lunes, 10 de mayo de 2021

AUÊ - AWE

 

 

                                 

 

AUÊ- Confusão em português

AWE – Temor em Yoruba

 

Com ele era sempre assim, tudo surgia no meio de muita confusão, estava tentando fugir da confusão ou Auê, que era viver nas grandes cidades, necessitava de um lugar tranquilo para trabalhar, mas claro, as vezes ele atraia sem querer a merda toda para cima dele.

Tinha marcado de ver uma cabana num lago, cercado de floresta, estava entusiasmado, desceu do carro para esperar a agente da imobiliária, como sempre era impaciente, começou a olhar por ali, nisso viu um homem jogado no chão com muito sangue na nuca.

Nem sentiu que vinham por detrás dele, levou uma pancada, talvez, por reflexo, se virou, viu um instante a cara de quem lhe agredia, deu um grito, escutou outro, era a agente que gritava também, o homem saiu correndo.

Chamaram a polícia o rastro de sangue seguia até uma cabana, no chão, estava outro homem como o primeiro, vestido de terno, gravata.  Os dois eram agentes do FBI, acharam estranho, o que faziam esses homens ali, embora o xerife que a agente tinha chamado, dizia que ali não era sua jurisdição, sim do povoado ao lado.   Chamou o xerife de lá.  Quando a maioria saiu, ele escutou um ruído surdo, como alguém batendo em algo, chamou o xerife, encostaram a cabeça no chão o ruído seguia.    Com muito custo, viraram o homem para retirar o tapete embaixo dele, tinha um alçapão, quando levantaram iluminando o xerife com uma lanterna, viram uma mulher, amordaçada, bem como amarrada.

Chamou um dos homens que encontrou uma escada, desceram os dois, ele ficou ali examinando tudo, esse era seu trabalho, examinar, anotar mentalmente tudo, observar os comportamentos, para depois escrever.  Assim tinham nascido muitas histórias que escrevia.

Quando a trouxeram para cima, estava cheia de feridas.  Contou que estava fazendo auto-stop, na estrada, quando foi sequestrada, conseguia descrever o homem, era o mesmo que eu tinha visto.

Acho melhor o senhor controlar os policiais, estão pisando tudo, pode ser que existam mais mulheres por aqui.

Não estão acostumados a esse tipo de evento, esquecem o treinamento, saiu gritando ordens, enquanto chegava uma ambulância, que me atendeu, bem como a mulher, a iriam levar para o hospital mais próximo.

Sugeriu ao Xerife que via sem experiência nenhuma nesses casos, se apresentou como jornalista de crimes do jornal de Los Angeles, sugiro que o senhor avise ao FBI, pois tinha dois agentes aqui, os identifique para eles, assim saberão o que estavam fazendo.  Aproveite peça um aparelho, para verificar se não existem mais mulheres aqui, pois percebo que tem o jardim, bem como a lateral muito mexida.

Ajudou o xerife a ir retirando os que estavam por ali sem fazer nada, que fossem se afastando da casa.

Quando o FBI, soube, perguntou aonde se poderia aterrissar um helicóptero, lhes indicaram.

A agente imobiliária, disse que não entendia, essa cabana está desocupada, desde que o antigo proprietário morreu, na planta não consta esse sótão.

Há quanto tempo está vazia?

Ah pelo menos uns 10 anos, acredito eu, a herdeira é uma sobrinha que vive em NYC, nunca vem aqui, por isso colocou a venda, mas ninguém se interessa, pois o homem morreu ai sozinho levaram muito tempo para descobrir que estava na cabana.

Vou buscar na prefeitura para ver se tem mais alguma planta baixa do local.

Pelo retrato falado, os agentes saíram pela redondeza para procurar o assassino.

Ele como sempre tinha memorizado a figura do homem, buscou em sua mente qualquer outro detalhe.

Foi como se lembrar, enquanto ia caindo, usava uma calça do exército, bem como uma bota do mesmo, na camiseta tinha um nome, tentou se lembrar, sabia que fazendo algum exercício se lembraria, se afastou ficou olhando o lago, até que se lembrou, era uma abreviatura de ST de sargento.  Depois o nome começava com um H, mais estava difícil.

Quando apareceram os homens do FBI, que traziam o detector, logo começaram a encontrar outros cadáveres em volta da casa.    O agente ao mando, disse que estavam a muito tempo perseguindo alguém que dava carona na estrada, depois as mulheres desapareciam.  No caso só tinham dois homens jovens.

Tiveram que pedir ajuda, para a retirada dos cadáveres, que estavam dentro de sacos de necrotério.  Observando viu que um tinha uma marca de fabricação, disse aos homens que olhassem isso, como eram muitos, deve ter comprado ou roubado isso em algum lugar.

Montaram uma tenda imensa, para que os forenses olhassem esses cadáveres, alguns era mais recentes, outros estavam pior. 

Comentou com o que estava ao mando o que tinha visto, as botas, as calças, bem como o que estava escrito na camisa. 

Pela primeira vez o homem perguntou quem era, ele se identificou, vim ver a cabana para comprar, vi um dos agentes, não vi que se aproximava por detrás, por instinto me virei, ele perdeu o objetivo de me dar com a barra na nuca.

Bom esses agentes estava justamente atendendo a uma reclamação, num troço de estrada, desaparecem muitas mulheres, que estão acostumadas a se moverem por auto-stop, por isso estava por aqui.

Ou esse sujeito é da redondeza, ou algum paranoico do exército, mas acredito mesmo que dessa zona.

Dois policiais tiveram sorte, identificaram o sujeito, era da cidadezinha ao lado, um neurótico de guerra, vivia escondido na floresta.   Algumas vezes ia até a cidade para comprar mantimento.

Uns garotos que escutava comentaram que lhe tinha seguido uma vez, estávamos brincando de detetives, o seguimos, pois ele olhava muito para trás, levou muito tempo até perceber que o seguíamos, ai, tirou um revolver, deu um tiro para cima.

Reuniram um batalhão de homens, comandados por um do FBI, os garotos os levou até aonde tinha disparado, seguiram subindo.  Até que encontraram a cabana, mas em volta estava cheia de bombas enterradas, só ele deve saber como entrar aí.

O homem ficou atirando o dia inteiro.  Gritava palavras obscenas, soltava imensas gargalhadas.

Até que um lança bombas de fumo, o atordoou pela sequência que explodiu.  Guiados por um soldado, foram seguindo seus rastro, o capturaram.

Depois de atendido pela ambulância, esse não parava de rir, se eu escapei uma vez, posso escapar mil, dizia.

Quando levantaram a ficha do hospital psiquiátrico que estava, tinha escapado facilmente, pois o controle era mínimo.

Iria agora para uma de máxima segurança.   Consegui entrevista-lo bem como levantar sua ficha.  Como estava medicado, me falou quase num sussurro, contou como era sua vida antes do exército, numa família que o tinha adotado para explorar no trabalho braçal no campo, por isso era forte.

Tinha escapado para o exército, tinha participado de torturas com os presos em interrogatórios, motivo pelo qual sabia agir.  Fiz tudo que me mandaram fazer.  A partir disso, só passei a ter prazer abusando das pessoas.   Nem as putas me queriam, diziam que eu era uma pessoa desequilibrada.    Mas foram eles que me fizeram assim.

Contou caso por caso, como agia, tinha descoberto essa cabana, aonde sem querer limpando, viu a parte de baixo.   Sequestrava, depois abusava e matava as mulheres, mesmo os garotos a que dava carona.

Alguns lhe contavam de que estavam escapando, de alguma família que os maltratava, como tinham feito com ele, ou de um marido que pegava, ou mesmo de pais que queriam casar suas filhas a força.   A família se passa por vítima, mas eu aliviei o sofrimento dessa gente.

Voltou para Malibu, se fechou em casa, escreveu uma série inteira sobre o personagem. Era sua forma de vingança do parceiro que tinha numa produtora.   A maioria das vezes levava o crédito sozinho, pois os outros como ele eram seus empregados.  Mas desta vez, exigiu que seu nome ficasse sozinho.    Podia vender os direitos, mas tinha todos os capítulos escritos, tentaram negociar, levou a outros canais, acabou vendendo ao melhor postor.

Com o dinheiro comprou uma casa, entre o mar e montanha.  Precisava desse isolamento.  Tinha seu horário para escrever, quando queria algo novo, se movia a San Francisco, passava um mês observando a gente até que surgia uma história, ou Los Angeles, se alguma história policial lhe chamava atenção, entrevistava as vítimas, o assassino ou maltratador, para saber de aonde vinha o ódio, o problema.  As vezes a vítima estava no lugar errado, na hora errada.

Estava atento a todas as notícias.  Quando lhe procuravam procurando uma série ou material para um filme, revisava o que tinha escrito a consciência, para depois oferecer.

Escrever, escrevia tudo de uma só vez, mas depois tinha um outro processo, que chamava de revisão.   Não só fazia com a ortografia, mas com cada personagem, anotando a margem todo uma composição do mesmo, isolava o mesmo dentro da história, contando tudo sobre ele, como chegava ao ponto da história, seu desenvolvimento, nuances.  Quando sentia que história estava completa, a reanalisava outra vez.  Depois conversava mil vezes com o diretor, para lhe passar o conteúdo.    Passou a ser respeitando por isso.  Alguns atores diziam que o dossier que recebia da composição do personagem, por menor que fosse, era completo.

Quando encontrou com seu antigo chefe, além de ter sido seu namorado, riu com a cara do mesmo quando na hora da premiação tocou a ele, por dois trabalhos.

Tinha sido uma doce vingança.  Tinha sido explorado, humilhado por este, tinha escutado uma vez o mesmo falando nele.    “É incapaz de criar um personagem consistente”, filho da puta, se ele só fazia revisar o que os outros escreviam, depois roubar tudo.

Agia assim, porque vinha dos grandes estúdios americanos, aonde fazer isso era norma.

Algumas vezes, quando ninguém se interessava, lançava a história primeiro como livro, dava a entender aos produtores, que tinha o mesmo escrito com diálogos para o cinema ou televisão.

Nunca entenderiam seu processo.    Podia levar meses nas revisões.   Escrever, escrevia rápido, mas esse seguinte passo era mais complicado.   Uma coisa é lançar um personagem, outra era construir desde dentro do próprio.

Agora quando queria algum sexo, se alojava num pequeno hotel, buscava uma pessoa que o atraísse.

Saia um dia de uma discoteca, quando viu sentado muito mal numa calçada, um sujeito que tinha visto em algum vídeo pornô.   Estava ali drogado, mal conseguia respirar, chamou uma ambulância, o levou para um hospital.  O rapaz o olhou nos olhos, pediu não me deixe sozinho.   Ficou com ele todo o processo, três dias ali no hospital, pediu a um enfermeiro que lhe comprasse camisetas todas iguais, meias, cuecas, as ia jogando no lixo depois que tomava um banho.

Quando o rapaz finalmente esteve bem, perguntou se queria que o internasse numa clínica de reabilitação.

Para que, voltarei a cair, não consigo levar o peso disso tudo.

Queres vir comigo?

Terei que fazer sexo para te pagar?

Nem pensar, tens toda a liberdade de desconfiar, se apresentou, disse o que fazia, aonde vivia.

Ficou deslumbrado com a simplicidade de sua casa.  O panorama que se via dali, desceu como uma criança para um banho de mar, o acompanhou, ficou sentado num tronco, observando como se divertia.

Aqui não vem ninguém, perguntou?

Não, só se for de barco, o acesso, tem que passar pela minha propriedade.

Uma senhora mexicana, vinha todas as semanas, já com as compras feitas, preparava comida para ele, pediu que aumentasse pois agora tinha um convidado.    Ele nunca bebia, nem fumava.

Joel, ou Jo, enquanto ele escrevia, se sentava lendo um livro, nunca tive tempo.

Lhe deu um caderno, escreva o que não entendes, pois já li todos eles, assim depois discutimos.

Se acostumou a isso, sentar-se no final do dia, com ele discutindo o que tinha lido.

Riam muito, conversavam.

Acabou contando sua história.  Tinha ido para San Francisco, para escapar da cidade pequena que vivia.  Queria ser alguém na vida, quando seu dinheiro acabou aceitou o convite para fazer vídeos pornôs, a princípio, só era ativo, mas depois começaram a lhe dar drogas, para fazer de passivo.  Chegou um momento em que minha cabeça deu um nó.   Já nem sabia, quem era, tudo é tão automático, estas dopado, tudo que fazes é ruídos, que te pedem, beijas quem não queres, tens que estar sorrindo, quando queres estar em outro lugar.

Mas o idiota, chamava-se a si mesmo, dizia que da próxima vez não se enganaria com o dinheiro que lhe pagavam, acabava sim como sempre sem banca, pois gastava nas drogas.

Várias noites teve que se levantar, pois este tinha pesadelo, ficava segurando sua mão, quando se acalmava, sorria, seguia dormindo.

Um dia lhe perguntou por que fazia isso?

Talvez porque nunca tive filhos, nem parei para pensar nisso.  Tens idade para ser meu filho, se puder te ajudar, ajudo.

Conseguiu na vila uma professora, que o preparou para os exames que lhe faltavam, logo iria à universidade.   Sua preocupação era se o reconhecessem como faria.

Nada, tens que assumir, que fizeste, nada mais, faz parte do teu crescimento.  Se foges pela tangente, caíras nas drogas novamente.   Eu estarei ao teu lado para o que der e vier.

Tinha aceitado dar um curso de escrita de texto e roteiros para cinema na universidade, alugou um apartamento perto.    Muita gente pensou que tinham um relacionamento sexual.  Ficava furioso, ele tem idade para ser meu filho.

Conversando soltou, imagina, eu pensei que ias ter problemas, contigo querem fazer sexo, a mim me condenam, pois, pensam que tenho.   A sociedade é muito hipócrita, agora entendes por que vivo mais retirado.

Joel, surpreendeu os professores, por ser um excelente aluno, o mais inteligente da classe, quando algum companheiro o abordava, perguntava na cara se queria que ele comesse seu cu sujo.    Não tens dinheiro para pagar o meu preço.

Passou a fazer o curso com ele.   Primeiro exercício, era escrever uma texto baseado em sua vida.   Escreveu um tão cru, que os companheiros ficaram com a boca aberta.

Usou os termos que escutava desde criança, para saber que pensavam dele, como um idiota, um sujeito que tinha um corpo estupendo, mas que devia trabalhar no campo, produzir tanto quanto uma máquina, mas que no final do dia, nem um obrigado tinha.

O texto era excelente, o passou para o seu editor, que o leu, ficou pasmo.  

Apresentou Joel para seu advogado, que regulava com ele de idade, este negociou o contrato.

Joel ria, estou ganhando dinheiro com a minha própria desgraça.   Quando quiseram comprar os direitos para o cinema, queriam que ele fosse o ator.

Impossível, estou louco para ir para casa. 

Entendeu o que ele queria dizer por casa.  Mal começaram as férias foram os dois para lá, Joel estava nervoso, lhe perguntou por quê?

Sabe o que é estar o dia inteiro sendo bombardeado, por esses jovens superficiais, que me oferecem drogas o tempo todo.  As vezes não aceitam um não como resposta, tive que sair no braço duas vezes.

Aqui tenho paz.  Tinha comprado um laptop, uma mesa para seu quarto, esse também dava para o mar, estava escrevendo algo que não lhe mostrava.

Uma noite sentados na varanda, lhe segurou a mão.   Tens sido uma pessoa incrível comigo, não sei como te agradecer.   Primeiro pensei em me oferecer sexualmente a ti.   Mas sei que não me vês desta maneira.   Pior me apaixonei, quero viver aqui contigo.

Verás Joel, sou um merda na cama, nunca soube fazer sexo direito, te vás decepcionar.

Só saberemos se tentamos.   Foram devagar, sem preocupação, quando finalmente se viram numa cama, pensou que estava ficando louco, nunca tinha tido prazer assim com ninguém, ainda brincou que isso podia ser pior que uma droga.

Quando pela primeira vez o penetrou, viu sangue, no dia seguinte contra a vontade do Joel, o levou a um médico, depois de todos os exames, disse que os desgarros que tinha sofrido eram iguais de abusos sexuais.  Tinham que reconstruir uma parte do anus, antes que virasse um câncer.

Esteve ao seu lado todo o tempo, durante um tempo teve que usar uma bolsa de colostomia, não o deixou vir abaixo em nenhum momento.

Finalmente depois de muito tempo, voltou a ter vida normal.  Tinha um novo livro pronto, passou para ele.  Contava desde o momento que André Schumer o tinha encontrado sentado na calçada, todo o processo que tinha passado, construindo-se como pessoa.

O livro foi bem aceito pela crítica, mas ao assinar contrato com sua publicação se negava dar entrevista.   Sabia que as perguntas o arrasariam psicologicamente, não estou preparado para isso.  André sugeriu fazer como fazia, pois, odiava isso também.  Escolho sempre os jornalistas mais sérios, que me mandem a pergunta, aviso que só falo sobre o livro. Mas claro, a história é sobre ti mesmo, mas eu estarei contigo.

Pela primeira vez, apareciam juntos, sentados lado a lado, de mãos dadas.

Uma idiota, que tinha se colado através dos editores, fez uma pergunta ridícula, como era fazer sexo com um saco de colostomia.   André se levantou, a pegou pelo braço, a fez sair da sala, avisou ao publicista, avisa ao teu chefe que acaba de perder dois escritores.

Passou o resto do dia sem atender telefone, ao lado do Joel.  Este chorava como uma criança, pois os termos usados por ela tinha sido crus, como ele podia dar o cu, com o saco colocado.

Evidentemente o divulgador perdeu seu emprego.   Mas nunca mais dariam entrevista.

O seguinte livro dos dois, se completavam, falava do mesmo assunto, desde uma ótica diferente, André escrevia sobre como os meios de comunicação tinha virado uma coisa superficial, mas contava usando a história da própria entrevistadora, que ele foi rebuscar no lixo.   Quando publicou, está o quis processar.   Mas foi desaconselhada pelos próprios advogados.

Joel ao contrário, escreveu sobre as Fakes, pois tinha conhecimento de como funcionavam, uma notícia nunca era certa, ao ser expandida, se ia acrescentando cada vez mais, formou um personagem que sofria como um bullying de fakes, ao final já nem sabia o que era de verdade, não lhe restando escapatória, senão acreditar nos outros, pois ele mesmo tinha se perdido.

Os dois livros fizeram um sucesso imenso.   O do Joel, quiseram comprar para fazer um filme, ele aceitou, desde que o roteiro fosse dele como André.

Depois disso, foram os dois de férias, fazer uma viagem que os dois tinham construído o roteiro, tipo sem lenço nem documento.

Mas voltaram no meio da viagem, no momento mais feliz, quando Joel, pediu ao André, em casamento, não imagino minha vida sem ti.

Estavam viajando num carro, quando desceram numa posto de gasolina, André viu que Joel sangrava pelo anus.   Ele próprio não estava sentindo nada.

O jeito foi comprar um tipo de fraldas que usavam as pessoas de idade, voltarem para casa, ao hospital.    Tinha um tumor, que apesar da operação, tinha aparecido, novamente usar as bolsas, um novo martírio, mas não saiu de seu lado.  

André não podia conceber sua vida sem o Joel.  Tinha chegado a um limite no relacionamento deles, que se completavam até escrevendo.

Foi um processo doloroso.  Quimioterapia, direto, ele foi vendo aquele homem imenso, ir definhando a cada dia, ao final somente poderia aguentar com as drogas.

Joel se negou, eu não sai delas, para retornar ao fim da minha vida, é humilhante.  Seguiu escrevendo morto de dores, mas escrevia, quando lhe perguntava o que, lhe dizia, quando que já não esteja aqui, podes ler.

Dormia agarrado ao André, esse um dia despertou, estava frio, tinha morrido durante a noite.

Quando leu o que ele tinha escrito, chorou, tinha construído um personagem que escapa do processo de degradação, para retornar ao mesmo, para morrer.  Era um livro sem compaixão nenhuma, para que nunca lhe dissessem pobre de fulano.

Se ele conseguisse publicar, que esse dinheiro fosse para ajudar a jovens que saiam das drogas.

No dia do seu enterro, a quantidade de jornalistas era imensa, mas tinha pedido uma cerimônia simples, a pouco tempo tinha se reconciliado com a religião, como André era judeu, tinha se convertido.   A polícia foi chamada para colocar ordem.  Ele foi cremado, suas cinzas espalhadas pelo caminho que descia da casa deles até a praia.

André, passou a partir desse momento, horas olhando o que tinha escrito antes, vários livros sem publicar, modificando o mesmo, fazendo com que seus personagens fossem mais crus com a vida, nada era uma fantasia.   Nunca os finais seriam felizes.

Quando voltou a publicar, foi justo no momento que voltava a dar conferências, lhe perguntaram sobre isso.  A pergunta era capciosa, como um autor chega a isso.

Sua resposta foi, as primeiras histórias devem ter sido como os contos de fada, amaram-se para sempre, comeram perdizes.

Mas se pegamos a Bíblia, sacrificaram Jesus, depois os que lhe seguiam eram sacrificados nas arenas de Roma, como Pedro, depois veio a inquisição, as guerras nunca cessaram.   Quem pode dizer que depois das guerras, os que sobram por aí, tem um final feliz.  Se consegues ver assim, parabéns vives numa utopia.    Porque na verdade, desde que nascemos, estamos fazendo um esforço imenso para sobreviver a tudo.

Estava falando, em seguida do seu processo de escritura, que tinha uma quantidade de textos basicamente prontos, mas aos quais ele exercia o poder de revisar continuamente, conforme andava o mundo.

A mesma pessoa lhe perguntou por quê?

Bom, se paras para pensar, depois de um livro editado, não sou mais proprietário do personagem, ele ganhou vida própria, pode sair pelo mundo, distribuindo porradas a torto e direito.    O mesmo se paras para pensar, o governo não assume que os feridos, incapacitados, os que viram o horror da guerra.  Nunca poderão realmente se sentir como se nada tivesse passado, escondem dentro de si, feridas que jamais serão curadas.   Podem cometer crimes, como alguns que eu já descrevi, sem remorso nenhum.

Virou-se para quem fez a pergunta, o senhor, já cometeu algum crime, ou sofreu alguma coisa, ou passas pela vida como se tudo fosse um mar de rosas?

O homem se levantou, ficaram se olhando nos olhos, não perdi toda minha família, inventei um outro personagem para poder sobreviver, mas cada vez que leio seu livro, o li várias vezes, vejo que errei, em não aceitar que o que aconteceu foi real, pois o vazio é imenso.

Depois da palestra se aproximou, se apresentou. Gustav Adolf, tinha sido um grande atleta, tinha perdido toda sua família num acidente, o único que se salvou, tinha sido ele que vinha deitado no banco detrás dormindo.

Quando despertei estava no hospital, entubado, sem saber nada, todo que tinha em minha volta era branco, como significasse que estava igual, vazio.

Durante minha infância, juventude, sacrifiquei tudo pelo esporte, não tinha tempo para ter amigos, quando não estava treinando, estava estudando para conseguir uma bolsa de estudo por esporte.  Fui esportista olímpico, depois de competição.  Estava sempre como meus pais e meu irmão menor, que acreditava que eu era invencível, mas o acidente trucou tudo, perdi o movimento das pernas, tive que fazer várias operações, aprender a andar.  A única coisa que valeu a pena, foi esse personagem que criei, que tinha estudado, tinha um titulo universitário, mas que sua profissão não era a que queria, nos únicos momentos vagos da infância, adolescência e juventude como atleta, estava sempre com um livro na mão, criando fantasia, mergulhava nas histórias, como se elas fossem reais, sempre tudo acabava bem.

O bem, vencia o mal, eram sempre felizes para sempre.   Quando li os livros do Joel, depois os seus, vi que nada do que eu pensava era real.   Comecei a me cobrar, fui a psicólogos, a terapeutas, para esclarecer minha cabeça, alguns me tentavam fazer, ver o lado positivo da vida, mas eu tinha medo, medo de perder tudo outra vez.

Esse seu livro fala da perda, essa é a questão.   Pelo que o senhor fala, habitavam o paraíso, mas cada vez que saiam a crua realidade o atingia de frente.  Isso me acontece sempre, cada vez que alguém me reconhece, ao mesmo tempo se lembra do que me aconteceu, impossível esquecer, é como a sociedade não te deixasse ir em frente, colocasse uma ancora, tens que ficar aqui maldito, sofra.

Muitas vezes pensei no suicídio, mas sou covarde, nunca passei dos planos. Não perceberam que tinham saído do recinto, continuavam caminhando lado a lado, conversando.  Sentaram-se numa das muitas praças da universidade.   Se viam os jovens correndo, rindo, se beijando, saindo em carro do local.    A pergunta que me faço, eles são felizes, estão preparados para o que vem depois.

Depois alguns se casam, formam família, apreendem a sobreviver juntos, lutam, amam, desamam, sorriem, choram, se desesperam, a vida é isso um contínuo movimento, como as ondas, quem dizia isso era o Joel.

Por isso com ele, aprendi a fazer desse momentos raros, como se esticássemos uma goma, ele ia pedir que eu me casasse com ele, achava que isso nos faria eternos.

Se esquecia das nossas diferenças de idade, eu poderia ser seu pai, mas o amava acima de tudo, pois me ensinou a amar de novo.   Antes de morrer me dizia que eu não devia ficar sozinho, que devia compartilhar o que escrevia.    Um dos motivos por que escrevo, reescrevo, nem sei se tudo que tenho guardado, um dia será publicado, mas não importa, foram maneiras minha de me expressar, de criar vida para meus personagens.

Hoje tento que sejam reais, como uma maneira de irem sobrevivendo dia a dia, choro com eles, quando leio suas histórias, pois deixaram de ser minhas, estão guardadas, mas estão vivas.

Sorriam um para o outro, olhou para o relógio, tenho que ir, meu caminho é longo até em casa, a não ser que querias vir comigo.  Gustav se levantou como num salto, claro que sim, mas só tenho essa roupa.

Tens meu tamanho te empresto algo.

Chegaram à noite estava fechada, mas a lua brilhava sobre a pequena baia.  

Gustav soltou que quase podia ver como o Joel a descrevia.

Ficaram conversando na varanda, um bom tempo, depois o levou até o quarto de convidados, lhe instalou.

Fazia muito tempo que não dormia assim, relaxado, como se o fato de ter falado tanto o deixasse a descoberto.

Quando despertou, não viu movimento nenhum na casa, se levantou, Gustav não estava dentro de casa.  Passou por sua sala de trabalho, tinham removido a mesa, as pessoas quando são sistemáticas tem tudo em ordem.  Tinha um segredo, seus texto ficavam guardados num cofre imenso, atrás de uma estante que se movia.

Olhou para a praia, o viu sentado numa pedra.   Desceu até lá, com duas canecas de café.

Desculpe, levanto cedo, sem querer, fui ao teu escritório, ser se tinha algum texto novo, para ler, mas não encontrei nada.

Sorriu, nunca deixo nada a vista, quando vou de viagem, guardo tudo.

Fiquei curioso por se acaso tinha algum texto do Joel.

Sim, tem, uma cópia está com o editor, a outra num cofre num banco.

Posso ler?

Não, só depois de publicado.

Estás diferente?

Hoje de manhã, me lembrei de aonde te tinha visto antes.   Estavas no hospital, quando Joel esteve internado pela primeira vez.   Ele comentou que uma pessoa tinha entrado no quarto, para falar de seus vídeos.

Achou estranho, se dizia seu fã.

Qual a tua ideia se aproximando de mim?

Queria saber que tipo de homem pode amar tanto uma pessoa que se submeteu a tanta violência.

Por favor te vista que te levo a cidade.   Estava furioso, se sentia invadido em sua privacidade.

Depois de o levar até a entrada da cidade, apesar de saber que não o deixaria em paz, alguma coisa o inquietava, qualquer coisa não encaixava.

Tomou uma decisão, retirou todos os textos que estavam no cofre, textos não publicados, os levou a um banco, alugou duas caixas imensas, guardou tudo lá.

Seguiu seu instinto, mandou colocar um sistema de segurança, reforçou portas, janelas, avisou ao xerife.

Foi para sua casa de Malibu.   Dias depois, entregou um texto que estava trabalhando para a continuidade de uma série, resolveu terminar a viagem que tinha começado com Joel.

Estava em Barcelona, pronto para embarcar para Tel Aviv, quando o xerife conseguiu falar com ele.

Gustav tinha tentado entrar pela segunda vez na casa, mas desta vez o tinham pegado em flagrante, queria saber o que devia fazer.

Disse que essa pessoa o estava acossando, que o deixasse de molho, procura-se saber se tinha estado em algum hospital psiquiátrico.

Embarcou para Israel, aonde ficou mais tempo que pensava, acompanhando uma história, que lhe dava margem a escrever um livro.   Um casal que raptava bebês, ou os comprava, para jovens casais ultra ortodoxos, que eram parentes consanguíneos, para evitarem terem filhos com problemas.

Como sempre se desligou o celular, para poder se dedicar corpo e alma a história.

Só quando voltou carregado de anotações, reportagens, entrevistas que tinha feito, algo de texto começado sobre essa nova história, que soube que o xerife o tinha chamado várias vezes.

Tinha descoberto que Gustav, nem se chamava assim, era o irmão mais jovem que tinha sobrevivido ao acidente, usurpando a identidade do outro.  Estava internado, mas tinha pedido que fosse vê-lo.    Só falaria com ele.

André tomou seu tempo, escreveu sobre a história de Israel, sabia que havia um personagem que tinha desencadeado tudo isso, que vivia em NYC, pediu uma entrevista, enquanto aguardava, escreveu, reescreveu a história, analisando de vários ângulos, inclusive falava do casal, a mulher tinha morrido de um enfarte, mas seu marido, o rabino que comandavam essa rede, estavam presos, os tinha entrevistado.   O rabino, era completamente fora do normal, um homem de quase dois metros de altura, cabelos imensos, um olho verde, outro azul, se achava um enviado de deus, para criar uma comunidade perfeita.

Levantou toda sua história, de aonde tinha saído esse homem.  Ao final foi descobrir, que sequer era judeu, tinha vindo da Rússia, escapando do regime.  Se fez passar por judeu, acabou acreditando na sua própria versão.  Estava condenado a cadeia perpetua, por roubo, por instigar as pessoas a cometerem um grave delito.

Quando foi a NYC, entrevistar ao personagem que sem querer tinha destapado tudo, foram três dias de conversa, principalmente como ele tinha conseguido sobreviver a tudo isso, como tinha sem querer descoberto que não era filho do casal.  Sim um garoto comprado, só não tinha sido adotado, pois pensavam que a mãe era viciada em drogas.   O que não era certo, depois de uma análise de seu corpo.  Tudo tinha sido doloroso, mas tinha superado, inclusive encontrado seu pai verdadeiro.

Ficou ainda dois dias no hotel, escrevendo tudo isso.

Tinha avisado ao hospital psiquiátrico que iria visitar o Gustav.  Embora soubesse que esse nome não era o seu verdadeiro.

Lhe retificaram no hospital, ele na verdade se chamava Xavier Adolf, pois tinha nascido em Barcelona.  A diferença de idade entre os irmãos era grande.   Quem primeiro tinha desconfiado dele, tinha sido o terapeuta, pois não tinha músculos de atleta, tampouco sua massa muscular condizia.   Foi quando desapareceu, assumindo a identidade do irmão.

Conversou muito com o médico que acompanhava o caso.  Se negou a contarmos sua versão, disse que só a contaria ao senhor, porque o entenderia.

Quando o viu, ficou com uma certa lastima, o homem que tinha conhecido, tinha os olhos brilhantes, esse eram apagados.

Ah dois dias que não permito que me deem medicamentos, queria estar com a cabeça despejada quando falasse contigo.

Mal ele se sentou, com uma voz de comando, lhe disse que gravasse ou anotasse tudo.

Ele fez os dois ao mesmo tempo, seria importante depois escutar a voz falando.

Tudo começou quando nasci, meus pais não queriam mais um filho, pois tinha o outro para treinar, educar.  Viviam de explorar sua capacidade técnica, era um adolescente pronto para conquistar o mundo do esporte.   Podia correr, disputar triátlon, competição de natação.

Fui relegado a segundo plano desde bebê, me alimentava, mas eu era um espectador de tudo que acontecia.  Mal tive infância, ou adolescência, estávamos sempre nos movendo de um lado para o outro, foi Gustav quem me ensinou a ler, escrever, me passava seus livros, discutíamos as histórias de noite, no escuro do quarto, em sussurro.  Pois se nos pegasse acordados, era eu que levava a surra, por estar incomodando a ele.

Mas me defendia, uma vez tentou que pelo menos me internassem numa escola, para estudar, diziam que não queriam gastar dinheiro da sua aposentadoria com um inútil.

Porque para o esporte eu não tinha tendência nenhuma, não gosto de nadar, correr me parece uma inutilidade, as outras coisas nem de longe.

Gustav estava farto de tudo isso, queria ter sua própria vida, construir seus sonhos, descobriram que estava tendo uma relação com um companheiro, fizeram um escândalo enorme, o outro era que tinha corrompido seu bibelô.

Quando o acidente aconteceu, íamos de uma competição a outra, discutiam porque Gustav tinha ficado em segundo lugar, não em primeiro.  Eu estava sentado atrás, farto de tudo isso, foi quando o filho da puta do velho soltou que se pelo menos eu não fosse um inútil, se tivesse alguma capacidade atlética, eles poderiam ter sua aposentadoria de ouro, que tinham tido o Gustav simplesmente para isso.   Eles eram descendentes de raças pura, claro eram alemães, acreditavam em Hitler, daí o nome do Gustav.     O sobrenome Adolf nem existia, tinha sido inventado por eles, como uma homenagem ao seu ídolo.

Mostraria sempre ao mundo que eram uma raça superior.   Que eu devia ter genes errados, ou me tinha trocado no berçário, pois era mais moreno, olhos castanhos, nada parecidos com os deles.   Gustav teve um ataque histérico, começou a gritar que parassem o carro, estávamos numa estrada cheia de curvas.

Com a ideia de parar o carro, agarrei o pescoço do nosso pai, o comecei a estrangular com todas minhas forças.   Gustav lutava com ela, tentando abrir a porta do furgão, que era ao mesmo tempo tudo o que tínhamos, vivíamos basicamente nela.  Nada de gastar dinheiro com hotéis, restaurantes de primeira, nada.

Fui apertando cada vez mais o pescoço dele, até que este estalou, o furgão ficou descontrolado, caímos por um barranco imenso.  Caiu de frente no chão, muito mais abaixo.  Os que estavam diante morreram no ato, menos meu pai que já estava morto.

Eu adorava o Gustav, por um acaso estava com a camiseta do último campeonato que participara, então me confundiram com ele.   Deixei, até que o fisioterapeuta descobriu que não era desportista.

Desapareci no mapa, troquei de nome definitivamente, assumi tudo dele, consegui recuperar o dinheiro que meu pai tinha escondido,  nunca dariam nada para o Gustav, não sei o plano que tinham, se era matar os dois, para usufruírem a vida deles simplesmente quando ele deixasse de render, ganhar dinheiro nos colocassem na porta da rua.

Foi quando li os livros do Joel.    Me apaixonei por ele, ao saber sua história, procurei pelos vídeos, me sentia loucamente enamorado, me masturbava todas as horas, olhando esses vídeos.

Quando soube que estava no hospital, fazendo a operação, fui lá.  Esperava que saísse, para tomar um banho, ou resolver alguma coisa, para me aproximar.

Consegui falar com ele, me declarei.    Ficou muito assustado, disse que eu fazia confusão, que ele não estava mais nessa vida, lhe ofereci dinheiro, mas disse que te amava, que por nada no mundo ia te perder.

Passei a observar de longe, como o cuidavas, senti inveja dele, nunca ninguém tinha me tratado assim.

Depois vocês desapareceram, só voltaram a aparecer quando lançaram os livros falando do mesmo assunto com visões diferentes, fui a entrevista.

Mas tornaram a desaparecer, quando ele morreu, fui a cerimônia, mas não me deixaram passar, eu não entendia, o amava, talvez mais que tu a ele.

Finalmente consegui me aproximar, não dele como queria, mas de ti.   Queria saber se no novo livro, ele falava do nosso encontro?

Não, estendeu para ele o último livro do Joel.   Em momento algum fala de ninguém, fala sim do sentimento de saber que vai morrer, não tinha desta vez por aonde escapar.

Fala da frustração de ter suplantado mil coisas, do amor, da petição de casamento que me tinha feito.   Nos casamos no último dia que estava lucido, no hospital.   Depois fomos para casa, ele queria morrer lá.

Sei que o salvaste de si mesmo, esperava quando te encontrei isso, mas claro minha curiosidade era maior, por isso mexi nos papeis, para ver se encontrava alguma coisa.  Pensei que o tinha impressionado.

Ele só me comentou que um homem o tinha ido ver, que lhe tinha proposto viverem juntos, para fazerem sexo.    Mas ele, tinha passado por uma operação dolorosa, usava a bolsa, não podia pensar nisso.

Como desconfiaste de mim?

Alguma coisa não encaixava, resolvi atender aos meus instintos.

Tinham sido dois dias conversando, Xavier, me contou detalhes da vida dele como irmão, que ao não ser permitido que tivessem amigos, Gustav, tinha relações sexuais com ele, por isso o amava tanto.

Ia para a terceira entrevista, quando o hospital me avisou que tinha se suicidado, como o vimos mais relaxado, imaginamos que não precisava de tanta vigilância.

Fui o único presente além de advogado, médicos, enfermeiros ao seu enterro, ficaria num tumulo raso ali mesmo no psiquiátrico.

Quando acabou o livro sobre o caso de Israel, o revisou como sempre mil vezes, mandou uma cópia para o rapaz de NYC, quando deu visto bom, publicou o livro.

Só então mergulhou na história de Gustav/Xavier, começou a buscar indícios sobre seus pais, foi relativamente complicado, pois os dois tinham mudado de nome ao entrarem nos Estados Unidos como emigrantes.    Pertenciam a uma célula Neo-nazi, afincada nas afora do Estado de New York, no campo, uma pequena vila.

O pai, tinha vivido toda sua vida, na Europa de leste sobre o mando comunista, colaborava para sobreviver, até que conheceu sua mulher.  Quando fugiram delinearam seu plano, um filho que pudesse levar o nome do venerado Adolf Hitler, dai o sobrenome Adolf.

Realmente o segundo filho não era esperado, fizeram um escândalo, pois a criança segundo os dois não se parecia com eles.   A paixão do irmão mais velho pelo pequeno, muitos outros atletas confirmaram em entrevista, que Gustav estava sempre ensinando seu irmão, que os dois estavam sempre com algum livro na mão, discutindo a história que liam.

Que o pai, quando os pegava fazendo isso os ameaçava, mas falava alemão o tempo todo com os dois.

Um deles comentou que uma vez tinha visto Gustav com outro atleta nos chuveiros, lhe deu o nome.

Este a princípio negou tudo, mas depois o foi visitar no hotel, não podia falar em sua casa, pois estava casado, tinha filhos.   Contaria se ele prometesse nunca colocar seu nome na história.

Contou que tinham se apaixonado, mas que o velho fez um escândalo, quem nos denunciou foi Xavier, pois Gustav lhe contou que tinha com ele, relações sexuais, pois o pai, nunca permitia que tivesse com outros.

A família nas últimas competições, aonde Gustav ganhava muito dinheiro, discutiam por isso, vi seu pai lhe ameaçar com um cinturão, não entendia por que não se defendia, pois era mais alto, mais forte.  Talvez porque tinha que proteger Xavier.

 

Levei um tempo para refazer minha vida, seu pai sempre tentava boicotar minha presença em alguma competição.   Na sua última competição, perdeu justo para mim, creio que fez de propósito, pois era melhor do que eu.

O velho montou um escândalo, não aceitando o resultado.    Realmente podem ter feito um engano, pois todas as roupas do Gustav, depois passavam para o irmão.    Este o seguia como um cachorro, ansiando por um instante de atenção, pois os pais o ignoravam.   Vi muitas vezes em algum restaurante, que ele comia a comida deixada de proposito por Gustav, ou comia o resto dos pais.   Seu ódio por eles devia ser imenso, principalmente pelo velho que os maltratava os dois.    Pelo que Gustav me contou, não tinha acesso nenhum ao seu dinheiro, pois o velho controlava tudo.   Imagine a figura da mulher, com os cabelos loiros esticados, ao máximo, apertados num coque, como uma professora solteirona.  Claro entre eles estava o Xavier.   

Fui a cidade na antiga Alemanha de Leste, de aonde tinham saído.  Todos os dois tinham sido jovens da juventude Hitleriana, depois da guerra, ficaram do outro lado do muro, ela se casou com um médico, ele era da polícia.

Ela usava o que descobria através do marido, para denunciar as pessoas, ele era seu contato, se transformaram em amantes.

A última vítima dos dois foi justamente o médico, que foi assassinado, antes de fugirem.

Ele tinha preparado documentos que trocavam seu sobrenome para Adolf como uma homenagem a Hitler, coisa da cabeça deles.    Quando perceberam que o filho tinha possibilidades, ele que nunca parava em emprego nenhum pois se considerava superior aos demais, viu nisso uma oportunidade.  Gustav não tinha escapatório, estava fadado a ser o maior.

O Xavier, ela o teve durante a menopausa, quando descobriu que estava gravida, não com um problema que a fazia engordar, não podia abortar.

Fizeram inclusive teste de ADN, para saber se o garoto era mesmo filho deles.  Mas o consideraram um estorvo.

Na Alemanha, quando se tocava no nome dos dois se falava horrores, de famílias que tinham perdidos familiares, das chantagens que faziam, alguns gritavam inclusive “filhos da puta”.  Que tinham denunciado o marido dela, como informador dos americanos, pois tinha familiares na américa.

Escreveu o livro, analisando cada personagem, o retorcido que era a família.

Decidiu que seria seu último livro, já estava com muito idade, pois se movimentar tanto para saber a verdade era complicado.

Se isolou na casa, destinou seu dinheiro para ajudar aos que necessitavam, como tinha pedido o Joel.

Viveu o resto de sua vida tranquilo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

miércoles, 5 de mayo de 2021

ALL FOR SURVIVING

 

                                    ALL FOR SURVIVING

 

Pela primeira vez em sua vida se sentia livre.   Não tinha que fingir que era outra pessoa, mas claro tudo tinha seu preço.

Estava no meio do deserto, num furgão velho que tinha roubado, trocou sua placa por outro veículo, tinha seguido Peter até ali, assim que acabaram de esconder as bolsas no furgão, Peter estava borrando as impressões digitais do volante quando ele lhe aplicou a injeção paralisante que devia ter usado com Bob, no seu pescoço, o ficou olhando com um olhar de suplica, lhe disse, assim olham as tuas vítimas para ti, começou a colocar gasolina no carro inteiro, bem como o banhou na mesma.   Já tinha visto o Peter fazer isso com alguma vítima sua.

Pensou é a hora da revanche das pessoas que já mataste.  Viu seu olhar de desespero, graças a deus não podia falar, porque senão tentaria convence-lo, isso não podia permitir, sempre estava fazendo algo que sabia que era errado, por culpa dele, com medo que o matasse, agora tinha chegado sua vez.   Esvaziou o segundo galão, tocou fogo, ficou vendo de longe o que acontecia, mas sem olhar o Peter.

Se estivesse vivo diria que era um excelente aluno.  Estava sempre sobre vigilância, as poucas vezes quando era menor que tinha tentado escapar, tinha levado uma surra de fazer gosto, as vezes ficava uma semana na cama sem poder mover-se, o pior era que o penetrava mais vezes.

Como bom aluno fez o que ele teria feito, com uma pá, retirou seus resto carbonizados do carro, colocou dentro de uma bolsa negra, dessas de funerárias, levou quilômetros adentro, enterrou no meio do deserto, alisou bem a areia, para que fosse difícil de descobrir.

Passou de novo pelo carro carbonizado, sabia que a única coisa que encontraria, seria o líquido que o corpo desfeito podia ter deixado.  Ele não devia ter relaxado.

Agora talvez pudesse viver mais relaxado.   Seguiu em direção a Las Vegas.  Iria fazer o que sempre faziam, distribuir por vários bancos o valor que levava em cima.

O resto, Peter tinha esvaziado as contas dos clientes do banco, transferindo tudo para as ilhas Cayman, dela para a Suiça.   Teria que ir até lá com a clave que sabia de memória, para retirar.

Estaria com a vida tranquila por muitos anos.

Tinha sido comprado pelo Peter, por um traficante de crianças roubadas, esperou que ele tivesse até os oito anos, para abusar dele, mas apesar da pouca idade, já o tinha visto em ação, da mesma maneira que as crianças apareciam, eram abusadas, desapareciam, ou a matava ou passava para frente.  Porque ele ficava era um mistério.   Talvez seu corpo em defesa, tinha ficado como um corpo de um garoto, calculava que teria entre 16 a 18 anos, mas tinha corpo de um garoto, a única coisa que tinha se desenvolvido era seu caralho que era grande.  Peter um dia resolveu usá-lo, talvez pela idade, tinha cada vez mais dificuldades de colocar o seu ereto, passou a usar constantemente, tinha que o penetrar todos os dias.

Nessa última casa que viveram, pelo menos tinha um banheiro no seu quarto, terminava de fazer sexo com ele, ia para seu quarto com a desculpa de estudar ou que ele roncava muito.

Se metia embaixo do chuveiro, ficava um bom tempo se lavando, como isso pudesse tirar a sujeira e o nojo que sentia.

O golpe do Peter era, chegar numa cidade pequena, mas próspera, arrumar um emprego no banco, um funcionário sempre desaparecia para ele ocupar seu lugar.   Ganhava a confiança de todo mundo, preparava tudo, nos últimos anos pelo menos esperava ele acabar o ano letivo, para dar o golpe, então uma noite ia ao banco, transferia tudo para as ilhas, iam embora na calada da noite.  Mas desta vez a coisa foi diferente, dizia que tinha que ser a última pois estava ficando velho, queria desfrutar a vida.

Duas famílias na cidade não tinham conta no banco, uma eram duas mulheres, que nunca depositavam nada, tampouco tinham conta em algum banco nas cidades em volta, ele tinha procurado.  Fez amizade com elas, as tinha assassinado dois dias antes de escaparem. Como viviam isoladas, as aprisionou, até confessarem aonde estava o dinheiro.  Depois a cada uma colocou uma pedra atirou mais abaixo no rio que passava pela cidade.

A outra família, vivia numa mansão, era a casa do seu amigo Bob.

O conheceu de uma maneira especial.   Normalmente quando chegava a uma escola nova, era o mais baixo da turma, tinha ordem de não se defender para não chamar atenção, tinha aprendido sim se proteger.   Mas o pegaram de fazer gosto, se não fosse o Bob, que era capitão do time de futebol americano, teria se lascado.  Este o levou a sua casa, uma bela mansão em estilo vitoriano.   Disse que seus pais estavam viajando.   Sempre estou mais ou menos sozinho, a não ser os dois empregados, fico abandonado.

Cuidou dele, pediu a empregada mexicana que o ajudasse a curar suas feridas, almoçou lá. Quando Peter descobriu, esfregou as mãos, é a outra família que não tem conta no banco, tens que fazer amizade com ele.  Passou a treinar com ele, ficaram amigos, Bob disse que nunca tinha amigos, não estranhe quando meus pais estejam aqui, se me vês com eles, fingirei que não te conheço, pois são capazes de infernizar a vida de qualquer um.

Depois com o tempo, contou que era filho adotivo, não sabia tampouco de aonde tinha saído, mas ela queria um filho, isso ajudava a esconder a identidade deles.  Depois de seis meses, um dia estavam na piscina, ao sair, viu que Bob olhava para ele.  Para um garoto tão pequeno tens um caralho imenso.  Tinha ficado excitado de ver Bob sem roupa.  O levou para seu quarto, fizeram sexo pela primeira vez.   Ficou enamorado dele, nunca tinha tido carinho nenhum, isso fez que seu amor fosse correspondido. 

Bob lhe contou que atrás de um quadro imenso da biblioteca escondia um cofre grande, sabia por que sua mãe um dia lhe disse, se nos passa algo, abra, tem documentação diferente, pegue o que possa, desapareça.   O dia que lhe mostrou como fazia, memorizou como fazia sempre o código, viu que tinha que usar o polegar também.  Contou tudo ao Peter, esse planejou, quando formos embora, se os pais dele não estão matas a ele, levamos tudo.

Ele na verdade conseguiu duas injeções paralisantes, escondeu uma, nessa noite quando esteve com o Bob, lhe colocou um pouco na nuca, lhe falou ao ouvido, não se preocupe, vou te proteger, espere a maré ficar calma, eu volto a te procurar.  Contou o que ia fazer, para todos efeitos estas morto.  Abriu o cofre, retirou todo o dinheiro que estava ali, em maços de notas grandes, depois olhou os documentos, uau, são ladrões também, pensou “ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão”.

Os documentos ia mandar para o FBI, colocou num envelope, usando luvas, mas fez com que Bob apertasse a sua, lhe mostrou o documento que a mãe dele lhe tinha falado, disse aonde estaria escondido.  Quando tudo fique calmo, busque esse documento, terás dinheiro para se mover.

Peter apareceu com um carro, colocou as duas bolsas nele, perguntou pelo Bob, lhe dei a injeção, o deixei atirado na porão, ninguém vai lá.  Morrera ali embaixo abandonado.

Três cidades depois, ele entrou numa farmácia, comprou tinta para os cabelos, voltava a ser loiro outra vez.   Num motel, raspou a sua cabeça, passando a tinta, Peter fez o mesmo, além de colocar lentes azuis.

Foi quando entraram no deserto, ele com o velho furgão, Peter no carro.   Fez o que tinha planejado fazer.     Pensou que sentiria culpado, mas nada, tampouco remorsos, tinha sido tão maltratado que se sentia livre.   Não tinha sido uma vingança, mas bem o instinto de sobrevivência.    Numa aula a pouco tempo um professor tinha falado nisso.

Antes de entrar em Las Vegas, saiu da estrada principal, se internou no deserto entre montanhas, já tinha feito isso antes com o Peter, enterrou as duas bolsas de dinheiro, retirou somente alguma coisa, para pagar um hotel pequeno, barato, para não chamar atenção, imagina com a cara que tinha, chegar num hotel caro, pedir um quarto seria o mesmo que acenar uma bandeira dizendo estou aqui.

Vendo o jornal da televisão, ficou em dia com o que tinha acontecido.   Os empregados denunciaram que Bob tinha desaparecido, avisaram seus pais, mas antes a polícia, essa o encontrou no porão, amordaçado, algemado, em uma cadeira, desacordado, levaria mais um dia para despertar.  O cofre aberto, quando acionaram o FBI, estes já tinham os documentos que estavam no cofre, os pais dele não podiam se aproximar, pois seriam presos.

Uma das matérias dizia, pobre menino rico.  Ao mesmo tempo falavam do Peter, que tinha dado um desfalque no banco.   Diziam o valor que tinha transferido.   Era impossível rastrear tudo, pois já estava na Suiça.

Por enquanto o dinheiro ficaria aonde tinha deixado, tinha que descobrir se era dinheiro marcado.  Experimentou numa loja, pediu uma coisa a caixeira, enquanto ela foi buscar, passou a nota pela máquina, nada era normal.   Voltou aonde tinha escondido, retirou uma boa quantidade, alugou um pequeno apartamento, tinha deixado a barba aparecer, trocado o estilo de roupa, passava por um homem de estatura baixa.   Arrumou um emprego num casino, com seus documentos falsos.  Ficaria um tempo de molho.  As notícias continuavam saindo.  O FBI tinha levado o Bob para Washington, mas ele nem tinha ideia do que falavam, não sabia nada, a não ser que os pais viajavam muito.   Quando finalmente o liberaram, pode voltar para casa, mas tinha ordem de despejo, pois a mesma na verdade pertencia ao banco, era alugada.  Era também vigiado 24 horas do dia, tanto pela polícia como pelos jornalistas.  O chamavam de pobre menino rico.  Tanto para um como para outro esse ano seguinte na faculdade estava perdido.

Foi levando sua vida, observando tudo, todos os dias trocava uma das notas altas, por uma já usada.

Alugou um carro, foi até a cidade vizinha, comprou um celular descartável, chamou a mexicana que cuidava do Bob.  Falou com ele, ninho.  Foi tudo que disse, desligou, destroçou o celular, não poderiam localizar.

Foi até o esconderijo dos dois, ficou ali vigiando, até que ele pode aparecer. Se abraçaram, mas se afastou em seguida, em que merda me meteste?

Bom os dois já estamos na merda a muito tempo, contou sua história, não é muito diferente da tua, não lestes os documentos que os que te adotaram tinham no cofre, viviam de dar golpes, depois corriam para cá para se esconderem.   Eram buscado pelo FBI a anos, bem como meu pai.  

Aonde está ele?

Morreu, aí lhe contou tudo, os anos de abusos sexuais, ter que participar de golpes a força, outras coisas mais.   O que quero saber é se vais estar comigo.

De momento não posso, eles cairiam em cima dos que me cuidaram esse tempo todo, um dia nos encontramos, pois tenho que digerir tudo isso.   Eles me chamaram, estão escondidos por aí, não sei o que fazer.  

Conte tudo o que sabes ao FBI, é o melhor.  

Pensam que fui eu que mandei os documentos.

Lhe contei o que tinha feito, o envelope tinha tuas impressões digitais.  Digas que desconfiava, por isso, com eres adotado, menor de idade, nunca participaste de nada, não podem fazer nada contra ti.

Da mesma maneira que tinha vindo, desapareceu.    Pintou novamente os cabelos, de negro, para poder usar um passaporte que tinha, vez uma viagem meio louca, primeiro foi a Berlin, de lá a Paris, para finalmente ir a Berna na Suiça.    Se apresentou com o código que tinha, agora parecia mais homem, com a barba grande que tinha, além de um bigode.

Quando viu o montante, retirou uma parte, ingressou num banco de investimento, outro tanto numa conta particular em seu nome, mas em outro banco, assim poderia usar cartões de crédito.

Quando voltou procurou se informar através de internet, usando cyber café, para saber da situação do Bob.  Seus pais continuavam desaparecidos, mas ele, estava como sempre com os mexicanos.

Foi para San Francisco, mais especificamente para San Sausalito, arrumou um pequeno apartamento com uma vista espetacular, bem como um emprego num armazém, enquanto buscava uma maneira de contatar com o Bob.   Quando conseguiu, este riu, agora entendo tudo, agora tenho um celular desse de usar e atirar, passou o número, se falaram.

Dentro em breve te procuro.  Fez a mesma coisa que da outra vez, mas desta vez ficou quieto, pois temia uma traição.   Quando finalmente se viram, fizeram sexo.  Estava louco para te ver, agora entendi tudo.   Sei que fazia parte da fachada deles, nada mais que isso.  A irmã dela confirmou para o FBI, que eu não era filho deles, mas tinham me comprado para fazer a fachada, mas se negou a ficar comigo.  

Ainda estão te vigiando?

Sim, tem pelo menos dois, que estão sempre por ai, eles fizeram contato através da senhora que me cuida, queriam saber se eu tinha participado no roubo, ela fez um escândalo, como era possível isso, se tinha passado dois dias no porão amordaçado,  impossível, mas não acreditaram muito.    Bob agora estava com os cabelos largos, os companheiros da escola agora, quando me veem trocam de calçada, não querem falar comigo.

Lhe disse, amanhã, vá para a estrada, espere um carro cinzento, parece um taxi, mas não é, tenho os documentos falsos, tome o dinheiro que deixei.  Fizeram sexo outra vez.

No dia seguinte, ficou de guarda perto, tinha chamado um taxi cinzento, este chegou parou, mandou o Bob subir, fiquei esperando para ver se alguém o seguia, nada.

Fui para o lugar marcado, com outro carro, o fiz subir, ia fazer perguntas, mas lhe disse que já falamos.  O fiz tirar a roupa toda, para ver se não tinha nenhum micro.

Todo cuidado é pouco, Bob, o levei comigo para San Francisco.  Arrumei um emprego para ele, mas reclamava todos os dias, pensou que íamos viver na boa vida, fazendo sexo o tempo todo.

Entendi que isso tudo era um perigo.  Abri uma conta para ele, depositei dinheiro suficiente para que ele fizesse a faculdade, mas terás que apresentar teu nome verdadeiro.

Uma noite não voltei para casa, tinha deixado seis meses de aluguel pago, fiz uma coisa feia, aluguei um apartamento do outro lado da rua, aonde podia vigiar seus movimentos.  Nos primeiros dias pareceu perdido, tinha lhe deixado o cartão de crédito, bem como uma nota, para que usasse para ir a Universidade.   Assim que fez a inscrição o FBI, apareceu, o levaram, mas em seguida voltou.  Estava sendo vigiado.  Simplesmente desapareci, com outro documento fui para NYC, arrumei um emprego num banco, fui subindo, até chegar a investimento.  Se passaram os anos, sabia que tinham me aproveitado dele, vivia agora num apartamento simples, mas não chamava atenção.   Roupas normais, barbas, tinha crescido um pouco, mas nunca passaria de 1,70 metros, sempre seria de estatura normal.

Tinha aventuras, nas claro a famosa uma noite, nunca com pessoas que trabalhassem comigo, nada de intimidades.

Administrava agora meus próprios investimentos.  Logo mudei de emprego, para o mesmo banco que tinha minha conta na Suíça, assim era mais fácil de administrar.   No banco original já não existia nada.

Cada vez mais era um experto em informática, tinha que me agarrar por algum lado.

Um dia andando na rua, vi o Bob, estava lindo demais.   Ia acompanhado de um homem, mais maduro que ele.  Entraram num café, achei uma maneira de me sentar atrás deles.

O escutei falando com o mesmo, achas realmente que está aqui na cidade.

Sim comeces a frequentar os lugares gays, quem sabe não dá com ele.   Afinal te abandonou, sem dinheiro, não sei se poderemos recuperar tudo.  Mas tem uma coisa, nada mais de drogas, sabes que se recais outra vez, não te ajudaremos.   Da outra vez só tinhas que descobrir aonde estava o dinheiro.

Eu tinha razão.  Dois dias depois pedi demissão, agora era eu que o vigiava.  Ia a todos lugares gays, ficava observando o que ele fazia.  Logo vi que estava até a alma de drogas, um dia o mesmo homem o tirou da discoteca que estava, lhe dava uma bronca imensa.

Já não tem volta atrás, no dia seguinte, fui para a Europa, vivi um bom tempo em Paris, precisava arrumar um pouso discreto, aonde não chamasse atenção.   Pelo meu aspecto todo mundo pensava que eu era descendente de marroquino ou argelino, consegui um documento argelino, agora podia me mover melhor.

Fui viver numa cidade pequena, no sul, em frente da praia, todo mundo perguntava o que fazia, eu dizia que era escritor.

Pensava sempre no dinheiro escondido no deserto. 

Nunca tinha pretendido ser rico, queria apenas levar uma vida tranquila, mas com todo esse dinheiro seria impossível.

O que fiz, foi voltar a Las Vegas, retirei o dinheiro do deserto, separei uma grande bolsa, com o dinheiro mais graúdo, com a outra, de valor mais alto, ia pelas cidades vizinhas, San Francisco, ia depositando um valor grande nas contas de ONGs, que ficavam quietas, assim me livrei desse dinheiro todo.    Pelo menos ficaria livre disso.

Mudei outra vez de aspecto, fazia tanto tempo que usava barba, que quando vi minha cara outra vez, levei um susto, tinha mudado, era diferente, era mais homem.

Me vestia agora bem, tinha dinheiro para isso.  Nunca mais soube do Bob, ele se deixou levar, me sentia culpado, mas era o preço a pagar.

Anos depois estabelecido firmemente numa vila perto de Cassis, na praia, o tornei a ver, continuava bonito, estava bem acompanhado com um homem, ao qual abraçava, beijava a vontade.   Fiquei mais tranquilo, mas não me aproximei.

Descobri que esse homem, era um importante negociante de pedras preciosas.   Foi quando o vi um dia no passeio da praia, discutiam, o homem entrou num carro foi embora, suas últimas palavras foram, contínuas usando drogas, assim não te quero.

Minutos depois apareceu um homem num carro negro, vi que ficavam conversando, rindo, já fizeste teu trabalho, lhe passava um envelope com dinheiro.  Ia embora, lhe dizendo não te metas todo isso em drogas.

O segui, até o hotel, nessa noite o raptei, levei para uma cabana que tinha nas montanhas, o deixei ali algemado, lhe alimentava, ele perguntava quem eu era, mas nunca falava, era um famoso tratamento contras as drogas em base dura.

Quem falava o tempo todo era ele, falou de mim, o quanto tinha me amado, a raiva de ser abandonado, depois confessava que estava me espionando para o FBI, que queria o dinheiro da casa dos seus pais.

Que esses tinham desaparecido no mapa.    Um dia disse, já sei quem eres o capanga do milionário que eu estava vigiando para o FBI.   Nenhum comentário, as noites era terríveis, ele gritava pedindo drogas, vomitava, lhe limpava, mas como eu usava luvas, nunca sentiu quem era.

Um mês depois, o liberei.  O adormeci, deixei num motel de beira de estrada, com dinheiro suficiente para recomeçar sua vida.

Quando despertou, ficou chorando, eu estava no quarto ao lado.  Não parava de falar, então era ele, me cuidou, ainda me ama.   Levei dias o seguindo, para ver se caia nas drogas outras vez, ia aos lugares gays, como me procurando.

Nunca apareci, um belo dia, foi embora.  Esperava que desta vez fosse em frente.

Segui tendo aventuras de uma noite só, não tinha jeito de confiar em ninguém, quando vi que tinha escrito um livro, contando a historia de sua vida.  Que a mesma seria transformada em filme.   Como citava aonde tinha certeza de me ter visto, vendi tudo, fui embora.

Cheguei à conclusão que em minha vida nunca teria pouso nenhum relaxado, sem me preocupar se me estavam buscando ou não.   Que merda.

Vi um filme, em que os bandidos fazem um grande roubo, vão para o Brasil, para o Rio de Janeiro, caem na folia.

Primeiro fui viver um tempo em Portugal para aprender a língua, depois finalmente fui para o norte do Brasil, riam, pois, pensavam que eu era Português, só então entendi que falava diferente deles.   Aluguei uma casa numa praia, vivia ao dia.    Foram os anos mais felizes de minha vida.

A estas alturas já estava com quase cinquenta anos, tinha estado todos esses anos, fugindo de um lado para o outro.   Foi quando descobrir que estava com um câncer muito avançado, fiz uma loucura, voltei por Portugal a Europa, vi quanto tinha nos bancos, me desfiz de tudo, entregando tudo as ONGs, como tinha feito no passado, com o mínimo, fui a NYC.   Descobri aonde o Bob morava, queria saber se estava bem.  Vi que tinha agora um relacionamento sério.  Ia para seu segundo livro.

Um dia o abordei na rua, não me reconheceu. O toquei, queria saber se estavas bem?

Sim finalmente me libertei de todos meus fantasmas, inclusive do teu.

Lhe dei um aperto de mão, lhe pedi desculpas por tudo, tinha que sobreviver.  Me perguntou se eu era o homem que o tinha ajudado na França?

Sim fui eu, tinha que tentar te curar.

Eu me curei, porque sabia que eras tu, outro já teria me matado.

Me despedi, fui embora sem olhar para trás, voltei a minha casa no Brasil para morrer tranquilamente.    Nada era perfeito na vida, agora eu era um ninguém, meu dinheiro aguentaria alguns meses nada mais.   Quando a dor se tornou insuportável, num dia de temporal esses tão naturais do Brasil, entrei no mar, para não voltar.  Tinha liquidado minhas contas.