lunes, 14 de diciembre de 2020

BABA

 

                                            BABA

 

Meu nome é Baba ou Pai Vidar Shorn, ou na verdade um babalorixá, além é claro de psiquiatra, o que faz de mim uma gozação entre os médicos que me conhecem, dizem que sou um médico de alma diferente.

Nasci por um acaso, conto o caso, minha mãe só descobriu que estava gravida quando estava no 4 para o 5 mês, já não podia abortar. Isso a deixou furiosa.   Já tinha um filho do seu primeiro casamento, bem como meu pai, tinha uma filha do seu primeiro casamento.  Ela era pelas fotos que vi, uma beleza estonteante.  Os dois eram de famílias ricas.  Quando o médico descobriu que se desmaiava porque estava sempre em regime para não engordar, lhe perguntou se queria matar o feto, pois assim não me desenvolveria.   Ficou furiosa, foi a outro médico que lhe disse a mesma coisa.   Esse era amigo de meu pai, falou com ele, cancelaram todas as viagens, pois viviam assim, Londres, Paris, New York, festas para lá, festas para cá.  O mundo deles era esse, alta sociedade, gastar dinheiro.   Quando nasci, tive que ficar um tempo na incubadora, pois mais parecia uma criança de 7 meses de pequeno que era, ela tinha tomado remédios para não ter leite, que lhe fizesse crescer os peitos. 

Minha avó paterna era uma mulher especial, arrumou logo uma mãe de leite para mim, Idalina, que acabou sendo minha cuidadora, toda a vida, até hoje está comigo.  Eu sempre a chamei de mãe.   Diz ela que quando chegou ao hospital, vinha traumatizada, pois pela quinta vez tinha perdido a criança que gestava, que para me amentar, bastava uma mão para me segurar.

Era uma mulher de 1,80 de altura, forte de trabalhos manuais, educadíssima, acabou sendo como uma filha para minha avó.  Nunca mais saiu da sua casa.  Minha avó, era esperta, falou com seu filho, ou melhor o convenceu que era preferível que eu ficasse com ela, que minha mãe não me queria, tampouco tinha jeito para ser mãe, o outro filho ela nunca visitava, como ia cuidar de mim.   Mas como boa judia, fez isso de papel assinado, portanto tinha minha guarda, eles nunca poderiam se meter na minha educação, nem pedir-me de volta.

Isso foi bom, pois me criei com as duas, raras vezes os dois apareciam, quando muito para uma escala entre lugares aonde ele ia a negócios.   Tinha uma empresa de pedras preciosas, que vendia por toda a Europa, América do Norte e Japão.

Portanto sempre estava de um lado para o outro.   Quando estavam no Rio, ficavam num apartamento que minha avô tinha quase ao lado do Copacabana Palace, na Rodolfo Dantas, era imenso, ela aproveitava para se bronzear na Piscina do Hotel, aonde sempre tinha amigos hospedados.  Passavam as vezes dois meses no Rio, se os via uma vez era muito, mais meu pai. Que chegava, passava a mão na minha cabeça, deixava um presente ao meu lado, o que ele estranhava, é que não o abria.    Era um garoto diferente, não gostava de brinquedos.

Depois quando saiamos, eu dava para algum garoto de rua, sem sequer abrir o mesmo para saber o que era.

O que eu gostava mesmo, era de aonde vivíamos, na Estrada Dona Castorina, no Jardim Botânico, numa mansão que meu avô tinha mandado construir para sua esposa amada, pois ela  gostava da floresta,  ninguém sabe como conseguiu comprar, pois ali já era reserva federal, a casa estava no meio da subida da montanha, da floresta.   Esse era meu brinquedo, ir jogar com os Orixás que lá estavam. 

Idalina se ria, soltava esse menino vai ser pai de Santo, olha como ele conversa com os Orixás, minha avó que apesar de ser judia, adorava um candomblé.   As duas me arrastavam para o terreiro aonde ia Idalina, lá pós lado de Bento Riberio, eu chegava, descia do carro, corria como um louco para perto do Iroco do lugar.  Ia saudar meus amigos.   O pai de santo, bem como sua Yao, riam a não mais poder.   Quando comecei a falar direito, me ensinaram o Yoruba, o que o deixa de boca aberta, pois só falava com ele no idioma do Ifá, além de o corrigir quando falava errado.

Eita esse menino vai longe, o tinha visto jogar os búzios para um cliente, ele tinha uma interpretação, eu outra.  Disse para o homem o que ele queria ouvir, eu tonto o consertei, que não se metesse com essa mulher que ia dar merda.    Mal sabia que a mulher estava escutando do lado de fora.

Idalina, leve esse garoto daqui, como sempre está se metendo aonde não deve.

Fiz birra, na vez seguinte, lhe disse a Idalina, não quero mais ir lá, ele engana as pessoas, os meus amigos que me desculpem, mas ele não os entendem.

Acabamos indo a um outro em Padre Miguel, minha avó só reclamava era do verão, pois fazia muito calor por lá.    Eu fazia o mesmo, descia do carro, ia saudar os do Iroco, depois pedia benção a senhora do Terreiro, ela me olhava, dizendo, hum, precisas levar agua para as quartinhas dos teus santos.    Eu mesmo tinha montado, um quartinho, perto da floresta para meus santos, isso era para muitos uma besteira.   Que sabe esse garoto de santos.

Talvez pelo leito da Idalina, ou mesmo pela alimentação que me tinha dado em criança, de repente eu dei uma esticada, com 10 anos era alto demais, com uma diferença, era muito, mas muito magro mesmo.   Isso que comia por dois.

Nessa época, escutei uma conversa do meu pai, com minha avó, que as coisas não iam bem, que muita gente estava traficando com pedras semipreciosas para fora do Brasil, estava lhe queimando o mercado, já não dava tanto lucro.

Ela respondeu que o trem de vida de ele levava, tampouco ajudava, tens que ter o pês no chão, deixar de ficar gastando dinheiro em festas, correndo de um lado para o outro com essa tua mulher.  Parecem dois bonecos de festas, sempre preocupados com roupas, superficialidades, gastam muito dinheiro.

Ele riu, pois é assim que conseguimos clientes.

Sinto muito disse ela, chegou a hora de fechar o grifo, com esses governos que o Brasil tem, com essa economia flutuante, hora sobe, ora baixa, ninguém aguenta.

Mas mamãe?

Lembre-se que eu sou a dona da empresa, tu não passas de um diretor de fachada, todo mundo pensa que tu é que mandas, mas as contas vem todas para minha mão.  A partir de hoje, darei ordem pra restringirem seu cartão de crédito, bem como talões, se gastas demais ficarás sem dinheiro nenhum.

Ele saiu de casa batendo as portas, passou por mim, nem me olhou, nem fez o que fazia sempre mexer nos meus cabelos.   Mas entendi o que se passava, a boa vida deles terminava.

Para ele terminou realmente, foi a Diamantina, buscar pedras, num teco-teco, ela não foi pois só gostava de viajar de primeira classe.   Resultado, caiu, morreu no ato, com o corpo todo despedaçado.

O enterro, foi daqueles judio, juntaram o que encontraram do corpo, colocaram enrolado num sudário de linho branco, caixão de pinho fechado, ela sentada ao lado como uma Madalena arrependida, fingindo que chorava, minha avó, eu, Idalina, fomos somente na hora do enterro.

Mas o melhor veio na leitura do testamento dele.  Ela não tinha direito a nada, pois minha avó tinha colocado no meio dos papeis que ela tinha que assinar para o casamento, uma documento que se casavam em separações de bens, ganhou sim um apartamento em Copacabana, que era o único bem que ele tinha em seu nome, minha avó riu, dizendo que surpresa vai ter.

Era uma garçonniere, um lugar que ele encontrava seus amantes homens, parecia um lugar de putas, ela ficou de boca aberta, pois tinha muita lingerie de mulher no tamanho dele.  Minha avó sabia que o casamento deles era só de fachada, tinham me tido, numa das suas bebedeiras, ou mesmo sabe-se lá como.

Eu era super parecido com ele, pois senão poderia se pensar que era filho de outro.   Mas ela não gostava de sexo, gostava de se insinuar com roupas exageradas, impudicas como dizia Idalina, mas na hora H, fugia.   Ele ao contrário, em todos os lugares que ia, tirava umas horas do dia para seus momentos íntimos.

Minha avó me contou tudo tempo depois.   Para suas filhas tampouco ficou nada, pois quando se divorciou, deixou sua ex-mulher bem, ela sabia de sua vida.

Tudo ficava para mim.   Dias depois a megera como dizia a Idalina, chegou a casa de minha avó de mala e cuia. Mas minha avó, disse que nem pensar, que ela fosse viver no seu apartamento.

Mas sou a mãe do seu neto, não podes fazer isso.  Eu que escutava do alto da escada, com meus dez anos de idade, desci, a enfrentei.  Mãe, aqui só tenho uma a Idalina, a senhora não passa de uma bela desconhecida, uma invasora de domicílio.   Porque não disseste que era minha mãe na leitura do testamento, sequer falaste comigo.  Como se diz, “a porta da rua, é a serventia da casa”,  fora daqui.   Sabia que se ela insistisse muito, minha avó ia deixar que ficasse, nossa vida viraria um inferno.

Esta ria muito com a cara da outra, quem semeia vento, colhe tempestades, soltou.

O jeito foi ela voltar para a casa dos pais que eram ricos, mas tacanhos.

Nunca mais apareceu para nada.  Anos depois conheci no Colégio Divina Providência, na rua Lopez Quintas, o meu irmão por parte de mãe, era mais velho do que eu, mas ficamos amigos, ele tampouco sabia nada dela.

Ele talvez foi o único amigo que fiz nessa época, eu era o melhor aluno da minha turma, gostava disso de estudar, mas claro, por outro lado trazia problemas.   Ele me ensinou a me defender, pois um dia um professor chamou os dois, dizendo a ele, que como meu irmão mais velho tinha que me defender, foi assim que descobrimos tudo.

Na hora do lanche, se sentava ao meu lado, falando dos planos que tinha para sua vida, eu olhava para ele, sabia que teria uma vida curta, mas lhe incentivava a realizar seus sonhos.   Podia ver a vida dos outros, mas a minha era uma incógnita.

Mãe Maria de Oxóssi, dizia que eu teria uma vida grande, não se preocupe com o aqui, agora, teu futuro é cuidar das almas de duas maneiras, uma como médico outra como pai de santo.

Com 16 anos, eu já tinha raspado a cabeça, como se diz, feito todas as obrigações, ela ria com uma risada contagiante, se todos fosse como tu, eu estaria feliz, pois eu nunca perguntava nada como devia fazer as coisas, me comunicava diretamente com os orixás para fazer como eles diziam.

Se jogo para ti, posso errar, melhor tu decidires com eles o que queres fazer.

Mas eu tinha meu Iroco, no fundo da casa da minha avó, uma árvore imensa, que tinha no meio da floresta, um caminho que eu mesmo tinha aberto, acompanhado de Xangô, como do Exu Bara, que estava ligado ao meu orixá principal.

Era uma árvore imensa, tinha o tronco aberto ao meio, por um raio, ali eu deixava as minhas oferendas aos meus santos.

Descobri no armário do meu avô, uma série de ternos de linho branco, camisas de linho branca, experimentei, ficavam perfeitas em mim.  Passei a andar só de roupa branca, quando estas se acabaram, descobri aonde ele tinha feito essas, fui a alfaiataria, mandei fazer mais para mim.

Minha avó tinha me ensinado a cuidar do meu dinheiro, vendeu o apartamento de Copacabana, se alugamos o preço será alto, as pessoas destroem a casa dos outros, melhor vender.

Mais uns quantos escritórios que tinha em Copacabana, na Barata Ribeiro, bem como na Nossa Senhora de Copacabana, esse dinheiro era sempre aplicado pelo escritório que cuidava de tudo, a cada 15 dias, vinha um diretor prestar contas a ela, que me ensinou a ver essa parte, tens que ter olhos de águia, pois estarão sempre tentando sacar partido para eles.

Não dava outra.  Sempre ao final tinha discussão, aonde estava o dinheiro do dia tal.  Nessa época existia o over Night, o do escritório aproveitava aplicava no nome dele.  Acabou com a mamata do sujeito que foi para a rua.

O mais interessante é que ela sempre no final do ano, pagava um plus para os que a atendiam, mas claro a gente quando vê dinheiro fácil, quer logo botar a mão.   Era dura na queda, me ensinou tudo.

Eu entrei para a Faculdade de Medicina, já predisposto a fazer psiquiatria, com a nota máxima nos exames seletivos.

Mesmo não me interessando pelas outras matérias, eu era bom estudante. Nada de perder tempo,  Idalina é que me dizia, filho, tens que viver um pouco a vida, estudar, ir cuidar dos santos tudo bem, mas tem que sobrar um tempo para ti.

Um dia conversando com meu irmão mais velho, me contou que era gay.  Fiquei surpreso, pois ele era muito sério.   Mas aceitei, lhe disse que de momento, não me sentia atraído nem por um lado nem pelo outro.

Não tenhas pressas, como eu tive, resultado, estou sempre sozinho.

Quando entrei definitivamente para a especialização em Psiquiatria, é pude então analisar todos meus sentimentos, meus orientadores ficavam pasmos, pois não tinha ódio, ou raiva da minha mãe, tinha apenas certeza de que ela tinha sido um meio para eu chegar a esse mundo. Como nunca convivi com ela, não podia ter sentimentos.   Meus sentimentos todos se canalizavam para a Idalina, bem como minha avó.

Eu estava no último ano da faculdade, já fazendo práticas no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, um lugar que ninguém queria ir.  Todos queria ir fazer práticas no Pinel, mas fui para este, um dia de madrugada a Idalina me avisou que tinha levado minha avó para o hospital, mas quando o médico disse que não podia fazer nada, pediu para voltar para casa, deitar na sua cama, que Idalina abrisse as janelas, para que o povo da mata viesse ficar com ela.

Cheguei para seus momentos finais, fiquei ali, de um lado eu segurando sua mão, do outro lado Idalina, era tudo como ela queria.  Queria ser cremada, nada de enterro, que as cinzas ficassem no oco do meu Iroco na floresta, essa mesma que ela tanto amava.

Me deixou tudo que tinha, mas nem sabia quanto de dinheiro tinha, estava mais preocupado em acabar a universidade, trabalhar.

Consegui fazer um trabalho impecável no hospital de Jurujuba, logo me chamaram para ficar em experiencia algum tempo no Pinel, já não gostei tanto, havia uma confusão de tipos de pessoas, eu gostava das pessoas mais simples.  Acabei voltando definitivamente para Jurujuba, gostava de lá, ninguém se metia comigo, quando eu descobria que o problema do paciente era espiritual não físico, consegui mandar muita gente para casa, recuperados.

Mas claro ficava num vai e vem desgraçado, tudo era muito longe, acabei ficando estressado, cansado.   Resolvi tirar um mês de férias que nunca tinha tido, fui para Parati, aluguei uma casa perto da praia, fiquei lá descansando.   Um dia passeando pelo cais, vi um marinheiro lindo, se ofereceu para me levar de passeio pela baia.  Conheço umas praias lindas, aceitei, precisava me distrair.  A coisa acabou em farra, ele bateu o olho em mim, queria outras coisas.

Mas disse de cara que nunca sairia de Parati, que gostava de muitos homens, mas nenhum fixo.

Mas no tempo que estive lá ficou grudado a mim.   Que lastima que vais embora, estou acostumado ao teu caralho, é bom demais.

Mas tinha minhas obrigações.  Fui levando adiante, resolvi tentar um tempo atender numa clínica, mas claro era diferente que num hospital, era um sistema que só quem tinha dinheiro aparecia.   Mesmo assim eram casos complicados.

Quando resolvi fazer uma viagem ao Benin e Nigéria, muita gente levantou as mãos para o céu, mas ignorei todo mundo, parti.

Só voltei anos depois quando Idalina precisou de mim, estava já muito doente, voltei para cuidar dela. 

No primeiro dia, entrei pela floresta saudando todos os Orixás, agora os entendia melhor, era mais experto no Yoruba.  Tinha aprendido a diferença de sons, estalados na boca, para pronunciar alguma coisa.

Cuidei muito bem de minha mãe de leite Idalina, ela se recuperou, menino queres me fazer viver 100 anos, assim não é possível.

Te falta muito para isso Idalina, confessa era que estava com saudade de mim.

Agora, com tinha ganhando muita experiencia no jogo, atendia em casa, quando era um problema diferente consultava como devia tratar a pessoa.

Isso me deu fama, mas também uma série de problemas, diziam que eu não estava preparado para isso, tive que me valer de meu diploma de psiquiatra para seguir em frente.

Era um meio difícil, eu sabia, encontrei sempre muitos charlatães pelo caminho, o duro era ver as pessoas serem enganadas por dinheiro.

As pessoas ficavam surpresas, pois nunca pedia uma matança, ou obrigações complicadas, quando queriam isso mandava para outro lugar.   Sabia que isso era balela para os orixás que eu trabalhava.

Tinha alguns que ficavam comigo, mas sabia do meu rigor, nunca cobrava nada, pois não precisava de dinheiro. 

Um dia meu irmão mais velho me procurou, estava uma sombra, tinha Aids, cuidei dele até o final,  ele achava engraçado, dizendo eu é que devia ter cuidado de ti.

Mas no final, me contou toda sua vida, uma mistura de problemas de abandono, de uma vida complicada, mas o escutava com carinho.   Morreu nos meus braços.

Fiz o que ele tinha pedido, nos últimos meses que passou comigo, passou a amar a floresta, foi cremado, pediu que as cinzas ficassem embaixo do Iroco, pois ali teria paz.

Ninguém veio a sua cremação, nem sua mãe, nem seu padrasto, estavam de viagem, alegava que tinha dado muita dor de cabeça, que partisse sozinho.

Fiquei furioso, só lhe respondi que sozinho ele não estava, nem estaria nunca. Nunca poderia entender meus pais, os dois eram como estranhos no ninho, tinham parido filhos, mas nunca tinham tomado conta deles, relegando para segundo plano, para uma vida vazia.

Discutia isso com Idalina, ela só dizia, com isso ganhei um filho que quero muito, agora com a idade estava muito frágil, tinham duas moças na casa para cuidar delas.  O respeitava, bem como a ela.

Volta e meia, acontecia algum caso, de pessoas que falavam mal dele, não ligava, pois normalmente eram pessoas que o tinham procurado para outros fins que não o que ele praticava. 

Ajudou uma artista de teatro, que tinha tido um problema, veio consulta-lo, ele olhou o que era, lhe respondeu, se fosse outro pai de santo, diria que tens mal olhado, faríamos mil trabalhos, mas no fundo o problema, é que esse personagem que estás fazendo, te está transtornando, pois te identifica com o problema dele.  Viveste isso no passado, quiseste encarar o mesmo, para resolver teus problemas, vamos dizer enfrentando o mesmo, quiça o deixasse para trás, mas o tiro saiu pela culatra.   Isso nada tem a ver com candomblé, ou mesmo fazer um despacho.

Podemos falar do problema, pediu que todos saíssem, fechassem a porta, seu companheiro queria ficar.   Nada disso, a partir de agora quem a atende é o psiquiatra.

Como sabia aonde estava o problema, falou com ela a respeito.  Tia sido abusado quando jovem por o irmão de sua mãe, ninguém acreditou nela, o homem aproveitou isso, repetiu várias vezes a imobilizando, até que sua mãe o viu fazendo.

Mas ao invés de ficar de seu lado, disse que ela com sua beleza, atraia os homens, que era uma pecadora.  Então para ti o sexo sempre terá essa conotação suja.  A atriz passou a vir semanalmente falar com ele sobre isso.  Até que colocou tudo para fora, recuperando a voz.

Quando retomou o papel que fazia, era como uma outra representação, ela observando de fora, analisando, criticando sua postura de indefesa.

Normalmente nessas circunstâncias, o abusado, pode se transformar num abusador, no caso dela carregava uma culpa que não tinha.   Chegou à conclusão que fingia todos os orgasmos que não tinha.   Quando falou isso com seu parceiro, ele achou que Vidal a tinha enganado.

Foi tomar satisfação.

Olha não posso falar nada, porque ela é minha cliente, o que se fala com um psiquiatra fica entre 4 paredes.   O caso não tem nada a ver contigo, apenas ela precisa se liberar desse bloqueio que tem.   Se a amas de verdade, a ajude.

Algumas outras atrizes ao ouvirem falar que esta tinha ido falar com ele, corriam como moscas, pois se ela fazia, queriam também.   Analisou cada uma, disse que não podia ajuda-las, não tem nenhum problema que eu possa resolver.

As pessoas quanto mais modernas, mais superficiais ficavam.     Comentava isso com Idalina, ela concordava com ele.  As vezes escuto na rádio, adorava escutar programas de rádio, as pessoas telefonam por problemas considerados idiotas, mas são aduladas pelos apresentadores, que aconselham superficialmente cada uma.

E a mesma coisa, corro ao pai de santo, para pedir que jogue para mim, pois quero saber o número premiado da loteria.  Como se isso fosse resolver o problema da sua vida.

Ele bastava olhar para a pessoa, para saber o que tinha ido fazer ali, algumas acreditavam que com uma matança, um oferecimento de comidas para o santo resolviam o problema, em seguida de esqueciam que se tinham um santo, tinham que manter viva essa chama.

Um dia se enfrentou a um homem imenso, que vivia nos ginásios, as duas vezes que apareceu, a primeira disse que queria fazer uma oferenda a Exu, pois as coisas iam mal com ele.   Jogou para o homem, Exu não lhe pedia nada, ficou furioso, lhe disse que sim precisava conversar a respeito dele mesmo.  Voltou outra vez, dizendo que precisava fazer uma para Xangô.

Meu filho tens Xangô, mas teu pai de cabeça é outro, nenhum esta pedindo nada, venha comigo, passemos a minha consulta.   Era uma sala confortável, toda branca, poltronas de orelha confortável.   Vou ser direto contigo, pelo que vi no jogo.   O teu problema é outro completamente.   Sentes atração por outros homens, isso para ti é uma calamidade, crês que os Orixás te estão provando para saber se realmente eres homem.   Verdade?

Sim.

Vê, uma resposta simples, os Orixás jamais interferem nas tuas opções sexuais, te sente frustrado, por isso maltratas o teu corpo, que perdão ao meu ver, está ficando feio, pois colocaste na cabeça que tens que parecer forte, que não desejas outro homem.

Meu melhor amigo me disse isso, deixei de falar com ele, pois fiquei mais perdido. 

Pelo jogo, vejo que tens atração por um homem em especial.  Passe dele, pois significa problemas para ti.  O que tens é encontrar teu eu verdadeiro.  Ninguém te colocou nesse armário como se diz hoje em dia, foi você mesmo.   Procure teu amigo, fale com ele, quem sabe ele te ajude a enfrentar a situação.

Ele voltou na semana seguinte, sai da academia, vou a uma outra agora, estou diminuindo o ritmo pois meu amigo é médico me avisou que posso ter problemas por causa dos anabolizantes que andei tomando.

Quando disse que tinha vindo aqui, ele perguntou se podia vir, fazer uma consulta.

Sim pode.

Foi interessante, era um homem completamente normal fisicamente, tinha um bom corpo, mas sem ir ao ginásio.  Comentou que o conhecia de nome, pois tinha estagiado no Pinel, falavam muito de ti lá.

Sempre invejei esse poder saber separar quais são os problemas dos pacientes, leio de tudo a respeito.

O primeiro que tens bloqueado, aparece aqui no jogo, é o teu instinto, mas isso vem de muito tempo atrás.   Houve uma época na tua juventude que acreditava nele, mas isso lhe deu medo.

O instinto funciona, como uma auto proteção de seu espírito, ao mesmo tempo, que auxilia tua cabeça a pensar, a tomar decisões.  Fizeste psicologia, mais também para resolver teus problemas, mas isso não aconteceu, pois eles foram se acumulando, foste jogando para baixo do tapete, agora isso te faz tropeçar de vez em quando.

Quando olhas para mim o que vês?

Vejo um homem que conseguiu encontrar um equilíbrio entre o espírito e a razão.

Bom, até pode ser isso, mas tudo tem seu preço, por esse dito cujo equilíbrio, as pessoas têm medo de mim.   Além claro como sou pai de santo, me veem como um bruxo que vai prende-los para sempre.

Nada mais longe da verdade.   O mesmo se passa, tens medo da solidão,  o que te falta é aprender a conviver com ela, encontrar razões porque escolhes estar sempre sozinho,  uma época pensavas que estavas apaixonado pelo teu amigo, mas como o viste confuso, o alertaste, mas correste dele, quando devia ficar ao seu lado. 

Teus sentimentos, consegue analisa-los?

De uma certa maneira agora, sim, ele sempre foi meu melhor amigo, mas quando meteu na cabeça essa de cuidar do seu corpo virando um sapo de tanto exercício, vi que ia pelo caminho errado, por mais que eu falasse, não me escutava.

Pois é as pessoas as vezes não gostam das interferências, na sua vida.   Preferem errar, alias esse é um direito delas, cabe aos amigos ficarem ao lado, para tentarem mostrar o verdadeiro caminho. 

E o que estou sentido agora?

Estás deslumbrado comigo, como eu falo contigo, também me sinto atraído por ti, mas para ter algo contigo, tenho ter certeza que sais do teu casulo.    Vamos tentar desbloquear esse teu medo ao teu instinto, ver aonde chegamos.

Pediu que ele fechasse os olhos, o colocou sentado em direção a floresta, vou contar até três, se deixe levar pela floresta, sinta que caminhas descalço, seguro por ela, vá me contando o que vê.

Primeiro um largo silencio, viu que ao seu lado apareciam dois Orixás dele, que o iam guiar pelo que queriam que ele descobrisse.   Sua cara foi se relaxando, vejo uma trilha, vou segui-la, é como esse caminho, fosse usado muitas vezes, quando chegou no Iroco, falou de tudo que estava vendo ali, dos dois Orixás que estavam atrás dele, de seus pais, que pediam desculpas de terem atrofiado seu instinto, pensando que o protegiam.   Nunca o deixando arriscar-se, na vida.

Depois o escutou cantando uma música em Yoruba.   Foi se relaxando, chegando mesmo a dormir.    Era uma nana, cantada por Oxum.

Quando voltou a si, a primeira coisa que falou, essa senhora, de branco que me acompanhou do lado direito, quem é?

É a Oxum, ela cuida do teu equilíbrio, Xangô que estava do outro lado, te protege, o que ia na tua frente é Exu, o guia dos caminhos, ele te dá o instinto para saber a que lado correr ou se proteger.  

Venha, agora, vamos fazer essa caminhada em tempo real, foram entrando pela floresta, ele deixou que ele fosse a frente, percorra o caminho que fizeste antes, até chegar ao Iroco, se sentaram no chão, ele começou a falar em Yoruba, Jarbas Vasconcelos, que era o cliente, entendia.   Sempre escutei essa linguagem nos meus sonhos.

Estão realmente todos aí, verdade?  Não é nada da minha imaginação.

Não, isso é um Iroco, uma árvore imensa, que no seu tronco abriga os espíritos, ou Orixás, através dela pode ver teus seres queridos.

Quando voltaram, Jarbas pegou sua mão e a beijou, bem no centro da palma da mão, a fechou, me guarde para ti por favor.

Vou tentar ajudar meu amigo.

Isso, converse com ele, escute esse homem que está ao teu lado, o Exu, bem como a sabedoria de Oxum.   Quem sabe possas ajuda-lo.    Mas não o deixe confuso, ao fazer isso, para que penses que o ama carnalmente, pois seria uma mentira.

Jarbas agora vinha todas as semanas conversar com ele, falar dos seus avanços, vinha depois do trabalho, ainda com a bata branca, se sentavam na varanda, olhando a floresta, que o por do sol ia acariciando suas folhas.

Tens um lugar magico aqui.

Sim, esse lugar, Idalina, minha avô me salvaram a vida, fui criado por elas,  minha avô apesar de judia, era filha de santo, gostava desse mundo.   Idalina, foi criada nele, me amamentou, é minha verdadeira mãe.

Um dia veio com seu amigo, o corpo já estava voltando ao normal, seguia um estrito treinamento para que seu corpo não ficasse flácido.   Não tomava mais anabolizantes, para diminuir sua massa muscular.   Na cara tinha um sorriso de felicidade, reencontrei com meu amigo, graças a ti, agora estou saindo com um rapaz que conheci,  me senti atraído, ele também, estou experimentando, procurando ser eu mesmo.

Quando Jarbas voltou, disse que agora viria sempre como um amigo dele, que queria outra coisa em relação a eles.    Experimentaram fazer sexo, foi como se dois corpos se transformassem em um só.

Acabou indo viver ali com ele.    Pela primeira vez era feliz nesse sentido, sabia que os Orixás tinha abençoado isso.

Ajudou Jarbas a fazer todo o percurso com os Orixás, agora no meu trabalho no Pinel, ficou mais fácil, as vezes dizem que eu me pareço contigo, nada sabe que estou vivendo aqui.

As vezes quando o caso era mais simples, passava para ele.

A primeira viagem que fizeram juntos, foram a Nigéria a desculpa era um curso sobre Yoruba, mas ele queria ver um Babalorixá com quem vinha sonhando ultimamente.   Foi difícil encontra-lo, mas seguindo sua intuição, pois parecei que os outros tinha esse homem como um tabu.

Numa aldeia remota, descobriu que o mesmo, estava preso por um grupo de muçulmanos, o iam vender como escravo.

O comprou, só muito distante de lá, já cuidado e medicado. Chamei tanto teu Exu, que ele te colocou a minha procura.   Não tenho nada para te ensinar, mas sim aprender, agora vivemos um momento difícil, em que os muçulmanos vão ganhando espaço através do medo, da pressão em cima de seus fiéis.   Mas claro eles não tem a magia do animismo.

Contou que tinha estudado Yoruba desde jovem, que sabia ler o Ifá, mas que não era santeiro, ou coisa parecida.   Eu só sei jogar os búzios, analisar a situação, tentar entender o que querem os Orixás.

Acabou indo com eles para o Brasil, se encantou com a terra, mas disse que sua missão não era no Rio de Janeiro, foi para a Bahia, ensinar Yoruba aos novos pais de santo.  Volta e meia chamava para trocarem ideia.

Os anos foram passando, um dia bateram na porta, levou um susto era sua mãe, velha, mal vestida.  Não tenho para aonde ir, vim ver se podias me ajudar financeiramente, porque não tenho nem nunca tive nada para dar a ninguém.

Tudo seria sempre pelo dinheiro, quando perguntou aonde estava vivendo, soltou uma risada nervosa, na garçonniere de teu pai, foi tudo que restou.

Por que não vais para uma casa de maiores?

Que vou fazer lá, jogar biriba, ou qualquer outra coisa com as velhas, quero sim que me des uma mesada que tenho direito, afinal quer queira quer não te pari.

Ele riu, exatamente, foste somente o meio que usei para chegar aqui, nada mais, nunca foste minha mãe verdadeiramente.   Lhe deu um cartão do seu advogado, fale com ele, te dará um salário mínimo por mês para sobreviveres.   Viu que ela ia reclamar, agora te toca viver o outro lado da moeda, das pessoas que pisaste, maltrataste, nem cuidar do teu filho mais velho cuidaste, por isso, verás esse lado, que ninguém quer cuidar de ti.

Foi embora, resmungando, vou fazer um escândalo, verás, obrigarei os juízes a me darem uma parte de tua fortuna.

Observando como ia embora, mais parecia uma bruxa, só lhe faltava a vassoura.   Meses depois foi avisado pela polícia que a tinham encontrado morta na garçonniere.  Alguém a matou, pois limparam o apartamento.   Como os corredores tinham um sistema de vigilância, viram que chegavam com um garoto jovem, desses que fazem sexo por dinheiro.   Quando o conseguiram reter, disse que ela não queria sexo, mas sim seu esperma para passar na cara, para recuperar sua juventude.   Falou uma serie de mentiras, que era rica, que frequentava os melhores salões da cidade, mas nem para roubar tinha nada.

A enterrou como era devido, ao lado do seu pai, nunca ia lá mesmo, detestava entrar em cemitérios.

Mas quando morreu Idalina, foi como se o mundo tivesse vindo abaixo, era a mãe que ele conhecia, a amava como tal.  Fez suas últimas vontades, ser cremada, que suas cinzas ficassem no Iroco.      Passou ir ao fim da tarde, se sentar aos pés do Iroco para conversar com seus entes queridos.

Houve um congresso no Rio de Janeiro, sobre o Yoruba, queriam que apresentasse alguma coisa, disse que assistir podia assistir, ou mesmo sentar-se numa mesa de debate, desde que viessem pessoas qualificadas da Nigéria e do Benin, mas quando olhou a lista, eram todos de segunda, estavam vendendo como se fossem os melhores, ele declinou o convite, disse não tinha muito tempo para perder com essas coisas oficiais.   Um  dos mestres que ele não conhecia, foi conversar com ele em sua casa.   Escutou tudo que o outro disse, eu fui o único que não fui escolhido pelo governo, o de lá como o daqui são coniventes em muitas coisas, mas esses professores que vieram, ganharam isso como um agradecimento do governo, por não falar mal deles.

Ficaram até tarde conversando, o senhor conhece a derivação do Yoruba, da região noroeste do pais?

Sim estive lá estudando, talvez seja a mais gutural, com muitos estalos de língua, sons que não fazem parte da tradução gramatical.   Muitos Orixás, usam essa derivação, quando querem falar, para que os outros não entendam.  

Exato, pediu perdão ao Jarbas, que não conhecia direito.  Começaram os dois a conversar, falavam rápido, com esses sons todos, riram no final.   Eu te proponho uma coisa, quero avançar nisso.   Podemos os dois falar sobre o significado desses sons no congresso, fazendo uma interpretação do que dizem os Orixás, reais.  No que Vidal olhou, atrás do outro, conhecido como mestre passarinho, um Exu enorme sorria para o seu.  Os dois são parentes.

Jarbas ficaras de mediador, os deixaremos incorporar, que eles falem o que queiram, mas queremos que grave isso.

Jarbas ficou como louco, era como uma batalha verbal entre duas pessoas, com milhões de estalos, sons diferentes, eles mesmo foram tirando as cadeiras do lugar, transformando  a sala numa  palco de teatro de Arena, essa era a ideia, fazer como se fosse uma arena.

Pediriam isso que a plateia fosse transformada numa imensa arena.

No dia seguinte escutou o diretor do Congresso, felicitando o Mestre Passarinho, ter convencido a grande pessoa que era Vidal Shorn, para participar de um debate como uma arena, sobre linguística de uma região específica. 

Vidal como sempre, com seu traje branco, com um turbante próprio de Exu, cedeu primeiro a palavra ao Mestre Passarinho.

Pelo que conhecemos da história, divulgada pelos Griots, os contadores das historias dos Orixás em especial, eles vieram dessa região da qual falaremos a maneira especial de falar o Yoruba.   Dizem que os Orixás são originários deste lugar.   A verdade é que a historia dos Orixás, como de todas as religiões foram deturpadas com o passar dos séculos.   Mas os Griots desse região se mantiveram aferrados a essa casta.   Agora vamos representar o que sempre acontece, se um Orixá é desta região, ao traduzi-lo, para quem consulta, normalmente se perde coisas, os pais de santos ou Babalorixá, são humanos, poucos sabem dessas variações todas, eu sou originário dessa região, o Baba Vidal, esteve muitos anos por lá. Ainda hoje se desenvolve muito bem com isso.

Queremos saber quem de vocês ao final, entenderam todas as mensagens, quero avisar que poderão receber críticas  dos Orixás,  no meio disso.   Pessoalmente pedimos desculpas, pois não poderemos criticar o que dizem.

Sem dar tempo, ao tempo, cada um de seu lado da arena, se deixou incorporar.

A plateia primeiro levou um susto, já havia uma diferença impressionante entre os dois, Vidal, branco, com seus cabelos brancos que pareciam de um leão, do outro lado o Mestre Passarinho, que parecia um gafanhoto negro retinto.

Os dois deram um salto altíssimo, que pegou todo mundo desprevenido, começara uma verdadeira batalha verbal contando numa linguagem rápida, tudo sobre os orixás, bem como suas adaptações, tanto no candomblé, original, como o da Bahia, as confusões provocadas por não falarem direito. 

Jarbas que já tinha visto, filmava a cara dos participantes, era de espanto geral, depois que acabaram as histórias, começaram agora uma batalha com os que estavam ali assistindo, tinham combinado que mestre Passarinho o faria com os brasileiros, ele com os africanos.

Mestre passarinho foi para um pai de santo que parecia mais um papa de tantas joias, roupas finíssimas, rebordadas.   Começou falando com ele num Yoruba coloquial, ao que o outro perdia a metade do que ele dizia.  O senhor entende de Yoruba afinal?

Ele balançava a cabeça firmemente, a voz que se escutou era diferente, mentes, a muito tempo deixei de dar sinal, nunca entendes as mensagens que te digo, não é como esses dois que veem o orixá que fala.   Finges entender, mas mesmo ao ler os búzios, não entendes a linguagem, mas tens boa lábia, para cada trabalho ganhas muito dinheiro, para fachada, diz que são para um orfanato, mas mentira.

O homem se levantou descomposto, filhos da puta, isso é uma arapuca, no que quis se lançar em cima do Mestre Passarinho, com um gesto ele ficou no ar.   Só desceras daí, quando reconheceres que nem sabem quem eu sou, ou seja um embusteiro.

Agora foi a vez do Vidal, com um babalorixá que tinha vindo acompanhado de uma verdadeira entourage, com roupas rebordadas, era o babalorixá oficial do governo.

Foi a mesma confusão.   Cito, no dia 2 de novembro do ano passado, o senhor induziu o presidente a provocar uma manifestação, quando seu Orixá pedia ao contrário, depois disso, ele nunca mais se aproximou de vôs.

Mentira, da plateia se levantou uma pessoa que tinha vindo com ele, possuído pelo seu Exu, esse o chamou de filho da puta para baixo.

O organizador estava tremendamente horrorizado, mas viu que 90% dos que estavam ali, estavam tentando entender tudo que se dizia.

Mestre Passarinho, perguntou a um jovem Baba, se ele entendia, tudo que eram as mensagens.

Realmente Mestre Passarinho, não, lido com a dificuldade, que primeiro falo um Yoruba deficiente, segundo nunca entendo as nuances que vocês falam.   Tento seguir meu instinto, mas fica difícil.

Quando terminaram, se viram cercados pelos participantes, pois tinha sido a coisa mais interessante durante todo o congresso.  Instigante dizia um, os da Nigéria dizia que o governo dificultava a ida até essa região.  

O Ifá, não tem barreiras meu irmão, quando chegas a qualquer vilarejo  do interior, os velhos falam Yoruba, basta apenas escutar os estalos os sons feitos com a boca que são complementações das palavras.

O organizador, só pode agradecer a presença deles, pois tinham conseguido transformar o congresso no último dia em algo interessante.   Ele mesmo reconheceu que seu Yoruba era deficiente.

Convidou Mestre Passarinho, para passar uma temporada dando aulas.  Ele ia comentar algo, mas Vidal lhe fez um sinal.

Depois lhe explicou, você vem de fora, será bem recebido, mas eu como sou branco e daqui não, sempre haverá um problema.   Acho interessante que o senhor fiquei para melhorar o entendimento da língua e do Ifá.    

Passou-se dois anos Mestre Passarinho vinha de uma gira pela Bahia, estava decepcionado, aonde nasceu tudo nesse pais, ignoram tudo, cada pai de santo fala o seu Yoruba, se crê dono de uma língua que não tem dono, sim uma tradição oral.

A daqui foi igual, se dois entenderam as nuances foi muito, acho que o melhor é retornar ao meu Pais, riu dizendo, serei recebido como um herói, por ter ido ao uma pais imenso, resgatar nossa língua.

O levaram ao Aeroporto para se despedir.

Ele entendia que era difícil, ensinar isso, pois uma letra podia ter numa palavra, uma quantidade de sons diferentes como se fosse uma pronúncia.  O que eles falavam não era tanto saber falar a língua, mas entender essas nuances para traduzir a quem perguntava, direito.

Depois de 15 anos Vidal, já não estava para grandes confusões, o que queria, era poder sentar-se embaixo do seu Iroco, conversar, entender alguma coisa diferente.

Morreu ali um dia dobrado sobre si mesmo rezando. Tinha feito um testamento, complexo, sabia que Jarbas sonhava em ir viver na Africa, ele não podia deixar seu espaço.   Então sua herança era dinheiro para o Jarbas ir viver o tempo que quisesse, enquanto isso, a casa seria cuidada, para um futuro.    No local tinham dois empregados que vinham regularmente limpar a casa, arejar.  

Quando Jarbas voltou um tanto decepcionado, levou uma baita surpresa, um dia encontrou um negrinho, sentado justo embaixo do Iroco, conversando tranquilamente com os Orixás.

A Mensagem que ele recebeu, era esse garoto é mais dotado que nos dois juntos, ele deve ser preparado, é necessário que você o adote como teu filho, para que ele possa ir em frente aqui mesmo.

Jarbas pelo menos tinha uma missão pela frente, um dos seus hábitos era sentar-se com o garoto embaixo do Iroco, recebendo orientações.     O garoto tinha tal poder, que quando jogava os búzios, os via ao cair, sabia qual a posição, bem como o que queria dizer.

O proteja Jarbas, para que os outros não se apoderem de seu saber.

Foi feito o mais jovem Babalorixá do Brasil, com somente 16 anos, os que vinham consulta-lo, ficaram pasmo, com como dizia o que tinha lido em pleno ar.  As nuances todos faziam parte do seu ser interior.

 

 

  

 

 

 

 

 

 

                                      

 

lunes, 7 de diciembre de 2020

RITMO - HERANÇA HERIDITÁRIA?

 

                                 RITMO – HERANÇA HERIDITÁRIA?

 

Meu bisavô veio para Los Angeles, precisamente para Hollywood, para compor uma trilha sonora para um desenho de Disney.   Ele já era um compositor respeitável no Brasil, tinha música nos espetáculos do Cassino da Urca.  Não tinha uma família atrás dele, tinha saído do interior do Rio de Janeiro, para triunfar na capital.   Tinha um ritmo incomparável, era muito bom nas marchinhas, nos choros.   No rio aprendeu a escrever partituras, a ler o que era muito importante.   Em seu tempo livre, foi aprendendo vários instrumentos, vivia para a música, segundo quem tinha convivido com ele nos seus tempos de jovem, se dizia que tomava café com música, almoçava, jantava com música, só pensava nisso.   Nunca o viam numa farra, enchendo a cara.  Tinha fome de devorar o mundo da música, tinha um fato importante, tinha ouvido absoluto, tudo que escutava ficava na sua memória.

Evidentemente isso o ajudou muito,  quando chegou a Los Angeles, não parou, trabalhou como um louco, logo absorveu todos os ritmos da moda.   Ia pelas noites, escutando Jazz, músicas do momento, baladas, tudo que era possível, logo se meteu nas grandes orquestras, escutava uma vez um tema, em seguida era capaz de transcrever o mesmo para os instrumentos da orquestra.

Assim mesmo arrumava tempo de compor.   O diretor de um filme dizia que necessitava de uma música de fundo para algum momento do filme, lhe explicava o que acontecia, lá tinha ele quase em seguida um tema.    Por isso era muito requisitado, não era bonito, pelas votos antigas se vê.   Era um mulato muito claro, que com os anos sem ir à praia, podia passar tranquilamente por branco.    Se casou com uma chefe de edição musical de filmes.   Alguns dizem que por interesse.    Eu o conheci pouco, tinha um problema sério com meu avô, o mesmo com meu pai, eram duas negações em termos musicais, não tinha saído a ele, nem a sua mulher.

Dizem que quando nasci, ele apareceu no hospital, aonde estava minha mãe, uma judia drusa, louca por música, tinha sido cantora antes de conhecer meu pai.   Me pegou nos seus braços, colocou seu ouvido junto ao meu, disse sorrindo para ela, ele é meu herdeiro.   Na hora ela não entendeu.    Pensou que era herdeiro do dinheiro que tinha.   Os filhos viviam dizendo que tinha ganho muito dinheiro, no auge de sua carreira, mas ele se referia a outra coisa.

Minha mãe passou a me levar em sua casa.  Ficava numa encosta de Hollywood, na parte de cima parecia uma casa normal, com poucos moveis isso sim.   Numa estante, a quantidade de prêmios que tinha ganhado.  No andar de baixo dois studios de gravação, pois aos seus 80 anos ainda trabalhava normalmente.   Me contou ela depois, que na primeira vez, nos levou para baixo, num dos studios, estavam encostados, vários instrumentos.  Primeiro se aproximou do piano, dedilhou uma música, diz ela que eu sorri, foi fazendo isso em cada instrumento, para ver o que me gostava mais, por último deixou o Clarinete, que era seu instrumento preferido, tocou um  chorinho que tinha tocado muito com Pixinguinha,  André de Sapato Novo.

Disse que eu comecei acompanhar o ritmo imediatamente.   Meu pai quando soube dessas visitas ficou uma fera.   Soltou, foste visitar esse velho unha de fome, pois ele quando tinha terminado a universidade, foi procurar o avô para que ele investisse no trabalho que fazia, trabalhava na bolsa de Los Angeles.     Parece que a resposta foi, pede pro teu pai, esse idiota.

Meu avô era famoso por ganhar dinheiro fácil, da mesma maneira que perdia.   Quando jovem, cada vez que perdia, corria para seu pai, esse se negava lhe dar dinheiro.

Quando fiz cinco anos, ele já estava bem velho, com problemas de coração, em casa chegou uma caixa, de presente para mim, quando minha mãe abriu, era um clarinete.  Diz ele que quando o vi, o agarrei, cada vez que tentavam tirar de mim, gritava, fazia escândalo, dormi duas noites segurando o mesmo.    Um dia de manhã, despertou, escutando música, pensou que tinha deixado o rádio da cozinha ligado.  Mas o som vinha do meu quarto, disse que entrou, eu estava sentado no chão tocando a música que meu bisavô tinha tocado para mim.

Ao meio dia, avisaram que ele tinha morrido,  ela que acreditava nos sinais da vida, ficou impressionada.    Mas escondeu isso do meu pai, pois ele odiava a música, tinha trucado a carreira dela completamente.

Foram ao enterro, aonde segundo ela, estava cheio de gente famosa que ia gravar com ele. Ou pedir que fizesse um arranjo de alguma música para eles.  Meu avô, bem como meu pai, ficaram procurando seu advogado.   Esse sorriu, levantou os ombros, disse, o testamento só se abrira daqui quando seu neto tenha 18 anos, nada antes disso, a casa será fechada, com seu dinheiro seguirá aonde está.   Tudo está registrado em cartório, não se pode fazer nada.

Ele seria enterrado da maneira mais simples, ninguém sabia, mas tinha se convertido ao judaísmo.   Me lembro, de ver sua cara com aquela barba imensa branca, os cabelos despenteados, dentro de um caixão de pinho, enrolado num sudário.   Fiquei muito impressionado com isso.  

Meu pai, bem como meu avô entraram com um processo na justiça, o Juiz disse que se eu estivesse morto, com certeza, teriam direito, mas enquanto eu fosse vivo nada poderiam fazer.

Dois anos depois minha mãe se separou do meu pai, pois descobriu que ele tinha uma relação com uma dançarina.    Fomos morar numa casa humilde, mas como ela dizia de respeito.

Arrumou um emprego, de tarde ensaiava músicas querendo voltar a tentar sua carreira, tinha uma voz preciosa.   Eu além da escola, tinha aulas de música, os professores diziam que eu tinha ouvido absoluto.   Quando ela desafinava, eu lhe dizia imediatamente, estas forçando tua  voz  na nota tal.

Tudo que conseguiu foi acompanhar orquestras, mas isso significava que tinha que viajar, acabou trabalhando de dubladora em filmes musicais.   As atrizes faziam que cantavam no cenário, ela detrás cantava como tinha que ser.   Ou gravavam a cena, ela fazia a dublagem cantando.     Com isso pagava os meus cursos, meu pai nessa altura já tinha gastado mil fortunas, pois era um perdedor nato.

Tentava por todos os meios estafar os amigos de meu bisavô, mas este os tinha avisado do que era capaz.

Meu avô tentou uma vez entrar na casa de seu pai, mas não sabia que o advogado tinha colocado um sistema de vigilância.  Ficou uns dois dias de molho na cadeia até minha avô aparecer para pedir ajuda para minha mãe.

Esta estava farta dessa família, disse que nem pensar, que seu filho nunca pagava a pensão que deveria  para meu sustento.

Isso acabou com qualquer contato com o resto da família para sempre.   Fui criado como se eles não existissem, nunca falava neles,  trabalhava duro para pagar a escola de música.

Com 15 anos fiz minha primeira apresentação, tocando um concerto de  Dvorak, para piano, o em G minor, opus 33.     Dois dias depois toquei com a orquestra o Cello concerto em B minor op.104.   Os jornais diziam nasce um jovem impressionante na música, mal sabiam que eu tocava outros instrumentos.

Minha mãe vendeu a alma ao diabo, mas me levou para NYC, para acabar meus estudos na Juilliard School.   Fui ao mesmo tempo me apresentando com a orquestra Sinfônica como convidado.   Assim ganhava um dinheiro para as despesas.

Quando fiz 18 anos, voltamos a Los Angeles, era o momento de saber do testamento do meu bisavô.    Foi um luxo como dizia minha mãe.   Lá estavam meu avô, bem como meu pai, gordíssimos, um tinha estado em prisão, por estafa a uns velhos de uma residência.

O advogado antes de começar, me perguntou quanto instrumentos tocava,  eu lhe disse 8, embora alguns outros arranhe, agora estou aprendendo ou melhorando o Fagote.

Esse riu, essa era uma pergunta ao abrir o testamento, era clave, se me dissesse que nenhum ou dois, estavas deserdado.

Tudo vai para ti, a casa o studio, tudo que tem dentro dele, bem como a conta no banco que todos esses anos têm sido administrada em investimento.   Um adendo, mais ninguém deve saber quanto contém essas contas.    O administrador, lhe informará posteriormente em minha presença.

É tudo senhores.  Os dois, meu pai, bem como meu avô ficaram uma fera.  Então porque viemos, ah, aqui está um adendo.  Cem dólares para cada um pela despesa de vir até a leitura.   Essa era sua maneira de se vingar pelos anos que o desprezaram.

O advogado nos acompanhou até a casa, me entregou as chaves de um cofre, grande na parede, estava cheio de partituras,  são obras de dele, nunca publicadas, esperava que você trabalhasse as mesmas um dia.

Disse ao advogado que no momento não precisava de dinheiro, que tinha que fazer uma turnê com a orquestra de Filadélfia,  depois voltaria, para assumir tudo, minha mãe ficaria na casa enquanto isso.   

Claro que eles entraram na Justiça, o advogado, foi ao julgamento acompanhando minha mãe, entregou uma carta ao Juiz.  Esse riu.   Sinto muito, mas essa carta está reconhecida em cartório, confirmado também que estava em plena faculdades mentais.  Que não queria que nenhum dinheiro dele fosse para as mãos desses estafadores.    

Nunca mais encheram o saco.    Só voltei a ver meu pai, anos depois, um dia que apareceu para me pedir dinheiro emprestado, para pagar fiança de um dos filhos do seu segundo matrimônio que eu nem sabia que existia.

Perguntei por que estava preso?   Estava drogado, tentou assaltar um homem que resultou ser policial. É muito burro.

Eu só lhe respondi, passar bem, não lhe devo nada.   Nunca tinha recebido atenção dele, nem quando era criança, portanto ele não existia em meu mundo.   

Tudo que me disse foi, eres igual a ele, só existe essa merda de música.

Nem lhe disse que dias depois sairia o primeiro cd, das obras dele, que eu tinha arranjado, seria apresentadas num concerto.    Eram músicas ainda em ritmo do Brasil, que ele nunca esqueceu, mas que o tinha esquecido completamente.

Com uma seguinte, transformei numa coisa diferente, a toquei muitas vezes para entrar no meu subconsciente,  depois foi fácil, fui transcrevendo tudo de novo, acrescentando movimentos, fiz uma composição imensa.   A tocou primeiro a Orquestra de Boston, num concerto, em que eu tocava o clarinete, pois toda a obra estava baseada nesse instrumento.

Minha mãe, estava sempre por perto, era minha agente.   Mas me dizia sempre, trabalhe, mas aproveite a vida, pois ela passa rápido. 

Nunca tinha tido romances, era jovem, mas não me sentia atraído por ninguém, até que conheci um húngaro, que veio tocar com a orquestra.   Me apaixonei perdidamente.    Minha mãe, me avisou, cuidado, músico normalmente é uma pessoa volúvel.   Foi uma verdade, acabou a temporada, ele desapareceu, foi para a Europa, dizia que os americanos não entendiam sua maneira de tocar.   Verdade seja dita, ele achava que era um grande músico, mas na verdade era um entre muitos.

Fiquei arrasado, mas tinha trabalho pela frente.  Todos os dias dedicava umas quantas horas a compor,  peguei o meu fracasso, meti dentro da minha cabeça, transformei em música isso sabia fazer bem.

Um ano depois minha mãe faleceu, fiquei sem meu único ponto de apoio.  Sempre tínhamos estados totalmente ligados, conversávamos sobre tudo, qualquer assunto, não tínhamos barreiras um com o outro.     Foi então quando descobri quanto tinha de dinheiro.   Não era uma fortuna para entrar na lista Forbes, mas era dinheiro.

Me programei, resolvi, tirar um período para compor.   A primeira coisa, procurei entre os documentos do velho, que estavam todos arquivados, ele era extremamente meticuloso, encontrei uma pasta com todas as reportagens sobre ele no Brasil, mas pelo que verifiquei essas pessoas com quem ele tinha convivido, tinham já morrido a muito tempo.

Mesmo tudo que ele falava, eram coisas do passado.

Aluguei um apartamento, perto da praia, frisando que precisava de um piano.  Quando cheguei não tinha merda nenhuma, menos mal que só tinha pago um mês de aluguel, o apartamento era uma horrível.

Fui para um hotel, quase ao lado do Copacabana Palace, me informaram que eles tinham um anexo, que ali poderia encontrar um apartamento com piano.

Falei na portaria, me disseram que sim, mas que havia regras de horários.   Meu português descobri depois era uma merda.    Mas um rapaz entendeu o que eu queria.

Era músico, trabalhava ali, porque falava línguas, além de precisar de dinheiro.   Me alcançou, disse que sabia aonde eu poderia ficar.   Me disse que era de um músico brasileiro, que no momento estava fora do Brasil, que só voltaria dentro de um mês.   Era um andar, a sala de musica estava protegida acusticamente,  esse rapaz, se tornaria um grande amigo, me arrastou para todos os lados, para escutar samba, a escolas de samba, a show, me ia apresentando, quando comentei que meu bisavô era brasileiro, ficaram como loucos, pois a maioria conhecia sua música.

Alguns me convidavam para tocar com eles, escutava uma vez a música, em seguida conseguia acompanhar no Clarinete, que era um instrumento fácil de levar para todos os lados.

Abreu Gomes, me acompanhava já como se fosse meu dono.  Me apresentou a cantores, inclusive um que tinha lançado a pouco tempo um CD, em que incluía uma música do bisa.

Fui pegando a ginga carioca, para entender o samba, a bossa nova, era capaz de me situar dentro disso tudo.   Me lembrei de uma musica que ele tinha guardada, mas inacabada, um dia a toquei para um grupo, ficaram como loucos, pensavam que a musica era minha, lhes disse que não, era dele, eu só tinha terminado a mesma,   Quando tocamos juntos a primeira vez, era capaz de escrever para todos os instrumentos, isso que só tinha tocado uma vez, tinha ficado bem guardada.

Logo me apresentei num grande show com eles, sai de turnê com eles pelo Brasil, assim conheci muitos lugares.

Mas estava outra vez no mesmo, fechado num círculo, não ia a lugar nenhum sem estar cercado dos músicos, as conversas, começaram a me aborrecer.  Quando voltamos ao Rio, escapei, fui procurar a cidade de aonde ele tinha saído no interior.     Como ele a descrevia, parecia que não tinha mudado muito, estava parada no tempo.  A estrada era horrível, o ônibus, ia balançando se esquivando dos buracos da mesma.

Procurei saber se tinha algum parente por lá, mas nem sabiam que esse homem tinha saído dali. Uma senhora me disse, nessa época, os jovens todos já viam que aqui não havia futuro, alguns mudavam como deve ter feito ele de nome, para ter um mais sonoro. Se era descendente de escravos, então teria o sobrenome do patrão.

Voltou para o Rio, meio desconcertado, então como seria seu nome verdadeiro, tinha encontrado um passaporte velho dele, antes de se naturalizar, o nome todo mundo conhecia pelas músicas, mas se tinha outro nome antes, era difícil saber.

Quando voltou para casa, foi aos studios Disney para quem ele tinha trabalhado no início, nada todos os contratos tinham o mesmo nome.

Ele tinha um grande amigo, lhe indicaram o nome de uma pessoa, foi encontrar essa pessoa numa residência de velhos.   Tinha já quase 100 anos.   Riu muito, ele dizia que um descendente dele deveria ter algo como herança genética.

O homem começou a falar dele, ficou pasmo, passou a entender por que seu avô e ele estavam brigados.     Fomos namorados, daqueles escondidos de antigamente.  Ele tinha casado com uma americana, principalmente para conseguir cidadania.   Depois ele não gostava de crianças. Seu filho um dia nos pegou na cama, fez um escândalo imenso.   Ele se separou, passou a viver um tempo em minha casa.     Mas era um malandro, ele dizia que gostava de variar, não queria estar preso a ninguém, a única coisa que o prendia era sua música, com essa não havia como disputar.

Ficamos amigos, as vezes me chamava para ajudar em alguma gravação na casa que tinha mandado fazer especialmente para o que fazia, tinha dois studios de gravação, aquilo parecia um formigueiro.

A casa é minha hoje em dia, lhe contei.   Me deixou de herança.

Pois é seu filho fez o diabo com ele quando ficou adulto, contava para quem quisesse escutar que seu pai era um grande filho da puta, que era gay.      Por qualquer dinheiro vendia a honra do pai.   Ele até entendia, nunca tinha se aproximado do filho.   Mandava dinheiro, mas se aproximar nem pensar.   Depois o filho não suportava a música, para ele isso complicava.

Nesse vai e vem, estivemos juntos muitos anos, eu também me casei como ele, para manter a salvo uma reputação, bem como para ter família.   Tive mais sorte, minha mulher sabia de tudo, aceitava.   Tive um filho, que tampouco gostava de música, mas em compensação meu neto, canta muito bem.    Me disse o nome do neto, era um cantor muito bom de opera.

Quando está por aqui, vem me ver sempre.

Vou fazer uma coisa, sabes com é cabeça de gente velha, cada vez que eu me lembre de alguma coisa, anotarei, para depois te contar.

Passei a visita-lo todas as semanas, as vezes tocava alguma coisa para os senhores que estavam ali.    Um dia me disse, eu me lembrei de uma coisa esta noite.   Já examinaste a lareira.

Sim na sala tem uma lareira, mas é falsa, é só decorativa,  busque apertar os ladrilhos atrás da mesma, ela tem um barrado como se fossem tijolos, não é verdade?   Pois atrás de um deles, ele guardava diários que escrevia.

Fui para casa, direto para a lareira, depois de bater com os dedos em vários tijolos, descobri um que tinha um som de oco.  Quando consegui puxar o tijolo, ali tinha uns cinco cadernos escrito a mão, numerados na frente.   O Melhor foi que ao passar a mão pelos fundos, encontrei rolos de dinheiro.  Achei engraçado isso.

Eram bilhetes grandes, só lendo o diário entenderia.

Comecei a ler o primeiro,  logo de cara descobri que seu nome original não era o que usava.

Começava contando a história, não na cidade que eu tinha ido procurar pelo seu passado, nunca tinha vivido ali, isso era um despiste.

Contava aonde tinha vivido,  era louco por música, mas em sua casa era proibido, por causa da religião da sua mãe, do seu padrasto, que era pastor da mesma.

Quando tinha feito 12 anos, seu padrasto abusou dele, rindo dizia em nome do senhor, estas purificado.    Na hora não entendeu nada, mas depois escutando os outros garotos na escola entendeu.   Filho da puta, fugia dele o mais que podia, mas sempre encontrava um jeito de força-lo, era americano, em casa obrigava todo mundo a falar inglês, foi assim que aprendeu a língua.   Ele para não ser descoberto, ia escutar a banda de música escondido, ficava numa esquina, enquanto ela tocava no coreto.    Amava escutar essas músicas, a valsa, o chorinho, marchas militares, tudo entrava em sua cabeça, ficavam ali guardadas, de noite era capaz de reproduzir tudo, como quem liga uma rádio.  Evidentemente em casa não tinha, era fruto do diabo dizia o desgraçado.     Um dia no armazém de secos e molhados da vila, viu uma navalha esquecida em cima do balcão.   Não teve dúvida, passou a mão, a afiou bem como tinha visto sua mãe fazer.    Agora andava armado,  embora o filho da puta tivesse quase o dobro de seu tamanho, muito mais forte, ele ia encontrar um jeito de se proteger.

Era um dia de culto, desapareceu, tinha nesse dia a banda na praça, estava ali na esquina quando ele chegou por detrás o agarrando.   Já que estas pecando vamos pecar de verdade, o arrastou para detrás de um muro, de uma casa abandonada, abaixou suas calças, mas a dele sua fivela ficara presa em algo, o soltou um instante, tempo suficiente para ele tirar a navalha no bolso, enfiar na sua garganta.  Nem sabia como se fazia isso, enfiou fundo, enquanto ele ia caindo, fazendo um barulho horrível, ao respirar,  quando ele caiu no chão, retirou a navalha, lhe deu muitas mais, pelas vezes que tinha abusado dele.   Saiu correndo por um caminho até sua casa, sua mãe já estava no culto a estas alturas.  Tirou a roupa que estava suja de sangue, se limpou, saiu com a suja, mais a navalha, foi para bem longe dali. Queimou sua roupa, escondeu muito bem a navalha, embaixo de umas pedras.

Voltou tranquilamente para casa, quando a mãe chegou estava estudando, ela perguntou pelo seu homem.

Muito sereno, respondeu, ué pensei que estava no culto com a senhora.

Ele não apareceu.   Ela foi com ele agarrado de sua mão, quase o arrastava pelas ruas até o posto de polícia.   Ninguém tinha visto o pastor, o foram descobrir dois dias depois, porque viram um cachorro, comendo o pau de um homem.   Alias os cachorros abandonados, tinham feito a festa com seu corpo.

Existiam muitas suspeitas, afinal o pastor tinha muitos inimigos na vila, pois vivia pregando sobre o pecado na frente dos bares, da igreja católica, no putero, enfim, enchia o saco das pessoas.

Sua mãe se sentia tão colacionada, que arrumou a mala dos dois, foram embora para Macaé.

Lá ela deixou de frequentar igrejas, pois tinha que dar o duro para trabalhar.  Trabalhava numa padaria, pelo menos o patrão a deixava levar o que sobrava no final do dia para casa.

Ele foi se aproximando do pessoal da banda da cidade, o maestro o via espreitando sempre, um dia o convidou para entrar num ensaio.   Lhe perguntou qual instrumento que gostava, ele foi direto ao clarinete, gostava do som deste.  Lhe ensinou o básico, ficou de boca aberta, pois ele em seguida conseguia tocar com a banda, ofereceu ele mesmo o uniforme.  Como ele era menor de idade foi falar com sua mãe.   A vida tava sendo dura, achava que pelo menos ele estaria num lugar seguro.

O maestro era do Rio de Janeiro, vivia falando das rádios de lá, músicos, as oportunidade, mas nunca dizia por tinha vindo para uma cidade do interior.

Ganhou sua confiança, sempre lhe dizia para ficar, para lhe ensinar uma música nova, dessa música nova ele não via nada.  Queria era meter a mão nele.  Desta vez ele consentia, porque era agradável.  Mas um dia um outro músico, os surpreendeu, quis entrar na festa também, dois eram muitos para ele que era franzino.  Deu um jeito, escapou.  Nessa noite a padaria pegou fogo, por alguma distração de alguém, sua mãe morreu nessa noite.

Ele rebuscou todos os lugares que ela tinha dinheiro,  sabia aonde o maestro também guardava o dinheiro da banda.  Se armou de uma faca da cozinha, foi até o local da banda.  Abriu a porta, pegou todo o dinheiro que viu, bem como o clarinete que tocava.

Dali foi para a estrada, sentia muito pela sua mãe, mas ou era isso, ou ficar para sempre servindo de pasto para dois homens barbudos.      Fez sinal para uns caminhões, até que entendeu que eles paravam num posto de gasolina que tinha restaurante ali mais adiante.

Foi andando até lá, ficou perguntando quem ia para o Rio, um mulato bonitão, riu dizendo, vou dar uma mijada, te dou carona.   Quis foi meter a mão nele, mas ele já tava mais esperto, só quando chegarmos ao Rio.  Antes nada.  Foram conversando, o homem ia cantarolando a última música que fazia sucesso.  Ele guardou na cabeça, em seguida tirou o clarinete, começou a tocar.  

Nem sabia que essa música se tocava por aqui?

Não aprendi agora com você cantarolando.

Como é possível isso, vê se sabe dessa.  Cantou outra, ele tocou em seguida.

Caramba, garoto, você é demais.   Venha vamos ser amigos, de deixo viver na minha casa, moro sozinho lá na Lapa, um reduto de músicos, logo terás oportunidade.

Ele vivia num casarão antigo, tinha um quarto, uma pequena sala, o banheiro era coletivo, mas limpo.   Dormiu no dia seguinte com ele, este soltou, bonito não eres, mas tem um corpo apetitoso.   Podes ficar aqui, eu as vezes passo a semana fora, gostaria de te encontrar  quando volte.    O levou pelos bares para escutar música, ele ia absorvendo tudo.  Três dias depois já estava tocando com um grupo.   Ali sempre se encontravam compositores, que depois de seu trabalho iam tomar uma cerveja, que nunca era uma, mas muitas.

Quando o outro voltou no final de semana, lhe disse, estão te procurando, teu nome é Felipe Bezerra não é.  Porque naquela parada falam nisso, alguém que roubou o dinheiro da banda, bem como o clarinete.   Acho melhor para tua segurança, trocares de nome.  Conheço um sujeito na polícia, já tive uma aventura com ele, trabalha justamente nessa parte.  Amanhã vamos vê-lo.  Fazer sexo com o Genival era fácil, ele era carinhoso, dizia se eu tivesse mulher, filhos, estaria preso, gosto de andar pelas estradas.  Me sinto livre, claro chegara uma hora que irei me cansar, mas nunca vou de putas, gosto muito de homem para isso.

Já agora o excitava, deixava seu caralho duro, tens uma boa ferramenta.  O provocava de tal maneira que ficava dura como madeira, então se sentava em cima contente.  Gosto disso também.

O levou ao policial, esse era até bonito, ficou de papo com o Genival, acabou concordando, lhe deram um nome que mais parecia dois sobrenomes, Barbosa Lima, com esse nome tinha novos documentos, nem como aumentaram sua idade.

Na seguinte viagem do Genival, o policial, apareceu para lhe entregar os documentos, rindo disse queres que te cobre um preço em dinheiro, ou preferes em carne.  Tirou toda a roupa, tinham um corpo fantástico,  mas um piru pequeno, o Genival disse que tens um caralho de dar gosto, quero provar.   Apesar de todo o corpo que tinha, virava um doce na cama, era amoroso, gostava de beijar, chupar, quando se sentava em cima do caralho, levantava os braços para cima, quase gritava, mas sabia que ali, as paredes eram finas.

Agora era assim ele acompanhava cada vez que Abreu saia para tocar com os amigos, mas se sentava no fundo, pois todo mundo sabia que era da polícia.

Um dia lhe disse, vista-se bem, vou te levar para fazer uma prova.  O levou na Radio Mayrink Veiga, perto da praça Mauá.   O capitão como era conhecido o policial, sim estava nervoso, nunca tinha pedido favores, não queria dar na vista.  O apresentou ao maestro, disse, escutei esse garoto tocando num boteco, mas vejo que tem talento.   O maestro perguntou se sabia ler partituras.   Não senhor, mas se escuto a música uma vez posso tocar.   Ele riu, vamos ver, se é assim tens ouvido absoluto. Uma coisa rara.

Se sentou ao piano, tocou uma música de Ari Barroso, ele não só tocou, como fez alguns floreados com o clarinete.

Ficas, falta um clarinete na banda que acompanha os artistas nos programas ao vivo, mas terás que aprender a tocar lendo partituras, vou te dar um endereço de uma professora, mas amanhã te quero aqui as 9 para ensaiar, lhe disse quanto era o salário, não era muito, mas dava para começar.     Disse ao Capitão, chegou a hora de abandonar o caminhão, seguir meu caminho.

O Capitão disse que não podia morar com ele, pois vivia com sua mãe, sua mulher e dois filhos. Mas gosto mesmo é de você.    Montou um apartamento para ele, era na Ladeira do Livramento, em cima de um armazém de peças de carro.   Para dormir era excelente, pois só tinham os dois em casa, o capitão podia gritar quando gozava, aos poucos foi abandonando a família, era muito ciumento.  Ia sempre aos programas de auditório quando era de noite, sentava-se no fundo ficava observando quem o olhava, se se aproximavam muito.   Ele por isso quando o chamavam para tomar uma cerveja, dizia que não gostava, ficava em casa com o capitão.

Um dia sua mulher apareceu, mais parecia um homem, saiu com ele dali, abaixo de vassourada, um capitão de polícia dando o cu para um músico, aonde já se viu isso, já para casa vadia, a partir de hoje, te chamarei puta.  Pois se dá para esse garoto quantos mais enfiaram o cacete nesse teu cu.

Ele ficou quieto em casa, de madrugada, saiu de fininho, com suas roupas mais novas, sapatos bicolores, tudo presente do capitão, não o deixava gastar um tostão do que ganhava.  Ele até gostava do Capitão.    Arrumou um apartamento na Gloria, que ficava fácil, era só tomar o bonde até a praça Mauá.   Era pequeno, mas para ele estava fantástico.  Já tinha acabado as aulas com a professora, que lhe ensinou a tocar piano, saxofone, após aprender aonde estava as notas musicais, ele aprendia rápido.

Agora substituía o maestro no piano.   Um dia este se chegou a ele, dizendo vou sair do programa, pois fui contratado para trabalhar no Casino da Urca, queres vir comigo.  Nem pensou,  o único problema, era que conseguir apartamento perto era difícil,  mas não se apertou, logo se mudou para Botafogo, ele ia de bicicleta para o Casino.  Começou a mostrar suas músicas para o Maestro, este mostrava a mesmas para os cantores e cantoras, que queriam musicas novas para triunfar no show.    Carmen Miranda adorou duas, que ele compôs para ela.

Agora ganhava mais dinheiro, mas guardava, tinha amizade com as costureiras do shows, ela lhe arrumavam algum terno que algum músico, ou cantor tinha largado por ali.   Assim em breve estava vestido de trajes de linho branco, ou azul, gostava mais do azul que ia mais com sua pele morena.   Teve alguns namorados, mas nada demais.

Quando vieram gravar Zé Carioca, ele tocou na trilha sonora.   O  maestro que acompanhava a filmagem, disse que ele iria fazer sucesso, fazendo isso na América.   Se engraçou com ele, aquele homem era magro como o diabo, mas entendia de música, lhe ensinou milhões de truques para composição.   Na cama era uma lady, com o tempo diria depois uma senhora balzaquiana.  Acabou apesar de já ser conhecido pelo público, com músicas suas gravadas, antes de ir embora, gravou com Pixinguinha.   Sua bagagem era pouca, algumas roupas boas, de linho, gostava de andar frajola, não era bonito, tinha de fazer seu porte brilhar, as calças de linho, faziam que seu caralho se distinguisse.   Levou sim suas partituras, que um dia chegariam ao seu bisneto.  O inglês que tinha aprendido de criança, serviam agora para se virar.   O maestro vivia em casa bonita no Beverly Boulevard, numa casa que hoje já não existe mais.

Tinha um salão cheio de instrumentos, o que era sua paixão, sentia falta de outro tipo de relacionamento, com ele, era tudo papai, mamãe, o velho claro de mamãe, sentia falta do  Genival, do Capitão.    Quando ficou conhecido, disse ao maestro que precisava viver sozinho para poder compor em paz, mas que seguiriam sendo amigos para toda vida.   Este riu, duraste muito, não tenho glamour, nem sou um homem interessante, mas gostei da tua maneira de se despedir.  Mas eu amo mesmo é o seu talento.   Volta e meia, o chamava para compor uma música acidental para um filme, ele via a cena, em seguida estava trabalhando.  O maestro dizia, ninguém é como tu.

Mas chegou o momento que ele precisava de papeis para ficar definitivamente no pais, o maestro lhe arrumou um casamento pago, uma chefe de edição de musicas para filmes, o problema era que já estava gravida, para ela um casamento significava ser respeitável, era muito quadrada nisso. Se casou, mas nunca foi viver com ela, tampouco dormiu nenhuma noite com ela.   Apenas deu seu apelido que na verdade era tão falso como ele, Lima, depois ela teve uma filha com um maestro alemão,  daí meu nome Wishental.  No fundo eu não era neto dele.

Espero um dia que eles sendo filhos de uma mulher  que sempre teve um ouvido para música, algum saia com ouvido absoluto.

Deve ter ficado esperando.  Depois desse primeiro e segundo diário, não falava muito em romances, parece que só teve um grande amor, por um ator que fazia de tudo, cantava, dançava, representava.   Mas nunca ao que parece viveram juntos, falava dele com carinho, usava no diário só duas iniciais.   Compôs músicas para ele, para que pudesse brilhar nos shows que fazia.   Esse foi para Las Vegas fazer um show, compôs  todas as músicas para ele dançar, cantar, brilhar.  Só depois desse época, com todo o dinheiro que tinha ganho, comprou a casa em cima da montanha, embaixo tinha uma garagem imensa, consultou técnicos especializados, ele só tinha mesmo um carro velho que podia ficar na rua, então essa garagem virou dois studios preparados para tudo.  A partir desse momento, o diário é uma relação de músicas compostas nesses dois studios, gravações históricas,  o mau relacionamento com o pseudo filho, ao qual sempre quer se dar bem a suas custas.    O enfrenta dizendo que não é seu filho, mas sim de alguém que sua mãe dormiu.   Anos mais tarde com o teste de ADN, prova isso.  O que esclarece seu testamento.

A partir de um momento, relata meu nascimento, o teste que fez comigo, como acompanhou toda minha carreira,  finalmente encontrei alguém que tem as mesma características minhas com a música.   Além de ter uma mãe espetacular que o guiara pelo caminho certo.

Fala do que vai deixar para mim.  Diz que riu muito quando tomou essa decisão, que tinha amarrado de todas as maneiras consultando um advogado, as leis.   Para impedir que esses bastardos que pensam que são meus filhos, possam conseguir alguma coisa.

Quanto ao dinheiro, descobre que sempre tinha sido assim aplicava dinheiro, mas tinha sempre algum a mão para necessidades de última hora, coisa de pobre. De quem viveu na miséria, porque nunca se sabe.

Guardou o dinheiro bem como os diários lá.

Agora entendia o homem da residência, foi visita-lo, agora sabia que esse era na realidade o grande amor de sua vida.   Quando falou isso, ele chorava,  eu o amei como nunca, mas era outra época, outra maneira de encarar isso tudo.   Quando ele morreu, fiz meu último filme, tinha perdido tempo demais me escondendo.   Por isso o perdi, um dia se cansou de se esconder, mandou tudo as favas.  Viveu seu final de vida como queria.

Vejo que tens coisas dele, apesar de saber que não tens laços de sangue com ele. Mas ele te escolheu.   

O conheci, pouco, mas o adorava, quando descobri as partituras, fiquei louco, trabalhei em cima delas, não porque ele fosse meu avô, como acreditava, mas como músico.

Um dia também encontraras alguém.

Estou fazendo com que os studios de gravação funcionem outra vez.  Estou montando um grupo para trabalhar uma série de música dele.

Quando contratou o pessoal, um dos técnicos, vinha queimado de uma gravadora.  Disse que estava farto de trabalhar temas que depois de um tempo ninguém mais tocava, nem sabia quem era o cantor.  Esses eram obrigados pelas gravadoras a fazer, isso, se perdem na drogas, ou abandonam tudo.

Foi lhe trazendo gente para trabalhar, músicos jovens, que ele foi colocando dentro do projeto.

Levaram um ano trabalhando, mas eram seus funcionários, para qualquer coisa tinha o dinheiro da lareira, para pagar seus salários.

Quando o CD finalmente ficou pronto, fez uma turnê com o grupo, para não ter que dar explicações, apenas falava que eram músicas de seu avô, brasileiro.  Havia temas que tinha feito para algum filme, mas que tinham usado somente um trecho, nada mais.   Nas entrevistas dizia que estava trabalhando um tema, que iria transformar como se fosse música clássica.

Queriam já saber para quando?

Menor ideia, estou desenvolvendo os temas.

Mas compartilhava tudo com  Jeremy Costa, seu chefe de produção de studio, entre eles nasceu uma afinidade imensa,  eram capaz de ficarem horas a trabalhar uma ínfima parte da música até que ficava perfeita.   Dai foi um passo para um relação, que durava a muitos anos.  Se entendiam perfeitamente em todos os sentidos.

Mas nunca mais voltou a procurar qual a terra de seu avô, agora que sabia a história verdadeira.