pai era advogado num dos escritórios mais famosos da cidade.

Nenhum filho quis fazer direito.  Quando só fiquei eu em casa, ele sempre falava nessa frustação que tinha.   Queria que todos estudassem direito, para montar um escritório só com seus filhos.

Justo nessa época morreu minha mãe, sem sofrimento, nada, estava vendo televisão na sala ao lado da cozinha, aonde as duas ficavam horas falando.  Lotte contava uma história de uma vizinha que tinha encontrado na rua, começou a rir, estranhou que minha mãe não o fizesse, estava com a cabeça caída sobre o peito.  Tinha morrido silenciosamente.

Não posso falar muito nos meus sentimentos, pois as vezes pensava que Lotte era minha mãe, pois sempre tinha sido ela que cuidava de mim, me levava a escola, até ter idade para ir com meus irmãos.   Era quem nos acompanhava a alguma festa, que ia resolver os problemas na escola, quem fazia compra, ou seja ela era a dona da casa.

Então só ficamos os três.   Eu subia a rua, na avenida tomava um ônibus, ia para a universidade, só voltava de noite, porque fazia ao mesmo tempo direito, literatura.  Eu queria fazer só literatura, mas para agradar meu pai, fiz direito.

No enterro de minha mãe, o Brian, que veio acompanhado de uma mulher linda, era sua namorada em Hollywood, já tinha feito dois filmes, eu quase o beijei na boca, como o via fazendo com seus amigos.  Estava lindo.

Passou dois dias foi embora, logo em seguida Boris foi para Paris, minha mãe ainda teve a oportunidade de ver sua exposição mais importante na cidade, uma individual que vendeu tudo, mas disse que não se satisfazia, que iria estudar para escultor em Paris. 

Meses depois o Billy desapareceu pela primeira vez.  Ficou mais de anos fora, as vezes telefonava para Lotte pedindo dinheiro, se dizia algum absurdo, ela lhe perguntava se tinha cara de banco, repense o valor, torne a me chamar, ainda soltava, vá trabalhar sem vergonha.

Passavam uns dois dias, chamava outra vez, diminuindo o valor.  Ela perguntava aonde ele estava, mandava o dinheiro escondida de meu pai.  Depois que desligava essas ligações balançava a cabeça me dizendo, meu querido, esse jamais vai assentar a cabeça.

Tempos depois meu pai, pediu que ela se cassasse com ele, ela aceitou desde que eu concordasse, mas que ela seguiria vivendo em seu quarto, ele no dele.   Eu achava natural, era ela que fazia tudo.  Nessa época, ele fez uma coisa que nunca tinha feito com minha mãe, me explicou que ela odiava isso, já Lotte gostava.

A levava a todas as festas que era convidado, ela se arrumava toda, ia ao cabelereiro, fazia tudo que tinha direito, comprava um vestido novo, discreto como ela, mas bonito, alguns descobri depois que eram de segunda mão que ela arrumava.

Mas eu sabia que ao chegar em casa, que tinham saído, porque encontrava um bilhete dizendo a comida aonde estava.

Eu me apaixonava por todos os homens que me dessem atenção, mas confundia tudo. Ninguém queria nada comigo, eu era o feio da universidade, era grande isso sim, pelo esporte, forte, tinha um belo corpo, mas de cara, até diziam que eu sorrindo ficava mais feio.

Tinha os cabelos crespos muito escuro, algumas vezes me confundiam com algum mexicano, ou sul-americano.  A polícia me parava volta e meia.   Um dia, depois de mostrar meu cartão de universitário, um ficou me olhando, como dizendo que não acreditava.  Fiquei apaixonado por esse homem, ele era descendente de irlandeses, era tão feio como eu.  Como estavam sempre no mesmo lugar, o via sempre, um dia estava lendo um livro na praça em frente a universidade, se aproximou, perguntando o que eu lia, lhe mostrei, era para um trabalho que fazia sobre James Joyce, Ulysses, ele comentou que não tinha conseguido passar das dez primeiras páginas, começamos a falar sobre isso, me convidou para um café, acabamos em seu apartamento em Queens. 

Lhe perguntei o que fazia no seu dia de folga tão longe de casa, me disse que tinha ido atrás de mim.  Na cama erámos como um embate de dois machos alfas, pois o tamanho era o mesmo, quando tinha uma folga no final de semana, passávamos na cama.   Um dia sem mais nem menos me disse que ia se casar.  Fiquei surpreso, mas aceitei.

Nessa época já pensava em entrar para a polícia, não queria ser advogado, achava um saco, literatura só arrumaria um emprego de professor, eu queria aventura.

Acabei literatura antes, tomei a decisão, falei primeiro com a Lotte, ela riu, me contou pela primeira vez um detalhe de sua família original, seu pai era xerife na cidade aonde tinha nascido, nunca me disse qual.

Ajudou que eu falasse com meu pai, ele ficou frustrado, nessa época ele também já estava farto de ser advogado, aceitou rapidamente.   Fui para a academia, como tinha formação universitária, foi mais fácil.   Quando sai, patrulhei algum tempo, logo passei para inspetor, pois era bom em descobrir coisas, diziam que eu assustava no interrogatório, claro fazia um pouco de teatro, me fazia de mau, a cara ajudava, era fácil.

Voltei a encontrar meu antigo namorado, tinha se casado, divorciado, tinha um filho, andamos mais algumas vezes na cama, mas tinha perdido meu interesse.  Não sei se foi por vingança, espalhou que eu era gay.  Na época isso era uma merda.

Mas fiz que não era comigo, fui transferido depois para a delegacia mais importante de Manhattan, era uma espécie em extinção como dizia, pois era difícil de compartir com um colega.  Gostava de fazer as coisas sozinho.

O chefe um dia de castigo, depois de uma briga com meu companheiro, me colocou uma mulher para andar comigo.  Se deram mal, funcionávamos juntos.  Ela gostava de conduzir, eu não, era uma louca ao volante.

Sabia que eu falava pouco, estava sempre atento a tudo, não tinha tempo para conversas triviais. Nessa época morreu meu pai, já muito mal de Alzheimer, na época se dizia demência, só reconhecia a mim, Lotte morreu antes, vieram o Brian com sua segunda esposa, bem como Boris, acompanhando de um japonês, com quem vivia.  O problema ficava sendo o velho, os dois renunciaram a casa, pois era necessário vende-la, para pagar uma residência para ele, eu nunca estava em casa, tinha um pequeno apartamento perto da delegacia. Localizei o Billy que mandava uma procuração, mas queria a metade de sua parte, primeiro pensei em comprar, tinha um dinheiro de um livro que tinha escrito sobre um caso que tinha resolvido. Mas claro que ia fazer com essa casa tão grande.  Nessa época minha companheira Brittany, me acompanhou para resolver tudo, quando viu a casa ficou como louca, me chamou de garoto suburbano, ela tinha nascido e crescido no Harlen, me dizia, porque não comprávamos a casa os dois juntos.   Mas nem precisamos mandar o velho para a residência, ele morreu antes.

Nesses dias conversei como Brian, viu que eu estava escrevendo outro livro, pediu para ler, depois me perguntou se eu podia transformar num roteiro de cinema.  Não tinha prática, mas fiz um curso de noite para isso, nesse período pedi ao chefe que me deixasse num horário fixo.

Nunca ninguém reclamou nada, pois as vezes usava nos textos histórias que tinha passado comigo resolvendo um caso.  Porque mudava o nome das pessoas, o bairro, trocava algumas, coisas, imaginava como a pessoa podia ter chegado até ali.

Fiz o curso, criei a figura do inspetor, que depois seria durante anos, o personagem predileto do Brian.  Com o dinheiro que ganhei, comprei um apartamento melhor o West Side.

Justamente, nessa época me apaixonei outra vez, mas claro, nem chegou a durar semanas, um tio complicado, advogado, escondido dentro de uma armário escuro.

Eu nunca falava da minha vida particular com ninguém, Bella reclamava que falava de seus namorados, que eu só dizia hum, hum.   Até que tempos depois a vi num momento que tomávamos café, olhando uma revista de vestidos de noivas.  Lhe perguntei se ia se casar, disse que seu atual namorado a tinha pedido em matrimônio.   Perguntei como o tinha conhecido, me contou que num desses encontros a cegas com outra pessoa.

Meses mais tardes quando o vi de longe, era o tal do romance que tinha tido durante algumas semanas, o sujeito era bonito, mas como uma mulher na cama.

Fiquei quieto, ela sempre estava com uma revista nova, eu de brincadeira perguntava se era tão difícil escolher.  Ela dizia que as vezes ele falava no assunto, para depois dar um tempo.

Um dia sem querer me dei de cara com os dois, tinha ido fazer compras antes de ir para casa num supermercado, quando sai, dei de cara com eles, ele fingiu não me conhecer, eu também.

Tinha sempre uma dúvida de falar qualquer coisa para ela, pois nunca tinha mencionado meus relacionamentos.   Sabia que os outros da delegacia comentavam, porque estava sempre só.

Mas claro estava ocupado, do meu último livro, mandei uma cópia para o Brian, ele disse que eu pensasse em transformar numa série, uma coisa que se colocava de moda, pois precisava trabalhar sempre, pois agora tinha três pensões de ex-mulheres para pagar.

Quando veio da última vez, tinha me perguntado se não tinha nenhuma namorada, ou se tinha relações com a Bella, me abri com ele, te via mais feliz, quando estavas com algum amigo teu na cama, que sempre quis isso para mim.  Mas claro até hoje não deu certo.

Ele me abraçou, dizendo que exemplo que te dei.

Não esperava minha resposta, pois eu acho que devias sair do armário, eras mais feliz pelo menos, essas mulheres realmente as amas, ou porque as tens, não tens filho, nada disso.

Me confessou que seguia tendo sexo com homens, mas sempre que fossem fora do circuito.

Vives escondido.  Fiz uma maldade com ele, transformei o personagem num inspetor que sai do armário.    Quando leu o primeiro capítulo da série, me telefonou as gargalhadas, filho da puta, queres me obrigar a sair do armário.   Lhe disse que não, se o personagem tinha a ver comigo, tinha que ser assim.

Por incrível que pareça, os produtores gostaram, porque não era uma coisa escandalosa, apenas um homem que tem relações, durante sua investigação.

Foi quando aconteceu o terremoto da Bella.  Estava um dia em casa, quando recebi um vídeo, bem como uma chamada dela com urgência.

Tinha chegado na casa do namorado, o tinha encontrado na cama com outro, se escondeu, filmou um vídeo, mas ela era uma mulher dura, desceu, foi ao seu carro, colocou umas luvas, uma máscara, um gorro, pegou um revolver, mas antes descarregou o mesmo.  Uma porra que era da época que patrulhava nas ruas.   Entrou no apartamento outra vez, eu namorado estava de quatro algemado na cabeceira da cama, os prendeu um ao outro, não deixou o outro tirar o pau do cu dele. Mas colocou, de uma certa maneira a porra no outro, que não podia mover-se que a mesma entrava mais, pegou o celular dos dois, colocou para gravar, mandou para todos os da lista do celular. Amigos, clientes do escritório, para todo mundo.

Mas os deixou ali algemados, presos um no outro. Retirou sua porra, pois podia ser uma prova contra ela, limpou todas as impressões da sua entrada antes, foi embora tranquilamente, me encontrei com ela no bar da esquina, me mostrou o vídeo.

Por isso essa filho da puta, sempre mudava a época do casamento. Mas foi uma bela vingança.

Mesmo assim não contei nada para ela.

Vi o vídeo, dos dois, me matava de rir, pareciam dois cachorros fazendo sexo, se poder se separar, ela tinha feito de tal maneira que se via a cara dos dois o tempo todo.

Tinha deixado a porta aberta, uma vizinha que era dona do apartamento, além de fofoqueira do mesmo, também tirou fotos, além de pedir ao namorado que saísse do apartamento.

Eu fiquei imaginando o caso, ela fez uma coisa que achei demais, ficou furiosa, o encarou no dia seguinte, pois tinha mandado o vídeo para si mesma.

O sujeito estava arrasado, tinha perdido o emprego, os dois trabalhavam no mesmo escritório, o outro era filho do dono, todos os clientes, colegas, tinham recebido o vídeo.

Resolveram sair da cidade.   Pediu desculpas a ela, chorando, mas ela era perfeita para ele se esconder, ela gravou tudo isso, depois me mostrou.

Bela como podes ser tão má?

Se ele tivesse me falado que era gay, sem problemas, mas me usar, nem pensar.

Na verdade eu sempre tinha pensado que ela era lesbiana, pois tinha um tipo meio masculinizado, por isso a tinha colocado comigo, por detrás todo mundo dizia que pelo menos os dois gays do departamento estavam juntos.

Ela nunca tinha desconfiado, contei isso para ela.  Ficou furiosa, queria pedir transferência de delegacia.  Reclamei dizendo como podia pensar em me deixar, ela era minha amiga.

Me respondeu, eu sou tua amiga, mas tu não, nunca me contas nada.

Isso é verdade Bella, mas minha vida é trabalhar, escrever, aqueles romances de uma noite, nada mais.  Não tenho parte romântica na minha vida.

Mostrei o roteiro da série, ela disse que só ficava, se eu inventasse um personagem baseado nela.   Refiz todo o roteiro.

Os produtores gostaram, assim eu lhe dava também uma parte do dinheiro, ela comprou um apartamento pequeno perto do meu, pode sair do Harlem, aonde ainda vivia com sua família.

Por essa época chegou à delegacia, um sujeito, com a cara como a minha, tinha cara de mau, vinha da DEA, de narcóticos, tinha estado infiltrado anos.

Os dois juntos, podia se dizer que era meu parente.  Desde o primeiro dia vi que me olhava, um dia me agarrou, me colocou ao seu lado diante de um espelho.  Realmente nos parecíamos.

Ficamos amigos, lhe falaram que suspeitavam que eu era gay, mas ele mandou quem tinha falado, cuidar de sua vida que ganhava mais.

Saímos tomávamos cerveja os três, ele estava sempre conversando com a Bella, um dia veio com uma notícia bomba, tinha sido convidada, para trabalhar como ajudante de um fiscal, ela tinha o curso de direito, seria a inspetora da mesma, iria ganhar quase o dobro.

Quando vi, tinha como companheiro o Raul, era como eu, falava pouco quando estava trabalhando, gostava de dirigir o carro como um louco, eu me matava de rir, parecia um gangster dirigindo.

Todo mundo falava dos dois, mas importava uma merda.   Ninguém sabia nada dele, eu ao contrário sim, tinha estado infiltrado muito tempo, tinha tido muitos problemas depois, pois quase fica enganchado nas drogas.  Mas conseguiu resolver o caso.

Depois tinha passado mais de dois anos em tratamento, tenho pesadelos, com coisas que vi, que fiz, que não me orgulheço.

Para mim, tinha encontrado um companheiro igual a mim.

Os bandidos tinham medo dos dois, pois parecíamos mais bandidos do que eles, pela nossa cara feia.   Ele era descendente de mexicanos.

Um dia me levou a casa de seus pais, no Bronx, era uma família imensa, mas como eu, ele era o mais feio de todos.

A casa de meus pais, estava alugada, pois não a vendemos.

Do Boris eu não sabia nunca nada, ele sempre telefonava ao Brian, para quem contava tudo, seguia com o japonês, Brian ria, dizendo em nossa família alguma coisa saiu errada, todos homens mas a não ser o Jimmy, que não sabemos, somos todos gays.

Brian seguia mantendo o seu personagem próprio de macho alfa, as mulheres mesmo sabendo que seu personagem na série era gay, isso não parecia lhes importar.

Uma vez por semana, nos reuníamos com a Bella, para tomar uma cerveja.  Ela agora se vestia melhor, tinha mudado tudo, cortado os cabelos mais modernos, a roupa também era outro tipo, uma vez brinquei que devia estar muito enamorada.  Me respondeu, aprendi contigo uma coisa, amar a mim mesma.

Um dia me perguntou se já tinha ido para a cama com o Raul.  

Nem tinha me passado isso pela cabeça.

Estas perdendo o tempo, pois ele te olha de uma maneira especial.

Um domingo, ele apareceu lá em casa, nos tinham dado um caso importante, um assassinato de um rico banqueiro.   Passamos horas revisando o caso, não fomos os primeiros a ver o mesmo, estava parado.

Ele examinou minha casa, inteira, me soltou na cara de gozação, imaginei um apartamento, daqueles cheio de coisas, mas por aonde olho, só vejo livro, passou a mão pela minha mesa de trabalho, uma mesa bruta, que tinha encontrado uma vez num desses lugares que vendem coisas de segunda mão.

Me olhou nos olhos, já fizeste sexo em cima dela.

Eu só respondi “como”, sem entender a pergunta.

Me pegou de surpresa, me empurrou para cima da mesma, fizemos sexo com urgência.

Ficou olhando para minha cara.

Desculpa, mas não podia aguentar mais, quando vi essa mesa, fiquei imaginando fazer sexo contigo aqui.  Foi bom demais.

Eu estava sem respiração, fazer sexo com ele, era como estar numa montanha russa.

Ele seguiu indo a sua casa para trocar de roupa, mas dormíamos juntos, eu morto de medo, pois adorava trabalhar com ele.   Quando escrevia, ele agora se sentava numa poltrona, lhe passava o capitulo, as vezes fazia alguma sugestão.

Sempre imaginei uma vida assim, me dizia, dois homens como nós vivendo suas vidas.

Tempos depois, após um inverno de merda, acabávamos de resolver o crime do banqueiro, demoramos que descobrir que o relatório inicial estava malfeito, o detetive tinha escondido detalhes, pois era amigo da mulher do banqueiro, mas mesmo assim resolvemos o problema.

Fazia calor, como se de repente o inverno tivesse acabado, em seguida tivesse começado o verão, sem passar pela primavera.

Olhávamos, o rio Hudson, lhe mostrei do outro lado aonde tinha sido criado.  Me disse que sempre tinha gostado disso.

Faziam quase um ano que estávamos juntos, olhei para ele, lhe perguntei o que pensava de nós.

Segurou minha mão, ficou me olhando, eu não sei você, mas estou apaixonado, quero viver sempre contigo, quando te vi no primeiro dia na delegacia, mesmo no dia que te coloquei ao meu lado, era mais para dizer, nos completamos.

Tive um problema com os inquilinos, ele foi comigo até lá, a casa estava um desastre. Ele amou a mesma, mas eu lhe disse, para viver aqui, trabalhar do outro lado é complicado.

Depois tenho que vender, tem a parte dos meus irmãos.  Só então ele ficou sabendo que o Brian que sempre falava era um ator de cinema que ele gostava, falei do Boris, que vivia em Paris, do Billy que ninguém sabia aonde estava.   A última vez que tinha sabido dele, estava no Dubai, num campo de petróleo.

Quando Brian veio a NYC, para uma entrevista na televisão, os apresentei, fiquei com ciúmes, pois o meu irmão passou metade da noite falando com ele.   Ao leva-lo ao hotel, pensei agora vai convidar o Raul para subir.

Virou-se para ele, o segurou pelos ombros, gostei da tua escolha irmão, mas tu Raul, nem te atreva a fazer alguma maldade com meu irmão, venho aqui te encho de porrada.  Me beijou dizendo, finalmente encontraste tua meia laranja, estou com inveja.

Fomos embora rindo, gostei de ver tua cara com ciúmes do teu irmão, me soltou na cara, era uma verdade. 

Mas estávamos conversando, na verdade ele estava fazendo um inquérito para saber se sirvo para ti.

Brian tinha comprado uma casa em Malibu, pois finalmente agora só tinha uma ex-mulher solteira, as outras tinham se casado, lhe sobrava dinheiro.

Tiramos férias juntos, fomos passar uns dias lá.  Adoramos, descobrimos que ele tinha uma aventura com um surfista de uns 40 anos, os dois juntos eram um monumento.

Era como me lembrava dele, quando jovem com seus namorados.  Quando comentei isso, ele riu muito, chamou o James, ele não te reconheceu.

Era realmente um dos seus namorados de jovem.  Todos os dois tinha se casado, se divorciado, se reencontrado.   Raul de sacanagem dizia que parecia um conto de fadas.

De noite na cama, disse, poderia dizer que imagino os dois na cama.  Mas nunca será nada parecido com o que temos.

Eu tinha um bom dinheiro, guardado das últimas temporadas da série.  Rindo lhe disse, que adoraria viver lá.

Vamos um dia os quatro comer num restaurante de uma amigo de Brian, em Venice Beach, foi um amor à primeira vista, adorei o lugar.  Era verão, estávamos sentados no restaurante, na calçada, quando vimos um ladrão escapado da polícia, o Raul, somente estendeu a perna o sujeito caiu, ele rapidamente colocou o pé em cima da mão do mesmo, com a arma.

Nos identificamos, para o policial.   Esse filho da puta, sempre me faz correr, menos mal que falta pouco para me aposentar.  Levou o mesmo a delegacia dali, voltou para conversar conosco.

Depois nos levou para conhecer a delegacia, todo mundo queria autografo do Brian, ele soltava que quem escrevia a história era eu.

O capitão, nos ofereceu trabalho, Raul disse que gostaria de tentar, eu soltei que queria parar de trabalhar, ajudaria mas queria estar fora escrevendo, estava fazendo um livro novo.

Conversei com Brian sobre a casa, temos que vender a mesma, está uma merda fechada.

Tu como o mais velho devia tomar rédeas no assunto.  Raul, conhecia gente em muitos lugares, começou a procurar pelo Billy, o último que sabíamos era do Dubai.

Acabamos descobrindo que estava na Indonésia preso por drogas.  Movemos mundo e fundo, mas já era tarde, ele estava no último estágio da Aids, contraída através de seringas contaminadas.   Fomos até lá, para tentar liberta-lo para morrer fora da prisão, mas essas coisas lá eram difíceis, com muito custo subornando muita gente conseguimos, o levamos para um hospital, que parecia o mais limpo, nos revezamos Brian, James, Raul e eu, para cuidar dele, Boris não se moveu, disse que estava fazendo um trabalho imenso, antes de morrer assinou os papeis da sua parte.

Quando voltamos, com suas cinzas, a enterramos junto com nossos pais, com a Lotte, me lembrava dela, o chamando de bala perdida.  Na verdade era um belo desconhecido para nós, nunca soubemos nada de sua vida.   Nos dias no hospital, disse que tinha vivido como queria, que tinha experimentado todas as drogas possíveis, acabarei morrendo por causa de um seringa contaminada.

Mandamos a parte do Boris, na verdade nunca mais o vimos, dez anos depois fomos avisados pelo seu namorado, que sequer sabíamos o nome, os dois sempre falavam tudo em japonês, nem sabíamos que Boris tinha vivido um tempo por lá.   Já o tinha cremado, o ia levar para o Japão, para um lugar aonde os dois tinham se conhecido.

Ainda disse ao Brian, realmente nossa mãe nos mandou voar. 

Ele me disse, tu foste o único que ficou para trás.

James um dia me contou que se lembrava de mim olhando pela fresta da porta os dois fazendo sexo.  O amava desde essa época.

Agora vivemos em Venice Beach, consegui com a venda do apartamento de NYC, bem com minha parte da casa, algo de dinheiro do Raul, comprar uma casa no canal. Vivemos bem os dois, ele trabalha como investigador, as vezes me conta o caso, porque diz que tenho sempre uma maneira de pensar aguda.  Vejo coisas que ele não vê.

A tempos atrás levou um tiro, quando soube, fiquei muito nervoso, porque de pensar em perde-lo, ia ser difícil.

Meu irmão ria, dizendo os dois são mais feios que a mãe da miséria, mas quando estão juntos, vocês se olham, ficam bonitos.   Nunca alguém diria que são gays.

Um dia recebemos o convite do casamente da Bella, se casava com uma fiscal de NYC, rimos muito, fomos os dois, lhe disse ao ouvido, nunca me enganaste.

Fomos visitar a família do Raul, que sempre fazia uma festa imensa quando nos via.

Sua mãe que dizia que estava velha, nos perguntou na mesa na frente de toda a família, quando vocês dois vão se casar, quero morrer tranquila, que meu Raul, esteja com alguém que o cuide.

Seus irmão nunca tinha desconfiado que vivíamos juntos a tantos anos.

Eram metidos a machões.

Ele ria muito essa noite, estamos fudidos me soltou, terás que se casar comigo na marra, pois ela não vai desistir.

Um dia apareceu com duas alianças, que tinha visto, muito masculinas, me pediu em casamento, estávamos só os dois em casa.   Eu ri muito, viva tua mãe, estou esperando a muito tempo esse pedido, embora para mim não seja importante.

Teria que ser em NYC, lá fomos os quatro, imaginem a festa que faziam com o Brian, um ator famoso na festa deles.

Foi uma festa familiar, como dizia sua mãe, muito simples, mas quando nos tocamos, tinham pelo menos umas cem pessoas na festa, num salão que ela tinha arrumado, tudo com comida mexicana, com direito a mariachis, família imensa, Brian se divertiu horrores, aquele homem imenso, loiro, ninguém acreditava que era meu irmão, muitos pensavam que eu era mexicano, principalmente agora que por causa do sol da praia, estava muito queimado.

Um dos sobrinhos do Raul, destoava dos outros.  Era filho do primeiro casamento de um de seus irmãos, até a pouco tempo tinha vivido com sua mãe.  Era moreno com olhos verdes.

Estava embaixo das asas da mãe do Raul.

No final da festa quando os dois estávamos sentados com ela, o chamou Antonio, venha aqui meu filho.  Na frente dos dois lhe perguntou se gostaria de ser nosso filho.  Levamos um susto danado.   Ela como sempre foi clara, não tenho muito tempo de vida. Esse menino precisa de dois homens como pais, ele é gay, teu irmão o aceitou porque a mãe do Antonio morreu, ele sempre viveu com ela, não encaixa aqui.

Olhei para o garoto, que nos olhava com adoração.  Eu disse que com uma condição, iria conversar com o Raul, mas se fosse assim o queria de papel passado, nada de filho emprestado.

Ela me dava mil beijos na cara.  Quando te vi a primeira vez com o Raul, vocês nem estavam juntos, pensei, esse é o homem perfeito para meu filho, eu sempre soube que ele era gay.

Se escondia no meio dessa família de brutos, os dois podem ser feios como dizem os outros, mas são belos por dentro.

Nessa noite levamos horas conversando.  Raul tinha medo, conhecia bem seu irmão, era um sujeito complicado.   Meu argumento era, se dizemos sim, falamos com tua mãe, deixe tudo nas mãos dela.   O pai nem se aproxima dele, os irmãos tampouco.

Ainda ficamos mais dias ali na casa dela, um dia ela disse que estava tudo resolvido, que tinha conversado com o filho, bem com a nora, que dava graças a deus em se livrar do garoto.

Nos deram de papel passado o Antonio.

O levamos conosco, ele tinha nessa época 13 anos, era alto, mas desengonçado, tinha saído a nós dois, pois não era um garoto bonito.

Quando chegamos a Venice Beach, ele adorou, logo tinha amigos na praia, fazia exercícios nas barras com os conhecidos, era muito agarrado aos dois.  Talvez porque não queria perder nenhum minuto da vida do nosso filho, Raul se aposentou.

Agora tinha uma horta no fundo da casa, ia fazer surf com o Antonio, sua mãe, tinha razão ele mudou, era um paizão.   Era tudo que o Antonio precisavam um pai, no caso dois.

Talvez por sermos como erámos, nada afetados, ele também deixou de ser.  Anos depois participou de um filme do Brian, fazia um papel bom, de um rapaz mexicano, que quer escapar das drogas, o roteiro era meu.

Daí não parou mais, mas a única coisa que pedi, foi que fizesse universidade, ele obedeceu, lhe disse que escolhesse o que queria, foi fazer uma de cinema, logo estava trabalhando como um louco num projeto.

Escrevi seu primeiro roteiro, os dois ajudamos em tudo, Raul fazia um pequeno papel, ficava bem no cinema.   Ele ria dizendo, eu agora velho, gostoso, os homens ficaram como loucos atrás de mim, eu de gozação o ameaçava de cortar seu piru.

Estamos até hoje levando a vida.  Antes da mãe dele morrer, fomos várias vezes vê-la, ela dizia que sabia que não tinha errado.

Seu enterro foi impressionante, muita gente, que os filhos nem sabiam que existia, uma das noras disse, que toda essa gente sempre vinha pedir auxílio para ela, orientação, era como uma dessas velhas da vilas do México, que cuidam da comunidade.

Fui com Raul, mas dois irmãos deles, além do Antonio, levar suas cinzas para a vila de aonde tinha saído, ela dizia que não queria que enterrassem suas cinzas em NYC, pois odiava os invernos.   Foi uma coisa muito emotiva, tinha saído jovem de lá, agora voltava.

Acabamos ficando quase dois meses, pois Antonio estava de férias, os dois, começamos a alinhavar uma história dela, para o cinema.

Contamos sua infância, a partir da memória do pessoal da vila, até ela partir para Estados Unidos com o namorado.  Até eu fiz uma participação, fazendo papel de um bandido da fronteira. Brian foi um dos produtores, Antonio ganhou uma série de prêmios, principalmente como diretor jovem.

James sentia ciúmes do relacionamento que Brian tinha com o Antônio, pois ele tinha filhos do seu casamento, mas Brian nunca tinha tido filhos, se identificava com o Antonio, porque o fazia me lembrar quando jovem.

Um dia brigaram, Brian apareceu em casa, chateado, foi ficando.  Embora a casa fosse sua, James levou um tempo para ir embora, soubemos depois com um jovem que podia ser seu filho.

Brian nunca mais foi embora, ficou vivendo em casa, trabalhando com o Antonio, agora era seu protegido, quando lhe perguntavam se tinha alguma coisa entre eles, ficava horrorizado, pode ser meu neto, nem pensar.   Os dois amavam a mesma coisa, o cinema, isso os unia.

Agora estão preparando um filme, Brian tinha uma coisa guardada que nunca soube existia, um diário da Lotte, que falava dela, de nossa mãe, quando me entregou, ele pediu se eu podia escrever um roteiro.

Com o diário entendi muitas coisas, mas escrevi a história.  Ia desde quando se conheceram na cidade pequena que viviam, até se reencontrarem outra vez, em NYC.

Brian caçoava de mim, dizia que eu tinha nascido errado, que tinha alma de mulher para poder entende-las dessa maneira.

Agora estamos esperando a estreia, deu muito trabalho a montagem, pois tinham os dois filmado demais.

Seguimos em frente, sempre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 6 de febrero de 2023

 

  

                                    BRUCE STORM 

Seu verdadeiro nome era Ray Dern, resolveu mudar, quando chegou a Los Angeles, pensando em fazer carreira no cinema.

Tinha saído de Montana, a bem dizer expulsado por sua família, que era super religiosa, com 15 anos tinha levado surras homéricas de seu pai, pois queria ser diferente.  Quando lhe perguntavam ele não sabia explicar, apenas sabia que não encaixava ali.

Desde criança, tinha uma imaginação fértil, em sua casa estava proibida a televisão, livros, nada de ir ao cinema.

Quando descobriu a biblioteca da pequena cidade, dizia que tinha sido uma farra de fazer gosto, as pessoas não entendiam, ele com um simples livro, soltava sua imaginação, se o escritor descrevia uma cidade, ele já se sentia andando por ela, gravava em sua cabeça a imagem que tinha.  Na cidade o único cinema tinha fechado as portas a muito tempo, os livros na biblioteca eram censurados, mas a senhora que tomava conta da mesma, quando descobriu seu gosto pelos livros, ele com sua voz rouca, lhe explicou como se sentia, começou a lhe emprestar livros que ela tinha escondido depois da purga que fizeram lá.

Ele os colocava dentro de um saco plástico, os enterrava ao pé de uma árvore, no meio do bosque nos fundos do rancho que seu pai tinha.

Mas claro nem tudo é perfeito, seu irmão mais velho, o detestava, nunca tinha entendido por quê. Contou para o velho, esse lhe deu uma surra, que não pode se sentar em dias.

Mas nem por isso se revoltou contra o mesmo.  A bibliotecária quando soube, ficou horrorizada, pensou tenho que fazer por esse garoto, o que não fiz por mim.

Tinha suas economias, mas ficou chocada, quando ele disse que a única forma de escapar dali era entrar para o exército.

Ela justamente tinha ficado para trás por causa disso, seu único irmão entrou para o exército, nunca mais voltou, morreu em combate.  A ela tocou cuidar de seus pais, já muito velhos.

Tinha uma caixa desses de biscoitos que alguém lhe tinha dado de presente, ali guardava tudo que sobrava de seu salário, não pagava aluguel, a casa era própria, suas roupas duravam muito, a chamava de agarrada por isso.   Mas na verdade pensava, para que comprar roupa nova, se a que tenho basta, só ia as missa ao domingo, depois voltava para casa.

Falou com o Ray, invés de levar os livros venha ler aqui, assim me contas como imagina.

Os dois tinham uma simbiose perfeita, ele lia os livros, depois se sentavam na mesa da cozinha, assim ninguém os via, ele falava do primeiro capitulo, como imaginava a cena, ela delirava.

Ele entrava por detrás da casa, assim ninguém via, ou pensavam que passavam desapercebidos.

O que não era verdade, numa cidades dessas perdidas no meio do nada, todo mundo sabe de tudo, até a cor do peido que soltas.

Logo chegou aos ouvidos do pai dele.  Tinha acabado de fazer 17 anos, sem futuro, que não fosse trabalhar no campo. Por isso apesar de não ser muito alto, tinha um corpo fantástico.

Era moreno, cabelos crespos, olhos escuros, uma boca sensual, ombros largos, cintura estreitas, pernas muito firmes.

Quando seu pai, o ameaçou de novo, segurou o cinturão, quem deu a surra foi ele, se vingando de tudo que já tinha apanhado.

Nesse dia ela lhe deu as chaves do velho carro de seu pai, dias antes ela tinha levado a oficina mecânica, mandou arrumar o mesmo.

Lhe deu a caixa de biscoitos, isso dará para arrumares um emprego, vá para o mais longe que esse carro aguente.   Ela tinha feito uma montagem, na carteira de motorista do irmão, colou uma foto dele, assim não teria problema.  Passou a se chamar Bruce.

Saiu da cidade de noite, antes que seu irmão ou seu pai pudessem fazer qualquer coisa, sua mãe era uma mulher apática, parecia viver num mundo à parte, só a escutava falar alguma coisa, quando rezava, fora isso, nenhum carinho, ou mesmo um gesto.

A velha bibliotecária, sabia que depois toda culpa recairia sobre ela, mas não se importou, estava velha, ele a tinha feito reviver seus sonhos de juventude, de escapar dali, nada mais justo pensava, que ele pelo menos possa escapar.

Ao sair da pequena cidade, ao entrar numa estrada interestadual, sentiu uma euforia, ainda pensou, deve ser assim que se sentem os pássaros, quando voam pela primeira vez.

Foi economizando o dinheiro todo o que pode, precisava de ter o máximo para quando chegasse a uma cidade que resolvesse, aqui quero viver.

Quando chegou finalmente a Los Angeles, o primeiro era encontrar um lugar para viver, tinha que ser muito simples.  Seus sonhos de Hollywood ainda lhe pareciam distantes.

Os primeiros dias ficou num hotel desse que se alugam uma parte dos quartos por horas, para as putas, andando por uma avenida, descobriu uma livraria, sua sede de ler era imensa, mas viu um cartaz de que procuravam pessoas para trabalharem.

Se apresentou no caixa, a mulher o olhou de cima a baixo, perguntou o que estava fazendo na cidade, pela maneira que falava sabia que não era dali.  Sentiu confiança nela, contou mais ou menos sua história.  Ela disse que pagava por semana, pois aqui nunca para ninguém, todos vem atrás dos sonhos de Hollywood, mal conseguem uma ponta num filme, se acham atores para o resto da vida.

Lhe disse, que a volta da esquina, alugavam um pequeno apartamento, disse isso rindo, porque como ele viu depois era mínimo, mas que era melhor que o hotel não tinha dúvida.  Ela explicou que podia descontar no seu salário.

Fez um trato com ela, trabalharia o dia inteiro, mas podia pintar o apartamento de branco, pois estava precisando.  Levou dois dias fazendo uma faxina total no mesmo.

Ela ria muito, de como ele tratava os livros, as vezes o pegava, alisando a capa do mesmo com respeito.  Lia de tudo que lhe despertasse curiosidade.

Ela abria inclusive no domingo, pois por ali andavam muitos turistas.  Ele a sua maneira, se lembrou de conversas com a bibliotecária, separava os livros por autores, por temas, arrumou uma mesa, só com mapas da cidade, outra com livros de fotografia de estrelas de cinema, mas sempre abria um em especial, falava para os clientes, esse fotografo, é o melhor, olhem como consegue captar a figura do artista, realmente tinha um que, que o transformava num dos melhores ao seu ver.

Uma vez uma cliente perguntou se ainda era vivo?

Não sei, mas vou descobrir.

Realmente o homem era vivo, vivia retirado em Malibu, mas vivo.

Um domingo pediu licença a senhora para ter a parte da tarde livre, se atreveu, agora sua sede de conhecer as coisas era maior.

Tinha descoberto aonde ele morava, foi até lá.  Bateu na porta, atendeu um homem de uns 60 anos, muito queimado do sol.  Ele perguntou pelo senhor Barry Lyveston?

Sou eu mesmo, algum problema?

Explicou, admiro seu trabalho, outro dia vendendo seu livro uma cliente perguntou se ainda era vivo, pois nunca mais tinha ouvido falar no senhor.

Pode me chamar de Barry.   Vendeste o livro?

Sim, claro, pedi inclusive mais para a editora.   Adoro poder dizer que é um dos melhores que vejo na livraria.

O levou para uma varanda que dava para o mar.

Começou a perguntar pela vida dele, era ao contrário, ele tinha ido para fazer perguntas, mas era o homem que lhe fazia.

Contou o que lhe tinha acontecido, sentia absoluta confiança nele.

Tinha um livro em cima da mesa, eu quando vejo essa foto por exemplo, me parece que o senhor está contando uma história, não é uma simples fotografia.  A artista faz a pose, o senhor faz a foto.

Senhor não, Barry.    Sim é mais ou menos isso, como vim do cinema, para mim sempre foi importante esse detalhe, contar uma história.

Odeio as poses, principalmente as falsas.   Lhe explicou o que queria dizer.

Barry, ainda fazes cinema?

Quando me chamam sim, mas hoje em dia com a moda de filmes de ação, cada vez menos.

Mostrou uma série de fotos que estava fazendo nesse momento.  Quero conseguir captar a sensualidade, sem ser vulgar.  Mas a maioria das pessoas não entendem.

Mostrou a foto de um rapaz em cima de uma cama, nu.   Veja ele está fazendo uma pose, perdi horas lhe explicando o que queria, mas ele não entendeu.

Estou montando um livro sobre isso, a sensualidade, sem ser nada vulgar.  Senão contrataria um ator pornográfico, mas esse não é meu negócio.

Já entendi o Barry quer naturalidade, que a pessoa esteja em cima dessa cama, relaxada, talvez pensando em algo, verdade.

Contou para ele, que quando começou a ler, que como nunca tinha ido ao cinema, tampouco tinha visto nunca uma televisão, gostava que o autor descrevesse o lugar.

Por exemplo se essa foto fosse perfeita, o relato seria que depois de uma relação sexual, a pessoa estivesse contente, relaxada, pois tinha realizado algo.

Barry ficou olhando para ele. Estas no caminho certo.

Minha ideia era ter uma pessoa, para posar para uma série de fotos, para transformar num livro. Passou para ele, uma série de anotações, ele se esqueceu que o Barry estava ali, começou a ler o texto, eram todos de uma sensualidade impressionante, lhe excitavam.

Não notou que Barry estava com uma câmera na mão o filmando, quando finalmente levantou a cabeça, com a sua boca sensual meio aberta, sem querer riu.

Barry mostrou para ele, o que tinha feito, era como se tivesse captado tudo que ele estava lendo.  Num determinado momento, ele passando a língua pelos lábios lentamente, nada de pressa, o texto falava de passar a língua, lentamente pelo corpo da outra pessoa, isso o tinha excitado.

Você deve ser muito experimentado na cama, soltou.

Ele teve um ataque de riso, se engana Barry, sou virgem ainda, nunca fiz sexo com ninguém.

Barry riu, não posso acreditar, hoje os jovens aos vinte anos, parecem velhos sexualmente, já exploraram de tudo, todas as drogas, são como desencantados.

Mostrou uma foto, pelo vista feita num lugar de ocupa, um rapaz bonito, mas se via que estava drogado.  Disse que eram fotos de um projeto, que estava em edição.  A ideia saiu de um filme, o ator não conseguia interpretar o personagem, que acaba nas drogas, o filho da puta, sabia se drogar, mas como ficava não.  O diretor não queria que ele tivesse dopado no momento, então o levei a este lugar.   Mesmo assim não conseguiu.

Eu quando li os livros proibidos na minha cidade, contou da sua amiga, li os de Jack Kerouac, fiquei imaginando essa viagem que fez, primeiro pensei que era imaginaria como as minhas, mas quando falava do encontro com os amigos da mesma geração, fui sentindo uma inveja incrível, entendia que era como se estivessem perdidos numa época que não era a sua, por isso usavam drogas.    Depois fui lendo tudo que havia sobre essa famosa geração, estava tudo escondido no sótão da casa dessa senhora, Allen Ginsberg, Willian Burroughs, Charles Bukowski, alguns tinha que ler mais vezes, pois claro no meu conceito de rapaz provinciano não entendia aonde queriam chegar, mas ao mesmo tempo, faziam com que minha imaginação estivesse solta na vida que levavam.

Foi uma experiencia impressionante, foram os únicos livros que trouxe comigo, me acompanharam no velho carro, até aqui.  Algumas vezes parei em lugares que tinham passado, evidentemente não tinha nada a ver com o que tinham escrito.   Então imaginava, como seria o mesmo seu eu estivesse sobre o efeito de alguma droga.  Acho que a mente tem esse fator de nos possibilitar, imaginar.  

Para eles devia ser difícil se soltar num mundo que não admitia a liberdade sexual, nada disso. Eu imaginava como seria.

A cara do Barry era impressionante, me fala tudo isso um rapaz que diz que nunca fez sexo, na cidade do pecado.

Sim, vejo pelas ruas, as putas, os rapazes que se prostituem, não me imagino no lugar deles, é uma vida difícil, aonde se mistura, fome, desespero, drogas, tudo, espero poder seguir trabalhando no que seja, para não passar por isso.

Barry soltou que a muito tempo não tinha uma conversa interessante, lhe perguntou o que mais o tinha excitado, as fotos, ou o texto.

Sem dúvida o texto, se foste tu que os escreveste, deves ter uma sensibilidade a flor da pele.

Estava morto de fome, disse que ia embora, porque tinha que comer alguma coisa.

Merda, me perdoe, a conversa estava interessante, que me esqueci desse detalhe.

Comes alguma coisa comigo?

Foram os dois para a cozinha, Barry preparou sanduiches de pastrami, de outras coisas que ele nunca tinha comido, lhe ofereceu uma cerveja.  Ele perguntou se não tinha uma coca cola, pois não bebia.  Tenho horror a isso, gosto de estar sóbrio para saber o que estou fazendo.

Sentaram-se numa mesa na varada, a luz batia diretamente nas mãos do Barry.  Eram tremendas, grandes como ele, mostravam claro sua idade, mas o que ele via, eram que tinham experiencias.

Falou disso, há uma diferença grande, quando olhamos uma pessoa, falou da sua amiga, ela poderia ser considerada como uma velha, claro tinha idade, mas na verdade, tinha ficado jovem na mente, nossas conversas podiam durar horas, ela dizia que eu a tinha feito recuperar sua juventude guardada em alguma caixa de sua mente, de seus sonhos.  Os quais eram velhos demais para realizar.

Depois disso foi embora, disse que tinha que levantar cedo para ir trabalhar. Olhou diretamente os olhos do Barry, perguntou se podia voltar.

Claro, quando queira, lhe deu o número do seu celular.

Ele agora fazia uma coisa, cada livro novo que sabia que ia interessar a sua amiga, Mrs. White, mandava para ela, na direção da biblioteca, embrulhava claro no papel da livraria, dentro do livro colocava uma carta.  Queria saber como estava, contava o que tinha feito naquele tempo, o que ia conhecendo, a cidade, os novos autores que tinha descoberto.  Mesmo autores estrangeiros, quando mandou um livro de Camus, comentou com ela o que tinha sentido, o mesmo com Simone de Beauvoir, que gostava mais que Jean-Paul Sartre.  Ia agora sempre que podia escapar a casa do Barry.

Ficou duas vezes para dormir.  Um dia, sabia que tinha que partir dele isso, fez um pedido, eu fico imaginando como será fazer sexo contigo, não quero perder minha virgindade com nenhum idiota, fico imaginando essas tuas mãos sábias explorando meu corpo, pode me fazer esse favor.

A cara do Barry era fantástica, lhe explicou que ele tinha tido relações com homens, com mulheres principalmente, mas que ansiava isso, estar na cama com ele, pois já ansiava cada visita dele.  Pela primeira vez tenho com quem falar, expor minhas ideias, que me entende, não faz cara pensando, velho idiota.

Foi uma coisa maravilhosa para ele, tinha sido muito, mas muito mais do que tinha imaginado, Barry tomou seu tempo para lhe deixar como louco, lhe penetrou suavemente, como depois se deixou penetrar, no final chegaram a um orgasmo ao mesmo tempo.

Ele ficou ali jogado na cama, se lembrando de cada detalhe que sua mente tinha guardado.

Barry tinha levantado para ir ao banheiro, quando voltou, ele estava como ele tinha imaginado a foto, que não tinha conseguido fazer com o outro rapaz.  Se dedicou a faze-la, por último subiu em cima da cama, para fotografar seu rosto desde cima, pediu que ele continuasse com o que estava fazendo, ele seguiu.

Depois foram revelar a foto, viu todo o processo, já tinham surgidos as câmeras digitais, mas Barry gostava de trabalhar a moda antiga, com as analógicas.  Foi um gozo, se ver surgindo foi ficando excitado, voltaram outra vez para a cama.

Depois os dois ali deitados um nos braço do outro, era isso que ele imaginava, os segredos de alcova.   Barry perguntou se ele queria posar para ele, para toda a ideia do livro, te dou o texto, assim poderás imaginar o que eu quero.

Agora já podia ver as fotos já secas.

Barry comentou, que hoje em dia, as pessoas, faziam sexo, em seguida desapareciam, era a famosa foda de uma noite, já que não tinham nada para compartir, para falar.

Mas ele estava ali.

Na noite seguinte, leu os textos curtos de cada ideia do Barry, pela primeira vez, tinha ideia do que era o sexo entre dois homens, fechou os olhos, nu, jogado na cama, começou a imaginar cada texto dele, era como se seu corpo entendesse a mensagem.

No dia seguinte, comentou com a dona da livraria, o que tinha feito, ir conhecer o Barry, tenho ido a sua casa sempre que posso.   É uma pessoa que entende a minha cabeça, bem como eu entendo a dele.      Me perguntou se eu poderia posar para ele, eu adoraria, o que achas disso?

Ela sorriu, não eres um jovem corrente, que veio para Hollywood, para fazer filmes idiotas, como os que se fazem agora, ou filmes de ação, a tua cabeça exige que tenha consistência no que fazes, acabaras fazendo filmes no underground.

Como por instigação, voltou a ler Jack Kerouac, mas agora com outra perspectiva, acabou relendo todos.  Quando falou com Barry a respeito do cinema underground, ele começou a mostrar sua coleção a respeito.

As fotos tinham ficado excelente, ele as estava montando com o texto dessa parte, agora sempre dormia com ele quando ia a sua casa, as sessões de sexo eram incríveis.

Lhe disse que concordava em posar para as fotos, desde que pudesse ler o texto antes, discutir o mesmo.  

Claro, nada ia me agradar mais.

Foram fazer umas fotos no campo de um amigo dele.  Montou um fundo infinito com um pano sujo, perguntou se tinha medo a cavalos.

Imagina vim do campo, como vou ter medo a cavalo.

Lhe trouxeram um, o dono, amigo do Barry, disse que era o perfeito para o que queria, pois estava surdo.  Tinha participado de alguma filmagem, não sabia o que tinha acontecido o mesmo estava surdo.

Bruce pediu uma escova, passou pelo cavalo, lhe deu cenouras, quando leu o que Barry queria, se imaginou um guerreio de alguma tribo de antigamente.  Possou nu em cima da cavalo, o que seria talvez as melhores fotos, que acabariam merecendo um livro a parte.  A mais famosa era ele deitado em cima do cavalo de costas, a fizeram em uma série de lugares, ao mesmo tempo fizeram sexo no campo com o cavalo olhando para os dois.

Quando viu as fotos, arrastou literalmente Barry para a cama, o cavalgou, como imaginava que faria um índio, usando-o como se fosse um cavalo, fez dele um brinquedo em suas mãos.

Barry disse que já podia morrer, pois nunca tinha tido um prazer como esse.

Semanas depois lhe avisou que estava fazendo um filme, que havia uma parte muda, mas que o ator não entendia o conceito.   Lhe explicou, o levou para falar com uma conhecida sua, Sarah Jameson que tinha possado para ele, era famosa como stripper, não como as atuais, tinha feito muitas fotografias em revistas.

Era uma mulher fantástica, de quase 1,90 metros, morena, com uma pele azeitonada, bem como uns cabelos, agora com fios brancos.

Ela lhe explicou como funcionava em sua cabeça.  Quando me contratavam para fazer um stripper para algum homem, primeiro conversava com ele, para entender o que queria, 80% das vezes nem fazia sexo com o mesmo, eram voyeurs, queriam observar.  Então entendia que tinha que alimentar com cada gesto seus desejos, tudo muito lentamente.

Ali sentada em sua sala, estava completamente vestida, se colocou numa diagonal, foi falando lentamente um texto que conhecia do Barry, retirando cada parte de sua roupa. Bruce estava como louco, excitado, porque a ideia era essa excitar, sem tocar.

No filme, se tratava de uma mulher jovem, casada com um homem muito mais velho, que não sabia realizar seus desejos.  A história se passava numa fazenda de gado, um cowboy lhe chama a atenção.

A primeira cena, ela está escondida, ele vai tomar banho num rio.  Isto a excita, pois ele se sabe observado, pensa que é outro cowboy, então está pensando em outro homem.

Numa outra sequência, ele está se preparando para tomar um banho, ela o observa através de um fresta na parede de madeira.   Nessa ele imagina que o faz para seu amigo.

Bruce ensaiou a mesma mil vezes, fazendo isso para o Barry, que o filmou através de uma cortina.  Quando ele conseguiu fazer completamente, filmaram no studio.

O diretor lhe pagou um bom dinheiro para isso, apareceria nos créditos, o mesmo disse que ele deveria estudar dicção, pois tinha uma voz complicada, ele sabia que sim, se devia um soco que seu irmão lhe tinha dado quando criança no pescoço.  Era uma voz rouca, quebrada como diziam alguns.

Barry dizia que era perfeita, que o alucinava na cama, escutar ele falando alguma coisa que tinha escrito, no seu ouvido.

O filme quando estreou, ele não gostou, tinham cortado certas partes, Barry, tinha essa parte completa de, quando tinham feito em sua casa.

Logo era procurado por produtores, diretores de filmes pornográficos, ficou furioso, não entendia, nem queria fazer isso.  Conversou com Barry sua ideia era outra.  Gostava da ideia intima de sexo com ele, não pensava em fazer sexo com mais ninguém, tenho a ti, para que preciso mostrar-me fazendo sexo com outro homem ou mulher.

Barry tinha feito a montagem do livro de fotos, com os textos, dele como o cavalo, era tudo em branco e negro, eram perfeitas.  No livro pela primeira vez, Barry colocava seu nome, como se fosse uma dupla.   A primeira crítica que saiu num jornal, o considerou um livro erótico, perfeito, a conjunção de dois machos, o homem, bem como o cavalo.

Já nessa época vivia praticamente na casa dele, se levantava muito cedo, para ir trabalhar, pois levava mais tempo para chegar.  Quando o livro chegou à livraria, algumas pessoas percebiam que era ele o da foto.   Demorou a entender o preço de uma certa fama, pois a maioria o convidava para fazer sexo.   As primeiras vezes ficou horrorizado, a dona da livraria soltou que ela mesma se dispunha a isso, mas falou as gargalhadas.

Mas ele seguiu fiel, ao Barry, não sabia que o que sentia era amor, mas só queria estar com ele.

Barry que tinha mais vivência lhe disse que devia experimentar com outra pessoa, para ter certeza.

Foi uma merda, pois a outra pessoa queria simplesmente sexo, mais nada, o erotismo não figurava na imaginação do coitado como ele chamaria o outro.  Se levantou, se vestiu foi embora, não sentia nada.

Fiz o que me propuseste soltou ao Barry, contou como tinha acontecido. Me levantei, me vesti fui embora.   Não sou uma puta, quero o erotismo.

Barry mostrou um texto que tinha escrito, para sua amiga Sara Jameson, ia fazer um vídeo, ela precisava de dinheiro para uma operação.  Ele se ofereceu para fazer o parceiro.

Os dois se encaixaram a perfeição, apesar dela ser muito mais alta do que ele.

Barry montou o cenário, perfeito, a meia luz, com uma iluminação perfeita, nada era de mal gosto, sim de um erotismo total, mesmo o sexo que fizeram a maior parte na estava na montagem final.   Ela ria ao final, quando ficaram os dois deitados lado a lado, segurando a mãos, que era o fecho do vídeo, quando ele acabou de montar, colocar a música, o apresentou para uma série de produtores, pois precisava do dinheiro para ela. 

Todos queriam, mas que incluísse as cenas de sexo puro.  Nenhum deles concordou.

Quando foi apresentado finalmente num cinema de filmes eróticos, foi um sucesso, o vídeo foi reproduzido mil vezes.

Ele agora era Bruce Storm, escreveu para sua amiga, contando do filme, ela disse que sonhava ver, mas que não tinha aonde fazer isso.

Os dois eram chamados para entrevistas, queriam saber como era fazer o vídeo como tinha sido.

Ele com sua voz particular, contou que ela o tinha ensinado a se preparar para o filme que tinha feito, lamentava as cenas cortadas, porque completo era mais bonito.

Comentou que Barry tinha ensaiado com ele em casa, tinha feito principalmente a cena do banheiro.  Este conseguiu autorização, para publicar esse ensaio.

Mas fez uma coisa, refez fotografias que tinha feito ao mesmo tempo, vinham como num pequeno livro, um cd com o vídeo, além das fotos como post cards soltos.   Era um sucesso de venda, agora ganhava dinheiro suficiente para ter uma casa maior, mas o que fez foi comprar o rancho do amigo do Barry, ali o cavalo surdo era o rei.

Fez outra série de fotos como se fosse um cowboy que vai fazendo um stripper.

Não podiam classificar como ator pornô, pois não fazia cenas de sexo, mas sim eróticas.

Foi ficando conhecido, Barry voltou a crista da onda, porque existiam muitas chamadas para fazer filmes, mas tinha encontrado seu lugar no que queria fazer.  Dizia brincando tiveste que aparecer em minha vida, para saber o que queria fazer.

Escreveu um texto sobre a dualidade do sexo, baseado num texto de um dos escritores Beat, fizeram um vídeo imenso, ele tinha visto o trabalho de um ator de origem índio, com seus cabelos lisos imensos, eram ele, Sarah, Toni, o filmaram no seu pequeno rancho, no meio dos cavalos, ela a princípio tinha medo, mas a ensinou a se comportar com eles.

O final fizeram uma repetição, da cena da mulher o vendo tomar banho num lago, ele ao mesmo tempo se oferecia para ela, como para ele.  Não havia sexo, simplesmente insinuavam.

O vídeo ganhou um prêmio.

Barry resolveu fazer seu primeiro longa-metragem como diretor, o queria como protagonista, foi um trabalho lento, misturava sua história, com a famosa viagem de Jack Kerouac, no seu velho carro, se lembrou de um dia na viagem em que tinha escutado uma música no posto de gasolina, em que foi cantando pela primeira vez na vida uma música que não conhecia.

Quando a fez para o Barry, ele achou ótimo, então nessa cena, é como se tivesse estacionado o carro, numa lateral da estrada, ele começa a imaginar a música, que fala de sexo, entre homens, ele canta a música imaginando o prazer que seria fazer sexo com o homem amado.  Algumas partes estava em close, ele imaginando o Barry a primeira vez que fizeram sexo, que primeiro beijou seu corpo inteiro, depois com a ponta da língua ia passando pelos lugares eróticos, no meio da filmagem teve um orgasmo.  Barry só filmava a cara dele, sentido isso.

Depois lhe diria que tinha ficado com ciúmes do homem que ele estava imaginando.

Não podes ter ciúmes, na cama essa noite, contou o que tinha imaginado, fez com o Barry o que ele tinha feito com ele no primeiro dia, o levando a loucura.  Os dois na cama, tinham um sexo impressionante.

Barry tinha um certo ciúmes dele com Toni, pois ele via este olhar Bruce como que querendo alguma coisa.  No filme que tinham feito juntos, via que estava excitado basicamente todo o tempo.    Chegou a dizer ao Barry, morro de inveja de ti, pois ele só pensa estar contigo.

Era uma verdade, já levavam bastante anos juntos, ele não podia imaginar fazendo sexo com outra pessoa.

Agora quando tinham tempo iam para o rancho, agora existiam dois homens lá cuidado dos cavalos, mas quando ele chegava, Storm, seu cavalo surdo, vinha ficar perto dele.

O último filme deles, fez muito sucesso, como sempre era todo em branco e negro, ele contracenava com um ator negro, que Barry tinha descoberto, entre eles rolava uma sensualidade impressionante, as cenas de sexo eram sugeridas, Mark Oliver, disse que tinha aprendido como devia ser o sexo entre duas pessoas.  Passou em vários festivais de cinema.

Ele foi aprendendo com o Barry todas as técnicas de como fazer um filme.

Em seguida escreveu um roteiro, bem como imaginou tudo, a partir de um livro que tinha lido, sobre raças, os atores eram o Mark Oliver com o Tony, era como dois cowboys, que levam um rebanho de cavalos, se descobrem, ele num certo ponto foi mais explicito que o Barry.

Fez uma cena dos dois se explorando, no meio do deserto, jogados em cima de uma manta, explicou aos dois como queria a cena, fez antes vários exercícios com eles, para que descobrisse o ponto fraco do outro.   Gravou a cena, durante duas horas, quando estavam se penetrando, ele apagou a câmera, dos deixou sozinhos fazendo sexo.  Só acendeu a câmera de novo, quando chegavam ao orgasmo, mas filmou somente a cara dos dois, um em cima do outro, com a cara quase encostada.

Barry era como seu assistente.  Ria muito, conseguiste que alguém fizesse o que fazes melhor.

Menos mal que tenho um aluno privilegiado.   A crítica foi super bem, ele só sugeria o que tinha acontecido de verdade, mas não aparecia, o filme acabava justamente nessa cena, com os dois com a boca quase se encostando num beijo, o prazer que sentia.

Mark Oliver, que se dizia heterossexual, na verdade tinha se deixado penetrar pelo Toni.  Ria muito com isso.  Durante um tempo mantiveram para sossego do Barry, um relacionamento.

Estavam juntos já a mais de 10 anos, quando Barry morreu dormindo, tinha feito sexo antes de dormir, ele comentou com ele, que devia ir ao médico, pois o via muito cansado.

Não despertou no dia seguinte.  Foi um choque, ele nunca tinha visto a morte de tão perto. De uma maneira espontânea, ficou sentado ao lado dele, fazendo carinho como ele gostava na sua cabeça, só depois de horas chamou um médico para fazer o atestado de óbito.

Barry lhe deixou tudo que tinha, inclusive as licenças de sua obra.  Ele nunca mais deixaria de falar delas, muita gente pensava que se aproveitava para promocionar.  Quando lhe perguntavam em alguma entrevista, ele dizia que o que sabia tinha aprendido com ele, me ensinou a compartilhar.    Sabia por que se falava muito, que Barry durante os anos que esteve na cima como fotografo de cinema, guardava a sete chaves a maneira como filmava ou dirigia a luz, as ideias.

Mas com ele, tinha sido generoso. A pedido de uma revista, escreveu um artigo, falando sobre isso, como o tinha ido conhecer, por curiosidade se ainda era vivo.  Como olhou a mão dele, as ideias compartidas, inclusive comentava que ele tinha sido o único homem de sua vida, no momento não sabia que chegaria a sentir o que tinha com ele com outra pessoa.

Quem sempre estava junto com ele agora o escutando, compartindo ideias era Sarah, ela tinha conhecido os dois, compartilhado muita coisa juntos.

Seu primeiro vídeo em seguida, foi em cima de um filme japonês, em que via uma Mama Sama, explicando a uma discipula como devia se comportar, se maquilar, não escondia a influência, mas o filme era erótico, Sarah ensinando duas jovens, uma branca outra negra, como fazer um stripper, como seduzir um homem.

Sarah, já tinha nessa época quase 70 anos, pois era da mesma idade do Barry, em algumas cenas, a crítica dizia que ela superava as alunas que eram jovens.

Agora ele assinava sozinho a direção, em casa as vezes se pegava, se virando para comentar com o Barry uma ideia.

Fez um filme que muitos diziam que era imperdível, era como uma homenagem ao Barry, fazia o seu papel, ele era como o Barry.   O mesmo começava como ele tinha feito na hora da morte do Barry, o tempo que o teve só para ele, antes de chamar o médico, a ambulância, o que tinha sentido.  Depois como acontecia, ele estando sentado nu na varanda, sentia a chegada do Barry para estar com ele, como o fantasma o levava para a cama.

Fez um trabalho impressionante com o Mark, tens que sentir que eu estou te tocando, mas o público nunca verá, pois é um fantasma.   Por duas vezes teve que parar a filmagem, porque Mark começava a chorar.  No filme sugeria que ele se masturbava pensando no outro, nesse momento, Sarah filmava para ele, estava nu em cima do Mark, um olhando para o outro, sentindo um orgasmo sem penetrações.

Quando acabou a filmagem da cena, Mark realmente tinha ejaculado.

Nunca mais me peça para fazer isso, mais um pouco me descontrolo, ia te penetrar.

Numa das noites que ele ficava ali com ele, comentou que o relacionamento dele com o Toni tinha ido a merda por isso, a meses atrás quando fazíamos sexo, em vez de dizer o nome dele, falei o teu.  Ficou furioso, mas era uma verdade, queria estar contigo.

Quando estiveram juntos na cama, ele saberia imediatamente, que não tinha nada a ver, tampouco comparar com o que tinha antes, tampouco esperava.

Mark era ardente, queria possuir de maneira completa, as vezes era afoito, o foi colocando à sua maneira de sentir o sexo.  Ele dizia assim me levas a loucura.

Estiveram juntos muito tempo, uma dia desconfiou que ele estava tomando drogas, foi honesto, lhe perguntou por quê?

Era complicado, ele no começo não era gay, era um homem hetero, de repente com ele aprendeu a sentir outra coisa, as vezes se perdia nisso, sem saber bem aonde se situar, saia para procurar sexo com mulheres, mas já não se encontrava.

As vezes sinto que como me tiveste vampirizado, só consigo sentir prazer se me penetras ou te penetro.  O resto deixa de existir. 

Não podia esquecer que ele vinha de um mundo totalmente diferente, com o começo de sua vida como um marginal.  Agora tinha um nome, era conhecido, as fotos que tinha feito dele para um livro, já eram famosas, os homens queria fazer sexo com ele, bem como as mulheres.  Isso o confundia.  Cada vez mais era dependente dele.

Cada vez que alguém se insinuava para ele, corria para casa para estar com Bruce, pedir para fazer sexo, não queria ceder à tentação de fazer sexo com outra pessoa.  Como sabia que se fizesse, iria se perder.  

Sua vida se cortou no melhor momento de sua carreira, tinha acabado de fazer um filme como tinha sonhado, para um grande estúdio de Hollywood, mas morreu num acidente de carro, voltando para casa.  Vinha como um louco, pois um dos atores famosos, tinha tentado fazer sexo com ele.   Corria para sua proteção, se desconcentrou perdeu o controle do carro.  Ficou quase duas semanas entre a vida e a morte, com Bruce ao seu lado.

Ele parou para analisar tudo isso, talvez ele por todo seu percurso, Mark vinha de uma família complicada, metida nas drogas, a princípio tinha se prostituido com mulheres, por que tinha um corpo realmente fantástico, mas quando descobriu filmado com eles o outro lado, ficou confuso, mas se apaixonou como um louco por Bruce, no hospital, lhe dizia uma vez me perguntaste se eu estava usando drogas, eu não precisava, eras minha droga, queria estar as 24 do dia agarrado a ti, fazendo um sexo interminável.

Morreu agarrando forte sua mão, Bruce tinha chegado a sentir dor, pela força dele, mas não soltou sua mão, suas últimas palavras impressionaram, disse que Barry estava ali, que agora iria com ele fazer um filme deus sabe aonde.

As enfermeiras queriam lhe tampar, mas ele pediu para ficar sozinho com ele, fez a sua despedida, deitado ao seu lado na cama, acariciando o rosto que tinha aprendido a amar. Agora sabia que tinha amado o Barry, como tinha amado esses anos o Mark, era duas pessoas completamente diferente.

Barry era seguro de si, sabia quem era, Mark ao contrário, com todo seu corpo forte, bem como uma vivência diferente, era frágil, agora o sabia, pela conversa dos últimos dias.  Pois estava sempre lhe dizendo, aprendi contigo a ser forte, mas no fundo sempre fui como uma criança que precisa da proteção que não tive na minha infância.

Quando o filme estreou, claro, se via que tinha aprendido a ser um personagem.  Ganhou dois prêmios póstumos.   Mas era mais famoso com os filmes que tinha feito com ele, bem com o Barry.

Toni apareceu para o enterro, mas foi honesto, eu sempre te quis, mas tinhas ao Barry, depois quando te vi escolhendo o Mark, morri de ciúmes, me afastei de tudo, voltei para aonde estava a minha família, mas claro lá tampouco encaixei, sabiam o que eu tinha feito por aqui.  Eu era uma pessoa que os incomodava na sua masculinidade.

Ele pegou essa ideia, fez um roteiro sobre o assunto, uma pessoa de uma etnia, que se afasta, vai pelo mundo, quando volta, não encaixa no mundo antigo.

Toni era o ator principal, agora era suficientemente conhecido dos studios para poder fazer esse tipo de filme que não encaixava dentro dos padrões tido como normais pelas grandes produtoras.

O filme fez muito sucesso, Toni voltou a ser conhecido, recebendo convites para outros filmes, mas sempre o consultava sobre o que devia fazer.

Pela primeira vez tinha medo de ceder, fazer sexo com ele, acreditava que ele tinha imaginado ao logo dos anos, terem um relacionamento, se não funcionasse podia acabar com a amizade deles, estava sempre ali, na sua casa, para que ele viesse lhe falar.

Estava escrevendo como uma biografia de sua vida, desde que tinha saído de casa, da amiga que o tinha ajudado a ter uma cabeça inteira em termos de aprender dos livros.  Ainda seguia como sempre indo à livraria, para encontrar livros novos. 

As vezes sentia que buscava desesperadamente um escritor que despertasse nele esse sentimento que tinha ao ler os que tinha lido com atraso, de gerações.

Um produtor lhe mandou o roteiro de um filme, dizia que encaixava com ele, sua maneira de pensar, era de um escritor jovem.

Quando leu o roteiro, gostou, mas via que existiam personagens demais, que isso fazia que o sentido da história se perdesse.

Perguntou se podia marcar uma entrevista com a pessoa.

Lhe avisaram que a pessoa o iria lhe procurar.  Deixou de lado o roteiro, seguiu escrevendo, mas claro a pessoa nunca apareceu.   Fez o filme com outro diretor, aconteceu o que ele pensava, que o filme se perdia com tantos personagens.

Quando o conheceu, sem querer sentiu como se estivesse vendo no espelho.  Mas ele de uma determinada maneira, tinha aprendido com humildade, tudo que podia com o Barry, mesmo depois quando começou a fazer os seus filmes, ele estava ali para compartilhar.

Finalmente o rapaz veio falar com ele, quando me comentaram o que tinhas dito, não podia em minha cabeça aceitar que colocassem defeito no que tinha criado.

Conversou longamente com ele, tinha feito uma serie de anotações ao longo do roteiro.

No filme o personagem que tinha menos desenvolvimento, era justamente o personagem mais forte, que no fundo era o próprio escritor.

Começou a reescrever um texto só com esse personagem, um dia Toni chegou para conversar com ele, os viu juntos, ficou furioso, disse, estou te esperando a muito tempo, vejo que estou de fora.

Por mais que tentasse argumentar com ele, que não queria perder sua amizade que era importante para ele, não entendeu.   Tempos depois soube que estava internado para uma desintoxicação de drogas.  Foi visita-lo, este disse que não queria nenhuma visita dele.

Ao rapaz com quem estava reescrevendo o texto, sentiu muito ter interferido sem querer no relacionamento deles.

Contou a história, quando me conheceu, eu vivia com o Barry, não sou uma pessoa de aventuras, ao contrário do que dizem de mim, sou só de uma pessoa, depois estive com o Mark, que ao contrário do Barry era inseguro.

Então quando Toni reapareceu, tinha me esperado todo esse tempo, fui franco, precisava de um tempo, sua amizade para mim era importante, mas ele queria mais, isso era impossível em minha cabeça, pois não sentia o mesmo que ele, tampouco queria alimentar isso, mas ele sim alimentou.

Quando te viu comigo, pensou que tinha perdido outra vez.  Ninguém é culpado de nada, cada um estava na verdade defendendo seu terreno.

Max O ‘Smith, entendia, talvez quando ouvi falar de ti para dirigir o filme, já tinha visto todos seus trabalhos na pinacoteca.  Me deu medo, pensei esse tio vai me descobrir, vai saber que personagem sou eu, por isso fiquei com medo.

Como sabia que esse personagem sou eu no fundo?

Porque o pouco que aparece, ele é forte, está tendo coragem de se colocar para fora, isso hoje em dia deveria ser mais fácil com todos os avances que podes imaginar.

Mas veja bem, tem seu erotismo, pois o colocas de uma maneira que parece um voyeur, ele observa os outros, mas não se compromete.

Começaram os dois a desenvolverem o personagem, Max depois de um tempo já quando tinham mais intimidade, contou que uma vez o filme que ele aparecia, se desnudando, fazendo o stripper, me masturbei muito, imaginando que te mostrava para mim.

Como o Mark, tenho medo de me colocar para fora, depois não poder controlar.

Essas coisas Max, controlar é uma idiotice, eu sempre fui sempre de uma pessoa só, imagina, apesar de falarem horrores de mim, só tive realmente dois homens na minha vida, estou com 46 anos, o que se fossemos colocar nos paramentos de hoje, eu seria uma vergonha nacional, os mais jovens, hoje já fizeram sexo com muitos outros, mas me pergunto será que se entregaram realmente a cada um, o que sentiram, analise por ai, verás que dentro de algum tempo estarão vazios, porque no fundo é a solidão.

Cimentei minha relação com Harry, com a cabeça, isso era o principal, nos entendíamos, podíamos discutir sem medo textos, coisas que ele escrevia, ele sabia que não ia dizer que era bonito só para agradar, eu queria entender o que ele fazia.    Aprendi fotografia analógica, que sigo usando até hoje, a dominar uma câmera de vídeo, bem como das poderosas, que ninguém usa mais, enfim, foi meu mestre, meu amigo, amante.  Sou no fundo o fruto da nossa relação.

Quando finalmente foram para a cama, foi porque Max pediu, lhe disse rindo, estou cansado de chegar em casa me masturbar pensando em ti.

O ensinou a fazer sexo como ele gostava, ele ao final dizia, agora entendo.  Quando se deram conta, já tinha se passado mais de dez anos, com vários filmes, na bagagem.  A maioria dos roteiros faziam juntos, a partir da ideia de um ou de outro.

Ganharam muitos prêmios pelos festivais pelo mundo, era um filme totalmente diferente do que tinha feito antes, mas eram sérios, de maneira nenhuma vulgares.

Um dia um marinheiro, se aproximou dos dois na praia, era um negro de 1,90 de altura, contou que tinha visto em vídeos os filmes deles.

Queria contar minha história para vocês.

Ficaram escutando, ele voltou várias vezes, contou que fazia um tratamento psicológico, por uma série de motivos, mais seu psicólogo disse que ele tinha que colocar esse primeiro para fora.    Sua vida tinha começado cedo, sua mãe, tinha um amante, trabalhava, esse era distribuidor de drogas, mas nunca permitiu que ele se envolvesse nisso.  As vezes chegava em casa, tirava toda a roupa ia tomar banho, quando ele tinha uns 13 anos, notou que ele se excitava com isso.  Me levou para a cama, dizendo que ia me ensinar a fazer sexo, virei sua puta, minha mãe levou anos para suspeitar.

Como chegava antes dela em casa, sempre fazia sexo comigo, me acostumei, uma pessoa que nunca teve carinho na vida, confundi isso com carinho, amor.   Mas no fundo para ele era somente sexo.

Um dia ela chegou antes, me escutou gemendo de prazer com ele.  Ficou uma fera, ele se desculpou dizendo que o culpado era eu.

Me colocaram para fora de casa, a princípio, aguentei, dormindo na praia, mas depois descobri que ele tinha contado para todos seus amigos, alguns me procuravam atrás de sexo.  Só um me ajudou, me levou até a frente de um desses lugares, em que entras para o exército, me mandou a vida.  

Assim foi com entrei para a marinha, desenvolvi meu corpo a força, de menino frágil virei o que eu sou, mas não estava mentalmente preparado para a guerra, tudo que sabia de violência, era os vídeos jogos.   Mas a realidade nua e crua, quando bate na tua cara, é muito difícil superar.

Nunca me droguei como fazia meus companheiros para aguentar, até que fui ferido o ano passado, finalmente me devolveram para cá.   Mas claro, nesse meio tempo, passei nas mãos de muitos companheiros, isso desequilibrou totalmente minha cabeça.

Nem sei quem sou, trouxe o que venho escrevendo, dessa primeira parte da minha vida, o psicólogo diz que daria um filme.

Se tornou como o filho deles, lhe deram um quarto para dormir, começaram a trabalhar com ele o texto, até terem um roteiro realmente de cinema, ia até seu descobrimento do sexo com esse homem, até a hora que entra para o exército.

O filme foi um sucesso, concorreu ao Oscar, o rapaz mudou de nome, pois temia ser reconhecido pelos companheiros da marinha.

Mas depois com os anos, se relaxou, começou a fazer surf com o pessoal da praia, fez amigos, até se apaixonou várias vezes, com muita cautela, se reconstruiu outra vez.

Nunca quis fazer uma segunda parte da história, dizia que era ainda muito doloroso falar nisso.

Os dois tinham agora um filho adulto, os ajudava em tudo, desde montar um cenário, inclusive ao momento que escreviam algo, ele acompanhava.

Muitos pensavam que fazia sexo os três, mas isso nem pensar.

Max dizia que finalmente sabia o que ele queria dizer com alguns de seus filmes, precisei despertar uma manhã na tua cama, me perguntando se isso que tive durante a noite foi realmente realidade.

O mesmo se passou comigo, no dia seguinte que fiz pela primeira vez sexo com Barry, ele me tornou o homem que sou.