lunes, 11 de abril de 2022

LALO TITUS

 

                                        

 

Esse meu nome me deu muitos problemas ao longo da vida, tinha tudo a ver com meu pai, ele foi pai muito tarde, era policial, mas só depois que se aposentou precocemente por um tiro que levou, que lhe impediu de ter uma mobilidade a 100 %, se casou, sentou a cabeça como diziam suas irmãs, mas na época já tinha quase cinquenta anos, quando nasci.

Era uma apaixonado de uma série da época Mission Impossible, mas amava a música, que era de Lalo Schifrin, como descobriu através desta, Night in Tunísia, foi quando começou a gostar do Jazz.

Então quando nasci, me deu esse nome, bem como Titus porque gostava de Titus Andronicus, de Shakespeare, foi ao teatro para ver essa peça, quando era namorado de minha mãe, ela era louca por teatro, o arrastou, ele foi pensando em dormir, mas adorou a trama, leu depois tudo que tinha escrito Shakespeare.

Evidentemente me obrigou a ler todos, diziam que eram como novelas policiais, se aprendes a analisar cada personagem, o trazes para a atualidade, tens um caso de polícia.

Todos os casos de polícia estão baseados em alguma tragedia alheia a nossa vontade, se não tomamos cuidado a nossa própria é.

Quando entrei para a academia de polícia sofri muito bullying por causa disso, diziam que era um nome estranho, como a minha figura, imaginem um mulato, como meu pai, casado com uma porto riquenha, de olhos claros, para alguns eu podia ser um mulato sarará, mas tinha cabelos lisos castanhos, bem como claro os olhos dela.

Ele me adorava, foi meu pai, meu avô ao mesmo tempo, minha mãe reclamava muito disso, ela dizia não, mas qual ele já estava me satisfazendo dentro das possibilidades.   Se não podia, me explicava detalhadamente por que não podia.  

Usava tantos argumentos que eu acabava aceitando, segundo ela, era um jogo feroz de vontades contrárias uma a outra.  Mas ele sempre ganhava.

Isso era quase um exercício me dizia a ele de argumentos.  Quando interrogas a um criminoso ou culpado de algo, tens que observar bem a pessoa, argumentar de tal maneira que ela acabe confessando.   Nada de ir pela violência.

Fui aprendendo desde criança isso, por exemplo, analisávamos Hamlet ou Macbeth, me fazia enxergar cada nuance dos personagens, minha mãe, ficava sentada ao lado em sua poltrona preferida, fazendo tricô, crochê ou mesmo bordando, ou remendando umas calças velhas minhas, pois estava sempre raladas nos joelhos.

Podíamos discutir horas, uma página do livro, ele sabia o texto todo, argumentava comigo, não podes ir a cegas num interrogatório, ou senão uma coisa muito importante.

Embora eu soubesse da resposta, sabia que ele gostava de falar nisso, “intuição, observação”.

Tens que observar o comportamento do sujeito, se ele for violento, ele não controla as vezes seu próprio corpo, observe como imaginas que ele cometeu o crime, se estava controlado ou descontrolado.   Mesmo as pessoas frias, tem comportamentos que não percebem.

Isso para minha carreira serviu muito, mal sai da academia com as notas mais altas, fui trabalhar numa delegacia conflitiva, era calado, observava os comportamentos dos companheiros, os que falavam muito, dos que arrotavam que eram machos alfas, como se comportavam nos interrogatórios, muito colocavam tudo a perder nesse momento.

Quanto tocou a mim o primeiro interrogatório, era um caso complicado, um sargento quis me fuder, pois eu era para ele um tonto, pois não falava muito.

Simplesmente entrei na sala, já tinha visto o sujeito, o seu comportamento, me sentei em frente a ele, fiquei quieto, não disse uma palavra, até que ele ficou nervoso com isso, eu simplesmente o olhava nos olhos, quando ficou completamente desconcertado, pois esperava que eu lhe fizesse as acusações, sem querer, querendo, fui colocando na frente dele as fotos do crime que tinha acabado de cometer.

Eu seguia quieto, esperando o momento para atacar, quando escutou minha voz, que pensou agora vai gritar, falei calmamente com ele, o que tinha feito a garota para que ele fizesse isso.

Estranhou, ficou me olhando, olha a cara de anjo que a menina tem, ele ficou furioso, soltou tudo, que a tinha matado justamente por isso, por ter essa cara de menina boa, mas quando ele se aproximou dela, se assustou, me disse que via na minha cara sexo, asco, cuspiu nos meus olhos, deixei de ver qualquer coisa, quando a vi a tinha matado.

Nunca senti tanto prazer em minha vida como acabar com essa filha da puta que pensava que era uma santa, a penetrei mil vezes depois de morta, para ela saber quem mandava.

Todo mundo imaginava que em seguida ele pediria um advogado, o caso não tinha muita provas conclusivas, ele acabou dando o detalhe de tudo, como a tinha obrigado a subir no seu carro a força, aonde a tinha levado, como a tinha enterrado depois.

Quando sai da sala, todo mundo me elogiou, o puto sargento soltou, sorte de principiante.

Com o tempo todos me pediam ajudas nos interrogatórios.

Um daqueles famosos, que te perguntam primeiro “sabe quem sou”, eu desarmava, dizendo não tenho a menor ideia, deixava o cara dizer tudo que queria, ficava escutando em silencio, ao final lhe perguntava, isso tem alguma coisa a ver por que prenderam o senhor?

Como, ficavam intrigado, pois eu não acusava diretamente.

Veja bem soltava, lhe prenderam em fragrante, mas o senhor está dizendo que é uma pessoa importante, me explique o que estava fazendo nesse lugar, que não condiz com sua classe de pessoa, ia enrolando usando o argumento que ele dizia que era importante.

Até que tentava ele me convencer que tinha cometido o assassinato ou o que fosse.

Segundo meu chefe o que deixava as pessoas desarmadas, era que minha cara ficava imutável, nenhum musculo se mexia.

Isso foi um treinamento com meu pai, ele tinha que me fazer emocionar com alguma coisa, me provocava ao máximo, eu tinha que conseguir não mostrar se sentia raiva, ódio, tinha que ter uma cara sem movimento.

Depois de anos treinando com ele consegui.

Quando ele morreu, as pessoas me esperavam ver destroçado, ele tinha me dito dias antes no hospital, nunca mostre a estas pessoas o que sempre sentes por mim, nem o que eu sinto por ti, pois querem te ver arrasado para te consolar, pense bem meu filho, não podemos ser fracos, somos mais fortes que estas emoções.           Depois em particular, chore tudo o que queiras, mas no momento, não, de essa vantagem a ninguém.

No dia que morreu eu cheguei ao hospital, tinha sido promovido, fui correndo para contar para ele, já estava com quase 90 anos, nunca soube sua idade verdadeira.

Foi um choque tremendo, respirei fundo, em seguida fui tratar dos seus últimos desejos, queria ser enterrado ao lado da minha mãe, que não houvesse missas, nada disso, ele odiava a igreja, os padres, todas essas coisas.

Queria que somente fossem avisados seus poucos amigos, que ainda tivessem vivos, que o velório fosse muito rápido, pois tinha pressa de ir-se encontrar com minha mãe.  Fiz tudo como ele mandou, embora minhas tias que era carolas, ficaram furiosas, mostrei o papel de suas vontades.  Uma delas se atreveu a trazer um padre, o coloquei de porta para fora, como ele dizia.

Apesar disso, a polícia lhe rendeu uma homenagem, foi interessante, mas foi tudo no cemitério, nada de igrejas.

Quando voltei para casa, me sentei no salão, se alguém entrasse, iria dizer, coitado ficou louco, lhe contei mentalmente que tinha sido promovido.  Como ele iria reagir, que me abraçaria como um louco, me diria, eu te ensinei melhor que nessa porra de academia de polícia, não deixava de ser uma verdade.

Fui para um delegacia, de Hollywood, fui subindo, até a chegar a ser capitão, a inveja era muita, quando me chamaram para ser chefe de polícia, eu na verdade estava de saco cheio de tudo, como ele, estava seco.   Mal tinha uma vida particular, não podia ter relacionamentos, ele me dizia sempre não tenhas filhos, pois terás medo de te arriscar, por isso só te tive depois.

Quando eu tinha uns 15 anos, me apaixonei por um colega de turma, contei para ele, pois se minha mãe soubesse, iria logo dizer, aonde foi que eu errei.

Estávamos sentados no degraus em frente de casa, ele colocou a mão nos meus joelhos, me falou tudo que conhecia sobre isso, que eu tivesse certeza de que o outro também me queria, pois eu poderia ter entendido errado os sinais.   Analise como te ensinei, não te arrisque que façam de tua vida um inferno, sem ter certeza de que a outra pessoa te quer.

Não escutei nenhuma recriminação, nada como podia esperar, no final, me abraçou, me disse que me queria de qualquer maneira, que me amava.

Realmente fui observar os sinais, achei estranho pois o fulano, me olhava, lançava sinais, mas fiquei quieto, depois escutei ele falando com seus companheiros, creio que vocês estão errados ele não é gay, pois não entendeu os sinais de que vocês me disseram para fazer.

Queria comprovar se eu era gay ou não, pois era um dos únicos que não tinha namorada.

Anos depois o encontrei numa discoteca gay, aos beijos com um desses garotos de programas, lhe disse para ter cuidado, pois eram tipos de pessoas que podia ser perigosas.

Me olhou de cima a baixo, como dizendo, quem é você para me falar sobre isso.

Dias depois fui visita-lo num hospital, tinham lhe dado uma surra tremenda, além de roubarem tudo que tinha de valor na sua casa.

Ficamos amigos, ele sempre depois disso confiou em mim.  Lhe disse para não viver escondido que isso sempre atrairia pessoas como as que lhe tinha causado problemas.

Seja tu mesmo, não precisas levantar bandeiras, tampouco sair gritando aos 4 ventos que eres gay, a tua vida é só tua.

Eu não gostava dos ambientes de nenhuma classe, não gostava de guetos, nada do gênero, quando me perguntavam alguma coisa da minha vida pessoal, eu olhava a pessoa nos olhos, lhe respondia com outra pergunta, “eu pergunto sobre tua vida”.

Nunca mais me enchiam o saco. 

Tive um companheiro nessa delegacia, durante quase oito anos, um dia infelizmente levou um tiro que o deixou atirado em cima de uma cama para sempre como um vegetal, sua mulher, que era muito bonita, a princípio fez um drama impressionante, até ver a pensão que lhe tocava, quando ele se recuperou um pouco, o deixou numa dessas casas de repouso, que obrigou a polícia pagar, mas nunca ia até lá, quem ia era eu, pelo menos a cada 15 dias, as vezes me sentava conversava com ele, como fazíamos no carro, debatendo alguma coisa que tivéssemos investigando, ele tinha uma maneira de olhar o problema, eu outro, mas eu fazia um exercício, juntava sua opinião com a minha, encontrava um meio termo nisso tudo.

Sentia falta disso, o meu novo companheiro era um idiota renomado.  Um dia me enfureci pois estragou todo processo que estávamos levando, por querer parecer mais importante do que era.   Falei com o chefe, prefiro ir sozinho nisso, ele permitiu.

Um dia cheguei na clínica, ele tinha morrido durante a noite, sua viúva já estava vivendo com outro, mas sem casar-se para não perder a pensão.

Fui ao enterro porque tinha a pantomina da polícia, a salva de tiros, essas merdas todas.  Mas sai dali rapidamente com asco.

Dias depois levei um tiro, numa emergência que tinha ido atender com outros companheiros, me vi no meio de um fogo cruzado, só pude me deitar no chão, esperar que tudo acabasse, mas já era tarde, tinha levado um tiro, com a adrenalina, nem tinha sentido.

Tinham me destroçado o ombro inteiro, teriam que colocar uma prótese, já não poderia ser inspetor, me queriam de chefe em algum lugar, dando ordens, ou que eu me aposentasse.

Preferi a segunda, pois já estava farto.

Quando fiquei bom, reuni minhas poucas coisas na delegacia, coloquei numa caixa todas as cadernetas que usava para anotar os casos, para depois o passar para o computador.

Um dos motivos que todos riam de mim, era que eu ainda vivia na casa que tinha sido dos meus pais a vida inteira, não tinha sequer mudado os moveis de lugar, usava o mesmo quarto que tinha usado desde garoto.

Uma imobiliária, me ofereceu uma fortuna, pois, precisavam da casa, como tinha comprado as outras dos vizinhos, queria construir um enorme edifício residencial ali.

Nada mais era como no meu tempo de garoto, nem os amigos antigos, viviam mais por lá. Cheguei à conclusão que era hora de enfrentar uma vida nova.   Coloquei todo esse dinheiro num banco, bem como o que tinha recebido da polícia, teria a garantia de meu salário sempre.

Uma vez tinha ido atender junto com um grupo um caso em Venice Beach, me apaixonei pelas casas do canal.

Fui até lá dar uma olhada, por um acaso, vagabundeando por ali, vi justamente o momento que uma senhora, colocava uma placa de aluga-se numa casa.

Uau, soltou ela, mais rápido impossível, me disse o valor, me mostrou a casa toda, inclusive os problemas que tinha, tinha herdado de um irmão que tinha morrido na guerra do Golfo, os bens dele estavam enrolados num processo, pois tínhamos que dividir entre todos a herança de meus pais, a mim acabou me tocando essa casa.

Ficamos amigos rapidamente, Esther logo quando escutou meu nome, soltou, Jesus, não me diga que teus pais de deram esse nome por causa do Lalo Schifrin?

Eu balancei a cabeça concordando, falei de Shakespeare, ela riu muito, sempre fui muito fraca em dramaturgia.

Aluguei a casa, o duro foi desmontar a casa dos meus pais, acabei me enfurecendo, chamei uma empresa dessas que recolhem para a caridade, só levei minha roupa, nada mais.

Acabei comprando tudo novo, o que mais gostei da casa, era que tinha uma varanda, aonde podia me sentar, posteriormente, a fechei, para poder trabalhar, como ficava nos fundos era perfeita para isso.

Ia todos os dias a praia, logo tinha cor, comecei a conhecer o pessoal da praia, quando me chamava para jogar vôlei, ou basquete, tinha a desculpa que o ombro não me permitia, mas aprendi a fazer surf, pois via o pessoal fazendo, achava o máximo.

Era meu relax, me levantava cedo como sempre tinha feito na vida, ia fazer surf, com sol, chuva, tempo feio, frio, estava uma hora na água, estava pronto para o meu dia.

Primeiro como uma distração, comecei a analisar o meu primeiro caso, o do que o sujeito não esperava que eu ficasse quieto.

Analisei como tínhamos chegado até ele, inventei um personagem, pois na verdade se tratava de um caso, em que o bandido ainda estava vivo.  Consegui uma licença, fui falar com ele na cadeia.

A pose de abusador que tinha antes, tinha trocado, agora abusavam dele, fiquei num primeiro momento com pena.  Me contou sua vida antes de tudo que tinha acontecido, sempre tinha se sentido renegado, nem seus pais pareciam gostar dele, só na época do julgamento, tinha descoberto depois que o condenaram, que ele era na verdade filho de uma parente.

Nunca ninguém me quis, por isso quando as mulheres, as jovens se negavam a fazer sexo comigo, as matava, mas essa em particular, pela sua cara, seu jeito de anjo, de menina comportada, quando a abordei, vi que usava isso como uma desculpa para fazer o que queria, quando entrou no carro, embora eu a forçasse, ria, isso eu tinha visto no vídeo, mas não tinha explicação.   O primeiro que fiz foi lhe dar uma bofetada.

Virou uma fera, perdi a cabeça, o resto já sabes como foi.

Mas aqui dentro, imagine quando cheguei, carne fresca no pedaço, preso por ter abusado de uma ou mais garotas, virei pasto de todo mundo.

Agora, já não me querem, pois sempre chega carne fresca, comparto cela com um predicador que era pédofilo, esse diz que tem asco de mim.

Posso me oferecer para todo mundo, ninguém me quer, estou ficando velho, feio, quando saia daqui, se é que vou sair um dia, não saberei o que fazer da minha vida.

Contei que tinha saído da polícia, que não podia mais mover o braço com que atirava, que estava revendo meus casos, escrevendo uma história, queria saber se podia usar a dele, construiria um personagem em cima.

Assinou o papel me autorizando, mas me disse uma coisa que queria que eu incluise, queria que eu falasse também do que tinha acontecido com ele na prisão.   Vou escrever, te mandarei.

Realmente chegou, mas o tinham assassinado na prisão, o predicador o tinha assassinado por ser gay.

Como o que tinha escrito estava num envelope com meu nome, me mandaram.

Realmente usei, depois de ter o texto todo escrito, cheguei à conclusão que me faltava saber fazer melhor, descobri um curso de escritura na universidade, consegui me inscrever, fiz o curso, depois um seguinte, até me sentir capacitado para fazer bem.

Revisei o que tinha escrito inteiramente. Quando a primeira editora que tinha mandado aceitou me entrevistar, na semana seguinte me chamaram de mais duas, recebi o contrato de todas, fiquei confuso, o melhor foi procurar um advogado, para ler os mesmo, me dizer o que era melhor, me mostrou todas as letras pequenas.

A maioria queria o direito de vender o mesmo para fazer filmes, eu era um mero escritor os outros se lucravam.

Tinha mandado por mandar para uma grande em NYC, mas claro agora já tinha experiencia, fui até lá, nem conhecia a cidade. Aproveitei para passear, conhecer a mesma, fui a entrevista, com uma mulher que com os anos se tornou uma grande amiga, conselheira.

Antes de falar sequer em contrato, pegou o texto, com uma série de folhas marcadas.  Me disse olhando na cara, se queres podemos produzir como está, mas olhe estas sugestões que te faço.

Me deu o contrato para ler, disse, olhe tudo, depois marcamos de nos falarmos.

Fui para o hotel, tinham se acabado os passeios, li tudo que ela tinha anotado, tinha achado interessante que eu tinha escrito a máquina, me sugeriu escrever num laptop, que eu podia guardar melhor o que escrevia.

Fiz justamente todas as mudanças como tinha me pedido, li alguns detalhes para meu advogado do contrato que era diferente dos outros.   Mandei uma cópia para ele, me disse que só tinha que negociar a história do texto servir para filme.

Ela tinha sugerido, depois de saber da minha história, se vais continuar a escrever sobre todos esses casos, o mais interessante, crie um personagem, parecido contigo, construa uma história para ele.

Foi o que fiz, construí o personagem como uma homenagem ao meu pai, Franciskus Andronicus, que abreviei para Frank Andrus, ela gostou da ideia, revisamos juntos mais uma vez todas as modificações, negociei o contrato caso o cinema se interessasse.

Eles entraram em fase de produção, voltei para minha casa.  Estava já trabalhando o meu segundo texto, já conhecendo a cabeça dela, segui em frente com o personagem, a cada vez, aumentava um pouco a história de meu pai.

A maneira como ele pensava, depois como eu tinha usado para resolver os casos que trabalhei.

Agora quando levava o texto, me dizia rindo, já conheces um pouco a minha cabeça, minha maneira de pensar.

Saia para comer com ela, falávamos nesses momentos da vida em geral.

Eu tinha uma franca dificuldade de até ter uma pessoa para fazer sexo, pois num primeiro momento ficava observando como essa pessoa se comportava.

Um dia disse que queria que eu conhecesse uma pessoa, escreveu a história de sua vida, pensei em encontrar uma pessoa dramática.

Me dei de cara com um homem de quase 1,90 metro de altura, forte, cabelos compridos, tinha trabalhando muito tempo em shows noturnos, fazendo papel de travesti.

Quando resolveu por uma série de dúvidas em sua cabeça fazer uma operação de cambio se sexo, descobriu que por causa de uma série de problemas físico, tinha acabado agora de fazer uma tratamento contra um câncer de pulmão, já não poderia fazer nada.

Ficamos conversando, ela disse que tinha que voltar para o trabalho, ele me deu o texto para ler, anotou seu número de celular.  Lhe disse o hotel que estava hospedado.

A primeira coisa que fiz, foi ler o texto, o li de cabo a rabo, fazendo o que tinha aprendido, num caderno a parte, fui escrevendo todas as observações do que pensava.

Tinha é claro analisado a postura dele, que não era nada afeminada, não entendia certas coisas que falava, lhe chamei, marcamos de nos encontrar, ele vivia no Village.   Marcamos num bar, quando me viu chegar com tantas folhas de papel, riu.

Começamos a conversar, mas claro a cada instante éramos interrompidos, por alguém que vinha falar com ele.

 Lhe perguntei se não podíamos ir a outro lugar, pois ali era impossível conversar, na verdade morava relativamente perto, por isso as pessoas o conheciam.

Subimos a sua casa, eu esperava uma casa de bonecas, era tão limpa de tudo como a minha.

Ficamos falando horas, quando lhe disse que não entendia por que queria ser mulher.

Me contou sua história, que até ir para a escola, tinha pensado que era uma menina, pois sua mãe o vestia assim, ela queria uma filha, por isso o vestia de mulher.

Quando descobri que era um menino, que fisicamente era diferente de uma menina, meus problemas começaram, depois cresci muito, acabou que uma assistente social descobriu isso, pois eu quando escrevia, fazia os textos em feminino, uma professora a alertou.

Quando chegou em casa, deu com a minha mãe, me tratando de menina, foi uma merda total, eu fui tirado de casa, levado para outro lugar.

Descobri ao mesmo tempo que tinha sido adotado, então fui passando de casa de menores uma atrás de outro, o que me salvou, era que era grande, aprendi a me defender logo, pois senão teria sido vítima de abusos.   Mas claro tinha sempre o famoso bullying, pois eu era grande mais tinha um piru, o mais normal possível, com meu tamanho, sempre imaginam que o tenho imenso.

Mas ao mesmo tempo sempre me senti atraído por homens, me confundia, pois por causas de tantos romances que minha mãe me lia, esperava o príncipe encantado, me fudia direto, pois ninguém era.    Fiz uma experiencia de me apresentar num café concerto que tinha shows de travesti, me senti em casa, todos tinham essa coisa da mulher.

O mais interessante é que normalmente quase todos tinham piru grande, os homens queria isso deles, que fossem femininas, mas que ao final o possuíssem.

Comigo se decepcionavam, pois eu era como eles, normal, só era grande no tamanho, sabia conversar, tinha uma certa cultura que adquiri sozinho.   Mas claro não encaixava aí também.

Quando acabei a universidade, consegui um emprego numa biblioteca, pois era um mundo que me fascinava.

Nunca nenhum relacionamento meu deu certo, um dia um sujeito que acabou virando um quase amigo, pois desapareceu, me disse que eu errava ao final do primeiro encontro imaginar que estava apaixonado, que o romance entre os dois ia ser eterno.

Apertei sua mão, lhe dando força, olhe pelo que li do texto, acho que devias começar a partir de tua infância, se queres contar como chegaste aonde estas agora, tens que começar desse ponto, aonde te confundiram.

Me agradeceu muito, iria escrever novamente, eu tinha que ir embora, num rompante, lhe perguntei por que não vinha passar uns dias comigo, assim ele ia escrevendo, iriamos falando sobre o mesmo.

Ele aceitou, se encantou como nossas casas na verdade se pareciam.

Um dia na praia, notei que tinha ciúmes, como alguns se aproximavam dele, pelo seu físico, ele no fundo era muito atrativo.

Quando comentei com ele a respeito, riu, é porque não percebes como te olham, alguns te devoram com os olhos.

Sem querer um dia fizemos sexo, foi fantástico, nunca tinha me sentido a vontade, com ele era diferente, fomos procurando os pontos aonde o outro sentia maior prazer, encaixamos.

Eu tampouco tinha um piru fora do normal. Rimos com isso.

Todos os dias, um lia o que o outro tinha escrito, ele conhecia meu primeiro livro, contei que o personagem que tinha construído, estava em cima do meu pai.  Eu acho que como tu, minha primeira paixão foi meu pai, pois sempre procurei alguém que fosse como ele.

Mas claro tinha que voltar a NYC, seu trabalho lhe esperava.  Foi uma despedida boa, ficamos conversando até tarde, de como nós tínhamos liberado um com o outro.

Não sabia com certeza se era um relacionamento, nunca tinha tido nenhum.  Voltei me dedicar ao que fazia simplesmente bem.   O primeiro livro, depois do sucesso do primeiro, o queriam comprar para montar uma serie, me entrevistaram para saber se continuaria a usar o personagem, se fosse assim, me comprariam com a ideia da série, que era o que dava dinheiro atualmente.

Escutei falar de um curso de roteirista para cinema, serie, me informei, comecei a estudar, tinha facilidade, pois ao momento que pegava o bloco, tinha uma maneira de escrever muito típica.

O nome a frase que a pessoa que interrogava tinha dito, então ficava mais fácil.

O terceiro livro, foi sobre um crime que peguei o bonde andando, pois o detetive que acompanhava o mesmo, teve um enfarte justo no decimo dia de investigação, tive que me colocar ao dia, anotando tudo que ele tinha visto, interrogado, suas dúvidas, quando tentei falar com ele, a coisa se torceu, como não lhe caia bem, não gostou que me tivessem dado o caso, se negou a falar o que pensava.

Mas talvez tenha sido o melhor, pois tive que voltar ao ponto zero, examinar de novo a cena do crime, acabei descobrindo coisas que tinham passado por alto, chamei de novo a equipe de provas, para examinar o que tinha descoberto.   Tinha vistoriado a casa inteira, mas no corredor tinha um tapete ao longo do mesmo, ninguém levantou o dito cujo, no meio tinha uma tampa para um sótão que ninguém tinha visto, ali se descobriu muita coisa. Que o assassinado, usava o lugar para abusar de menores, tinha com certeza sido um deles que o tinha assassinado.

Numa estante, tinha como um registro de tudo, vídeos que tinha feito, o duro era descobrir se estes garotos ainda estavam vivos.   Alguns tinha uma anotação, que queria dizer, alugado pelos pais.  Eram muitas, coloquei o serviço de menores para ajudar, mas claro não funcionava, consegui uma ordem do juiz para levar gente treinada a este departamento, se descobriu muita merda.   Alguns estavam envolvidos com a rede de pederastas, por isso não cooperavam.

A maioria dos garotos tinham desaparecido no mapa.

Mas mesmo assim, consegui localizar uns quantos, eu que tinha sido amado pelo meu pai, quando conversava com esses hoje rapazes, ficava abalado, a cada entrevista, depois tinha que tomar um banho, como se essa sujeira que tinha escutado, ficasse pegada ao meu corpo.

Talvez tenha sido um dos trabalhos mais sujos, cruéis que tinha feito.

Me chamaram da morgue, um dos garotos que tinha sido abusado, tinha sido encontrado, como se tivesse cometido o suicídio, mas examinar seus pertences, vi que não, tinha sido barbaramente assassinado.   O tinham dopado antes, os exames confirmaram minha desconfiança, tinham feito uma coisa para incrimina-lo, colocado uma arma em sua mão, para que tivesse vestígio de pólvora.    Isso seria impossível, pois o assassinato tinha ocorrido a mais tempo.  Alguém queria jogar a culpa nele.   Levantar sua vida, foi como estar num labirinto.

Afinal descobri que um dos que tinham sido abusados, era agora um abusador, ele tinha feito tudo.

Era um tipo complicado, quando o olhava de uma determinada maneira, era quase um figura frágil, mas se o examinavas detalhadamente, por menos que não tivesse músculos, tinha os braços duros, como de exercícios, ele fazia uma coisa, atraia jovens para formar uma corte, ele organizava tudo, era como uma madame.   Todos de uma maneira ou outra tinham sido vítimas, agora abusava dos outros mentalmente, os manobrando para fazer o que queira.  Dizia a sua corte, se abusaram de nós grátis, agora tem que pagar.

Nas entrevistas, sem querer soltou uma observação, fui verificar nos vídeos da vítima, nos mais antigos, se via que tinha passado anos nas mãos desse pédofilo.   Tinha conseguido escapar, entre suas vítimas contavam seus próprios pais, que o tinham vendido ao pédofilo, os encontrou, lhes deu uma dose massiva de drogas, os atirou no meio de um lugar cheio de porcos para que se alimentassem.   Era um crime sem resolver, quando descobri a identidade dessas vítimas, liguei com seu nome original.   

Tentava ser o mais racional possível.

Vivia agora num hospital psiquiátrico, isolado dos outros pacientes, pois se o deixavam junto, tentava manipular as pessoas.

Conversei com seu psiquiatra, que disse que as seções com ele, era gravadas, pois ele sempre tentava manipular as pessoas.   Me mostrou os vídeos, a postura que se colocava era evidente, ainda era um tipo bonito, tentava primeiro o jogo de sedução, se esse falhava, passava para o de manobra com as palavras, se fazendo de vítima, sempre era o coitado.

Pedi ao psiquiatra que gravasse uma conversa minha com ele.   Quando me viu, levou um tempo para me reconhecer, mas quando isso aconteceu, mudou de comportamento totalmente, pois tinha tentando comigo todas suas manobras, não tinha funcionado.

Se tornou agressivo, me chamou de filho da puta para baixo.  Se levantou, com a força que tinha, de frágil que aparentava, levantou a mesa de aço a que estava preso, tentando me alcançar para me matar com suas próprias mãos, pois tinha interrompido sua vingança.

Na segunda entrevista, lhe disse que estava escrevendo um livro sobre ele, ficou lisonjeado, perguntou se eu compraria uma roupa nova para ele dar entrevistas para a televisão, eu lhe disse que isso nunca aconteceria, pois ele vivia uma cadeia perpetua, isolado dos outros.

Nada disso mudaria.  A cena era dantesca, se lamuriou, me chantageou, fez mil coisas todas gravadas, o que ele não sabia era isso que tudo era sempre gravado.

Mas em momento algum cedi, acabou me contando seriamente seu começo, como os pais jovens o tinham alugado com seis anos de idade, para comprar drogas, seu corpo tinha virado um comercio.

Como fazia para suplantar as dores, o depois, se escutava o nome da pessoa, depois anotava, já pensando numa vingança.    Acabou soltando aonde tinha algumas pessoas que não tinha confessado antes, matado, detalhe por detalhe, me dizia sorrindo, isso fará com que fique famoso, virão aqui pedir entrevistas.  Passei esses detalhes das pessoas que ele tinha falado, a localização, a polícia descobriu as vítimas, iam desde pédofilos, a garotos que depois ele mesmo tinha abusado, torturado, se a vítima não conseguia suportar as matava, com elas enterrava a arma do crime.

Escrever o livro, foi duro, acabou sendo um livro duplo, pois de uma lado analisei desde o ponto de vista do detetive que era, depois o segundo a vida do próprio.

Os diretores da série ficaram como loucos, queriam entrevista-lo, mas eu tinha trocado o nome do mesmo, bem como aonde estava.  Pelo menos não o acharam.

Fiz uma série de exigências com respeito a ceder os direitos desse livro, exigia acompanhar a filmagem, a montagem dos capítulos.  Claro queriam fazer de outra maneira, não aceitei, como tinha assinado um contrato, em que eu vendia o que queria, ficaram furiosos.

De uma certa maneira, tinha mais dinheiro que podia ter.

Resolvi, fiz uma viagem longa, pedi que retrasassem o lançamento do livro, os produtores da série, localizaram o detetive inicial, que inventou uma história sem pé nem cabeça.

A coisa não funcionou, quiseram me processar, mas eu sempre consultava os advogados antes de firmar qualquer coisa.  A clausula que dizia que eu só cederia os títulos que queria, funcionou, inclusive falei com o juiz o que queriam fazer.  No fundo era colocar o assassino como vitima todo o tempo, criticar o poder judicial, etc.

Nesse meio tempo, quando voltei, o psiquiatra me chamou, pediu se podia ir até lá, ele não sabia como, da minha negativa de vender os títulos, tinha tentado escapar, tinha matado dois guardas, acabou sendo eliminado por um deles em legitima defesa.

Tudo claro era gravado, o mais impressionante era sua máscara de ódio quando tentava matar o último guarda, depois quando morto, como se sua cara fosse se transformando numa mascara aonde só ficava a beleza, não o retorcido que era.

Eu tinha pesado muito o texto, pois saber da sua história, o quanto tinha fundo de verdade, o quanto era fantasia, o tirava por seu comportamento físico.   Acabou que desisti de editar o livro, guardei o mesmo num cofre, proibindo sua publicação.

Sabia que era como uma bomba de relógio, pois de um lado o apoiariam, por outro não passaria de um assassino normal, deixaria muitas frente abertas.

Fiquei meses sem escrever, matutando o que faria a seguir.  Tinha uma segurança financeira grande, por levar de uma certa maneira uma vida simples.  Mas claro ficar sem fazer nada era duro, examinei minha cadernetas todas para saltar para uma interessante, mas no fundo era como dizer, mas essa foi tão pesada como a outra.

Segui em frente escrevendo, mas já fazia o roteiro de serie junto, trocaram o produtor que tinha me enchido o saco por causa da anterior.   Ninguém me perguntava mais sobre o assunto, o enterrei.

A série apesar do tempo parado fazia sucesso, o ator que encarnava o personagem ia bem no papel.

Um dia lendo o jornal, vi uma notícia que me interessou, um ex-convicto, voltava a assustar as pessoas.  Eu tinha levado o primeiro caso desse rapaz, na época predisse como acabaria, tinha um ódio guardado dentro dele extremo, quando o prenderam consegui entrevistar.  Quando o prendi, se esqueceram de uma das provas básicas do caso, por isso teve uma pena leve, o juiz não aceitou depois mais a mesma.

A culpa tinha sido dos analistas de provas, deram como perdida a mesma, para depois descobrir que estava guardada errada.

Quando me viu riu, disse que eu como ele estávamos ficando velhos, não deixava de ser uma verdade.   Comentei com ele o que tinha visto quando o tinha interrogado a primeira vez.

Foste o único em todo esse tempo que viu quem eu era.  Tinha sido abandonado em pequeno, do orfanato passou por uma série de adoções com abusos, depois no reformatório, porque tinha matado um agressor, foi novamente vítima de abusos, até que conseguiu uma maneira de se defender, ameaçava todos que estavam em volta dele, se vingava na calada da noite, sem que ninguém o visse, nisso tinha matado dois agressores.

Quando o prendi, tinha escapado do reformatório, tinha uma maneira muito própria de caminhar, como quisesse afirmar, atreva-se a se aproximar que dou o cabo de ti.    Tinha conversado com ele muito a respeito, desse ódio visceral que tinha.

Me disse uma coisa que uma certa maneira me fez pensar, nunca ninguém chegou perto de mim para fazer um carinho, nem que fosse passar a mão sobre a minha, sempre tinha outra coisa por detrás.   Acabei me acostumando com os abusos, mas a cada um eu procurava me vingar.

Me perguntou se me lembrava da monja do orfanato que eu tinha entrevistado, eu não me lembrava o nome dela, mas como aparecia no caso, guardei, era ela quem me dava em adoção, a troco de dinheiro.  Quando sai a sequestrei, fiz com ele todos os tipos de abusos, ao final pedia mais. A enterrei bem enterrada, com tudo que usei, assim nunca mais faria isso.

Procurei saber do assunto, claro a igreja tinha colocado um véu sobre o assunto, mas conversando com alguém da congregação a que pertencia, me contou horrores sobre a mesma.

Voltei a conversar com ele, tinha levado uma surra de fazer gosto, tinha sido provocado por um dos guardas do presidio, tinha reagido.

Denunciei o fato ao advogado, fiz uma coisa que nunca tinha feito, lhe tocava um advogado de oficio, contratei um dos melhores, um com uma equipe, contei tudo que sabia, foram desentranhar tudo.  Sua pena seria capital, mas como não encontravam a freira, o único que sabia da história que a tinha assassinado era eu.

Mas quando soube que passaria o resto de seus dias na prisão, me mandou uma carta, quando eu a recebi, pois tinha estado viajando fazendo palestra, já era tarde, tinha se suicidado num descuido dos guardas.

Quando abri a carta, era uma letra de criança, miúda, como se quisesse economizar no papel, para me contar muitas coisas, realmente me contou aonde estava a freira do orfanato, bem como outros pédofilos que tinha assassinado.   Dois nem tinha sido com ele a história, tinham sido dois que tinham se livrado da justiça, ele dizia, eu fiz a justiça em nome dos garotos que eles tinham abusados, detalhava tudo.

O que me surpreendeu, foi ele confessar que morria de medo de se tornar um abusador, não queria fazer os outros passarem pelo que tinha passado.

Comecei o livro através de tudo que me falava na carta, quando a polícia desenterrou a freira, encontraram vários papeis que ele tinha roubado do orfanato, aonde ela anotava os negócios que tinha feito, as crianças com nome próprio, mas sem sobrenomes, a quem tinha alugado ou vendido.   Não se encontrou vestígio dessas crianças.

Os dois pédofilos que ele tinha mencionado, a mesma coisa, tinha descoberto que eles tinham anotações do que faziam, vídeos coisas no gênero.   Tudo estava enterrado junto com eles, protegidos, por se acaso o corpo fosse encontrado.

Mesmo vendo a cara dos garotos abusados, era difícil saber se seguiam vivos ou não, pois a maioria nem passava dos dez anos de idade.

Alguns, os mais bonitos tinha sido vendidos pela freira.  O que espantava era descobrir um comercio oculto de pessoas que eram passadas de um para o outro.

Pois entre esses dois, quando se comparava os vídeos, as vezes se via o mesmo garoto, em distintos lugares.

O departamento encarregado das adoções, sempre alegava que estava transbordados, que nunca fazia seguimento dos casos, faltava gente para isso.

Quando a série começou, porque tivemos muitos problemas com a justiça, que não queria que se levantasse esses assuntos, mas os advogados conseguira seguir em frente.

Os jornalistas assediaram o departamento, revelando quem eram as pessoas que trabalhavam ali.  Se eram corruptas ou não, o orfanato teve que fechar, pois as quantidades de adoções irregulares era imensa.   Sempre os responsáveis lavavam as mãos sobre o assunto.

O ator que fez o papel, ganhou um prêmio pela interpretação, eu ganhei pelo roteiro, mas aproveitei para reclamar do descaso da sociedade sobre o assunto.

Um dia conversando com uma pessoa numa entrevista, essa me disse que tinha visto a serie como uma história de terror, nada mais, comendo pipoca, tentando estar o mais afastada mentalmente de todo o relatado.  Só me preocupei em analisar a representação, como tinha sido filmada, nada mais.  Os fatos reais não deixei que me atingisse.   Me fez uma pergunta banal, me neguei a responder, soltei, por isso esse pais anda assim, soltei como uma ameaça que ia verificar sua vida, pois ele poderia ter tido um orgasmo com o que via.

Nunca mais se atreveram a me fazer perguntas idiotas.

Pensei inicialmente em doar todo dinheiro que tinha ganho com a série, para algum orfanato, foi difícil encontrar algum sério, um amigo advogado foi quem me alertou, tens que saber se o dinheiro está mesmo sendo usado, ou levado para a diocese.

O que fiz, foi falar com a superiora, que me agradeceu muito, mas todo o dinheiro, foi para comprar camas decentes, tudo o que eles precisavam, dinheiro vivo não dei nenhum.

Foi lá que conheci meu filho.   Um dos garotos, muito sério se aproximou, veio me agradecer, já não tinha que dormir no chão.   Perguntei seu nome, me disse que o chamavam de Tom, mas ele não sabia se era o verdadeiro.

Falei com a superiora, o adotei, a primeira coisa que fiz, foi leva-lo a um médico, para fazer um exame exaustivo, estava muito desnutrido, colocá-lo numa escola, aonde se revelou com uma surpreendente madures para tudo.  Não era um gênio, comecei a lhe ensinar as coisas que meu pai tinha me ensinado.   Me dizia sempre que o avô devia ter sido uma pessoa especial.

Sim meu filho, foi, me ensinou a ser como sou.  Pois quando te vi, soube que eras para ser meu filho.   Eu dava graças a deus dele nunca ter sofrido nenhum abuso.

O criei como meu pai tinha feito comigo, procurei escrever histórias sobre outros assuntos, coisas que tirava como um fio dos jornais, ia entrevistar as pessoas, levantar todo o passado da mesma, para poder criar uma história real.

Guardamos tantas coisas embaixo do tapete que as vezes é impossível saber depois o que foi real ou não, basta olhar, escutar a pessoa falando, para saber que está fantasiando em cima de uma realidade mais brutal.   Algumas encontram dessa maneira uma forma de melhorar suas vidas, tentando esquecer do passado.

Mas sempre uma caixa de segredo, num dado momento abre sem querer, por algo que a pessoa vê, ou lê.

Escrevi uma história sobre isso, que depois virou um filme.  Não estava baseada em nenhum fato real, mas sim num personagem que criei, que num dado momento uma das caixas abre, mostrando todo o horror do seu passado, destruindo o presente.

Tom já com mais idade, um dia me perguntou se eu nunca tinha amado ninguém.  Lhe contei a verdade, tinha tido um pai tão fantástico que queria que se alguém me amasse fosse como ele, mas isso nunca tinha encontrado.   Tinha amantes, que acabavam virando meus amigos, ou então nunca mais falando comigo, mas seguia em frente, agora tinha um filho.

Quando ele se formou na universidade, me agradeceu por tudo que eu tinha lhe ensinado, como o tinha amado como filho, graças ao meu avô, meu pai foi uma pessoa excepcional, acabou sendo se revelando um pai igual ou melhor que o seu.

Agora trabalha num dos melhores escritórios de advogados, é considerado o melhor, interrogando alguém, usa tudo que lhe ensinei.

Em breve se casa, com uma garota que conheceu na escola, sua melhor amiga, espero o dia de ser avô, serei aquele avô que velho demais, contara histórias para seus netos.  Mas nenhuma das quais tenha escrito, seria muita maldade.

Um dia antes que fosse tarde demais, retirei o texto, com todas as cópias que tinha do livro que só me tinha dado dor de cabeça, o queimei, assim depois que morresse, ninguém poderia cair na tentação de publicar.

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 4 de abril de 2022

BAIANO

 

                                                  BAIANO

 

Sou Marco Capibiribe Alcântara, nasci em São Paulo, mas fui criado em Salvador, com muito orgulho de ser baiano.   Dizem que falo assim pois pareço um soteropolitano.  

Não me importo, meu pai na verdade é baiano, minha finada mãe também era, só voltei para cá, pois ela morreu num acidente de carro, tempos depois ele se juntou um uma paulistana, que não gostava de criança, ele me mandou para viver com minha tia.

Hoje dou graças a Deus, mas quando era pequeno não entendia.

A família da minha mãe, é imensa, o velho teve muitos filhos dentro, fora do casamento, mas sempre reconhecia todos.

Ele tinha negócios em todo interior, cada cidade tinha uma loja dele, vendiam de tudo um pouco, os antigos armazém de secos e molhados, uma coisa portuguesa.

Casava suas filhas com ajudantes, as ensinava primeiro a trabalhar, para controlar os maridos, que esse não lhe roubassem.

Minha tia foi a única, que disse não, foi para Salvador, estudou como uma louca, hoje é professora da Universidade.

Nunca se casou, nem queria ninguém que lhe cortasse a liberdade que tinha conseguido, sei que pagarei por isso quando for velha, mas me importa uma merda.

Me acolheu em sua casa, um belo apartamento perto do Farol da Barra, quando vi o mar, me apaixonei, nunca mais pude pensar em outra vida, em que não tivesse o mar por perto.

Era conhecida como Doutora Neide Capibiribe, mas dizia logo, que a chamassem de Neide.

Era sempre convidada para simpósios, congressos pelo mundo inteiro, era uma sumidade em se tratando de misturas de raças, de negritude.

Era amiga de todos os pais de santo de Salvador, se perguntassem se era do Santo, ria, dizendo que não, não me quiseram, sou Católica, Apostólica Romana, mas não colocava o pé numa igreja nem a porrete.  Quando muito se tinha algum amigo de fora, ia a lavagem do Bonfim, nada mais, em casa nenhum santo, mas muitas coisas Africanas, mascaras, esculturas, tudo que lhe davam de presente quando ia pelos países Africanos.

Quando algum irmão, reclamava dizendo esse seu interesse no assunto, iam pensar que éramos descendentes de africanos, ela ria muito alto dizendo que tínhamos um pé na cozinha sim senhor.

Me dizia ficam querendo passar por brancos, não pegam sol, nada de praia, para ficarem pensando que são brancos, olha teu avô, com o cabelo crespo que tem, ele mesmo diz que sua avô tinha sido escrava, que seu pai, era filho dela com o coronel.

Adorava sua filha, pois era a única como ele, não tinha papas na língua, falava o que pensava o mundo que se fudesse.

Quando cheguei a sua casa, pela mão do meu pai, chorei porque sabia que ia embora, mas ele me disse que estava em boas mãos, como viajava muito, não tinha como cuidar ele só de um filho pequeno.

Ela ao contrário, tinha um filho sem fazer esforço.

Primeiro me traçou as regras da casa, nada de coisas fora do lugar, imagina isso para um garoto de cinco anos de idade, no mesmo dia saímos para arrumar uma escola para mim, me perguntou se eu sabia ler, escrever.   Lhe disse que tinha aprendido com a televisão. Pois me deixavam basicamente o dia inteiro na frente de uma.

Me mostrou dois colégios, ficamos observando de longe, eu tinha que escolher, assim seria minha vida, ela jamais interferia, eu tinha que escolher, saber o que queria da vida.

Olhei para um, que era de gente rica, o outro me parecia mais divertido, com gente de todas as cores possíveis, esse era público.   Bom, se não gostas da experiencia, mudamos de escola, pois errar faz parte da vida.

Não me enganei, adorava minha escola, logo fiz amigos, alguns para toda a vida.

Uma vez por ano, íamos a Ilhéus, aonde vivia meu avô, com as filhas que tinha ficado solteironas, reclamava delas, imagina vão todos os dias a missa, para rezar para ver se casam, não se olham no espelho.

Realmente eram feias, quando eu chegava, o velho que era magro, alto, sempre de terno de linho, gravata, me levantava no ar, me dava mil beijos, dizia que suas filhas tinham alguma coisa errada, pois só faziam filhas.   Eu era seu único neto.

Em seguida saia comigo, para tomar algo com seus amigos, ia falando sem parar, com um sotaque muito carregado, dizendo olha como esse sem vergonha cresceu desde a última vez, ria muito, pagava uma rodada aos amigos em honra de seu neto, me fazia sentar ao lado dele, com alguns começava a falar do preço do cacau, pois além de seu negócio, tinha uma plantação de cacau, eu adorava ir até lá com ele, adorava o cheiro da terra, dos frutos recém abertos, lhe perguntava quando viravam bombons.

Uma parte da produção ele entregava para uma cooperativa, outra mandava para uma fábrica em Vitória no Espirito Santo.

Me dizia ao ouvido, espero que tu estudes, para aprender a elaborar tu mesmo nosso chocolate.

Eu ria, me imaginando na cozinha de sua casa, que ainda se usava fogão a lenha, preparando chocolate.

De tarde se sentava com minha tia, que desde logo era sua preferida, ela lhe contava como eu tinha ido na escola durante o ano, passávamos o natal ali, no ano novo íamos a praia, para ver a saída de barcos para saudar Iemanjá, isso ele não perdia, ele dizia a suas filhas solteironas, vou fazer uma oferenda, para ver se algum jagunço as vem para levar para aonde Judas perdeu as botas, assim me livro delas, isso as gargalhadas, elas ficavam se benzendo, dizendo “Deus nos Livre”, mas no fundo bem que queiram.

Uma delas, um dia desapareceu realmente com um jagunço.   Nesse ano ele dizia que faltavam duas, que Iemanjá, tinha que lhe ajudar.

No dia 3 de janeiro íamos para Salvador.  Quando ele ficou sozinho na casa, minha tia o trouxe para Salvador, de lá ela dirigia a empresa do velho, os cunhados diziam que ela era pior que ele, pois exigia as contas limpas.

Eu começava a sair de noite, ele me dizia, aproveite a vida meu filho, é curta, quando pensamos que estamos em cima da onda, na verdade já estamos embaixo.  Aproveite, saia com teus amigos, divirta-se, sempre me colocava um dinheiro na mão.

Mal sabia que eu tinha um namorado na verdade, quando chegava o verão a maioria dos amigos arrumavam algum turista, eu só não gostava de carnaval, trio Elétricos, essas coisas, aglomeração de gente, suada, fedendo, isso eu era diferente dos outros, o que era meu namorado desaparecia, um dia o vi de beijos, abraços com um gringo, o mandei catar coquinhos.

Na verdade como dizia minha tinha eu era demasiado Paulista para Salvador, era muito sério, levava tudo como deve ser.   Nunca gostei de preguiça.

Meu avô achava que eu estava certo, se tivesse preguiça não teria levantado os negócios que tenho. Por culpa dele, comecei a ler tudo referente ao cacau, queria saber antes mesmo de entra na universidade as possibilidades, como se devia plantar, colher, usar essa produção. Vi que a maioria das empresas hoje começava a ter sua própria plantação, seja na Africa, ou outro lugar.

Um dia lendo um artigo muito interessante, pedi licença para ele, para experimentar o que diziam no artigo, em um pedaço de terra, para ele voltar até o lugar que adorava, foi ótimo, inspirava o ar, dizia que isso sim era viver.

Chamou seu capataz, lhe disse o que eu queria, analisei a terra como dizia o artigo, escolhi só um pedaço de terra para isso, limpamos tudo, normalmente deixavam tudo, as folhas se acumulando, para servir de adubo.

Fiz tudo ao contrário, as antigas maneiras de cuidar das árvores, limpamos tudo, podamos as que precisavam disso, quando chegou a época de saírem frutos, para susto do pessoal, saíram maiores do que normal, quando chegou a época da colheita, o pessoal dizia que era mais fácil de colher, de abrir, como se fruto estivesse esperando.  Quando mandei essas amostras para uma fábrica moderna, essa logo se interessou.  Para o ano seguinte, limpamos tudo, fizemos da mesma maneira, fiz um contato com a pessoa que tinha escrito o artigo, o convidei para vir nos explicar.

Pensava que chegaria uma homem branco, tipo um especialistas, nada era um mulato, jovem, disse que tinha feito isso para um proprietário, ele tinha estudado agronomia, fora do Brasil, estivemos analisando a terra mais profundamente, primeiro a cada quinhentos metros, extraímos terra para analisar, ele tinha trazido um mini laboratório, fomos nos adequando conforme as terras, ficou contente em dizer, que 80 por cento das terras eram de primeira qualidade.   Meu avô acompanhava isso tudo com extrema curiosidade, nos autorizou a fazer o que queríamos.   Seus filhos e filhas, não gostaram muito, mas era tarde ele tinha feito uma coisa que ninguém sabia, tinha passado as terras para meu nome.

Agora é tudo por tua conta, o dinheiro que ganhamos, com a colheita do que eu tinha feito, colocou no meu nome no banco.

Convidei o Alcides Silva para ficar, lhe disse que pensava eu mesmo usar o produto, começamos a procurar uma maquina de tostar para os grãos, como era o processo de fazer um chocolate artesanal, o primeiro cobaia era o velho, ria muito dizia, sempre imaginei isso, poder provar meu próprio chocolate, já posso morrer, me beijava dizendo esse meu neto.

Fizemos acompanhando as tendencias da Europa, para saber como ficava, minha tia levou para a universidade, para fazer provas, entregava aos professores, pedia que escrevesse o que gostavam, também o que não gostavam.

As críticas eram boas, começamos a preparar vários tipos, fizemos uma embalagem simples, as mulheres de Ilhéus adoraram a novidade, mal sabia que estavam sendo nossas cobaias.

Esse ano quando procurados pela fábrica, sobrava pouco para vender.

Mas com o dinheiro, compramos de um herdeiro que não queria nada disso, as sua terra, mas antes pedimos para analisar a mesma, era da boa, esse sujeito não sabe o que esta fazendo, fizemos a mesma coisa, limpar tudo, preparar para a próxima colheita, não seriam iguais, mas essas venderíamos para a fábrica, o capataz sabia que não devia misturar as duas colheitas.

A casa que pertencia a essa plantação, a reformamos, para fazer ali a fábrica, contratamos mais mulheres para trabalhar.

Minha tia que se aposentava, arrumou uma lojinha ali perto do farol da Barra, começou a vender com uma amiga, o que produzíamos.  Os vizinhos todos apareceram para aprender.

Contratamos em São Paulo uma jovem que tinha ideias fantásticas com o chocolate, a produção aumentou, meu velho dizia que eu realizava o sonho dele, sempre pensei nisso porque não produzir aqui.

Na surdina, ele foi comprando mais terra por ali, já em meu nome, quando me dei conta, lhe disse, avô eu não posso com tanto material.

Os meus tios e tias, achavam que eu estava roubando seu herança.  Mas o velho foi esperto, dividiu em vida, toda sua fortuna, para ninguém botar defeito, mas mesmo assim ele dizia, quando souberem o que fazes, sempre ficaram com inveja, portanto muito cuidado, as terras novas estavam todas no meu nome desde o princípio, algumas em nome dos dois, minha e do Alcides. Muita gente pensava que tínhamos alguma coisa a mais, mas eu tinha encontrado uma pessoa em quem confiar, além de ser meu amigo.

Começamos a ensinar os outros a cuidarem de suas terras, a prepararem um bom cacau, mas alguns claro a terra era pobre, não entendiam isso, que nem toda a terra é rica em minerais, esse preferiam o método antigo.

Alcides como era, começou a estudar como enriquecer essas terras, sem tirar as árvores.

Fizemos a experiencia, num troço de terra que tinha o mesmo problema que essas dos vizinhos, os convidamos para acompanhar o desenvolvimento.  

Mas como dizia Alcides, a maioria reclamava que dava trabalho.  Isso não é só um mal do baiano, mas do brasileiro, querem tudo sem muito trabalho.

Os que acompanharam, ao mesmo tempo, prepararam uma parte de suas terras dessa maneira, ficaram encantados, pois produziam mais e melhor.

Seus produtos valiam mais no mercado.   Os que tiveram preguiça falavam mal do que fazíamos, romper a tradição de tantos anos.

Com tradição ou sem tradição, mal dávamos abasto para as lojas que já tínhamos, não só em Salvador, como em Ilhéus, procuramos alguém para desenhar um logo, embalagens, meu avô sempre aplaudindo.   Quando ele fez 100 anos, disse que agora podia descansar, sonho realizado.     

Tive que enfrentar na justiça, com meus parentes, que queriam reclamar parte dos lucros, menos mal que tinha tudo no papel, ninguém podia reclamar.

Os dois, minha tia como eu, não tínhamos recebido nada da parte das lojas, do armazém, ela só tinha uma parte com suas irmãs solteiras, da casa de Ilhéus.

Se quiséssemos, podíamos simplesmente ficar só plantando e colhendo, pois as fabricas pareciam abelhas em cima da gente.

Queriam saber como tínhamos plantado, quantas tínhamos tirado para plantar outra vez, mas não acreditavam que eram as árvores velhas que estavam produzindo isso, devido ao tratamento da terra.

Meu pai depois de anos sem dar a cara apareceu, mas desconfiei logo, queria me pedir dinheiro emprestado, pois tinha a noção que agora eu estava rico.

Lhe perguntei por que, depois desses anos todos, eram quase 20 anos, ele aparecia, se nunca telefonava, ou mandava dinheiro para meu sustento.

Quando soltou que sua nova família era grande, não lhe sobrava tempo para essas pieguices fiquei furioso, pois não me sobra tempo, nem dinheiro para emprestar, eu dou um duro desgraçado, além de que sua proposta de negócio era um pouco utópica.

Quando falou com minha tia, ela foi pior, ele nunca chamava para saber de nada, nunca tinha ajudado, que queria agora, que déssemos beijos abraços, como se nada tivéssemos passado.

Finalmente foi embora, com as mãos abanando.

Mais um malandro para o Brasil aguentar.

O que me chateava, contei ao Alcides, era que sequer podia sentir nada por ele, pois nunca tinha convivido com ele ou sua família.  Se tornou um belo desconhecido para mim.

Ele me contou que com ele tinha passado isso, tinham feito cozação com ele quando resolveu estudar agronomia, agora pediam dinheiro para alguma loucura que lhes passava a cabeça.

Ao mesmo tempo consegui acabar a universidade de Agronomia, um sonho do velho, minha tese foi sobre as coisas que discutia com o Alcides.

Meus parentes cansados de discutirem na justiça, resolveram fazer valer a velha maneira dos jagunços, mandaram me matar.   Já que não conseguiam por bem, seria à velha maneira.

Quem saiu mal parado foi o Alcides, eu estava de costa quando apareceu o homem com um revolver nas minhas costas, ele me empurrou ao mesmo tempo que o homem atirava, foi ele quem levou o tiro.

Morreu no ato.  Consegui pegar o homem, saber qual dos parente o tinha mandado me matar, quando ele disse todos, o entreguei a justiça.

Enterrei o Alcides, ao ler seu testamento, tínhamos feito juntos, por nossos sonhos, ele era meu herdeiro, como eu dele.

Estava cansando disso tudo, falei com minha tia, tomei uma resolução drásticas.

As terras que davam um bom cacau, que usávamos, fizemos uma cooperativa, os empregados, eram donos também, assim iam trabalhar melhor, continuariam fazendo o que vinhamos fazendo para vender, as outras terras vendi a fábrica que nos comprava o cacau.

Assim os parentes não podiam reclamar nada, pois deixavam de existir.

Quanto ao convite, pedi para primeiro olhar o que queriam, me levaram a Africa, a vários países, quando vi o que faziam, era como quando comecei a trabalhar nas terras do meu avô, os coitados dos trabalhadores eram explorados por todos.  Viviam ainda na miséria, mesmo sendo eles que faziam um trabalho pesado.

Não aceitei o convite, pensava em fazer outra coisa.

Fui olhar umas terras em volta de Salvador, rica pelo chão negro.  Dei de cara com o que me queriam vender era uma coisa falsa, ali era um terreiro de Candomblé, muito antigo, mais antigo que os que se falavam na atualidade.

Quando pisei o portão, parei, fiquei quieto, escutando as vozes todas em minha cabeça, lamentos dos escravos, pedi licença fui entrando, saiu um velho, sem idade definida, veio até chegar bem perto, vi que não via bem, devia estar quase cego.

Finalmente vieste tomar meu lugar.

Fiquei olhando para ele sem saber a que se referia.

Talvez ali, estivesse tudo preservado como era antigamente, pois estava já quase na fronteira com outros municípios, era como se fosse terra de ninguém.

Me pegou pela mão, era como segurar em brasas, venha, me acompanhe.

Você, devia estar morto, mas o amor de teu amigo por ti te salvou, mas agora tens uma sina, viveras muito, superara várias mortes, seguira aqui muito tempo.

Nos sentamos em uns banquinhos de madeira, como eu tinha visto na África, era quase como estar sentado no chão.

Veio correndo um menino, negro como um tição, o abraçou, beijou suas mãos, esse será teu futuro meu filho.

Foram chegando gente de todos os lugares, me sentia como se estivesse em alguma aldeia africana.

Raros dos meus filhos vão embora daqui, preferem ficar aqui, plantando cuidado da mata, do que ir para a cidade grande, os que vão, voltam cheios de vícios, de coisas más no coração, eu os curo, mas não adianta o veneno da cidade grande já chegou ao fundo de suas almas.

Não via nada ali que se parecesse um terreiro de Candomblé, como eu os conhecia.

Ele fez um sinal para um homem grande, o leve para ver a floresta.

Poderia ter dito, o leve para a floresta, de cabo dele.

Segui o homem como um cordeiro, ele foi falando, meu pai é muito sábio, disse que virias, que te encantaria o que temos aqui.

Entramos na floresta, o que se via de longe era como uma ilusão ótica, pois em seguida que se passava a um bloco de árvores, se estava numa aldeia como as que tinha visto na África, depois uma plantação de cacau.   Comecei a olhar, ele me disse, seguimos aqui, o que você escreveu, bem como seu amigo, limpamos tudo, agora produzimos um cacau melhor, mas é como ter uma plantação invisível, pois aqui ninguém sabe que existe esse cacau.

Não queremos que venham as grandes empresas, precisamos que o senhor compre esses documentos que o homem que o procurou tem, ele é o real proprietário, mas qualquer um que chegue aqui, nos expulsará, ficaremos todos na miséria.

Entendi, finalmente, o que me queria vender as terras, era um filho de coronel, como se tinha antigamente, vivia numa bela casa em Salvador, mas seu dinheiro acabava, precisava vender essas terras para seguir sua vida de vagabundo rico.

Mais além, seguindo o homem, finalmente dei com um claro, aonde estava uma imensa árvore, que era a única que já não produzia nada, era como se estivesse ali a mil anos, seu troco era imenso, era como se tivesse crescido ao contrário, demorei para entender que era um Baobá, achei estranho, nunca tinha visto uma dessas no brasil.

Perguntei ao homem como ele se chamava, pois se dirigia a mim pelo meu nome, mas eu não sabia o seu.

Riu, quando digo as pessoas ficam rindo, Macário Sete Vidas, assim estou registrado.

Realmente era algo diferente.

Por que vocês não conseguiram o usucapião destas terras?

Porque quando entramos na justiça esse filho da puta, vem morar nas cabanas da entrada, ai não tem jeito.

Ele sabe do cacau?

Não senhor, nunca tiramos a produção pela frente.

Chegamos a um barraco imenso, me fez entrar, lá estava o velho da entrada sentado num trono.

Me fez levar até ele, duas mulheres vestidas de branco se aproximaram, o pai mandou o senhor tomar um banho de limpeza antes, venha.

Eu as segui como tinha feito até agora, não sabia se por curiosidade, ou pela sensação de paz que sentia.

Me ajudaram tirar a roupa, me deram o banho com ervas, mas senti um cheiro especial, lhe perguntei que era, ela disse que eram uma mistura de canela com cacau que faziam.

Me senti super bem, parecia que a tormenta que tinha dentro do meu peito, desde a morte do Alcides, se transformavam em nuvens passageiras.

Me enrolaram num pano, me levaram de novo para frente do homem.

No mesmo momento devo ter incorporado algum espirito, tudo que sabia era que tinha um negro imenso ao meu lado, só com um taparabos, foi me levando por um túnel imenso, levava uma tocha na mão que ia iluminando o caminho.

Foi como retroceder no tempo, fui vendo as muitas vidas que tinha tido, que ele sempre esteve comigo, até chegarmos a sermos capturados em África, trazido como escravos para salvador.

Entendi, isso era com um reduto de descendentes diretos de escravos, a semente que tinha brotado o Baobá, era uma que eu trazia no pescoço.

Num dia de batalha com os senhores das terras, a tirei do pescoço, como sabia que ia morrer, a enterrei, com ela nasceu essa árvore imensa.

Voltei a mim tonto.

Entendeste meu filho, porque esperávamos por ti.

Vais mudar nossa vida.

Me trouxeram água, no Iroco, é tão grande, porque estão todos os espíritos de nossos antepassados.

Me explicou, que eu devia comprar as terras, veja bem esse homem está num apuro muito grande, deve muito dinheiro, se você regateia um pouco, poderá comprar por um preço irrisório, ele nem sabe o que tem aqui.

Isso farei meu pai, faz muito tempo que não tenho essa paz comigo, mas ele continuou, a falar por mim.

A morte de teu amigo, te afetou mais do que querias, essa gente não se preocupe, está perdendo tudo o que tem, o que teu avô construiu, eles destruíram.  Os tempos modernos avançam, isso precisamos aqui, que as crianças tenham futuro, que não vivam escondidas, tampouco depois tenham que ir para Salvador.

Serás o guia desse gente.

O senhor acha que conseguirei isso?

Sim já fizeste isso com esse de Ilhéus, agora cuidam da terra com amor, carinho, produzem um bom cacau.

Se ensinas os daqui, poderão ir em frente, chegar ao novo século.

Concordei, procuraria fazer, mas queria que me orientasse, colocou a mão direita em minha cabeça, fui vendo tudo que ia acontecer.

Dito e feito, voltei a Salvador, minha tia disse que eu estava diferente, sorri triste para ela.

No dia seguinte fui visitar o homem, num casarão daqueles da época da escravidão, em que as terras ali em volta, deviam ser todas de sua propriedade, mas que tinham ido vendendo para seguir levando a vida de senhores.

Estava jogado numa rede, com uma negra balançando a mesma, parecia um desenho de Debret, pensei comigo, esse homem vive fora de uma realidade.

Me sentei no muro da varanda, disse que estava interessado, quando ele me disse o preço, comecei a rir, fica no cu do judas, teria que mandar fazer uma estrada, aquilo é mato puro, teria que derrubar tudo para plantar, esse preço é muito caro, melhor o senhor procurar alguém que tenha mais dinheiro. 

Ele foi se sentando lentamente na rede, tinha os olhos muito abertos, olhava atrás de mim, esse homem que o acompanha, quem é?

Eu vi o mesmo homem que tinha me levado pelo túnel.

Um amigo meu, meu conselheiro, pois agora não estava de taparabos, mas sim com um terno de linho branco.

Ah, pensei que era um espirito, pois cada vez que vou até lá, esses espíritos me acompanham me assustando.

Tudo bem, fazemos negócio.

Lhe pedi os documentos pois precisava levar ao meu advogado para saber se eram autênticos.

Claro que sim, estão em minha família, desde que isso era uma capitania geral.

Fez uma sinal para a mulher, que foi correndo, voltou com um envelope, como ele já tinha me mostrado antes.

Queres um deposito de dinheiro, ou posso simplesmente levar.

Enquanto isso não tiver minha assinatura como último herdeiro dessa merda, não vale nada.

O levei para meu advogado, ele riu, dizendo que nunca tinha visto papeis tão velhos, que iria examinar, ia nos registro de terras na parte da tarde, que no dia seguinte, me daria a resposta se eram autênticos ou não.

Fui para casa, olhei para trás o homem continuava atrás de mim, lhe perguntei seu nome mentalmente.

Exu Bara, meu senhor.

Quando cheguei em casa, minha tia, estava jogada na sua poltrona cismando.

Estava pensando em passar seus negócios para sua sócia na história, porque hoje uma das suas irmãs, que estavam com os maridos todos presos, tinha vindo lhe pedir dinheiro.

Acham que sou milionária, o pior é que não reconhecem a culpa delas terem incentivado os maridos a te matar.    Queriam saber aonde andavas, eu disse que na África, com nossos antepassados, riram dizendo que nada disso era verdade, eram brancas.

Quem é esse senhor que esta contigo, virei para trás lhe perguntei se todo mundo o via, me disse que não só as pessoas que ele queria.

É um Exu Bara minha tia, me protege.

Não me falaste nada ainda dessas terras que te ofereceram?

Amanhã saberei se esses papeis valem o que pedem por eles, se for assim, mudarei minha vida outra vez.

Ela riu, você nunca vai descansar não é verdade?

Nisso rimos porque o Exu, entrava numa escultura que eu tinha trazido a África, que me tinha apaixonado, quando a vi.

Não queria falar do lugar, queria leva-la até lá.

No dia seguinte o advogado me chamou logo de manhã, os do registro civil, disseram que esses papeis claro que valem, mas que nunca tinham visto nada parecido assim, que deviam estar num museu.

É como se estas terras não pertencem-se ao estado, mas sim são como terras livres de tudo.

Vão preparar papeis novos, assim poderás fazer negócio.  Eles mesmo vão preparar tudo, reconhecer o documento em cartório de registo tudo isso, hoje à tarde fecharemos negócio.

Foi o que fez, pagou uma parte em dinheiro que tinha guardado, que era a parte do Alcides no negócio, a outra seria por banco.

Imaginava que o sujeito conseguiria viver um bom tempo como gostava.

Quando foram de tarde falar com ele, ele queria os papeis velhos, o Exu disse que não, que era dele.   O homem assinou junto com seu advogado os papeis novos, bem como os velhos, lhe perguntou se queria aquela casa, pois ele pensavam ir embora de salvador.

Tinha parentes no interior, pensava ir para lá, assim pelo menos seria respeitado.

Não preciso de casa aqui em Salvador, tenho a minha.

Depois de tudo registrado no cartório, pagou o homem com uma parte em dinheiro, além de um cheque correspondente de sua parte, os olhos dele, pareciam saltar em orbita.

Finalmente consegui me livrar dessas terras, devem ser amaldiçoadas, pois todo mundo que ia lá olhar, voltava correndo, me dizia que nem pensar, que nem de graça queriam aquele lugar, que lhes dava medo.

No dia seguinte com os papeis velhos, obriguei a minha tia sair de casa, vais conhecer o lugar que vamos viver.

Quando chegamos lá, ela fez como eu, ficou parada no portão, até que o velho apareceu, com o Macário do lado.

Seja bem vindo meu filho, minha filha Neide, pode entrar em sua casa, mas claro o que ela via era uns casebres, caindo aos pedaços, com uma floresta por detrás.

Eu a peguei pelo braço, venha conhecer nossas novas casas.

Quando atravessamos a barreira, ela ficou deslumbrada, ria com as crianças em volta dela, que lugar magico é esse.

Ai lhe contei a história, eles se preservaram durante muitos anos, os que vão para Salvador, os orixás querem que ensinemos eles a se cuidarem, para irem em frente, chegarem ao século XXI.

Ela riu, vamos ter muito trabalho.

Entreguei ao pai, os documentos velhos, venha me disse ele, parecia entrar na árvore, mas era como se no tronco houvesse uma abertura, que as próprias ramas escondiam.

Ali era como um arquivo secreto, fomos recuperando todos os documentos de propriedade desse lugar, tudo que corresponde a essas crianças para o futuro.

Do outro lado, existia uma casa de madeira, antiga mais limpa, essa agora é a tua casa, de sua tia.    Era como um jardim muito bonito, exótico, com uma passarela de palmeiras, ele foi nos levando até lá, era como uma casa grande preservada no meio da mata.

Aqui viveu o que foi o último grande Babalaô, que foi o melhor de todos, o que avisou da tua vinda, preservamos a casa para ti.   Parecia encantada, pois dava gosto estar nela.

Logo uma mulher se aproximou com um garoto nos braços, pediu que eu o olhasse, minha tia ficou de boca aberta quando incorporei o exu, ele sabia que eu via o que estava fazendo, rezou a criança, pediu ao menino de outro dia, que trouxesse, umas quantas ervas, as triturou até vivarem uma pasta, fez como um unguento, que passou pelo peito da criança.

Essa agora será tua vida, me disse depois o velho, cuidar dessa gente, eu já estou muito cansado, a magia, que tenho está gasta, precisam de uma magia nova.

Fui ficando, minha tia foi com o Macário, fechar o apartamento de Salvador, ao mesmo tempo pedi que trouxesse a imagem do exu.

Passei a viver ali, ela organizou uma escola para os garotos todos, comecei a ensinar realmente os homens a cuidar das arvores de cacau, elas como se tivessem tido um arranque cresceram mais, descobri um riacho, fiz um sistema de irrigação, destinei uma outra área para plantar milho, as margem do mesmo plantamos arroz,

O Macário me levou seguindo o riacho, tudo isso é teu, foi dizendo, saímos numa clareira, que não se via pois era mata pura, ali estava o mar. Tirei a roupa, deu um mergulho agradecendo o povo do mar.

O duro foi conseguir melhorar a estrada para escoar o cacau, mas nunca dizíamos aonde era a plantação.   O que nos comprava, ficava encantado, pois diziam que esses eram diferentes, pareciam os que compravam na Africa, ensinei a plantarem muda, para irmos plantando no meio da floresta, como tinha visto em África, mas mantendo sempre a terra em volta limpa, era o que dava mais trabalho.

Minha tia, conseguiu uma professora, para os meninos, com o dinheiro que tinha montou uma escola ali.   A levava sempre para tomar um banho de mar, ficava encantada, agora tinha um dia que ia com as mulheres todas, nenhum homem podia se aproximar.  Se escutava sim muita música, cantos para as orixás mulheres, a quem veneravam.

Eu dividia meu tempo entre cuidar dos meus, da plantação, em breve produzíamos mais do que antes, agora o bom era, ensinei o Macário a selecionar os melhores graus, para replantamos as árvores cansadas.

Abríamos caminhos na floresta, plantando no meio delas.

Basicamente nos valíamos, as hortas comunitárias, feita pelas mulheres, a nossa colheita do arroz era boa, limpamos uma área aonde estavam as velhas cabanas, já não era necessário nos esconder, pois a terra nos pertenciam.  Plantamos mandioca, diversificamos com abobora, outras coisas.

Segundo minha tia, as crianças eram inteligentes, ela que tinha ido a muitos terreiros de candomblé, dizia que ali nada era assim.  Todos na verdade veneravam o imenso Baobá, mas nada de matanças, ou coisa assim, quando alguém precisava, o exu incorporava, atendia as pessoas.

Pela primeira vez na minha vida me sentia feliz.  Quando minha tia levou para a amiga as primeiras coisas feita com nosso cacau, essa ficou deslumbrada, mas minha tia não lhe contou nada, o segredo era nossa maior arma.

Com todo o dinheiro ganho nas duas primeiras colheitas, melhoramos a vida de todo mundo, comprei um caminhão de segunda mão, desenhei uma marca, que que todo mundo perguntava o que era, eu dizia que era um tributo a nossas raízes africanas.

Os fabricantes ficavam loucos com nosso cacau, da última vez que fui com o Macário levar a colheita, na segunda entrega, seu representante no Brasil estava ali, ele tinha comprado as terras de Ilhéus, me perguntou se queria vender essas também, só lhe respondi que por enquanto não.

Depois para verificar se não no seguiam, paramos para tomar alguma coisa, contei para o Macário o que tinha visto nas terras que tinham em Africa, é como voltar no tempo da escravidão, o pessoal ganha o mínimo, não quero isso para minha gente.

Ele ria quando eu dizia minha gente.  Um dia me disse que eu estava ficando mais escuro.

Era verdade, talvez fosse de tanta praia.

Nunca deixamos ninguém ir até nossas plantações para ver aonde eram, abri um novo caminho na floresta, plantando lado a lado canela e cacau, assim através da terras se misturavam os sabores.  Quando fizemos a colheita, tirei uma parte para minha tia e suas mulheres, o resto, levamos em separado.  Quando sentiram o cheiro da canela, queriam saber como tinha feito, lhe disse que isso era uma coisa ancestral.

Mas que sem duvida esse cacau, custava o dobro, ele começou a regatear, Macário depois me dizia, que ele venderia por qualquer preço, que aquele homem o deixava zonzo. 

Isso Macário é o trabalho dele, te fazer pensar que esta pagando um preço justo, pois ele vai levar esse cacau ao chefe dele dizendo que fez uma grande descoberta, revendera pelo dobro do preço, lhe contei como fazia, os intermediários, fazem isso, te fazem sentir, que eres tu que os esta explorando, mas por dentro estão rindo de ti, pois estão te enganando.

Consegui com um importador, mais mudas de canela, plantamos, em fila na divisão da terra por aonde se entrava antigamente, assim despistaríamos, não poderiam seguir nos.

Atendia quando aparecia alguém, numa casa que construiu logo a entrada, assim a pessoa não tinha que ir até o interior.

Sua função era sempre de curar, nada mais, para o resto estavam os terreiros de candomblé, que eram muitos em Salvador.

Sentia-se em casa, era como se todos fossem uma grande família.  Agora raros eram os jovens que iam para Salvador tentar a vida, os que iam estavam preparados.

Alguns já tinha feito universidade, para orgulho de sua tia.

Nesse momento, ela estava com 94 anos, lucida, controlando a produção de seus produtos, eram muito requisitados.

Ele seguia indo com Macário, vender o que produziam, agora vendiam também canela, as pessoas nunca entendiam, tinham também uma produção boa de chocolate com pimenta vermelha que eles mesmos plantava, eram sempre autossuficientes em toda sua produção.

Quando alguém perguntava quem seriam seus herdeiros, ele sorria, eram todos de sua família.

Já tinha deixado os papeis, prontos, sobre sua herança, mas pelo que se dizia, se fosse como o avô e sua tia, viveria muitos anos.

Sua afinidade com Macário era excelente, era o mais próximo que poderia pedir de um romance, mas com respeito, cada um vivia à sua maneira.