lunes, 4 de enero de 2021

 

                                                  AAGO

 

AAGO= Tempo, relógio, hora.

 

Dizem que estou sempre com pressa, que já nasci assim, mas fazer o que, me conformo, procuro nunca chegar atrasado em lugar nenhum, prefiro esperar do que ser esperado.  Meu avô diz sempre que o “apressado come cru”, pode até ser verdade, mas o “Tempo”, sempre foi um fator importante.

Meu nome é Ernesto da Silva , mas também sou conhecido como Oribara, o filho do Orixá Bara.

Nasci fora do tempo, minha mãe estava trabalhando, era enfermeira num hospital em Rio, no mesmo hospital, meu pai trabalhava como médico.  Era ajudante de um dos médicos mais importantes do hospital, ajudava numa operação, quando rompeu águas. Uma baita confusão, duas companheiras e amigas a levaram para a sala de parto, avisaram meu pai, que veio correndo, não queria perder o nascimento de seu filho.  Mal chegou, eu já estava nascendo, as enfermeiras brincavam dizendo esse menino é apressado, veio antes do tempo, ela nem teve tempo de ter contrações.   O médico ainda tentou que ela fizesse uma cesárea, mas nem deu tempo.  Quando me viram as enfermeiras riam, não acreditavam.   Imagina meu pai era um mulato claro, da Angola, cuja mãe tinha emigrado para o Brasil, lavou muito chão de gente rica, bem como costurando, fez tudo para que seu filho fizesse universidade.

Minha mãe era uma mulata, linda, mistura de negro, francês e português, sabe se lá mais o que, as amigas tinham inveja de seus cabelos lisos, sem necessitar fazer nada.

Tinha sido miss Rio de Janeiro, representando Bangu, quando lhe perguntaram qual era seu maior sonho, disse que enfermeira, já que não tinha dinheiro para estudar medicina.  Todas diziam besteiras, com o dinheiro que ganhou, pagou a universidade.   Mas quase perde tudo, pois no final de seu tempo de Miss, se descobriu que tinha uma filha.

No hospital quando começou a trabalhar, conheceu meu pai.  Ele levou anos até ela aceitar sair com ele.   Não lhe escondeu nada, tenho uma filha, de um erro de juventude, vive com meus pais,  ele disse que se ela quisesse podia adota-la.   Mas isso nunca aconteceu.

Tentaram muitos anos ter filhos, mas o médico dela, não recomendava, tinha um problema de coração, complicado, uma gestação, bem como um parto, podia ser difícil.

A confusão e as risadas, foi que eu nasci com os cabelos lisos, loiros, olhos azuis, mulato, mas com essa diferença.   Quando meu pai se virou para me colocar junto a ela, sorriu e morreu.

Na autopsia depois se revelaria, que seu coração era como folhas de papel, talvez por isso eu tivesse nascido assim.   Mas segundo minha madrinha, a melhor amiga de minha mãe, era porque eu era filho de Exu Bara, ele deve ter pressentido alguma coisa, adiantou o parto.

Fiquei um tempo numa incubadora, era o rei do hospital, pois todo mundo queria ver esse menino diferente.

Meu pai vivia num belo apartamento na Av. Engenheiro Richard, ali no Grajau, a quem primeiro pediu socorro foi a sua mãe, ela tinha se casado a alguns anos, com um professor da Universidade, limpava sua casa em Ipanema,  estavam sempre conversando sobre coisas, sobre o mundo.  Ele se apaixonou por ela, tinham a mesma idade.   Se via que sua família também tinha um pé na cozinha, pois tinha os cabelos muito crespo. 

Foram correndo para o hospital, imediatamente me tornei o centro da vida deles.

Meu pai estava completamente abalado, não conseguia entender, pois seu médico a via quase todos os dias.   Tinha recomendado repouso absoluto, mas ela dizia que estava bem, que pretendia trabalhar até o final.   Mas tudo era aparências.  Ela tinha sido firme quando ficou gravida, sonhei em ter muitos filhos, não vou desistir, disse isso quando o médico recomendou que abortasse, pois podia ser um problema sério para seu coração, mas como dizia meu pai, quando colocava uma coisa na cabeça, não havia maneira de tirar.

Minha irmã, mais velha, que não vivia conosco, anos depois me acusaria de ter matado minha mãe, fiquei confuso, fui perguntar ao meus queridos avôs.   Me contaram tudo, ele dizia que nunca se devia esconder a verdade, pois era pior.

Entendi muitas coisas, muitas relativas com os sonhos que tinha, desde garoto, as vezes via a sala do parto, a necessidade de sair rápido, alguma coisa me dizia tens que ir em frente.

Ser diferente, me causou muitos problemas, bullying era dos menores, andava pela ruas as pessoas paravam para me olhar.

Uma vez uma idiota perguntou a minha avó Sarah, porque ela tingia meus cabelos, não podia acreditar que eram assim mesmo. Eu estava dormindo, quando abri os olhos, ficou como louca por mim.  Sempre nos encontrava, minha avó dizia que fazia de proposito, tinha sempre alguma coisa para me dar.   “um dia soltou que eu lhe dava a paz” que tinha perdido a muitos anos, que quando me via, se sentia consolada.

Para minha avó, parecia um disparate, mas Gilberto ou Gil como todo mundo lhe chamava, dizia que não, que não se enganasse, que eu tinha algo em especial.  Ele sempre foi um grande estudioso do ser humano.  Creio que falei seu nome antes de todo mundo, tinha uma paixão por mim impressionante.  Me jogava no ar, era alto, eu quase batia no teto do apartamento.

Meu pai tinha uns horários, complicados, entre plantões, consultas, as vezes passava dois dias sem ir a casa.   Vivia conosco a senhora que minha avô conseguiu para ser minha mãe de leite, tia Berenice, ou Nice, vivia nas dependências de empregados, mas se sentava na mesa para comer conosco, como mais um da família.   Ela era a difícil, me fazia ter modos na mesa, comer direito, não podia deixar comida no prato, senão, não tinha sobremesa.   Estava sempre limpo, vestido.

Minha avó dizia com certo ciúmes, que quando era bebê, só dormia se estivesse nos seus braços, por isso talvez tenha sido sempre assim, Deus no céu, eu na terra.   Era filha de Oxum, com Ogum, todos os sábados subia o morro, para ir ao terreiro de Candomblé que  frequentava.

Meu pai quando estava em casa, o mundo podia cair em volta dele, que ele estava comigo, foi o melhor pai do mundo.  Quando eu soube como tinha nascido, lhe perguntei se não tinha raiva de mim.

Meu filho, ela sabia que não devia ficar gravida, quis porque quis ter-te, não houve jeito de faze-la mudar de ideia. Por isso aconteceu tudo, mas ainda teve um tempo para te ver.  Me disse, é lindo.

Sempre me consolava quando reclamava por ser diferente dos outros garotos, passava a mão pelos meus cabelos loiros, dizendo, eres a mistura de todos nossos genes, por alguma coisa será.    Me ensinou a me defender dos garotos maiores, quando fui para outra escola estudar o secundário, íamos a academia de boxe que tinha perto de casa, ou ao Judô.  Assim quando vieram me encher o saco pela primeira vez, um tipo loiro, tonto, gordo que tinha na minha classe, lhe perguntei se sabia o que estava fazendo.  

Riu dizendo que sim, que ia me esmagar, negrinho de merda.  Quando avançou, não precisei muito, lhe dei um soco na barriga imensa que tinha, que se cagou nas calças.   Nunca mais me encheu o saco.

Na verdade, devia muito ao meu avô, quando tinha quatro anos, eu já sabia ler e escrever, me contava histórias, nada de besteiras.   Lia Monteiro Lobato para mim, o sítio do Pica Pau Amarelo, quando vi na televisão, não tinha o mesmo encanto que tinha na voz dele.  Me desinteressei em seguida.  Me leu Cervantes, mas antes me contou a história dos moinhos, coisa que no Brasil eram diferentes.   Conseguia fotos para ilustrar o que me contava, eu preferia ficar com ele, a estar na rua jogando bola com os de minha idade.

Os seus presente sempre era algum livro, que depois iriamos discutir até a exaustão, diga-se de passagem, que ele incutiu esse hábito em minha avó.  Que quando o conheceu, era analfabeta, a ensinou a ler e escrever.  As vezes lia o mesmo livro que eu tinha lido, para poder participar das conversas.   Meu pai se matava de rir, dizia Gil, estas transformando antes do tempo esse garoto num erudito.

Em seguida, eu queria saber o que era erudito.   Na escola não gostava os esportes, o único que eu me saia bem, ganhando prêmios, competindo sempre, era correr.  Gil dizia que era nato em mim.  Não fazia o menor esforço.

As vezes subíamos os quatro, Nice preparava um lanche, íamos para a Estrada da Paineiras, ele subia pela Usina, para o Alto da Boa vista, de lá pelo meio da floresta, até a Estrada da Paineiras, a vista era impressionante, saímos os dois a correr, ele a seu ritmo, eu ia e voltava várias vezes, tomávamos banhos nas águas que caiam dos mananciais, água pura segundo ele, encontrávamos um lugar plano, Nice estendia uma toalha, ficávamos olhando as vistas, comendo delicias preparada por ela.

Uma vez ela me pegou conversando com uma árvore, perguntou o que eu estava vendo?

Ora mãe Nice, estou falando com estes senhores que vivem nessa árvore, estão dizendo que em breve tenho que ir ao seu terreiro.

O que a impressionava é que eu falava com eles e Yoruba.  Comentou com meu avô o assunto, esse menino fala Yoruba, mas se digo isso a dona Sarah, vai ficar furiosa, pois é católica, apostólica romana.    Era uma verdade, minha avó ia a missa toda semana, eu morria de tedio quando tinha que ir.

Um dia soltei ao Gil, que ia junto, aqui não tem espírito nenhum, é tudo um grande teatro.  Ela não gostou, ele teve que lhe explicar que meu destino era outro.    Nunca a tinha visto tão furiosa, falou com meu pai.   Ele riu, a madrinha dele, fala a mesma coisa, todos os dias me pergunta por ele, dizendo se ele já falava Yoruba.   Sempre achei um desproposito, divertido, como um garoto ia falar essa língua da Africa, se nem a senhora fala.

Minha mulher não era do candomblé, nem da umbanda, então não sei.

Um final de semana que ele tinha livre, mãe Nice disse que tinha uma saída de Santo no seu terreiro, perguntou se eles queriam ir, nunca tinham ido.  Arrumaram uma desculpas, mas ficaram surpresos, pois na hora que ela ia sair de casa, eu já estava vestido de camisa branca, calças curtas brancas, meias brancas, sapatos não tinha brancos, mas estava de Bamba.

Aonde vais garoto, soltou meu pai?

Eu vou com mãe Nice, chegou a hora de ir conhecer essa gente, vamos mexam essas bundas gordas para irmos.   Nunca foram, não sabem como é.   Nessa alturas eu tinha 10 anos de idade.

Quando chegamos, imagina, subir de carro de marca, na favela, era uma temeridade, mas mãe Nice, dizia, eles nunca tocaram numa coisa do menino.

Quando desci do carro, os outros garotos, correram para ficar ao meu lado, alguns eu conhecia da escola, um dos maiores ficou de cuidar do carro.

Quando abriram a porta do terreiro, eu fui direto a uma imensa mangueira, o Iroco do lugar, me prostrei no chão, rendendo homenagem aos Orixás que estavam ali, só escutei uma voz de homem muito forte, dizendo, isso deviam fazer todos vocês seus filhos de santo mixurucas.

Me levantei, falei com cada um dos Orixás, eu os via, falavam comigo, uma mulher muito bonita, me disse que minha mãe estaria orgulhosa de mim.

Só então me virei, ali está o Babalorixá do terreiro, me saudou, como Orixá Exu Elegba, se inclinou, todo mundo olhava, me mandou tirar os sapatos, me levou pela mão para ver todos os quartos de santos, inclusive a pessoa que ia fazer uma saída.

Para quem quisesse escutar, este garoto já nasceu feito, não precisa raspar a cabeça, nada.

Meus avôs, meu pai, iam seguindo, sem entender porra nenhuma como diria depois o Gil, estavam maravilhados, pois eu só conversava com o homem que depois entendi seu nome, era Gregório De Xangô.

Segurando sua mão, lhe disse que tinha um problema de estomago, serio, venha meu pai, ninguém podia entender, o fiz deitar embaixo do Iroco, num pano branco que mãe Nice me trouxe.   Fui até a mangueira, arranquei umas folhas, mas antes pedindo licença, pedi uma quartinha com água, comecei a rezar em volta dele, lhe cobri com o pano branco, só deixando o rosto de fora, conforme foi indo, no lugar aonde tinha problema, começou a sair uma massa negra, fedia muito, a enxofre, o espanto das pessoas era grande.   Dizem que incorporei, não me lembro, Gil conta que a primeira reclamação era que meu corpo ainda era pequeno.   Que meu Exu, começou uma verdadeira confusão, correndo em volta do corpo deitado no chão, que essa massa negra, cheirado enxofre, foi subindo, sendo absorvida por umas ramas da árvore que morreram na mesma hora, ele, chamou dois homens altos, mandou cortar essas ramas, fez uma fogueira com elas, as pessoas tapavam o nariz.  Se os homens entendessem que quando fazem essas coisas, a mesma se volta para quem fez.

Só me lembro que depois estava sentado no chão, segurando a mão de Pai Gregório de Xangô.

Ele chorava muito, sabia quem tinha feito essa maldade com ele, me dizia entre soluços, tentas ajudar as pessoas, elas sempre querem mais, mais e mais, quando negas, te fazem uma maldade.   Eu sabia que quem tinha feito isso, era um homem por quem ele tinha sido apaixonado.

O ajudaram a se levantar, as Yaos, correram preparar um banho de descarrego para ele, transferiu a saída para o dia seguinte.  Sentado ao lado dele num banco, segurando sua mão, cantamos toda a gira.   Meu pai dizia a sua mãe, volta e meia, fecha a boca, senão te caem os dentes.  Gil ria muito.   Virou um grande amigo de Pai Gregório.   Com ele aprendeu os mistérios dos Orixás.   Minha avó, continuou indo a suas missas, nunca mais subiu, ao terreiro, eu agora ia todos os sábados com mãe Nice, Gilberto, meu pai quando estava livre também, ela arrumava uma desculpas para ir tomar um café ou chá na Colombo com as amigas do prédio, mas nunca perguntava, aonde tínhamos ido.

Com 12 anos, eu já jogava os Búzios, mas nunca cobrei a ninguém.  Um dia olhando um jogo que sem querer tinha feito para o Gil, ele apenas estava sentado ali ao meu lado.   Lhe perguntei se tinha um tio chamado Nestor.

Sim, mas faz anos que não sei dele, nem sei se está vivo, lhe disse aonde estava, está sozinho, doente. Disse ao meu pai que fosse com o Gil, que depois eu desceria de ônibus com a mãe Nice.  Disse direito aonde estava.

Estava internado no Hospital Escola São Francisco de Assis, na Av. Presidente Vargas, como indigente, o tinha encontrado mal na rua.  Tinham lhe roubado a carteira, ele só sabia seu próprio nome, Adalberto Nunes, nada mais.

Gil se identificou como seu sobrinho, meu pai o levou para o hospital que trabalhava, em breve o homem estava bem.  Já estava muito velho, mas cismava de trabalhar, tinha um escritório de advogados na av. Rio Branco, por isso quando desmaiou na rua, o levaram para o hospital mais próximo.

Gil cuidou dele, como um filho, acabou indo viver conosco, as veze no final de sua vida, ficava sentado ao lado dele segurando sua mão.   Dizia, eu não aproveitei nada, como nunca tive ninguém, trabalhava como um louco, para que me respeitassem, no final me chamavam de velho gaga, que devia estar em casa de pijama, em vez de estar nos tribunais, mas mostrava a que tinha vindo, ganhava todas as causas.

Viveu conosco uns seis anos, vendeu o escritório, dizia ao Gil, não se preocupe, sei o que faço, o acompanhava ao Banco, mas fazia as coisas sozinho.  Gil foi uma única vez a sua casa, tinha um apartamento no começo da Av. Vieira Souto, com Rua Gomes Carneiro, um edifício dos primeiros da zona.  Gil dizia que não o tinha convidado para subir, ele gosta da sua privacidade, eu respeito.   Uma vez por semana Gil e minha avó o levavam para almoçar na Confeitaria Colombo, ele passou a insistir de que mãe Nice fosse também, eles não cozinham como a senhora.   Mas claro, lá ele encontrava seus velhos amigos.  Depois gostava de ir tomar um chopp no Bar Luiz, na rua da Carioca.   Depois de noite para me provocar, contava o que tinham feito, mas sempre tinha uma caixa de doces que eu ia comendo devagar, controlado por mãe Nice.  Senão devoras tudo de uma vez, ficas com dor de barriga.

Quando morreu, tinha dado um envelope ao Gil, para chamar seu advogado particular com suas últimas vontades, queria ser enterrado no mausoléu de sua família no cemitério São João Batista, como tinha ido a terreiro uma vez, pediu que eu fizesse uma oração no enterro.  O velório foi muito concorrido, as pessoas vinha falar com o Gil, com minha avó ao lado, falavam do grande homem que tinha sido.   Apesar de tudo, não era metido a besta, Gil não entendia o que era apesar de tudo.  Um amigo dele, escreveu sobre sua morte no Jornal o Globo, dizendo que o pais perdia um grande Jurista, que podia ter feito uma carreira como Juiz, mas gostava de ser advogado dos desfavorecidos.

O mesmo advogado avisou o Gil que tínhamos que ir a leitura de testamento dele, pois éramos beneficiários.

Fomos pensando que íamos encontrar muita gente, mas ali só estava uma irmã de caridade.

Deixava para o Orfanato que dirigia uma boa soma de dinheiro, ele era proprietário do casarão aonde estava o orfanato, ficava para elas.

Para o Gil, deixava o apartamento da família, em Ipanema, bem como uma bela soma em dinheiro, mas o melhor era eu, ganhava uma boa soma de dinheiro, para ir fazer a faculdade que quisesse tranquilo, bem como um apartamento em Copacabana, ali no Posto Seis, além do local do escritório na cidade.  O Gil ainda ganhou vários escritórios no centro da cidade.

Estávamos de boca aberta.  Gil ainda soltou, eu pensei que íamos ter que pagar os impostos daquele apartamento, pois imagina quando o encontramos estava como indigente no hospital.

Para mim deixou uma carta em particular.  Só li quando chegamos em casa, levaríamos uns dias para entender tudo, saber o montante da herança.

Me fechei em meu quarto para ler a carta, me lembrava de tê-lo visto escrever, mas quando chegava perto, escondia.

Teu Orixá me encontrou, quando eu mais precisava de ajuda, vocês me receberam como se eu fosse da família, nada mais justo tudo isso.   Creio que deves te preparar para ser uma homem duplo, pai de santo, o que é natural em ti, mais alguma profissão, já te vi curar as pessoas, eu faria medicina, assim não podem te chamar de curandeiro.  Juntaras as duas coisas.  Falo como advogado.

Mas deves aproveitar a vida também, a juventude passa muito rápido, se forem morar na minha casa, poderás fazer surf com os da tua idade.

Quero que sejas feliz, não faça como eu, que nunca amei ninguém na vida, nem aproveitei minha juventude, estudando para ser melhor que meu pai, que era um tirano.  Seja Feliz, cuide sempre dessa pessoa maravilhosa que é mãe Nice.

Depois dei a carta para o Gil, ele leu para todos sentados na mesa, mãe Nice, chorava emocionada, me lembro do dia que insistiu que eu fosse junto com vocês a Colombo, imagina uma negra de favela, na Colombo, mas me tratou como uma senhora.  Me apresentou a todos aqueles velhos, dizendo que igual a mim nos quitutes era impossível.

Quando perguntavam quem eram os outros, dizia orgulhoso, minha família.

A discussão era, se iriamos viver lá ou não.   As vezes mãe Nice por ser uma pessoa simples resolvia o problema, eu iria lá olhar, dar uma vista d’olhos, como quem não quer nada.

Fomos com a chaves, Gil se apresentou na portaria, como sendo sobrinho do Adalberto Nunes, herdeiro do apartamento, perguntou se tinha alguma conta para pagar.

O homem riu, talvez ele fosse o único que pagava o condomínio em dia, aqui as pessoas fazem pose, mas na hora de pagar, hum, uma merda.   Ia tudo para o banco, esse pagava todas as contas.

Venham os acompanho até lá em cima.  Não era um edifico alto, o homem foi dizendo que tinha a chave, que entrava para molhar as plantas, que sua mulher era quem limpava tudo.

O apartamento era de frente para o mar, no último andar, não é o maior do prédio, pois tem essa varanda, ele amava isso, suas plantas.  Tá vendo aquele cadeirão, nos finais de semana se sentava ali, ficava olhando o mar, embora eu nunca o vi descer, para ir à praia.

Gil se apaixonou pela biblioteca, disse que sempre tinha sonhado em ter uma assim, mas o que estranhamos, era que todos os porta fotos estavam de cabeça para baixo, o seu João, soltou, são as fotos do velho, não permitia que ficassem de outro jeito.  Os moveis eram antigos, mas bons,

Tinha quartos para todo mundo, eu ainda soltei, porque ele tinha dito um dia a mãe Nice, que na cozinha do seu apartamento ela seria uma rainha.   Era realmente uma bela cozinha, a área de serviço, bem como o quarto de empregados, estava vazio, era como um pequeno apartamento.

Para meu pai, seria excelente, ficaria mais próximo de seu trabalho, todos me olhava esperando meu parecer, eu estava era prestando atenção num grupo de surfista ali no Arpoador, eu tinha adorado poder ficar olhando o mar.   Estava no último ano da escola, pronto para fazer o vestibular, decidi fazer o que ele tinha falado, depois de jogar os búzios com essa pergunta, além de conversar com pai Gregório.    Ele disse que pensava igual, às vezes, como fizeste comigo, fizeste uma cirurgia espiritual, podia te chamar de charlatão, ou acusar de alguma coisa, melhor assim, se tens oportunidade, não desperdice.

Meu pai teve uma ideia, se fossemos para lá, ele venderia o apartamento ali do Grajau, iria diminuir os dias no hospital, pois estava cansado, abriria uma consulta ali no pé da favela, assim podia atender a essa gente.

Todos aplaudimos a decisão.   Primeiro minha avô, bem como mãe Nice, ajudadas pela mulher do João, a Dejanira, foram jogando fora tudo que não servia.  Principalmente as fotos do velho, Gil guardou uma em que aparecia ele com o tio, nada mais.  Fez o mesmo com os livros, separou os que lhe interessavam, o resto doou para uma biblioteca em Copacabana.

Mandou pintar todo o apartamento de branco, em menos de um mês nos mudamos, ainda fui as últimas provas na escola no Grajau, depois me dediquei a estudar para o Vestibular.  Mas Gil me disse, não é necessário, eres inteligente. Vá aproveitar a vida, foi comigo comprar uma prancha de surf, comecei a aprender, me sentia como um peixe na água.

Fazer surf tudo bem, mas ficou difícil sim, fazer amizades, os papos eram superficiais, quando encontrava uma pessoa interessante para conversar, logo caçoavam dizendo que estava se metendo com esse negrinho loiro tingido.    Com tanto sol, eu fui ficando mais escuro, então a diferença de cabelo e olhos apareciam mais.    Mas a estas alturas da vida já cagava e andava para isso.

Fiz o Vestibular, passei, o negócio agora era escolher aonde estudar. 

Um dia, se fecharam na biblioteca os quatro, não me deixaram entrar, quando saíram, meu pai disse amanhã vais a uma autoescola, para aprender a dirigir.   Me compraram um fusca velho, mas muito bem condicionado.  Nada de luxo dizia o Gil, se começa nisso também de baixo.

Me gozavam os companheiros, mas o meu carrinho nunca falhava, eu o chamava de Mané, com ele ia com mãe Nice no candomblé, os garotos cuidavam sempre do meu carro.  Me chamavam de Oribara, eu acabei ficando com esse nome.   Algumas vezes, ao chegar, um dos garotos avançava dizendo, pai Oribara, dê uma olhada pelas minhas coisas.  Eu já sabia que tinha complicações em casa.

No sábado de manhã, era a hora que eu atendia muitos, ajudava pai Gregório, ele mesmo passava alguns para mim, principalmente aqueles que vinham atrás de informação para ganhar dinheiro fácil.   Ele já não tinha paciência para essa gente.   Eu deixava o meu Bara, incorporar esse soltava as feras em cima da pessoa, dizendo que o que deviam fazer era procurar um trabalho, se fosse isso ele conseguia, mas número de loteria, o escambau.

Mãe Nice me contava depois que saiam murchos da consulta.   Mas quando era um caso de doença, eu primeiro examinava a pessoa com meu estetoscópio, se o caso fosse complicado, mandava consultar meu pai na entrada da favela.  As pessoas diziam que podia ser caro, mandava um bilhete, pode ir, é meu pai, não cobra nada.   Mas quando tinha alguma coisa de santo no meio, ajudava ali mesmo.   Se meu pai não podia ajudar, subia com a pessoa, dizia o que tinha, que num hospital, isso custaria uma fortuna, que a pessoa não tinha INSS, o sistema de saúde do governo.    Se podia fazer uma operação espiritual, fazia ali mesmo.

Um dia apareceu um homem fortemente armado, com dois capangas, me perguntou se eu tinha reparo em atende-lo, disse que não, mas que os capangas e as armas ficavam porta fora.

O examinei, meu caro, tens dois problemas, um físico, talvez decorrente do espiritual, chamei uma Yao, mandei lhe dar um banho de limpeza, ela estava com medo dele.  Lhe perguntei por quê?   

Ele é o chefe do tráfico aqui da favela.   Olhei bem para a cara do homem, lhe disse vou te curar, mas tens que me prometer uma coisa, nunca aceitaras garotos vendendo drogas ok.

Isso é um problema meu, me respondeu furioso.  

O encarei, dizendo sim, é teu o problema, levante essa bunda, saia daqui, vá morrer lá com teus capangas.   Ficou me olhando sério, não tens medo de mim?

Nem um pouco, sei que come, cagas, andas como eu. Portanto medo nenhum.

Venha lhe disse, antes de lhe dar o banho, lhe perguntei por sua resposta.

Eu já não permito isso a muito tempo, se tivesse escutado minha avô, nunca teria entrado para essa merda.

Lhe dei o banho eu mesmo, fui rezando ao mesmo tempo.

Lhe dei uma roupa branca, mandei trazerem duas mesas grandes, coloquei embaixo do Iroco, eles vão me ajudar a te curar.

Fechei os olhos deixei que o médico que incorporava fizesse seu trabalho, depois comentaria, que era um caso, eu de olho fechado, ele sentindo minhas mãos lhe cortando, sem nenhuma faca ou bisturi, sentindo que lhe retiravam alguma coisa do estomago.

Agora ficaras dois dias aqui, avise aos teus homens que podem ficar do lado de fora, aqui não podem entrar.    Fiquei ali com ele esses dois dias, mãe Nice, lhe preparou uns caldos para se restabelecer.   Ao final, queria me oferecer dinheiro, muito por sinal, mandei uma Yao, buscar a professora da escola que ficava ao lado do Terreiro, lhe entreguei o dinheiro,  para comprar livros, cadernos para os garotos.

Mas esse dinheiro era para ti, soltou ele chateado.

Meu caro eu não preciso, nem fiz isso por dinheiro, mas estou de olho em ti.

Voltou outras vezes para lhe jogar os búzios.  Estava com problemas, uma outra facção queria seu espaço. 

Estas ficando velho lhe disse, sequer pudeste viver, te consigo aonde ficar, pegue teu dinheiro escondido, abra uma conta no banco com teu nome verdadeiro, te ajudo, mas me faça um mapa de aonde é o esconderijo dos traficantes, que passo para a polícia.

O ajudei, o apartamento que tinha em Copacabana, estava vazio, ele se escondeu lá por um bom tempo.  Os da facção contraria, foram presos, convenci o chefe de polícia a transformar esse local num posto de policiais, numa mais tivemos traficantes.   Exu Bara, logo dava com eles, os expulsando dali.

Quando acabei o curso, passei a ajudar meu pai na clínica, com o dinheiro que tinha herdado, melhoramos o local.  As pessoas só iam para o hospital, se não pudéssemos fazer nada lá.

Meu pai conhecia muitos médicos, a clínica foi aumentando, consegui trazer um dentista, para cuidar dos dentes dos garotos e das outras pessoas.   Quando queriam nos pagar, dizia que deviam dar dinheiro para a escola, agora sustentávamos dois professores.

Uma vez por semana o Gil subia, com algum livro, durante uma hora, lia para os garotos, como fazia comigo quando era criança.  Era divertido vê-lo fazer as muitas vozes dos personagens, um verdadeiro conta contos.

Lhe disse que era um Griots, que devia contar também a história dos Orixás, para que os meninos soubesse, quem os protegia.

Agora tinha menos tempo para a praia, se no domingo fazia um bom dia, ou mesmo chovia ia fazer meu surf, recarregar baterias como dizia.

Um dia me apaixonei, me cruzei com um francês que estava de férias, alguém lhe emprestou uma prancha estava fazendo surf, mas uma outra prancha lhe alcançou, o salvei como dizia ele,  fiz os primeiros socorros, quando chegou a ambulância, estava bem.

Dias depois apareceu lá em casa.   Eu estava saindo para a clínica, disse que ia junto assim conhecia essa parte do Rio, fomos conversando, nesse dia tínhamos problemas, o dentista tinha faltado, ele soltou que isso ele podia fazer, pois era dentista em Paris.  Pediu somente uma pessoa que traduzisse o que falava.   Limpava bem os dentes dos garotos, dizia para não comerem tantas porcarias.

Foi ficando, eu me fazia de desentendido, no primeiro sábado subiu depois de atender todo mundo com meu pai, eu já estava no terreiro.   Cuidando de alguma pessoa, ele chegou ficou me olhando de longe, jogar búzios, eu sempre o fazia embaixo da Mangueira.  Ele olhava fixamente a mesma.    Me perguntou quem eram esses que estava ali, olhando, falando comigo.

São espíritos que vivem nesta árvore, lhe expliquei o que era um Iroco.

Quando fui jogar os búzios, vi que ele era filho de Xangô com Iansã, mandei preparar um banho para ele, ele ficou com vergonha quando as Yaos lhe mandaram tirar a roupa,  mas obedeceu.

Quando se sentou, joguei para ele, fui explicando devagar o que devia fazer.

Esperava que me dissesse, que impossível, mas a sua pergunta me pegou de calças curtas, se ele poderia ficar trabalhando na clínica, indo ao terreiro, bem como fazer surf comigo, quero viver uma vida contigo.

Ri, nunca tinha sequer beijado ninguém na minha vida. Vi que o Exu ria, deixa de ser banana, aceita.

Ele disse que tinha que ir a Paris, fechar seu apartamento, bem como pedir demissão da clínica que trabalhava.   Se eu queria ir junto com ele. 

Não sabia o que responder, dinheiro para isso tinha, mas medo de me afastar das minhas obrigações.   Lhe disse, vais fazes o que tens que fazer, quando estiver tudo resolvido, me avisa que eu vou, passo uns dias contigo lá.

Mas antes de ir embora, dormiu uma noite lá em casa, lhe disse que nunca tinha feito sexo com ninguém, que fosse devagar comigo.  Tinha as janelas do quarto aberta, chegava o cheiro da Maresia lá em cima.  Foi emocionante, fiquei apaixonado por ele.  O levei ao aeroporto no meu velho fusca.   Quando me avisou que tinha tudo resolvido, eu já tinha passaporte para ir, fui cagando de medo, mas fui.   Passamos uma semana, ele me mostrando o Paris que amava, foi fantástico.

Quando voltamos, se instalou lá em casa, era um mais na família, em breve falava português, pois era aluno do Gil.    Quem não gostou muito foi minha avó, pois nunca tinha tido na família nenhum gay.  Mas Gil como sempre fez sua cabeça.

Um dia ela não despertou, eu já sabia, mas tinha a obrigação de ficar calado, na última semana me sentava para conversar com ela, relembrando minha infância.   Eu lhe dizia que sem ele, o Gil, nem sabia o que seria. 

Ele ficou desconsolado, pois era o grande amor da sua vida, passou a dedicar mais horas a escola da favela.  Subia conosco de fusca, na escadaria, sempre tinha um bando de garotos lhe esperando.  Ia cobrando se tinha lido o capítulo do livro do momento, iam todos discutindo o que pensavam e sentiam. Quando chegava o final do ano, ele entrava na luta com os professores, para conseguir escola para os que queriam seguir.   Ajudava com tudo, dizia que o dinheiro que tinha era para isso, ajudar, ele não era de luxo.

Muita gente agora, de mais poder aquisitivo, vinha me consultar, eu não cobrava, mas mãe Nice, mostrava o que fazíamos pela escola, com a clínica, as pessoas se quisessem podiam doar dinheiro. Mas colocavam o que queriam numa caixa de madeira, como se fosse um porquinho de economia.

Com isso, meu pai, conseguiu que um amigo, de um hospital, lhe comprasse um scanner, para a clínica. Isso iria ajudar muito, lá fazíamos o mesmo, se a pessoa quisesse dar algum dinheiro, isso era com ela, uma caixinha também.

Jean Coulier, meu namorado, se preocupava muito com os garotos, com os mais velhos, para poder regularizar sua situação, tinha que ter um bom salário, isso resolvemos entre todos.  Breve Gil conseguiu que tivesse documentos brasileiros.   Ele parecia mais um entre todos.

Mas gostava imensamente de fazer surf comigo, erámos completamente diferentes, ele loiro, branco, olhos verdes, eu mulato, loiro, olhos azuis, chamávamos atenção em todos os lugares.

Os garotos diziam que tratar de dentes com ele era fácil, não dava medo.

Ele começou a se preparar para Xangô, quando foi raspado por pai Gregório, esse ficou contente, pois era filho de Xangô também.   Eu lhe ajudei.

Entre nos dois, havia um entendimento impressionante, bastava nos olharmos, para saber o que o outro queria.

Quando fiz 35 anos, estava jogando, para um homem, mas só via sangue, não entendia, pois nada tinha ver com esse senhor, lhe pedi desculpa, alguma coisa está interferindo no jogo.  Jean tinha ido para casa, pois estava com uma gripe forte, lhe tinha colocado no taxi.   Mas a tragédia aconteceu quando desceu do taxi, a polícia vinha perseguindo um bandido, quando uma bala lhe atravessou a cabeça, caiu morto ali mesmo.   Eu no terreiro dei um grito horrorosos, pois vi tudo, não podia acreditar.

Ele não tinha família na França, o enterramos no mausoléu da família, ali no São João Batista, a garotada que ele cuidava, desceu toda, foram de ônibus ao enterro.  Tinha muita gente, nem sabia que ele era tão querido, Pai Gregório, ficou abalado, pois o tinha como um filho, bem como o Gil.

Eu fiquei meio perdido, mas tinha que seguir em frente.  Me dediquei corpo e alma, ao terreiro, ao consultório, tínhamos que encontrar outro dentista, não foi fácil, quando viam aonde era o consultório, apesar de bem montado, queria fazer dinheiro rapidamente.

O pior era ir fazer surf sem ele, as vezes ficava chorando, perdendo a onda perfeita.

Exu me dizia que pelo menos tinha tido uma vida juntos felizes, mas que era coisas que aconteciam.

Mas o dia que o vi no Iroco, fiquei imensamente feliz, ali podia conversar com ele, me aconselhava em muitas coisas.  Pois sabia quem eu era.   Um dia me disse, vai aparecer uma dentista, ao primeiro momento não gostaras, mas lhe dê uma oportunidade.

Realmente, apareceu uma mulher, de seus 40 anos, era francesa também, estava a muitos anos no Brasil, disse que tinha ido de um lado a outro com ONG, mas que no fundo ninguém era sério suficiente.  Que acabava descobrindo coisas que não gostava.

Lhe disse que não erámos uma ONG, mas nos sustentávamos com uma herança que estava aplicada, quanto lhe podíamos pagar.   Ela pediu para ficar um tempo, os meninos a comparavam com Jean, mas teve paciência, em breve dominava todos eles.

Ela tinha um apartamento alugado no Flamengo, mas conseguiu um pequeno ali no Grajau.

Ensinava francês na escola para os meninos.   Ajudava as professoras no que fosse possível, um dia me soltou, encontrei finalmente o que queria.   Já me caia muito bem.

Se dava muito bem com meu pai, quando estava livre ajudava a ele.    Acabaram indo viver juntos lá em casa.   Era muito mais jovem do que ele, mas se entendiam de maravilha.

Ela não tinha mais idade para ter filhos, mas adotaram uma garota que era uma excelente aluna dela, lá do morro.   A família era imensa, não conseguiam manter todos, concordaram que a filha fosse adotada por eles, dois.

A garota me adorava, me chamava as vezes de Ernesto, outras vezes de Oribara.

Um dia saindo do apartamento, encontrei com minha verdadeira irmã, riu quando viu que ia entrar no carro.   Veio me perguntar se não podia ajudar seu filho, precisava que fizessem um trabalho para ele, para conseguir um emprego, para ganhar muito, sem ter que trabalhar tanto.

Ri, sinto muito, mas não faço essas coisas.

Foi quando soltou que eu tinha matado a mãe dela, outras sandices no gênero. Entrei fusca, me mandei.   Comentei com meu pai, o assunto. Tornamos a conversar a respeito.   Ela nunca tinha aceitado o casamento da mãe dela.

Dias depois apareceu um rapaz no terreiro, disse que queria conhecer o tio dele, que tinha colocado sua mãe no seu devido lugar.

Ela quer, porque quer que eu seja um funcionário público, odeio a ideia, sou músico, não gosto nem de imaginar trabalhando numa repartição pública.

Joguei os búzios, vi que trabalhava com percussão, passou a ser, Ogan, tocava os atabaques justo como gostava o Exu.   Este o ajudou.

Ela tornou a aparecer furiosa, como eu podia ter feito isso, era para me vingar dela. 

Minha irmã, foi ele quem veio aqui, nem sabia que era teu filho, a escolha foi dele, não minha, é um homem adulto, pode escolher o que queira de sua vida.

Aos domingos, vinha fazer surf comigo, logo se apaixonou por uma dessas garotas, que ficam seguindo os surfistas, me perguntou o que eu pensava.   Lhe respondi, perguntando o que ele queria.

Conforme a resposta fui franco, então estas no barco errado.   Ela pensava que ele vivesse no apartamento que vivíamos nos, quando lhe disse que não, que era meu, não dele, simplesmente tirou o corpo de fininho.  

Não se preocupe, logo aparecera alguém que te ame verdadeiramente.   Escutava muito o Gil, esse insistia que entrasse para a escola de música, tanto falou que ele acabou entrando para dois cursos.

Houve um hiato de paz, em que todos conseguiam fazer seu trabalho, Oribara, cuidava de todos, a clínica funcionava bem, seu pai e Jeannete se relacionavam bem.   Ela foi chamada de surpresa ao consulado francês, foi sem saber por quê.  Dizia que a anos não tinha notícias de seus familiares, acreditava que tivessem mudado de cidade.

Era justamente isso, uma tia cuidava de um irmão que tinha, nasceu quando ela basicamente era adulta, quando saiu do pais, ele era um garoto, dava muitos problemas, era autista. Mas seus pais achavam que ela tinha que viver sua vida.

O jeito era ir busca-lo, meu pai foi junto, nunca tinha saído do pais, foi toda uma aventura, demoraram mais tempo, pois além dos papeis que tiveram que resolver, estava o pior ganhar a confiança do garoto, ou melhor um rapaz de uns 16 anos.

Quando chegaram, fui busca-los, no aeroporto, para surpresa de todos, foi direto em minha direção me abraçando.   Me chamava de Baba, na hora não entendi, em casa depois de faze-lo descansar, pois não queria sair do meu lado.   Mãe Nice que tinha um jeito especial, fez com que tomasse banho, depois comesse.   Jeannete, lhe perguntou como conseguia.

Sei não, soltou, paciência talvez.   Outro que tinha uma paciência incrível com ele, era o Gil.

Ele só queria nós dois, depois que descansou, subi para o terreiro, ele desceu do carro, correu a abrir a porta, em seguida foi até o Iroco, o abraçou, para surpresa de todos começou a falar em Yoruba.  Até que vi com quem falava, com meu Exu.

Ele me disse que ias cuidar de mim, que não me preocupasse.   Ou seja, simplesmente ele conseguia ver os orixás. Estendia a mão a cada um, quem olhasse de fora, via somente sua mão estendida, mas os orixás o abraçavam.

Estava feliz, passou a ser como meu filho, ao mesmo tempo minha sombra, aonde eu ia, ele ia atrás, bem como mãe Nice, que conseguia que tomasse banho logo pela manhã, depois comesse direito.  Tinha lhe feito um exame estava meio desnutrido.

Mas o melhor, quando o levei comigo para surfar, parecia que sempre o tinha feito.  O mar era para ele como sua casa.   Não permiti que os outros surfistas fizessem gozação com ele.

Josi como o chamávamos, ao contrário do esperado, começou a falar, a conversar, conseguia ter um vocabulário, imenso.   Falava com Jeannete, conversava sobre a tia, que basicamente o tinha criado, quando o levamos a uma escola, a professora se surpreendeu, pois sabia ler e escrever corretamente, agora iam lhe ensinar português.   Não sabemos se por associação, mas uma professora negra se tornou sua mentora, aprendia tudo com ela.

Eu o levava, depois mãe Nice ia busca-lo, no verão ao meio-dia, fazíamos um pouco de surf, ele chegava em casa eufórico, se as ondas tivessem sido boas. Outra pessoa que ele adorava era a mulher do João da portaria, a Dejanira, essa tinham uma paciência imensa com ele.  Um dia o levou a feira, foi lhe ensinando em português o nome de todas as frutas e legumes.

Voltou feliz da vida, foi repetindo para mãe Nice tudo que tinham comprado.   Adorava as frutas tropicais.

No sábado, quando me levantava, já estava em pé, vestido de branco para ir para o terreiro, lá ia direto para o Iroco falar com os seus amigos.   Depois se sentava ao meu lado, quando eu dizia que a pessoa devia tomar um banho de descarrego, se fosse homem, ele mesmo acompanhava para isso.  Nunca o vi fazer uma brincadeira com isso.   Um dia apareceu um homem muito perturbado, quando pedi que tomasse um banho se revoltou,  depois escutamos uns gritos, tinha avançado em cima do Josi, quase cai de porrada em cima dele.

O homem soltou que adorava jovens assim perturbados, para abusar.   O escorracei do terreiro, agora tinha que tomar cuidado, pois as vezes o via espreitando o Josi.   Avisei a polícia, fiz  uma denúncia por acosso.    Mas como sempre no Brasil, essas coisas não funcionam.

Não o deixava sozinho nem um minuto, pedi aos orixás que o protegessem.  Um dia ele estava limpando a parte de baixo do Iroco, retirando as oferendas antigas, o faziam muito sério, com toda dedicação possível,  eu estava jogando búzios para uma senhora, só escutei um grito, corri, o homem tinha entrado, tentado agarrar o Josi, mas algo aconteceu.  O homem estava aterrado, do chão olhava para cima gritando, tirem esse negro de cima de mim. Chamei a polícia, não ia dizer que o Exu, o tinha jogado longe além de estar com o pé no peito dele. Como ele falava que o negro feio tinha um pé no seu peito, gritava como um louco, ele vai me matar.  Os policiais o deram por louco, o internando.  Cada vez que ele ficava melhor o Exu lhe fazia uma visita, dizia que tinha sido o único jeito de o afastar dos jovens.   Disse que ele abusava de rapazes com alguma síndrome, para poder controlar.

Um dia no Pinel, aonde estava, tentou abusar de um jovem, esse era muito forte, arrebentou sua cabeça.   Tinha ido mexer com um que tinha problemas de violência.

Josi, só disse depois, tenho que agradecer aos meus amigos, me defenderam.   Fez ele mesmo tudo, arrumou num alguidar, frutas para os orixás.   No terreiro nunca havia matanças, nada do gênero.

Quando aparecia alguém que pedia para fazer uma matança para seu santo, eu o convencia a fazer outra coisa mais simples.

Agora Josi, basicamente sabia quando eu estava jogando, se ia recomendar algum banho, ou mesmo oferecer ervas para a pessoa colocar na sua casa.  Quando me dava conta, lá estava ele com um amarrado já das ervas.

Vi que prestava atenção no jogo.   Comecei a lhe perguntar o que via, mas o fazia em Yoruba, ele me respondia perfeitamente.   Falei com pai Gregório, ele se ria muito, esse garoto promete.   Um dia me disse que queria fazer uma faculdade, tinha acabado seus estudos, lhe perguntei o que?

Sabe Oribara, quero falar perfeitamente o Yoruba, devíamos ir a Africa para aprender direito.

Tirei umas férias, fui com ele, além de meu pai, Jeannete, fomos a Nigéria, recomendados por pai Gregório.  Gil queria ir, mas a idade lhe pesava, ficou com a mãe Nice.

Ficamos uns dois meses, o mais interessante, que ele entendia os que falavam acrescentando um estalo com a língua, ou uma letra a mais na palavra, as traduzia perfeitamente.

Os professores ficaram intrigados, quando percebiam que ele era autista, mas se desenvolvia perfeitamente no meio dos Orixás.

Um dia corrigiu um babalaô que tinha entendido errado o que o Orixá tinha falado.  Este a princípio não gostou muito, mas o Orixá lhe chamou a atenção, que o garoto sim tinha entendido certo.

As vezes até a mim, corrigia, eu aceitava de bom grado isso, me explicava o que significava a palavra.

Um dia me disse que seus sonhos, tinham sido realizados, estávamos os dois fazendo uma série de exames médicos, pois sempre os fazia, agora incluía ele comigo.  Enquanto esperávamos o resultado para dias depois.  Me soltou isso.   Graças a ti e aos Orixás meus sonhos se cumpriram, já não tenho nada a fazer aqui.  Vim pagar uma dívida, só não sabia que sairia ganhando.   Na hora não entendi, mas no dia seguinte achei estranho, pois ele sempre me chamava para dizer que o banheiro estava livre, que estava atrasado, cheguei a seu quarto, como que dormia placidamente.  Tinha morrido durante a noite.  Inclusive isso, tinha previsto sua morte.   Quando me chamaram para o resultado dos exames o médico disse que tinha uma atrofia no coração, que devia ter sido operado a anos atrás.   Mas claro era tarde.

Mais uma vez fiquei abalado, pois era a pessoa mais cerca de mim, era o filho que nunca teria.   Mas abalado mesmo ficou o Gil, o tinha como outro neto.  Além de não ter idade mais para esses sustos.   Não ficou deprimido, porque para ele a morte era um descanso, estava beirando já os 100, lhe era muito difícil ir a escola contar seus contos para a garotada, cada vez mais estava agarrado comigo.

Eu chegava, me chamava para sentar com ele na biblioteca, todos os meses, me fazia ouvir um balanço do dinheiro aplicado, me explicava, como dizendo, um dia terás que tomar a frente disso.   Eu ficava impressionado com a sua lucidez.  Nos dias que estava de baixo astral, pela perda do Josi, me consolava.  Eu já perdi tanta gente, mas o que mais me tocou foi perder tua avó.   Com ela eu tinha um ombro para me apoiar.

Embora soubesse que nunca lhe faltaria nada, colocou na cabeça de se casar com a mãe Nice, lhe explicou mil vezes que era para que ela tivesse sua pensão de aposentado.  Falou tanto que ela aceitou.  Se casaram pelo civil, mas ela continuou vivendo no pequeno apartamento na dependência de empregados, dizia que não precisava de muito.

Mas quando ele morreu, foi sem querer um bofetada na cara de todos, pois estávamos acostumados com ele, estava me recuperando da morte do Jose, mais essa paulada foi demais.

Conversei com os Orixás, tirei uns 15 dias, não queria viajar, mas sim relaxar.   Passei basicamente esses dias todos na praia fazendo surf.

Fomos chamados pelo seu advogado, mas sem muitas surpresas, ele em vida tinha passado o apartamento para meu nome, eram mais coisas que deixava para a escola, dinheiro para que ela se mantivesse.  Sua grande preocupação tinha sido sempre o depois, quando esses garotos entrassem na secundaria, os poucos que chegavam a Universidade.   Sempre tinha ajudado a todos.   Deixava meu pai bem como a Jeannete a controlar tudo isso.

Para mim deixou uma carta belíssima, falando que fui o filho, o neto que ele sempre quis.

Jeannete quer queira quer não tinha se apaixonado pelo irmão, embora a filha dos dois ia crescendo, amadurecendo, sentia a perda do irmão que nunca conseguiu se aproximar totalmente, como eu consegui.

Um dia saindo da praia, tinha estado ao longe, vendo uma pessoa de roupas normais, com um chapéu na cabeça, ali parado na sombra de uma árvore.   Quando sai, se aproximou de mim.

Perguntou se eu era o Ernesto da Silva, que tinha sido amigo de Jean Coulier.

Sim, por quê?

Ele foi meu melhor amigo, quando vocês estiveram na França, eu trabalhei para o exército no Mali, então não pude vê-lo, mas me escrevia constantemente, falando de ti.   Após todos esses anos, dei baixa no exército, resolvi ver o que tinha apaixonado meu amigo neste pais.

O convidei para ir até em casa, falava um português arrastado, mas quando viu a Jeannete, logo soltou-se, a conhecia.   Ele tinha feito universidade com o Jean, ficaram amigos inseparáveis.    Mas ele para sobreviver, entrou para o exército, como médico.

Ficou encantado com a clínica que tínhamos, quando lhe perguntei aonde iria no Brasil, me soltou na cara, eu só vim te conhecer e o que fazia meu amigo aqui.

Subi com ele até a escola, depois o levei ao terreiro para conhecer pai Gregório.   Ele ao entrar ficou olhando o Iroco, que pensei, essa árvore realmente atraia todo mundo.  Foi até ela se inclinou, ficou ali rezando, numa língua que eu não conhecia.    Logo vi sair da árvore, um orixá diferente, tinha a cabeça mais alongada.

Depois me explicou que tinha ficado tanto tempo no Mali, pois além de trabalhar para o exército, tinha um auxiliar ao que ensinava tudo que podia, que era do povo Dogon, na primeira oportunidade me levou até eles.  De ir de turista, passei a ir de médico, atendendo o que fosse possível, eles me iniciaram no contato com os espíritos.

O que me acompanha, é um dos espíritos de Sirius, o planeta que veneram.    Me disse que um dia eu devia vir te conhecer, para encontrar o que necessitava na minha vida.

Os dois tinham largas conversas, regulavam de idade, acabaram se apaixonando um pelo outro.   Garcez, como se chamava dizia o Jean falava nisso, que essa paixão nasceu no momento que te viu, comigo foi igual, quando saíste da água, pensei, ele é um deus de Sirius, a agua é teu elemento.

Ficou vivendo comigo, me ajudando na clínica, principalmente quando meu pai foi se afastando gradualmente pois reclamava que estava ficando velho, precisava descansar, depois tivemos que conseguir outro dentista, pois a Jeannete queria ficar ao seu lado, vendo a filha deles crescer.

Os dois nos tornamos unha e carne, nunca nos largávamos, estava sempre ao meu lado, era meu outro eu.  Assim seguimos até hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lunes, 28 de diciembre de 2020

SEVER SEPARAR

 

                                                    SEVER  -  SEPARAR

 

Joseph, despertou com um mal humor incrível, isso sempre acontecia depois de um tratamento contra um câncer, hoje estava curado, mas conforme a posição que dormia, ou se estava cansado ao despertar era o mesmo.

Esteve escrevendo até as três da manhã, um artigo que sobre sua última viagem a Israel, quase foi expulso do pais.   Sem querer começou a rir, pois se lembrou da cara dos agentes que o tinham levado ao aeroporto.

O assunto não interessava a ninguém, isso entre parênteses, nem ao governo de Israel, nem ao Vaticano, tinham encontrado um pequeno cemitério, durante as escavações de um monte, para poder passar uma estrada.   Nele se encontrou três sepulturas, uma tinha o nome de Jesus, outra José de Arimathea, a última de Maria.   Como estavam todas juntas, deu o que falar, ele disfarçado de funcionário das escavações, conseguiu fotografar.  No momento que se descobriu os nomes, é a data dos enterramentos, a coisa complicou, manteve sua fachada de funcionário, até que ao final, resolveram mudar o rumo da estrada, dando uma volta maior.   Seriam necessários anos para estudar o local.    Foi quando descobriram que ele não era funcionário, mas era tarde já tinha fotografado tudo.    Só não descobriram aonde estava o cartão da máquina fotográfica.   Quando a recolheram, estava vazia.

O fizeram ficar totalmente nu, diante de todo mundo, só de tênis e meias.              Idiotas pensou, estava colada na sola do seu pé.   Mal lhe deram tempo de recolher suas coisas no apartamento que tinha alugado em Jerusalém.  O levaram direto ao aeroporto, inclusive nem precisou pagar a passagem.

Mas quando chegou a NYC, a coisa ficou preta, pois começou a se sentir mal, foi para o hospital, aonde o câncer apesar de ser mortal, estava começando.  Achavam que ele tinha estado exposto a material radioativo.   Na camada superior do enterramento, tinham descoberto bombas antigas da guerra do Yom Kippur, que começou em 6-10-1973 a 24-10-1973, uma das múltiplas guerras rápidas dessa região.    O médico que o atendeu acreditou que podia ter sido isso.    Ele tinha fotos dessas bombas, todas corroídas, por um vazamento de esgoto, numa camada superior.  Soube depois que todos que tinham estado ali, tinham problemas.

À semanas, que para se ocupar, que ele olhava as fotos, analisando, ampliando algum detalhe.  Ainda não se sabia o fecha exata dos enterramentos, mas como sempre, se diriam que era de algum período antes ou muito depois de Cristo.

O Vaticano não tinha feito nenhum comunicado a respeito,

Estava embaixo do chuveiro, um lugar que as vezes usava para pensar, ali parado com a água escorrendo pelo seu corpo.

Quando saiu seu celular não parava de tocar, viu de quem era a chamada, a bendita secretaria do seu chefe.   Mas se vestiu tranquilamente, seu uniforme de campanha como chamava, uma calças jeans velha, bem como uma camiseta, como era inverno, roupas que usavam os esportistas, uma malhas que protegiam o corpo, colocou por cima uma camiseta de gola alta negra, tirou a jaqueta de couro macio do cabide atrás da porta de entrada.   Estava vestindo a mesma, procurando com os olhos um cachecol que tinha deixado por ali.  O encontrou, era daqueles típicos usado pelos árabes e judeus.

Atendeu o celular dizendo que já estava saindo de casa, logo na esquina entrou no Subway, em direção ao Jornal,   desceu duas estações depois, comprou café forte num Starbucks, grande, o café do Jornal era uma merda.   O tomava forte, sem açúcar para despejar a cabeça.

Subiu no elevador se deliciando do mesmo, quando chegou na última planta, já tinha basicamente bebido tudo.     A secretária do diretor, fez sinal que teria que esperar uns 15 minutos, colocou os auriculares,  ficou andando pela sala de espera, fazendo anotações no seu celular, mas falando em árabe, sabia que as outras pessoas ali não falavam essa língua.

Ele ao contrário, falava perfeitamente o hebreu, árabe, alemão, Frances, além do inglês é claro.

Pontos que devia agora revisar no texto que estava escrevendo.

Quando finalmente entrou, viu que junto com o diretor estavam mais duas pessoas.  Uma entendeu imediatamente quem era, o Cardeal de NYC, já sabia por aonde iam os tiros, mas de uma certa maneira, era uma pessoa razoável, pois o tinha salvado de algumas intrigas claves para sua carreira.

Lhe indicaram que se sentasse.   O cardeal perguntou como ia de saúde?

Bem, é os funcionários do Vaticano que estavam nas escavações?  Sobreviveram ou morreram para esconder tudo do mundo.

Tu como sempre direto ao assunto, verdade.    Vou ser como tu, queremos que o jornal não publique tua história.

Como?

Isso mesmo, pode fazer muita confusão nos nossos religiosos, bem como a maioria dos católicos.

Imagino que sim, descobrir que viveram em cima de uma mentira tão grande,  Deus nunca os perdoara, começou a rir, não podia parar.

Viemos discutir como podemos transformar tua reportagem numa coisa amena.

Bueno, podemos discutir, ou melhor talvez eu sequer publique, para não sofrer as maldições dos católicos.

Antes que me façam uma proposta, faço uma contraproposta,  quero uma entrevista com o Monsenhor Julius Rivera.   Se me deixam falar com ele, perfeito.

O cardeal o ficou olhando, soltando em seguida, por quê?

Assuntos pessoais, eminência, assuntos pessoais, nada mais.

Tinha descoberto depois de ver o Monsenhor numa reunião em Jerusalém, que eram idênticos, queria saber se ele era seu irmão gêmeo que tinha desaparecido.

Vou tentar, mas não prometo.  Se levantou, estendeu a mão para os homens que ali estavam beijarem, mas ele quando muito apertava a mão.   Nem a de seu finado pai tinha beijado, quanto mais de um cardeal, que não sabia aonde a tinha colocado antes.   Tampouco se inclinou, olhando bem em seus olhos, disse, se não consegues vou publicar de qualquer maneira.

Saiu da sala, foi para a sala geral dos repórteres, com seu chefe nos calcanhares, como ele tinha ousado a fazer chantagem com o Cardeal.

Da mesma maneira que ele faz chantagem comigo, contigo, com todo mundo, não se esqueça que tenho podres suficiente dele, bem armazenado.

Precisava falar com o filho de um dos jornalista que trabalhava ali com ele.

Passou pela sua mesa, este se levantou, não tinham se visto ainda, depois do seu problema, tinha ido ao hospital, mas ele não queria receber visitas.

Filho da puta, fui te visitar, me disseram que não querias receber visitas.

Meu caro, imagina o mal humor que tinha, a não ser que viesses com uma garrafa do melhor whisky, aquela que bebe escondido, aí talvez te recebia.

Preciso do celular do teu filho, preciso de uma ajuda dele com um problema do computador, ele nisso é um dos melhores.

Olha lá em que vai meter meu filho?

Deixa de ser um pai pesado, o rapaz tem 25 anos, já sabe pensar por si só, podes ou não me dar o contato com ele.

Escreveu num papel, lhe passando o número.

Nem foi a mesa que sempre usava, na biblioteca do jornal, simplesmente foi em rumo ao elevador.   Tinha jogado um blefe com o Cardeal.  Ainda não tinha nada escrito.

Tinha sim feito uma cópia das fotografias todas, guardado as mesmas num cofre forte do seu banco,   ali usava duas caixas das grandes, cheias de documentos, depois que tinham entrado em sua casa, era o melhor a fazer.

Tudo que tinha sobre o Cardeal, estava bem guardado.

Falou com Angel, marcou com ele, num dos lugares que gostavam de comer.

Nunca poderia falar com o pai dele, já dormi com teu filho, além de ter 25 anos, tem um bom piru, é fantástico na cama.    Tampouco podia dizer que no dia que tinha ido visita-lo, estava lá com ele.

Adorava o rapaz, embora tivesse quase 50 anos, nunca tinha tido um relacionamento como esse, os dois respeitavam o espaço um do outro.  Mas antes de tudo eram amigos, ele o tinha incentivado a seguir o que gostava, o pai queria que fosse jornalista, mas ele era um apaixonado pela informática.   Lhe sugeriu que fizesse as duas coisas, pois o futuro do jornalismo estava na informática. 

Como ele dizia, o FAKE, um dia tomaria conta do jornalismo, nunca mais iriam saber o que era verdade ou não no mundo.  Como ele brincando dizia,  No News, Fake News .

Enquanto esperava, se lembrou da historia do seu irmão, só ficou sabendo dela, quanto tinha uns 12 anos,  tudo por causa de um mal entendido.   Estavam os dois no berçário do hospital, um bebê que estava ao lado deles, morreu, a enfermeira sem querer colocou seu irmão nesse berço, de noite seu irmão desapareceu.

Nunca encontraram quem tinha feito isso.

Seus pais eram judeus, mas nunca iam a sinagoga, tampouco faziam qualquer festa judia, nem visitavam parentes próximos.   Moveram céus e terras, mas nunca encontraram seu irmão.

A mãe da criança morta, tinha também morrido no parto, portanto nada a ligava a ninguém, não tinha documentos.

Quando ele viu o Monsenhor Julius, em Jerusalém, teve que ficar quieto, eram idênticos, abaixou mais seu  boné, caso ele lhe olhasse, poderia destruir o trabalho que estava fazendo.

Tinha pagado um bom preço, para estar no lugar do homem que tinha substituído, para participar das escavações.

Quando Angel chegou, viu que estava mergulhado no fundo de sua cabeça.    Sentado no final do restaurante, assim podiam ver quem entrava ou saia, eles mesmo podia escapar pelos fundos.

Se beijaram no rosto, Angel pediu um café, ele já estava tomando um, que por acaso estava frio.

Como estas, te vejo estupendamente, creio que podíamos comemorar, com uma noitada especial.

Deixas de ser sem vergonha garoto, ficou rindo olhando seus olhos, quando querias apareça.

Bom preciso de um grande favor teu.   Preciso que descubra tudo sobre Monsenhor Julius Rivera.  De aonde saiu esse homem, se é seu nome verdadeiro, como sempre, até o cheiro do peido que dá.

Meu pai me disse que hoje tinham uma reunião com o Cardeal, eu lhe soltei que com certeza tinha relação sobre tua estadia em Jerusalém.

Lembra-se comentei contigo no hospital, é um assunto delicado.    Não creio, que o jornal queira publicar, mas pensava ir por fora, uma vez tu me disseste que deveria ter uma pagina na internet, com todos os artigos que nunca foram publicados, ou por pressão do governo, ou mesmo de alguma agencia ora o FBI ou CIA.

Estou pensando seriamente nisso, como agora poderia ter morrido, tudo isso está guardado numa caixa forte no banco.   Te deixarei de herança, assim publicas tu.

Ficaram conversando sobre isso, claro posso montar o site para ti.  Mas o faria de uma maneira que nunca iriam encontrar de aonde saia as publicações.

Rindo soltou, podemos trabalhar em tua casa, assim ficamos mais resguardados, mas claro antes teríamos que passar um rastreador para saber se não tens escutas.   Preparar o apartamento.

Acho melhor o seguinte, tenho no último andar do edifício, um pequeno studio, ninguém sabe que é meu, o comprei de uma senhora que precisava de dinheiro urgente, mas continua como se fosse dela.

Perfeito, até podemos montar uma antena para captar tudo em volta, faríamos a publicação do teu site aos quatro ventos.

Acho boa a ideia, estou meio farto do jornal, não quiseram pagar a conta do hospital, dizendo que eu ia por fora.   Por fora agora irei eu.

Quando terminaram de almoçar, se despediram, ele saiu pela porta detrás, não queria ser visto juntos.  

De noite Angel apareceu, com um pen drive.  Vamos olhar, tem tudo que eu consegui.

Monsenhor era natural de Monterrey, California, filho de dois emigrantes mexicanos, o pai morreu de um câncer complicado, levou anos enfermo.  Quando o pai morreu, entrou para um mosteiro, daí foi subindo, dizem que é super inteligente.   A mãe é viva, continua vivendo na mesma casa.    Ele foi para Roma fazer um curso, ficou por lá, já serviu a dois papas, ao último serve como carmelengo, dizem que será nomeado em breve Cardeal.

Ele se ocupa de todos os assuntos delicados do papa, controla tudo na cúria.

Depois de olhar tudo, inclusive coincidia a data de nascimento, os dois tinham nascido no mesmo dia, segundo um registro tinha nascido em casa.

Imprimiu cópia disto, na época os pais viviam na mesma cidade que seus pais.

Foram dar uma olhada no apartamento, é perfeito, soltou o Angel, podias emprestar para que eu pudesse montar meu local de trabalho, pois outro dia meu pai quase entrou na garagem que uso.

Estendeu as chaves, todo teu, rindo o beijou.

O Sexo entre eles era estupendo, se completavam, apesar da diferença de idade, a coisa ia bem, ele estava tomando todo o cuidado com o Joseph, para não tocar nenhuma das cicatrizes que tinha da operação.

Amanhã mesmo de noite começo a trazer tudo.

Pode ser que eu tenha que ir de viagem.  Nessa noite comprou por internet um bilhete para Roma, mas usando um dos seus documentos falsos, quando ia fazer algo diferente sempre usava um dos seus alias.

Justo no dia seguinte, quando estava no Aeroporto, o Cardeal lhe chamou, para dizer que dentro de dois dias poderia entrevistar-se com o Carmelengo. 

Agradeceu, não vai se arrepender.

Quando chegou a Roma, buscou um hotel pequeno, limpo, barato pela zona do Trastévere, um B&B – Trastévere House,  ficou num térreo, apesar de mais barulhento, tinha duas saídas, uma pela entrada, outra logo atrás do quarto, saindo pela cozinha.

Saiu vagabundeando pela cidade, mas no fundo, se dirigiu ao Vaticano, mais parecia um turista, com sua pequena câmera fotográfica, pendurada lateralmente ao corpo.   Na mochila levava blocos para escrever, uma vez que lhe roubaram esse bloco, devem ter-se se rasgado segundo ele, tinha feito um curso de taquigrafia, tinha uma maneira toda própria de escrever.

Se encostou numa coluna, por aonde passavam os carros que saiam do Vaticano, ficou escutando a conversa dos guardas.  Tinha em seu poder conseguido por Angel, um mapa do interior do Vaticano.

Depois de comer numa Tratoria, muito bem por sinal, estava cheia de pessoal que trabalhava na Cúria, nada de muito importante, até que chegaram duas mulheres, estavam nervosas, uma delas falava justamente de Julius Rivera, tinham levado uma bronca dele.   Imagina, me pediu para localizar o jornalista que estava nas escavações, disfarçado,  mas nem seu Jornal, tampouco em sua casa, como que desapareceu no ar.  Me pediu informações a respeito desse homem, mas claro só existem artigos que escreve para os jornais.   Todos polêmicos com certeza.    Me pediu alguma informação intima do mesmo, mas não existe fotos claras sobre ele.

A única coisa curiosa, é que nasceu no mesmo dia que o Carmelengo.

A mim sempre me tratou como seu eu fosse uma inútil, bom nos duas sabemos que essa historia da caridade, todas essas coisas da igreja não passam de balelas.   É grosseiro, duro, só tem um ponto em seu favor, não é hipócrita.    Defende o Santo Padre, como se fosse um guerreiro Ninja.

Tinha gravado a conversa das duas, no celular.  Para colocar em algum texto,

Quando saíram, foi atrás, para ver por aonde entravam, por uma porta lateral, de uma rua pouco movimentada.   Não pode se aproximar muito, porque justo ali, estava um homem com um aspecto lamentável.   Mal elas entraram, se endireitou todo, saiu andando normalmente.

 Filho da puta, passou pelo mesmo, como não quer nada, passou por ele, esbarrou, lhe roubando o celular.

Quando conseguiu entrar viu que tudo estava escrito em  russo, bem como as conversas que tinha com alguém.   Um espião russo que vigiava os funcionários, interessante isso.

Dois dias depois se celular avisou da entrevista, fazia muito frio, se abrigou bem, não levava nada nos bolso, a não ser um bloco para escrever, um porta minas de grafite, assim sabia que poderia usar.   No porta minas, a ponta superior, era na verdade um micro que gravava tudo, inclusive se a pessoa entrevistada falava por celular, guardava o número.

Estava preparado, chegou pontualmente na hora combinada, o foram levando por mil escadarias, bem como corredores.   Foi memorizando tudo.  O mandaram se sentar, o deixaram esperando pelo menos meia hora, mas não reclamou, foi prestando atenção em todas as conversas,   a maioria tentava falar com o Carmelengo para uma entrevista com o papa.

Finalmente o chamaram, um sacerdote com uma cara de azedo, perguntou o que queria saber do Camerlengo, disse que era um assunto a pedido do Cardeal de NYC.  Amigo particular do  Carmelengo.

Mal entrou, este estava sentado de costa, lendo um papel.

Quando se virou, ficou de boca aberta, era como se olhar num espelho.   Levou uns minutos para reagir, lhe deu todo tempo do mundo.

Quem é o senhor?

Uma larga história,  quando vi o senhor em Israel, pensei, se parece tanto comigo, que deve ser o irmão gêmeo que tive, que roubaram do berçário do hospital.

Não nasci num hospital.

Pediu licença o levou com ele até um espelho que estava ali.   Era cópia exata um do outro.

Contou o que sabia, que seu irmão tinha sido trocado de berço, que o bebê que estava ali, tinha morrido, que o roubaram.   A mulher que tinha parido o nato morto não tinha documentos, mas era mexicana.    Nunca descobriram quem era o homem que estava com ela, tampouco se ele levou a criança.

Hoje temos um exemplo ecumênico, tu um católico, eu um judeu, ateu.

Julius estava com a boca aberta.  Eu passei a vida inteira perguntado aos meus pais, se não era adotado, a partir de que era diferente deles.  Nunca responderam.

Apertou um botão, dizendo que não atenderia mais ninguém hoje. 

Me fale de ti, da tua infância, de teus pais?

Os dois te procuraram a vida inteira, ele já morreu, mas ela vive em Carmel, eu vivo em NYC.    Sou o jornalista que descobriram no meio das escavações, foi lá que notei nossa semelhança.    Mas quando voltei, me detectaram um câncer, talvez devido a terra em cima do enterramento.   

Que terra,  o que continha?

Contou o que sabia, que as pessoas que trabalhavam lá, todas tiveram problemas.

Perguntou se Julius estava disposto a fazer um teste de ADN, para terem certeza.   Eu honestamente adoraria ter esse irmão desaparecido, não me importa nada tua religião, não gosto de nenhuma delas, apesar de respeitar.

Ele chamou pelo interfone uma monja que veio em seguida.  Ela levou um susto em ver os dois juntos, a senhora conseguiria saber aonde posso fazer uma prova de ADN, sem que nada seja divulgado.

Claro aqui mesmo no hospital do Vaticano fazem.   Esperem, chamou um número, instantes depois apareceu um médico.  Para quem é o teste de ADN, mas quando viu os dois entendeu.

Tirou sangue dos dois, monsenhor, seria interessante, que este senhor ficasse aqui, hoje, pois nada deve sair daqui.

O outro o arrastou, para comer numa sala a parte, trouxeram um carrinho, com comida servida por monjas, todas de hábito negro.   Todas olhavam os dois juntos, sorriam.

Falou com a mesma de antes, disse para me arrumar um quarto ao lado do seu, se via que não o queria deixar.   Falaram dos estudos, contou quer era formado em filologia, além de jornalismo.

E tu?

Me formei em Direito Canônico, aqui mesmo em Roma.

Não queres que eu vá embora por quê?   Tens  medo de que eu faça alguma revelação, só estou interessado em descobrir o meu irmão roubado.

Não, quero conversar contigo, o que escreveste a respeito do que descobriste em Israel?

Nada, porque em seguida fui operado, tive que fazer quimioterapia, bem como radioterapia, só agora estou curado.    O Cardeal de NYC, fez chantagem comigo, o idiota não sabe que eu tenho todos seus trapos sujos muito bem guardado.   Como me chantageou, eu fiz o mesmo, dizendo que só não publicava nada, se me conseguisse uma entrevista contigo.

Te vi por lá, me escondi bem pois era impressionante nossa semelhança, acredito mesmo na possibilidade de sermos irmão.   Isso é totalmente pessoal, não penso em publicar nada a respeito, porque tem minha mãe, bem como a tua.   São pessoas de idade, podem se sentir mal, nunca faria nada contra minha mãe, uma mulher doce que sofreu muito na vida, buscando o seu filho roubado.    Além de ter perdido como eu toda a fé nas religiões.

Realmente eres ateu?

Sim, respeito a todos mas sou ateu.

Quem é ateu, a porta se abriu, entrando o Papa, estou a horas te chamando, preciso de ti, mas teu telefone ninguém atende, dizem que estas resolvendo um problema particular, quando viu os dois juntos, ficou com a boca aberta.

Não sabia que tinhas um irmão Julius?

Bom isso estamos tentando descobrir, o apresentou, Joseph Cohen, o jornalista de Israel.

Ah, que interessante, então eres tu o ateu?

Sim senhor, sou ateu, mas respeito quem seja religioso, mas não as religiões que foram corrompidas pelo homem.

Já escreveste o artigo sobre isso?

Julius se adiantou, Santidade, todos que trabalharam na escavações, contraíram câncer, pelo material radioativo que existia nas camadas superiores do que encontraram,  inclusive Joseph, que acaba de fazer uma operação, bem como um tratamento forte, por isso não escreveu nada.

O que pensas em fazer, perguntou, sentando-se num cadeirão que estava ali, fazendo sinal que se sentassem.

Ainda não sei Santidade, porque tenho, que analisar profundamente tudo.   Não sabemos da datação de carbono, ou pelo menos não foi divulgado.    O que sim coloca por terra terem encontrado José de Arimathea, bem como Maria, que não sabemos qual é. No mesmo lugar, isso contraria tudo que se conta, que Maria, Maria Madalena, os filhos de Jesus, bem como José de Arimathea, tenham chegado a França.  Ou se isso tudo também é lenda.

Infelizmente todas as histórias da bíblia, bem como de todas as religiões, foram manipuladas através dos séculos, pelo homem, ao seu prazer.   Isso um dia terá que acabar, pois no mundo moderno, já não passariam hoje de Fakes.

Fakes, murmurou o papa,  é uma verdade.

Mas não creio que publique nada nos jornais, talvez escreva um romance histórico, ou qualquer outra merda.

Julius pigarreou, como dizendo que a palavra merda era algo errado para se falar.

Ele como sempre, uau, não sabia que o Santo Padre não cagava,  uma das coisas que deviam perder, o tal do politicamente correto.    O mundo muda a passos gigantes, nada dura muito tempo.   O mundo real, vai a um ritmo louco, vocês estão fechado dentro de quatro murros, tentando que uma coisa que aconteceu, se é que aconteceu, a séculos atrás.   Hoje um jovem perguntaria, tens provas, foi filmado pelo celular, existe algum vídeo a respeito.  Não, é a resposta certa, portanto já não funciona mais.   A outra pergunta seria, pois os padres agitariam a bíblia,  os jovens vão perguntar se esta na internet, no Youtube, se não está, não existe para eles.

O papa só balançava a cabeça, grandes argumentos tens, concordo com o senhor, estamos completamente defasados.        Os velhos da Cúria, morrem de medo disso, da internet, da rapidez de tudo. Não entende, não sabem usar os novos meios de comunicação, estamos cada vez mais para trás.  Mas é duro lidar com eles, a não ser que fossem eliminados.

Santo Padre, soltou Julius, isso é uma blasfêmia.

Concordo com o senhor, blasfêmia, pecado, céu, inferno, umbral, todas essas coisas passaram de moda, o diabo hoje seriam os governantes do mundo inteiro, pois provocam as guerras, quem morre é um coitado, bucha de canhão.

Eu sou franco, não acredito em nenhum político, já entrevistei muitos, todos com uma falsa personalidade, ou mesmo uma máscara para enganar os eleitores.

De noite Julius, o chamou para fumar um cigarro, nenhum dos dois fumava, achou estranho, mas o seguiu a varanda.  Aqui tudo se escuta, tudo se sabe, além de ser motivo para fofocas.  Sem lhe dar tempo sequer para responder começou a falar da sua infância, sem querer agora entendi algumas coisas, minha mãe nunca se aproximava muito de mim, a não ser que meu pai estivesse por perto.   Mas ele estando em casa, me tinha todo o tempo com ele.  Nunca entendi no que trabalhava, mas era algo estranho, pois em casa não se falava no assunto.  Quando ele morreu, a primeira coisa que ela fez foi me enfiar num seminário, para pagar os pecados dele, segundo dizia.  Em seguida foi morar com uma irmã, nunca me visitou, passei as férias, aniversários, natal, ano novo, a ver navios, nunca esperava ninguém, quando me ofereceram para estudar aqui, aceitei, para ficar longe.

Mas o pior é que já vi que não me deixaram sair daqui, para ir confronta-la, tirou do bolso um papel, a irmã me entregou no corredor.    Somos realmente irmãos, mas além de ter a cabeça confusa, precisando sair daqui.   Mas veja bem, sou carmelengo, sei de todos os segredos daqui tu eres jornalistas, que tens a igreja presa ao que sabes.   Nessas alturas o papa já deve ter dito que não devo sair.

Já encontrarei um jeito, vamos fazer o seguinte invés de dormir aqui, vou para meu hotel, amanhã venho com tudo resolvido, esteja pronto bem cedo, pronto também para mudar de vida.

Julius o acompanhou até a porta de saída, lhe disse baixinho, amanhã, entregarei aqui um pacote, terás roupas como a minha e documento, vista e saia rapidamente, estarei esperando na esquina mais abaixo.

Sabia que estava sendo seguido, mas fez como se nada, a estas alturas, já deviam saber aonde estava hospedado.    Chegou ao hotel, tomou um bom banho, não perdeu muito tempo pensando no que fazer, afinal era um homem de ação. Estudou a melhor maneira,   Comprou dois bilhetes de avião,   a primeira compra, fez em seu nome secreto, um voo Roma/Miami, esperou um pouco, para ver que o mesmo aparecia em seu celular.   Depois do fundo de sua maleta, tirou do forro, outro passaporte, com outro nome, comprou outro bilhete na mesma, Roma /Miami, esperou chegar, separou roupas para Julius, se preocupou com tudo, inclusive incluiu seu melhor tênis.   Colocou dentro de uma bolsa grande, separou outra para ele no dia seguinte.  Mas não ficou no hotel, saiu pelas traseiras, através da cozinha, viu ao longe um carro parado em frente ao hotel.    Tranquilamente foi em direção ao Vaticano, se registrou em outro hotel, com seu nome falso, se jogou vestido na cama.  Eram as cinco da manhã, chegou a porta que tinham combinado, entregou a um guarda a bolsa, passou dinheiro para a mão dele, disse, é importante que o Camerlengo receba isso imediatamente, sou seu irmão.  O homem avisou ao outro que tinha que fazer uma entrega.  Tinha lhe molhado a mão como se dizia, muito bem.   Eram as cinco e meia, quando Julius apareceu, estava totalmente diferente, saiu tranquilamente, ele estava esperando sentado num taxi, quando ele entrou, disse que os levassem ao aeroporto o mais rápido possível.

Quando chegaram, já estavam chamando para o embarque do voo para Miami.   Passaram rapidamente, separado por umas quantas pessoas, primeiro passou Julius, ele ficou para trás para observar qualquer coisa.

Dentro do avião em classe turística, pediram para se sentar juntos, eram irmãos, as pessoas quando olhavam sorriam.  Foram no último assento, já no rabo do avião.

Chegaram de noite em Miami.    Foram a um outro balcão compraram um voo para San Francisco, chegaram já de madrugada, mas conseguiram alugar um carro, na estrada pararam para tomar um café, comer algumas coisas, os dois gostavam do mesmo, torradas, ovos fritos, café forte sem açúcar.

Só então perguntou ao Julius como se sentia.

Bom primeiro não conseguia dormir, o papa deve estar se sentindo traído, mas preciso saber quem sou, se minha fé é verdadeira.  

Isso já conversaremos muito, meu irmão, se deram um largo abraço, só queria avisar sua mãe, quando fossem a sua casa.   Primeiro iriam a Monterrey, para que ele falasse com sua suposta mãe.

Quando chegaram ela estava se levantando, levou um susto em ver os dois juntos, sua irmã teve que ajudá-la a se sentar.

Vejo que não preciso falar muito.   Contou tudo que sabia, eu nunca quis ter filhos, para que não passassem o que tinha passado, ser uma clandestina nesse pais.  Conheci teu pai, justamente numa travessia, ele era um coyote, passava as pessoas de um lado para o outro, ganhava muito dinheiro com isso, além de roubar essas pessoas.   Eu vinha com minha irmã, ele nos trouxe para sua casa, pois não tínhamos ninguém, nem lá, nem cá.

Se casou comigo, mas eu tinha um aborto atrás do outro espontâneos, ele queria um filho de qualquer jeito.   Abusou de uma garota que trazia de lá, a manteve em cativeiro até chegar a hora do parto, ia ser em casa mesmo, mas na ultima hora complicou, a levou a uma urgência, ficou espreitando,  só percebeu que tinha tirado uma criança errada, quando começaram a te procurar.   Ai já era tarde, estava apaixonado por ti.   Eu ao contrário, morria de medo, não era sequer filho dele.    Me ameaçava cada vez que ia atravessar gente, se eu falasse alguma coisa, me mataria.   Por isso te odiava, sem saber eras meu carcereiro.   Minha irmã tinha se casado, ameaçava inclusive a ela e aos seus filhos.   Quando morreu foi um alívio, por isso te meti no seminário, queria me livrar de qualquer vínculo contigo.

Na verdade, tinha bastado a cara de horror quando viu os dois juntos para saber o que mais ou menos tinha acontecido.

Foram se sentar numa praia para Julius digerir tudo isso.   Agora entendo como me tratava, no fundo tinha medo.   

Se levantou, a praia que tinham parado era imensa, estava deserta, tirou toda a roupa, se jogou na água, eu lhe disse, estas louco essa água esta fria.   Precisava me limpar de tudo que estava sentindo.    Dali foram para Carmel, aonde vivia sua mãe, sabia que essa hora devia estar fazendo comida.   A chamou por celular, disse que estava chegando, se podia levar um amigo para comer.

Quando entraram os dois na cozinha, desmaiou, a levantaram a levando para o sofá, ele chamou imediatamente seu médico.

Mas ela já estava se recuperando, foi só um desmaio.

Se agarrou ao Julius, o beijava, o olhava, juntava os dois um ao lado do outro.  Perguntou como o encontraste.   Uma larga historia mãe,  sentiram cheiro de comida queimada, correram para a cozinha, mas já era tarde.

Tomamos um banho, saímos para comer, mais fácil.   O médico de família apareceu, quando os viu junto, riu, quanto tempo te procuramos meu filho, sempre me senti culpado por terem te roubado, mas naquela época tínhamos muito trabalho no hospital.

Foi almoçar com eles, ele era amigo de família, Julius mostrou o certificado de ADN, para o médico,  agora teremos que colocar teu nome verdadeiro.   Prefiro ficar com o meu mesmo, Julius, o sobrenome sim podemos trocar.   Aliás prefiro, para sair dessa larga mentira.

Viram nas notícias do telejornal, que o Carmelengo, tinha desaparecido, mas as fontes do Vaticano não soltavam nenhuma informação.   Eles compraram um celular desses descartáveis, carregaram ele ligou diretamente ao papa, avisou que estaria fora um bom tempo, resolvendo assuntos pessoais.    O mesmo soltou, sabia que eu não ia permitir que saísse daqui, não é?

Pela primeira vez o tratou de senhor, nada de santidade, desconfiei, mas precisava saber da verdade.    Agora já sei que sou um judeu, terei que me encontrar primeiro, depois resolvo o resto.

A mãe quando realmente entendeu que ele era um Carmelengo, que trabalhava para o Papa, riu, não tem importância meu filho, eu só quero desfrutar de ti algum tempo, não me importo que sejas católico, eu sou ateia, piorei com isso depois que desapareceste.

Eles teriam que comprar roupas, o mais interessante, eram os movimentos, faziam tudo igual, escolhiam as mesmas camisas, como se essa igualdade tivesse gerado isso, que seus instintos de irmãos aflorassem

O médico disse que tinha um lugar especial que ninguém sabia que era seu, perto de San Francisco, na praia, podia ficar lá até colocarem tudo em dia.

Falou com Angel, esse primeiro soltou que estava morrendo de saudade, queria saber aonde estava, perguntou se estava se cuidando,  entraram na tua casa outra vez, levaram um susto, pois instalei um sistema, no mesmo instante se acederam as luzes, foram filmados, as portas se fechara, eu quando montei esse sistema, pensei num daqueles filmes de terror.   Só conseguiram sair, porque deram um tiro na fechadura, mas a polícia estava do outro lado, atingiram um policial na perna.  O ruído despertou todos os vizinhos.    Depois te mando a gravação, sei  que não tinhas nada lá.  Estavam furiosos, tontos com o barulho, estridente que coloquei.   Se negam a falar quem são.   Apareceu um advogado, mas continuam presos por terem ferido um policial.

Melhor que não sabias aonde estou, a busca terminou, eu encontrei meu irmão, também sinto tua falta, logo nos vemos.

Com quem falavas, perguntou Julius.

Resolveu ser franco, com um rapaz, com quem mantenho um romance, é muito mais jovem do que eu, mas nos entendemos muito bem, além de ser uma pessoa super inteligente.

Contou o que tinha acontecido, viu que tinha chegado o vídeo. Achavam que tinha sido homens a mando do Cardeal.  Pois no Vaticano não contratamos gente assim.

Telefonou para a polícia, agradeceu o chefe da polícia, disse, eles não iam encontrar nada lá, pois tenho tudo em bancos diferentes.   Creio que quem esta atrás de tudo isso, é o Cardeal de NYC,  solte só isso na frente desses homens, diga que o Cardeal, não se responsabiliza por terem atirado num policial, veja como reagem.

Quando tornou a chamar outra vez, o chefe disse que tinha soltado a língua, tinha sido o mesmo.

Chegou a hora de contra atacar, ele iria a NYC, que Julius ficasse com a mãe.  Depois ele voltaria.   A primeira coisa que fez ao chegar a NYC, foi ir ao banco, retirar um envelope, fazer fotos ali mesmo, guardar de novo o envelope.

Quando chegou foi direto ao andar de cima, aonde o Angel estava trabalhando, se abraçaram, além de muitos beijos.  Acabaram na cama.  Sentia fome de estar com ele.

Depois mostrou as fotos para o Angel, era o Cardeal, com garotos.  Tinha copiado o número do celular do papa, particular,  mandou as fotos para ele, bem como para o Cardeal, dizendo que agora queria ver como se saia, tenho muito mais, ou renúncias, ou soltarei tudo pelo jornal.

Mas sabia que o outro iria tentar ganhar tempo, escreveu um artigo, que Angel colocou na internet, borrando a cara dos jovens.  O título era, assim se comporta o Cardeal de NYC, as custas dos paroquianos.   Ninguém assinava o artigo.

Só souberam que o Cardeal tinha embarcado num avião especial do Vaticano que o tinha vindo recolher.    As notícias depois era que renunciava ao seu cargo, viveria em retiro espiritual.

A igreja não muda nada.   Foi ao banco, com Angel, escolheram fotos piores que as anteriores, a melhor era o Cardeal dando o rabo para um negro imenso, em termos de sadomasoquismo.

Tudo foi publicado, mandou para o papa dizendo que se o cardeal não fosse julgado, ele tinha piores, além claro da matéria de Jerusalém.    Ou o Cardeal era julgado pela justiça comum ou faria isso.

Meu carmelengo quando volta?

Tudo que respondeu, foi, não tenho a menor ideia.

Tomou um avião com Angel, foram os dois para lá, no dia antes, tinha perguntado para ele, se queria oficializar a relação dos dois.   Ele rindo na cama, disse que sim, eres o homem da minha vida, não vou te deixar.

Primeiro marcaram um jantar no restaurante de sempre com o pai dele.   Ele quando chegou os viu juntos,  desconfiava que vocês dois eram os causadores desse escândalo todo.

Em que meteste meu filho?

O que queremos conversar com o senhor não tem nada a ver com isso. Queríamos que o senhor soubesse de primeira mão, vamos assumir nosso relacionamento.  Nos amamos.

A cara do velho, era ótima.  Além de toda essa confusão isso.  Ficou olhando para os dois, olhou direto para o filho, dizendo, sabes com quem estas te metendo.

Claro que sei, trabalho com ele a anos.

Então quando me pediste o número do celular de meu filho, era como um aviso?

Sim.

Espero que sejam felizes, cuide bem do meu filho, senão vou atrás de ti.

Contou ao amigo o encontro com o irmão, o Vaticano tem mais um problema, um carmelengo que é judeu.   Mas será ele que tem que resolver tudo.

No dia seguinte de manhã tomaram um avião para San Francisco, de lá para aonde estava sua mãe, bem como Julius.

Apresentou Angel para a mãe, dizendo, a senhora sempre soube que eu era gay, esse garoto é a primeira pessoa que amo verdadeiramente.   Ela o abraçou, dizendo seja bem vindo nessa família, que cresce mais.

Julius o recebeu de braços abertos, contou do Cardeal, do contato com o Papa, copiei o número do seu celular.

Ele foi claro, não quer que ninguém saiba que eres judeu.

Chegas tarde meu irmão, mandei ontem uma carta para ele, pedindo meu afastamento definitivo da igreja, fiz muita coisa que não sinto orgulho, por ela, vejo que não valia a pena, já resolvemos o problema do meu nome, volto a ser Julius Cohen,  por enquanto ficarei aqui com nossa mãe.  Tenho que desfrutar o que não tive na minha infância, juventude e maturidade.

Sabia que ali acabariam sendo descobertos, o jeito foi mudar de lugar, alugaram uma casa na praia em nome de Julius Cohen, que para todos efeitos ninguém conhecia.  Estiveram ali discutindo os três como fazer com que tudo parasse.

Angel, tinha criado um sistema, que podiam ver a notícias do mundo inteiro, para analisar, não se falava mais no caso de Jerusalém,  era como se pelo bem da humanidade, tudo estivesse na sombra.   Conseguiu entrar no sistema de Jerusalém,  a analise do carbono 14 tinha sido manipulada, o jeito foi procurar saber quem tinha feito a mesma, copiar as duas cópias da mesma, a original, a datação era correta, era da época real, a de Maria, anos depois, o por último era de José de Arimathea.   Escreveu uma reportagem, mandou para todos os jornais do pais, ninguém ousou publicar.  O jeito foi a publicação na internet, o Vaticano dizia que era uma Fake, mas as provas estava ali, todo mundo começou a discutir sobre o assunto.

Angel era excelente no que fazia, entraram no computador particular do papa, ele confundiu Joseph com Julius, era como se tivesse falando por Skype, não sabia que estava sendo gravado, perguntou quando voltava, que tinha que convencer seu irmão de parar, pois a Igreja cambaleava.   Ele começou a argumentar, porque pensas assim.  Talvez ao contrário, agora que possuímos o verdadeiro corpo de Cristo, pudéssemos dar uma volta a situação.

Já pensamos nisso, mas como explicar uma ascensão da Virgem que nunca existiu, ou mesmo toda a polemica em volta disso,  conforme ele argumentava, o papa parou de repente, não eres Julius, ele nunca ousaria discutir o que estou falando, eres Joseph.

A linha foi cortada antes que mandasse verificar de aonde vinha.

Depuraram toda a entrevista, no tocando a Julius.  Foi publicada via internet, para todo o mundo, o papa reconhecia que o corpo era de Cristo, bem como de Maria, que nunca tinha existido uma ascensão.   Os cardeais queriam a cabeça do Papa, pediam sua renuncia por não saber lidar com o que estava acontecendo.  Mas quando eram entrevistados, deixavam a coisa pior do que antes.    

Mudaram outra vez de lugar, indo para um praia deserta no Oregon, a casa estava situada de tal maneira, que veriam a chegada de qualquer pessoa.

Quando toda a poeira assentou, pois agora os jornais publicavam notícias a respeito, a igreja reconhecia tudo isso,  que muitas coisas tinha sido manipuladas com os anos.

A juventude, como ele dizia, tinha acreditado, pois tinha saído na internet, mas na verdade não lhe interessava, pois nunca tinha acreditado nesse conto de fadas que era a bíblia, tampouco acreditavam agora, nas igrejas, só sobravam os sacerdotes velhos, pois  não tinham para aonde ir.    O papa já não tinha voz no mundo, os cardeais menos ainda, eram um mero símbolo do passado que ninguém mais respeitavam.

Ninguém sabia como, os documentos dos arquivos da Igreja começaram a aparecer em muitos jornais, o apoio aos nazistas católicos, o rabo preso com todos os governos ditatoriais, máfia, dinheiro, tudo que tinha sido ventilado antes, mas que as provas nunca tinha aparecido.

Se poderia dizer que agora só faltava acontecer a apocalipse, mas nada aconteceu, o mundo seguiu girando como se nada acontecesse, o dia e a noite era imutáveis, dentro em breve as igrejas  estavam vazias, na verdade os jovens tinham hoje como seus deuses a internet, os fake, as falsas noticias aconteciam em segundo, minutos depois já eram historia passada, tudo era rápido.

Eles ao contrário, tinha aprendido a conviver entre eles, velaram quando sua mãe morreu, a enterraram numa caixão de pinho, envolvida num sudário.   Fizeram o enterro, junto a uma árvore num monte, que estava por cima de um promontório na praia aonde viviam.            Rezaram os dois o Kadish por ela.

Nem sequer cogitavam voltar a civilização, na vila mais próxima, depois de um tempo, todo mundo levava uma vida simples para sobreviver.   O mundo estava assolado de vírus, se dizia que manipulados pelo homem.

Eles sobreviveram a tudo isso, depois de quinze anos a população do mundo tinha sido reduzida a 40%, os valores tinham mudado, as religiões que achavam que o que tinha acontecido com a católica não os atingiria, se lascaram, pois os seus fiéis, já não se modernizaram, tampouco se preocupara com os enfermos vitimas dos vírus, foram abandonando esse historia que precisamos de deuses.

Julius se casou com uma mulher da vila, um pouco mais jovem do que ele, mas nunca quiseram filhos, o mundo era muito inseguro segundo ela.   Joseph e Angel, podia se dizer que tiveram uma vida simples, mas completa. 

Anos depois quando se atreviam a falar numa nova guerra mundial, os países tinham um problema, não encontravam jovens dispostos a serem bucha de canhão, então passou a ser uma guerra de políticos.   Cada político que provocava uma confusão, em seguida desaparecia do poder.

Joseph dizia que finalmente os problemáticos políticos, agora se matavam entre si.