lunes, 15 de febrero de 2021

BENJAMIN CLEMENTE

                                                BENJAMIN CLEMENTE


As vezes o nome não ajuda, era filho de uma mulata, com um francês louco, que um dia desceu de um navio na praça Mauá, para ver como era esse país, que tanto escutava falar.

Com os amigos foi a ensaio de samba na Mangueira, quando viu aquela mulata sambando, ficou como louco, não houve maneira de fazê-lo embarcar.  

Era pau para toda obra, tanto trabalhava na construção, como ajudava na montagem de carros da escola de samba.

Quando seus dois filhos tinham mais ou menos 10 e 12 anos, caiu de cima de um carro alegórico que estava montando, teve tanto azar, que caiu de cabeça em cima de uma máquina, essa quase o cortou pela metade.

Minha mãe, nunca se recuperou, eu tenho o mesmo nome dele Benjamin Clemente.  Ela sempre deu um duro desgraçado, para que tivéssemos estudos, para não acabar na merda como diria ela.  Costurava para fora, além de dirigir as costureiras da escola de samba, adorava fazer as roupas da ala das baianas, mas claro isso não condizia que podia sair na ala, não tinha idade para isso.

Meu irmão saiu totalmente brasileiro como ela dizia, mais malandro era impossível, eu ao contrário, gostava de estudar, cantar, por insistência dela, acabei estudando direito, embora cantasse no coro da Universidade, claro trabalhava ao mesmo tempo.  Como tinha estampa, além de falar duas línguas, consegui emprego numa boutique no shopping Rio Sul.   Estudava de noite, dando um duro desgraçado, mas o dinheiro ajudava em casa, além de me pagar a faculdade.

Quando chegou a época das práticas, o porco torceu o rabo, pois aonde iria encontrar algum escritório que me aceitasse.     Conversando com um cliente, esse que tinha escritório, me disse que o mais certo era conseguir um emprego em algum grande no centro da cidade, nem que fosse para começar de baixo, a outra sugestão era que eu entrasse para a polícia.

Minha mãe torceu logo o nariz, polícia, sei não, pelo menos os que moram aqui no morro, estão tendo sempre que fazer serviço por fora.

Tentei, consegui fazer um curso para policial, já que tinha faculdade, pulei tudo, fui trabalhar de detective numa delegacia do centro da cidade.   Gostar não gostava, mas tinha uma facilidade, ficava perto do lugar que o coro que cantava ensaiava.

Minha vida era essa correr de um lado para outro, aguentar as sugestões para aceitar algum suborno para aumentar o salário.  Mas sempre conseguia tirar o corpo fora.

Me relaxava cantando, o que minha mãe reclamava.   Num coro nunca vais chegar a lugar nenhum, eu lhe explicava mil vezes que era o que gostava.

Chegou um novo chefe na delegacia, tinha fama de corrupto, eu continuei fazendo meu trabalho a sério.  Era um caso complicado, mas ele mandou fechar a investigação.  Aleguei que tínhamos dois suspeitos, mas me olhou feio.   Eu insisti, na terceira vez, chamou o meu chefe, disse que a partir daquele dia, eu ia ser guarda urbano, que me tocava a praça XV, que devia andar por ali fiscalizando a feira dos sábados, os bares ali perto da rua do Ouvidor.  Quem sabe assim aprendia a entender as ordens.

Engoli em seco, pois sabia que os outros companheiros estavam rindo a minhas custas.   Mas me importava um pepino, pois não queria ser desonesto.

Diziam que eu era ingênuo, ou tonto, para não aproveitar as oportunidades, o mais sério deles, conseguiu escapar, fazendo provas para a Polícia Federal.

Eu já sabia que ser policial não era a minha, mas tinha que encontrar uma oportunidade. 

Um sábado estava na Praça XV, quando vi uma mulata, daquelas de fazer parar o trânsito, com um homem branco, loiro, olhos verdes, me chamou a atenção, do casal bonito que formavam, os dois tinham estilo.

Um dos feirantes, estava querendo enganar ao homem, ela insistia que ele devia respeitar os turistas, me aproximei tentando ajudar.  O homem, falava com ela em francês, com o homem da feira num português carregado de sotaque.

Chamei a atenção do feirante, como podia tentar enganar o homem, se o preço estava escrito na máscara Africana que ele queria comprar.

Meu irmão, se não ganho uns trocados à custa dos turistas tontos, como vai ser?

Se não respeitas os clientes, vou ser obrigado a colocar uma denúncia contra ti, além de pedir que te retirem a licença para vender aqui.

Acabou fazendo o preço que estava preso na peça.   O homem me agradeceu, eu lhe respondi em francês, ele soltou uma risada, um policial brasileiro que fale francês é interessante.

Lhe contei que meu pai era francês, de Lyon, que tinha aprendido com ele desde criança.

A mulata me olhou com uns olhos castanhos quase verdes, tinha uma voz rouca, que eu não sabia definir porque falava assim.

Disse que era enfermeira, que o senhor Claude Lambert, tinha vindo fazer uma cirurgia corretiva na clínica que ela trabalhava.  Como hoje era seu dia livre tinha saído com ele para passear.   Disse o nome da clínica.

Olhei para ele, não aparentava muita idade, mas se via com bolsas nos olhos, bem como parpados caídos.   Ele riu por estar examinando sua cara.

O que acontece me explicou, vivo, trabalho com a alta sociedade de Paris, tenho que ter certa aparência, sou advogado, trabalho num dos grandes escritórios de Paris, uma cliente brasileira me indicou essa clínica.  Como segunda feira entro na faca, quero aproveitar o final de semana.

Eu me chamo Edmundo, disse a mulata, rindo não faça essa cara de susto, sou transexual, estou em processo final, logo serei mulher, só então poderei trocar meu nome.

Fiquei rindo, me enganaste direitinho, mas sem dúvida nenhuma serás uma mulher lindíssima.

Os levei até a rua do Ouvidor, pois ele queria ir a uma livraria, eu o levei a Folha Seca, como ele disse o que procurava, comentei aí encontraras tudo.

Me convidaram para almoçar ali com eles, comentei que iria até a delegacia, para trocar de roupa. Que me esperassem.

Troquei de roupa, imaginando, que já não estariam lá, quem ia querer ficar esperando o policial de rua, para almoçar.

Me enganei, quando cheguei, estavam sentados, ele com uma bolsa cheia de livros, tomando um chopp cada um.   

Edmundo soltou que eu não tinha demorado muito.

Pensei que já não ia os encontrar aqui, sabe como é, quem ia querer almoçar com um policial de rua.    Contei minha história, disse ao Claude que era como ele advogado, mas as oportunidades eram pequenas para além mulato sarará como eu.   Tive que lhe explicar o que era sarará.

Que tal os livros, encontraste os que queria.   Tirou da bolsa vários, eram todos sobre o candomblé.   Ri, interessante isso, minha tia é mãe de santo lá na Mangueira. Tem um dos terreiros mais antigos de lá.    É muito respeitada nessa área.  

Ele ficou me olhando, sério, soltou agora já sei de aonde te conhecia.   Fechou os olhos, cantou uma música que eu sempre cantava.   “Bom dia tristeza”.

Ué como sabes que gosto dessa música?

Já sonhei antes contigo, por isso estou interessado, sonho com pessoas que vou conhecer, ou com coisas que acontecem depois vão acabar na minha mão.

Queres ir até lá falar com minha tia?

Sim, me encantaria.   Edmundo ria dos dois, vocês falam rápido em francês, tenho que fazer força para acompanhar o que dizem.

Lhe perguntei se tinha roupa branca?

Ele disse que não, mas que compraria, o fiz levantar-se, tínhamos a mesma estatura, além de tamanho de corpo.  Posso te emprestar uma das minhas.

Edmundo, disse que não podia ir, pois tinha que trabalhar.

Se ele confia em mim, o levo, depois tem samba da mangueira hoje, não queres ir.

Edmundo ria, odeio samba, apesar de tudo, não sei sequer sambar.

Justo nesse momento, pararam dois homens com violão, ao nosso lado, já tínhamos pedido comida, eu esperava meu chopp.   Marcel pediu se eu podia cantar, Bom dia Tristeza.

Boa pedida, meu tio soltou o homem, começou a tocar, eu a cantar, sem querer fui levantando a voz, soltando talvez pela primeira vez o vozeirão que tinha.   Claude tinha lágrimas nos olhos.

Mais uma, pediu, cantei outra que gostava, “Ronda” de Paulo Vanzolini, expliquei que era um médico de São Paulo.  De uma outra mesa, pediram outra música, era um pagode, perdi perdão, mas não sabia cantar essa.   Nisso chegou nossa comida, vi que Marcel, estava preocupado.

Por que estas preocupado?

Eu sabia que vindo para cá, as coisas desatariam, teriam que enfrentar muitas coisas novas para mim, as vezes nos acomodamos demais na vida.  Ficamos atados a coisas sem importância, que servem para nos amarrar, nos prender.                                        Acredito sempre que quando rompemos a inércia, desatamos acontecimentos, que nem sempre estamos preparados.

Enquanto comiam a sobremesa, me levantei, fui a livraria, pedi um livro que sabia que para ele seria importante.   Voltei, com o último que tinha na livraria, embaixo do braço.  Entreguei ao Claude, verás tu não es o único francês interessado nisso.     Entreguei o livro, ele soltou um grito, não soube me explicar estava procurando esse livro, meu pai conheceu o Pierre Verger, quando era jovem.

Pois então esse livro é importante, era Orixás de Pierre Fatumbi Verger, assim poderás ler enquanto te recupera da operação.    O tenho em casa, mas o meu está velho de tanto manusear.   

Levamos Edmundo para tomar um taxi, ele levou os livros, pois segunda-feira ajudaria na operação do Claude.

Ficamos conversando mais um pouco, soltei que não via por que ele se operar. 

Riu, tapando a boca, soltou sua idade, ele era vinte anos mais velho do que eu.  Sabe Benjamin, não aproveitei muito bem minha juventude, estudando, trabalhando, para mostrar ao meu pai, que podia ser um bom advogado.   Ele era um homem duro, mas foi ele quem me criou sozinho.  Uma história mal contada, que só descobri depois que morreu.   Já te conto um dia desses.

O ia levar de ônibus, mas sugeri um taxi.   

Não, vamos como costumas andar, gosto de me sentir normal.  Como, era um sábado, o ônibus não estava cheio, nos deixou ali ao pé da mangueira.   Fomos subindo, a garotada como sempre, sabia que eu trazia balas, fui distribuindo, falando com eles, sobre estudar.   Claude parecia entender tudo.

Quando chegamos a casa da minha mãe, levei uma bronca tremenda, tinha me esquecido de avisar que não vinha almoçar, a comida com esse calor se estraga, soltou ela, até perceber o Claude atrás de mim.

Pode falar em francês que ela entende.

Falei com ela o que tinha acontecido, das coincidências.  Ela chamou um garoto, que fosse avisar minha tia que eu levava um amigo para consulta, se podíamos subir antes.

Logo arrumou roupa branca para ele.  A calça estava um pouco larga, mas mandou tirar, ele ficou só de cuecas na frente dela, muito sem graça.  Me olhava de olho comprido.   Ainda não tinha entendido.  O achava atraente, mas realmente o era.

Na pequena sala da casa, estava meu diploma de advogado, que ela exibia com orgulho, ele foi olhar.

Nem precisei abrir a boca, dona Ceição ou Conceição, minha querida mãe, lhe contou como eu tinha me formado.   Deu muito duro seu Claude, o irmão dele, não, é um malandro, agora tem que trabalhar em construção, se casou tem dois filhos, nos dois temos que ajudar, porque senão não chegam ao final do mês.

Tive que explicar ao Claude o que ela queria dizer com isso.

O garoto voltou, reclamando que como sempre a Iaô, tinha feito jogo duro com ele, mas eu insisti que tinha que falar com Mãe Cida, como a senhora mandou.   Diz para subir antes com o gringo, pois pode ser que tenha que tomar um banho.

Lhe expliquei o que o garoto dizia.    Melhor levar a roupa branca para depois.

Minha mãe, disse que iria mais tarde, pois tinha que acabar um vestido que estava fazendo para a porta-Bandeira usar essa noite. 

Começamos a subir conversando, Claude, disse que em sua vida tinha imaginado isso, estar subindo numa favela, já sonhei com esse caminho muitas vezes.  Procurei psicólogos, até psiquiatras para saber o que era isso, por exemplo sonhar contigo cantado, ou estar subindo um lugar tão empinado, me diziam milhões de besteira, até que essa cliente disse que eu tinha que vir, pois aqui acharia a resposta.

Primeiro te encontrei por acaso.  Quando cantaste, foi como se abrisse a minha cabeça, pude recordar muita coisa.  A cena da tua mãe me falando do teu diploma, também tinha visto nos meus sonhos.

Benjamin, via que as pessoas que cruzavam olhavam como os dois falavam em francês, se não o conhecesse iriam ter problemas.

Na hora que abriram o grande portão, Claude ao ver o Iroco, correu até ele, chorava baixinho, quando tinha problemas, me imaginava sentado aqui, falando com essa gente toda.

Que gente Claude?

Esses que estão aí, sinalizou ao Iroco, não es vê?

Não meu filho, ele não os vê, nem todos tem esse dom que tens, quem falava atrás deles era mãe Cida, Claude, se virou devagar como se reconhecesse a voz que lhe falava, sorria, correu até ela, a abraçando.

Finalmente vejo a senhora, estamos falando sempre em sonhos, não é verdade?

Sim meu filho, a muito tempo te espero.

O foi arrastando com ela, a Yaô, de boca aberta com a intimidade do gringo com mãe Cida.

Ela foi dizendo sem se virar, faça um banho para Exu, que meu filho vai precisar.  Você Benjamin, não fica aí com essa cara de paspalho.  Vem junto que posso necessitar para traduzir alguma coisa.

Os seguiu os dois como um cão sem dono.

Estava te esperando, quando o menino veio avisar, eu sabia que eras tu.

Benjamin meu filho, leve o Claude para tomar um banho de descarrego de Exu, depois que vista roupa branca, volte aqui.

Mas no que ia lhe dar banho, passaram ao lado da casa de Exu, Claude entrou, se jogando no chão.

Ficou ali um tempo, a Yaô tinha chamado mãe Cida, ela entrou começo a falar em Yoruba, com o santo do Claude.   Ele se levantou, um pouco assustado, passei, mas não sei por que entrei.

Ela mesma, acabou dando o Banho, enquanto ia rezando coisas em Yoruba.  Quando terminou, estendeu uma toalha muito branca para ele se secar, mostrou como fazer.

Depois o levou para sua sala particular, aonde jogava os búzios, iriam falar com o Ifá.

Avisa essa menina homem que o Claude ficará aqui uma semana, que a operação era uma desculpa para ele vir.    Mandou arrumar um quartinho para ele.

Depois tudo foi como um vendaval, os dois só saíram da sua sala, quando ela foi se preparar, ele já estava todo de branco, com um turbante na cabeça, mas não via mais nada.

Quando todos estavam no terreiro, os apresentou, esse senhor é um velho amigo francês, agora não pode vê-los, pois está incorporado em Exu Bara, de quem é filho predileto.  A muito tempo o esperava, até que o Benjamin o trouxe até nós.

Benjamin, tinha se sentado com o atabaque entre as pernas, afinal era Ogan de Exu, com um sinal dela começou a tocar, sem que ninguém esperasse, Claude de um grande salto, parou no meio do terreiro, começou a cantar um ponto em Yoruba.   Falava rapidíssimo, só ela o entendia perfeitamente.

Ele correu por toda a Gira, a cada um que tocava, este incorporava seu santo, ela ria, ele já tomou conta da gira.  Os mais velhos da casa estranhavam, pois era ela que fazia isso.

Quando minha mãe Odete, chegou, não entendia nada, se sentou ao lado de sua irmã, caramba o gringo é dos nossos.

Ele pediu se podia levar as pessoas incorporadas até o grande Iroco.  Mãe Cida disse que sim, mandou fechar as portas do terreiro, já sabia como era a coisa, ficariam cheios de curiosos, parados no portão, para ter o que comentar depois.

Ele levou todos que estavam incorporados até o grande Iroco, por sinal uma Mangueira, que ninguém sabia precisar quantos anos tinha, mas pelo seu tronco, muitos.

Pediu um lençol a Yaô, que antes olhou mãe Cida, ela fez sinal que o obedecesse.  Pediu que o Benjamin, fosse tocando os pontos dos Orixás incorporados, ia saudando cada um, ao mesmo tempo que ajudava a pessoa voltar a realidade.  De um grande alguidar, ia dando água para as pessoas que bebessem em suas mãos.   Para todos isso era uma grande novidade.

Um homem que chega sem ninguém conhecer, muda todo o sistema da casa.

O mais curioso, era que ia dizendo o nome das pessoas, sem ao menos perguntar quem era, esse homem nunca nos viu nem mais gordo, nem mais magros, como sabe nosso nome.

Quando tudo terminou, mãe Cida explicou, a uns dois anos, os Orixás me encarregaram de encontrar esse irmão que estava em terras francesas, eu tinha que encontrar um jeito dele vir para cá.

Fazer com que ele chegasse até aqui, ele em sonhos foi conhecendo as pessoas que poderia confiar, que falassem sua língua.    Primeiro encontrou uma enfermeira na clínica aonde vai ser operado, em seguida com o Benjamin hoje de manhã.  Acabou aqui, como era de se esperar.    Não se assustem com a maneira de se comportar de seu Exu, pois ele é muito poderoso.   Nos ajudará muito daqui para frente.

Mais tarde quando Claude, voltou a si, ria muito, pois se lembrava de tudo, ele disse que eu devia ficar vendo para aprender.

Hoje entendi muitas coisas, a alguns anos atrás descobrir quem sou, quando meu pai morreu, ao lerem o testamento, diante de sua família, existia uma carta para mim.                         A guardei, não tinha um bom relacionamento com ele, depois de muito tempo li a carta, me explicava que não era filho dele, mas sim de um irmão que seu pai tinha tido fora do casamento.   Um dia este apareceu, pediu que cuidasse de seu filho, me deixou com ele, desapareceu.   Me registrou como seu filho, pois eu era um bebê, mas ele não tinha muito jeito para ser pai, reconhecia.

Me deixou o escritório, o apartamento que vivíamos, bem como uma boa soma de dinheiro, tinha procurado todos esses anos pelo meu pai verdadeiro, nunca o tinha achado.

Foi quando comecei a sonhar com mãe Cida.   Ela algumas vezes me explicava o que tinha acontecido.

Meu pai verdadeiro, se perdeu em Benin, era filho de uma mãe de santo de lá com o que seria meu avô, numa das missões que pelo governo tinha ido ao Benin.

Por isso eu sem querer sabia Yoruba, estava no meu subconsciente.

Benjamin, perguntou se ele tinha o número do Edmundo, era necessário avisar, ele teria que ficar lá uma semana.

Minha maleta está na clínica, falaram os dois com Edmundo, disse que saia do serviço dentro de momentos.   Benjamin combinou que o iria esperar aos pés da Mangueira, aí subiriam.

Quando o Edmundo chegou, pegou a maleta, foram subindo os dois, queria saber o que tinha acontecido.

Melhor ele mesmo contar, perdeste todo um acontecimento.

Quando Edmundo entrou no terreiro, reverenciou o Iroco, o mais estranho foi que mãe Cida o abraçou, olá minha filha, a quanto tempo.

Vocês se conheciam, perguntou o Benjamin?

Sim, a muito tempo, Edmundo, vinha sempre aqui, até que começou a transformação.           Estas linda, minha filha.

Ela mesma lhe explicou tudo, como o Claude sonhava com eles, ele já te conhecia também pelos sonhos, se não encontrasse o Benjamin hoje, teria que ser tu, que o trouxesse.

Claude comeu alguma coisa, disse que estava muito cansado. Quando todos se despediram, foram descendo, mãe Cida disse ao ouvido do Benjamin, se podes venha aos finais de tarde conversar com ele.

Assim se passou a semana, o que acontecia durante o dia, era um mistério, pois mãe Cida tinha proibido a Yaô que vivia no terreiro falar no assunto.   Claude tampouco falava.

Benjamin, chegava conversava, algumas vezes ele pedia que cantasse alguma música para ele, mas sempre repetia ao final, “Bom dia Tristeza” nunca entenderia por quê?

Já quase no final de semana, finalmente soltou, que iria a Paris, para fechar ou vender o escritório, resolver suas coisas.  Lhe perguntou se não queria ir com ele.   Quando volte, vou abrir um escritório, poderias trabalhar comigo, como advogado, pois terei que pedir licença, bem como estudar as leis daqui.

A Yaô, tinha se dedicado nos tempos livres ensinar português para ele.   Falava bem melhor.

Depois terei que encontrar um lugar para viver, bem como um escritório, ou tudo junto ainda não sei.

Quando Benjamin, comentou isso com mãe Cida, o que ela achava do convite, da viagem, trabalhar com ele.   

Foi franca, ainda não notaste, mas ele veio para cá, por ti, por isso gosta tanto dessa música, sempre sonhava contigo.   Nunca amou ninguém, de uma certa maneira está apaixonado por ti.  Não tenha medo, pois já vi que gostas dele também.

Nunca tinha tido relacionamento com homens, mas se sentia atraído por ele.    Num primeiro momento tinha se sentido atraído pelo Edmundo, mas ao descobrir o processo doloroso que estava passando, entendeu que não tinha tempo para isso.

O primeiro dia que saiu, queria ir tomar um banho de mar, convidou mãe Cida para ir também, minha mãe que adorava o mar, veio junto, subi meu velho carro por uma rua lateral, assim mãe Cida não teria que descer a colina inteira.

Os levou a um lugar que gostava de ir, lá na reserva, num restaurante a beira mar.   Avisou Claude que era perigoso, que isso não era mediterrâneo, que tinham muitas correntes.

Mas nadava como um peixe.  Estava fascinado pelo seu corpo magro, quase sem pelos, seus cabelos esses dias tinha crescido, estavam largos, de um castanho escuro.

No caminho de volta, tornou a falar de ir com ele a Paris, enquanto me opero, além da recuperação, vá tirando um passaporte, peça uma licença sem remuneração, assim poderás ir comigo.

No dia seguinte fez isso logo de manhã, bem como marcou hora para tirar o passaporte, não sabia por que ia com ele, mas confiava inteiramente no Claude.  De tarde foram ao centro da cidade, pois ele queria comprar roupa branca para ele.   Não posso ficar usando sua roupa.   Nesse dia devolveu a que lhe tinha emprestado.   Em casa, ia colocar para lavar, mas ao sentir o cheiro do Claude, não conseguiu, guardou dentro de um saco plástico, no armário de seu quarto.

Depois da operação voltou outra vez para o terreiro, a Yaô cuidava dele, normalmente no final do dia, Edmundo vinha tirar algum ponto, ver como estava a recuperação.  Ele ao contrário, ia todos os dias para conversarem.    Tinha se informado, como deveria fazer para conseguir o reconhecimento do seu diploma no Brasil.   Teria sim que pedir um visado para trabalhar no Brasil.

O tempo passou voando, quando viu já estava no aeroporto, se despedindo do Edmundo, bem como de sua mãe.  A velha tinha se encarinhado do Edmundo, estavam sempre conversando sobre mil coisas.

Descobriram que o sonho do Edmundo era ser médico, mas só tinha podido estudar enfermagem.

Ia conversando isso com o Claude, esse disse que o ajudaria, gosto muito dele. 

Brincando, lhe disse, mais do que de mim?

Não, você foi o farol que me guiou até o meu destino, meu amor por ti é imenso.

Não esperava essa resposta, ficou constrangido.   Lhe disse diretamente que nunca tinha tido relacionamento com homens, que não sabia como se comportar.

Não se preocupe, pois nos encontraremos nisso também.

Depois de servirem o jantar em pleno voo, acabou dormindo, estavam muito comportáveis em classe especial, não era primeira classe, mas tinha conforto.   Quando despertou, já era de manhã, iriam começar a servir o “Petit déjeuner”, ainda pensou, finalmente vou usar tudo que aprendi com meu pai, seu irmão ao contrário achava tudo chato o que o velho ensinava.

Estava levando o endereço que sua mãe tinha de Lyon, que ele o tinha deixado com seus papeis.

Se sobrasse tempo iria até lá.   Claude disse que não se preocupasse que iriam.  Iria descobrir antes se morava nesse endereço a família do seu pai.

A chegada a Paris, foi emocionante, o avião, como tinha que esperar deu uma volta sobre a cidade, ele ria, como uma criança.

Pegaram um taxi para a casa do Claude.  Era um belo apartamento, ele disse que tinha sido do seu pai, que não gostava muito de lá, quando ele morreu, reformei somente meu quarto, bem como a sala que uso para ler e trabalhar, o resto é essa velharia.

Vou colocar a venda, com tudo que está dentro, existe inclusive quadros de um bom valor.  Ficas no quarto ao lado do meu, que também é uma suíte.

O quarto, bem com a saleta que ele dizia, eram modernos, o quarto que lhe indicou, era um meio termo.

Amanhã, começo a colocar mãos a obra, hoje vou te mostrar meus lugares preferidos da cidade.

Estava claro, mais frio que no Rio de Janeiro, o outono já tinha começado, viu que Benjamin estava parado diante de um cartaz da Ópera.   Isso talvez seja a única coisa que sinta falta, a Saison, a temporada de Ópera, teatro, exposições de arte, que ia com alguns amigos.

Amanhã, vou marcar um jantar com meus poucos amigos para que te conheçam, alguns são um pouco exagerados, ou afetados, mas não se preocupe.   Mas não comente nada que estou vendendo o escritório, bem como o apartamento, que volto para o Brasil.

No dia seguinte foi com ele para o escritório, era como ele tinha descrito, tinha dois sócios que eram antigos, fez uma reunião com eles, disse que queria vender sua parte, logo se mostraram interessados. Isso incluía o local.    Se compram com tudo, deixarei o apartamento a parte, para mais à frente.

Deu entrada nos papeis, foi com ele a embaixada brasileira, tinham agendado um horário, como era um advogado conhecido, foi atendido pelo próprio cônsul, que imediatamente chamou o responsável, para providenciar tudo para ele.   Se decides ficar definitivamente, terás que fazer uma prova na OAB, explicou o que era.

Voltaram ao escritório, ele foi passando seus casos para um advogado dali sua secretária, quando soube chorou, trabalhava a muitos anos com ele.

Quem sabe venha me visitar, ou mesmo trabalhar comigo no Brasil.   Ela balançava a cabeça, nada me segura aqui mesmo.

Apesar de Claude ter avisado, os amigos, foram efusivos com ele, olhando os detalhes da operação, quando perceberam que ele estava junto, foi sendo apresentado um a um.

Um deles soltou, sem saber que ele falava francês, eu também quero ir fazer uma operação no Brasil, trazer um namorado de lá.

Benjamin, não é meu namorado, mas sim o melhor amigo que poderia ter encontrado.   Só um deles sabia da história dos sonhos.  Sentou-se ao seu lado, Claude, depois necessitas me contar como aconteceram as coisas.     A maioria comeu, comemorou, cada um tinha uma desculpa para ir embora, só ficaram finalmente os três.   Só então entendeu que Jean, não era amigo dos outros.

Claude explicou, que se conheciam desde a infância, que os dois tinha estudado juntos até a universidade.   Saíram dali, estava as margens do Sena, se via ao longe, a torre Eiffel toda iluminada, sem querer se encostou no muro, começou a cantar, “Bom dia Tristeza”.  A cara do Jean, era impressionante.

Essa era a música que dizias que escutava nos sonhos não é, porque vivias assoviando a mesma. Sentaram-se num banco numa praça, Claude contou tudo para o amigo. Este no final chorava, como vou fazer sem ti aqui.

Quem sabe venha nos visitar no Brasil, ao se despedirem, Jean olhou bem para o Benjamin, cuide bem de meu amigo, ele merece.

Ficou com aquilo na cabeça, quando subiram no elevador, ficaram próximos um do outro, colocou o braço pelo ombro do Claude, o atraiu para ele, o beijou.

Não podia imaginar que isso, iria mexer tanto com ele, nunca tinha sentido desejo por ninguém, o sexo para ele, acontecia quando estava com alguns amigos, todos arrumavam acompanhantes, sempre sobrava alguma garota para ele.

Mas nunca tinha sentido isso ao mesmo tempo, queria seguir em frente.  Claude colocou as mãos nos seu peito, vamos devagar.

De noite se levantou, foi sentar-se na saleta que ele usava, podia sentir ali seu perfume.  Demorou a dar conta que Claude estava sentado na outra poltrona.

Não podias dormir?

É porque nunca senti uma emoção como está ao te beijar, estou aqui ruminando, uma vez uma garota me disse que na cama eu parecia um garoto, que não sabia bem como me comportar. Quase disse a ela, que não queria estar com ela nesse momento, não me sentia no fundo atraído por ela. Mas agora pensando com todas era a mesma coisa.     Mas tampouco me sentia atraído pelos rapazes.  

Estavas esperando por mim?  Comentou Claude rindo.

Quem sabe, mas tu deves ter mais experiencia do que eu.

Não tantas quando devia ter, nunca me senti atraído por homens como meus amigos.  Eu, bem como o Jean, sempre fiquei na surdina.   Tive algumas aventuras sem importância, como tu dizes, não sentia nada pela pessoa.    Mas quando cantaste a minha música, me apaixonei por ti.

Estendeu a mão para ele, ficaram ali de mãos dadas, Benjamin se sentia reconfortado, com tendo encontrado finalmente alguém a quem amar.   Quando foram para a cama, foram devagar, tudo era um descobrimento para ele, nunca tinha sentido tanto prazer.

A semana passou rápido, no sábado foram a Lyon, já sabiam que havia familiares ali.  Quem os atendeu foi uma senhora, a quem a vida não tinha favorecido.  Quando lhe mostrou a foto que tinha de seu pai, ela começou a chorar.   Um belo dia ele desapareceu, nunca mais deu notícias.   Tempos depois apareceu aqui uma mulher dizendo que tinha um filho dele, o deixou nas minhas mãos.  É mais velho que você, mas vive internado, pois já não posso cuidar dele, tem autismo, permaneceu uma criança.

Ia sair agora para vê-lo, vou todos os dias pois é a única pessoa que gosta perto dele.  Foram com ela, não era uma criança, tinha sua altura, magro, quando os viu, foi direto ao Claude, ele veio contigo perguntou.

Claude apontou ao Benjamin?

Não, o outro, o senhor negro que sempre, vem me fazer companhia, diz que meu irmão virá me ver.

A senhora estava de boca aberta, ele nunca fala muito, essa conversação é muito para ele.

Claude disse, ele é teu irmão.

O rapaz foi até o Benjamin, o abraçou, ele diz que vais cuidar de mim.   O rapaz era muito bonito, dava pena.  Conseguiram levá-los para almoçar.

Sua tia lhe contou que tinha filhos, mas que viviam em Marseille, que breve teria que ir viver com eles, pois já tinha muita idade, além de problemas cardíacos.

Por isso o internei.

Durante todos esses anos, cuidei dele, foi mais querido que meus filhos.  Por isso não o aceitam.

Ficaram de voltar antes de ir embora, Benjamin não tirava o rapaz da cabeça, falou por telefone com sua mãe, que nem pensou duas vezes, não consegues que te deem a guarda dele?   Podes trazê-lo que cuido dele.

Conversou com Claude o que tinha dito sua mãe, na verdade nunca estaria tranquilo, pensando que ele ficou para trás.  Se consigo sua guarda poderia ir para o Brasil conosco.

Vou verificar tudo.   Nessa semana foi enrolado, negociou a venda do edifício, bem como de sua parte do escritório, teria dinheiro por muito tempo.  Foi ao Banco do Brasil, depositou uma parte.   A outra conseguiu transferir para um banco no Luxemburgo, assim seria mais fácil chegar ao Brasil.

Voltaram a Lyon, Claude falou com o juiz que levava o caso do rapaz, ficaram rindo quando descobriram que ele também se chamava Benjamin Clemente, este autorizou, desde que a sua tia desistisse da guarda dele.   Conversaram com ela, esta respirou aliviada, não me irei daqui com um peso na consciência.

Prepararam toda a documentação dele, compraram bilhete de avião.  O médico, lhe recomendou que se ficasse nervoso, desse um comprimido para ele.    Mas estava sempre ao lado do Claude, ele vai conosco verdade, agora já sabia a quem ele se referia.

Sim, vai conosco, ele tem muitos amigos, vamos te levar para lá, assim terás muitos amigos com quem falar.

Edmundo foi buscá-los no aeroporto, os levando direto para a Mangueira.    Odete recebeu seu novo filho de braços abertos, mas o melhor foi quando o levaram para o terreiro de mãe Cida.  Mal abriu a porta, Benji, como o chamava, correu para o Iroco.   

Mãe Cida, ria, ele consegue ver o que nenhum dos meus filhos de santo nem sequer imagina que estão no Iroco.   O mais interessante que ele mesmo se apresentou a ela, beijando suas duas mãos.

Perguntou se podia ficar vivendo ali com seus novos amigos.    Odete disse que passaria a maior parte do tempo que tivesse livre com ele, mas ele já tinha uma pessoa que o tratava, a Yaô, se tomou de amores por ele.   A obedecia, a seguia como um cachorro sem dono por todas as partes, logo, sabia preparar banhos, colocar água nas quartinhas dos santos, fazia tudo como ela fazia.

Odete sentou-se com o filho, dizendo, vejo que encontraste a pessoa que te faz feliz.   Não se preocupe antes de tudo eres meu filho querido.

Eles estavam procurando apartamento, bem como um lugar para montar um escritório.  Finalmente o encontraram logo ao princípio de Vila Isabel, assim poderia ir inclusive a pé para a Mangueira.  Era um local que facilitava tudo, tinha sido já um escritório, na parte de baixo, na de cima, era um apartamento. Tinha inclusive uma varanda, os dois gostaram do lugar, mas infelizmente o proprietário era um militar daqueles de visão fechada, quando os examinou bem, disse que não.

Enquanto isso estava na casa da Odete, duas casas ao seu lado estavam vazias, tinha inclusive caído o telhado.  Um dia Benjamin chegou, viu o Claude, conversando com um senhor de idade, era proprietário do dois barracos, negociou com ele, comprou os dois, conseguiu tratar com uns pedreiros que frequentavam o terreiro, o respeitavam muito, sabiam que ele era de Exu, não podiam falhar.

Construíram como se fosse qualquer outro barraco dali, por fora é claro, mas por dentro era outros 500, mãe Cida, Odete mesmo o Benjamin, a princípio não entendiam.  Ele foi franco, não quero viver longe do terreiro, é muito importante para mim.

Escritório, podemos conseguir qualquer um no centro da cidade, mas antes temos que estudar para fazer a prova da OAB, depois pensamos nisso.   Os dois barracos juntos, dava uma casa normal, com dois quartos, uma sala, cozinha, uma pequena área de serviço.   Não precisamos mais do que isso.  Mobiliaram normalmente, sem grandes luxos, na sala um sofá, duas poltronas de orelhas, para que mais dizia ele.

Benjamin estava louco para trabalhar, suas economias começavam a terminar.  Fizeram a prova da OAB, logo tinham seus diplomas reconhecidos.

Conseguiram um escritório, antigo, mas que tinha sido de advogados anteriormente, na av. Rio Branco, logo começaram a aparecer casos interessantes, não só do pessoal que ia consultar mãe Cida, que quando o caso era problemas jurídicos, ela dizia, minha filha, Orixá, não é advogado, sei que vieste aqui, por ser mais barato.   Mas olhe tome este cartão, vá falar com os dois advogados, são aqui do terreiro, tenho certeza de que te ajudarão.   Escrevia atrás do cartão, cuide bem dessa senhora, vejam se podem resolver seu problema.

Logo tinha uma clientela, tipo boca a boca, que iam trazendo mais pessoas.  

Claude ainda comentou com o Benjamin, estavas preocupado com ficar sem dinheiro, não confiaste em mim, seu sem vergonha.  Te da vergonha que eu tenha dinheiro.   O que é meu é teu.

Os dois contrataram os mesmo pedreiros, para fazer uma reforma geral no terreiro, mãe Cida ficou feliz.

Benji, adorava nos dias de ensaio, descer para a quadra, parecia um a mais da escola, decorava o samba enredo, ninguém sabia que ele tinha autismo, pois se desenvolvia bem.  Quando lhe ofereciam uma bebida, agradecia, dizia que fazia um tratamento, não podia beber, mas claro, Odete, suas amigas com que ela ia, não o perdiam de vista.

Quando tinha alguma coisa no terreiro, ele era o primeiro em estar pronto, era como a Yaô do Exu do Claude.   Este agora aprendia Yoruba, além de estudar com afinco o Ifá.  Uma vez por semana, atendia os casos mais complicados.   Mas deixava que seu Exu falasse por ele.   Era conhecido por todo mundo como o Francês do Exu.  

Cada vez mais ele era o braço direito de mãe Cida, tinha em casa um canto só seu, onde sentava-se muito cedo, por volta das cinco da manhã, começava com uma oração em Yoruba, depois acendia incenso, se concentrava, começava a jogar.  Conversava com seu Exu, através do jogo.  Isso ele não falhava.  Era outro que nunca bebia, nem uma cerveja.   Algumas pessoas comentavam que ele devia sentir falta daquela bebida famosa dos franceses, o tal do champagne, alguns até lhe davam de presente, uma sidra cereser, ele agradecia a amabilidade, mas levava para o terreiro, para alguma obrigação.

Benji era mais agarrado com ele que com seu irmão, mas talvez porque tinha sonhado com seu Exu sempre, ao mesmo tempo que estudava Yoruba, se surpreendeu que o rapaz, aprendesse tão rápido.

Ele disse que o Exu sempre tinha falado com ele nessa língua.  As vezes falava com mãe Cida, quando no jogo aparecia alguma coisa em Yoruba, retificava o que ela imaginava.   Acabou se juntando a eles no seu grupo de estudo, apesar de sua idade.

Muita água passou por baixo da ponte, os dois tinham muitos clientes, Claude, não trabalhava um dia da semana, ele ficava apertado.  A secretária de Claude de Paris, bem como Jean, anunciou que vinha passar as férias com eles.  Ele não se preocupou nem um pouco, Jeannete ficaria na casa de Odete, Jean na casa deles.    Riram muito subindo com suas maletas as ruas estreitas da Mangueira.

O mais interessante era que Nete como lhe chamava Odete, as duas pareciam se conhecer de toda vida, ia lhe ensinando português, quando a levou a uma roda de samba, esta ficou louca, isso é o paraíso dizia.

Jean, foi outro caso, quando conheceu Edmundo, que estava em crise, pois tinha agora dúvidas quanto a operação final.   Se saber como, os dois começaram a conversar, se entendiam de maravilha, se abria com ele, como não fazia com ninguém.    Jean suspirava por Edmundo, encontrei a pessoa perfeita para mim, essa dualidade que ele tem, me fascina.

Quando lhe perguntaram quando ia embora, disse que tinha se aposentado, que ficaria ali, o negócio era arrumar um apartamento para ele viver, ele tinha sido durante muitos anos, professor de música, no conservatório de Paris, arrumar emprego não foi difícil.  Quando conseguiu um apartamento, perto do Edmundo, o convidou com ele para irem a Paris, já que este tinha férias vencidas, assim arrumaria seus papeis.  

Nos dias que Claude, não ia ao escritório, Nete começou a ir ordenando os papeis, fazendo o papel de secretária.   Um dia os encostou na parede, porque não me contratam, assim eu fico.  Convidou Odete para ir com ela, assim, ela poderia dividir ou colocar algumas coisas no container que Jean ia trazer de lá.

Quando voltaram, vinha eufóricos, Edmundo tinha realizado um sonho, conhecer Paris, pelas mãos do homem que o aceitava como era.   Odete, dizia que poder ir a pátria do seu marido, tinha sido fantástico. Ele estava sempre falando, ainda foram a Marseille, ver sua irmã.

Claude quando eles voltaram, comentou com Benjamin, agora é a prova dos nove, vamos ver como se adaptam.

Sem problemas, Nete falava português com um ligeiro sotaque, que lhe dava um charme especial, sua educação com os clientes, os deixava encantados.

No primeiro natal todos juntos, foi uma festa fantástica.  Jean inclusive tinha rejuvenescido, pois tinha encontrado uma pessoa especial.

Nete, agora inclusive frequentava o terreiro.

Os anos foram passando, Charles tinha decidido vender seu apartamento em Paris, para comprar um na praia, mas desistiu, queria construir uma escola ali em cima, perto do terreiro, para trazer um professor da Nigéria para dar classe de Yoruba.   Conseguiram convencer mãe Cida de ir com eles até lá, para pensarem direito no assunto.  Ela alegava, estou velha demais para isso, mas acabou indo.

Foram por Paris, tudo para ela era como estar na Disney.  Depois foram para a Nigéria, tinham alguns contatos dados por amigos do Brasil.

O que encontraram foi um imenso caos de língua, mas Exu salvou a coisa, os dirigiu a uma montanha no interior, ali vivia um velho babalorixá no que tinha sobrado de uma antiga aldeia.   Esse riu, lhes explicou a arrogância de muitos, estavam fazendo perder a essência da língua do Ifá.  Ele mesmo tinha dois auxiliares, um deles, disse é perfeito, entende os sons dos orixás.   O mais importante é isso.  Quando os ancestrais falam, usam sons, o que muda o contexto do que está falando.  O convenceram de ir experimentar viver no Brasil.

Se esbarrou, que os próprios negros algumas vezes o rejeitavam, por ser africano.  Era um homem tímido, a pessoa com quem ele mais se entendia era o Benji, que quando se via os dois falando Yoruba, traduzindo alguma coisa dos Orixás, era impressionante.   Claude dizia que não eram só os dois falando, em volta deles estão todos os orixás que saem do Iroco, para falarem.

Mandu, como se chamava o nigeriano, leia o Ifá, como ninguém, alguns babalaôs vinham consultá-lo sobre alguma coisa, construíram como o Claude queria, um local, ali, poderia ensinar, bem como ele poderia atender os que lhe procuravam.

Alguns chegavam carregados de joias, se encontravam com aquele negro franzino, de uma simplicidade única.    Se desarmavam em seguida, com ele, não adiantava mostrar nenhum poder, pois ele não precisava disso.   Os atendia amavelmente, lhes oferecia água, acendia um troço de madeira ou de canela, ficava primeiro conversando com a pessoa, até que ela relaxava, falava do problema.

Analisava, os orixás que cercava o pai ou mãe de santo, conversava com eles, jogando o Ifá, orientava a pessoa, quando ao final lhe pediam segredo, ele dizia, meu filho, para quem vou contar qualquer coisa a respeito.   Eu estou aqui para servir, nada mais.  

Logo, os que vinha estudar, ficavam admirados, do Benji, sempre vestido de branco, com a mesma simplicidade.  Ele acendia incenso, com umas pedras que tinham um cheiro especial.  Alguns entravam em transe em plena aula, pois seu orixá, queria participar, fazer alguma observação.

Com os anos deu certo, muitos que estavam na fase final de seu aprendizado para pai de santo, ou babalorixá, ia lá ter aulas com os dois.    O mais interessante, era que um era negro retinto, o outro branco como a neve.

O tempo as vezes muda o rumo das vidas.  Jean tinha convencido Benjamin de fazer com ele aulas de canto, ia todos os dias depois do trabalho fazer aulas, menos os dias que lhe necessitavam no terreiro, agora soltava seu vozeirão nos ponto de Exu, Ogum, Xangô, de sua devoção.

Jean, como quem não quer nada, começou a lhe ensinar a cantar ópera, dizendo que assim treinava sua voz.   Como estava trabalhando com os cantores do Municipal para uma ópera Francesa, preparou sem que ele se desse conta para o papel principal.   Dez dias antes da estreia, foram avisados que o cantor francês que vinha, estava doente, com um problema sério, Jean convidou o diretor da ópera para ir conhecer um cantor, o deixou meio escondido, colocou Benjamin para cantar a música principal.  O homem se encantou com a voz dele.   O duro foi convencê-lo, a participar, ensaiar, foi necessário que Claude insistisse.   

Tens que aproveitar esse dom que tens, aproveite a oportunidade que a vida te brinda.  Ai sim, como Claude ficava mais tempo no terreiro, tinham contratado dois advogados, quem dirigia tudo era Nete, com mãos de ferro.

Ele se preparou com os outros cantores, quando chegou a cantora principal, não gostou muito, mas quando o viu ensaiar, logo gostou.   Ensaiaram um bis juntos, para o final.

No dia da estreia, o teatro estava lotado, mas ele sabia que na plateia estavam, Claude, Odete, mãe Cida, Mandu e Benji, então se relaxou, cantava para eles.

As críticas no dia seguinte, comentavam que nasciam um grande cantor, no bis, fez como tinha combinado com a cantora, mas pediram outro bis, ele aceitou cantar, se dirigiu ao público em português, todos pensavam que era francês.  Para a pessoa que conseguiu me fazer cantar.  Cantou a capela, “Bom dia Tristeza” o público veio abaixo.

Os jornais pediram entrevistas com ele, mas sabendo como era esse mundo incluiu a cantora, os dois falavam da ópera, na entrevista com os da televisão, foi a mesma coisa, os entrevistadores não falavam nem francês ou inglês, ele foi traduzindo as perguntas para ela.

Esta estava encantada da vida com ele, poderia a ter esnobado.  Um dia subiu com ela a Mangueira, a levando até o terreiro, adorou, o melhor foi ver Benji cantando o que ela cantava.  

É de família, levou tempo para perceber que ele era autista, ele ria feliz quando ela o aplaudiu.

É como uma esponja, dizia Claude, aprende tudo que lhe ensinam.   Ele jogou para ela, comentou do seu futuro brilhante.   Ela lhe perguntou, eu tenho um contrato para cantar em NYC, mas o que seria meu companheiro, é o que esta doente, é um recital, será que convences Benjamin de me acompanhar.

Ele riu a bessa, uma empresa nada fácil, pois é cabeça dura.

Mas ela ficou mais uma semana, no Rio, os dois ensaiaram todos os dias o que iam cantar juntos, bem como o que ele devia cantar sozinho.  Ela acrescentou que devia cantar a música que tinha cantado a capela.

Quando chegaram em NYC, o diretor da orquestra que os acompanhavam, ficou surpreso com a sonoridade da voz dele.  Ensaiaram todas as músicas, Jean que tinha ido junto, tinha levado a partitura de Bom dia Tristeza.   Ensaiaram que ele começaria cantando a capela, a orquestra entraria no final repetindo com ele a música.

Foi um sucesso, logo dali mesmo saíram convites, iriam a Chicago, Boston, San Francisco.  Benjamin estava louco de saudades apesar de falar sempre com o Claude, nunca imaginou que se sentiria assim, chegava a doer no seu corpo a falta que sentia dele.  Mas ao falar com ele, se serenava.

Acrescentou outra música no bis, porque agora a entendi, era Canção de Amor, de Chocolate e Elano de Paula, foram a Los Angeles, pediram se podia preencher um espaço vazio na agenda, só com músicas brasileiras.   Jean o preparou, trabalharam loucamente, gravaram essa apresentação, logo estava tudo no Youtube.  Ele cantava como primeira, Bom dia Tristeza, terminava com Alvorada, sempre chorava no final por se lembrar onde tinha vivido toda sua vida.  Quando chegou levantou Claude nos braços, o beijando na frente de todos.

O canal de televisão, veio para filmar sua vida na Mangueira, ele concordou, fizeram uma gravação, embora ele explicasse que ali não era a Bahia da música, vinha descendo as escadarias, da Mangueira, com a garotada toda vestida de camisa listradas, em determinado momento, as amigas de sua mãe da Ala das Baianas, iam se incorporando, com Odete vestida de uma de suas roupas.  Todos estavam sempre acostumados a escutar essa música cantado normalmente por cantoras, mas na voz dele ficava diferente, no final, uma versão com a bateria da Mangueira.

Estourava no Youtube, de tantas visitas, logo choveram convites, por ele terias descartados todos, mas Claude disse que nem pensar.   Ele sentia falta de cantar os pontos de Exu.

Resolveram então passar o escritório para os novos advogados, já que Claude, passava mais tempo no terreiro, mãe Cida, já não tinha idade para levar tudo, ele ajudado por Mandu, levavam tudo agora.  Claude era conhecido ou como o Francês de Exu, ou como seu Claudio do Bara, ele ria, mas não corrigia, era melhor não confundir dizia.   

Mandu, era o Africano do Yorubá, ria disso, sou um humilde aprendiz, dizia.  Quem realmente entende dos Orixás é o Benji.

Quanto mais mãe Cida ficava doente, mais iam assumindo o terreiro. Muitos filhos de santo tinham um certo receio, mas ele acalmava todos.

Antes de morrer ela, passou o mando do terreiro para Claude, dizia pela primeira vez, um Exu, seria o rei desse terreiro.

Nesse dia ela estava sentada num trono africano, que Mandu tinha executado ele mesmo.  Muitos pais de santo, babalorixás famosos, vieram render pleisia a ela, e ao outros dois.

O mais interessante era que Benji agora substituía o irmão, como Ogan, bem como cantava os pontos todos.

Benjamin, quando soube da data, estava na Noruega, com Jean, mas nem discutiu, veio num voo complicado, mas estava lá ao lado do homem que amava.   Dois dias depois Mãe Cida morreu, foi cremada, suas cinzas enterradas na Mangueira.   Sem querer ela tinha os juntados todos, Odete dizia que ia sentir muito a falta de sua irmã mais velha, bem como conselheira.

Benjamin, voltou a sua turnê, iria direto agora para Tokyo, de lá para Austrália, pedia ao Jean que sempre fizesse uma pausa para ele poder ir ao Brasil, matar as saudades do Claude.

Jean um dia comentando com este.   Ele nem olha os aduladores, que querem fazer sexo com ele, não existem para ele.  Só fala em ti, eu fico com saudades do Edmundo, mas ele é pior.

Quando tinha que partir outra vez, chorava, mas sabia que não podia pedir ao Claude, largasse a coisa mais importante da sua vida.

O mais divertido, é com o dinheiro que ganhava, nem pensava em se mudar da Mangueira.  Voltou ao Brasil, ficou dois meses preparando um novo show com o Jean, totalmente brasileiro.  Tinha contrato para cantar em NYC, Los Angeles, Boston, finalizando em Las Vegas.

Esses três meses sentava-se ao lado do irmão tocando atabaque feliz da vida, os dois cantando os pontos. Estavam mais próximos, um dia Benji disse que sempre sentia saudades dele.

Sua mãe, preparou um figurino para ninguém botar defeito, mas pediu que ela fizesse uma roupa branca que ele gostaria de experimentar cantar um ponto, com turbante e tudo de Ogan, levou seu atabaque com ele.  Fez uma obrigação para lhe permitirem cantar, Exu rindo disse que sim, mas quero ver você explicar, mas ele cantaria em Yoruba.   A primeira vez, foi em NYC, quando acabou o show, num dos bises, disse, um minuto, foi ao fundo do palco, trocou de roupa de costa para o público, colocou o turbante, já tinha colocado um banco de madeira que o iria acompanhar a turnê inteira. Sentou-se com seu atabaque, sabia que estava cheio de brasileiros, falou em português, depois em inglês, que cantava a quem tinha aberto todos os caminhos para ele, cantarei uma parte em português outra em yoruba.  Assim fazia, o público vinha abaixo com isso.  No dia seguinte, estava no Youtube, com milhões de visitas.

Odete levou para o Claude ver, este chorava de emoção.   Sentia falta dele, mas entendia que cada um tinha um caminho.

Quando finalmente chegaram a Las Vegas, tinha aumentado os dias de apresentação, ele pensava em ficar uma semana, logo queria firmar um contrato por uma temporada. 

Disse ao Jean, que era seu representante, nem pensar, posso voltar, mas quero ir para casa, antes que meu coração exploda.   Negociaram com o casino, montariam uma orquestra com brasileiros, ele viria com a Odete para fazer o figurino.   Um do casino, sugeriu que ele cantasse músicas da Carmen Miranda.

Disse que nem pensar, só cantaria músicas que gostava.

Ficou dias nos pés do Claude, este tinha agora a cabeça toda branca, ainda não tinha assinado o contrato, disse que o faria, se ele prometesse, que iria, pelo menos uma semana.

Na estreia, estavam os amigos, o casino pagou a passagem do Edmundo, do Claude, Benji, Mandu, ficou para cuidar do terreiro.

Fez o show, com dançarinos, com os músicos, todos com os figurinos da Odete, num determinado momento, parou o show, apresentou Odete, vestida de baiana, começou a cantar Exaltação a Mangueira, antes explicou que tinha nascido, criado nesse lugar, falou dos figurinos feitos pela sua mãe, começou a cantar, chamou Benji que sabia que gostava de dançar, meu irmão comentou.  O público ficou em pé, foi uma loucura.    Para finalizar, comentou em inglês, a partir dessa música que é minha preferida por vários motivos, tudo começou.   Ficou parado no meio do palco, cantando Bom dia Tristeza para Claude. Desceu do palco, foi até ele o beijou na frente de todos, meu marido comentou.

No dia seguinte se casaram, se casariam de novo no Brasil, na sua primeira ida para passar o fim de ano.

Iria depois para Paris, por seis meses, percorrendo a França com seu grupo.

Benji agora, era como um carrapato com ele, não saia do seu lado.  Sabia todas as músicas do show, brincou com o Jean, vou mandar ele no meu lugar, canta melhor do que eu.

Apesar do sucesso, se negava a estender o tempo fora do Brasil, o mais interessante, era quase um desconhecido na mãe pátria, dizia sempre, santo de casa não faz milagres.  A verdade era que ele não encaixava no tempos atuais, o tipo de música de agora, não era com ele.

Quando quiseram renovar para voltar com outro show a Las Vegas, disse é o último, tenho dinheiro por muitos anos, qualquer coisa volto a ser advogado.

Ficou seis meses preparando o show na surdina, só músicas que ele gostava, recuperou muitas coisas de Cartola, Pixinguinha, Lamartine Babo, marchinhas de carnaval, Odete estava como louca desenhando o figurino para mandar, iria nos preparativos finais.

Estava preocupado com Claude, estava mais velho, cansado, dizia que a responsabilidade era grande, preparava Mandu, bem como uma moça para serem pais de santo, quando ele se retira-se.

Mas Exu dizia que ele teria muito tempo pela frente, trabalhe menos.  O próprio fazia uma seleção, as vezes uma pessoa queria falar com o Claude, ele mandava Mandu ou mesmo Benji atender.

Se sentava ao lado do Benji, dizendo na sua cabeça o que ele devia dizer a pessoa.  Ele lia o jogo em Yoruba, depois traduzia a pessoa.

Nada de matanças inecessárias, resolvia os problemas simplesmente, com banhos, frutas para os Orixás, foi lhe ensinando quais frutas que gostava cada um.  Tempo depois os mais jovens que vinham consultar, era com Benji, quando lhe perguntava pela sorte, se ganhariam na loteria, dizia que fossem trabalhar, que era o melhor.

Um dia um dos traficantes de drogas entrou sorrateiramente no terreiro, pediu ao Benji para jogar para ele.   Ficou surpreso dele ser tão franco.   Lhe chamou a atenção, como um homem como ele podia ter-se perdido por causa dessa merda.  Rico pensavas tu, mas se contínuas, vais encontrar a morte, o pior e que não vais levar nada para o outro mundo.    No teu trabalho, logo começaram os problemas, quer um conselho, arrume tua trouxa, desapareça, para muito longe.   O traficante ficou olhando para ele, mas encontrou um olhar límpido, que olhava fixo nos seus olhos.   Se não gosta do que digo, procure alguém que te engane direito.   Mas sabes que não gostamos de gente do tráfico aqui.   Não demore muito pensando no que eu te disse.

Menos de uma semana, não se falava em outra coisa, que o homem tinha desaparecido durante uma noite, muitos pensavam que o tinham matado, pois seu carro foi encontrado no final do Recreio do Bandeirantes queimado.

Exu se matava de rir, nos livramos de um bom sem vergonha, quando Claude soube, ficou preocupado, mas Exu disse que nunca deixaria seu filho predileto desamparado.   Saberias encarar esse homem como ele fez?

Claude reconheceu que não, que talvez mentisse sobre o que via no jogo.

Os mais jovens gostavam quando ele jogava, porque falava uma linguagem que eles entendiam, dizia logo, estão no caminho errado, vê se toma vergonha na cara, arrume tua vida de uma vez, dava verdadeira broncas.    Uma vez Claude o viu exaltado com um casal, não sabiam o que fazer, o filho era autista, não o entendiam.   Se levantou na frente deles, dizendo eu tenho a mesma doença do seu filho, podem trazer esse menino, que eu cuido dele, se vocês não têm paciência, eu tenho.    Dias depois apareceram com o menino, de longe Claude observava.   Ele se sentou com o garoto no chão, embaixo do Iroco, ficou conversando com ele, o menino que estava agitado, ficou calmo, começou a falar com ele.

Um dos grandes problemas da doença era a falta de comunicação de ambas as partes.  Agora a família o trazia todas as semanas para conversar com o Benji.  Tinha deixado de estar agitado.  A mãe ria, dizendo, digo que vamos te ver, ele se arruma sozinho, quer sempre colocar uma roupa branca como tu.

Anos depois esse rapaz, estaria na faculdade, estudando como um aluno brilhante.

Benji ficou conhecido por isso, mas dizia que não tinha sido ele, mas sim o Bara que o tinha guiado como fazer tudo.

Benjamin desta vez voltou exausto da viagem, o show tinha sido exaustivo.  Apesar da oferta maior, se negou a ficar, queria estar na sua casa.  Agora se levantava cedo para estar junto com Claude, nas orações, já encontrarei um jeito.

Claude o convenceu de fazer um exame exaustivo, além do stress, estava anêmico, fez um tratamento sério, mas o que gostava mesmo era de voltar a tocar o seu atabaque, cantar os pontos no terreiro.

Algumas vezes o convidavam para cantar em algum lugar, se fosse fora do Rio, rejeitava.

Queria passar mais tempo com Claude, nesse tempo todo, se guardava para estar com ele.  Nunca me sinto atraído por outras pessoas dizia.

Quando Claude fez 90 anos, fizeram uma grande festa.  Houve uma verdadeira romaria, ao terreiro de todas as pessoas que tinha conhecido ao longo dos anos.

Mandu, dizia que quem devia ser o chefe do terreiro era o Benji, ele sabe impor ordem, se entende melhor com todos os orixás, ninguém melhor do que ele para realizar todos os preceitos.  Basicamente não se percebia que era autista, era uma pessoa como qualquer outra.

Um dia ouviram ele discutindo com um filho do terreiro, como se atrevia a vir, a gira, depois de fazer sexo, sem tomar um banho, era falta de respeito com seu orixá, se ele queria seguir ali, tinha que respeitar os preceitos.    O outro lhe respondeu, que como ele não fazia sexo, nunca ia ter problemas.

O que eu faço ou deixe de fazer, é coisa minha, cuido dos preceitos todos, respeito os orixás, o mandou preparar para si mesmo um banho, que fosse ao Iroco pedir desculpas ao Orixá, isso tudo com Claude olhando de longe.  Não largou o pé do rapaz até que ele fez tudo.

Como sabias que tinha feito sexo, lhe perguntou depois?

Pelo cheiro meu pai, tudo tem cheiro para mim.  Acho uma falta de respeito vir sujo para o terreiro.  Para isso temos um banheiro apropriado, nunca me nego a preparar um banho para qualquer filho seu.

Acho que eles são mais filhos teus que meu.   No final, o rapaz veio pedir desculpas, ando meio perdido meu pai, Benji se sentou com ele, conversou sobre seus problemas.   Benjamin ficava curioso, como ele podia aconselhar se nunca tinha tido experiencias.   

Ora meu irmão, nunca vais entender, não sou eu que converso com eles, sim Bara, ele fala pela minha boca, realmente não tenho experiencias sexuais, tampouco tenho vontade de ter, estou bem assim.

Todos o respeitavam, bastava um olhar seu, para saberem que estavam fazendo alguma coisa errada, imediatamente se corrigiam.

Claude dizia que iria embora tranquilo.  Benjamin ficava furioso, como ele podia falar assim, temos ainda muito para viver. 

Meu querido, olha minha idade, realizei meus sonhos todos, inclusive tendo a ti do meu lado, que mais posso querer, ficar um velho gaga, nem pensar, quando chegar minha hora quero ir em paz.

Benjamin sabia que o estava preparando, tinha visto o que ele fazia pelas manhas, agora estava mais lento, as vezes parava no meio de alguma reza, como se estivesse conversando, esperando uma resposta, um dia se levantou, o viu ali sentado, com a cabeça caída ao lado.  Mal conseguia se mover do lugar, a dor que sentia era imensa.

Foi um enterro impressionante, o terreiro ficou abarrotado, tiveram que colocar pessoas na porta para controlar a entrada.  A Mangueira em peso, vinha render tributo a um homem que tinha vindo de fora, mas que formava parte dela.

Suas cinzas foram enterradas no Iroco, a escolha do seu substituto surpreendeu todo mundo, escolhia o Benji, como chefe do terreiro, espiritual, Mandu como chefe para orientar o pessoal.   Os dois jogavam búzios. 

Era a primeira vez que viam dois pai de santo tomarem conta do mesmo terreiro, mas os dois juntos a força era maior.

Benjamin, recebeu como herança o apartamento de Paris, todo o dinheiro que ele tinha, ficava para manutenção do terreiro.

Seu grande amigo Jean, fez uma belíssima oração no seu enterro, finalizando, me espere onde estiver velho companheiro de infância.

Desta vez ele partiu sozinho para um tempo em Paris, lhe chamavam para cantar, mas não lhe fazia muito mais graça, sentia falta do Jean, para organizar tudo.

Acabou vendendo o apartamento, voltou a viver na Mangueira, na casa deles, seguia indo ao terreiro, tocar atabaque para seu novo Babalorixá, seu irmão Benji.    Este o animava seguir em frente, quando estava sozinho em casa, as vezes se sentava onde o fazia Claude, cantando Bom dia Tristeza. 

Estava magro, cabelos brancos, a tristeza não o abandonava, um dia Odete o encontrou morto na cadeira em que tinha morrido Claude.   Sabia que agora ele estaria em paz.

Os outros seguiram suas vidas, mas o amor deles perdurou para sempre.








 


  


                                               BENJAMIN CLEMENTE


As vezes o nome não ajuda, era filho de uma mulata, com um francês louco, que um dia desceu de um navio na praça Mauá, para ver como era esse país, que tanto escutava falar.

Com os amigos foi a ensaio de samba na Mangueira, quando viu aquela mulata sambando, ficou como louco, não houve maneira de fazê-lo embarcar.  

Era pau para toda obra, tanto trabalhava na construção, como ajudava na montagem de carros da escola de samba.

Quando seus dois filhos tinham mais ou menos 10 e 12 anos, caiu de cima de um carro alegórico que estava montando, teve tanto azar, que caiu de cabeça em cima de uma máquina, essa quase o cortou pela metade.

Minha mãe, nunca se recuperou, eu tenho o mesmo nome dele Benjamin Clemente.  Ela sempre deu um duro desgraçado, para que tivéssemos estudos, para não acabar na merda como diria ela.  Costurava para fora, além de dirigir as costureiras da escola de samba, adorava fazer as roupas da ala das baianas, mas claro isso não condizia que podia sair na ala, não tinha idade para isso.

Meu irmão saiu totalmente brasileiro como ela dizia, mais malandro era impossível, eu ao contrário, gostava de estudar, cantar, por insistência dela, acabei estudando direito, embora cantasse no coro da Universidade, claro trabalhava ao mesmo tempo.  Como tinha estampa, além de falar duas línguas, consegui emprego numa boutique no shopping Rio Sul.   Estudava de noite, dando um duro desgraçado, mas o dinheiro ajudava em casa, além de me pagar a faculdade.

Quando chegou a época das práticas, o porco torceu o rabo, pois aonde iria encontrar algum escritório que me aceitasse.     Conversando com um cliente, esse que tinha escritório, me disse que o mais certo era conseguir um emprego em algum grande no centro da cidade, nem que fosse para começar de baixo, a outra sugestão era que eu entrasse para a polícia.

Minha mãe torceu logo o nariz, polícia, sei não, pelo menos os que moram aqui no morro, estão tendo sempre que fazer serviço por fora.

Tentei, consegui fazer um curso para policial, já que tinha faculdade, pulei tudo, fui trabalhar de detective numa delegacia do centro da cidade.   Gostar não gostava, mas tinha uma facilidade, ficava perto do lugar que o coro que cantava ensaiava.

Minha vida era essa correr de um lado para outro, aguentar as sugestões para aceitar algum suborno para aumentar o salário.  Mas sempre conseguia tirar o corpo fora.

Me relaxava cantando, o que minha mãe reclamava.   Num coro nunca vais chegar a lugar nenhum, eu lhe explicava mil vezes que era o que gostava.

Chegou um novo chefe na delegacia, tinha fama de corrupto, eu continuei fazendo meu trabalho a sério.  Era um caso complicado, mas ele mandou fechar a investigação.  Aleguei que tínhamos dois suspeitos, mas me olhou feio.   Eu insisti, na terceira vez, chamou o meu chefe, disse que a partir daquele dia, eu ia ser guarda urbano, que me tocava a praça XV, que devia andar por ali fiscalizando a feira dos sábados, os bares ali perto da rua do Ouvidor.  Quem sabe assim aprendia a entender as ordens.

Engoli em seco, pois sabia que os outros companheiros estavam rindo a minhas custas.   Mas me importava um pepino, pois não queria ser desonesto.

Diziam que eu era ingênuo, ou tonto, para não aproveitar as oportunidades, o mais sério deles, conseguiu escapar, fazendo provas para a Polícia Federal.

Eu já sabia que ser policial não era a minha, mas tinha que encontrar uma oportunidade. 

Um sábado estava na Praça XV, quando vi uma mulata, daquelas de fazer parar o trânsito, com um homem branco, loiro, olhos verdes, me chamou a atenção, do casal bonito que formavam, os dois tinham estilo.

Um dos feirantes, estava querendo enganar ao homem, ela insistia que ele devia respeitar os turistas, me aproximei tentando ajudar.  O homem, falava com ela em francês, com o homem da feira num português carregado de sotaque.

Chamei a atenção do feirante, como podia tentar enganar o homem, se o preço estava escrito na máscara Africana que ele queria comprar.

Meu irmão, se não ganho uns trocados à custa dos turistas tontos, como vai ser?

Se não respeitas os clientes, vou ser obrigado a colocar uma denúncia contra ti, além de pedir que te retirem a licença para vender aqui.

Acabou fazendo o preço que estava preso na peça.   O homem me agradeceu, eu lhe respondi em francês, ele soltou uma risada, um policial brasileiro que fale francês é interessante.

Lhe contei que meu pai era francês, de Lyon, que tinha aprendido com ele desde criança.

A mulata me olhou com uns olhos castanhos quase verdes, tinha uma voz rouca, que eu não sabia definir porque falava assim.

Disse que era enfermeira, que o senhor Claude Lambert, tinha vindo fazer uma cirurgia corretiva na clínica que ela trabalhava.  Como hoje era seu dia livre tinha saído com ele para passear.   Disse o nome da clínica.

Olhei para ele, não aparentava muita idade, mas se via com bolsas nos olhos, bem como parpados caídos.   Ele riu por estar examinando sua cara.

O que acontece me explicou, vivo, trabalho com a alta sociedade de Paris, tenho que ter certa aparência, sou advogado, trabalho num dos grandes escritórios de Paris, uma cliente brasileira me indicou essa clínica.  Como segunda feira entro na faca, quero aproveitar o final de semana.

Eu me chamo Edmundo, disse a mulata, rindo não faça essa cara de susto, sou transexual, estou em processo final, logo serei mulher, só então poderei trocar meu nome.

Fiquei rindo, me enganaste direitinho, mas sem dúvida nenhuma serás uma mulher lindíssima.

Os levei até a rua do Ouvidor, pois ele queria ir a uma livraria, eu o levei a Folha Seca, como ele disse o que procurava, comentei aí encontraras tudo.

Me convidaram para almoçar ali com eles, comentei que iria até a delegacia, para trocar de roupa. Que me esperassem.

Troquei de roupa, imaginando, que já não estariam lá, quem ia querer ficar esperando o policial de rua, para almoçar.

Me enganei, quando cheguei, estavam sentados, ele com uma bolsa cheia de livros, tomando um chopp cada um.   

Edmundo soltou que eu não tinha demorado muito.

Pensei que já não ia os encontrar aqui, sabe como é, quem ia querer almoçar com um policial de rua.    Contei minha história, disse ao Claude que era como ele advogado, mas as oportunidades eram pequenas para além mulato sarará como eu.   Tive que lhe explicar o que era sarará.

Que tal os livros, encontraste os que queria.   Tirou da bolsa vários, eram todos sobre o candomblé.   Ri, interessante isso, minha tia é mãe de santo lá na Mangueira. Tem um dos terreiros mais antigos de lá.    É muito respeitada nessa área.  

Ele ficou me olhando, sério, soltou agora já sei de aonde te conhecia.   Fechou os olhos, cantou uma música que eu sempre cantava.   “Bom dia tristeza”.

Ué como sabes que gosto dessa música?

Já sonhei antes contigo, por isso estou interessado, sonho com pessoas que vou conhecer, ou com coisas que acontecem depois vão acabar na minha mão.

Queres ir até lá falar com minha tia?

Sim, me encantaria.   Edmundo ria dos dois, vocês falam rápido em francês, tenho que fazer força para acompanhar o que dizem.

Lhe perguntei se tinha roupa branca?

Ele disse que não, mas que compraria, o fiz levantar-se, tínhamos a mesma estatura, além de tamanho de corpo.  Posso te emprestar uma das minhas.

Edmundo, disse que não podia ir, pois tinha que trabalhar.

Se ele confia em mim, o levo, depois tem samba da mangueira hoje, não queres ir.

Edmundo ria, odeio samba, apesar de tudo, não sei sequer sambar.

Justo nesse momento, pararam dois homens com violão, ao nosso lado, já tínhamos pedido comida, eu esperava meu chopp.   Marcel pediu se eu podia cantar, Bom dia Tristeza.

Boa pedida, meu tio soltou o homem, começou a tocar, eu a cantar, sem querer fui levantando a voz, soltando talvez pela primeira vez o vozeirão que tinha.   Claude tinha lágrimas nos olhos.

Mais uma, pediu, cantei outra que gostava, “Ronda” de Paulo Vanzolini, expliquei que era um médico de São Paulo.  De uma outra mesa, pediram outra música, era um pagode, perdi perdão, mas não sabia cantar essa.   Nisso chegou nossa comida, vi que Marcel, estava preocupado.

Por que estas preocupado?

Eu sabia que vindo para cá, as coisas desatariam, teriam que enfrentar muitas coisas novas para mim, as vezes nos acomodamos demais na vida.  Ficamos atados a coisas sem importância, que servem para nos amarrar, nos prender.                                        Acredito sempre que quando rompemos a inércia, desatamos acontecimentos, que nem sempre estamos preparados.

Enquanto comiam a sobremesa, me levantei, fui a livraria, pedi um livro que sabia que para ele seria importante.   Voltei, com o último que tinha na livraria, embaixo do braço.  Entreguei ao Claude, verás tu não es o único francês interessado nisso.     Entreguei o livro, ele soltou um grito, não soube me explicar estava procurando esse livro, meu pai conheceu o Pierre Verger, quando era jovem.

Pois então esse livro é importante, era Orixás de Pierre Fatumbi Verger, assim poderás ler enquanto te recupera da operação.    O tenho em casa, mas o meu está velho de tanto manusear.   

Levamos Edmundo para tomar um taxi, ele levou os livros, pois segunda-feira ajudaria na operação do Claude.

Ficamos conversando mais um pouco, soltei que não via por que ele se operar. 

Riu, tapando a boca, soltou sua idade, ele era vinte anos mais velho do que eu.  Sabe Benjamin, não aproveitei muito bem minha juventude, estudando, trabalhando, para mostrar ao meu pai, que podia ser um bom advogado.   Ele era um homem duro, mas foi ele quem me criou sozinho.  Uma história mal contada, que só descobri depois que morreu.   Já te conto um dia desses.

O ia levar de ônibus, mas sugeri um taxi.   

Não, vamos como costumas andar, gosto de me sentir normal.  Como, era um sábado, o ônibus não estava cheio, nos deixou ali ao pé da mangueira.   Fomos subindo, a garotada como sempre, sabia que eu trazia balas, fui distribuindo, falando com eles, sobre estudar.   Claude parecia entender tudo.

Quando chegamos a casa da minha mãe, levei uma bronca tremenda, tinha me esquecido de avisar que não vinha almoçar, a comida com esse calor se estraga, soltou ela, até perceber o Claude atrás de mim.

Pode falar em francês que ela entende.

Falei com ela o que tinha acontecido, das coincidências.  Ela chamou um garoto, que fosse avisar minha tia que eu levava um amigo para consulta, se podíamos subir antes.

Logo arrumou roupa branca para ele.  A calça estava um pouco larga, mas mandou tirar, ele ficou só de cuecas na frente dela, muito sem graça.  Me olhava de olho comprido.   Ainda não tinha entendido.  O achava atraente, mas realmente o era.

Na pequena sala da casa, estava meu diploma de advogado, que ela exibia com orgulho, ele foi olhar.

Nem precisei abrir a boca, dona Ceição ou Conceição, minha querida mãe, lhe contou como eu tinha me formado.   Deu muito duro seu Claude, o irmão dele, não, é um malandro, agora tem que trabalhar em construção, se casou tem dois filhos, nos dois temos que ajudar, porque senão não chegam ao final do mês.

Tive que explicar ao Claude o que ela queria dizer com isso.

O garoto voltou, reclamando que como sempre a Iaô, tinha feito jogo duro com ele, mas eu insisti que tinha que falar com Mãe Cida, como a senhora mandou.   Diz para subir antes com o gringo, pois pode ser que tenha que tomar um banho.

Lhe expliquei o que o garoto dizia.    Melhor levar a roupa branca para depois.

Minha mãe, disse que iria mais tarde, pois tinha que acabar um vestido que estava fazendo para a porta-Bandeira usar essa noite. 

Começamos a subir conversando, Claude, disse que em sua vida tinha imaginado isso, estar subindo numa favela, já sonhei com esse caminho muitas vezes.  Procurei psicólogos, até psiquiatras para saber o que era isso, por exemplo sonhar contigo cantado, ou estar subindo um lugar tão empinado, me diziam milhões de besteira, até que essa cliente disse que eu tinha que vir, pois aqui acharia a resposta.

Primeiro te encontrei por acaso.  Quando cantaste, foi como se abrisse a minha cabeça, pude recordar muita coisa.  A cena da tua mãe me falando do teu diploma, também tinha visto nos meus sonhos.

Benjamin, via que as pessoas que cruzavam olhavam como os dois falavam em francês, se não o conhecesse iriam ter problemas.

Na hora que abriram o grande portão, Claude ao ver o Iroco, correu até ele, chorava baixinho, quando tinha problemas, me imaginava sentado aqui, falando com essa gente toda.

Que gente Claude?

Esses que estão aí, sinalizou ao Iroco, não es vê?

Não meu filho, ele não os vê, nem todos tem esse dom que tens, quem falava atrás deles era mãe Cida, Claude, se virou devagar como se reconhecesse a voz que lhe falava, sorria, correu até ela, a abraçando.

Finalmente vejo a senhora, estamos falando sempre em sonhos, não é verdade?

Sim meu filho, a muito tempo te espero.

O foi arrastando com ela, a Yaô, de boca aberta com a intimidade do gringo com mãe Cida.

Ela foi dizendo sem se virar, faça um banho para Exu, que meu filho vai precisar.  Você Benjamin, não fica aí com essa cara de paspalho.  Vem junto que posso necessitar para traduzir alguma coisa.

Os seguiu os dois como um cão sem dono.

Estava te esperando, quando o menino veio avisar, eu sabia que eras tu.

Benjamin meu filho, leve o Claude para tomar um banho de descarrego de Exu, depois que vista roupa branca, volte aqui.

Mas no que ia lhe dar banho, passaram ao lado da casa de Exu, Claude entrou, se jogando no chão.

Ficou ali um tempo, a Yaô tinha chamado mãe Cida, ela entrou começo a falar em Yoruba, com o santo do Claude.   Ele se levantou, um pouco assustado, passei, mas não sei por que entrei.

Ela mesma, acabou dando o Banho, enquanto ia rezando coisas em Yoruba.  Quando terminou, estendeu uma toalha muito branca para ele se secar, mostrou como fazer.

Depois o levou para sua sala particular, aonde jogava os búzios, iriam falar com o Ifá.

Avisa essa menina homem que o Claude ficará aqui uma semana, que a operação era uma desculpa para ele vir.    Mandou arrumar um quartinho para ele.

Depois tudo foi como um vendaval, os dois só saíram da sua sala, quando ela foi se preparar, ele já estava todo de branco, com um turbante na cabeça, mas não via mais nada.

Quando todos estavam no terreiro, os apresentou, esse senhor é um velho amigo francês, agora não pode vê-los, pois está incorporado em Exu Bara, de quem é filho predileto.  A muito tempo o esperava, até que o Benjamin o trouxe até nós.

Benjamin, tinha se sentado com o atabaque entre as pernas, afinal era Ogan de Exu, com um sinal dela começou a tocar, sem que ninguém esperasse, Claude de um grande salto, parou no meio do terreiro, começou a cantar um ponto em Yoruba.   Falava rapidíssimo, só ela o entendia perfeitamente.

Ele correu por toda a Gira, a cada um que tocava, este incorporava seu santo, ela ria, ele já tomou conta da gira.  Os mais velhos da casa estranhavam, pois era ela que fazia isso.

Quando minha mãe Odete, chegou, não entendia nada, se sentou ao lado de sua irmã, caramba o gringo é dos nossos.

Ele pediu se podia levar as pessoas incorporadas até o grande Iroco.  Mãe Cida disse que sim, mandou fechar as portas do terreiro, já sabia como era a coisa, ficariam cheios de curiosos, parados no portão, para ter o que comentar depois.

Ele levou todos que estavam incorporados até o grande Iroco, por sinal uma Mangueira, que ninguém sabia precisar quantos anos tinha, mas pelo seu tronco, muitos.

Pediu um lençol a Yaô, que antes olhou mãe Cida, ela fez sinal que o obedecesse.  Pediu que o Benjamin, fosse tocando os pontos dos Orixás incorporados, ia saudando cada um, ao mesmo tempo que ajudava a pessoa voltar a realidade.  De um grande alguidar, ia dando água para as pessoas que bebessem em suas mãos.   Para todos isso era uma grande novidade.

Um homem que chega sem ninguém conhecer, muda todo o sistema da casa.

O mais curioso, era que ia dizendo o nome das pessoas, sem ao menos perguntar quem era, esse homem nunca nos viu nem mais gordo, nem mais magros, como sabe nosso nome.

Quando tudo terminou, mãe Cida explicou, a uns dois anos, os Orixás me encarregaram de encontrar esse irmão que estava em terras francesas, eu tinha que encontrar um jeito dele vir para cá.

Fazer com que ele chegasse até aqui, ele em sonhos foi conhecendo as pessoas que poderia confiar, que falassem sua língua.    Primeiro encontrou uma enfermeira na clínica aonde vai ser operado, em seguida com o Benjamin hoje de manhã.  Acabou aqui, como era de se esperar.    Não se assustem com a maneira de se comportar de seu Exu, pois ele é muito poderoso.   Nos ajudará muito daqui para frente.

Mais tarde quando Claude, voltou a si, ria muito, pois se lembrava de tudo, ele disse que eu devia ficar vendo para aprender.

Hoje entendi muitas coisas, a alguns anos atrás descobrir quem sou, quando meu pai morreu, ao lerem o testamento, diante de sua família, existia uma carta para mim.                         A guardei, não tinha um bom relacionamento com ele, depois de muito tempo li a carta, me explicava que não era filho dele, mas sim de um irmão que seu pai tinha tido fora do casamento.   Um dia este apareceu, pediu que cuidasse de seu filho, me deixou com ele, desapareceu.   Me registrou como seu filho, pois eu era um bebê, mas ele não tinha muito jeito para ser pai, reconhecia.

Me deixou o escritório, o apartamento que vivíamos, bem como uma boa soma de dinheiro, tinha procurado todos esses anos pelo meu pai verdadeiro, nunca o tinha achado.

Foi quando comecei a sonhar com mãe Cida.   Ela algumas vezes me explicava o que tinha acontecido.

Meu pai verdadeiro, se perdeu em Benin, era filho de uma mãe de santo de lá com o que seria meu avô, numa das missões que pelo governo tinha ido ao Benin.

Por isso eu sem querer sabia Yoruba, estava no meu subconsciente.

Benjamin, perguntou se ele tinha o número do Edmundo, era necessário avisar, ele teria que ficar lá uma semana.

Minha maleta está na clínica, falaram os dois com Edmundo, disse que saia do serviço dentro de momentos.   Benjamin combinou que o iria esperar aos pés da Mangueira, aí subiriam.

Quando o Edmundo chegou, pegou a maleta, foram subindo os dois, queria saber o que tinha acontecido.

Melhor ele mesmo contar, perdeste todo um acontecimento.

Quando Edmundo entrou no terreiro, reverenciou o Iroco, o mais estranho foi que mãe Cida o abraçou, olá minha filha, a quanto tempo.

Vocês se conheciam, perguntou o Benjamin?

Sim, a muito tempo, Edmundo, vinha sempre aqui, até que começou a transformação.           Estas linda, minha filha.

Ela mesma lhe explicou tudo, como o Claude sonhava com eles, ele já te conhecia também pelos sonhos, se não encontrasse o Benjamin hoje, teria que ser tu, que o trouxesse.

Claude comeu alguma coisa, disse que estava muito cansado. Quando todos se despediram, foram descendo, mãe Cida disse ao ouvido do Benjamin, se podes venha aos finais de tarde conversar com ele.

Assim se passou a semana, o que acontecia durante o dia, era um mistério, pois mãe Cida tinha proibido a Yaô que vivia no terreiro falar no assunto.   Claude tampouco falava.

Benjamin, chegava conversava, algumas vezes ele pedia que cantasse alguma música para ele, mas sempre repetia ao final, “Bom dia Tristeza” nunca entenderia por quê?

Já quase no final de semana, finalmente soltou, que iria a Paris, para fechar ou vender o escritório, resolver suas coisas.  Lhe perguntou se não queria ir com ele.   Quando volte, vou abrir um escritório, poderias trabalhar comigo, como advogado, pois terei que pedir licença, bem como estudar as leis daqui.

A Yaô, tinha se dedicado nos tempos livres ensinar português para ele.   Falava bem melhor.

Depois terei que encontrar um lugar para viver, bem como um escritório, ou tudo junto ainda não sei.

Quando Benjamin, comentou isso com mãe Cida, o que ela achava do convite, da viagem, trabalhar com ele.   

Foi franca, ainda não notaste, mas ele veio para cá, por ti, por isso gosta tanto dessa música, sempre sonhava contigo.   Nunca amou ninguém, de uma certa maneira está apaixonado por ti.  Não tenha medo, pois já vi que gostas dele também.

Nunca tinha tido relacionamento com homens, mas se sentia atraído por ele.    Num primeiro momento tinha se sentido atraído pelo Edmundo, mas ao descobrir o processo doloroso que estava passando, entendeu que não tinha tempo para isso.

O primeiro dia que saiu, queria ir tomar um banho de mar, convidou mãe Cida para ir também, minha mãe que adorava o mar, veio junto, subi meu velho carro por uma rua lateral, assim mãe Cida não teria que descer a colina inteira.

Os levou a um lugar que gostava de ir, lá na reserva, num restaurante a beira mar.   Avisou Claude que era perigoso, que isso não era mediterrâneo, que tinham muitas correntes.

Mas nadava como um peixe.  Estava fascinado pelo seu corpo magro, quase sem pelos, seus cabelos esses dias tinha crescido, estavam largos, de um castanho escuro.

No caminho de volta, tornou a falar de ir com ele a Paris, enquanto me opero, além da recuperação, vá tirando um passaporte, peça uma licença sem remuneração, assim poderás ir comigo.

No dia seguinte fez isso logo de manhã, bem como marcou hora para tirar o passaporte, não sabia por que ia com ele, mas confiava inteiramente no Claude.  De tarde foram ao centro da cidade, pois ele queria comprar roupa branca para ele.   Não posso ficar usando sua roupa.   Nesse dia devolveu a que lhe tinha emprestado.   Em casa, ia colocar para lavar, mas ao sentir o cheiro do Claude, não conseguiu, guardou dentro de um saco plástico, no armário de seu quarto.

Depois da operação voltou outra vez para o terreiro, a Yaô cuidava dele, normalmente no final do dia, Edmundo vinha tirar algum ponto, ver como estava a recuperação.  Ele ao contrário, ia todos os dias para conversarem.    Tinha se informado, como deveria fazer para conseguir o reconhecimento do seu diploma no Brasil.   Teria sim que pedir um visado para trabalhar no Brasil.

O tempo passou voando, quando viu já estava no aeroporto, se despedindo do Edmundo, bem como de sua mãe.  A velha tinha se encarinhado do Edmundo, estavam sempre conversando sobre mil coisas.

Descobriram que o sonho do Edmundo era ser médico, mas só tinha podido estudar enfermagem.

Ia conversando isso com o Claude, esse disse que o ajudaria, gosto muito dele. 

Brincando, lhe disse, mais do que de mim?

Não, você foi o farol que me guiou até o meu destino, meu amor por ti é imenso.

Não esperava essa resposta, ficou constrangido.   Lhe disse diretamente que nunca tinha tido relacionamento com homens, que não sabia como se comportar.

Não se preocupe, pois nos encontraremos nisso também.

Depois de servirem o jantar em pleno voo, acabou dormindo, estavam muito comportáveis em classe especial, não era primeira classe, mas tinha conforto.   Quando despertou, já era de manhã, iriam começar a servir o “Petit déjeuner”, ainda pensou, finalmente vou usar tudo que aprendi com meu pai, seu irmão ao contrário achava tudo chato o que o velho ensinava.

Estava levando o endereço que sua mãe tinha de Lyon, que ele o tinha deixado com seus papeis.

Se sobrasse tempo iria até lá.   Claude disse que não se preocupasse que iriam.  Iria descobrir antes se morava nesse endereço a família do seu pai.

A chegada a Paris, foi emocionante, o avião, como tinha que esperar deu uma volta sobre a cidade, ele ria, como uma criança.

Pegaram um taxi para a casa do Claude.  Era um belo apartamento, ele disse que tinha sido do seu pai, que não gostava muito de lá, quando ele morreu, reformei somente meu quarto, bem como a sala que uso para ler e trabalhar, o resto é essa velharia.

Vou colocar a venda, com tudo que está dentro, existe inclusive quadros de um bom valor.  Ficas no quarto ao lado do meu, que também é uma suíte.

O quarto, bem com a saleta que ele dizia, eram modernos, o quarto que lhe indicou, era um meio termo.

Amanhã, começo a colocar mãos a obra, hoje vou te mostrar meus lugares preferidos da cidade.

Estava claro, mais frio que no Rio de Janeiro, o outono já tinha começado, viu que Benjamin estava parado diante de um cartaz da Ópera.   Isso talvez seja a única coisa que sinta falta, a Saison, a temporada de Ópera, teatro, exposições de arte, que ia com alguns amigos.

Amanhã, vou marcar um jantar com meus poucos amigos para que te conheçam, alguns são um pouco exagerados, ou afetados, mas não se preocupe.   Mas não comente nada que estou vendendo o escritório, bem como o apartamento, que volto para o Brasil.

No dia seguinte foi com ele para o escritório, era como ele tinha descrito, tinha dois sócios que eram antigos, fez uma reunião com eles, disse que queria vender sua parte, logo se mostraram interessados. Isso incluía o local.    Se compram com tudo, deixarei o apartamento a parte, para mais à frente.

Deu entrada nos papeis, foi com ele a embaixada brasileira, tinham agendado um horário, como era um advogado conhecido, foi atendido pelo próprio cônsul, que imediatamente chamou o responsável, para providenciar tudo para ele.   Se decides ficar definitivamente, terás que fazer uma prova na OAB, explicou o que era.

Voltaram ao escritório, ele foi passando seus casos para um advogado dali sua secretária, quando soube chorou, trabalhava a muitos anos com ele.

Quem sabe venha me visitar, ou mesmo trabalhar comigo no Brasil.   Ela balançava a cabeça, nada me segura aqui mesmo.

Apesar de Claude ter avisado, os amigos, foram efusivos com ele, olhando os detalhes da operação, quando perceberam que ele estava junto, foi sendo apresentado um a um.

Um deles soltou, sem saber que ele falava francês, eu também quero ir fazer uma operação no Brasil, trazer um namorado de lá.

Benjamin, não é meu namorado, mas sim o melhor amigo que poderia ter encontrado.   Só um deles sabia da história dos sonhos.  Sentou-se ao seu lado, Claude, depois necessitas me contar como aconteceram as coisas.     A maioria comeu, comemorou, cada um tinha uma desculpa para ir embora, só ficaram finalmente os três.   Só então entendeu que Jean, não era amigo dos outros.

Claude explicou, que se conheciam desde a infância, que os dois tinha estudado juntos até a universidade.   Saíram dali, estava as margens do Sena, se via ao longe, a torre Eiffel toda iluminada, sem querer se encostou no muro, começou a cantar, “Bom dia Tristeza”.  A cara do Jean, era impressionante.

Essa era a música que dizias que escutava nos sonhos não é, porque vivias assoviando a mesma. Sentaram-se num banco numa praça, Claude contou tudo para o amigo. Este no final chorava, como vou fazer sem ti aqui.

Quem sabe venha nos visitar no Brasil, ao se despedirem, Jean olhou bem para o Benjamin, cuide bem de meu amigo, ele merece.

Ficou com aquilo na cabeça, quando subiram no elevador, ficaram próximos um do outro, colocou o braço pelo ombro do Claude, o atraiu para ele, o beijou.

Não podia imaginar que isso, iria mexer tanto com ele, nunca tinha sentido desejo por ninguém, o sexo para ele, acontecia quando estava com alguns amigos, todos arrumavam acompanhantes, sempre sobrava alguma garota para ele.

Mas nunca tinha sentido isso ao mesmo tempo, queria seguir em frente.  Claude colocou as mãos nos seu peito, vamos devagar.

De noite se levantou, foi sentar-se na saleta que ele usava, podia sentir ali seu perfume.  Demorou a dar conta que Claude estava sentado na outra poltrona.

Não podias dormir?

É porque nunca senti uma emoção como está ao te beijar, estou aqui ruminando, uma vez uma garota me disse que na cama eu parecia um garoto, que não sabia bem como me comportar. Quase disse a ela, que não queria estar com ela nesse momento, não me sentia no fundo atraído por ela. Mas agora pensando com todas era a mesma coisa.     Mas tampouco me sentia atraído pelos rapazes.  

Estavas esperando por mim?  Comentou Claude rindo.

Quem sabe, mas tu deves ter mais experiencia do que eu.

Não tantas quando devia ter, nunca me senti atraído por homens como meus amigos.  Eu, bem como o Jean, sempre fiquei na surdina.   Tive algumas aventuras sem importância, como tu dizes, não sentia nada pela pessoa.    Mas quando cantaste a minha música, me apaixonei por ti.

Estendeu a mão para ele, ficaram ali de mãos dadas, Benjamin se sentia reconfortado, com tendo encontrado finalmente alguém a quem amar.   Quando foram para a cama, foram devagar, tudo era um descobrimento para ele, nunca tinha sentido tanto prazer.

A semana passou rápido, no sábado foram a Lyon, já sabiam que havia familiares ali.  Quem os atendeu foi uma senhora, a quem a vida não tinha favorecido.  Quando lhe mostrou a foto que tinha de seu pai, ela começou a chorar.   Um belo dia ele desapareceu, nunca mais deu notícias.   Tempos depois apareceu aqui uma mulher dizendo que tinha um filho dele, o deixou nas minhas mãos.  É mais velho que você, mas vive internado, pois já não posso cuidar dele, tem autismo, permaneceu uma criança.

Ia sair agora para vê-lo, vou todos os dias pois é a única pessoa que gosta perto dele.  Foram com ela, não era uma criança, tinha sua altura, magro, quando os viu, foi direto ao Claude, ele veio contigo perguntou.

Claude apontou ao Benjamin?

Não, o outro, o senhor negro que sempre, vem me fazer companhia, diz que meu irmão virá me ver.

A senhora estava de boca aberta, ele nunca fala muito, essa conversação é muito para ele.

Claude disse, ele é teu irmão.

O rapaz foi até o Benjamin, o abraçou, ele diz que vais cuidar de mim.   O rapaz era muito bonito, dava pena.  Conseguiram levá-los para almoçar.

Sua tia lhe contou que tinha filhos, mas que viviam em Marseille, que breve teria que ir viver com eles, pois já tinha muita idade, além de problemas cardíacos.

Por isso o internei.

Durante todos esses anos, cuidei dele, foi mais querido que meus filhos.  Por isso não o aceitam.

Ficaram de voltar antes de ir embora, Benjamin não tirava o rapaz da cabeça, falou por telefone com sua mãe, que nem pensou duas vezes, não consegues que te deem a guarda dele?   Podes trazê-lo que cuido dele.

Conversou com Claude o que tinha dito sua mãe, na verdade nunca estaria tranquilo, pensando que ele ficou para trás.  Se consigo sua guarda poderia ir para o Brasil conosco.

Vou verificar tudo.   Nessa semana foi enrolado, negociou a venda do edifício, bem como de sua parte do escritório, teria dinheiro por muito tempo.  Foi ao Banco do Brasil, depositou uma parte.   A outra conseguiu transferir para um banco no Luxemburgo, assim seria mais fácil chegar ao Brasil.

Voltaram a Lyon, Claude falou com o juiz que levava o caso do rapaz, ficaram rindo quando descobriram que ele também se chamava Benjamin Clemente, este autorizou, desde que a sua tia desistisse da guarda dele.   Conversaram com ela, esta respirou aliviada, não me irei daqui com um peso na consciência.

Prepararam toda a documentação dele, compraram bilhete de avião.  O médico, lhe recomendou que se ficasse nervoso, desse um comprimido para ele.    Mas estava sempre ao lado do Claude, ele vai conosco verdade, agora já sabia a quem ele se referia.

Sim, vai conosco, ele tem muitos amigos, vamos te levar para lá, assim terás muitos amigos com quem falar.

Edmundo foi buscá-los no aeroporto, os levando direto para a Mangueira.    Odete recebeu seu novo filho de braços abertos, mas o melhor foi quando o levaram para o terreiro de mãe Cida.  Mal abriu a porta, Benji, como o chamava, correu para o Iroco.   

Mãe Cida, ria, ele consegue ver o que nenhum dos meus filhos de santo nem sequer imagina que estão no Iroco.   O mais interessante que ele mesmo se apresentou a ela, beijando suas duas mãos.

Perguntou se podia ficar vivendo ali com seus novos amigos.    Odete disse que passaria a maior parte do tempo que tivesse livre com ele, mas ele já tinha uma pessoa que o tratava, a Yaô, se tomou de amores por ele.   A obedecia, a seguia como um cachorro sem dono por todas as partes, logo, sabia preparar banhos, colocar água nas quartinhas dos santos, fazia tudo como ela fazia.

Odete sentou-se com o filho, dizendo, vejo que encontraste a pessoa que te faz feliz.   Não se preocupe antes de tudo eres meu filho querido.

Eles estavam procurando apartamento, bem como um lugar para montar um escritório.  Finalmente o encontraram logo ao princípio de Vila Isabel, assim poderia ir inclusive a pé para a Mangueira.  Era um local que facilitava tudo, tinha sido já um escritório, na parte de baixo, na de cima, era um apartamento. Tinha inclusive uma varanda, os dois gostaram do lugar, mas infelizmente o proprietário era um militar daqueles de visão fechada, quando os examinou bem, disse que não.

Enquanto isso estava na casa da Odete, duas casas ao seu lado estavam vazias, tinha inclusive caído o telhado.  Um dia Benjamin chegou, viu o Claude, conversando com um senhor de idade, era proprietário do dois barracos, negociou com ele, comprou os dois, conseguiu tratar com uns pedreiros que frequentavam o terreiro, o respeitavam muito, sabiam que ele era de Exu, não podiam falhar.

Construíram como se fosse qualquer outro barraco dali, por fora é claro, mas por dentro era outros 500, mãe Cida, Odete mesmo o Benjamin, a princípio não entendiam.  Ele foi franco, não quero viver longe do terreiro, é muito importante para mim.

Escritório, podemos conseguir qualquer um no centro da cidade, mas antes temos que estudar para fazer a prova da OAB, depois pensamos nisso.   Os dois barracos juntos, dava uma casa normal, com dois quartos, uma sala, cozinha, uma pequena área de serviço.   Não precisamos mais do que isso.  Mobiliaram normalmente, sem grandes luxos, na sala um sofá, duas poltronas de orelhas, para que mais dizia ele.

Benjamin estava louco para trabalhar, suas economias começavam a terminar.  Fizeram a prova da OAB, logo tinham seus diplomas reconhecidos.

Conseguiram um escritório, antigo, mas que tinha sido de advogados anteriormente, na av. Rio Branco, logo começaram a aparecer casos interessantes, não só do pessoal que ia consultar mãe Cida, que quando o caso era problemas jurídicos, ela dizia, minha filha, Orixá, não é advogado, sei que vieste aqui, por ser mais barato.   Mas olhe tome este cartão, vá falar com os dois advogados, são aqui do terreiro, tenho certeza de que te ajudarão.   Escrevia atrás do cartão, cuide bem dessa senhora, vejam se podem resolver seu problema.

Logo tinha uma clientela, tipo boca a boca, que iam trazendo mais pessoas.  

Claude ainda comentou com o Benjamin, estavas preocupado com ficar sem dinheiro, não confiaste em mim, seu sem vergonha.  Te da vergonha que eu tenha dinheiro.   O que é meu é teu.

Os dois contrataram os mesmo pedreiros, para fazer uma reforma geral no terreiro, mãe Cida ficou feliz.

Benji, adorava nos dias de ensaio, descer para a quadra, parecia um a mais da escola, decorava o samba enredo, ninguém sabia que ele tinha autismo, pois se desenvolvia bem.  Quando lhe ofereciam uma bebida, agradecia, dizia que fazia um tratamento, não podia beber, mas claro, Odete, suas amigas com que ela ia, não o perdiam de vista.

Quando tinha alguma coisa no terreiro, ele era o primeiro em estar pronto, era como a Yaô do Exu do Claude.   Este agora aprendia Yoruba, além de estudar com afinco o Ifá.  Uma vez por semana, atendia os casos mais complicados.   Mas deixava que seu Exu falasse por ele.   Era conhecido por todo mundo como o Francês do Exu.  

Cada vez mais ele era o braço direito de mãe Cida, tinha em casa um canto só seu, onde sentava-se muito cedo, por volta das cinco da manhã, começava com uma oração em Yoruba, depois acendia incenso, se concentrava, começava a jogar.  Conversava com seu Exu, através do jogo.  Isso ele não falhava.  Era outro que nunca bebia, nem uma cerveja.   Algumas pessoas comentavam que ele devia sentir falta daquela bebida famosa dos franceses, o tal do champagne, alguns até lhe davam de presente, uma sidra cereser, ele agradecia a amabilidade, mas levava para o terreiro, para alguma obrigação.

Benji era mais agarrado com ele que com seu irmão, mas talvez porque tinha sonhado com seu Exu sempre, ao mesmo tempo que estudava Yoruba, se surpreendeu que o rapaz, aprendesse tão rápido.

Ele disse que o Exu sempre tinha falado com ele nessa língua.  As vezes falava com mãe Cida, quando no jogo aparecia alguma coisa em Yoruba, retificava o que ela imaginava.   Acabou se juntando a eles no seu grupo de estudo, apesar de sua idade.

Muita água passou por baixo da ponte, os dois tinham muitos clientes, Claude, não trabalhava um dia da semana, ele ficava apertado.  A secretária de Claude de Paris, bem como Jean, anunciou que vinha passar as férias com eles.  Ele não se preocupou nem um pouco, Jeannete ficaria na casa de Odete, Jean na casa deles.    Riram muito subindo com suas maletas as ruas estreitas da Mangueira.

O mais interessante era que Nete como lhe chamava Odete, as duas pareciam se conhecer de toda vida, ia lhe ensinando português, quando a levou a uma roda de samba, esta ficou louca, isso é o paraíso dizia.

Jean, foi outro caso, quando conheceu Edmundo, que estava em crise, pois tinha agora dúvidas quanto a operação final.   Se saber como, os dois começaram a conversar, se entendiam de maravilha, se abria com ele, como não fazia com ninguém.    Jean suspirava por Edmundo, encontrei a pessoa perfeita para mim, essa dualidade que ele tem, me fascina.

Quando lhe perguntaram quando ia embora, disse que tinha se aposentado, que ficaria ali, o negócio era arrumar um apartamento para ele viver, ele tinha sido durante muitos anos, professor de música, no conservatório de Paris, arrumar emprego não foi difícil.  Quando conseguiu um apartamento, perto do Edmundo, o convidou com ele para irem a Paris, já que este tinha férias vencidas, assim arrumaria seus papeis.  

Nos dias que Claude, não ia ao escritório, Nete começou a ir ordenando os papeis, fazendo o papel de secretária.   Um dia os encostou na parede, porque não me contratam, assim eu fico.  Convidou Odete para ir com ela, assim, ela poderia dividir ou colocar algumas coisas no container que Jean ia trazer de lá.

Quando voltaram, vinha eufóricos, Edmundo tinha realizado um sonho, conhecer Paris, pelas mãos do homem que o aceitava como era.   Odete, dizia que poder ir a pátria do seu marido, tinha sido fantástico. Ele estava sempre falando, ainda foram a Marseille, ver sua irmã.

Claude quando eles voltaram, comentou com Benjamin, agora é a prova dos nove, vamos ver como se adaptam.

Sem problemas, Nete falava português com um ligeiro sotaque, que lhe dava um charme especial, sua educação com os clientes, os deixava encantados.

No primeiro natal todos juntos, foi uma festa fantástica.  Jean inclusive tinha rejuvenescido, pois tinha encontrado uma pessoa especial.

Nete, agora inclusive frequentava o terreiro.

Os anos foram passando, Charles tinha decidido vender seu apartamento em Paris, para comprar um na praia, mas desistiu, queria construir uma escola ali em cima, perto do terreiro, para trazer um professor da Nigéria para dar classe de Yoruba.   Conseguiram convencer mãe Cida de ir com eles até lá, para pensarem direito no assunto.  Ela alegava, estou velha demais para isso, mas acabou indo.

Foram por Paris, tudo para ela era como estar na Disney.  Depois foram para a Nigéria, tinham alguns contatos dados por amigos do Brasil.

O que encontraram foi um imenso caos de língua, mas Exu salvou a coisa, os dirigiu a uma montanha no interior, ali vivia um velho babalorixá no que tinha sobrado de uma antiga aldeia.   Esse riu, lhes explicou a arrogância de muitos, estavam fazendo perder a essência da língua do Ifá.  Ele mesmo tinha dois auxiliares, um deles, disse é perfeito, entende os sons dos orixás.   O mais importante é isso.  Quando os ancestrais falam, usam sons, o que muda o contexto do que está falando.  O convenceram de ir experimentar viver no Brasil.

Se esbarrou, que os próprios negros algumas vezes o rejeitavam, por ser africano.  Era um homem tímido, a pessoa com quem ele mais se entendia era o Benji, que quando se via os dois falando Yoruba, traduzindo alguma coisa dos Orixás, era impressionante.   Claude dizia que não eram só os dois falando, em volta deles estão todos os orixás que saem do Iroco, para falarem.

Mandu, como se chamava o nigeriano, leia o Ifá, como ninguém, alguns babalaôs vinham consultá-lo sobre alguma coisa, construíram como o Claude queria, um local, ali, poderia ensinar, bem como ele poderia atender os que lhe procuravam.

Alguns chegavam carregados de joias, se encontravam com aquele negro franzino, de uma simplicidade única.    Se desarmavam em seguida, com ele, não adiantava mostrar nenhum poder, pois ele não precisava disso.   Os atendia amavelmente, lhes oferecia água, acendia um troço de madeira ou de canela, ficava primeiro conversando com a pessoa, até que ela relaxava, falava do problema.

Analisava, os orixás que cercava o pai ou mãe de santo, conversava com eles, jogando o Ifá, orientava a pessoa, quando ao final lhe pediam segredo, ele dizia, meu filho, para quem vou contar qualquer coisa a respeito.   Eu estou aqui para servir, nada mais.  

Logo, os que vinha estudar, ficavam admirados, do Benji, sempre vestido de branco, com a mesma simplicidade.  Ele acendia incenso, com umas pedras que tinham um cheiro especial.  Alguns entravam em transe em plena aula, pois seu orixá, queria participar, fazer alguma observação.

Com os anos deu certo, muitos que estavam na fase final de seu aprendizado para pai de santo, ou babalorixá, ia lá ter aulas com os dois.    O mais interessante, era que um era negro retinto, o outro branco como a neve.

O tempo as vezes muda o rumo das vidas.  Jean tinha convencido Benjamin de fazer com ele aulas de canto, ia todos os dias depois do trabalho fazer aulas, menos os dias que lhe necessitavam no terreiro, agora soltava seu vozeirão nos ponto de Exu, Ogum, Xangô, de sua devoção.

Jean, como quem não quer nada, começou a lhe ensinar a cantar ópera, dizendo que assim treinava sua voz.   Como estava trabalhando com os cantores do Municipal para uma ópera Francesa, preparou sem que ele se desse conta para o papel principal.   Dez dias antes da estreia, foram avisados que o cantor francês que vinha, estava doente, com um problema sério, Jean convidou o diretor da ópera para ir conhecer um cantor, o deixou meio escondido, colocou Benjamin para cantar a música principal.  O homem se encantou com a voz dele.   O duro foi convencê-lo, a participar, ensaiar, foi necessário que Claude insistisse.   

Tens que aproveitar esse dom que tens, aproveite a oportunidade que a vida te brinda.  Ai sim, como Claude ficava mais tempo no terreiro, tinham contratado dois advogados, quem dirigia tudo era Nete, com mãos de ferro.

Ele se preparou com os outros cantores, quando chegou a cantora principal, não gostou muito, mas quando o viu ensaiar, logo gostou.   Ensaiaram um bis juntos, para o final.

No dia da estreia, o teatro estava lotado, mas ele sabia que na plateia estavam, Claude, Odete, mãe Cida, Mandu e Benji, então se relaxou, cantava para eles.

As críticas no dia seguinte, comentavam que nasciam um grande cantor, no bis, fez como tinha combinado com a cantora, mas pediram outro bis, ele aceitou cantar, se dirigiu ao público em português, todos pensavam que era francês.  Para a pessoa que conseguiu me fazer cantar.  Cantou a capela, “Bom dia Tristeza” o público veio abaixo.

Os jornais pediram entrevistas com ele, mas sabendo como era esse mundo incluiu a cantora, os dois falavam da ópera, na entrevista com os da televisão, foi a mesma coisa, os entrevistadores não falavam nem francês ou inglês, ele foi traduzindo as perguntas para ela.

Esta estava encantada da vida com ele, poderia a ter esnobado.  Um dia subiu com ela a Mangueira, a levando até o terreiro, adorou, o melhor foi ver Benji cantando o que ela cantava.  

É de família, levou tempo para perceber que ele era autista, ele ria feliz quando ela o aplaudiu.

É como uma esponja, dizia Claude, aprende tudo que lhe ensinam.   Ele jogou para ela, comentou do seu futuro brilhante.   Ela lhe perguntou, eu tenho um contrato para cantar em NYC, mas o que seria meu companheiro, é o que esta doente, é um recital, será que convences Benjamin de me acompanhar.

Ele riu a bessa, uma empresa nada fácil, pois é cabeça dura.

Mas ela ficou mais uma semana, no Rio, os dois ensaiaram todos os dias o que iam cantar juntos, bem como o que ele devia cantar sozinho.  Ela acrescentou que devia cantar a música que tinha cantado a capela.

Quando chegaram em NYC, o diretor da orquestra que os acompanhavam, ficou surpreso com a sonoridade da voz dele.  Ensaiaram todas as músicas, Jean que tinha ido junto, tinha levado a partitura de Bom dia Tristeza.   Ensaiaram que ele começaria cantando a capela, a orquestra entraria no final repetindo com ele a música.

Foi um sucesso, logo dali mesmo saíram convites, iriam a Chicago, Boston, San Francisco.  Benjamin estava louco de saudades apesar de falar sempre com o Claude, nunca imaginou que se sentiria assim, chegava a doer no seu corpo a falta que sentia dele.  Mas ao falar com ele, se serenava.

Acrescentou outra música no bis, porque agora a entendi, era Canção de Amor, de Chocolate e Elano de Paula, foram a Los Angeles, pediram se podia preencher um espaço vazio na agenda, só com músicas brasileiras.   Jean o preparou, trabalharam loucamente, gravaram essa apresentação, logo estava tudo no Youtube.  Ele cantava como primeira, Bom dia Tristeza, terminava com Alvorada, sempre chorava no final por se lembrar onde tinha vivido toda sua vida.  Quando chegou levantou Claude nos braços, o beijando na frente de todos.

O canal de televisão, veio para filmar sua vida na Mangueira, ele concordou, fizeram uma gravação, embora ele explicasse que ali não era a Bahia da música, vinha descendo as escadarias, da Mangueira, com a garotada toda vestida de camisa listradas, em determinado momento, as amigas de sua mãe da Ala das Baianas, iam se incorporando, com Odete vestida de uma de suas roupas.  Todos estavam sempre acostumados a escutar essa música cantado normalmente por cantoras, mas na voz dele ficava diferente, no final, uma versão com a bateria da Mangueira.

Estourava no Youtube, de tantas visitas, logo choveram convites, por ele terias descartados todos, mas Claude disse que nem pensar.   Ele sentia falta de cantar os pontos de Exu.

Resolveram então passar o escritório para os novos advogados, já que Claude, passava mais tempo no terreiro, mãe Cida, já não tinha idade para levar tudo, ele ajudado por Mandu, levavam tudo agora.  Claude era conhecido ou como o Francês de Exu, ou como seu Claudio do Bara, ele ria, mas não corrigia, era melhor não confundir dizia.   

Mandu, era o Africano do Yorubá, ria disso, sou um humilde aprendiz, dizia.  Quem realmente entende dos Orixás é o Benji.

Quanto mais mãe Cida ficava doente, mais iam assumindo o terreiro. Muitos filhos de santo tinham um certo receio, mas ele acalmava todos.

Antes de morrer ela, passou o mando do terreiro para Claude, dizia pela primeira vez, um Exu, seria o rei desse terreiro.

Nesse dia ela estava sentada num trono africano, que Mandu tinha executado ele mesmo.  Muitos pais de santo, babalorixás famosos, vieram render pleisia a ela, e ao outros dois.

O mais interessante era que Benji agora substituía o irmão, como Ogan, bem como cantava os pontos todos.

Benjamin, quando soube da data, estava na Noruega, com Jean, mas nem discutiu, veio num voo complicado, mas estava lá ao lado do homem que amava.   Dois dias depois Mãe Cida morreu, foi cremada, suas cinzas enterradas na Mangueira.   Sem querer ela tinha os juntados todos, Odete dizia que ia sentir muito a falta de sua irmã mais velha, bem como conselheira.

Benjamin, voltou a sua turnê, iria direto agora para Tokyo, de lá para Austrália, pedia ao Jean que sempre fizesse uma pausa para ele poder ir ao Brasil, matar as saudades do Claude.

Jean um dia comentando com este.   Ele nem olha os aduladores, que querem fazer sexo com ele, não existem para ele.  Só fala em ti, eu fico com saudades do Edmundo, mas ele é pior.

Quando tinha que partir outra vez, chorava, mas sabia que não podia pedir ao Claude, largasse a coisa mais importante da sua vida.

O mais divertido, é com o dinheiro que ganhava, nem pensava em se mudar da Mangueira.  Voltou ao Brasil, ficou dois meses preparando um novo show com o Jean, totalmente brasileiro.  Tinha contrato para cantar em NYC, Los Angeles, Boston, finalizando em Las Vegas.

Esses três meses sentava-se ao lado do irmão tocando atabaque feliz da vida, os dois cantando os pontos. Estavam mais próximos, um dia Benji disse que sempre sentia saudades dele.

Sua mãe, preparou um figurino para ninguém botar defeito, mas pediu que ela fizesse uma roupa branca que ele gostaria de experimentar cantar um ponto, com turbante e tudo de Ogan, levou seu atabaque com ele.  Fez uma obrigação para lhe permitirem cantar, Exu rindo disse que sim, mas quero ver você explicar, mas ele cantaria em Yoruba.   A primeira vez, foi em NYC, quando acabou o show, num dos bises, disse, um minuto, foi ao fundo do palco, trocou de roupa de costa para o público, colocou o turbante, já tinha colocado um banco de madeira que o iria acompanhar a turnê inteira. Sentou-se com seu atabaque, sabia que estava cheio de brasileiros, falou em português, depois em inglês, que cantava a quem tinha aberto todos os caminhos para ele, cantarei uma parte em português outra em yoruba.  Assim fazia, o público vinha abaixo com isso.  No dia seguinte, estava no Youtube, com milhões de visitas.

Odete levou para o Claude ver, este chorava de emoção.   Sentia falta dele, mas entendia que cada um tinha um caminho.

Quando finalmente chegaram a Las Vegas, tinha aumentado os dias de apresentação, ele pensava em ficar uma semana, logo queria firmar um contrato por uma temporada. 

Disse ao Jean, que era seu representante, nem pensar, posso voltar, mas quero ir para casa, antes que meu coração exploda.   Negociaram com o casino, montariam uma orquestra com brasileiros, ele viria com a Odete para fazer o figurino.   Um do casino, sugeriu que ele cantasse músicas da Carmen Miranda.

Disse que nem pensar, só cantaria músicas que gostava.

Ficou dias nos pés do Claude, este tinha agora a cabeça toda branca, ainda não tinha assinado o contrato, disse que o faria, se ele prometesse, que iria, pelo menos uma semana.

Na estreia, estavam os amigos, o casino pagou a passagem do Edmundo, do Claude, Benji, Mandu, ficou para cuidar do terreiro.

Fez o show, com dançarinos, com os músicos, todos com os figurinos da Odete, num determinado momento, parou o show, apresentou Odete, vestida de baiana, começou a cantar Exaltação a Mangueira, antes explicou que tinha nascido, criado nesse lugar, falou dos figurinos feitos pela sua mãe, começou a cantar, chamou Benji que sabia que gostava de dançar, meu irmão comentou.  O público ficou em pé, foi uma loucura.    Para finalizar, comentou em inglês, a partir dessa música que é minha preferida por vários motivos, tudo começou.   Ficou parado no meio do palco, cantando Bom dia Tristeza para Claude. Desceu do palco, foi até ele o beijou na frente de todos, meu marido comentou.

No dia seguinte se casaram, se casariam de novo no Brasil, na sua primeira ida para passar o fim de ano.

Iria depois para Paris, por seis meses, percorrendo a França com seu grupo.

Benji agora, era como um carrapato com ele, não saia do seu lado.  Sabia todas as músicas do show, brincou com o Jean, vou mandar ele no meu lugar, canta melhor do que eu.

Apesar do sucesso, se negava a estender o tempo fora do Brasil, o mais interessante, era quase um desconhecido na mãe pátria, dizia sempre, santo de casa não faz milagres.  A verdade era que ele não encaixava no tempos atuais, o tipo de música de agora, não era com ele.

Quando quiseram renovar para voltar com outro show a Las Vegas, disse é o último, tenho dinheiro por muitos anos, qualquer coisa volto a ser advogado.

Ficou seis meses preparando o show na surdina, só músicas que ele gostava, recuperou muitas coisas de Cartola, Pixinguinha, Lamartine Babo, marchinhas de carnaval, Odete estava como louca desenhando o figurino para mandar, iria nos preparativos finais.

Estava preocupado com Claude, estava mais velho, cansado, dizia que a responsabilidade era grande, preparava Mandu, bem como uma moça para serem pais de santo, quando ele se retira-se.

Mas Exu dizia que ele teria muito tempo pela frente, trabalhe menos.  O próprio fazia uma seleção, as vezes uma pessoa queria falar com o Claude, ele mandava Mandu ou mesmo Benji atender.

Se sentava ao lado do Benji, dizendo na sua cabeça o que ele devia dizer a pessoa.  Ele lia o jogo em Yoruba, depois traduzia a pessoa.

Nada de matanças inecessárias, resolvia os problemas simplesmente, com banhos, frutas para os Orixás, foi lhe ensinando quais frutas que gostava cada um.  Tempo depois os mais jovens que vinham consultar, era com Benji, quando lhe perguntava pela sorte, se ganhariam na loteria, dizia que fossem trabalhar, que era o melhor.

Um dia um dos traficantes de drogas entrou sorrateiramente no terreiro, pediu ao Benji para jogar para ele.   Ficou surpreso dele ser tão franco.   Lhe chamou a atenção, como um homem como ele podia ter-se perdido por causa dessa merda.  Rico pensavas tu, mas se contínuas, vais encontrar a morte, o pior e que não vais levar nada para o outro mundo.    No teu trabalho, logo começaram os problemas, quer um conselho, arrume tua trouxa, desapareça, para muito longe.   O traficante ficou olhando para ele, mas encontrou um olhar límpido, que olhava fixo nos seus olhos.   Se não gosta do que digo, procure alguém que te engane direito.   Mas sabes que não gostamos de gente do tráfico aqui.   Não demore muito pensando no que eu te disse.

Menos de uma semana, não se falava em outra coisa, que o homem tinha desaparecido durante uma noite, muitos pensavam que o tinham matado, pois seu carro foi encontrado no final do Recreio do Bandeirantes queimado.

Exu se matava de rir, nos livramos de um bom sem vergonha, quando Claude soube, ficou preocupado, mas Exu disse que nunca deixaria seu filho predileto desamparado.   Saberias encarar esse homem como ele fez?

Claude reconheceu que não, que talvez mentisse sobre o que via no jogo.

Os mais jovens gostavam quando ele jogava, porque falava uma linguagem que eles entendiam, dizia logo, estão no caminho errado, vê se toma vergonha na cara, arrume tua vida de uma vez, dava verdadeira broncas.    Uma vez Claude o viu exaltado com um casal, não sabiam o que fazer, o filho era autista, não o entendiam.   Se levantou na frente deles, dizendo eu tenho a mesma doença do seu filho, podem trazer esse menino, que eu cuido dele, se vocês não têm paciência, eu tenho.    Dias depois apareceram com o menino, de longe Claude observava.   Ele se sentou com o garoto no chão, embaixo do Iroco, ficou conversando com ele, o menino que estava agitado, ficou calmo, começou a falar com ele.

Um dos grandes problemas da doença era a falta de comunicação de ambas as partes.  Agora a família o trazia todas as semanas para conversar com o Benji.  Tinha deixado de estar agitado.  A mãe ria, dizendo, digo que vamos te ver, ele se arruma sozinho, quer sempre colocar uma roupa branca como tu.

Anos depois esse rapaz, estaria na faculdade, estudando como um aluno brilhante.

Benji ficou conhecido por isso, mas dizia que não tinha sido ele, mas sim o Bara que o tinha guiado como fazer tudo.

Benjamin desta vez voltou exausto da viagem, o show tinha sido exaustivo.  Apesar da oferta maior, se negou a ficar, queria estar na sua casa.  Agora se levantava cedo para estar junto com Claude, nas orações, já encontrarei um jeito.

Claude o convenceu de fazer um exame exaustivo, além do stress, estava anêmico, fez um tratamento sério, mas o que gostava mesmo era de voltar a tocar o seu atabaque, cantar os pontos no terreiro.

Algumas vezes o convidavam para cantar em algum lugar, se fosse fora do Rio, rejeitava.

Queria passar mais tempo com Claude, nesse tempo todo, se guardava para estar com ele.  Nunca me sinto atraído por outras pessoas dizia.

Quando Claude fez 90 anos, fizeram uma grande festa.  Houve uma verdadeira romaria, ao terreiro de todas as pessoas que tinha conhecido ao longo dos anos.

Mandu, dizia que quem devia ser o chefe do terreiro era o Benji, ele sabe impor ordem, se entende melhor com todos os orixás, ninguém melhor do que ele para realizar todos os preceitos.  Basicamente não se percebia que era autista, era uma pessoa como qualquer outra.

Um dia ouviram ele discutindo com um filho do terreiro, como se atrevia a vir, a gira, depois de fazer sexo, sem tomar um banho, era falta de respeito com seu orixá, se ele queria seguir ali, tinha que respeitar os preceitos.    O outro lhe respondeu, que como ele não fazia sexo, nunca ia ter problemas.

O que eu faço ou deixe de fazer, é coisa minha, cuido dos preceitos todos, respeito os orixás, o mandou preparar para si mesmo um banho, que fosse ao Iroco pedir desculpas ao Orixá, isso tudo com Claude olhando de longe.  Não largou o pé do rapaz até que ele fez tudo.

Como sabias que tinha feito sexo, lhe perguntou depois?

Pelo cheiro meu pai, tudo tem cheiro para mim.  Acho uma falta de respeito vir sujo para o terreiro.  Para isso temos um banheiro apropriado, nunca me nego a preparar um banho para qualquer filho seu.

Acho que eles são mais filhos teus que meu.   No final, o rapaz veio pedir desculpas, ando meio perdido meu pai, Benji se sentou com ele, conversou sobre seus problemas.   Benjamin ficava curioso, como ele podia aconselhar se nunca tinha tido experiencias.   

Ora meu irmão, nunca vais entender, não sou eu que converso com eles, sim Bara, ele fala pela minha boca, realmente não tenho experiencias sexuais, tampouco tenho vontade de ter, estou bem assim.

Todos o respeitavam, bastava um olhar seu, para saberem que estavam fazendo alguma coisa errada, imediatamente se corrigiam.

Claude dizia que iria embora tranquilo.  Benjamin ficava furioso, como ele podia falar assim, temos ainda muito para viver. 

Meu querido, olha minha idade, realizei meus sonhos todos, inclusive tendo a ti do meu lado, que mais posso querer, ficar um velho gaga, nem pensar, quando chegar minha hora quero ir em paz.

Benjamin sabia que o estava preparando, tinha visto o que ele fazia pelas manhas, agora estava mais lento, as vezes parava no meio de alguma reza, como se estivesse conversando, esperando uma resposta, um dia se levantou, o viu ali sentado, com a cabeça caída ao lado.  Mal conseguia se mover do lugar, a dor que sentia era imensa.

Foi um enterro impressionante, o terreiro ficou abarrotado, tiveram que colocar pessoas na porta para controlar a entrada.  A Mangueira em peso, vinha render tributo a um homem que tinha vindo de fora, mas que formava parte dela.

Suas cinzas foram enterradas no Iroco, a escolha do seu substituto surpreendeu todo mundo, escolhia o Benji, como chefe do terreiro, espiritual, Mandu como chefe para orientar o pessoal.   Os dois jogavam búzios. 

Era a primeira vez que viam dois pai de santo tomarem conta do mesmo terreiro, mas os dois juntos a força era maior.

Benjamin, recebeu como herança o apartamento de Paris, todo o dinheiro que ele tinha, ficava para manutenção do terreiro.

Seu grande amigo Jean, fez uma belíssima oração no seu enterro, finalizando, me espere onde estiver velho companheiro de infância.

Desta vez ele partiu sozinho para um tempo em Paris, lhe chamavam para cantar, mas não lhe fazia muito mais graça, sentia falta do Jean, para organizar tudo.

Acabou vendendo o apartamento, voltou a viver na Mangueira, na casa deles, seguia indo ao terreiro, tocar atabaque para seu novo Babalorixá, seu irmão Benji.    Este o animava seguir em frente, quando estava sozinho em casa, as vezes se sentava onde o fazia Claude, cantando Bom dia Tristeza. 

Estava magro, cabelos brancos, a tristeza não o abandonava, um dia Odete o encontrou morto na cadeira em que tinha morrido Claude.   Sabia que agora ele estaria em paz.

Os outros seguiram suas vidas, mas o amor deles perdurou para sempre.








 


  



 

     






















 





 

     






















 





lunes, 8 de febrero de 2021

AZAR

 

                                           AZAR

 

Desde que entendia por gente, sempre tivera um azar monumental, nunca nada dava certo, a começar que tinha sido abandonado na porta de uma igreja de madrugada, depois foi levado a um orfanato, estava desnutrido, depois de exames, teve que ficar muito tempo sob observação, segundo a irmã que o cuidou não foi nada fácil.

Quando tinha uns cinco anos, começou a crescer normalmente, de feio que era ficou um garoto bonito.   Logo todos queriam adotá-lo, mas as irmãs eram restritas com as famílias, era necessário, realmente ter condições.

A primeira família que tentou adotá-lo logo caiu sobre suspeita, não eram o que aparentavam, justo no dia que ia ser entregue, a polícia os pegou na porta do orfanato.   O faziam em vários estados para depois vende-los a pédofilos.

Durante as visitas ele até tinha se encaprichado pela senhora, que era muito bonita, bem vestida, cheirava bem.   Mas depois escutou que ela era a chefe da quadrilha, como podia uma pessoa ser assim.

Finalmente com oito anos foi adotado, mas logo levado para uma das cidades perto de San Diego, tinha uma pequena praia, mas a família o queria para realmente trabalhar como um escravo, quando não fazia o que pediam, lhe davam uma surra de cinturão.   Aguentou o quanto pode, mas um dia que tinha levado uma bela surra, porque tinha deixado cair uns pratos, de madrugada se mandou.     Foi se esconder perto de um parking de trailers, gente que trabalhava numa fábrica.

Uma senhora com uma boa cara, com os cabelos amarados em rabo de cavalo o descobriu morto de fome.   O levou para seu trailer, curou suas feridas nas costas, lhe deu comida, quando chegou seu marido que estava fazendo o turno da noite, ficou impressionado, mostrou para ele uma foto, era igual ao filho que tinham tido, explicou que tinha morrido em outra cidade.  

Quando a polícia procurou trailer por trailer, o apresentaram como seu filho, mostraram os documentos, suas fotos desde criança, a partir desse dia passou a se chamar John Chevalier, era bem cuidado, ajudava a senhora que agora chamava de mãe, todos os dias, mas ela logo o colocou numa escola ali perto, descobriu que ele não sabia nem ler, nem escrever.   Sabia na verdade um básico que tinha aprendido no orfanato.

Ao entrar na escola, o mandaram sentar numa carteira, que ao parecer ninguém queria sentar-se, descobriu depois que o menino que se sentava ali, tinha morrido.  Com isso ninguém se aproximava dele, como se fosse um estigma.

Alguns mais velhos o ameaçaram, mas o que era agora seu pai, como já imaginando que isso aconteceria, por ele ser bonito, tinha lhe ensinado a se defender.  Lhe ensinou truques de boxe, ou mesmo uma autodefesa um tanto dura, tipo dar um chute no saco do outro, ou meter os dedos nos olhos, essas coisas.

No primeiro ataque que lhe fizeram se defendeu, por sorte um professor viu tudo, pois o outro garoto era filho do diretor.  Abusava disso, por pouco não lhe expulsam da escola, tinha lhe dado um belo pontapé no saco.

Ninguém mais se atreveu a molestar, não se incomodava de ficar sozinho no recreio, pois a maioria se dedicava a encher o saco dos outros.  Aproveitava para ler, estudar, precisava recuperar o tempo perdido.

Um dia vieram avisar que seu pai tinha sofrido um acidente na fábrica, acreditou imediatamente que era devido ao seu azar.   Sua mãe postiça, disse que nada disso, eram coisas que aconteciam, tinha caído uma viga que estava sendo transportada pelo ar, por acaso ele estava trabalhando justo embaixo.   A viga acertou justo sua nuca, fazendo com que caísse para frente em cima da máquina que usava, essa lhe serrou um pedaço da cabeça.

O caixão estava fechado para que as pessoas não ficassem bisbilhotando.   Como sua mãe Doriana dizia, a fábrica lhe pagaria uma pensão de viúva, assim não passariam necessidades.    Mesmo assim ela trabalhava todos os dias arrumando as casas dos chefes da fábrica para não faltar nada para ele.

Quando começou a secundária, arrumou um emprego num armazém na parte da tarde, o filho do patrão, estudava com ele.   Nunca lhe dirigia nenhuma palavra, nem no armazém, tampouco na escola.   Quando o pai lhe dizia para dar uma ordem, chegava perto dizendo, o velho mandou você fazer isso ou aquilo.

No dia do baile de formatura, sua mãe, fez questão que ele fosse, seu pai ficaria orgulhoso de ti, com suas economias tinha lhe comprado um terno de segunda mão, que ficava perfeito no seu corpo, pois o trabalho no armazém lhe tinha feito criar músculos.

Ficou a maior parte do tempo sentado à parte, escutando as conversas, todos falavam em ir para a universidade.  Ele não tinha se candidatado a nenhuma bolsa de estudos, pois simplesmente era um aluno regular.   De notas altas, seu nível ficava entre 7, 8, quando muito 9, nada de tapinhas nas costas.   Dava um duro desgraçado, pois tinha certa dificuldade para se expressar.

No fundo tinha uma certa inveja, sua mãe vinha falando sobre isso, que talvez devessem se mudar de cidade, ir para mais perto de San Diego ou mesmo Los Angeles, ela tinha uma irmã que vivia em Venice Beach, não se viam a muito tempo, mas quem sabe.

Justo essa noite quando chegou em casa a encontrou morta, alguém tinha entrado para roubar, só podia ser alguém que fosse drogado, pois naquela casa tudo era o justo.

Sabia que ela tinha um esconderijo, mas disso ela só tinha mostrado para ele, para garantir nosso futuro dizia.

A polícia veio, mas se via que não iam fazer nada, ele se culpava que não devia ter ido ao baile, foi a única coisa que o detetive foi simpático, não adianta te culpar, pois se talvez estivesses aqui, teriam te matado também.      Por sorte uma vizinha viu quem tinha sido, um conhecido dali que ultimamente tinha se viciado em cocaína.  Não teve sequer que se vingar, pois encontraram o mesmo com uma sobre dose.

Como sua mãe pagava o aluguel adiantado, ainda poderia ficar mais um mês por ali.  Tinha que pensar no que fazer.   Esperou os ânimos se acalmarem, para ir buscar a lata que ela escondia suas economias.   Quando viu a quantidade, se assustou a princípio.  Daria para começar a vida em qualquer lugar.   Nada do outro mundo, para alguém como ele, que tinha o básico estava bem.   Ultimamente vinha usando as roupas do que tinha sido seu pai, pois tinha agora a mesma altura dele, bem como corpo.

Um dia ficou sentado na praia pensando no assunto, se deu conta que alguém se sentava perto, era o detetive que tinha atendido o caso.   

Em que estás pensando, para estar tão sério na tua idade?

No que vou fazer da minha vida, não sei que rumo tomar.  Tínhamos pensado em ir para Venice Beach aonde ela tinha parentes, apesar de não os ver a muitos anos.    Mas dizia que família sempre seria família.

Bom, nem sempre é assim, mas se você não os conhece, pode ser mais difícil, não gostaria de ir estudar?

Sim, mas não tenho notas para ir à universidade com uma bolsa. 

Mas poderia entrar para academia de polícia ou mesmo para o exército, embora eu não recomende esse último, serias bucha de canhão, lhe explicou o que queria dizer com isso, as pessoas pobres vão para serem mortos em lugar dos políticos que inventam essas guerras.

Se quiseres posso te indicar para a academia de polícia, passe amanhã na delegacia que eu faço uma carta para ti.

Assim fez, o homem foi extremamente simpático com ele, disse que não era dali, sim de Los Angeles, que estava ali só durante um curto período, substituindo um detetive que tinha sido assassinado.   Dentro de semanas voltava para Los Angeles, lhe deu seu número de celular.

Sentiu que sua sorte mudava, como se tivesse alguém o protegendo.

Juntou seu dinheiro, pediu as contas no armazém, colocou o pouco que tinha numa mochila, foi embora, não ia sentir falta daquele lugar, apesar de ter tido a sorte dessa boa família.

Foi direto ao endereço que ele o tinha dado, fez os exames, foi aprovado, nada de nota máxima, mas sim o justo para entrar.     Passou por todos as provas de calouros, aguentando ao máximo a barra de tudo isso.   Passou a levar o curso muito a sério, pois lhe interessava, era curioso, intuitivo, prestava atenção aos detalhes.   No primeiro semestre tirou uma boa nota, coisa que ele não esperava.  Se saia bem nas coisas práticas, o que era elogiado.  Quando começaram as aulas de tiro, todos ficaram surpresos, pois era excelente na pontaria.  Raramente errava uma, inclusive o levaram para um campeonato que participavam os melhores, ficou em segundo lugar, porque um sacana o distraiu ao momento.  Seu orientador lhe disse, vês, quando estas de serviço uma simples distração de segundos, pode ser fatal para ti.

Nesse dia, justo depois de receber a taça, o detetive se aproximou dele.   Bom vejo que não me enganei contigo, eres excelente, quem sabe depois que termine o curso não te consiga um lugar na delegacia que estou.

Seu professor, depois lhe disse, sei que foi o inspetor que te apresentou para os testes, esse homem é um dos melhores homens da polícia, como tu, tem uma pontaria certeira.  Sua vida está cheia de desgraças, perdeu a mulher, bem como um filho que estava por nascer.  Nessa vida que levamos, família é sempre um problema, nunca temos tempo para eles.

Travou uma amizade com o professor, este lhe contou que tinha optado por dar classes, por ter diversos ferimentos que lhe impediam trabalhar direito.

Num final de semana, tinha saído com os companheiros, encontrou o mesmo, num bar, os amigos de repente desapareceram, o deixando para trás.  Ficaram conversando os dois, quando viu tinha perdido o ônibus para voltar, tomou uma decisão, ficarei num hotel.

O professor o convidou para dormir em seu apartamento, não vivo na escola, mas sim aqui na cidade, amanhã fica fácil para ires desde lá.

Não será nenhum inconveniente para o senhor?

Nada, imagina, eres meu melhor aluno, como vai ser um inconveniente, começaram um bate-papo largo.       Quando viram estavam se beijando, foi franco com ele, nunca tive relações sexuais com ninguém, sou novo em tudo isso.

Mas tudo deu certo, de uma certa maneira agora passava os finais de semanas juntos, discretamente para não chamar a atenção.

Quando acabou a academia, foi chamado pelas suas notas, em termos de aproveitamento por várias delegacias, aceitou a do inspector, ele recomendou que primeiro fizesse trabalho de rua, foi o que aconteceu.  Um ano patrulhando a cidade, cada x tempo em um bairro.  Depois passou a compartir um carro com um companheiro.   O que veio genial.

Mas se destacou logo desde o início, por ser observador, mesmo sendo um simples polícia, levava luvas, protetores de calçados, para nunca sujar a cena de um crime.  Quando chegava os inspetores, tinha tudo anotado, as anomalias do local.  Isso impressionava, pois os outros policiais não tomavam cuidado, principalmente os que estavam a muito tempo em serviço, quando passou a andar de carro, tinha sempre um bloco para anotar as ocorrências, à parte, além do próprio computador do veículo.  Depois de três anos, fez concurso para inspetor, na prova escrita tirou uma nota média, mas ao mesmo tempo, na oral, entrevistas, se saiu bem, uma das perguntas claves, pois todos pareciam saber como tinha trabalhado todos esses anos, disse que anotava tudo que lhe parecia suspeito, as vezes no formulário não havia espaços para isso, mas ele memorizava detalhes. 

Foi ser assistente do inspetor que já o conhecia.  Os colegas não o receberam muito bem, pois era como apadrinhado do mesmo, mas se esforçou tanto em se sair bem no trabalho, que não se importou com isso.    Mantinha o relacionamento com o professor, embora tivesse agora um pequeno apartamento perto da delegacia.

Seu primeiro caso real, que o tornou de certa maneira famoso, foram chamados para atender um homicídio, numa mansão de um homem muito rico.   Era o fotografo das grandes estrelas do cinema, além de reportagem para grandes revistas.

Quando chegou ao local do crime, entrou na sala, ficou parado, observando tudo, as coisas não encaixavam.  Começou a analisar o entorno.   O amante do fotografo, descia as escadas, com um celular na mão, prestou atenção, que estava borrando fotos.   Quando lhe perguntou se o celular era seu, ficou confuso.   O retirou de sua mão, colocando dentro de uma bolsa de provas.  Perguntou ao polícia que estava ali desde o princípio, se ele estava com a mesma roupa.  Disse que não, estava vestido todo de negro.  Mandou o mesmo ir buscar a roupa anterior como prova, o que ele estranhava, era que o morto, estava em cima de um tapete, este não tinha muito sangue, para um homem da altura que tinha, devia ter perdido mais.  Deu ordem que ninguém se movesse de seu lugar. Com a equipe técnica, mandou passar luminal na escada, não deu outra apesar de estar limpa, apareciam pontos de sangue.

A essas alturas já tinha dado ordem a um policial, para colocar algemas no amante.  Com sapatos protegidos, subiu.   No quarto verificou que o tapete estava grande demais para o espaço, quando levantaram o mesmo, havia resto de uma mancha de sangue.      O homem tinha sido assassinado no andar de cima, quando entrou no seu local de trabalho, era fácil perceber que tinham remexido o mesmo.  Tinha procurado alguma coisa, mas pelo visto não tinham encontrado.  Voltou ao quarto, a cama tinha sido arrumada recentemente, ficou parado no umbral, procurando alguma coisa que no primeiro momento tinha lhe chamado atenção.  Foi passando o dedo com a luva pelo marco da porta, até que encontrou o que achou diferente, um cartão fotográfico, pois na sala de trabalho, tinha uma câmera fotográfica, mas lhe faltava justo o cartão.   Colocou dentro de um saco plástico, mandou procurarem pela sala, um laptop ou qualquer tipo de computador.

No carro sempre levava um, pediu que o trouxessem.    Primeiro viu foi uma foto, o amante com outro homem em cima, depois um vídeo, os dois fazendo sexo falando, quando se via que eram descobertos, o outro era um famoso ator de cinema, casado, com uma família. Se via que se levantavam, talvez nesse momento, o morto tenha retirado o cartão, enfiado ali no marco da porta.   Quando seu chefe chegou, começou a relatar tudo.   Pediu ao mesmo policial que o tinha atendido antes, que dessem uma batida pelas lixeiras da rua, que era uma descida, ver se encontravam algum tapete por ali.

Os técnicos tinham já levado o corpo para examinar, ele foi relatando o que tinha suspeitado, primeiro o tapete não tinha muito sangue, segundo o amante apareceu impecável, tentando borrar coisas de um celular que não era o seu.   Tinha recebido o policial com outra roupa, negra, que já tinha ido para análise.  O escritório estava mexido, como se estivessem procurando alguma coisa que não encontraram, mas isso não era importante, sim o cartão fotográfico enfiado no marco da porta.

Se via totalmente a cara do outro.   O inspetor deu imediatamente ordem para irem a sua casa, que os acompanhassem a delegacia.   Bom trabalho inspetor, comentou o chefe.

Nesse momento chegava o empregado.  Quando soube o que tinha acontecido, soltou logo de uma vez.   Esse viado, sempre que o patrão se ausentava, trazia alguém para casa, me dava o dia livre.   Falei várias vezes isso com o patrão, mas não parecia lhe importar.  Pelo que escutei ele pensava se casar com o amante, já que não tem família.  Mas ultimamente estava mais desconfiado, deve ter voltado antes do que foi fazer.

Tens sua agenda de trabalho?

Sim sou eu quem organiza tudo.  Deveria estar em San Diego, depois iria a San Francisco para uma seção fotográfica que foi cancelada. Por isso voltou antes.

Os acompanhou a delegacia.    O amante, era um tipo desses que ao entrar em qualquer lugar, imediatamente chamam atenção, pois destilam sexo.   Além de bonito, um corpo atraente, mas o incrível era que tinha uma voz horrível.  Parecia de uma velha histérica.   Talvez por isso não tinha conseguido fazer cinema.

Foi chamado pelo patólogo, quando viu o cadáver, entendeu imediatamente, o homem tinha um piru de criança, por isso devia aguentar o outro, talvez aceitasse suas traições por não poder dar o que o outro também necessitava.

O policial que tinha revistado o quarto encontrou, estava ali numa maleta, objetos sexuais, que deviam usar durante o relacionamento sexual.

Voltou a delegacia, o amante, disse que ele só tinha ajudado nada mais, quem tinha matado o fotografo, tinha sido o ator.  Afinal tinha uma reputação a zelar.

Acabou confessando o que ele suspeitava, sim que tinha amantes, pois o seu companheiro não era capaz de satisfazê-lo, que pensavam em se casar, mas que ele vinha adiando sempre o compromisso.     Que o ator era seu amante a muito tempo, tinha prometido ao outro, que não iam mais se encontrar, por isso este tinha ficado furioso.

O ator ao ser confrontado com tudo, negou o assassinato, disse que tinha sido o outro.  Justo estavam no interrogatório, quando o policial que ele tinha mandado vistoriar as lixeiras, avisou que tinha encontrado a arma do crime.   A escultura de um Oscar, que o mesmo tinha ganhado pelas fotografias de um filme.

O caso resolvido foi um escândalo, os dois condenados a prisão, ficaram os dois num jogo de empurra, até que quando o empregado disse que ele tinha outros amantes, o ator, contou outra versão.

De qualquer maneira as manchetes dos jornais, fizeram muito propaganda em cima dos inspetores.   Mas ele tirou o corpo fora, quem deu as entrevistas foi seu chefe.

Os outros inspetores, passaram a respeitá-lo, bem como pedir auxílio de vez em quando.

Como tinha anotado tudo a respeito do crime, conseguiu conversar com o amante, relatando sua vida antes, durante até o crime.  O mesmo fez com o ator, acabou escrevendo um livro na surdina, mostrou para o inspetor, que gostou muito.   A anos atrás tinha salvado de um sequestro, o filho de um produtor, mandou o texto para ele dar uma olhada, ver se valia a pena, pensar num filme.

Este telefonou em seguida, dizendo que estava interessado em comprar seus direitos autorais.

O melhor que fazes, contrata um advogado para isso.   Esses contratos são sempre enganosos.

Ao mesmo tempo ele tinha mandado o texto para uma editora, que estava interessada.

Com todo esse dinheiro, comprou uma casa, nas encostas, com vista privilegiada da cidade, mas tudo era simples, ele não tinha luxos, enquanto os outros se esmeravam em usar trajes caros, ele apesar de não ter família, pensava no dia de amanhã.

Como dizia sempre para seu namorado, quem saiu da merda, tem que tomar cuidado, pois pode voltar a ela.

O namorado, tinha um certo ciúme do seu sucesso, agora se encontravam menos, um belo dia, pelo celular, anunciou que tinha sido convidado para a escola de Quantico, que partia no dia seguinte.   Ia viver sua vida.    Ficou desolado, não sabia dizer se o amava, ou se tinha se acomodado na situação, de não ter que procurar aventuras por baixo do pano.

Sair do armário, sempre era um problema.    Teve mais dois casos, complicados, como sempre escrevia tudo, a respeito, um deles teve tamanha repercussão mediática, que se viu de repente cercado de jornalista, a cada lugar que ia.   Descobriu depois que alguém vinha dando informações a respeito do caso, os passos que ele podia dar.

Era um dos muitos colegas invejosos de seu talento para resolver os casos.   Combinou com seu chefe que só se reportaria a ele, assim não teriam vazamentos.

O caso era complicadíssimo, pois implicava políticos, gente de cinema, da alta sociedade, novos ricos.    Acabou destapando uma rede de sequestro, abusos sexuais, posteriormente morte de uma série de adolescentes, todas pensando em fazer carreira cinematográfica.

Incluía inclusive uma madame que fornecia as jovens para essas festas, em que rolavam drogas, mas na verdade quem cometia o crime final, era um homem que trabalhava para um deles, cujo trabalho era devolvê-las a madame.

Quando acabou de escrever a história, muitos produtores estavam interessados, para fazer um filme.    Ele esperou primeiro lançar o livro, que foi um sucesso, assim poderia pedir mais pelo texto para o cinema.

O queriam contratar para acompanhar a filmagem, mas se negou, dizia que depois de ter vendido o livro, bem como o roteiro de cinema, era como um filho que se coloca no mundo esperando que cresça, siga adiante.

O seguinte caso, chamou depois de Perfume.   Quando entrou no lugar do crime, a casa de um perfumista, havia um cheiro no ar.   Era diferente, prestou atenção nos detalhes da cena, tinha a sensação de que o homem teria atirado o frasco com a essência no chão de proposito, para que não pudessem roubar a ideia.   Era um homem alto, forte, deve ter lutado, pois se via que na luta, muitas coisas tinham caído no chão.      Mandou examinar embaixo das unhas, tinham lhe esfaqueado várias vezes.   O legista achava que a primeira tinha sido nas costas, que então ele tinha se virado, deve ter reconhecido a pessoa, pois o perfume caiu ao chão, ele começou a imaginar a cena.   Prestou atenção na sequência que podia ter acontecido.

Pode ter sido uma mulher, pois as duas primeiras facadas não foram muito profundas, se via que tinha queimado alguma coisa num cinzeiro grande.   Talvez a fórmula, pois se notava sangue na peça de vidro.   Ele tinha tido tempo de se defender, bem como proteger sua fórmula.

Quando a empregada, uma senhora de idade Mexicana chegou, ficou aos prantos, disse que tinha despedido dias antes sua ajudante, pois achava que ela estava copiando os experimentos dele.   Que ali faltava seu laptop, este estava sempre em cima da mesa.   Creio que o senhor usava um código próprio para escrever, pois a última discussão dos dois foi sobre isso.

Foram até a casa da ajudante, a pegaram com a mão na massa, tentava decifrar a maneira como ele escrevia, viu as unhas dela, tinha a sensação, que estava sujas.

Mandou o legista analisar se tinha alguma coisa embaixo da unha.

No interrogatório, ela disse que o tinha encontrado morto, que tinha recolhido o laptop, para saber se estava ali a lista de produtos do seu último perfume.

Por enquanto era a única suspeita.   Alegou que apesar de a ter despedido, eram próximos um do outro, que trabalhava com ele a anos.

Que agora estava trabalhando num perfume para uma marca italiana.

Poderia a ter incriminado simplesmente por isso.  Mas algo lhe dizia que nada era tão simples assim.  Mandou examinar o laptop do assassinado.

Descobriram que não estava no seu melhor momento, que estava desenvolvendo perfumes para cadeias de boutiques, pois o seu auge com as grandes marcas tinha passado.  Que além de estar devendo muito dinheiro pelo trem de vida de levava, com gastos altíssimos, estava sem caixa.

Esse novo perfume seria sua ressureição.

A ajudante confirmou que as duas primeiras facadas tinham sido dela, mas que as outras não, quando sai, ele estava vivo, só levei o laptop.  Discutimos, pois na verdade, algumas coisas do perfume novo, tinha sido sugestão minha, mas como sempre ele iria levar a glória sozinho.  Sempre fazia isso com todos os ajudantes.   Fiquei furiosa, pois não me escutava.

Mas claro, ele tinha misturado algumas outras coisas, como marca própria, coisas que nunca contava a ninguém, que estavam sempre em seu laptop.

Enquanto discutíamos depois das duas facadas, ele queimou a fórmula que estava escrevendo, dizendo que tudo estava em sua cabeça.   Sua origem é árabe, por isso creio que está escrito em árabe ou farsi.

Mas fora, ele tinha muitos inimigos, a quem devia muito dinheiro, principalmente nos cassinos de Las Vegas.  Creio que descobriram que já não estava no seu auge, pois demorava para pagar suas dívidas. 

Mas vocês olharam o sistema de segurança, que tinha fora da casa?

Com muito custo descobriram aonde estava, revisaram a casa pelo menos umas duas vezes, estava num armário com fundo falso.  Uma pequena saleta, que tinha cofres, além do sistema de vigilância.     Se via a assistente entrando, depois saindo com o laptop, o horário confirmava que ainda estava vivo.    Depois um carro chegando, descendo dois homens, chineses de algum cassino de Las Vegas.  Saiam discutindo, falando alto.   Mandou a gravação para um intérprete.

Quando escutaram, eles estavam surpresos com a reação do homem, pois os tinha atacado, dizendo que já não havia nada para roubar.

Mandou os retratos dos dois homens para Las Vegas, bem como o nome do cassino que costumava frequentar.

O negócio era mais complicado, tinha prometido desenvolver um perfume para uma empresa chinesa que a lançaria no mercado internacional, mas não tinha cumprido o trato, se dedicando a fazer o perfume de sua vida.     Os atacantes já não estavam mais em território americano, bem como o que tinha dado a ordem.

De qualquer maneira a secretária foi acusada de agressão. Cumpriria condena muito tempo.

Era um caso de muitas voltas.   Desta vez escreveu a história, mas sem poder levá-la adiante, havia uma queixa de seus colegas que usava dados dos crimes que resolvia para ganhar dinheiro. 

A editora, lhe cobrava que escrevesse mais histórias, usou sua imaginação, criando um detective que em nada se aparecia a ele.  Pura obra de ficção, tirada de crimes publicados nos jornais.

Não lhe puderam acusar de nada, inclusive um, que o crime tinha acontecido em Miami, ao conversar com os colegas, pois o caso estava parado. Perguntou se precisavam de ajuda, ele ia sair de férias.   Foi até lá ajudou a resolver o crime.

O livro foi um sucesso, uma produtora, lhe perguntou se queria escrever os roteiros de uma série, baseada em seu personagem.   Conversou muito com seu mentor, este disse que devia acertar, pois o trabalho deles era incerto, bem como a pensão por aposentadoria, irrisória.

Justamente nesse momento, foi ferido perseguindo um bandido, lhe destroçou o ombro já não poderia atirar com esse braço.  Ficou os primeiros meses chateado, sem poder trabalhar, resolveu então aceitar, fez um curso, para aprender a escrever os roteiros ele mesmo.

Se destacava entre os alunos pela sua imaginação.  Se dedicava de corpo e alma a escrever, pois sua vida amorosa era sempre um desastre.    Nunca durava muito tempo com ninguém.

O único que o tinha visitado no hospital, foi o seu amigo inspetor, esse disse que se aposentava, iria viver um tempo na Itália, aonde costumava passar suas férias.  Um dia lhe levou a sua casa, uma caixa cheia de blocos de anotações dos crimes que tinha investigado, era como ele detalhista.   Não tenho o dom de escrever, mas tu sim, aproveita.

Para a série, aproveitou, criou um companheiro para seu personagem, o amigo inspetor, eram duas pessoas muito diferentes uma da outra, quando trabalhavam juntos, estava sempre discutindo os detalhes.   O primeiro livro bem como o roteiro, lhe mandou para Itália.  O velho telefonou, rindo, dizendo que tinha se divertido com a história, era como ver em sua mente os dois discutindo os casos.

Comprou uma casa com seu dinheiro em Malibu, de frente para o mar, quando o inspetor voltou, o convidou para ficar lá.  Havia espaço suficiente para os dois.   Começaram a escrever os dois juntos.   Um caso do jornal lhes chamou atenção, resolveram investigar por conta própria, acabaram eles descobrindo o culpado, pois a polícia acusava outra pessoa.

Algumas pessoas os procuravam agora para investigar algum caso.

Se entendiam tanto, que pareciam mais um casal de amantes.  Um dia discutindo isso, pois comentavam que entre eles existia algo.   O velho inspetor disse que sempre o tinha querido, mas tinha medo, não tinha experiência além dele ser mais jovem. 

Foi um relacionamento produtivo em todos os sentidos, se entendiam de maravilha no que faziam, embora John tivesse medo de mais uma vez por azar perder quem amava. O outro dizia que isso era besteira, que o dia que tivesse que morrer, era porque tinha chegado sua hora, nada mais certo, como um mais um são dois.

Mesmo assim viveram muitos anos, chegaram a ganhar um Oscar por um roteiro, de um filme que nunca pensaram que chegaria tão longe.

Quando John morreu, antes do homem que amava, que era mais velho que ele, na cerimônia o velho inspetor mencionou, tinha tanto medo de me perder, quem perdeu fui eu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 1 de febrero de 2021

LETRA E MÚSICA

 LETRA E MÚSICA


Tinha plena consciência do que tinha se metido, estava outra vez em reabilitação, por consumo de álcool.    Há anos tentava se livrar disso, mas sempre encontrava um motivo para ter uma recaída.    A primeira vez que tomou um porre, foi para se vingar de seu pai, tomou do meu melhor whisky uma garrafa inteira, que tinha acabado de ganhar, levou uma surra de fazer gosto, a partir disso, quando tinha problemas era o que fazia.

Era o último filho de uns 15, sua mãe parecia uma velha, perto de seu pai, como dizia Maria José, ou José, basicamente tinha tido um filho ao ano, quando ele nasceu, normalmente tinha o parto em casa, mas foi complicado, José chamou uma ambulância a levou para o hospital, ela pediu ao médico se podia fazer com que não tivesse mais filhos, ele achou uma besteira, mas ela disse que tinha 15 filhos, que não aguentava mais.   Como o teve de cesárea, o médico aproveitou para lacrar o ovários, assim não teria mais filhos.

Seu pai quando soube ficou uma fera.  Era metido a intelectual, professor de história na universidade, tinha boa pinta, vivia cortejando as alunas.

Ela sabia disso, mas se vingou direitinho, passou a dormir num quarto só dela, mandou trocar a fechadura, se fechava por dentro.   Ele ficava uma fera.   Talvez por isso quando morreu, apareceu uns quantos filhos atrás da herança.

Vivíamos num imenso casarão, na rua Cosme Velho, um dos poucos que aguentaram em pé, sem se transformar em condômino.   Minha mãe, viveu até aos meus 10 anos de idade, quando foram abrir seu testamento, dizia que só podia fazer isso, quando eu tivesse 21 anos, antes disso nada.   Começou um tempo de penúria, levei muito tempo para entender por quê?

O velho teve que se adequar a levar uma vida mais simples, reclamava dizendo que seu salário ia  todo para alimentar tantas bocas.   Ai já sabia que quem tinha dinheiro era ela, não ele, tentou vender o casarão, mas o advogado disse que ele não podia, eram casados com separações de bens, o pai dela, um português das antigas, nunca gostou do meu pai, então fez com que se casasse com separações de bens.

Houve uma época inclusive que ele teve que começar a vender escondido, alguns livros da sua biblioteca pessoal, muito famosa na época.   Teve que dar aulas em colégios, afinal criar tantos filhos era difícil.   Assim que as coisas melhoraram, me mandou para um colégio interno, pois dizia que eu era o único que não se parecia com ele.   Isso era uma verdade, tinha saído a minha mãe, era mais moreno que os outros, cabelos crespos, olhos verdes como o dela.   Me mandou estudar interno, pois dizia que não podia me olhar.

As festas, natal, ano novo, meu aniversário, passava com a José, que era a única que me procurava, já não trabalhava mais lá, não podia pagar seu salário.   Enquanto eu estava ela aguentou, mas quando fui embora, saiu de lá.

Eu na verdade só sentia falta da minha mãe e dela, pois o resto me maltratava, eu tinha que usar as roupas velhas dos meus irmãos, aliás um ia passando para o outro à medida que crescia.

Já estava na faculdade, sem que meu pai soubesse, tinha entrado com uma bolsa de estudos, pelas minhas excelentes notas, vivia na casa da José, no morro Santa Marta.    Não me importava, ajudava os outros jovens de lá quando tinham dificuldades em aprender.

Comecei a estudar filosofia, queria ser escritor.   Mas claro lá no morro me perdi pela música, ia as rodas de samba, escrevia poesia, depois a transformava em música, o pessoal gostava.

Pela primeira vez tinha gente que gostava de mim.

Um dia, cheguei em casa, um tanto quanto bebido, ela me chamou as falas, se segues assim, serás um bêbado que perdeu seu futuro, num copo.

Quando fiz 21 anos, o advogado nos localizou, disse que tínhamos que ir a leitura do testamento.

Todos caíram do cavalo, inclusive o velho.  Esperavam colocar a mão na mansão e vender.

Tudo era para mim, o único filho que ela tinha amado.  Os outros a ignoravam.  Meu pai tentou impedir, mas o juiz, tinha um na leitura do testamento, porque o advogado pediu.

Disse que nanai, que estava bem escrito, como registrado em cartório, que ele não podia fazer nada, inclusive a conta no banco era minha.

Não podia imaginar o que tinha de dinheiro lá.   O advogado a vinha aplicando todos esses anos.

A primeira ordem que dei, foi uma suave vingança, mandei vender o casarão, todos tiveram que arrumar suas maletas, ou como dizia a José, seus panos de bunda, saírem noite adentro, levando tudo que podiam do recheio da casa.   Não me importei, pois  a muito tempo que as coisas boas o velho tinha vendido.

Verdadeiramente o rifaram, ninguém queria ficar com ele, tantos filhos para nada, dizia a José, acabou indo viver com uma das minhas irmãs mais velha que já era casada.   Vendeu o resto da biblioteca.

Como morreu meses depois, me acusaram de ter sido o culpado de sua morte.  Eu ri na cara deles, tão culpado como vocês que mamaram dele a vida inteira, vão trabalhar seus vagabundos.

Com o dinheiro, comprei um bom apartamento lá pros lados do Posto Seis em Copacabana, era antigo, mas grande, levei a José comigo, afinal era ela a minha família.  Tinha me cuidado, vivia a anos em sua casa, nunca ninguém me procurou.

Era uma vingança bem dada, dizia ela.   Esses sem vergonhas não fizeram nada a vida inteira, agora teriam que se apanhar.  Mudei meu nome, passei a usar o nome do meu avô materno, pois tinha uma foto dos dois, era parecido com ele, Joaquim Andrade, um português respeitado, que tinha feito fortuna, trabalhando como um louco.

Acabei a faculdade, agora participava com os companheiros de encontros musicais, aprendi a tocar violão, assim escrevia as músicas que compunha.   Logo consegui mostrar uma que tinha feito para a Elizeth Cardoso.   Ela gravou, em seguida foi um sucesso, logo consegui outras, assim foi.    Mas sempre, tinha que controlar a bebida, José me controlava o tempo todo, quando morreu, a enterrei ao lado da minha mãe, afinal merecia.

Durante um tempo fiquei em branco, sem saber o que compor, mas dessa dor da segunda perda, fiz uma bela música, um samba canção que na voz de uma das cantoras mais cotadas do momento, estourou nas paradas.   As mulheres se aproximavam de mim, pois sabiam que tinha dinheiro, mas isso não funcionava.  Tinha uma vida intima, restrita, quando queria sexo, procurava numa sauna, ou mesmo num botequim.  Gostava muito de um mulato, ou negro, que no sexo fosse paciente comigo.

Essa parte da minha vida, acabava sempre mal, nunca ficava com ninguém, gostava muito da minha solidão, era perfeita para a vida que levava.      Quem ia aguentar um cara que bebia demais.

Não aparecia em entrevistas, ou mesmo rádios, jornais, revista, vivia no meu mundo, me negava a falar da minha vida, sair em fotografias.

As cantoras normalmente adoravam a minha música, diziam que eu tinha o dom de falar o que elas gostariam de cantar.

Um delas dizia sempre, você entende dos nossos sentimentos como mulher, é como se estivéssemos falando do nosso interior.

Nunca mais nenhum irmão me procurou.   Agora quando era internado, me perguntava pela família, dizia que não tinha.   Na verdade, não podiam me encontrar, pois eu tinha outro nome e sobrenome, que não era como o deles.    Volta e meia sabia de alguma besteira que algum deles tinha feito.   O velho que fez tudo para preservar seu bom nome, agora via tudo ser arrastado na lama.

Nunca estendi a mão para nenhum deles.

Estava no hospital para exames, sabia que o problema era o álcool, mas era meu balsamo, quando os psicólogos perguntavam era o que eu dizia.

Um enfermeiro, muito parecido comigo, me levou para os exames.   Ria dizendo que éramos parecidos.   Imagina que na minha casa, me chamam de intruso, pois ao parecer, sai a minha avó e a um tio que não conheço.    Perguntei seu nome, ele era filho de um dos meus irmãos.

Meu pai, vive do conto, assim que nasci, minha mãe deu no pé, disse que como nunca tinham se casado, não devia nada a ele.    Falava muito de um passado que viviam numa boa, mas que tinham perdido tudo, pelo destino.  

Queria estudar medicina, mas não pude, mas adoro o que faço, estou juntando dinheiro, um dia poderei passar para medicina.   Prática não me falta.

Os exames não foram bem, teria que me operar, deixar de beber, levar uma vida melhor.

Na operação me tiraram um dos rins, o baço, outras merdas que já estavam estragadas.  Teria que agora ter um enfermeiro para me cuidar.    Perguntei ao rapaz se não queria juntar mais dinheiro, me cuidando nas suas horas vagas.    Posso cuidar do senhor pelas noites, de dia trabalho aqui, conheço uma garota que pode cuidar do senhor durante o dia, eu ficaria com o turno da noite, isso é consigo.

Gostei da garota que ele me apresentou, trabalhava somente quando a contratavam para substituir alguém.   Era muito divertida, quando fui para casa, ela foi junto, me fazia comida, me controlava bem, Jair, chegava no final do seu turno, já vinha de banho tomado do hospital, o fazia sentar-se para jantar comigo.  Era muito divertido, depois nos sentávamos na varanda que dava para o Mar, ficávamos ali, tocando violão, compondo alguma música juntos.

Fizemos uma que foi um sucesso.   Lhe disse que ia contatar com alguém, assim avisei uma das minhas cantoras, que tinha uma música própria para ela.   Escutou, depois cantou comigo várias vezes, arrumei a letra para ela, como sempre fazia.

Quando recebi o pagamento pela música, por ter sido publicada, entreguei tudo a ele, para pensar em pagar a matrícula.   Ficou como um louco.    Agora ia a faculdade de manhã, mas de noite estava lá em casa, acabou sendo um filho para mim.

Uma vez me perguntou pela minha família, se eu não tinha nenhuma.   Contei a minha história, o quanto tinham me tratado mal, por ser o único parecido com minha mãe, os anos todos que passei num internato, porque não lhes interessava nada.   Nunca entendi por que, nem meu pai me queria.

Acabei sendo criado por uma empregada, que foi minha segunda mãe, quando eles pensavam que iam colocar a mão na mansão, se deram mal, pois era para mim. Creio que se minha mãe tivesse deixado para eles, me mandariam a merda, para ficar com tudo.

Foi tudo ao contrário, quando morreu o velho, ainda aparecerem uns quantos filhos que tinha por fora.   Viveram na boa vida muitos anos, o velho não os preparou para enfrentarem a vida, agora nem quero saber deles tampouco.

Tu eres o único que me tratou bem, já somos parceiro numa música.

Ah seu meu pai soubesse, nunca ajudou minha mãe em nada, ao contrário, era capaz de aparecer para pedir dinheiro emprestado.   Ela deu um duro danado, trabalhando como uma louca para que eu pudesse pelo menos fazer uma faculdade.   A que ela não tinha feito, mas morreu jovem, minha avó acabou de me criar.

Quando ele se formou, já estava muito melhor, saia com os velhos amigos, riam porque eu tomava um guaraná, ou coca cola, beber jamais.

Voltei a compor, as minhas cantoras agora diziam que minhas músicas tinham perdido a dor, agora tinham mais alegria.

Não me importavam, pois gravavam a mesma, sempre faziam sucesso, eram dinheiro a mais.

Mas claro o tempo passa rápido demais, uma noite despertei com umas dores tremendas, chamei o Jair, que veio correndo, me examinou, chamou uma ambulância, fomos para a clínica aonde ele antes tinha sido enfermeiro, agora era médico.   Depois de muitos exames, disseram que eu precisava de um transplante de rins, teria que fazer hemodiálise, senão a coisa ficava feita.     

Ele quando entrou no quarto, meu viu muito sério, me provocou, dizendo que pela cara ia sair um samba canção, o fiz sentar-se.    Olha meu filho, eu te quero como se fosse isso mesmo, eu estou com 75 anos, se por ter dinheiro consigo uns rins, que lucro?   Nada, teria mais tempo para viver uma vida chata, cheia de cuidados.   Você se lembra quando foi trabalhar para mim, a merda de vida que eu tinha, minha única alegria era quando vinhas de noite, que tocávamos violão, conversávamos.

Não quero fazer hemodiálise, tampouco um transplante, não me interessa, a culpa disso é toda minha, tirarei direito a alguém mais jovem, que tenha uma família, que precisa disso para seguir em frente.

Tentou me convencer, depois veio o médico dos transplantes, este sim acabou concordando comigo, que teria uma vida limitada pela minha idade.

Preparei tudo a consciência, disse ao advogado, que agora era um velho, que veio com seu filho, queria que ele procurasse entre os descendentes de meus irmãos, algum que valesse a pena investir.   Deixava uma grande parte para o Jair, mas queria saber se algum deles tinha chegado a algum lugar.    Fizeram uma verdadeira sindicância.  Só encontraram duas garotas de pais diferentes, que eram professoras, essas deixei uma parte.

Estava vivendo a base de morfina, com um oxigênio ligado a mim 24 horas do dia.   Mas podia ir em paz, tinha feito uma coisa que amava, música, mas letra e música, ainda disse ao Jair, a maioria das pessoas nem sabem quem eu sou, só me conhecem pelas minha músicas, isso se um apresentador diga algo, a maioria não diz. 

Soube que um amigo, com quem participava das rodas de samba, tinha montado uma escola, retirei o dinheiro que tinha que receber de várias músicas, o Jair fez contato com ele, lhe entreguei esse dinheiro para comprar instrumentos para sua escola.   Foi único, me disse que agradecia, esses meninos precisam de um lugar seguro para aprender alguma coisa, de uns dois ou três seguirem em frente já fico contente.

Um dia, senti, era o momento, via ali ao pés da cama, a José, bem como minha mãe, estendi os braços, fui com elas.