viernes, 18 de octubre de 2019

OLHO POR OLHO


                                       OLHO POR OLHO



Nada como passar desapercebido, há dias que se colocava naquela esquina, observando, como o objetivo que tinha em mente, entrava, saia de sua casa, despreocupado.  Com umas roupas, que antigamente não poderia adquirir.

Mas tudo isso ia acabar, minha vingança chegara pronto. Quem o visse pensaria que era mais um pedinte, uma pessoa que vivia nas ruas da cidade.  Afinal San Francisco não era diferente das demais cidades.

O filho da puta, tinha escolhido bem a casa, porque justo na esquina, nas duas lojas existiam vigilância através de vídeo.  Teria que tomar muito cuidado.  Mas também sabia que depois da loja que formava a esquina, existia um beco que percorria todo o quarteirão pelo fundos das casas.  Já tinha verificado. 

Tinha examinado cada uma, para ver se não tinham vigilância externa, pois não queria mandar tudo a merda.  Sua vantagem é que ninguém sabia que tinha sido colocado em liberdade, tinham descoberto um erro no processo ao revisa-lo o advogado conseguiu anular seu juízo. Posto que somente ele tinha sido julgado, faltavam os outros três sócios da firma.  Estes tinham desaparecido.   Ele tinha cumprido já cinco anos de prisão.   Portanto tinha cumprido metade da sentença, além de bom comportamento.

Os outros sócios da firma, eram três dos seus melhores amigos, ou isso achava ele, se conheciam desde a infância, tinham estudado juntos até a Universidade.  Quando se formaram, ele assumiu a empresa do pai, em seguida contratou seus amigos, em quem confiava cegamente.   Foi o único do grupo a se casar, com sua namorada de toda vida.  Quando está depois de algum tempo ficou gravida, ficou imensamente feliz, pois adorava crianças.  Uma única pessoa tentou avisa-lo que estava acontecendo alguma coisa errada, sua secretária.

Não lhe deu atenção.   Eles faziam aplicação de dinheiro para clientes, mas desde a época de seu pai, existiam clientes que remetiam dinheiro as Ilhas Cayman, ou a outros paraísos fiscais.   Por vezes, o cofre da empresa ficava abarrotado de dinheiro, não gostava muito disso, mas dava muito dinheiro para a empresa.

Sua mulher tinha tido uma gravidez de alto risco, nos últimos dias esteve simplesmente internada.    Todos lhe disseram que não se preocupasse, que ficasse com ela.  Passou a chave do cofre imenso que existia em sua sala, para o que considerava seu melhor amigo, John Dawye.  Iriam receber uma quantidade imensa de dinheiro, teriam que tomar cuidado para que a polícia não descobrisse.

Foi falando com eles através do celular, inclusive mandaram flores para sua mulher Amanda, que pediu em seguida que retirassem aquilo do quarto, não sabiam que ela odiava flores?

Dois dias depois de agonia, perdeu a criança, ficou muito mal.  Tornaram a lhe mandar flores, chamou seu amigo, para que não fizessem isso, mas o celular dava ocupado todo o tempo.

Justo quando saia para um café, com seu sogro, chegou a polícia, na hora não entendeu nada, imaginando um engano, chamou imediatamente seu advogado.

Quando este o visitou na cadeia, só tinha más notícias.  Que a empresa estava quebrada, tinha ido até lá, era um escritório fantasma, inclusive os empregados tinham sido despedidos, sem receber nada, estavam entrando com processo em cima dele, que era o proprietário.  Não sobra nada do escritório, desapareceu tudo, os computadores foram levados pela polícia, teu cofre está limpo, nem um grão de pó.

Os empresários que confiaram em ti, entraram na justiça.  A coisa não será boa, creio que o mais urgente é encontrar teus amigos.

A polícia fez de tudo, acreditava que tinham outras identidades, pois não encontraram saídas em aeroportos, estação de trem, ônibus, autovias, nada.

Ficou em estado de choque dias, não conseguia entender o que podia ter acontecido, confiava nos três cegamente.     Foi quando se lembrou de sua secretária, que lhe tinha avisado que alguma coisa estranha acontecia.

Mandou o advogado falar com ela.   Mas já era tarde.  A acusação a tinha chamado como testemunha.  Já não podia falar com o advogado.   Esse mesmo assim, por baixo dos panos, falou com seu marido.    Como quem não quer nada, este comentou, que ela tinha avisado ao Greg, mas que ele não tinha acreditado nela, sim chamado sua atenção.  Claro, para ela, ele sabia de tudo.

Antes mesmo de ir a juízo, apareceu o advogado de seu sogro, com o pedido de divórcio de sua mulher.  Perdeu a cabeça totalmente, confiava nela, se conheciam de toda a vida, como era possível isso.  Não quis assinar, mas seu advogado lhe disse que não havia meio de aceitarem.  Acreditavam sinceramente que ele era culpado, seu sogro mesmo tinha perdido milhões com o que tinha acontecido.  

Antes do julgamento, ficou finalmente sabendo de que lhe acusavam.  Porque os que mandavam dinheiro para fora, não estavam na causa,  mas sim os inversores normais. Seus amigos, tinham investido nos últimos meses, o dinheiro alheio, em proveito próprio. Desviado dinheiro de todos os inversores, para contas que eles geriam com outros nomes.  Tudo tinha desaparecido, inclusive documentos.

Não houve apelação.  Durante o julgamento, estava completamente aturdido, sequer seu pai o tinha visitado na prisão.  Entendeu que tampouco este acreditava nele.

Sua ex-mulher, a secretária, muitos funcionários, acreditavam que ele sabia de tudo, que inclusive estava metido na história.   Acreditava que à cada testemunha ficava de boca aberta, escutando as acusações.  Inclusive sua ex-mulher o acusou de ingênuo, pois acreditava mais nos amigos, que na família. 

Foi condenado a 15 anos de prisão.  Tudo que pensava era, sairei quando for velho demais para qualquer coisa.   Nos dias que tinha passado em prisão antes do julgamento, tinha estado numa cela sozinho, agora iria para uma prisão estadual, um dos guardas inclusive fez uma brincadeira de mau gosto, dizendo bonito como era, filho de papai, acabaria sendo mulherzinha de algum traficante.

No último dia, apelou ao seu advogado, horrorizado com o que lhe podia acontecer.

Já falei com o diretor da prisão, guarde bem esse nome Fred Coste, é amigo meu, faça tudo como ele mandar. Verás que será o melhor para ti.

Sair algemado da prisão, sendo fotografado, filmado pelos jornais, cadeias de televisão, era o final de uma grande humilhação.

Quando chegou a prisão, depois de vestir o uniforme da mesma, foi levado a presença do diretor, Fred Coste.   Este lhe disse diretamente, vou atender o pedido do meu amigo, mas o resto é contigo.  Não se assuste com a pessoa com quem vais dividir cela, é uma excelente pessoa.

Primeiro pensou que ele estava de gozação, porque quando viu seu companheiro de cela se assustou, cabelos grandes, cheio de tatuagens, muito mais forte do que ele, uma cara de mau de filmes “B”.   Suas pernas chegaram a tremer, de imediato não quis entrar na cela.

Ficou encolhido num canto.  Quando o outro falou, foi para se apresentar Jesus Quintero, não se preocupe o diretor me falou de ti.

Nessa noite dormiu encostado na parede temendo o pior.   No dia seguinte ao saírem para o pátio, o outro lhe avisou, não saia do meu lado.  Num primeiro momento, o sol o ofuscou, quando viu o grupo que estava ali, aí realmente se assustou.  Era como ser um franguinho, no meio de um galinheiro cheio de galos.  Jesus lhe chamou para seu lado, não se assuste, colocou o braço sobre seu ombro, passeando com ele pelo recinto, como dizendo, este é meu.

Não sabia nem o que pensar, Jesus lhe orientou, o que devia escolher de trabalho, venha comigo a oficina, assim ganharas musculo, quando saímos ao pátio, faça exercícios como eu, precisas de músculos para se defender.  Depois te ensinarei alguns truques.   Atendendo o que tinha falado o diretor, concordou com tudo.  Na hora de comer, teve que aguentar as brincadeiras de mau gosto, todos diziam que agora Jesus tinha uma senhorita, para seus prazeres sexuais.

Num dado momento que se aproximou um tipo imenso, cheio de tatuagens, piercing com o macacão do uniforme enrolado até a cintura, com uma camiseta mostrando todos seus músculos, foi dizendo a Jesus, que queria fazer uma troca, estava cansado de sua senhorita, podiam fazer negócios.  Jesus colocou a sua mão imensa, cheia de calos, em cima da sua.   Nada disso, agora é meu, nem se atreva, não se esqueça quem sou eu.

O outros disse algum palavrão, se foi.  

Não conseguia nem engolir, Jesus sussurrou, respire fundo, coma tudo o que possa, pois vais necessitar.   Depois na oficina, viu que o mesmo sujeito do outro lado da mesma, com um grupo idêntico a ele, o olhava.

Jesus tinha seu grupo também, todos eram mexicanos, hondurenhos, cubanos, o respeitavam como seu chefe.    Venha, vou lhe ensinar a consertar uma moto. Se deu conta desde o início que ele nem sabia o que eram as ferramentas, foi lhe ensinando com paciência, disse algumas vezes te farei um gesto como carinho, aceite como uma coisa normal.

Com muita paciência, foi lhe ensinando tudo.  Como era inteligente, logo sabia o nome de cada coisa que ele lhe pedia, depois aprendeu o que era cada peça da moto, tempos depois passou para os carros.  Normalmente eram carros da polícia ou de algum guarda da prisão.   Em pouco tempo era um exímio mecânico.  Jesus lhe dizia, garoto parece que nasceste para isso.

Tinha contado a Jesus tudo o que lhe tinha acontecido, não posso aceitar que meus melhores amigos tenham feito isso comigo.   Seu advogado vinha visita-lo todos os meses, mas sem novidades, não se sabia nada dos outros.

Jesus, também lhe contou por que estava ali.  Tinha matado dois homens de seu grupo por terem lhe entregado a polícia.  Antes que essa conseguisse colocar a mão em cima dele, os matei com minhas próprias mãos.   Depois me arrependi, porque descobri que tínhamos alguém da polícia infiltrados no nosso grupo.  Tudo que tive tempo de fazer foi esconder um botim, num lugar secreto meu.  Dinheiro, minha querida moto, que amei mais que nenhuma mulher. O dia que sair daqui, me irei para o México, com tudo isso, darei uma boa vida a minha família.

Entre eles se criou uma grande camaradagem, Jesus estava sempre de olho lhe protegendo.  Contou que no dia que tinha entrado em prisão, abusaram dele quando tomava banho, que ele tivesse cuidado, por que algumas vezes, não iam ao mesmo tempo.  Um dia que Jesus, foi chamado pelo diretor, ele estava no banho com alguns que não conhecia, quando entrou o grupo do sujeito imenso. O seguraram enquanto o homem abusava dele.  Se ria dizendo que Jesus, devia ter um membro muito fino, porque o garoto era estreito.

Foi parar na enfermaria, Jesus quando foi vê-lo, lhe disse que não falasse nada, pois era pior.  Deixa comigo.  Vinha visita-lo todos os dias, pois se dava bem com todos os funcionários do presidio.  De noite tinha pesadelos com o que tinha acontecido.

Quando voltou a cela,  Jesus lhe disse, tudo tem seu tempo e sua hora, a vingança apresada, quente, não vale a pena, melhor a vingança de cabeça fria, bem planejada.

O homem agora, estava sempre falando o mesmo que o membro do Jesus era muito fino, que ele tinha sido obrigado a alargar o cu do garoto.

Um dia ficaram até mais tarde trabalhando na oficina.  Jesus com os seus, lhe disse, será amanhã, mostrou aonde estavam trabalhando os outros, tinham visto que o homem grande estava embaixo de um carro pesado, veja a poleia, esta gasta, basta um corte certo, se soltara em cima.  Se dirigiu a um dos homens lhe dizendo, tens aquele cortador.  Este tirou de seu esconderijo, uma barra de ferro transformada em uma faca potente.   Deixou a poleia meia cortada. Veras o que faremos amanhã. Quando o homem depois de fazer a mesma piada se colocou embaixo do carro, dizendo a um deles, que puxasse para cima, mais pois aparentemente o carro estava mais baixo.   Para isso o homem tinham que subir quase tudo, justo chegou na parte já cortada, está se rompeu, o carro caiu em cima do homem com todo seu peso.  Foi necessário trazer uma grua de outra oficina para retirarem.  Mas já era tarde, estava morto.

O dia que saíres daqui, faça o mesmo, planeje bem o que vai fazer, procure esses falsos amigos, faça sua vingança.

Tinha por Jesus, um respeito imenso, estava ao seu lado para tudo, agora nunca deixava que fosse tomar banho sozinho, pois sabiam que o outro grupo podia tentar se vingar.   Um dos seus homens um dia soltou, que não sabia como Jesus aguentava dormir com ele, com aquela bunda preciosa.  

Quando perguntou a Jesus, o que queria dizer?

Este lhe explicou, todos pensam que faço sexo contigo, que tens uma bunda de fazer inveja, todos gostariam de fazer sexo contigo.

Tu também?

Sim, mas me aguento, te respeito, acho que sexo tem que  ser consentido, recíproco.

Se sentia solitário, quando não estava na oficina, estava lendo, procurando em algum livro de advocacia, alguma coisa que pudesse lhe ajudar.

Era de noite, estava comentando com Jesus, se para ele não havia possibilidade?

Talvez, mas seria muito difícil, matei sabendo o que fazia, embora depois tenha entendido que foram enganados pela polícia.  Nessa noite escutou Jesus chorando.

Que passa Jesus, estou como tu, me sentindo sozinho.  Creio que nunca mais poderei ver minha família.   Estava sonhando que estava no México, que faziam uma festa em minha homenagem.  Se levantou, se deitou ao lado dele, se abraçaram, o calor de um a outro foi reconfortante.  Um aliviou o outro sexualmente.   A partir de então, quando se sentia só, deitava com Jesus.

Este um dia soltou que o amava verdadeiramente, tanto que um dia te contarei tudo que tenho escondido, pois se consegues sair antes de mim, poderás usufruir de tudo.

Tinha encontrado estudando uma maneira de resolver seu problema, ao mesmo tempo queria ajudar a Jesus.   Pediu para ver seu advogado.  

Este primeiro lhe deu uma má notícia, seu pai tinha falecido, no testamento tinha deixado tudo para obras de caridade, a única coisa que ele não pode tocar, foi a herança que tua mãe deixou para ti.  É muito dinheiro.  Inclusive a casa familiar, é tua.

Bom, venda a casa familiar, queria que cuidasses do processo de Jesus Quinteiro, meu companheiro de cela, tem cuidado de mim desde que estou aqui. A segunda coisa, lhe passou uma serie de cópias, veja, no meu processo, nada disso foi levado em conta,  Por exemplo, não estava presente quando aconteceu.  Sou culpado sim do que fazia antes, mas do momento que estava no hospital com minha esposa, não, pois não estava presente.   O dinheiro, roubaram eles, não eu.   Teriam que ter sido julgados a revelia, mesmo que a polícia não soubesse aonde se encontram.

Vejo que te dedicaste a estudar.  Vou tentar usar isso, para ver se consigo anular teu julgamento, ou pelo menos que tenhas menos anos de prisão.   Nessa noite comentou com Jesus, o que tinha pedido ao advogado.  Gostaria de sair daqui contigo, viajar nessa moto tua, já sonhei inclusive, como descreves tanto as paisagens, os dois fazendo a viagem juntos.

Venha ficar comigo, meu garoto.

Agora todos sabiam que entre os dois, havia algo, pelos gestos de um ou de outro. Mas respeitavam o seu chefe.   Nunca tinha subido numa moto, Jesus na oficina, lhe ensinou como era. Embora o espaço fosse reduzido, conseguia se equilibrar.

Agora eram só eles na oficina.

O advogado, veio outra vez, primeiro falou com Jesus, poderia usar para reabrir o caso, o fato de ter havido uma manobra da Polícia infiltrada, uma chantagem em cima dos dois assassinados, para traírem seu chefe.  Tinha descoberto que o mesmo agora era quem levava a banda.   Tinha passado para o outro lado. Isso seria uma argumento importante.  Pediria para reabrir o processo.

Quanto ao seu, lhe disse que já estava nas mãos dos juízes.

Quando muito teria que acabar os cinco anos de prisão.  Quando ele reclamou, mas já estou aqui a quase seis.

Dias depois, tentaram matar Jesus, claro ordens do policial, que agora era chefe do bando.   Passou dias e dias com ele na enfermaria, segurando sua mão.  Ele aproveitou para lhe detalhar como devia ir até seu esconderijo, buscar a chave, aonde estava a moto.  O local é meu, poderás usar tudo que está lá, dinheiro, aonde estava escondido.  

Não Jesus, faremos isso juntos, segurava sua mão. 

Jesus pediu para falar com o diretor da prisão, queria pedir um favor, pois tinha feitos muitos a esse.  Que se ele morresse, fosse incinerado, as cinzas entregues ao Greg, que saberia o que fazer.

Pediu a ele, que caso isso acontecesse, levasse suas cinzas até sua vila no México, a entregasse ao Xamã, ele saberia o que fazer.

Dois dias depois piorou, Greg inclusive, conseguiu passar a noite ali com ele. 

Jesus pediu que ele deitasse ao seu lado, para sentir pela última vez o calor de seu corpo.  Ao ouvido lhe disse que tinha chegado a lhe amar.  Seja feliz, que tua vingança seja fria.  Não se esqueça de nada que te disse, ame minha moto como se fosse comigo.

Morreu nessa noite.  Greg, não conseguiu chorar, ao mesmo tempo, analisou sua perda, que tinha sido pior que perder tudo o que tinha antes.  Esse tinha sido um verdadeiro amigo até o final.  Se saísse, cumpriria o que tinha prometido.

Ficou sozinho na cela, um tempo, justo no dia que lhe iam dar um novo companheiro, saiu o resultado de sua revisão.  Estava livre.

Na hora de sair, lhe devolveram suas roupas, mas ficavam pequenas. Estava mais musculoso.   Espera, temos a de Jesus aqui, vestiu as mesmas, conseguia sentir seu cheiro.  Lhe entregaram a urna com suas cinzas.

Seu mesmo, tudo que recolheu, foi uma carteira, um chaveiro, que nem sabia hoje em dia para o que servia. 

Ao sair, fazia um calor tremendo, um sol de rachar, parou do lado de fora, olhou para a direita, para a esquerda, mas quando olhou para o outro lado da rua, lá estava seu advogado.   Ao seu lado, havia um outro homem.

Este disse que era um irmão de Jesus.  Queria as cinzas.

Sinto muito, mas prometi eu mesmo levar aos pais dele.

Mas estão mortos.

Então devo entregar a outra pessoa que ele pediu.  

O homem não gostou, mas como do lado de fora apareceram policiais da prisão, se mandou.

Este homem apareceu do nada aqui, creio que na verdade é da banda que o Jesus pertencia. 

Não se preocupe.  Preciso de um hotel barato para ficar, aonde passe desapercebido.

Bom, quando queiras, deves tomar posse da herança de tua mãe.

Ele já tinha resolvido, entrar na clandestinidade.   No momento tenho que atender o que Jesus me pediu.

Inicialmente ficou perturbado com a cidade, mas olhando pelo retrovisor, viu que estavam sendo seguidos.   Quando o advogado o deixou num hotel, no meio da cidade velha, tudo que disse foi, já te procuro.

Entrou pela porta da frente, saiu pela porta dos fundos.    Desapareceu, era um a mais na cidade.   Levou um tempo para entender aonde estava o esconderijo de Jesus.

Já nos subúrbios da cidade, procurou uma livraria, comprou um mapa, procurou a rua de referência.  Tomou um ônibus, indicado pela garota da livraria, desceu antes, para saber se não estava sendo seguido.   Seguiu todas a indicações.  Era um lugar com vários armazéns bem degradados, mas que ainda funcionavam, como oficina de carros, de motos, bicicletas, se lembrou do detalhe do cartaz da mulher sorrindo, oferecendo um chiclete.  Já velho, descolorido, passou por diante, de soslaio, olhou o beco.  Estava cheio de caixas, lixo, montes de coisas.

Passou como se nada, andou até dois quarteirões mais adiante, viu que no meio do primeiro existia um hotel de quinta categoria, os chamados de “mala muerte” pelos chicanos.   Se hospedou, pediu um quarto na frente, pois viu que não tinha um beco detrás.    O quarto era pior que sua cela, mas tinha banheiro.  Tomou um banho, se jogou na cama, contou o dinheiro que o advogado lhe tinha entregado.

Pela primeira vez pensou em seu pai.   Nunca o tinha ido visitar na prisão, antes do julgamento, tampouco depois.  Não lhe dirigiu um olhar a não ser quando saiu o veredicto, um olhar de asco, vergonha.   Na verdade, seu pai nunca tinha acreditado nele.  Não era um pai amoroso, sempre tinha sido cuidado por empregados.  Seus amigos tinham se transformado em sua família, embora ele fosse o único com pai rico.

A primeira e última vez que os convidou para ir a sua casa, foi um vexame, ficaram boquiabertos com tudo.   Seu pai estava na biblioteca, imediatamente saiu, os colocou para fora de casa, dizendo que ele não devia se misturar com esse tipo de gente.

Demorou para entender isso. Mas adorava estar na casa de seus amigos, quando era convidado para comer, pois eram família.  Seu pai pagava sua universidade, eles ao contrário, tiveram que conseguir bolsas, como esportistas.   Ele ajudava seus amigos a estudarem, a entenderem as classes.  Todos três o chamavam de sabichão.

Mas nunca tinha esperado essa vingança, por ter dinheiro. Por ser rico, era a conclusão que tinha chegado.  Tinham feito isso como vingança.  Mas não entendia por que, se ele compartia tudo com eles.

Quando chegou à noite, amarou um lenço que estava atrás do bolso da calça, que era negro também, escondendo seus cabelos loiros.

Foi caminhando lentamente, passou da rua, já não se via movimento algum por ali, levava uma lanterna que tinha comprado na livraria.   Na terceira vez, depois de prestar atenção se não havia nenhum controle de vídeo por ali. Entrou no beco, o cheiro era insuportável, muito lixo.    Mas chegou à porta que Jesus tinha comentado.

Procurou o ladrilho solto que ele tinha falado, o retirou, encontrou as chaves da porta. Uma era de um cadeado, a outra para abrir.   Esperava que a porta rangesse, mas nada, tinha depois verificou, uma camada imensa de graxa, que não deixava que fizesse ruído.  A graxa, o fez recordar, que quando o homem grande abusou dele, tinha usado isso para penetra-lo.   Menos mal que morreu, senão teria que mata-lo.

Se lembrou do seu amigo Jesus, chorado, segurando sua mão na enfermaria, lhe pedindo perdão por tê-lo deixado desprotegido.

Entrou, fechou a porta atrás de si, acendeu a lanterna, viu um movimento, mas era um rato que passava correndo, pois na verdade ele tinha invadido seu espaço.  Tudo era como o Jesus tinha detalhado.   A moto estava coberta por uma lona, a retirou, alisando seu assento de couro. Imaginando seu amigo ali.  Tinha sonhado, em ir agarrado a ele, pelas estradas, como ele descrevia a paisagem.  Já iremos amigo, já iremos.

Com muita cautela, verificou tudo como ele tinha tido, havia muito dinheiro numa bolsa negra de couro. Uma parede, com todas as ferramentas, como a que usavam no presidio. Bancadas para arrumar motores, enfim, era como estar vendo realmente o que ele descrevia.

Finalmente chorou a perda do amigo.   Na parte detrás, um pequeno quarto, com uma cama, estava cheirando mal, mas também tanto tempo fechado.  Notou que em cima desta havia uma janela, abriu para que o ar da noite limpasse o ambiente.  Um pequeno banheiro sem paredes, com um chuveiro.  Abriu, a água primeiro saiu como ferrugem.    Se lembrou como ele tinha dito para fazer, para ter luz.  Usava um gato, para ligar a eletricidade na oficina que estava junto.    Fez isso, logo podia ver a vontade tudo.  Teve vontade de dançar no meio do espaço.   Agora era seu lugar.

Dormiu ali, sentindo o cheiro dele junto ao seu corpo.   Sonhou que conversavam, este avisava que tivesse cuidado, que podia confiar no homem que tinha a oficina de motos.

Se lembrou que tinha lhe dito, para procurar um homem, chamado Carlos Zapata, pergunte por ele na oficina de motos.  Diga que vens em meu nome, mas não lhe diga se estou vivo ou morto.   Ele poderá descobrir teus carrascos.

Primeiro conseguiu que uns garotos limpassem o beco junto com ele.   Isso atraiu atenção do pessoal das oficinas.   Disse ao das motos, que tinha alugado o lugar de Jesus Quintero.   Que tinha aprendido com ele a tratar as motos.

O homem disse que teria que provar.  Lhe deixou uma moto velha que estava por ali, desmontou o motor da mesma, limpou, lubrificou, verificou o que necessitava de mudança, lhe indicaram aonde estavam as peças de reposição, remontou a moto, lavou a mesma com cuidado.  Jesus, sempre lhe dizia, tens que amar tua moto, como se fosse parte do teu corpo.

Colocou gasolina no motor, funcionava como uma nova.

Realmente Jesus te ensinou bem.   Porque tens cara de moço de boa família, queria saber como tinha acabado na prisão.  Deu uma desculpa, dizendo que o queria agora era refazer sua vida.   Lhe deu outro nome, usando o sobrenome de sua mãe.

Ficou trabalhando ali, mas dormia no local de Jesus.  Revisou sua moto inteira, estava perfeita.  Encontrou um capacete, jaqueta de couro, se vestiu, agora saia todas as noites para dar uma volta.  Ia o mais longe possível, para falar com seu advogado usando um telefone desses de posto de gasolina.   Nunca chamava do mesmo.  Ficou sabendo que sua mulher tinha se casado de novo, mas vivia no estrangeiro.

Grande amor sentia por mim, não só tinha deposto contra ele, como pedido divórcio, antes mesmo do julgamento.

Finalmente um dia por um acaso, escutou o chefe da oficina, saudando um homem forte com uma cara cortada a faca.  Carlos Zapata.  Se aproximou dele, disse que tinha um recado para ele de Jesus Quintero.   O homem olhou para ele desconfiado.

Depois de falar com o chefe, o convidou para tomar um café.   Tomaram uma coca cola de máquina, um quarteirão mais abaixo.  O homem sempre olhava para todos os lados, encostado na parede, como para se proteger.

Eu escutei falar que Jesus Quintero morreu na prisão?

Bom, só posso te dizer, que me disse que podia confiar em ti para um trabalho. Disse que procurava três filhos da puta, que tinham lhe arruinado a vida.

Bom posso procurar para ti, mas vai custar dinheiro.

Não se preocupe, posso te pagar.

Amanhã, compre dois celulares de pré pago, para poder comunicarmos, nos encontramos, disse um bar num outro bairro.  Me trazes todas as informações, disse seu preço.  Te darei esse valor, por cabeça.  Essas pessoas escaparam com ajuda de alguém que conseguiu documentos novos para eles, pois a polícia não os encontrou.

Ou então teriam alguém da polícia ajudando?

Isso eu não sei, mas moveram muito dinheiro.

Disse na oficina que não poderia trabalhar no dia seguinte.  Logo cedo montou na moto, foi até um telefone, avisou seu advogado, pediu que retirasse dinheiro de sua conta, a primeira parte do pagamento. 

 Esse quis saber do que se tratava?

Melhor não saberes de nada.  Assim não tem envolvimento com a história.

Me chame dentro de duas horas, já terei o dinheiro, assim combinariam aonde entregar.

Não lhe disse nada, mas estava do outro lado da rua de seu escritório.   Ficou observando, quando este saiu em direção ao Banco, para ver se estava sendo seguido.

Não viu nada diferente, mas mesmo assim, acompanhou a volta desde o outro lado da calçada.  Nada.

Lhe chamou outra vez, disse que fosse até o café da esquina, que ele já tinha visto que tinha uma saída para um beco. Estacionou a moto, numa posição de retirada, junto com a de alguns empregados.  Entrou pela entrada de serviço, ficou sentado de tal maneira perto dessa porta, que qualquer coisa poderia sair.   Não que não confiasse no advogado, mas nunca se sabia que poderia acontecer.

Quando este chegou, sentou-se sem malicia nenhuma.  Lhe passou o envelope, contou que continuava procurando os outros três.   Mas alguém da própria polícia deve estar envolvida, porque nunca tenho resposta.

Não se preocupe, já os encontraremos,  deixe de procurar, vou usar outros canais.

O último comentário do outro foi, que ele estava completamente diferente, com esses cabelos compridos, barba por fazer, quase não te reconheci desde a porta.

Se despediu de novo, melhor saíres antes de mim, peça um café para levar, assim se te estiverem vigiando não acontece nada.

Saiu rapidamente pela outra porta, montou sua moto, deu umas quantas voltas para ver se não estava sendo seguido, não era paranoia, mas sim cuidado.

Comprou os dois celulares, na mesma papelaria, já tinha uma certa cordialidade com a garota que o atendia. Ela mesma carregou uma quantidade de dinheiro nos dois, para que funcionassem.   Era um modelo novo, diferente do que ele tinha anteriormente, lhe ensinou rapidamente como usar.

Quando se encontrou com Carlos Zapata, comentou, uau, um bom celular. Mas tudo bem, pelo menos posso te mandar fotos, para reconheceres as pessoas.

Passou as fotos para eles, atrás de cada uma o nome da pessoa.

Avisou que estaria fora um tempo, mas assim que voltasse, o encontraria.  

Sim porque não vou encontrar esses filhos da puta, como num passe de mágica. De qualquer maneira, me chame antes de viajar. Quem sabe já tenho alguma notícia, do porquê não encontraram nada.

Estudou num mapa que estava na parede da oficina de Jesus, o roteiro até sua vila, mas se deu conta que precisavam de uma nova identidade.  Chamou Carlos Zapata, este disse que sem problemas, que trouxesse uma foto recente, o novo nome.

Voltou a se encontrar com ele.   Foram até um chinês, este lhe preparou um bilhete de identidade com o nome de Greg Lucanis. Bem como um passaporte.  Não comentou com nenhum dos dois aonde ia.

Carlos disse, que um contato seu da polícia, tinha confirmado, que realmente a partir de determinado escalão, o processo de busca parava.  Já sei quem é o sujeito, vou examinar seus podres.

Dois dias depois de colocar urna de Jesus, num dos lados da bolsa, uma muda de roupa, se vestiu como devia, todo de negro, com o lenço dele no pescoço, botas, enfim tudo que tinha encontrado ali.  Levava dinheiro escondido dentro da urna.

Tinha gravado o mapa na sua memória.  Depois que atravessou a fronteira, de uma certa maneira foi mais difícil, em alguns lugares, tinha que se guiar, pelo que Jesus tinha comentado com ele.   Mas ao cabo de quatro dias chegou à vila, tinha dormido duas noites, embaixo das estrelas, no deserto.   Era tudo como Jesus falava nas noites que estavam juntos.   

Realmente seus pais tinham morrido já a algum tempo, mas procurou pelo xamã, era a ele que tinha que entregar a urna.   Antes retirou o dinheiro escondido.

Um garoto o levou até o final da vila, lhe indicou um monte, cercado de  cactos, ele vive lá em cima.  Lhe deu dinheiro, o que abriu um sorriso imenso na cara do garoto.

Subiu até lá.  No meio do cercado de cactos, havia uma choça, mas estava tudo limpo.

Um homem com uns cabelos largos, com uma roupa que de branca não tinha nada, lhe disse para entrar, pois o estava esperando.   Eres Greg, o amigo de Jesus.

Ele veio contigo não é. Lhe entregou a urna.

O homem se abraçou a ela cantando numa língua que ele não entendia.  Depois disse para que o seguisse.  Entraram na choça, ali não tinha muita coisa, mas encostada numa parede, uma tampa de um buraco no chão.   Venha comigo.   Desceu com o homem.  Foram dar numa gruta.  O cheiro era de ervas aromáticas. Não se preocupe, aqui ninguém vai nos encontrar.  Escavei eu mesmo tudo isso.

Tinha duas camas feitas de restos de madeira.  Uma mesa com duas cadeiras, um fogão velho de lenha. Acendeu o mesmo, vou fazer café.

Sentaram-se os dois na mesa, o homem pegou suas mãos, para ficarem viradas para cima.  Colocou as suas em cima.  Fechou os olhos, foi falando tudo que tinha acontecido com ele.  Falou de Jesus, ele era meu irmão, não de família, mas éramos amigos desde criança.  Eu era o louco da vila, mas me protegia, entendia que eu pertencia aos espíritos.  Sempre que vinha, me levava para dar uma volta de moto.

Vejo o que procuras, um está na própria cidade, nunca saiu dali, mas os outros estão em Oregon.  Disse com dificuldade o nome, numa cidade perto do mar.  Puerto novo.

Ele traduziu para New Port.  

Isso, repetiu várias vezes, como querendo confirmar o lugar.

Tomaram café, esta noite terás uma experiencia diferente, foi o que salvou Jesus, da primeira vez.

Mas antes vamos subir tua moto até aqui, para estar protegida.  Voltaram para fora da choça outra vez, subiram a moto.   Quando a noite fechou, lhe disse é melhor que não comas nada.    Lhe preparou uma bebida, misturada com higo chumbo, a fruta dos cactos. Aparentemente era adocicada, mas depois era acida. Em seguida estava dormindo.  Sonhou com tudo, inclusive com o que tinha lhe passado no banheiro.  Jesus, lhe dizia, não se preocupe, estarei contigo nessa aventura.  Meu amigo vai te preparar para tua vingança.

Serás um homem pantera, nunca poderão te encontrar.

Despertou de manhã, com um sabor forte na boca, o homem lhe deu café, para espantar esse sabor.   Disse para colocar a moto para dentro da choça, que iriam partir.   Caminharam todo o dia.  O que estranhou, que a cada tempo, se unia um homem a fila seguindo o xamã.   Nenhum dizia nada, não se cumprimentavam, nada.

Paravam de vez em quando, para abrir um cactos, tomar o líquido que saia de dentro.

De noite chegaram a uma ravina.   Encontraram com um outro Xamã. Este vestia tão somente um taparabos, uma pele de animal negro.   Por detrás da uma pedra, saiam num lugar aberto.  O amigo de Jesus, lhe disse, agora, aprenda com eles tudo o que possa, venho te buscar, dentro de dez dias.  Não perguntes, não fales, apenas aprenda.  Era o único ali, que não era mexicano, tinha a pele queimada do sol, mas nem por isso reclamou, entendeu a mensagem.  Jesus em seu sonho tinha falado o mesmo, não perguntes, não fales, apenas aprenda.

Ali, só havia homens, quando a noite fechou, começou o aprendizado, os novos ficavam prestando atenção.  Os antigos, bebiam algo que lhes oferecia o Xamã, entravam em transe.  Era como se estivessem invisíveis.  Chegavam a sentir cheiro de animal no ar.  Os homens desapareciam, mais tarde voltavam com presa na boca.  Um coelho, cascavéis, outros animais.

O xamã falou umas palavras, todos voltaram ao normal.  Assaram o que tinham caçado.  Aos mais novos,  o xamã, explicou que a bebida, fazia com que os instintos animais predominassem, que não deviam tentar controlar, deixem se levar pelos instintos, isto será vossa sobrevivência.

Quando o dia começava a amanhecer, disse que todos deviam procurar um lugar protegido e dormir.   Quase pegado a ele, se colocou um rapaz, que se parecia a Jesus, mas como ele imaginava de jovem.

Dormiu profundamente, relaxado, sentia-se protegido.  Pela primeira vez, não despertou a qualquer ruído.  Quando se levantou, porque tinha vontade de mijar, viu que os outros faziam o mesmo.

No meio da ravina, um regato lhes foi indicado aos iniciantes, que primeiro deviam se banhar ali. Que entrassem na água, se sentissem como um peixe.  Cada um deve capturar um com a mão.   Aparentemente não viu nenhum peixe, entendeu então que devia mergulhar. Quanto mais fundo ia, via cardumes de peixes brilhantes. Se concentrou em conseguir um.  Conseguiu pegar o mesmo pela cauda. Quando ia subindo para respirar, viu que seu companheiro, o que tinha dormido próximo a ele se afogava, sem largar o peixe, o socorreu.  Quando chegou fora, respirou, colocou o peixe em terra, subiu o corpo do outro, lhe fez respiração boca a boca, até que respirasse.

O xamã estava em pé, todos que tentaram ir ajudar, ele fez um sinal que não.  O rapaz, finalmente cuspiu água. Respirou, olhando assustado ao Greg.  Me salvaste a vida, não falou, mas pensou. Greg de alguma maneira entendeu.

O Xamã lhe deu ordem de respirar profundamente, abaixar para buscar seu peixe.

O jovem obedeceu sem reclamar.  Logo subiu com um agarrado aos dentes.

Sentaram-se todos a volta de uma fogueira, assaram o peixe como estava, só depois o limparam.  O Xamã passou bebida a todos, disse que os iniciados, deveriam acompanhar, cada um irmão maior.  Estes escolheriam seus acompanhantes.  Dois escolheram Greg.  Mas o de mais idade venceu.  Tudo isso era sem dizer uma palavra. Saíram pela noite, nus completamente, numa determinada altura, o homem lhe fez sinal para esfregar terra no corpo. Ele obedeceu.  Mostrou que tanto no sexo, como no cu, deveriam passar mais, para não atrair outros animais. Colocou a mão sobre sua cabeça.  Sentiu que se transformava num animal, quando olhou para o lado, viu que o homem como ele, era uma pantera negra.   Correram pelo deserto, caçando, viu um coelho, mas o outro foi mais rápido.  Em sua cabeça dizia, deixa teu instinto funcionar.

Logo conseguiu pegar com a boca, uma serpente, a mordeu na base de sua cabeça, apertou. Voltaram para o lugar de partida. Logo estava de pé outra vez, com a serpente na boca.   O Xamã, disse, muito bem, conseguiste a presa mais difícil.  Nenhum outro tinha conseguido, a não ser coelhos.

Depois de comerem, se lavaram outra vez, foram dormir.  Sonhou que corria como um galgo, todos seus movimentos eram livres. Sempre tinha apreciado esse tipo de cachorro, por saberem caçar, pelo seu porte, elegância.

Teria que aprender a não lutar contra seus instintos.   Logo de manhã, comeram umas tortas de milho, feita na fogueira.  De novo mergulharam para buscar peixes.  Seu companheiro nadava quase ao seu lado. Lhe ensinou como pegar com a boca. Assim fez, nem prestou atenção no tamanho.  Quando subiu o Xamã tirou o peixe da boca, lhe dizendo, este é o pai de todos, não devemos come-lo.   O atirou na água outra vez, indicando que devia mergulhar, pegar outro.

Depois lhe disse que devia ter atenção no que ia caçar.     

Nesse dia, saíram durante o dia para recolher folhas para preparar veneno de curare, de novo lhe tocou, o que descobriu depois que era a mão direita do Xamã, lhe tinham em alto conceito.  Distribuiu entre todos um troço de trapo, com o qual deviam tapar o nariz, a boca.  Procurem respirar lentamente.   Foi ensinando como devia recolher a folha, quais era boas.  Depois passaram para outra espécie, mais ao nível do chão, por fim uma de folhas muito pequenas.  Voltaram para a ravina.   A cada um lhe foi ensinado como devia preparar a mistura, agora colocando realmente como uma mascara para se protegerem.  Explicou que a evaporação da substância triturada, podia matar.   Isso usado numa zarabatana, ao tocar ou penetrar o corpo humano, provoca uma paralização quase imediata do corpo.   Mas se queremos matar, teremos que acrescentar mais estas folhas, que eram as pequenas.  Em uso em pequena quantidade, pode provocar um paro cardíaco, ou mesmo a morte.  A pessoa se tiver problemas do coração nunca vai se recuperar.  Terá uma série de efeitos colaterais.

Era interessante ver esse homem falando, como se fosse um médico.

Bom hoje usaremos o paralisante. Ao contrário dos nossos antepassados, não usamos uma canaleta grande para disparar os setas.  Por isso é necessário ter cuidado, para que não toquem a borda do tubo.  Também podemos colocar as pequenas setas pela parte dianteira.  Mas de novo cuidado, para não confundir.   Lhes foi dado um tubo, cada um teria que aprender a soprar para que a seta tivesse velocidade.  Explicou que o truque estava em uma respiração profunda, concentração no objetivo. 

Quase em seguida Greg entendeu como funcionava.  Se lembrou dos exercícios de respiração que Jesus fazia quando saiam ao pátio, tinha lhe ensinado.  Se concentrou viu o lugar aonde devia enviar a seta, da segunda vez conseguiu a perfeição.

Ninguém aplaudiu ou elogiou.  Cada um estava praticando para ser perfeito.  Este tubo é seu.  Um pequeno tubo de metal, marque a parte aonde deve colocar a boca, para que saibas, a colocação da seta.  Vamos usar os paralisantes, não se preocupem, vamos de caça, podem tomar perfeitamente o líquido, para se transformarem, mas hoje em pequena dose, para não cometer erros.

Foi um sucesso a expedição, agora inclusive conseguia farejar o animal a ser caçado. Lançar o dardo a um animal parado era uma coisa, em movimento, tinha que ter instinto.   Aprendeu a lição.

O tempo passou rapidamente, tinha conseguido fabricar os dois tipos de curare, o só para paralisar e outro para provocar uma parada cardíaca ou mesmo matar.   Não tinha ideia de como funcionária sua vingança.

O homem voltou para busca-lo, depois de uma conversa com o homem da ravina que sequer sabia o nome, tampouco sabia o nome de seus colegas.

Voltaram todos pelo mesmo caminho, cada um sem se despedir, quando chegava ao ponto que tinha se incorporado, agora se separava do grupo, seguindo seu caminho.

O que fora seu orientador, foi o único que lhe dirigiu palavra.  Se necessitas de todos, basta mandar um sinal através de nosso mentor, somos como um exército, podemos agir juntos.

Voltaram a choça, quando viu sua moto, quase a abraçou.  Tinha pensado muito em Jesus.  

O mentor disse que saíste melhor que Jesus em tudo.

Tinha que partir, mas antes o Xamã, conversou demoradamente com ele.  Sei que pensas como Jesus, que a vingança é para ser em frio.  Mas lembre-se cada vida que tira, é um peso para ti.

Quando voltou a San Francisco, fez contato com Carlos Zapata, este disse que tinha notícias.  Marcaram um encontro.

Os da oficinas de motos, disseram que ele estava diferente, mais concentrado.

No encontro Carlos Zapata, lhe deu a primeira direção.  Este nunca saiu de San Francisco, mudou de nome, de casas várias vezes, mas continua aqui.

Vive sozinho, numa casa em posição estratégica, pois em ambos lados da rua, tem vídeo vigilância.  Creio mesmo que ele tem dentro de casa um sistema ligado a esses dois sistemas.

Teria que entrar na casa, para ver se ele tem contato com os outros dois. 

Deu-lhe a informação, os outros estão em New Port.

Como sabes disso?

Um passarinho me contou.

Bom, começarei a agir, partirei para lá, vou encontra-los.

Eu vou verificar por aqui.

Encontrou umas roupas velhas, num dos sacos de lixo que sempre alguém fazia questão de deixar na frente do beco.  Os cabelos estavam compridos, não os lavou mais, tampouco tomou banhos, tinha que ter um cheiro insuportável.

Todos os dias se colocava na esquina, observando os movimentos de John Dawye, suas entradas, saídas, despreocupado da vida, a única coisa que olhava era para os dois aparelhos de vídeo vigilância.  Demorou para entender por quê.  Chegou a conclusão que fazia isso, para marcar o vídeo. Realmente devia  der alguma ligação na casa.

Não podia segui-lo, embora, não fosse muito longe.  Um dia contou até dez, atravessou a rua o seguindo pelo outro lado.  Tudo que fazia era ir até um telefone de rua, fazer uma ligação, alguma compras.  Não falava com ninguém.  Era uma vida idiota, creio que sempre esperando algo.

Finalmente decidiu o dia, ia lhe provocar um enfarte.  Preparou duas setas de curare, uma iria imobiliza-lo, outra lhe provocaria um enfarte.

Nesse dia levou o pequeno tubo, o viu passar primeiro ao seu lado, fazendo uma cara de nojo.  Ainda o escutou pronunciar, “que asco”.

Quando voltou, passou o mais longe possível na calçada.  Ele tirou o tubo, tinha em cada bolso uma seta diferente. Primeiro tirou lentamente como se fosse um pedaço de papel para limpar o nariz. Estava o tubo no meio, num movimento relâmpago, colocou a seta, disparou, ele começava a subir os degraus da casa. Parou, como se algo o tivesse picado, ficou um segundo parado, quando recebeu a segunda seta. Quando caiu para frente, houve um alvoroço, algumas pessoas que passavam na rua, principalmente duas mulheres foram lhe acudir, como se fosse ajudar, retirou rapidamente as setas, as mulheres nem lhe perceberam, estava usando a técnica aprendida.  Roubou o chaveiro e o celular. Voltou para seu lugar, quando chegou a ambulância.  Escutou o que diziam os enfermeiros. Enfarte do miocárdio. Logo escureceu. Levantou-se como sempre fazia, catava suas poucas moedas, as contava, murmurava alguma cosa, atravessava a rua.  Em seguida desapareceu no beco.

Foi até os fundos da casa, com agilidade saltou o muro.  Olhou dentro do quarto de despejo, se assombrou, duas motos, uma antiga, outra moderna.  Que coisa estranha, será que ele saia pelos fundos. Abriu a porta, viu que tinha uma saída sim por ali.

Ou sejam faz uma encenação todos os dias, mas depois escapa.

Entrou na casa pelos fundos, abriu tranquilamente a porta, foi fechando todas as persianas. Para poder andar pela casa com a lanterna.  Tudo estava em seu perfeito lugar.  Como se fosse uma exposição.   Ele na verdade não vive aqui.  Mas de qualquer maneira registrou cada canto da casa. No quarto, foi a surpresa, um armário cheio de roupas novas, algumas inclusive sem usar. Olhou no fundo, viu uma placa. Sinal que existia um cofre ali. Passou a mão pelo chão do armário, até descobrir, uma parte que saia.  Retirou do fundo uma mochila com muito dinheiro.  Abriu o cofre, para sua surpresa, era o pequeno que tinha em sua casa.  Como isso estava com ele.

Abriu o mesmo com a chave.   Além de documentos, mais dinheiro, número de contas de banco, pelo visto manejados a distância.  Junto cartões desses de usar pela aceder as contas pela internet.  Foi colocando tudo dentro da mochila.  Encontrou uma livreta de direções, não lhe dava tempo para olhar a fundo agora.  Jogou dentro da mochila.

Ao não ver nenhum computador, ou sistema de controle dos vídeos, imaginou que deveriam estar embaixo da casa. Como havia uma escada para entrar, o logico era que a casa tivesse uma parte embaixo. Veio pelo corredor, passando as mãos com luvas, pela parede, até encontrar um painel que se movia. O arrastou para o lado, imediatamente acendeu uma luz em uma escada.   Desceu com cuidado.

Ali estava dois computadores, acessos, focando a rua.  O dono da loja em frente conversando com alguém, apontando a casa.  Do outro lado, focalizando também a rua em sua longitude.   Porque não tinha nada sobre o beco.  Será que imaginava que ninguém entraria por ali.  Viu um portátil meio fechado, localizou aonde estava o do beco.   Mostrava a saída dele, sempre pelo lado contrário.  Retrasou, conseguiu se ver entrando no quarto de despejo.  Borrou tudo, apagou essa câmara.  Senão seria registrado quando saísse.  Examinou tudo. Embaixo de uma manta, encontrou outro portátil, aberto, com todos os movimentos de banco. Desligou o mesmo, subiu colocou dentro da mochila. Mas antes voltou, borrou, a parte em que ele se movia até junto a vítima, não se percebia o que ele fazia, retirando as setas, o chaveiro, os movimentos eram muito rápidos para isso, mas de qualquer maneira borrou.

Subiu, fechou a porta. Levou a mochila para a cozinha. Pensou duas vezes, para assustar, voltou ao armário, dobrou um traje completo, camisa social e gravata, uma calça jeans, camiseta, uns caros sapatos italianos.  Tinha sabiam quem ele era.

Saiu, foi até o quarto de despejo, anotou a quilometragem da moto nova, da antiga também.  Lastima que talvez ele nunca mais pudesse andar de moto.  Riu para seu interior. Colocou tudo nas duas bolsas traseiras da moto velha, tirou sua roupa, vestiu o jeans novo, a camiseta, colocou uma jaqueta de couro que estava pendurada junto a porta, um capacete que devia usar. Abriu a porta com a chave, levou a moto para fora, fechou novamente a porta, sem se preocupar, montou na moto, partiu.  Agora sabia que era o que ele fazia.  Os vizinhos podiam estranhar, mas sabiam que ele fazia isso todos os dias.

Levou a moto para a oficina, a desmontou toda, procurando qualquer coisa que pudesse vigiar a direção da mesma.   Desmontou um gps, incorporado recentemente, olhou qual o caminho usado cotidianamente.   Notou que dava voltas, mas acabava sempre no mesmo lugar.  Marcou no mapa, sinalizava uma casa na praia.  Resolveu ir até lá.

Mas foi usando a sua moto.   Chegou, era uma casa moderna, toda de vidro, o que viu o deixou de boca aberta.  Sua ex-mulher, com uma criança nos braços.  Então era com ele que ela tinha casado.  Quem sabe o primeiro filho também era dele.

Ficou um longo tempo observando, vendo como ela se colocava nervosa, marcava um número no celular.   Menos mal que ele tinha abaixado o volume do celular dele.  Ali estava seu segredo melhor guardado.

Esperou dois dias, inteiro, ali no mesmo lugar de todos os dias. Não podia chamar o hospital, mas escutou uma vizinha falando com o da loja da esquina, que tinha estado no hospital.  Que ele não conseguia falar, tinha lhe paralisado o cérebro. Que iam traze-lo para casa com uma pessoa para cuidar.   Fez uma coisa, trouxe com ele no ônibus um dos garotos que viviam perto do beco, que tinha ficado seu amigo. Lhe disse o que tinha que fazer, como se fosse entregar alguma coisa, abrir o portão, bater na porta, soltar o chaveiro, na hora de sair jogar o celular no jardim. Tinha limpado tudo a consciência.  O garoto usaria uma luvas cirúrgicas transparentes, tampouco chamaria atenção.   Lhe deu um bom dinheiro.

Observou o dia que lhe traziam de ambulância, em cadeira de rodas, como o abaixavam, os vizinhos se aproximavam, uma delas via a chave no chão.  Dizia ao enfermeiro, olha a chave da casa aqui. Deve ter caído, quando se esparramou no chão.   Na verdade, só descobririam o veneno, se tivessem feito uma autopsia, como estava vivo, somente pensavam num enfarte.

Tinha clonado o celular.   Ligou para a outra casa, cobriu o bocal, escutou a voz desesperada de sua ex-mulher.   Lhe disse, seu marido está no endereço tal, procure como descer na parte debaixo da casa.  Verás quem é seu verdadeiro marido, quem é o culpado do roubo.  Ela queria saber quem estava falando.   Mas desligou o celular, voltou caminhando até seu ponto.   Esperou para ver chegar desesperada, com a criança no colo. Entrar na casa, soltar um grito.   Pelo visto ele só tinha movimento no braço direito,  porque quase em seguida chegava a polícia.   Ele tinha avisado aonde estava a pessoa tanto procurada.    Saiu em cadeiras de rodas, direto para o carro de polícia. Ela gritando desesperada.

Se levantou, passou ao seu lado, dizendo num sussurro, quem faz coisas erradas, paga.  Desapareceu em seguida.   Sabia que ela não iria direto para casa, sim para a delegacia.  Foi até lá, colocou um sistema que gravava todo que se falasse dentro da casa, bem como os celulares.

A primeira parte estava feita.  Falou com Carlos Zapata, que já tinha localizado um em New Port.   Disse que era um viciado em jogo, que devia muito dinheiro.  Vivia solitário numa casa de praia.  Disse ao Carlos que colocasse um sistema de escuta na casa, para saber se recebia alguma mensagem.

Primeiro antes de partir, escutou no próprio computador que tinha roubado, Amanda chegando em casa, falando com o pai por telefone.   Acabo de descobrir, que Greg já não está na prisão, dizia que John tinha tido um enfarte, não podia falar, a não ser usar sua mão direita, que estava preso, alguém o tinha descoberto, ao mesmo tempo denunciado.   Achava que era o Greg.

Seu pai tentava acalma-la dizendo que não existia nenhum movimento com relação ao Greg, que tinha o escritório do advogado bem vigiado, que não tinha aparecido por lá.

Devo avisar aos outros?

Não se meta nesta história, eu te avisei que tudo isso ia acabar mal, lembre-se que tem um filho.

Tenho que fazer alguma coisa.  Tentei usar um cartão de crédito, temos as contas todas bloqueadas.  Nada funciona. 

Não te preocupe, te levarei um cartão de crédito.  Não acredito que ninguém possa aceder as contas que tinha com teu marido, fora do país.    Seu sogro estava metido em tudo isso.   Avisou a Carlos Zapata que se atrasaria.  Queria ver se ainda era bom no que fazia antes.   Abriu o computador, consultou, os clientes do John, até descobrir seu sogro. Bloqueou todas as contas.  Mandou uma cópia de tudo para a polícia, para o departamento de Fazenda.  Em seguida, retirou o hi-fi do computador, ou qualquer coisa que pudesse localiza-lo.   Fez uma cópia de tudo que estava no computador, em dois pen-divres.  Um entregaria ao advogado. Se o escritório estava sendo vigiado, o chamou pelo celular, direto em sua casa.  Marcou na garagem do edifício, entrou com a moto, lhe deu o pen-divre, avisou que alguém do escritório estava vendido.     Conto tudo que tinha feito. As duas denúncias.  Que queria entrar com um processo em cima do ex-sogro, da ex-mulher, de seu amigo John Dawye.

Saindo dali, diretamente para New Port.   Pelo caminho, parou num motel, numa situação estratégica, tomou um bom banho, lavou seus cabelos uma quantas vezes, agora já não precisava desse disfarce.

Como tinha avisado a polícia, inclusive da parte debaixo da casa. Agora tudo seria por quanta desta.            

Chegou no dia seguinte, aonde estava escondido o Carlos Zapata.  Amanda tinha feito contacto com o Albert, este tinha avisado Patrick.   Assim pude localiza-lo.  Vive mais acima, numa casa de luxo.  Desde então não saíram de casa.

Avisou a polícia sobre os dois, que eram procurados, essa talvez fosse sua melhor vingança.  Entraria com processo em cima dos dois.   Falou com seu advogado, que encontrou o elo no seu escritório, sua própria secretária.

Também a tinha denunciado.  Nos dias seguintes, os jornais só falavam nessa história.

O único que tinha dinheiro vivo era John, na verdade pertenciam ao seu sogro, em vias de transferir tudo para as Ilha Cayman.  Estavam todos presos, sem direito a fiança.   Um acusava o outro da ideia.  Cada um tinha um advogado diferente.  O grande perdedor era o Albert, que sempre tinha sido, o mais musculoso, mas viciado em qualquer coisa.

Disse para o advogado, era por aí, aonde deviam atacar.  Se apresentou a polícia, com advogado, como ele já tinha cumprido sua parte da pena, não podia ser julgado novamente.     Pediu para falar com o Albert.  Este quando o viu, desmoronou.

Acabou confessando tudo.   O mentor, era seu sogro, junto com John, o primeiro filho também era dele.   Tinham aproveitado toda a confusão de Amanda estar mal, na verdade era parte do plano, ela tinha provocado o aborto. Tudo isso foi gravado para ser apresentado ao Juiz, ou aos juízes, se fossem separados os casos.

Lhe perguntou por que tinham feito isso.   A resposta foi espantosa.   Sempre foste o garoto rico. Ias as nossas casas desfrutar da nossa pobreza.  Fazias sempre questão de pagar tudo.  Na universidade, sempre estavas em primeiro lugar.  Teu pai era um bom filho da puta. Quase arruinou o teu sogro num negócio, foi dele a ideia, de te usar como bode expiatório, assim teu pai iria correr para o filho prodigo, para o salvar.  Mas isso não aconteceu, teu pai realmente era um filho da puta. Te ignorou totalmente, nem contratou advogado para ti.

Teu sogro ainda contratou um fulano dentro da penitenciaria, que deveria abusar de ti, matar-te em seguida.   Mas parece que isso não aconteceu.

Quem recebeu menos dinheiro fui eu, pois não queria participar disso tudo, fui coagido.  Mas me perdi nas drogas, no remorso. Não tenho nada.

Patrick, confessou também, obrigado pela mulher com quem tinha se casado, pois ela tinha medo de uma vingança.   Na verdade, estavam na miséria outra vez.

Quando tudo acabou, com todos na prisão, inclusive Amanda, pois passou as gravações da casa para o advogado.  Isso a incriminava totalmente.

Ainda pensou em ir vê-la, para rir na sua cara.  Mas escutou na sua cabeça a voz do Xamã.  Já fizeste muito.  Deixa isso tudo para trás.

Mas ainda tinha um objetivo.  Tinha que vingar a morte de Jesus,  foi até lá falou com o xamã, reuniram todos os homens, vieram em dois carros.  Conseguiram passar, subornando os policiais da fronteira.   Descobriu aonde era o ponto de reunião do antigo grupo de Jesus.   Esperaram uma reunião.  Apagaram as luzes, pois eles não precisavam disso, tinham olhos de animais acostumados no escuro.   Não sobrou nenhum.  Aparentemente todos tinham somente uma picadura na base do crânio, nas autopsias, foi que apareceu o curare, junto com outras drogas.

Mas nessas alturas, já estavam cada um de volta a sua vila.   Greg tomou sobre sua proteção o jovem que se parecia tanto a Jesus, na verdade era seu filho.   O adotou, podendo leva-lo para os Estados Unidos.  Conseguiu que fizesse uma universidade.

Ele continuou cuidado de motos, claro, vivendo no beco, ajudando os garotos a seguir em frente.   Esse dinheiro tinha que ser gasto em boas coisas, para limpar toda merda que significava.

De tempos em tempos, ia com o grupo até a ravina, para não perder a magia, principalmente de mergulhar trazendo um peixe na boca.  Ir de caça com seus amigos, pela noite.   Isso era um encanto que nada podia substituir.   Viajar com o filho de Jesus, pelos lugares que este tinha descrito em suas longas noites na prisão.

Este entendia, dizia que Jesus tinha vindo visita-lo antes de ser preso. Dizia que sonhava o dia que poderia viver em paz, com seu filho.

O melhor de tudo, era poder acampar no meio do deserto, olhando as estrelas, aquilo lhe dava uma paz impressionante.  Pois tinham imaginado os dois deitados na cama, olhando pela janela estreita em cima de suas camas.

Agora estava em paz.  Tinha sido um olho por olho, sem desgraças que ele tinha imaginado a princípio.  Pensavam em matar, os três, mas tinha mudado de ideia, o melhor era só ver o que acontecia.

 

































 

viernes, 4 de octubre de 2019

STUNTMAN


                                              STUNTMAN

Porra, foi a primeira palavra que pensou, estou de novo no hospital, que foi que fiz de errado?       Levou um tempo para lembrar o que tinha acontecido. 

Vinha de um teste de Dublê, Stuntman, de um filme sem classificação nenhuma, pelo visto o enredo era de última categoria. Como pude cair tão baixo, claro a idade pesava.  Nisso vinha pensando, quando o outro carro se chocou contra sua caminhonete.  Conseguiu sair da mesma, se deitando no asfalto quente.  Então como num filme policial, viu em cima dele, um sujeito com uma arma.   Que merda é essa, foi tudo que pensou.  Escutou um tiro, apagou.

Agora na sua cabeça, perguntava outra vez, que merda é essa.  A quinze dias antes tinham cortado o cabo do freio do seu carro, um velho Cadillac.  A polícia não descobriu nada.   Vinha descendo uma rampa, em direção a Los Angeles, justo para ir ao Studio, quando os freios falharam, não teve dúvida, era um exímio condutor, dublava muitas vezes os atores, em corridas loucas pelas ruas de San Francisco, ou de qualquer outro lugar que exigisse o enredo.  Mas seu carro preferido. Porra isso era demais.  Conseguiu saltar antes de bater numa árvore, para não atingir as pessoas que atravessavam a rua.  Quando a polícia examinou o carro a pedido dele, viu que tinham cortado os freios.   Fizeram milhões de perguntas, inclusive tinha passado dois dias com um dos braços no cabresto.

Agora essa, alguém que batia no seu carro, ainda por cima tentava mata-lo.  Nada tinha lógica.   Ele procurava se dar bem com todo mundo.  Não devia um puto a ninguém, não jogava, não bebia, nem se metia em brigas.  Viu no momento que a enfermeira entrava que na porta tinham dois policiais tomando conta.     Ficou intrigado, não sou um personagem importante.

Depois que a enfermeira saiu, entrou um detetive, rindo com alguma coisa que um dos policiais tinha lhe dito.

Bom dia, pelo que vejo estás melhor.   A pancada na tua cabeça, foi forte.

Perguntou pelo sujeito com a arma em cima dele?

Bom também está aqui no hospital, mas não abre o bico de maneira nenhuma, seu companheiro sim.   Foram encarregados de te matar, não sabem porquê.

Sabemos que é a segunda tentativa, mas não o motivo.

Isso queria saber, porque estão atrás de mim, não devo nada a ninguém, não me meto em brigas, tampouco me lembro de ter inimigos.

Sim isso disseram todos do studio, que inclusive normalmente desenvolves amizades com os atores a quem dublas.

Só me faltava essa agora, já tenho dificuldade de encontrar trabalho, por causa da idade, imagina se sabem que alguém tenta me matar.

Acreditamos que estejam te confundindo com alguma pessoa.   Teu nome é mesmo esse John Wayne Fernandez.

Sim, meu pai foi amigo, era dublê dele.   Como ia sempre lá em casa, minha mãe tinha verdadeira adoração por ele.  Quando meu pai morreu, nos ajudou.

Pela sua ficha, vejo que foi piloto na guerra do Vietnam?

Sim durante cinco anos, estive lá.   Quando voltei, necessitava de algum trabalho, que mexesse com adrenalina.  Resolvi seguir os passos de meu pai.  Monto a cavalo muito bem, dirijo bem também, piloto aviões, seja qual for o tipo.  Mas claro, os atores que eu dublava, a maioria hoje em dia fazem série de televisão, personagens que não necessitam de dublê.

Estivemos em tua casa, no Vale de San Fernando, tens a casa toda revirada, como se alguém procurasse alguma coisa.

Porra, nem dinheiro tenho por lá.  Nunca guardo nada em casa, depois que uns malandros, entraram quando estava fora filmando.

Se lembrou imediatamente, o meu cachorro?

Infelizmente amigo, levou um tiro, está morto.

Filhos da puta, perco um velho companheiro.  Ele fazia cinema, era super treinado, um dia fez uma cena errada, porque estava ficando surdo, o dono queria se desfazer dele.  Desde então é meu companheiro.

Mas tem alguma coisa errada nisso, será que não estão me confundindo com outra pessoa?   Comparem minha foto com alguém procurado pela polícia.

Soltando palavrões mentais, pobre cachorro, começou a dormir outra vez, viu que entrava o mesmo detetive com outro, este lhe tirava uma fotografia. 

Será que ele tem razão?   Levantamos toda sua ficha, esse sujeito está, mas limpo do que nada.  Não encontramos nada sobre ele.  Agora em menos de quinze dias é a segunda tentativa para mata-lo.  

Vou mandar as fotos para o FBI, para a CIA, quem sabe, dizem alguma coisa.

No dia seguinte lhe deram alta, um carro da polícia o levou até sua casa. 

Estou fudido, o Cadillac no conserto, vai sair caro arrumar, agora minha caminhonete?   Terei que alugar um para poder me mover.   Realmente nunca tinha andado de ônibus pela cidade, nem sabia como fazer.  A não ser que mandasse arrumar sua velha moto.  Estava encostada a mais de dois anos. Talvez fosse a solução.   A tinha comprado, depois de um filme que a usava como dublê, do ator principal.  Ficou com um defeito, a venderam barato.  Tinha um vizinho seu que arrumava qualquer coisa, sempre dizia que estava esperando uma peça, gostava mesmo de fazer corpo mole.

Desceu do carro, com os vizinhos olhando.  Já tinham arrumado a porta pelo menos, mas ao entrar lhe deu um desespero, não tinha nada inteiro dentro da casa, como se tivessem destroçado tudo, de propósito.   Saiu pelos fundos, foi em direção a uma antiga casinha de jardim, transformada em deposito de coisas.   Ali não tinham conseguido entrar, pois no último terremoto, umas caixas tinham caído, bloqueando a porta principal.  A maioria das pessoas não sabia, que havia outra entrada pelo beco.   Foi até la.  Estava tudo bem.   Pelo menos poderia dormir ali.

Abriu o cadeado, viu que tinham rompido um dos vidros da única janela. Caralho, tudo isso está me saindo mais caro que a encomenda.

Conseguiu desbloquear a porta, aproveitou para levar essas caixas cheias de coisas que não lhe interessavam mais, para o lixo no final do Beco.  Num dos quartos, ainda havia um colchão inteiro.  Ali tinha também uma velha geladeira, sempre com cervejas, para quando os amigos viessem fazer um churrasco.

Era cada vez menos gente nessas reuniões, a maioria a muito tinha abandonado já o ofício.  Ele se resistia, porque gostava de sentir a adrenalina correndo pelo seu corpo.   Nem fechou a casa, foi caminhando pelo beco, em sentido contrário, até aonde estavam a oficina de seu amigo.   Perguntou pela moto?

Bom desta vez está pronta, lhe disse quanto custava.

Amanha te pago, por favor, verifique que o motor funciona direito, pois  estou sem carro.

Nessa noite procurou numa das caixas da garagem, um capacete de moto, antigo que tinha usado em vários filmes, bem como uma jaqueta que tinha pertencido a um ator que já tinha morrido a tempos, uma dose extra de cocaína.

Enquanto passava cera, se lembrou das cenas desse filme, o galã, era famoso, ninguém sabia que era gay.   As garotas suspiravam por ele.  Muitas vezes entrou em algum lugar, escutava as garotas comentando, como ele era audaz, o que fazia com a moto nesse último filme.  Inacreditável.

Mal sabiam que ele em momento algum tinha subido na moto, não sabia conduzir, lhe dava medo até as baratas.  Mas tiveram uma boa amizade.  Os atores gostavam dele, porque era incapaz de comentar qualquer coisa que visse nas filmagens, ou mesmo sobre a vida particular deles.   Inclusive esse ator, uma vez lhe chamou a sua roulote, para saber se tinha alguma coisa de drogas.   Pediu desculpa, mas não gosto de usar nada.   O outro, examinou seu corpo duro, cheio de músculos, cicatrizes, abriu sua braguilha,  puxou seu sexo para fora, se colocou de joelhos começando a chupar.  Não disse nada, sabia quem era.  Depois de levantou, disse rindo, a atriz principal essa idiota, agora vai gostar do meu beijo, nem vou limpar.  Veja a cena, mas nada de rir.  Viu a cena, a atriz realmente parecia gostar do beijo. Quando terminou, piscou o olho para ele.   Dias depois disse que talvez ele fosse o par perfeito para ele, pois sabia ficar quieto. 

Lhe disse claramente, que não pensava deixar que lhe chupasse mais.  Tinha sido uma cortesia.   Não ia dizer que tinha gostado.  Podia acabar com sua carreira, afinal todos os dublês, eram machos.

 Telefonou para um grande amigo seu que vivia em Carmel-by-the-Sea, numa maravilhosa casa cinematográfica, que tinha transformado em pousada.  Esta casa tinha pertencido a um ator famoso.   Seu amigo James, foi amante deste, até que morreu di AIDS, o cuidou até o final.  Recebeu de herança essa casa.  Atualmente vivia junto com um belo crioulo, como ele dizia, que cuidava da cozinha.

Perguntou se podia ficar uns dias por lá, precisavam de ver o mar, relaxar de tudo que estava acontecendo.  Andou pela casa, preparou uma mochila, com calças jean, roupa de praia, ao mesmo tempo separou uma bota para usar com a moto.

De noite, apareceu de novo o detetive, dizendo que não tinha descoberto nada, porque o que estava no hospital, tinha piorado, estava morto.  Pelo que sabemos era ele que combinava as coisas, o outro era um simples motorista.

Lhe deu seu número de telefone.  Qualquer coisa me chame.

Tinha um celular jogado em algum lugar, desses de pré-pago, que nunca tinha usado, buscou nos escombros da casa, mas não encontrou.  Quando ficou bem escuro, se vestiu todo de negro, colocou um casaco com um capuz, um boné, saiu pelo beco, foi até uma loja mais abaixo, comprou outro, carregou com o máximo, assim poderia desligar o outro.   Antes copiou os telefones que poderia necessitar.

Voltou andando, passou diante da casa, viu o carro de polícia, com dois tipos comendo uma hamburguesa.

Porra nem isso tenho para comer, pois tinha atirado tudo da geladeira no chão.

Entrou na casa da vizinha pelo beco, era uma senhora fantástica, grande amiga sua, pediu que conseguisse alguém para atirar tudo que estava estragado dentro da casa, ele ia escapar alguns dias, depois se comunicaria com ela.

Não se preocupe, amanha mesmo chamo meu jardineiro mexicano, eles sempre aproveitam tudo.  Dentro de sua casa na verdade não tinha nada importante, nem fotos tinha.  Nunca tinha dado valor a isso, tirar fotos com os atores principais, para sair dizendo que os conhecia, que eram seus amigos.

Tudo que tinha, estava no banco, dinheiro depositado, numa caixa forte tinha as fotos de família, documentos da casa, passaporte, outros documentos.

Teria que dar entrada quando voltasse nos documentos para aposentadoria, o que seria uma merda, pois ganhava por filme que fazia.  Sempre tinha pagado seus impostos, justamente para isso, se um dia tivesse que pedir aposentadoria, estava já tudo na mão de seu advogado.   Talvez fosse isso o mais importante que tivesse na casa.

 De manhã cedo, sabia que seu amigo levantava cedo, foi até sua oficina, entrou pela lateral, falou com ele, pagou, levando a moto. Este avisou que tinha saído com ela na noite anterior, deixei o tanque cheio.

Enfiou suas coisas nas duas bolsas de couro laterais, que tinha na parte traseira, se vestiu, colocou o casaco, um lenço negro, cobrindo seu nariz, o capacete, saiu pelo beco, parou um pouco antes, olhou para os lados. Nada, no carro de polícia, estavam os dois da noite anterior dormindo.

Melhor saio pelo outro lado do beco, dou uma volta maior, mas seguro.   Assim fez, mas mudou de direção várias vezes, como via fazer nos filmes, para ver se não estava sendo seguido.   Quando saiu de Los Angeles, parou num posto de gasolina, para ver se não estava sendo seguido, completou o tanque, foi até a lanchonete ao lado, pediu café, ovos com bacon.   Sentou-se de tal maneira numa janela, que podia ver se aparecia alguém.

Nada. Retomou seu caminho, parando várias vezes para checar o mesmo, se estava sendo seguido.

Quando chegou a Carmel-by-The-Sea, foi direto a casa de James, enfiou a moto na garagem de uma das cabanas, já tinha combinado isso com ele.  Tinha telefonado do novo celular, não queria ficar na casa principal, para não causar nenhum problema.

James estava igual como sempre, magro, musculoso, muito queimado do sol, cabelos compridos loiros.   Se abraçaram, como sempre, dando um beijo na boca.

Que foi que te aconteceu?

Contou para ele, desconfio que estão me confundindo com alguém, por isso, preciso sair de circulação.

Bom estamos em baixa temporada, mas o mar está esplendido para fazer surf, sei que gostas disso.  Não se preocupe, temos poucos hospedes, todos vieram fazer o mesmo, surfar.

Passou quinze dias surfando, o tempo estava ótimo, muito sol, uma suave brisa, a companhia de vários surfistas, que queriam paz.  Gente de bem como dizia James, o que faziam em suas cabanas não lhe dizia respeito.

De noite algumas vezes, quando o vento não estava muito forte se sentavam ao redor de uma fogueira, escutando música, bebendo uma cerveja, alguns fumando maria, mas tudo em paz.   

No meio desse tempo, um dia de chuva, foi a uma cidade a uns cem quilômetros, de um telefone de um posto de gasolina, chamou o detetive que queria saber aonde estava, não disse.

Descobriste algo?

Sim, um protegido do FBI, que está aguardando para prestar declaração num juízo, que envolve máfia, políticos, contrabando de armas e drogas.  Fez uma operação plástica, ficou muito parecido contigo.   Creio que estão te confundindo.   O FBI quer te usar como doble dele para ir até o julgamento.

Ao caralho, que vou me prestar a isso, se me matam, o que ganho com isso?

Um serviço prestado a Nação.

Começou a rir, diga isso a todos que estiveram no Vietnam, na guerra do Golfo, em todas as merdas que o governo diz que é um serviço a Nação.   Nem pensar.

Dias depois estava surfando com um grupo de conhecidos, estavam esperando a onda perfeita, quando um deles chamou a atenção para dois tipos de terno, gravata, deitados na duna, com algo que refletia.   Um deles por negócios, sempre tinha um celular, protegido com uma funda especial.  Avisaram a James, para chamar a polícia.

Foi justamente quando sentiram uma bala perfurando uma das pranchas.  Nadaram todos ao contrário para estar mais distantes dos tiros.  Até o ar nessa hora parecia estar parado, o mar subitamente se transformou numa imensa piscina.  Viram de longe carros de polícia, jornalistas.

Foi quando surgiu uma onda imensa, todos de reboque nela até a praia.  Os sujeitos alegavam que eram da CIA, mas não levavam nenhum documento.

Estavam algemados, quem estava filmando tudo era o James que conhecia os policiais, disse, coloque-se no meio dos dois, assim temos provas.  Se negavam a falar.

Tinham um belo rifle com telescópio, então porque erraram.  Tinham calculado mal, ou nem sabiam direito em quem atirar.  Quando perguntou, um deles disse que era difícil, todos com o mesmo tipo de Neoprene, cabelos largos, loiros, era impossível identificar o objetivo, íamos dar cabo de todos.

Filhos da puta, foi o único que pode dizer. 

Depois contou a todos ali reunidos, que era a terceira tentativa que mata-lo, mas que desta vez não ia deixar barato, já sabia do que se tratava.   Um sujeito fez uma cirurgia estética, ficou muito parecido comigo.  E testemunha protegida do FBI, este querem que eu seja seu dublê, para fazer as entrada triunfal no julgamento.  Querem é me mandar a morte isso sim.   Ainda tiveram a cara de pau de me dizerem que prestava um grande serviço a Nação.  Já fiz isso na guerra do Vietnam, vi como voltaram a maioria dos meus amigos, nem pensar, que a Nação se vire sozinha. Ela é cumplice nisso tudo, por que como esses dois me encontraram?

No dia seguinte no café da manhã ficaram sabendo que os dois tinham sido assassinados na própria delegacia de polícia.  O xerife não sabia explicar como.

Um dos surfistas, ali não se falava de profissão, nomes nada.  Disse, tenho um programa de televisão, porque não te fazemos uma entrevista aqui mesmo.  Assim mando colocar no ar justo essa noite. Concordou, já sabiam aonde estava, não tinha nada a perder, não ia ficar prisioneiro disso.

De tarde chegaram dois caminhões da televisão, no grande salão da casa, montaram como se fosse studio do apresentador.  Este para dar ênfase, em vez de estar de terno e gravata, estava vestido de Neoprene.   Contou o que tinha acontecido, em seguida, o apresentaram, também vestido de Neoprene, focaram bem sua cara.  Então contou do primeiro atendado, cortaram os freios do carro, por sorte pude jogar o meu Cadillac contra uma árvore, depois jogaram um carro contra minha caminhonete, um sujeito ia atirar, mas não tinham visto um carro de policia estacionado perto, foi abatido pela mesma, duas vezes no hospital, agora esse episódio na praia. A polícia conseguiu descobrir que alguém, não tenho ideia quem seja, fez uma cirurgia estética, ficou parecido comigo.  Estão me confundindo com essa pessoa.   Trabalho de dublê a vida inteira, pode ver os filmes  que fiz, minha cara nunca aparece, mas nos títulos sim.  Me deixem em paz, por favor.

Quando pressionados pelos jornalistas, o FBI, disse que isso era verdade, besteira da testemunha, que queria ficar parecido com um ator, esse já tinha morrido, mas se esqueceram de seu dublê.   O médico tinha sido assassinado, por isso tinham uma foto, de como tinha ficado, comparavam as fotos, eram quase iguais.

A solução que encontraram, foi que a testemunha,  deu seu depoimento, somente com o Juiz, júri, advogados.  O lugar tinha sido secreto.  Portanto os acusados, foram condenados.

Mas nenhum reconheceu que tivesse mandado matar o dublê, claro, para ter mais um cargo a respeito.

Pela primeira vez, recebeu um convite para ter um papel, numa série de televisão, seria um policial das antigas, que gostava de surfar.   Nas provas disse, sempre fui péssimo ator, por isso servia para dublê, nada mais.

Mas por um acaso se saiu bem.   Uma parte era filmada  numa praia relativamente perto da casa de James.  Ali não tinha sido permitida, pois acabaria com a tranquilidade dos hospedes.

Na verdade, as sequencias que aparecia fazendo surf eram poucas, tinham gravado horas e horas, com sol, com chuva, tempo nublado, para poderem inserir nas gravações.   Ele sempre com uma moto.  Usava sua própria roupa.  Fez sucesso, o outro ator, não gostou muito, mas teve que se aguentar.  Séries eram diferentes, do que fazer um filme.  Embora fosse um sistema paralelo, se filmava meses seguidos.

Foi juntando esse dinheiro, queria comprar uma casa na praia, para desfrutar de seus últimos dias.   Dizia ao James, nunca tive filhos, relacionamentos não aguentavam muito, por culpa de sua necessidade de adrenalina.   

James lhe aconselhou, apesar do tempo passado, consultar um psicólogo.

Demorou muito, pois um dia em cima da prancha, no meio de um grande temporal, se sentiu ao máximo, mas ao mesmo tempo uma dor na região do coração. 

Quando foi ao médico, este disse que tinha tido um princípio de enfarto.  Esse lhe explicou que a adrenalina que necessitava o levaria a morte.  Melhor é consultares um psicólogo.

Chegou à conclusão que sim.

Um dos surfista lhe indicou um amigo que também era surfista, lá foi ele a primeira consulta.  Era um dos companheiros lá da praia.

Um pouco mais jovem, mas com uma cabeça brilhante.   Contou que tinha ido a guerra do Golfo, estive meses e meses em pleno deserto, nunca sabia o que aconteceria num instante seguinte.   O surf tinha sido sua salvação, praia, mar que não tinha no deserto, amigos.   Não era um psicólogo convencional.   As vezes se sentavam na praia num sábado, conversavam sobre tudo.  Desde sua infância, primeiro feliz, com artistas em casa.  Depois tivera que viver numa escola católica, como interno, pago por John.    Sua mãe, foi ser empregada doméstica em sua casa.

A solidão de um colégio interno, aonde sabes que não encaixas, pois não eres filho de pais ricos.  Sem saídas para festas de aniversário, natal, ou qualquer outra comemoração.  Quando tinha 17 anos se escapou, indo para o Vietnam, nunca verificaram que se era menor de idade.  A paixão por aviões, o que talvez me salvou, é que quando bombardeias desde um avião, na verdade, não vês de perto a morte, destruição, isso escutava dos amigos quer batalhavam em terra.  Mas a adrenalina era muito grande.  Enquanto os amigos necessitavam ficar bêbados, se drogarem, não tinha essa necessidade, precisava ficar só, para me acalmar, como tu, encontrei isso no mar. Surfando, fico em paz comigo mesmo.

Durante tanto tempo fazendo de dublê, não me dei conta, que com o tempo fazia tudo no automático, não necessitava de emoção para fazer a cena, quem tinha essa emoção era o ator que não fazia nada, tinha que imaginar.  Me dizia, ação, fazia o marcado automaticamente.  Procurando proteger minha vida o melhor possível.

Claro o que me aborrecia, quando algum erro técnico, exigia que repetisse a cena muitas vezes.  Isso não gostava.

Um dia o psicólogo lhe perguntou do ator, de quem todo mundo pensava que era amigo íntimo.   Sem pudor nenhum contou o que tinha acontecido.

Entrei na roulote, senti que ele estava desesperado, por alguma coisa que lhe aumentasse a adrenalina para fazer a cena.   Quando me perguntou se tinha drogas, ele sabia que eu não usava nada, como muitos companheiros.  Sabia por que tinha me chamado, lhe deixei fazer o que queria.  Mas quando quis algo mais, lhe disse que não.  Não queria ter uma vida com alguém que é obrigado o tempo todo se esconder, sem poder dizer nem a si mesmo, sou assim, foda-se o mundo.

Nunca quis estar nesse lado do muro, ou tampouco em cima dele.

Quando falaram de vida sexual, reconheceu que nunca tinha amado a nenhuma pessoa verdadeiramente.   Como não tive na minha infância, juventude, não sei me expressar nessas coisas.   Naquela época todo mundo no Vietnam, fazia sexo ou com as prostitutas, ou com meninas que precisavam de dinheiro para levar comida para casa.  Esse não foi o meu caso. Conheci um dia um garoto, que via que estava desesperado, como tinha aprendido a falar sua língua, perguntei o que se passava.

Disse que não sabia o que fazer, para levar dinheiro para casa, para alimentar seus irmãos, o pai tinha desaparecido no lado comunista, a mãe num hospital.  Fui com ele ao mercado, compramos comida, me convidou para comer com eles.   Depois quis me agradecer com sexo.   Lhe disse que de maneira nenhuma.  Lhe ajudaria se me deixasse ficar com um quarto da casa.  Passei a pagar o aluguel, os ajudava, iam todos a escola.  Quando começou a retirada, estava tentando conseguir papeis, para que pudessem vir, mas um bombardeio, matou todos na escola que estavam.

Pensei que ficaria louco, pois as poucas crianças que tinham saído, morriam em seguida pelas queimaduras.   Procurei em vão por eles, mas não os encontrei.

Talvez por isso tampouco quis filhos.   Me lembro dos dias que estava em terra, que em vez de ir aos bares, ficava com eles, falando da escola, comendo, rindo, com as histórias deles, ensinando a falar inglês, para um dia poder traze-los comigo.  Mas tudo se frustrou.   Em seguida voltei para cá, imediatamente me desligaram do exército, alguém ventilou que tinha vivido com uma família de lá.   Isso me tornava suspeito, aluguei a casa do Vale de San Fernando, comecei a trabalhar para os studios, pilotando aviões, carros, motos, o que fizesse falta.   Saltando de edifícios em chamas, tudo que fosse perigoso, necessitava dessa adrenalina.  

Tive milhões, de acidentes, pernas, braços faturados, internações, apesar que o studio cobrissem tudo, nem sempre é agradável ficar meses sem poder fazer nada.

Agora a idade, os problemas decorrentes desses acidentes, me impedem de fazer o mesmo.   A série, faço todas as cenas, há muito poucas na verdade perigosas.  Ontem me chamaram para renovar por mais uma temporada, passo a ganhar mais, pois me torno o papel principal, essa temporada, será para descobrir, quem matou o ator principal, que quis sair da série a qualquer custo. 

Vai fazer uma comedia em outra cadeia de televisão.

Gostava de conversar com Brent, o psicólogo, porque ele também se abria com ele.

Depois de largos papos, tinham o mar, surf para compartir, acabaram ficando amigos.

Nunca falavam de sexo entre eles, mas muita gente pensava que acontecia alguma coisa.   Inclusive James, um dia lhe perguntou.

Lhe respondeu, se queria vender um pedaço de terra ali do outro lado da mansão, queria construir uma cabana que fosse sua, para viver lá.

Fizeram um acordo, esboçou a cabana nos longos papos com Brent, quando este comentou, o que falavam dos dois, o que ele pensava a respeito.

Primeiro riram, dois homens não podem ser amigos, confidentes, que logo necessitam de colocar sexo no meio.   Creio que isso pode estragar tudo.

Quando a cabana ficou pronta, tinha um quarto especial para Brent, o mais importante era uma zona diferente que tinham feito, para as pranchas, os trajes de Neoprene. Tudo estava ali, inclusive um chuveiro, para tirar o sal.

 James, sempre vinha no final da tarde ficar de papo com eles, o poderoso é belo crioulo, José, da Guiné Bissau, as vezes preparava carne num braseiro que faziam.

Os dois pensavam que apesar de nunca falarem no assunto que tinham um romance.

Realmente aconteceu, mas eram tão amigos, viram que isso estragaria tudo, seguiram como estavam.

Um belo dia, apareceu um diretor de cinema.  Disse que tinha um roteiro, que gostaria que ele lesse.  Na verdade, era a história do que tinha passado com ele, da confusão de pessoa, que quase o tinham matado.  Queria que ele revisasse sua parte, fosse o ator principal.  

Perguntou quem tinha escrito o roteiro?

Um dos detetives que acompanhou o caso, existe esse papel, mas ainda não temos um ator para ele.  

Disse que James, se parecia muito ao detetive.  

Quando falaram com James, porra eu nunca fui ator, dormi com um, mais nada, mas encaixava a perfeição no papel.

Revisou toda a parte que lhe tocava, inclusive os sentimentos que tinha tido, o fato de não entender o que lhe estava acontecendo.

A escapada para a praia, o susto na praia, programa de televisão, o fato de forçar que o FBI, resolvesse de outra maneira tudo.  

O que mais gostou era que faria o papel duplo, seria os dois personagens, ele mesmo, mais a testemunha.

Viajaram depois fazendo aparições em programas de televisão, mas ansiava estar de novo com Bert, na casa de praia, na sua tranquilidade.   O dinheiro ganho com a série, com o filme, lhe dava uma vida tranquila, tinha conseguido sua aposentadoria também.  

Quando voltou, notou Bert melancólico.  Quando lhe perguntou o que acontecia?

Foi honesto, nunca pensei em sentir tua falta, eres o melhor de minha vida.

O mesmo te digo Bert, estava louco para voltar para cá, sentia falta dos nossos papos no final do dia, de estar contigo.

Riram, estamos velhos para um romance desses de filmes, ou uma paixão arrebatadora, já não temos idades, para sairmos por aí, de mãos dadas como fazem os jovens de agora, ir pela noite de discotecas.  Queremos tranquilidade como temos, o nosso surf.

Apesar dos anos, os dois tinham corpos estupendos para suas idades.  Gostavam de explorarem isso, era um sexo consentido com muitas emoções.

O mesmo diretor do filme, os procurou, queria ele mesmo escrever um roteiro, para uma série, um detetive que andava de moto, mas que era gay, surfista, etc.

Porque não escreves os roteiros com ele Bert, pode ser interessante.

A série seria rodada em San Francisco,  foi um sucesso, Bert se descobriu como escritor, a coisa funcionava. Existia química.  As cenas perigosas ele mesmo fazia.  Ainda se treinava diariamente.  O primeiro capítulo foi apresentado num cinema, grátis, mas com um questionário, como as pessoas viam a ideia desse investigador fora do armário.  No meio de muita besteira, também encontraram apoios, ideias interessantes.   Nada tinha a ver com os primeiros tempos do bairro, das perseguições aos gays.   Mas sim sobre a vida de agora, seus problemas, temáticas que evolucionavam.   A vida gay em conjunto. Etc.   James também participava, fazendo o papel de um chefe de polícia, dividido entre uma família antiga, ter saído do armário, sua nova vida com um capitão de polícia.   Não havia afetação nas representações, eram tratados todos como pessoas normais.

O solitário personagem dele acabou ganhando prêmios.   Ao final de cada temporada, o negócio era correr para a casa de praia, relaxar, fazer surf, não pensar no dia de amanhã, viver suas vidas tranquilamente, até a próxima, isso é claro se tivesse audiência.

Chegou à conclusão, que tudo que tinha acontecido, tinha mudado sua vida completamente.   Não tinha ideia do que tinha acontecido com o outro, o perseguido com quem tinha sido confundido.   Mas no fundo de uma certa maneira estava agradecido, por tudo ter mudado.