Despertou,
sentindo o corpo cansado, sem saber bem aonde estava, parecia seu studio, mas quando
abriu bem os olhos, pelos detalhes viu que não era.
Riu, para si
mesmo, a vontade de soltar uma gargalhada era grande. Não podia beber, porque sempre se metia em
confusão. Sentiu dormência em seu braço
direito, bem como a perna, mas isso sempre acontecia ao despertar, tinha que
mover o mesmo, apertar, abrir, cerrar a mão várias vezes, até que funcionasse
como devia.
O quarto não era
feio, simplesmente era como um lugar de passagem.
Ia fazer o
movimento de se sentar na cama, quando escutou a voz rouca que o tinha
impressionado tanto.
Como é vai
levantar ou não seu preguiçoso.
Ali estava seu
novo monumento. Um metro e noventa de
altura, cabelos imensos negros, como a asa da graúna, olhos de um azul
transparente, uma pele azeitonada, que ao tato produzia uma sensação de
sensualidade.
Não tinha
esperado acabar o primeiro dia do encontro, na cama desse garoto lindo.
Olhou os detalhes
de seu rosto, além dos olhos, um nariz reto, esculpido a faca, uma boca
vermelha sensual. Enfim, entendo agora que tive que me render.
Tudo que
respondeu foi. A culpa é tua, eu só
queria conversar contigo, coisa que não fizemos.
Isso lá é
verdade. De novo essa voz que estremecia qualquer um.
Quando lhe
perguntou por que tinha essa voz? Tinha
lhe respondido, que fora por causa de uma acidente, quando servia num porta-aviões. Tinham lhe entubado de emergência, tudo um
pouco mal feito, quando saiu do coma, tinha essa voz que lhe ficou para sempre.
Se encostou na
parede, ficou olhando, tinha um corpo perfeito, sem gorduras, mas tampouco com
musculação exagerada. Se poderia dizer
um corpo normal.
Se levantou com
preguiça, afinal tinha que ir trabalhar.
Era o chefe, mas tinha que ir trabalhar.
O outro,
continuava apoiado no marco da porta, o olhando fixamente.
Com uma certa
dificuldade, se levantou, isso acontecia todos os dias de manhã, os primeiros
movimentos sempre lhe eram complicados.
O que te
aconteceu?
Uma larga
história, depois te conto.
Se vestiu, toda
sua roupa era negra, como gostava de se vestir, sentia que assim estava
preparado para qualquer ocasião, bastava um casaco, ou um abrigo diferente para
estar pronto para tudo.
Vou até minha
casa tomar banho, mudar de roupa, gostaria que passasses pelo meu escritório,
para uma entrevista. Assim te explico
tudo. Ok.
Nem sei teu nome,
respondeu o outro?
Marcus Aurélius,
mas não sou italiano, coisas de minha mãe.
Depois de colocar
o sapatos, já vestido completamente, o olhou diretamente nos olhos, como era
difícil resistir. Lhe estendeu um
cartão. Se puderes estar dentro de uma
hora e meia no escritório, te agradeceria, creio que vais gostar da minha
proposta.
Segurou seu rosto
com ambas mãos, lhe beijou. Ah,
tentação, pois a vontade era lhe jogar na cama, começar tudo outra vez. Isso não era normal, em se tratando dele.
Mas tu sabes meu
nome pelo menos?
Sim o artístico
sei, mas é o verdadeiro?
Não, Smith
Darius, esse é o verdadeiro.
Gosto mais deste.
Nu como estava, o
acompanhou até a porta.
Já na rua, fez
sinal para um taxi, lhe deu a direção de seu apartamento, afinal tinha pressa.
Vivia no Vilagge
a muitos anos, mesmo agora tendo dinheiro, continuava vivendo no seu velho
apartamento. O tinha comprado,
reformado, mas já vivia antes de poder fazer isso. Tinha dinheiro a partir de seus problemas
físicos.
Trabalhava para
um grande armazém, desenvolvendo produtos, não ganhava o suficiente, embora
fosse bom no que fazia, como era seco, direto ao argumentar as coisas, nem
sempre agradava aos diretores.
O dinheiro que
ganhava, dava para pagar seu apartamento, se vestir corretamente, comer, mais
nada. Não levava uma vida de glamour,
como tinha sonhado em sua juventude, em Texas.
Mas estava contente, pelo menos fazia o que gostava.
Tinha sido quase
por milagre, conseguir esse emprego, mal tinha saído dos cursos que tinha
feito. Nesse meio tempo, tinha
trabalhado de ajudante de cozinha, num restaurante pela noite.
Estava parado,
esperando o semáforo abrir, quando escutou ao longe, sirenes da polícia, era
uma movimentação inusual. Ninguém se atreveu a atravessar a rua, apesar de
estar o semáforo estar aberto.
Tudo que viam era
um carro, tentando escapar da polícia.
Escutaram um
tiro, o carro da frente rodou, avançou para cima da calçada, nem teve tempo de
dizer corra, para sim mesmo. Foi jogado
para cima, caindo em cima do capo do carro. Tudo que se lembrava desse momento,
era como seu corpo real estivesse voando, o corpo físico, foi para cima, caindo
de costa no carro que tinha batido na parede.
Só despertou no
hospital, estava entubado, com uma máscara de respiração, mas não podia se
mover. Em seguida apareceu uma
enfermeira, avisou o médico imediatamente.
Tentou mover-se, mas o corpo não respondia.
Não faça
movimento nenhum ainda, espere que vamos tirar o tubo, já digo a situação.
Depois de terem
retirado o tubo, sentiu uma sensação horrível na garganta, mas o médico disse
que era normal.
Bom estiveste em
coma vários dias, te operamos, recompondo teu corpo. Pelo que dizem, teu corpo foi jogado para
cima, caindo de costa no capo do carro, fraturaste algumas vertebras, o braço
direito em vários lugares, bem como a perna direita. Tudo isso está no lugar, agora falta a
operação das vertebras. Isso é mais
delicado, por isso não podes mover o corpo.
Agora que te recuperaste, podemos fazer a operação.
Ia dizer que não
tinha dinheiro para pagar nada. O
médico se antecipou.
Tens sorte, quem
te atropelou foi um desses filhinhos de papai, a família, está cobrindo todas
tuas despesas. Te aconselho arrumar um
advogado. Pois o mesmo estava drogado,
por isso tentava escapar da polícia. Se
quiser posso te indicar um, muito bom.
Fez que sim com a
cabeça, pois não conhecia nenhum advogado.
Lhe deram uma
injeção para relaxar, em seguida estava mergulhado num sono profundo.
Se viu uns anos
antes, numa pequena cidade do Texas, numa família totalmente louca. Era o único que ia a escola, seus pais,
estavam sempre brigando, bebendo. Seu
irmão mais velho, tinha morrido a pouco.
Havia entre eles uma diferença grande.
Seu irmão era filho do primeiro casamento de sua mãe. Tinha morrido de overdose de cocaína.
Ele passava mais
tempo na escola, tinha encontrado um refúgio na biblioteca da cidade, ali
passava seu tempo. Só ia para casa,
quando esta fechava. Pelo menos ali,
tinha ar condicionado no verão, calor no inverno. As vezes até dormia em cima de algum livro.
Um dia chegou em
casa, está não existia mais. Bom casa o
modo de dizer, uma caravana como casa.
Tinha explodido o bujão de gás, com os dois dentro.
Sorte dele estar
na biblioteca. Dali foi direto para um
centro de menores, de onde saiu só com dezoito anos. Lá tinha abusado dele várias vezes. Afinal era um garoto maltratado, mas
bonito. Aprendeu a se defender, fazendo
o pouco que lhe ofereciam de esporte.
Quando saiu,
conseguiu um emprego num restaurante, para lavar pratos, depois passou para
ajudante de cozinha. Sua grande
distração era ver revistas de moda, observar padrões, as vezes olhava o modelo
da roupa ou do acessório, redesenhava o padrão, explorando outras vias. Dormia nos fundos do restaurante, mas bem
armazém do mesmo.
Sonhava com ir
para New York, mas não tinha dinheiro.
Tudo que pensava, era como conseguir o mesmo. Viu que um dos cozinheiros mais jovens tinha
sempre dinheiro, lhe perguntou como conseguia.
Este disse sério, quero ser um grande cozinheiro, para isso preciso
estudar, então me prostituo de noite.
Junto com o que ganho aqui, um dia terei dinheiro suficiente para
começar vida nova em San Francisco.
Resolveu acompanhar, pensava, quando abusaram de mim, nem obrigado me
disseram, que mais dá, é só o meu corpo nada mais.
Mas seu corpo não
atraia muito os homens, era meio desengonçado.
Foi viver no quarto do amigo, juntos saiam de noite, este lhe ensinou
uma série de truques. Começou a ganhar
dinheiro, arrumou como o outro um esconderijo para guardar o mesmo.
Fazia cálculos,
de quanto iria necessitar para poder sair.
Teria que ir de ônibus até New York, depois precisava de dinheiro para
um quarto, até arrumar um emprego. Foi
juntando dinheiro, o quarto não era bom, mas como dividiam as despesas, comiam
no restaurante, assim podiam economizar.
Um dia o amigo, entrou num carro, mas não voltou. Os dois tinham um hábito, anotar a placa do
carro, além da marca do mesmo. Quando a polícia apareceu, deu o número da
placa. Mas acabou em nada. Passaram semanas, até arquivarem o
processo. Ele deixou de sair de noite,
lhe dava medo. Como sabia aonde o amigo
guardava dinheiro, juntou com o seu, dava para partir. Sem dizer nada a ninguém, comprou um bilhete,
teria que trocar várias vezes de ônibus, mas dava igual. A coisa era chegar
vivo a grande cidade.
Partiu na calada
da noite, aliás uma noite escura, sem lua, como as noites que quando estava no
centro de menores, as que eram perigosas.
Quando chegou,
depois de muita estrada, morto de cansaço, conseguiu um quarto numa pensão
daquelas de “mala muerte”, se lavou, saiu imediatamente procurando
emprego. Conseguiu rápido um de ajudante
de cozinha. Deste passou para outro
melhor, já com um salário mais justo, assim pode arrumar um pequeno studio,
aonde vivia até hoje. Logrou entrar para
o FIT, apresentando como trabalho, um estudo sobre um tecido. Durante o curso todo se destacou pela sua
criatividade. Por sua sorte nos domingos
o restaurante não abria, estava numa zona de escritórios, portanto sem
movimentos no final de semana.
Aproveitava para cuidar de sua roupa, ir a algum museu. Levava sempre um
bloco de desenho para anotações. Não
lhe interessava muito a obra em si, mas a roupa retratadas, mas sim os detalhes
dos tecidos.
Se esforçava ao
máximo para entender tudo, fuçava todos os livros a disposição na biblioteca,
sobre estamparia. Quando desenhava,
criava não só um padrão de roupa, mas tudo o que se podia fazer com a mesma
estampa.
No final do
curso, tirou com louvor o diploma.
Agora se dedicava a apresentar seu trabalho, nas grandes empresas. Até
que conseguiu o que tinha agora.
Dois dias depois
lhe operaram. Quando despertou estava numa cama especial, em que sua cabeça
ficava virada para baixo.
Foi quando
apareceu o advogado. Este tinha se
documentado bem a respeito do acidente, poderiam mover uma ação contra o que
conduzia, bem como contra a polícia, pois sem querer ao atirar no pneu do carro
do perseguido, tinha provocado o acidente.
Faça como achar
melhor.
Foram meses de
recuperação, aprender a andar de novo, mover o braço e perna direita, teria
sequelas a vida inteira. Quando
finalmente ficou livre, foi com o advogado ao julgamento, este lhe disse que
exagerasse um pouco quando o fizesse subir à tribuna.
Tinha que
conseguir alguma coisa, pois tinha perdido o emprego.
Para sua
surpresa, o advogado era bom, conseguiu uma boa soma de dinheiro, tanto de um
lado como do outro. Depositou o dinheiro
todo numa conta num banco. O advogado
disse que poderia até comprar um apartamento.
Mas resolveu guardar.
Continuou fazendo
fisioterapia. Se lembrou de um
fornecedor para a empresa que trabalhava, que sempre lhe procurava para
encomendar algum trabalho. Mas pela
norma da mesma, ele não podia. Foi até
lá, com um caderno cheio de desenhos. Estes
só encomendavam trabalhos, mas não tinham empregados. Fizeram um contrato. Ele desenvolveria uma série de produtos, eles
venderiam os mesmo, dividiram da seguinte maneira. 30 por cento para ele, o
resto para a empresa. Foi trabalhando, agora
tinha mais dificuldade, mas não desistiu.
A partir deste contato conseguiu outros, até se tornar conhecido. Alugou um espaço num edifício comercial,
contratou dois criativos, com eles
seguiu em frente. Agora tinha uma
clientela boa.
Dois dias antes,
tinha recebido uma visita de casal de empresários, tinha feito pequenos
trabalhos para eles. Estavam no auge,
traziam um perfume que tinham desenvolvido na Europa, queriam tudo, embalagem,
uma imagem para o mesmo. O perfume era diferente, se o fosse classificar, seria
ambíguo, pois poderia ser usado tanto por homens como por mulheres. Em sua
cabeça imediatamente surgiu a embalagem, um desenho de tecido. Passou para os criativos.
Depois de terem
passado pela recepção várias secretárias, tinha contratado um negro,
educadíssimo, que lhe entendia. Era
super formal, mas sabia de tudo que acontecia na cidade, como, porque, o mais
importante aonde.
Numa reunião,
quando começaram a surgir as ideias, disse que precisavam de uma imagem, um
modelo que pudesse ser ambíguo.
Charles, o
secretário, rapidamente comentou, olha, no final de semana, assisti uma peça de
teatro, que creio tem um ator que está começando, que pode ser o que procuras.
Lhe fez uma
reserva.
Sempre seguia o
instinto do Charles, desta vez tampouco estava errado.
Era um teatro
pequeno, um cenário limpo, pelo visto poucos atores.
Num determinado
momento, o ator principal, um homem já com idade, num monologo contava como se
tinha transformado pela primeira vez em mulher. A iluminação, só estava num lado do palco,
percebeu um movimento do lado esquerdo, um vulto com uma capa negra. O homem começava a contar, a capa caia ao
chão, o que se via do outro lado, um corpo completamente nu. Se preparava colocando uma espécie de bandagem
para esconder o sexo. Se via tudo através do espelho. Quando o outro ator se sentava, uma bela
cabeleira negra era jogada para trás, se vendo o rosto magnifico do Smith
Darius. Enquanto o outro falava, ele ia
gradativamente, fazendo a maquilagem, vestindo umas meias negras, colocando o
vestido, subindo em cima de uns sapatos de salto de vertigem. Quando se virava para a plateia, ali estava
uma mulher lindíssima, a luz do outro lado se apagava, começava a soar uma música
de Billie Holiday, a voz rouca, trabalhada, fazendo um número de cabaré. O publico ficava eletrizado. Depois continuava a cena com o outro ator,
mas lhe roubando total protagonismo.
Era realmente a
imagem que procurava, uma pessoa que pudesse transmitir o Ambíguo de um
perfume. Tanto sendo homem como mulher.
Esperou que
saísse do teatro, ia se aproximar, quando dois outros rapazes se aproximaram,
saíram os três caminhando, entrando num bar perto do teatro. Os seguiu, não havia nenhuma mesa disponível,
perguntou se podia se sentar com eles. Quando
viu, já estava no apartamento do Smith Darius.
Tinha sido uma noite de sexo, impressionante.
Ao chegar ao
escritório, todo vestido de negro, mas com um casaco todo colorido, disse ao
Charles, cravaste em cheio com o ator. Daqui
a pouco deve estar por aqui.
Estás errado, já
está te esperando na tua sala de reuniões.
Quando entrou, o
outro sorriu. Tinha que verificar se era
uma brincadeira de mal gosto, ou o que?
Foi até ele, lhe
disse rapidamente, para todos os efeitos, apenas nos conhecemos. Não gostava de misturar as estações. Ok.
Chamou os dois
criativos. Primeiro olharam Smith sem
entender. Mas ele tinha filmado com o celular
a transformação do mesmo.
Caramba. Disseram
ao mesmo tempo.
Gene, ou
Genevieve, correu até a sala deles, voltou com um tecido, pintado em negro com
desenhos num tom de azul profundo, pediu desculpas, pediu se podia tirar o
casaco, camisa, que ficasse em pé.
Sem problemas.
Ela colocou o
tecido em contato com a pele, ficava uma coisa fantástica. Valorizava totalmente o tecido.
Ele como sempre
objetivo, falou finalmente do que se tratava, explicou o que faziam ali, o que
necessitavam. O valor que podiam lhe pagar pela imagem. Quando formos fazer vídeos, para divulgação
tudo isso, negociaremos o valor outra vez.
Charles entrou na
sala, já com um pré-contrato.
Deves tudo isso a
ele, foi o Charles, que quando discutimos que necessitávamos de uma imagem,
sugeriu que eu fosse ver o espetáculo que trabalhas.
Bom agora te
deixo nas mãos desses dois, que farão fotografias, pode confiar neles.
Tinha tido
vontade de passar a mão outra vez, por aquela pele, que lhe tinha fascinado
desde o primeiro momento.
Na hora do
almoço, voltaram os três.
Gene foi dizendo
que era fácil trabalhar com ele. Mostrou o que tinham feito, ele semi nu, com
maquilagem feminina, com a estampa em forma de roupa, ele masculino, deitado
num chaise-longue, meio tapado pelo mesmo tecido.
Agora é vender o
peixe para o cliente.
Bom gente vamos
almoçar. Vens conosco Smith?
Claro, gostei da
experiencia. Lhes agradeceu a
oportunidade.
Mas afinal
acabaram indo almoçar somente os dois. Depois
do almoço o convidou para ir a sua casa.
Smith ficou impressionado com o que ele tinha feito com o lugar que
morava, realmente havia semelhança em tamanho com a sua casa. Telefonou ao Charles dizendo que tinha um
compromisso extra. Passaram a tarde
inteira fazendo sexo.
Smith comentou como ele o tinha tratado no
escritório.
Explicou que não
gostava de misturar estações. Sua vida
pessoal era só sua, não gostava de dar conta a ninguém.
Finalmente ele
disse que tinha que ir trabalhar, o teatro lhe esperava. Queres que volte
depois?
Refletiu um
momento, soltou o que pensava. Sei que
depois desse trabalho, vais fazer sucesso, serás alguém, te chamaram para fazer
filmes, teatro, entrevista. Pode ser que
me esqueças, então quero aproveitar tudo que posamos desfrutar.
Todas as noites,
ele vinha ficar com ele. Basicamente
faziam sexo como loucos, ansiosos para saciar a fome um do outro.
Como ele tinha
previsto, a propaganda foi um sucesso, logo Smith estava no olho do furacão,
convites, para trabalhos com agencias de modelos, filmes, séries de
televisão. Mas o incrível era que tinha
uma cabeça seletiva. Mostrava para ele
as propostas, discutiam, basicamente agora viviam juntos. Em menos de um ano, saia em reportagens
exclusivas. Entrevistas sobre o último
trabalho que fazia em teatro.
Agora sabia que
ele vinha de uma reserva no Idaho, que era filho de uma índia com um escocês por
isso a cor de seus olhos. Tinha sido
criado pela sua avó, pois seus pais morreram jovens.
Era o diferente,
o marginal. Não era como os outros índios, estudava porque sua avó desde o
princípio lhe dizia que tinha que saber usar a cabeça.
Conseguiu que ele
fosse para uma escola interna metodista, lhe disse que não importava que lhe
quisessem incutir religião. Todos os
fins de semana passava com ela.
Um pastor ficou
louco por ele, apesar de casado, abusou dele sexualmente. A avó quando descobriu, criou um escândalo. Ameaçou
o pastor de colocar a boca no trombone.
Exigiu uma indenização enorme.
Colocou no banco tudo. Já que
ele abusou de ti, que sirva esse dinheiro para teu futuro. Quando fez 18 anos, ele se tornou
independente, lhe passou todo o
dinheiro, mais o que ela tinha economizado.
Vai meu filho, voa como sempre sonhaste.
Primeiro serviço
o exercito na marinha, num imenso porta-aviões, aonde aconteceu o acidente que
lhe provocava essa voz rouca.
Ele conseguiu
entrar para a Juilliard School, sendo aprovado no primeiro exame. Se destacou desde o início. Fez pequenos papeis em obras da escola,
depois passou dois anos, fazendo castings para peças de teatro, séries de
televisão. Se tornou um catedrático
nisso. Foi quando surgiu o casting para
essa peça aonde Marcus o tinha descoberto.
Depois do trabalho que fizera para ele, a coisa melhorou, não queriam
que abandonassem o espetáculo, equipararam seu salário, com o ator principal. Depois fez mais trabalhos. Agora estava numa dúvida atroz, tinha sido
chamado para um trabalho com um dos melhores diretores de cinema. Não era o papel principal, mas exigia que ele
fosse para Hollywood. Amava Marcus
profundamente, lhe disse que pensava em desistir do papel.
Nada disso, é a
tua chance, não perca por mim. Não quero
ter isso na consciência.
Marcus continuava
com seu trabalho, cada vez mais requisitado, agora que chegava aos quarenta o
mundo lhe sorria, as agencias, tentavam contratar seus ajudantes, mas esses nem
pensar. Ele tinha sido experto, os tinha
como sócios.
Agora eram
chamados para trabalhos na Europa, viajava mais. Numa das viagens, foi contado
por um empresário, Michael Bourgouis, fez para a empresa que lhe pertencia vários
trabalhos, se tornaram amigos.
Entre filmes,
Smith aparecia, era como se nunca tivesse partido.
Mas nem sempre
tudo é perfeito. Um dia se apaixonou por
um diretor de cinema, foi primeiro falar com Marcus.
Este andou triste
um tempo, mas se jogou no trabalho. Cada
vez mais estava presente na Europa, agora não só Michael Bourgouis lhe chamava,
tinha muitos outros clientes. Entre ele
e Michael, que era muito mais velho do que ele, surgiu um elo amoroso. Se
hospedava em sua casa, o convencia de ficar para a Saison, iam a Teatro, Opera,
Ballets. Lhe apresentou muitas pessoas
que lhe interessavam. Quando estava em
Paris, aproveitavam a companhia um do outro, isso fez com que se fosse
esquecendo de Smith.
Com quarenta e três
anos, Michael lhe sugeriu fazer uma
visita as fabricas de tecidos na Africa.
Se apaixonou pelas estampas dos tecidos.
Voltou várias vezes para explorar o trabalhos das fabricas. Passou a estudar as estampas com afinco. As vezes de um detalhe delas, criava uma
série de objetos para vender a ideia.
Michael um dia
lhe disse que se afastava do negócio, o deixava para um sobrinho seu, estava
cansado, se retirava para uma vila que tinha no sul da França. Lhe sugeriu que viesse com ele, justo nesse
momento, estava cheio de trabalho. Não
queria parar, Michael, disse que entendia, lhe disse quase o mesmo que ele
tinha falado ao Smith. Que era seu
momento que devia aproveitar, o tempo passa rápido, quando vemos nossa vida se
esfuma na poeira do tempo.
Acabou comprando
o studio ao lado, para poder trabalhar mais tempo em casa. Um dia ao sair de um jantar de negócios, viu
uma família pedindo dinheiro na rua.
Tinham muitos filhos. Um deles
tinha aparência de doente. Os levou a um abrigo. Com o tempo conseguiu que a
família lhe desse o filho em adoção. Os
ajudou a endireitar suas vidas. Manteve
o nome original da criança, George.
Era uma criança frágil, mas com uma inteligência fora do normal.
Se dedicou a
criar seu filho, lhe dando o amor que esperava que lhe tivessem dado quando
criança. Dez anos depois, estava num hospital, ao que
tinha levado George fazer um exame, saia destroçado da consulta, quando deu de
cara com Smith. Era um ator famoso,
que tinha abdicado de fazer cinema, para fazer somente teatro. Ficaram um olhando para o outro, se
abraçaram. Smith tinha vindo fazer um
exame de rotina, pois se sentia cansado.
Nunca tinha tirado férias em sua vida.
O médico me
recomendou que tirasse um período para descansar, recuperar as energias que lhe
faltavam.
Tu que fazes
aqui. Venho receber os resultados dos exames do meu filho. Infelizmente não lhe restam muito tempo de
vida.
Gostaria de
conhece-lo se me permite.
Claro, venha
comigo até minha casa.
Smith ficou
abismado, contínuas vivendo no mesmo lugar?
Sim, comprei o
apartamento ao lado, aumentei, mas sigo no mesmo lugar.
Foi o único lugar
no mundo aonde fui feliz. O tempo que
passei contigo, foi o melhor da minha vida.
Mas não estava
apaixonado pelo diretor que conheceste.
Isso pensei eu,
mas tudo não passou de uma fantasia.
Nunca me quis como tu.
Tens alguém
agora.
Na verdade, não,
nunca mais quis ninguém perto de mim. Tenho somente trabalhado, não vou mentir
que tenho aventuras quando necessito. E
tu.
Bom dedico a vida
ao meu filho. Nunca pude encontrar
ninguém para te substituir. Nunca amei
ninguém como tu.
George, ficou
imediatamente alucinado em conhecer Smith, assistia uma velha série que ele
tinha participado. Estavam sempre os
três juntos.
Um ano depois o
garoto morreu. Para Marcus, foi como
seu mundo tivesse caído aos pedaços, pensou que nunca ia se recuperar. Mas agora tinha Smith ao seu lado todo o
tempo.
Já não escondiam
sua relação. Smith queria adotar uma
outra criança, mas Marcus, disse que já tinha idade para ser avô, não um pai.
Marcus, contou a
Smith do relacionamento que tinha tido com Michael, quando este tinha se
retirado no auge, a princípio não tinha entendido. Depois de o visitar várias vezes, o vendo pintando,
vivendo uma vida diferente, foi entendendo.
Tinha realizado o seu sonho de juventude, quando conseguiu o que queria,
tinha sentido que era hora de mudar. Foi buscar na sua juventude, coisas que
não tinha realizado. Então se dedicava a
isso. A conversa surgiu, depois que
Smith um dia atendeu uma chamada de Michael.
Este disse que o
conhecia de nome, de tanto Marcus falar dele.
Sei que sempre te amou com loucura. Diga que me chame.
Foram visita-lo,
assistir uma grande exposição que fazia de seu trabalho. Estava a mesma coisa, só que agora, com uns
cabelos largos brancos. Relaxado.
Passaram uma
semana em sua vila. Tanto para um como para o outro, esse momento de descanso
significou algo.
Marcus entendeu,
que tinha alcançado seu sonho, era alguém no mundo, respeitado, com uma
carreira consolidada, tirando a falta que sentia de George, sentia que tinha
feito uma coisa boa.
Smith, seguia
recusando papeis que não lhe interessavam.
Quando lhe apareceu um texto em que o herói era um índio. A princípio se entusiasmou, mas viu qual a visão
que ia dar o diretor, se negou a fazer o papel principal. Era como todas os
outros filmes de bang-bang, o índio sempre acabava mal. O branco era o vencedor. Quando o estúdio mudou o diretor, concordou
fazer o filme. Que virou um filme de
culto, pois era o primeiro que colocava o branco como assassino em massa. Afinal as terras era dos índios. O tema discorria por ai. Foi candidato a um Oscar pelo filme. Mas nem foi assistir a entrega. Sabia que a sociedade nunca lhe daria esse
prêmio pelo filme. Decidiu que era seu último
filme, queria viver uma vida com Marcus.
Morreram os dois depois
muitos anos vividos juntos, com uma diferença de dias entre um e outro. Como estavam afastados do mundo aonde tinham
vencido, poucos jornais, revistas deram importância ao fato. Apenas amigos próximos, assistiram as
cerimonias, podia se contar no dedo.
Deram mais importância que um artista como Michael, viesse a New
York.
Na cerimônia, do
enterro de Marcus, falou sobre isso, como tudo era efêmero, lutamos, vencemos,
mas no momento que deixamos de estar na cima, nos retiramos, somos totalmente
esquecidos pelo mundo. Marcus foi um dos
maiores criativos do nosso tempo, poucos hoje em dia sabem que abriu caminho
para muita gente. Jornais, revistas,
televisão, cinema, divulgaram seus trabalhos, algumas vezes sem saber quem
tinha idealizado isso. Foi um pai por
poucos anos, mas um grande pai. Amou só
a um homem, mas foi um amor de toda vida.
No dia que
voltava, soube da morte do Smith, desta vez lamentou que ninguém falasse desse
ator carismático, que tinha escolhido os
papeis que queria, com afinco, lutando com o estigma, de ser de uma raça, que
os valores eram outros. Poderia ter-se
deslumbrado com o cinema, mas preferia batalhar dia a dia num palco. Perco dois amigos em tão pouco tempo, dois
amigos que se amaram, creio que seguiram juntos na eternidade.
Quando perguntado
por que não fazia uma exposição em New York, disse que não interessava, tinha
vindo para render pleisia a dois grandes amigos. Na viagem de volta comentou
com outro amigo, que nunca tinha se sentido tão velho como agora, me sinto como
Matusalém, vejo os amigos partirem, como
castigo fico para trás. Será que se
esqueceram de me chamar, ou me chamaram e não escutei.
Morreu meses
depois, dormindo.
AMARGA
Estava no meio do
campo, como gostava, depois da chuva, quando o sol começava a secar tudo, além
do cheiro de ervas, o da terra molhada, não havia nada comparável para ele.
Viu ao longe um
cavalo a galope, não conseguia distinguir quem era, estava só ali, junto a um
grande rebanho de vacas pertencentes ao seu avô. Uma das pernas cruzadas em cima da cela.
Esperou
pacientemente que o outro cavalo se aproximasse.
Só então se deu
conta que era Bob, era como seu pai, ainda cavalgava como um jovem vaqueiro,
ninguém lhe conseguia fazer sombra.
Tinha sido criado pelo seu avô, eram uma mistura de Navajo, com
Cherokee, o tinha aceitado como seu filho, desde o dia que tinha chegado.
Encostou um
cavalo ao outro, o abraçou.
Venho trazendo
más notícias.
O que aconteceu, tinha
voltado no dia anterior da Universidade, aonde tinha feito agronomia, seu
grande desejo, estava cheio de planos.
Esteve com seus avôs na noite anterior, o velho finalmente o aceitava,
viu os dois acabados, eram cinco pessoas nesse jantar, pois estavam também o
Bob, Maria, sempre estavam com seus avôs.
O fato de ter-se
diplomado cum laude, fez com que o velho ficasse contente, além dele ter
estudado algo fundamental para a fazenda.
Dormiram cedo
como sempre, ele tinha se levantado as cinco da manhã, ido ao celeiro, preparou
a consciência seu cavalo predileto, um negro, com uma crina imensa, que ele
tinha criado desde que era potro.
Tua mãe morreu.
Quem morreu, o
que passou com Maria?
Estou falando de
tua mãe verdadeira, a filha número dois.
Seu avô nunca
dizia o nome das filhas, simplesmente dizia número um, número dois, ele era filho da número dois.
Ele era filho
desta com o rei de um país, que agora era comunista. Uma larga história. Mas na verdade ele tinha
sido criado pelo casal Bob e Maria, os queria realmente como seus pais.
O seu ele nem se
lembrava a cara, tinha sido assassinado numa revolta em seu país, ou pelos
menos isso diziam.
Sua mãe, era uma
beldade, seguiu os passos de sua irmã mais velha, que tinha ido para New York,
se casou com um milionário. Ela escapou
da fazenda, dizendo que ia fazer universidade na grande maça. Mas qual nada, desde que chegou seguiu os
passos da irmã, para caçar um milionário.
Nas poucas idas a Universidade, conheceu o então príncipe de um país
distante, que a primeira coisa que lhe deu de presente foi um anel de diamante,
imenso. Isso no primeiro jantar. Sua
irmã lhe aconselhou a melhor maneira de amarrar o mesmo. Acabou se casando com ele, lhe fazia rir, era
bonita, diferente das outras, pois não era a típica loira burra, ao contrário,
era morena de olhos azuis.
Quando acabou o
curso, se casaram nos Estados Unidos, depois seguiram em lua de mel, para
Paris, lhe deu um cartão de crédito com valor ilimitado, para ela fazer um
enxoval.
Mas quando
chegaram, ao seu país de origem, viu que nunca seria aceita, era americana
demais, o único jeito era ter logo um filho, o que não estava nos seus planos. Nasceu uma menina, quando dois anos depois, sua sogra queria
casar seu filho novamente, no país era permitido mais de uma esposa. Rapidamente ficou gravida outra vez, aí nasci.
Parece um conto
de fadas, mas não é. Ela tinha um gênio
especial, que fazia com que o meu pai, vivesse louco por ela. Quando se tornou rei, já não tinha um
problema, tinha um primogênito.
A coisa se
torceu, quando os americanos, encontraram petróleo na região, logo, mandaram
uma embaixada. Minha mãe se fez amiga
deles todos, era como ter um pedaço de sua terra natal, ali no meio do nada, estepes,
areia, grandes palacios, mais nada. Se
tornou uma informante de tudo que acontecia no palácio.
Foi avisada com
muita antecedência, que poderia acontecer uma revolta, através da mala da
embaixada, começou a mandar para fora, todas suas joias, evidentemente tinha
muitas, dinheiro para serem trocado por dólares, mas que tudo ficasse por lá.
Minha irmã, eu,
fomos criados, por uma mulher que chamávamos de Babate, conosco falava sua
língua, tinha criado meu pai antes. Quase
não víamos nossa mãe, estava sempre por ai, inventava viagens para todos os
lados, aproveitou para fazer seu pé de meia fora do pais, caso acontecesse
alguma coisa. Conseguiu que ele lhe
desse um apartamento em Paris, pois segundo ela, não gostava dos hotéis.
Se preparou bem,
mas a revolução estourou de uma hora para outra. Um adido militar, com quem tinha feito
amizade, veio nos buscar em plena noite, ela enquanto meu pai batalhava, ainda
teve tempo de abrir um cofre na biblioteca, levando tudo que estava dentro.
Isso atrasou
nossa saída, quando ela entrou no carro, os revolucionários, já estavam
entrando no palácio. O adido militar,
só teve tempo de acelerar, fomos
perseguidos, em direção ao aeroporto, aonde estava um avião militar americano
nos esperando. Tinha três anos nesta
época, estava meio dormido, mas uma cena ficou gravada na minha cabeça. Minha
irmã mais velha ia no assento dianteiro, por mais que minha mãe lhe dissesse
para ficar abaixada, teimava em tentar olhar para trás. Um tiro atravessou o vidro traseiro, a
atingindo no meio da testa, isso ficou gravado a ferro e fogo na minha cabeça.
Numa das paradas
para abastecerem, a enterraram num aeroporto perdido, no meio do nada.
Dias depois
quando estávamos já em New York, discutia com sua irmã, que não saberia criar
um filho. Sua irmã tampouco tinha
nenhum, pois a gravidez, atrapalharia seu corpo maravilhoso.
Chegaram à
conclusão, que o melhor, mais seguro, essa era a desculpa, pois era herdeiro do
trono, foi o argumento que usaram com minha avó. Não acreditou, mas ficou com pena de mim.
Meu avô ao
contrário foi irredutível, não queria em sua casa, ninguém que lhe recordasse
de suas filhas. Mal viraram as costas,
chamou Maria e o Bob, lhes disse, sabiam que queriam ter filhos, mas não tinham. Simplesmente falou, toma chegou o filho de
vocês.
Quando me viram,
com aquela casa de asiático, cabelos negros, olhos azuis, se apaixonaram, eles
foram meus pais de verdade, sempre vivi com eles.
Senti que o Bob
falava, mas não estava prestando atenção.
Ela era uma bela desconhecida para mim.
A única vez que tentou me ver, eu estava levando com o Bob, uma manada
de cavalos, para o exército. Quando
voltei já tinha ido embora.
Segundo minha
avó, tinha passado por ali, pois seu atual marido, justamente o Adido Militar,
teria que ver algo, foi ele que lhe chamou atenção que deveria ver seu filho.
Mas a visita
acabou mal, meu avô se negou a receber os dois, alegando em voz bem alta, para
que ela escutasse, que ele não tinha filhas.
Que tampouco voltassem, porque a fazenda nunca seria delas.
A muito tinham
adotado o Bob como filho deles.
Comigo falava as
vezes quando estávamos no campo, no meio das manadas de cavalos ou de vacas, me
chamava sempre dizendo , “ei filho do Bob”, venha aqui.
Fisicamente
éramos completamente diferentes, ele era loiro de olhos azuis, realmente eu
parecia mais um filho do Bob. Com os
anos, dizia a Maria, que por osmose, tinha me transformado em um filho
original, era igual a eles, tinha a pele curtida do sol, cabelos negros, olhos oblíquos,
podia passar por qualquer índio americano.
Na universidade, todo mundo pensava o mesmo.
No dia seguinte que
cheguei, na casa deles, me perguntaram meu nome, eu não sabia, como a vi
falando Bob todo o tempo, disse Bob, fiquei sendo o Bobby da família. Até hoje me chamam assim.
Depois desse
silencio, em que tentei absorver a notícia, não que me importasse, mas sim pela
avalancha de lembranças. Imagina uma
criança com três anos, é deixada para trás, nunca mais vê sua mãe, sequer sabe
como é sua cara hoje em dia. Sabe pelo
menos sua história, porque tanto o Bob como a Maria, fizeram questão de contar.
Tudo que
verbalizei, foi, quem veio dar a notícia.
O marido dela
telefonou, quer saber se vais ao enterro.
Tinha se
encontrado com ele por um acaso, num evento em uma feira de cavalos, se
aproximou, me perguntou se eu era Frederick.
Na hora ia
responder, que me chamava Bobby, mas num relâmpago, me lembrei que meu nome era
esse.
Não te lembras de
mim, mas fui eu que te salvei da revolução.
Me convidou para
comer alguma coisa ali, conseguiu um lugar para falarmos a parte, me contou que
vivia todos essas anos com minha mãe, que tinham dois filhos.
Ou seja, eu tinha
dois irmãos que não sabia que existiam.
Quando estivemos
na fazenda era para te contar isso, mas teu avô nos expulsou.
Ri com a
história, mas poderiam ter deixado uma carta pelo menos. Sou honesto de te dizer, que não me lembro
sequer da cara dela. Tens que pensar que
quando me deixou eu tinha três anos.
Nunca mais soube dela, tampouco de minha tia. Quem me criou não foram meus avôs como ela
imaginou, mas sim o Bob e Maria. Esses
foram meus verdadeiros pais.
Me disse que ela
tinha um câncer terminal, se não gostaria de ir vê-la?
Não tenho por
que fazer isso. Será como ver uma pessoa que não conheço,
morrendo num hospital, mas que não sinto nada.
Ficou horrorizado
com o que disse, ainda tentou argumentar que era minha mãe.
E que, nunca mais
a vi, não sinto nada por ela.
Era uma verdade
absoluta, a única coisa que sempre me lembrava, principalmente quando tinha
febre, era a cara de minha irmã, com um tiro no meio da testa.
Uma vez me tinham
perguntado, de aonde era, não sabia responder, o país não existia mais, tinha
sido absorvido pela Índia, Paquistão, China.
Bob me despertou
novamente, creio que deverias ir, sempre rendemos homenagem aos mortos, será
uma maneira de enterrares o passado também.
Não podia
argumentar, que passado era esse, pois não me lembrava de nada, a não ser ter
apreendido a montar a cavalo. Que ele me
levasse a escola da vila mais próxima, pois Maria fazia questão que eu tivesse
estudos. Me dizia que sempre tinha
sonhado com um filho que fosse a Universidade, que ela não tinha podido
ir. Por isso estudei.
Adorava estar em
cima de um cavalo, aprendi a montar, domar com ele. Gostava dos seus silêncios
imensos no campo, é quando falava algo era contundente.
Entendia o que para
ele era render homenagem aos antepassados, pois ele o fazia, quis argumentar. Mas nem me deu tempo, vamos, tens que pegar um
avião para Washington. Avisar que vais ao enterro, para que te esperem.
Na verdade, ele
fez tudo isso, Maria já tinha uma maleta
pronta. Meus avôs, simplesmente me
abraçaram, a velha que era uma pessoa
amorosa, tinha lagrimas nos olhos, disse o mesmo que eu, nem me lembro
da cara dela.
A viagem foi
complicada, pois tive que trocar duas vezes de avião, afinal Washington estava
ao outro lado do país.
Para cumulo,
destoava totalmente do pessoal, imagina minha vestimenta, botas de cowboy, calças
jean, camisa de quadros, um casaco que nem combinava com tudo, velho ainda por
cima.
Mas era minha
roupa, não tinha outro tipo de roupa. Na verdade, não me incomodou, pois na
universidade era ok mesmo. Apesar de ser uma Universidade em Montana, a maioria
usava roupas modernas.
As pessoas me
olhavam, quando entrei atrasado na igreja, o marido veio me buscar no fundo,
para ficar junto com a família. As
pessoas me olhavam de cima a baixo. Tinha por acaso vontade de rir da situação.
O pastor
perguntou se eu queria dizer algumas palavras, respondi sinceramente que não,
porque poderia ofender a memória da defunta.
Não disse mãe, mas sim defunta.
Na saída seu
marido, Peter, me pegou pelo braço, me obrigou a ficar do lado dele, do outro
estava os que deviam ser meus irmãos, minha tia que parecia uma bruxa de tão
esticada que estava.
Peter foi me
apresentando como filho mais velho de sua mulher. Vi que isso causava um certo
comentário, mas deixei estar.
Minha tia só fez
um comentário, esses velhos só te deram esse tipo de roupa.
Lhe respondi, que
não tinha sido criado pelos meus avôs, mas sim por Bob e Maria, de quem me
orgulhava.
Ficou me olhando,
talvez procurando na memória, quem eram esses dois que mencionava.
Peter finalmente
me apresentou seus filhos, Anne e Robert. Apertei a mão dos dois, não estava
acostumado a dar beijos.
Fomos para sua
casa, aonde seria a recepção.
Peter no carro,
me disse que teria que ficar mais uns dois dias, pois teria que esperar a
abertura do testamento. Minha única
pergunta foi que testamento?
Que tinha eu a
ver com isso?
Muito simples,
tua mãe deixou um testamento, por isso é necessário que fiques.
Mas pensava em
voltar hoje mesmo, temos que levar uma manada para o alto da montanha, isso
leva dias.
Vi que meus dois
irmão riam. Robert soltou, então é por
isso que te veste assim, príncipe?
Príncipe eu?
Peter cortou a
conversa rapidamente.
Durante a
recepção, algumas pessoas falaram comigo, me chamando de sua alteza. Eu pensando, que merda é essa, não sou
príncipe coisa nenhuma, esse país nem existe mais, que gente mais idiota.
Disse ao Peter
que ia procurar algum hotel. Tentou me
convencer que ficar em sua casa, mas declinei, pois não queria estar perto da
bruxa da minha tia. Me caia muito mal,
as olhadas que me dava.
Sai sem me
despedir de ninguém, disse que lhe avisaria o hotel que encontrasse.
No taxi,
perguntei ao motorista se conhecia, algum hotel, simples, mas limpo. Me levou um na parte velha da cidade.
Deixei um recado
no celular do Peter, dizendo aonde estava.
Minha irritação
ia em crescente, telefonei para minha avó, lhe contei o que tinha acontecido
Não estão
errados, por mais que o país não exista, teu pai era um Rei. Perguntou pela filha?
Respondi como ela
gostava, esticada como uma bruxa, uma roupa muito apertada, como quisesse
mostrar seu corpo, disse que as putas que trabalhavam na vila, se vestiam
melhor.
Morreu de rir. Voltando a ficar séria, me perguntou se tinha
me aproximado do caixão para ver minha mãe.
Não, estava
fechado, o pastor me perguntou se queria falar alguma coisa, eu declinei, pois
poderia ofender algumas pessoas.
Fizeste muito
bem, não deves nada a essa gente. Volte
logo, sinto falta de falar contigo.
Tínhamos o hábito de no final da noite, sentarmos na cozinha, para
conversar.
Nesse momento, me
fazia falta justamente isso, sentar-me com alguém e conversar.
Mais tarde Peter
me chamou, perguntando se eu queria conversar.
Ele não me caia
mal, mas não queria conversar com ele, nem meus irmãos, mais duas incógnitas em
minha vida.
Não conseguia
entender, se ela tinha já um filho, que não cuidava, porque ainda tivera mais
dois.
No dia seguinte,
depois de uma noite mal dormida, estava tomando café no bar em frente, quando
vi o motorista do Peter me procurando.
Minha primeira ideia foi fugir, mas tinha sido educado a enfrentar de
frente as situações.
Quando me disse
que me esperavam para tomar o café da manhã, lhe pedi, que desse uma volta pela
cidade, para me ilustrar, pois tinha acabado de tomar café.
Quando cheguei,
estavam todos na biblioteca.
O comentário do
Peter, foi, para ti o dia de ontem deve ter sido espantoso.
Não entendi essa
baboseira de me chamarem de alteza, de um país, que nem existe mais.
Te enganas,
depois de anos, voltou a ser um país outra vez, só que tem um presidente, invés
de um rei.
Bah, isso me dá
igual, quero resolver isso rapidamente, pois tenho que voltar para a fazenda.
Os velhos te convenceram
de que lá a vida é melhor, soltou minha tia.
Bom, colocamos os
pontos nos seus devidos lugares. Tu e
tua irmã, me largaram lá quando tinha três anos, esperando que os velhos me
criassem, mas tal coisa não aconteceu, pois teu pai, só depois que terminei a
universidade me aceitou. Fui criado pelo
Bob e Maria, que considero meus verdadeiros pais. Aprendi a subir num cavalo, a domar, levar
rebanhos, com ele, ela me fez estudar, ir à universidade. Eu nunca mais vi tua
cara, nem da senhora que dizia ser minha mãe, que esperas.
Meus dois irmão,
olharam para o pai, lhe perguntaram se isso era verdade?
Sim é verdade, a
desculpa era que ele poderia ser procurado por alguém de seu pais, para
assassina-lo.
Uma boa desculpa
verdade?
Não vou discutir
as razões Bobby, pois imagino que nada disso importa mais.
É verdade, ela
era uma bela desconhecida para mim, nem me lembro da cara dela. Nunca mais
pensei nela como minha mãe. Nem minha
avó se lembra como é a cara das filhas.
Minha tia,
perguntou, ela não vê revista de sociedade?
Não tem tempo
para estas besteiras, apesar de sua idade, está ativa, cuida da administração
da fazenda com o Bob.
De repente,
Peter, olhou o dedo do filho, perguntou de onde ele tinha tirado o anel que
usava?
Do cordão que
mamãe tinha sempre no pescoço.
Pois não te
pertence, sim a ele. Retire de seu dedo,
entregue ao teu irmão.
Esse anel,
pertencia ao teu pai. Por isso é teu.
O rapaz me
entregou o anel meio sem graça, bati em sua mão, dizendo não tem importância,
se queres para ti, podes ficar, pois eu nunca uso anéis.
Peter cortou
outra vez, esse anel te dá o direito de ser Rei.
Comecei a rir,
acorda Peter, só se for Rei dos cavalos, das vacas, pois é isso que eu
sou. Para teres uma ideia, esqueci
completamente o idioma de lá. Quando era
criança, ainda me lembrava de algo, mas depois esqueci.
Tu mesmo disseste
que hoje é uma república, então não existe lugar para um Rei, ou será que estou
equivocado?
Tens razão, mas
existem propriedades que podem ser tuas.
Não irei até lá
para tirar propriedade de ninguém, nem preciso delas.
Sugiro que devias
comprar uma roupa formal para ires ao advogado, para ler o testamento.
Tive que rir,
para que quero uma roupa formal, se nunca irei usar. Olhei para o Robert, gosta de estar de roupa
formal, um garoto da tua idade, embora eu não soubesse qual era.
Não, na verdade,
foi papai que pediu que me vestisse assim. Uso roupa mais esportes, queres ver?
Claro, isso sim
posso usar, mas isso, sinalizei a roupa do Peter, imagina isso em cima de um
cavalo.
Saímos da
biblioteca, com minha tia dizendo alguma coisa.
Que faz essa
bruxa aqui?
Creio que espera
que tenha alguma coisa para ela no testamento, mas duvido, no final da vida de
mamãe, nunca apareceu por aqui, dizia que ver uma pessoa doente, lhe dava stress.
Segundo nossa
avó, uma boa bisca.
Boa bisca, o que
é isso?
Uma maneira de
falar do interior, mais uma puta.
Ele riu até ela
já se casou umas quantas vezes, alguns a conhecem como viúva negra.
Vi que ia gostar
do Robert, me mostrou seu quarto, abriu a porta dos armários, se quiseres algo,
é só pegar.
Tenho o dinheiro
dos meus últimos salários, posso usar cartão de crédito para comprar algo.
Tenho que pensar,
que seja útil para usar depois.
Você acha que
nossos avós, aceitariam nos receber lá?
Pode ser difícil
a princípio, pois eles não sabem que vocês existem.
Não sabem que
existimos?
Não, quando tua
mãe, Peter estiveram por lá, não comentaram nada. Embora eu não os tenha visto, pois estava no
alto da montanha.
Conta me como é
isso?
Quando chega a
primavera, levamos o gado para as montanhas, porque os pastos estão mais
verdes, ficam por lá. Existe uma cabana
imensa, aonde ficamos. Vai um
cozinheiro para preparar o café, comida.
Toda semana um grupo tem direito a descer para ver suas famílias,
eu agora posso ficar mais tempo, pois
acabei a universidade. Adoro ficar lá
em cima, a paisagem é fantástica. Se
pode tomar banho num lago que tem por lá. Temos que estar sempre em cima dos
cavalos, tomando conta do gado.
Quando chega o
outono, descemos, para os pastos de baixo.
É tão grande
assim a fazenda?
Sim. Podes andar
um dia ou dois a cavalo sem sair dela.
Caramba, então
nos tocará de herança?
Creio que não, o
velho adotou o Bob a muito tempo, creio que cortou as filhas da história,
porque foram embora, nunca mais falaram com eles. Não existe na casa nenhuma foto deles, nunca
se fala nelas.
Caramba, que
história, minha mãe, tinha sua vida passada, fechada abaixo de sete chaves, nem
sabia que tinha um irmão mais velho.
Eu, minha irmã fomos criados por babás, ela não gostava de crianças,
creio que nos teve, para agradar ao velho.
Esse sim, gosta da gente.
Sem que ele
perguntasse nada, soltou que ela vivia em festas de embaixadas, tardes de
golfe, coquetéis no clube, só a víamos por momentos no final de semana. Mas, quando voltou desse viagem que foi com
meu pai, mas não conseguiu te ver, mudou.
Passou a ser agradável, escutei meu pai, dizendo que não ia fazer com os
filhos dele, o mesmo que tinha feito contigo.
Ela gostava mais
da minha irmã, pois falavam de moda essas coisas de mulheres.
Comigo sempre foi
fria, como se os homens fossem culpados de algo, que nunca soube. Depois que ficou doente, mudou mais
ainda. Quando viu que não tinha cura,
deixou de sair de casa, pois ficou careca com o tratamento. Nos últimos meses,
nem saia da cama. Meu pai disse que
exagerava, não sei se era verdade.
Estava sempre deprimida, se olhava
muito no espelho.
Venha vou te
ensinar o quarto dela. Ou quarto do
narciso como dizemos.
Quarto do
narciso?
Sim porque só tem
fotos dela, nenhuma da gente.
Era verdade, por
aonde se olhasse, havia fotos, um quadro imenso, dela vestida com uma roupa
diferente. Creio que é um traje do teu
país.
Procurou para ver
se tinha alguma foto de seu pai, pois não se lembrava da cara dele.
Ele percebeu, não
te disse que só tem fotos do narciso.
Voltaram para o
salão, sua tia tinha se retirado para descansar.
Peter disse,
estou louco para que vá embora. Que
mulher mais desagradável.
Peter, existe
alguma fotografia de meu pai. Não me
lembro nada dele?
Sim tenho no
escritório, um dossiê sobre ele. Alguns
acreditam que está vivo, nas montanhas.
Mas ninguém sabe
se é verdade ou não. Tudo que sabemos é
que o resto da família foi toda assassinada.
Nunca encontraram o corpo dele.
Por isso existe nas montanhas uma vila, de onde a família é originaria,
os chineses, não se atreviam a chegar até lá, pois sempre havia atendados
rebeldes no meio do caminho. Não existem
estradas para esse lugar, impossível chegar de helicóptero, ou qualquer outro
meio de transporte.
Quantos anos ele
teria agora?
A minha idade,
estudamos juntos na universidade, por isso fui designado para ir para a
embaixada, ser o enlace com a família real.
Vou te fazer uma
pergunta desagradável, aonde está enterrada minha irmã?
Os dois
perguntaram, tínhamos uma irmã?
Sim, quem
explicou foi o Peter, morreu no momento que fugimos. Na verdade, não sei, paramos num aeroporto já
em outro país, era pequeno, só paramos para abastecer, tua mãe deu ordem para
enterra-la ali mesmo.
Se via que os
garotos estavam chocados.
Quantos anos
depois, vocês se juntaram?
Ufa, muitos anos
depois, nos encontramos numa festa na casa de tua tia, ela estava chateada, me
disse que estava farta dali. Que tua tia
queria arrumar sempre algum casamento para ela.
Mas claro como não sabia se teu pai estava vivo ou morto, não podia se
casar.
Começamos a sair,
conseguimos depois de muitos papeis, apesar de não saber, que lhe fosse
concedido o divórcio. Então nos
casamos. Antes que perguntes, porque
mais filhos, isso foi uma imposição minha, eu queria filhos. Fizemos um acordo, eu cuidaria deles com
babas, mas ela era livre para viver, se dava fatal com as crianças.
Mas verdade seja
dita, eu a adorava. Só brigamos uma
vez, que a enganei, a levando para te ver, ficou uma fera, porque teu avô
basicamente nos expulsou. Não te vimos,
fiquei furioso por ela não ter insistido.
Lhe disse que ia pedir o divórcio.
Creio que se deu conta, da enorme burrada com os filhos. Depois quando ficou doente, quis te chamar,
mas me disse, que vai pensar ele, que venha aqui me cuidar. Foi um momento difícil, pois se deixou
vencer pela doença.
Vamos almoçar
fora, somente nós, deixamos tua tia aqui.
Amanhã cedo vamos ao advogado, assim ela vai embora. Creio que pensa que tua mãe deixou dinheiro
para ela. Tem um trem de vida muito
caro. Já não lhe aparecem vítimas para
limpar o cofre.
Papai, disse a
Anne, se te escuta?
Me dá igual, já
não tenho que aguenta-la.
Durante o almoço
Robert disse que gostaria de ir a fazenda comigo. Posso pai?
Poder pode, mas
não sabemos como vai tratar teu avô.
Pai, eles nem
sabe que existimos.
Isso é verdade,
porque não deixou tua mãe falar nada. Abriu a porta, quando viu quem era, a
fechou na cara da gente. Saiu em seguida
com uma espingarda, exigindo que fossemos embora.
Avó me contou
isso, disse que tentou convence-lo, mas que não houve jeito. Ela sempre saiu perdendo, ele sempre teve um
gênio desgraçado. Agora, fala comigo
direito, porque fiz Universidade, na área que lhe interessava. Mas fiz por mim. Porque adoro o campo.
Falarei com a
avó, pois com ela me comunico bem, de qualquer maneira podem ficar na casa do
Bob, que é grande.
Anne disse que
não tinha interesse em ir, pois não gostava do campo.
Pior para ti,
nunca conheceras nossos avôs, que nem sabem que existimos.
Já tinha visto
que tinha saído a minha mãe.
Me deixaram no
hotel com Robert, saímos a andar, foi me mostrando uma parte da cidade, era um
garoto, agradável. Foi honesto comigo,
dizendo que estava perdido com tudo isso.
Imagina, meu pai,
nos avisa que vens. Lhe perguntamos
quem eras? Solta
que era nosso irmão mais velho, que minha mãe tinha abandonado na fazenda de
seus pais. Imagina a confusão. Tua tia não queria que avisasse. Dizia que não virias.
Na verdade, foi
meu primeiro pensamento. Mas fui
educado pelo Bob, ele é uma mistura de índio Navajo com Cherokee, cultua os
antepassados. Me convenceu que para ir
em frente eu tinha que enfrentar isso. Já não tinha meu pai verdadeiro para
honrar, pelo menos tinha minha mãe. Ele
sabe toda a história. Acabou me
convencendo.
Contei aonde
estava no momento que me deu a notícia.
Se gostas de paisagem, sobes uma
meia hora a montanha, é estas numa altura, vês todo o campo, a casa da fazenda,
o infinito que há detrás dela. É meu
lugar preferido.
O que queres
estudar Robert, já tens decidido?
Nada, não tenho
menor ideia. Meu pai quer que estude
direito internacional. Mas isso é uma
coisa que ele gosta, não eu. Penso em
mil coisas, gosto de música, mas sempre
diz, como vou viver de música.
Lá em casa,
escutamos muito música country, porque Bob adora, eu gosto mesmo é do silencio.
Não sei te explicar por quê? Alguma
coisa que ficou na minha memória, adoro o ruído do vento no inverno, passando
pelos vidros da janela. Mas quando digo
isso, todo mundo ri.
Nessa noite
jantaram os dois juntos, foram a um lugar, de sanduiches, viram que gostavam da
mesmas coisas.
Dormiu melhor essa noite, sonhou de novo com a
irmã, como que tentando lembra-se de algo que lhe pudesse assinalar aonde
estava enterrada.
No dia seguinte,
vestiu uma roupa parecida com a que tinha chegado. Ao chegar ao escritório do advogado com
Robert, o comentário de sua tia, era se não tinha outro tipo de roupa. Sequer lhe respondeu.
Sentaram-se, o
homem leu algumas coisas relativas à lei, dizendo que eram as últimas vontades
de minha mãe. Havia uma carta para cada
um dos filhos. Depois começou a ler o
testamento, para Peter e os filhos, não deixava nada, pois sabia que Peter
tinha dinheiro suficiente para criar os dois.
Deixava tudo para mim. Pois tudo
que tinha, era justamente o que tinha retirado do país aonde tinha vivido. Tudo estava numa caixa forte num banco. Além do apartamento de Paris, que na verdade
já estava no nome dele. Comentava que só
tinha descoberto isso, quando quis vende-lo.
Seu marido o Rei, lhe tinha dado o apartamento, mas tinha colocado no
nome do filho. Então isso ninguém
poderia tirar dele.
No mais, só peço
desculpas aos meus filhos, ao Peter, por terem me aguentado, perdão pelo
abandono. Vocês não mereciam isso.
Sua tia, estava
irritada, perguntou ao advogado se ele não estivesse presente, quem herdaria o
que estava nos cofres.
Seriam devolvidos
ao país de origem. Porque de uma certa maneira, pertence aos possíveis
herdeiros que possam existir lá.
Tudo que soltou
foi MERDA, se levantou deu um beijo na Anne, abanou a mão para o Peter, se foi.
Ufa graças a
Deus, nos livramos da megera. Ela só
estava aqui, para saber do que ia acontecer com o que está no banco. Pois deve ter visto isso quando sua mãe
chegou aqui.
Nunca permiti que
ela usasse desse dinheiro, nem vendesse nada do que está lá.
O advogado, lhe
entregou as chaves do apartamento de Paris, bem como da caixa do banco.
Queres ir até
lá?
Melhor resolver
isso de qualquer maneira, verdade Peter.
Sim, assim ficas
livres de seguir teu caminho.
Esse apartamento
em Paris?
Nos usamos
algumas vezes, ela adorava ir para a Saison.
Que isso de
Saison?
É a temporada de
Operas, Ballet, tinha assinatura nos Teatros, ia a todos possíveis, dizia que
isso lhe aliviava a alma. Mas os meninos
nunca foram. Lá tem fotografias do teu
pai, ela nunca mudou a decoração que estava.
Foram ao banco,
entrou só ele na sala, ainda quis que o Peter participasse, este lhe disse que
o primeiro contato devia ser dele só, depois se houvesse algum papel, ele
ajudaria.
Era uma caixa
grande, dentro caixas, grandes,
pequenas, todas com joias, que ele não saberia dar o valor. Algumas tinha uma letra masculina, presentes
do meu pai. Outras com joias misturadas,
não. Sacos de diamantes, outros de joias
preciosas, que ele jamais saberia o valor.
Depois na parte baixa papeis. Documentos de propriedades. Em Londres,
New York, Paris. Menor ideia se isso
existia hoje. Depois um registro de
nascimento dele, seu nome verdadeiro, seus títulos, todos seus bens. Pelo visto agora ele era um milionário. Merda, tudo que queria era voltar para a
fazenda.
Retirou somente
os papeis, pois Peter poderia lhe ajudar.
Numa das caixas pequenas, viu um anel, muito parecido com o que ele
tinha visto com o Robert. Presente de
seu pai para ele. Experimentou, entrava no seu dedo mindinho. Não ia usar isso nunca.
Pediu se o Peter
podia entrar para ajudar. Ele na verdade
sabia o que existia ali, vim com ela a última vez, quando me disse que tudo
pertencia a ti.
Essas
propriedades? Existem ou não?
Isso teremos que
ver, pode ser que alguém a tenha reclamado.
Sacudindo um dos
papeis, caiu uma foto. Era do casamento
deles, quando chegaram ao seu país.
Ele era parecido com seu pai, tirando
claro os olhos azuis.
A roupa era
estranha, não saberia dizer de aonde era.
O país na verdade
Bobby, ficava num vale, está em eterna disputa, entre Índia, Paquistão,
China. Todos querem esse troço, que
passa metade do ano, sem possibilidades de acesso. Teu pai, na verdade era um
Marajá, que traduzindo seria um rei. Era descendente de Mongóis, Kirguis, que
se casavam para manter a rota da seda.
Quando acabou tudo isso, ainda eram ricos, mas o povo ficou na miséria,
pois a maneira que tinha de ganhar a vida acabou. Amanhã vamos ao meu escritório, verás o que tenho
sobre teu pai.
Uma
pergunta. Tudo isso entrou legalmente no
país.
Vejo que não es
tonto. Foram trazido nas malas
postais. Quando tua mãe, teu pai,
souberam dos problemas que iam ter, começaram a mandar tudo para fora. Principalmente os diamantes, joias. Uma parte que estava nos cofres da suíça,
estão em litígio, mas no momento que apareceres como legitimo herdeiro dele,
creio que passaram a ti.
Mais do que isso
tudo?
Sim, muito mais.
Mas isso aqui
deve valer uma fortuna, não imagino em que posso gastar tudo isso.
Francamente Peter
estou zonzo. Tens que me ajudar.
Por isso tua tia
queria meter a mão, está arruinada, não foi esperta, podia ter te agradado para
pedir ajuda, mas foi ela que instigou tua mãe a te deixar com teus avôs. Dizia que com um filho pendurado, nunca
poderia fazer um bom casamento. Ela
sempre conseguia convencer tua mãe.
Quase conseguiu que não se casasse comigo. Lastima que Anne encanta o modo de vida dela.
Mal sabe que não passa de uma nuvem passageira.
Hoje ficas lá em casa,
assim podemos estudar todos esses documentos, para saber por aonde podemos
procurar. Sorte que tenho amigos nesses
lugares todos, pois vivia trocando de pais, necessitava de contatos, então fiz
bons amigos.
Ficaram até tarde
olhando os papeis. Ele volta e meia,
olhava a fotografia que tinha encontrado, a semelhança com seu pai, era
impressionante.
Se ela soubesse
que estavas assim parecido com teu pai, talvez tivesse pensado melhor.
Mas vamos ao que
interessa. Existem duas propriedades em Londres,
a de Paris é a tua, essa de New York, creio que é o apartamento de tua
tia. Por isso ela não pode vender.
Tomei uma decisão
rápida, se é esse, quero que ela saia de lá, imediatamente. Não suporto essa mulher.
Primeiro vamos
descobrir. Mesmo sendo tarde, começou a
fazer contatos, com advogados, passando fotocopias de tudo.
Comeram sanduiches,
conversando. Robert, brincando,
comentou, então quer dizer que tenho um irmão cowboy que não sabia que era
milionário. Vou me dar bem?
Tu vais é
estudar, ganhar a tua vida, como teu irmão tem feito até hoje.
Fiquei rindo, ele
perguntou por quê?
Imagina se eu fui
educado a economizar meu salário da fazenda, agora tenho todo esse dinheiro, ou
esbanjo, ou farei uma coisa completamente diferente. Só queria descobrir se meu pai ainda está
vivo.
Amanhã, veras o
que tenho sobre ele.
No dia seguinte,
foi com Peter, não sabia que ele trabalhava no departamento de Estado, todo
mundo falava com ele. Avisou sua
secretária que não estava para ninguém. Abriu
um arquivo com chave. Separei isso,
desde que soube que vinhas, tens direito a saber de tudo.
Passou um dossier
para ele. Mais ou menos era a história
que ele sabia. Que o departamento de
estado tinha dado ordem da retirada de sua mãe e filhos por causa da
confusão. Pelo que via, seu pai era
Marajá, de uma pequena comunidade no Vale de Shaksgam, na zona do Glaciar
Siachem. Nem Paquistão, Índia ou China,
conseguiam chegar aonde vivia o que tinha sobrado desse povo. Em vermelho, impossível chegar de
Helicóptero, única possibilidade somente a cavalo. Zona de Rebeldes estava anotado em vermelho.
Mesmo assim,
algumas vezes conseguiam aprisionar um rebelde, este se negavam a dizer como
chegar lá em cima, aonde estava a vila, preferiam morrer.
Havia uma foto,
feita por um dron, se via um homem olhando para o aparelho. Realmente se seu pai estivesse com mais
idade, poderia ser ele.
É o que todo
mundo pensa.
Acreditas que
poderíamos chegar até lá?
Podia se tentar,
mas seria arriscado.
Peter obrigado,
vou pensar seriamente no assunto, entro em contato contigo. Gostaria que o Robert viesse comigo para a
Fazenda, ele tem direito de conhecer seus avôs.
O velho é pesado, mas tenho certeza que ela vai gostar de conhecer. Falar nisso tua filha sabe que tem o nome de
sua avó?
Seria, então foi
por isso que as duas brigaram horrores, quando tua mãe escolheu esse nome.
Estão de férias,
se quiserem ir, posso ir junto, esclareço tudo com eles. O que achas.
Podes ficar na
casa do Bob, ele é boa gente.
Avisou sua avó
que voltava, que muita água tinha passado embaixo da ponte. Que levava uma
surpresa para ela. Não me compre nada,
sabes que não necessito.
Só prepare o
velho, vamos ter que controla-lo.
Ele ficou muito
nervoso depois que partiste, disse que já não voltarias, como elas, eu disse
que perderia a aposta. Está velho e
doente, creio que qualquer coisa vem bem.
Anne não queria
ir, queria passar uns tempos com a tia, mas o pai a convenceu. Disse que tinha que conhecer sua avô, contou
que tinha seu nome.
Embarcaram,
tiveram que fazer a mesma coisa, dois voos.
Bob, estava esperando por eles, num 4X4 grande, ele o tinha
avisado. Foi muito agradável. Abraçou seu filho. Sentimos tua falta filho.
Peter viu que
realmente esse era seu pai.
Quando chegaram,
foram direto a casa grande. Ele entrou,
disse a seu avô, então não acreditavas que voltava?
Bom, isso dizia
tua avó.
Que velho sem vergonha,
agora sou eu não é.
Bom tenho uma
surpresa para vocês, da mesma maneira que não sabiam deles, eles tampouco de
vocês. Trouxe meus irmãos para
conhecerem a família verdadeira.
Ela tinha mais
filhos, nunca falou nada?
Avô, está morta,
não adianta criar problemas, eles não tem nada a ver com isso. Saiba que quando você os expulsou daqui quem
tinha convencido para que ela viesse foi seu marido, foi ele quem nos tirou de
onde vivíamos. Estão fora, peço por
favor que os receba.
Os meninos,
entraram sem graça, Peter estava em guarda, mas Bob o tinha tranquilizado, o
velho é fácil de controlar.
Ele olhou os
netos, examinou bem, saiu da sala. Não
se preocupe, foi chorar um pouco, daqui a pouco volta, a velha abraçou seus
netos. Me chamo Anne.
Como eu, disse
sua neta.
Tu, perguntou ao
Robert? Quando disse seu nome, ela ria, minha filha era uma ingrata, mas
colocou os nomes dos filhos como seus pais.
Teu avô também se chama Robert.
Ele pensou que o
tinham chamado, voltava com os olhos vermelhos.
Ela contou calmamente como se chamavam os garotos. Ele riu, apontou para mim, dizendo, vês, este
tivemos que chamar de Bobby porque ninguém conseguia dizer seu nome.
Se sentaram
todos, ele apontou para o Bob, disse que era seu filho adotivo, ele criou o Bobby,
isso todos sabiam, mas ele queria que ficasse claro.
Maria veio da
cozinha, correu para seu filho, abraçou chorando.
Clama mãe, estou
aqui, não passa nada.
Teu avô ficou
dizendo o tempo todo, que eu tinha perdido meu filho.
Peter estava com
a boca aberta. Tiveste sorte de teres
conseguido os dois para serem teus pais.
Anne disse a
Maria, precisamos arrumar quarto para eles, apresentou Peter, os garotos,
dizendo que tinham os mesmo nomes deles.
Robert pode ficar
no meu quarto, amanhã tenho que ensinar a montar a cavalo.
O jantar foi
super agradável, Peter perdeu a má impressão que tinha tido anteriormente. Anne, disse depois conversamos melhor, verás
daqui a pouco ele irá dormir. Era uma
verdade, ele sempre ia dormir as 10 da noite.
Para surpresa de
todos, deu um beijo na cabeça dos garotos, dizendo, não desapareçam, que vou
dormir. Como se tivesse medo de
despertar no dia seguinte, não encontra-los por ali.
Foram todos para
a cozinha, sentaram-se com a matriarca da família, ela foi fazendo as perguntas
do que queria saber. Se via que Peter
lhe caia bem.
Mas teremos mais
dias para conversar, responder tuas perguntas.
Ele queria ir para casa e conversar com Maria e Bob.
Melhor deixa para
amanhã disse Bob, subimos a nossa montanha, podemos conversar ali em paz.
No dia seguinte,
quando se levantaram, os outros ainda dormiam, Bob deu ordem a um garoto da
mesma idade do Robert, para lhe ensinar a montar a cavalo.
Os dos prepararam
os seus, saíram a galope em direção ao lugar aonde ele o tinha encontrado dias
antes.
Como no dia que
lhe veio trazer a notícia, contou tudo ao Bob, este no final só pode comentar,
grande confusão te hás metido.
Como pensas
resolver tudo isso?
Gostaria de
encontrar meu pai verdadeiro. Tudo isso
na verdade pertence a ele, não a mim. Bob pensa é muito dinheiro, quem sabe o
povo desta região não necessita ajuda.
Eu estive todo
esse tempo, querendo vir para casa, preocupado se as coisas corriam como tinhas
planejado. Ter as rezes novas, mais
perto do celeiro, se as éguas tinham todas sido cruzadas com os garanhões. Essa era minha preocupações. Esse dinheiro pode ajudar, mas uma
pergunta, necessito dele? Creio que
não.
Peter está
ajudando, com as propriedades, mas o resto, me parece que tem mais na Suiça,
metido numa grande demanda.
Se meu verdadeiro
pai esta vivo? Tampouco deve saber que
estou vivo.
Bom de qualquer
maneira Bobby, irei contigo, não vou te deixar nessa aventura sozinho.
Mas quem vai
tomar conta da fazenda?
Boa pergunta?
Quando voltaram, viram
que Robert, estava dando volta, em cima de um cavalo bem manso, usado pelos
cowboys, mais velhos. Sorria de orelha
a orelha.
Já sou quase um
cowboy, mal comentou isso, o cavalo parou, não havia maneira de fazê-lo ir em
frente. Essa tinha sido uma piada dos
outros cowboys, que sabiam que este quando empacava, ninguém o fazia se mover
do lugar. Robert teve que rir também.
Mas quando viu o
cavalo do irmão, ficou alucinado, como é bonito.
Eu o criei desde
que era um potro. Quer ver, desceu do cavalo,
foi caminhando, com o mesmo lhe seguindo. Sabe que vou lhe dar uma cenoura,
enquanto isso posso lhe fazer me seguir quanto queira.
Estava na hora de
almoçar, depois, Peter confirmou, o apartamento que vive tua tia, pertence a
herança. Ela nem paga o condomínio a
meses.
Diga ao advogado
que peça a entrega do mesmo, quero que desocupe imediatamente, minha mãe deve
ter-lhe deixado viver lá.
Quanto ao de
Londres, está alugado, vai tudo para uma conta que tua mãe tinha, ela criou um
fundo com esse dinheiro para os meninos irem a Universidade.
Então fica igual.
Bom Peter,
conversei com Bob, resolvi ir até essas montanhas, procurar meu pai, ele quer
ir junto, mas é impossível, pois alguém tem que cuidar da fazenda.
Mas porque queres
ir até lá?
Imagina que eu
penso que ele está morto, ele deve pensar o mesmo de mim. Depois por mais que eu pense, esse dinheiro
pode ajudar alguma coisa, lá.
Pense bem, não é
justo, esse dinheiro veio desse povo.
Foi literalmente roubado pela minha mãe, eu não preciso dele, essa é a
verdade. Tenho trabalho aqui, sonhos
que realizar pelo que estudei. Claro
num primeiro momento, poderia gastar esse dinheiro montando um haras com os
melhores cavalos do mundo. Prá que, se
gosto dos cavalos selvagens que encontramos soltos por ai as vezes. Sabes montar a cavalo?
Sim, aprendi no
deserto.
Pois amanhã vou
subir com vocês a montanha, veras os rebanhos de cavalos selvagens que temos
soltos em nossas terras, aqui estão protegidos, só capturamos alguns,
principalmente quando os garanhões começam a disputar as manadas.
Os olhos de
Robert brilhavam, quero ir também.
Acreditas que aguentarei?
Ficaras com a
bunda vermelha, mas aguentarás.
Amanhã coloquem o
relógio para despertar as 4 da manhã, tomar banho, se abriguem, pois, vai estar
frio, tomamos café, partimos em seguida.
Anne, disse que
ficava com a avó, que não pensava andar a cavalo.
Tiveram que parar
algumas vezes, a primeira foi no seu lugar predileto, Robert ficou extasiado,
caramba é mais bonito do que a foto que me mostraste.
Quando finalmente
chegaram aonde estava a cabana, já era mais de 2 horas da tarde. Peter perguntou se tudo isso pertencia a
fazenda.
Sim é muito mais.
Foram recebidos pelos trabalhadores, alguns estavam aproveitando para trocar de
montaria, um deles o chamou, porque o seu cavalo, estava com um problema na
pata. Imediatamente Bob foi dar uma
olhada.
Essa é nossa
vida, quer coisa melhor que isso.
O cheiro que
vinha da cabana era fantástico. Peter
ficou abismado, a grande cabana, era como se fosse um loft imenso, com uma
cozinha, na frente um salão com uma lareira imensa de pedra, depois era um sem
fim de beliches. O senhor que estava
cozinhando, disse qual beliche estavam vazios, para o Peter e o Robert.
A única coisa que
era fechada, era um banheiro imenso, com chuveiros, uma zona para as
necessidades.
Embora, explicava
Bob ao Peter, se estas no meio de um trabalho, não voltas para cagar, desces do
cavalo, te apanhas.
Iam sair para ver
a manada de cavalos, mas se via que Robert estava arrebentado, foram examinar
as vacas que estavam por parir, num celeiro grande que ficava ao lado da
cabana.
Nasceram dois
essa tarde, Robert tinha visto num filme, mas assim ao vivo era diferente.
A noite caia
cedo, havia jogos de cartas, alguns escreviam, Robert deliciou a todos, com uma
guitarra que encontrou, cantando.
Temos um cowboy
novo que canta. Mas tens que apreender
música country, disseram todos.
A guitarra era
minha, lhe ensinei minha música preferida.
O clima era simpático.
No dia seguinte
pela manhã, o cheiro do café, do bacon frito, ovos, um senhor café da manhã,
afinal alguns não voltavam na hora do almoço.
Um dos rapazes
disse aonde tinha visto a manada de cavalos no dia anterior, fiz minhas deduções, os levei comigo. Depois que quase uma hora cavalgando, os
vimos na ravina, mais abaixo da montanha.
Nos deitamos na parte de cima, ficamos vendo o que faziam. Robert não fechava a boca. Não parava de dizer baixinho, que maravilha.
Vês aquele
branco, ele é o chefe da manada, aqueles dois, apontou um baio e outro
manchado, são garanhões jovens, querem disputar a manada com ele, veja como
provocam.
Esses dois os
retiramos, porque o branco continua cobrindo as éguas, depois tem um detalhe, é
sangue puro.
Chegaram mais uns
quantos vaqueiros, combinou com eles quais deviam apartar. Robert queria ir junto.
Calma, eu levei
anos para que Bob permitisse que os acompanhassem, pode ser perigoso.
Eu fico aqui
contigo, explicando como fazem. Era
impressionante o galope dos cavalos, veja o branco como comanda tudo. Ele já
entendeu que não vamos por ele, vai facilitar a coisa, dito e feito,
conseguiram capturar os dois cavalos.
Agora vem a parte
que também é emocionante, domar os mesmos.
Isso veras os rapazes fazendo.
No final do dia, era interessante ver o Robert, sentado na cerca aonde
estavam os dois cavalos, observando o comportamento deles. Conseguiu que o malhado, viesse comer a
cenoura que tinha já a tempo na mão.
Nessa noite
perguntou ao pai, se podia ficar suas férias ali trabalhando?
Tens que
perguntar ao Bob? Mas se ele diz sim, tem que pensar que vais obedece-lo
cegamente.
Fiquei até tarde
conversando com o Peter, como poderíamos fazer tudo.
No terceiro dia
descemos, havia um carro parado na frente da casa. Peter avisou, me parece tua
tia.
Quando eles
chegaram ela desceu do carro, avançou ameaçadora, dizendo que o apartamento era
dela, por ter aguentado a idiota da irmã. Se via que a porta da casa continuava fechada.
Não tinha entrado
para falar com seu pai, nem tampouco com sua mãe.
Cortei direto,
tens algum documento que prova isso?
Não, mas minha
irmã prometeu que seria meu um dia.
Impossível,
porque não estava no nome dela.
Sim, mas se o
marido fosse dado como morto, poderia fazê-lo.
Mas não se sabe,
depois por herança, seja dela ou dele, é meu.
Fui eu quem deu a ordem para isso, porque sei que foste tu que
convenceste minha mãe de me abandonar aqui.
Estava furiosa,
nessa altura, saiu sua mãe, com uma espingarda de dentro da casa, dizendo, já
chamei o xerife, tens cinco minutos para abandonar estas terras.
Sou a filha mais
velha, serão minhas um dia.
Sua safada, isso
espera tu, nunca nada de nós ira para ti.
Perdeste o direito a isso, no dia que fugiste de casa, para ir viver na
boa vida. Volte para ela.
Se abaixou toda
sua pose. Estou falida, nem tenho casa.
Isso é um
problema teu, arrume um emprego é trabalhe, aqui não te queremos.
Nisso chegou o
xerife, era tão louca, que denunciou a própria mãe, dizendo que queriam matá-la. O xerife, se dirigiu a ela falando seu
nome, aqui sabemos lidar com os da tua laia.
Fora daqui melhor, fora da vila também, volte pelo mesmo caminho que vieste.
Não teve outra
coisa que fazer, que subir no carro, se mandar.
Antes se virou
para mim, dizendo que tudo que estava no cofre, deveria ser para ela. Minha
irmã me enganou.
Essa mulher esta
louca, disse Anne, não é a filha que criei, não a quero por aqui.
Sentou-se na
varanda, sua neta correu para ela, segurando sua mão. Puxa avó, nunca imaginei que ela fosse capaz
disso.
Minha filha, ela
é capaz de qualquer coisa. Seu avô
sempre disse, como pudemos criar uma víbora dentro de casa.
Peter comentou,
imagina a quantidade de dinheiro que ganhou, com todos os divórcios que teve, o
último, ficou viúva, mas o sujeito era esperto, deixou tudo para seus
filhos. Sempre viveu acima do que
podia. Por isso está arruinada.
O xerife mandou
um carro a acompanhar até o limite da vila, para que ela fosse realmente
embora.
Perguntei pelo
nosso avô?
Está sentado na
sala, diz que nunca teve filhas, teve netos, seu único filho é o Bob.
A velha contou,
que seu marido tinha encontrado o Bob, tempos depois que as filhas tinham ido
embora, sentado numa calçada da vila, procurando emprego. Tinha creio que 18
anos, veio para cá, ajudou meu marido em tudo que foi possível. Sempre se comportou bem, por isso hoje é o
capataz. Quando elas trouxeram o Bobby,
sequer pensaram que estávamos velhos demais para criar uma criança. Por isso Maria pediu se podia cria-lo como
seu filho.
Veja o resultado,
um rapaz brilhante. O avô de vocês pode
ser duro, mas sabe que suas filhas não mereciam nada.
Agora Anne estava
agarrada com a avô, nunca tinha tido amor real de mãe, nela encontrava agora
uma pessoa, que apesar da idade podia falar de tudo.
A avô lhe contou
o que sentia também, como podia ter gerado duas filhas, irreconhecíveis para
ela. Depois que foram embora, nenhuma
carta, nenhuma linha, ou chamada telefônica. Tampouco quando trouxeram o Bobby,
o descarregaram na porta como se fosse uma embalagem, um produto que ninguém
quer. Menos mal que Maria o queria. Seu avô ficou furioso, queria denunciar as
duas por abandono de uma criança. Mas
lhe fiz ver, como essa criança ia ser criada por alguém que não a queria.
Peter tinha
falado outra vez com o advogado, esse a conhecia bem, tinha mandado trocar as
fechaduras do apartamento, pois ela tinha tentado entrar.
Foi um escândalo,
com direito a polícia. Fiquem atentos,
pois ela pode tentar qualquer coisa.
Meu avô podia ser
um velho de fazenda, mas era esperto, não era a toa que tinha tantas terras.
Chamou seu
advogado, o juiz do condado era seu amigo.
Resolveu com eles, se podia em vida, passar suas propriedades para seus
herdeiros. Tinha uma lei que permitia
isso. Nos chamou a todos, claro como
sempre, para nos prevenirmos, que Beth minha mulher fique tranquila, resolvi
fazer um adendo no meu testamento. Meus
herdeiros, são o Bob, seu filho Bobby, os meus novos netos. Bob tem cinquenta por cento das terras, Bobby
vinte cinco, os novos outros vinte cinco, mas o usufruto é nosso, ninguém pode
vender nada enquanto formos vivos.
Todos assinaram
de acordo, o advogado deu entrada nos papeis.
Justo dias depois apareceu um advogado, reclamando a parte dela. Havia um documento velho, em que dizia que
tinha sido deserdada por abandono da família.
Não podia fazer nada mais.
Peter voltou a
Washington para preparar nossa viagem. Tinha
tempo suficiente de trabalho para pedir sua aposentadoria. Foi o que fez. Para sua surpresa, o próprio presidente
pediu que continuasse servindo a nação disse que ia pensar. Mas que antes tinha que resolver um fato do
passado que tinha ficado mal resolvido.
Já prevendo problemas, espero contar com sua ajuda para qualquer
emergência.
Para seu pasmo,
uns agentes se acercaram a ele, queriam saber sobre as informações que ele
tinha sobre o meu pai. Compartiram com
ele o que tinham. A tempos atrás,
tinham conseguido informações, viviam todos dentro de covas nas montanhas, as
poucas casas que existiam tinha sido bombardeadas a tempo pelos chineses. Não sabemos realmente quantas pessoas vivem
lá. Acreditamos que alguns guerreiros da
tribo, muitas crianças, algumas mulheres.
Tampouco sabemos como sobrevivem.
Talvez da caça de urso. Antes
criavam umas ovelhas de uma raça diferente, que produz uma lã muito larga. Com
elas faziam tapetes para vender, mas tudo isso foi coisa do passado. Quanto ao chefe do clã, realmente pode ser o
antigo rei, mas não sabemos com certeza.
Falou comigo a
respeito.
Pensei muito no
assunto, lhe perguntei se seria possível traze-los, poderiam habitar os vinte
cinco por cento que eu tinha de terras, que seria muitas para eles. Bob que escutou disse que estava disposto,
temos tantas montanhas sem uso, que essa gente poderia viver por lá.
O velho a
princípio não gostou, mas quando escutou falar das crianças vivendo em covas,
mudou de parecer.
Peter pediu uma
audiência com o Presidente, explicou o assunto.
Acreditamos que não passem de 200 pessoas, temos dinheiro suficiente
para conseguir aviões para traze-los, o problema será como retira-los de lá,
sem que seus vizinhos, ataquem.
O mais fácil
estudando com os espertos, era usarem as bases de Afeganistão, principalmente a
Base militar de Bagran, que seria a menos inconvenientes.
Voltou para a
fazenda, conversaram muito todos os maiores, concordaram com ele, se o governo
aprovava, mas queria que tudo fosse baixo surdina, para não chamar atenção.
Quando
conversaram com o xerife, este disse sem problemas, mesmo os que queiram
desenvolver algum comercio na vila, tudo bem, temos vários locais abandonados,
se há crianças melhor, podemos ter uma escola aqui.
Fui com Peter
para Washington, pois era necessário tirar diamantes do banco, vende-los
colocar o dinheiro no banco, para poder alugar aviões. Ele disse que isso sem problemas, o
comandante da base era seu conhecido, dariam assistência médica quando lá
chegassem.
Quando partiram,
foram justamente para essa base, poderiam ir de helicóptero, justamente até a
parte baixa do vale. Dali seguiriam a
cavalo. Escolheram cavalos resistente,
bem como mais duas montarias, com tenda, alimentos, uma bagagem cheia de
chocolate para as crianças.
Os soldados
estavam treinados para enfiar os cavalos, dentro de um tipo de helicóptero de
transportar muitos soldados, seriam desse tipo que usariam para transportar as
pessoas que quisessem vir com eles. Um engenheiro militar, estudou a zona,
tinham imagens de satélites, qual era a melhor para aplainar, para fazer com
que pousasse esse tipo de helicóptero.
O terreno tem que
ser firme por causa do peso do mesmo.
Quando os
deixaram embaixo no vale, o vento gelado era de penetrar nas roupas especiais
que usavam, mas mantiveram primeiro um
bom galope, para chegar a vertente que subiria para as montanhas.
Tinha pedido ao
Robert, o anel de meu pai, copiei o desenho, numa espécie de bandeira, usava o
mesmo para certificarem de quem eu era.
Quando começamos
a subir, vimos helicópteros chineses sobrevoando, entramos numa espécie de
gruta na encosta, esperamos chegar à noite para seguir, usávamos na cabeça
lanternas, para iluminar o caminho, pois era perigoso. Fomos subindo lentamente, até chegar uma
parte em que encontramos um caminho mais estreito, se via pisadas ligeiras na
neve, fomos seguindo as mesmas, pois
eram as únicas indicações que tínhamos.
No terceiro dia,
estávamos completamente perdidos. Montamos uma tenda, coloquei no alto dela a
bandeira com o símbolo de meu pai. Não
podíamos avançar nessa noite, porque caiu uma nevasca fantástica.
Metidos dentro da
tenda, estávamos quase gelados, o jeito
era escavar a neve, tentar encontrar
gravetos. Quando parou a nevasca, sai,
procurei algo para fazer fogo. Senti ser observado, como quem não quer nada,
tirei as luvas, deixei que meu anel, aparecesse.
Em seguida se
levantaram da neve vários homens. Todos armados até os dentes. O que comandava falava um inglês
hesitante. Perguntou quem eu era?
Lhe disse meu
nome completo, agora finalmente o sabia.
Tinha dificuldade de pronunciar as últimas silabas, mas ele me corrigiu.
Deu ordem para
desmontar a tenda, os cavalos estavam gelados, mas os levaram conosco, nem bem
um quilometro mais acima, entramos numa gruta, que resultou a princípio
estreita, mas ao final imensa. Andamos
horas por dentro da mesma, tinha a sensação que estávamos subindo a montanha. Era como estar numa espiral imensa.
Chegamos finalmente,
a um lugar imenso, cheio de tendas, as crianças se escondiam atrás das mães, os
mais velhos olhavam assustados, para estes estrangeiros.
Saiu um homem da
tenda maior, com a bandeira na mão, falou em inglês, de quem é essa
brincadeira.
Não é uma
brincadeira, expliquei que era o mesmo símbolo do anel do meu pai.
Quem é você?
Mais uma vez
expliquei, vim em busca do meu pai. Não
sei se esta vivo ou morto, mas vim em busca do povo dele.
Teu pai morreu na
revolução.
Então quem é o
homem que aparece nessas fotografias, mostrou o que Peter tinha mostrado para
ele.
Da tenda saiu um
segundo homem. Sou eu, teu tio,
infelizmente meu irmão morreu logo no início da revolução, o único jeito foi
escapar para as montanhas com o que sobrava da nossa família, porque todos que
estão aqui, são tua família. Cada vez
mais fomos subindo a montanha dos nossos antepassados, este lugar é sagrado,
aqui estão enterrados todos nossos antepassados, agora nós estamos aqui,
esperando nosso final.
Mas se realmente
es filho do meu irmão, temos esperança.
Virou-se para os outros falou na língua deles. A profecia se cumpre, nosso Rei, veio nos
resgatar.
Todos se
ajoelharam, o homem primeiro, pegou minha mão, beijou o anel de meu pai.
O levantei pelos
ombros emocionado é o beijei. Não
encontrava minha família, mas encontrava os meus.
Estivemos
conversando muito tempo, Peter distribuiu entre todos viveres, que tínhamos
trazido.
Conversei com meu
tio, mostrei num celular, o lugar que eu tinha a oferecer a eles, foram
passando de mão em mãos pelos velhos, olhavam aturdido.
Peter mostrou no
mapa, o local que teríamos que aplainar para poderem descer os helicópteros.
Creio que muitos
não irão querer ir, aqui é a terra dos nossos antepassados.
Me neguei, olha
essas crianças, precisam de um futuro, teus homens também, lá não vamos
precisar lutar, morrer. Podem viver
bem. Essas terras são minhas. Não falou
nada do dinheiro que existia.
Mas como vamos
chegar lá. Peter com muita paciência
explicou.
Meu tio me levou
para falar com todas as famílias, agora apareciam mais homens armados, deixamos
alguns de vigilância, embora os chineses tenham medo de atacar de noite.
Expliquei tudo
outra vez, teríamos que agir rápido, antes que percebessem que iriamos
embora. Disse tudo que teriam por
lá. Espero que venham viver comigo?
Muitos,
principalmente os mais jovens balançavam a cabeça. As mulheres desconfiavam, mas foi uma
garota, não saberia precisar sua idade, porque estava desnutrida. Pediu para falar, disse que esperavam a
anos o retorno do seu Rei, agora que ele estava ali, para os levarem a uma vida
melhor. Tinham dúvidas. Olhem o que temos, nada. Vivemos junto aos mortos, esperando um Rei
vivo, se nos oferece isso, temos que ir.
Agora todos
balançavam a cabeça.
Disse a eles que
teríamos que trabalhar de noite para não chamar a atenção, teríamos quando
muito três dias. Dormimos o dia inteiro,
de noite, subimos todos os homens que ainda tinham força, ajudados pelos
cavalos, começamos a aplainar o local.
Primeiro o pior, retirar a neve que estava ali. Quando o dia amanheceu, descemos todos.
Abrimos a segunda
alforja do primeiro cavalo, distribuímos, barras de chocolates, que usava o
exército, para terem força. Nessa
noite, as mulheres subiram também, junto com as crianças maiores, todos
participavam. Peter ia pressionando a
terra, para ver o quanto podia aguentar, tirou as medidas que os helicópteros necessitavam.
Falou pela primeira vez com a base, por celular de satélite, disse
quantas pessoas iriam. Nessa noite, as
mulheres, pediram se podiam levar suas ovelhas,
nos levaram até elas, tinham vivido todo esse tempo do leite delas, não
as podiam deixar para trás. As mais
velhas queriam levar seus telares, bem como os tapetes que tinham. Peter saiu até a entrada da cova, falou que
necessitavam de mais viagens, um avião extra de transporte, não disse para
que. Subimos outra vez, desta ele
plantou um sistema de sinalização no chão, duas horas depois, apareceu o
primeiro helicóptero.
Levou metade das
crianças pequenas, suas mães, avôs. Voltariam
mais dois helicópteros logo em seguida, tínhamos que sermos rápidos. Ainda faltaria uma viagem, com os últimos
homens que subiriam pelo interior da montanha.
Ficamos Peter, meu tio, para ajudar a esses homens embarcar ovelhas, os
cavalos iriamos soltar, sabia que eles desceriam sozinhos a montanha.
Quando estávamos
já na última ovelha, pois era necessário pega-las nos braços, fomos avisados
que iriam se aproximando dois pequenos helicópteros chineses de
exploração.
No, voo, Peter
foi explicando ao meu tio, que os homens deveriam deixar todas as armas para
trás, para embarcarem nos aviões. Ele
disse que essas armas eram como seus braços.
Lhe disse que não se preocupasse , que na fazenda, teriam armas para
caçar.
Alguns olhavam
desconfiados, mas quando aterrissamos, o comandante esperava Peter, nos levou
até aonde estavam todos, sorriam felizes, pois assim que tinham chegado, lhes
deram comida quente, os médicos estavam atendendo a todos, dando vacinas nas
crianças.
Os aviões já
estavam esperando, foi difícil fazer a maioria subir, eu ao lado de meu tio, os
ia convencendo, já tinha aprendido as palavras certas. A maioria, fazia questão de beijar minha mão. Não queria, mas meu tio, disse que isso era
um costume, que depois, eu resolveria como me tratariam.
Teríamos que
parar numa base americana na Alemanha, para reabastecer. As ovelhas deram
trabalho para subir, mas conseguimos junto com um exemplar de telar que elas
usavam, lá mandaríamos fazer mais.
Na Alemanha,
subiram a bordo do transportador de ovelhas, uma quantidade de veterinários,
para dar vacinas aos animais.
Paramos em
Washington, o Presidente fez questão,
apesar de ser de madrugada, vir nos felicitar.
Peter me apresentou como sendo o Rei dessa gente, mas americano ao mesmo
tempo.
Tudo que me
disse, foi, espero que cuides bem desses novos cidadãos americanos.
A Peter, que o
estava esperando, quando pudesse.
Quando chegamos
ao aeroporto mais próximo da vila, lá estavam uma serie de caminhões esperando
pela gente, meu avô tinha mobilizado todos os vizinhos, além de ter alugado
alguns.
Robert, Bob,
Maria, lá estavam. Num dos hangares, tinham montado um rancho de comida para
todos, carnes, batatas, tortas de miúdos, comeram até se fartar.
Alguns estavam
preocupados se eram mulçumanos, mas meu tio disse que não, eram católicos
Maronitas. Isso pareceu tranquilizar as
pessoas da vila.
Quando chegamos a
fazenda, viram os cavalos, desceram as ovelhas para um cercado, os veterinários
do exército tinham vindo juntos, para evitar qualquer problema. Um deles me disse que essas ovelhas eram
especiais, pois aguentava uma vida dura.
Se darão bem no alto das montanhas.
Tinham mandado a
pedido do Peter, uma serie de tendas militares,
com camas, para acomodar o
pessoal, bem como um sistema para que pudessem tomar banho. Médicos, para examinarem o pessoal.
As mulheres da
redondeza, diziam que parecia quando estavam de feira anual, pois não paravam
de fazer comida.
Não sei como meu
avô, sempre tão fechado, se sentava com os outros velhos, falavam, cada um em
sua língua, pareciam se entender.
Dias depois com
tudo acomodado, subimos com meu tio, seus homens, para escolhermos as terras
que poderiam viver. No alto da montanha,
olhavam tudo maravilhado. De noite na
cabana, disse ao meu tio, que podíamos pedir casas de madeira, como as da
cabana, que o tinha encantado, pré-fabricadas.
Demorou para entender.
O primeiro
argumento, foi que não tinha dinheiro.
Só então contei o que havia no banco, toda as joias da família, bem como
diamantes que eram do meu pai.
Argumento que um
rei como eu, tinha que ter dinheiro para mostrar poder.
Tive que ser
objetivo. Meu tio, eu não sou rei de
nada, passei esses anos todos, na total ignorância da minha família. Nem sabia que vocês existiam. Aqui sou como um a mais, lhe expliquei o que
era um Cowboy, ele tinha visto quando jovem no cinema.
Temos cavalos
para todos, expliquei o que fazíamos, no verão subíamos os cavalos, todos os
animais, para os pastos de cima, se plantava os pastos de baixo para o inverno.
Isso Bob que parecia se entender bem com ele, pois era aceito como um deles, os
ensinaria.
Quando a poeira
se assentou, começaram a chegar as
cabanas, os homens ajudavam a instalar as chaminés, que eram à parte. As primeiras famílias começaram a subir. Iriamos fazer uma estrada, para que as
crianças pudessem ir a escola. Um motivo
urgente, eles aprenderiam inglês mais fácil que os mais velhos. Alguns queriam viver na vila, ter algum
comercio.
Encomendei que se
fizessem mais telares, logo as mulheres começaram a trabalhar, podia, tirar a
lã das ovelhas, lavavam nos córregos da montanha, depois a cardavam, algumas
ficavam lá em cima, porque era um hábito as mulheres sempre estarem
tecendo. Logo algumas mulheres da vila
se interessaram começaram a trabalhar juntas.
O padre da
igreja, se ausentou um tempo, ficamos preocupados, mas voltou com um
companheiro, um padre maronita, que descobriu sabe se lá aonde, rezavam a missa
juntos.
Nos domingos,
desciam todos a vila, para a missa. As
crianças já falavam inglês. Tínhamos conseguido um médico, fixo agora na vila,
atendia o desenvolvimento dessas crianças que tinham chegado desnutridas. Já ganhavam dinheiro.
Bob tinha ensinado
aos homens cuidar dos animais. Quando os
levei para observarem os cavalos selvagens, sabia que tinha que usar os
argumentos que tinha. Eram cavalos do
Rei, só podiam ser separados da manada, com minha ordem.
Os tinha proibido
de beijar o meu anel, afinal, era um deles.
Sempre que estava nas montanhas, ia comer na casa de algum deles. Mas
exigia que se comportassem como se eu fosse mais um deles. Meu tio se casou com uma mulher que estava
viúva na vila, segundo ele amor a primeira vista. Esta o domesticou, ensinou que tinha que
tomar banhos todos os dias, os hábitos de higiene. Ensinou as outras mulheres, era respeitada,
porque era mulher de um chefe tribal.
O que gostava meu
avô, é que alguns velhos não tinham subido, gostavam da vida ali embaixo, fazia
menos frio. Diziam que os ossos eram
velhos, que precisavam de calor. Assim
ele tinha com quem conversar. Tinha
aprendido a língua deles.
Comecei a estudar
com o Bob a possibilidade de lhe dar as terras aonde trabalhavam cada família
em propriedade. Este concordou, nunca conseguiremos ocupar tudo.
Um dia que estava
com os da minha família, vi uma garota linda. Não me lembrava ter visto a mesma
nunca.
Meu tio, me
disse, essa era a garota que conseguiu convencer a todos. Agora não estava mais subnutrida. Tinha
crescido um pouco, já montava a cavalo, como as outras mulheres, cuidava de
suas próprias ovelhas. Ele me explicou
que isso faziam as mulheres para terem um dote, era um costume antigo, das
montanhas.
Alguns anos
depois me casei com ela. Foi uma festa incrível. Trouxe uma pequena coroa do
banco para que ela usasse no casamento. Agora seria a minha rainha.
Meu avô acabou
morrendo com mais de cem anos, minha avó, ficou perdida algum tempo, mas as
outras mulheres da sua idade lhe faziam companhia. Tem agora noventa e cinco.
Disse que não vai morrer até ter seus bisnetos.
Robert, foi
estudar agronomia na mesma universidade.
Anne mudou completamente de postura, acabou casando anos depois com um
dos homens mais jovens que tinham vindo.
Quando Peter
finalmente se livrou dos seus compromissos, juntos, montamos uma fundação, para
administrar o dinheiro que tínhamos, para que futuramente esses jovens pudessem
ir a uma universidade. Não necessitávamos de coroas, ou joias, precisávamos dar
futuro.
Minha mulher, foi
a universidade mesmo gravida. Dava aulas
as crianças para que não se esquecessem de sua língua de sua raça.
Conseguimos,
vender o apartamento de Nova York, Paris, como agora eu era oficialmente o
herdeiro, o dinheiro que estava na Suiça.
Isso tudo fazia o fundo para o futuro.
Todos agora tinham cidadania americana.
Em suas casas falavam sua língua, eu mesmo tinha aprendido, só falava
com eles nessa língua.
Ah as ovelhas, se
multiplicaram, agora são um imenso rebanho, que anda solto pelas
montanhas. Vivem sempre na parte mais
alta, necessitam do frio para viver.
Na época de serem
tosadas, na primavera, no final fazemos uma festa, virou nossa festa popular, a
realizamos na vila. As senhoras
aproveitam para venderem seus tapetes, oferecerem as comidas típicas que
recuperaram das senhoras maiores. Inclusive
existia um restaurante.
O padre maronita,
se dedicava a atender a todos, junto com seu eterno companheiro. Formavam uma
dupla interessante.
Bom de minha tia,
só soubemos dela anos depois, através de um escândalo em Washington, era uma
madame que controlava garotas de companhia.
Foi presa por tentar chantagear um Senador. Em resumo, continuava a mesma.
Eu de não ter
família nenhuma, agora tinha uma família imensa, era a minha tribu.